educação sexual

CATECISMO

O recato era uma virtude em degradê, que começava no México e se dissolvia na Argentina
Imagem Catecismo

9 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

O colégio ficava ao lado do Jardim Botânico. Às vezes, Dalia, eu e outras colegas da turma atravessávamos uma cerca de arame farpado e entrávamos no parque. Para quê? Para fumar, beber, tirar o uniforme e bronzear as pernas. Só que não pegávamos muito sol, porque justo na parte encostada ao colégio o céu ficava coberto pelas ramagens das árvores – milhões de minúsculas folhas verdes que tremiam como insetos. Mas de quando em quando batia um vento que as desgrudava, e então éramos banhadas por uma luz intensa, como se Deus em pessoa tivesse aberto a torneira universal dos fótons para nos batizar de novo.

Dávamos essas escapadas no segundo recreio, quando as professoras se trancavam em suas salas a pretexto de corrigir provas, mas na verdade iam tirar um cochilo: isso era óbvio, porque depois apareciam todas remelentas e com o coque – que devia ser sempre bem repuxado e com brilhantina – desfeito.

Numa tarde do início de abril, Dalia, Marcela, Karina e eu escapulimos para o Jardim Botânico. Entramos pelo lugar de sempre, mas seguimos até uma clareira na mata onde havia um olho-d’água. Num canto ficava uma pequena gruta, e na gruta uma Nossa Senhora enfeitada com flores apodrecidas e um ninho de larvas de moscas. Ainda faltava quase um mês para maio, ninguém tinha se dado ao trabalho de trocar as flores. Karina se apressou a limpar a grutinha: Karina era muito mariana, tinha convencido todo mundo de que a Virgem falava com ela em sonhos e lhe dava instruções sobre como se comportar diante de conflitos morais. Já estávamos cansadas de escutar seus dilemas, que às vezes eram coisas tão bobas como se devia ou não beliscar seus irmãozinhos na nuca – como se fossem cachorros ariscos – ou lhes falar com jeito – como se fossem seres humanos em saudável crescimento. Karina sabia ser cansativa, e a Virgem era sua muleta, seu recurso desesperado, seu amuleto retórico, seu dildo.

Marcela, Dalia e eu nos deitamos na grama e acendemos um Belmont mentolado, porque deixava um cheiro menos forte que o Marlboro. Nunca mais fumei depois que terminei o colégio, mas naquela época acender um cigarro era um subterfúgio da rebeldia contida no corpo, sem muitas chances de extravasar. Fumar era como dizer: eu dou uma tragada neste veneno e o devolvo ao mundo, porque ele merece.

Marcela estava tentando provar que a música Angel, do Aerosmith, tinha um monte de mensagens subliminares, mas estava com dificuldade para virar o refrão do avesso e cantá-lo de trás para frente.

Quando Karina acabou de arrumar a Virgem, veio se sentar toda retinha, como ela sempre se sentava, com as pernas cruzadas e sua eterna cara de “não fui eu”. Alisou as pregas da saia com as mãos e disse: “Ontem a Virgem voltou a falar comigo.”

Achei engraçado ela anunciar aquilo como uma grande novidade. Não era. Segundo Karina, a Virgem se comunicava com ela quase todo dia.

“Aposto que foi para falar mal do Steve Tyler”, disse Dalia. Marcela e eu demos risada. Karina fez que não ouviu e continuou: “É que eu tinha perguntado para ela o que devia fazer com o Gordo Arias.” Enquanto falava, ela descascava o esmalte cor-de-rosa das unhas e ia fazendo um montinho na grama. “Ele tem insistido para eu ir com ele para sua ilha, só nós dois, mas acho que, se eu aceitar, depois vou me arrepender…”

“A ilha do Gordo Arias é o paraíso”, disse Marcela, e suspirou.

Era verdade, eu tinha estado lá uma vez: um pedaço de terra com a casa no meio e janelões que de um lado davam para o mar e do outro para um bambuzal. O Gordo Arias tinha namorado meia turma só por ter essa ilha. E um iate chamado Elvira. Elvira era também o nome da mãe dele: uma chilena divorciada e – segundo as outras mães – muito permissiva. Minha mãe atribuía esse detalhe à sua procedência: ela dizia que, quanto mais se descia no continente, mais descaradas eram as mulheres. O recato era uma virtude em degradê, que começava no México e se dissolvia na Argentina. A Colômbia estava estrategicamente localizada no ponto médio.

No ano anterior, o Gordo Arias tinha comemorado seus 18 anos na ilha: foi uma festa descomunal. Começou de manhã e durou o dia inteiro. Dalia e eu voltamos por volta da meia-noite, num barco fretado especialmente para a ocasião. Tínhamos ido com Karina, mas no último momento a perdemos de vista na mata. Naquela época o gordo estava namorando uma garota de uma turma abaixo da nossa: chamava-se Inés e se achava uma rainha. Mas naquele dia ela teve que engolir a humilhação de ver o namorado passar a festa inteira agarrando todas as mulheres com que cruzava: Oi, gordo! Feliz niver, gordo! Vem cá, gordo lindo! O gordo passava a mão numa, dava um chupão em outra e empinava sua garrafa de Old Parr. Numa dessas Inés foi reclamar, mas o gordo a enquadrou com uns tapinhas no rosto. Suaves porém veementes. A garota se encolheu num canto com um copo alto e colorido na mão, e não foi mais vista. Então Karina, que parecia ter estado na moita esperando por seu momento, adquiriu um súbito protagonismo. Saiu pela pista arrastando as sandálias e fez uma reverência ao gordo como se ele fosse o Espírito Santo.

Havia um DJ. Volta e meia, Elvira ia até a mesa pedir músicas que só ela conhecia. Acho que o momento mais perturbador da festa foi quando Elvira dançou com o filho uma espécie de cúmbia[1] eletrônica que os obrigava a se esfregar de costas, subindo e descendo com um movimento dos quadris que lembrava um redemoinho. Mas isso que Dalia e eu achamos um escândalo, os demais convidados, inclusive Karina, acharam engraçado. Batiam palmas. Riam até engasgar. Elogiavam o gordo que, na pista, era um ímã para as mulheres. E fora da pista? Também. Qual era seu atrativo? Honestamente, eu nunca soube. Nunca namoramos, eu não me encaixava em seu estrato social. Além disso, a única vez que ele me abordou, naquela mesma noite da festa, desviei e lhe virei as costas.

“Que foi?”, gritou. “Eu cheiro mal?”

Então me agarrou pelo braço e se plantou na minha frente, barrando meu caminho. De fato, ele cheirava muito mal.

“Não podemos conversar?”, insistiu. A língua enrolada, o bafo podre, o rosto lambuzado de suor como um porco na manteiga.

Respondi que não. E ele perguntou por quê.

Pensei um pouco na resposta. Tentei apelar a um resto de diplomacia, avaliando, claro, as possibilidades daquela mansão no meio do mar do Caribe e do iate Elvira, com seu piso de tábua corrida e suas poltronas macias forradas de veludo. Considerando as vantagens de ter um amigo desagradável mas rico, que de certo modo suprisse a absoluta falta de cavalheirismo e beleza com passeios náuticos para mim e minhas amigas, respondi:

“Porque falar com você é como enfiar a cabeça num balde de merda.”

E nunca mais me convidaram para ir à ilha.

“Já fizemos algumas coisas, mas não tudo.” Karina continuava sua história, embora ninguém estivesse prestando muita atenção no que ela dizia. “Ele sabe que eu acredito na virgindade e me respeita, mas é tudo tão bom que virou um sacrifício muito difícil.”

“E o que é que a Virgem te falou?”, perguntei.

Karina balbuciou alguma coisa que não entendi. Depois limpou a garganta, como se fosse falar, mas não falou.

“O que ela te falou?”, insisti.

Gente cheia de mistérios sempre me deu nos nervos. Era óbvio que ela ia contar, era óbvio que estava louca para contar, mas queria que implorássemos.

“Bom”, respirou fundo: “Ela falou que a virgindade é muito importante, mas que isso não quer dizer que a gente não possa fazer outras coisas.”

“Bah!”, disse Dalia. “No dia que ela te falar alguma novidade…”

“É, sim”, disse Marcela. “Isso aí eu ouço até da minha mãe, que de virgem não tem nem a lembrança.”

“Sua mãe te diz isso?”, perguntou Dalia.

“Não.” Marcela deu uma tragada no Belmont e respondeu com a fumaça na garganta. “É modo de dizer.”

“… E ela também me falou”, Karina continuava, “que o que devemos salvaguardar é o hímen, mas que há outras partes do corpo por onde a gente pode fazer amor.”

Ficamos todas mudas. Eu não sabia se tinha entendido direito. Acho que Dalia e Marcela também não.

“Ela falou salvaguardar?”, perguntei logo depois, para romper o silêncio. Mas também por achar que, por mais que fosse tudo invenção dela, a Virgem nunca poderia ter falado daquele jeito.

Karina encolheu os ombros. Era sua vez de fumar, deu uma longa tragada e em seguida soprou. Seu rosto se escondeu atrás da cortina de fumaça.

“Falou. Não sei. Não me lembro.”

A Virgem tinha dito a Karina que ela podia dar o cu para o Gordo Arias. Mais tarde, por telefone, Dalia me confirmou que era isso mesmo. Ela está louca, falei. E Dalia me disse que não era a primeira vez que o Gordo Arias fazia essa proposta para as meninas. Algumas tinham lhe contado: aquelas que se recusaram a dar, porque acharam que fazer aquilo não só era pecado, mas uma nojeira. O Gordo Arias insistia que não era pecado e sempre levava um catecismo com uma citação de santo Ambrósio, sublinhada, que falava da virtude da castidade: “Existem três formas da virtude da castidade: uma, das esposas, chamada fidelidade; outra, das viúvas, chamada luto; a terceira, e mais importante: a virgindade…”, e daí pulava, com uma seta na margem, para a definição da virgindade como “a qualidade de possuir o hímen intacto, e não o hímen perfurado”. Definição que ele depois interpretava assim: a única coisa que deve permanecer intacta é o hímen, todo o resto está liberado, é um presente abençoado de Deus Nosso Senhor. E vamos desprezar um presente de Deus? O corpo deve ser usado para agradar a Ele, para lhe dizer: Obrigado, Jesus Cristo, dedico-te a bênção de me arregaçarem a bunda.

O Gordo Arias era como um daqueles psicopatas que catequizavam de porta em porta com um livrinho anotado e morais forjadas. Ele devia ter convencido Karina, talvez até já tivessem feito aquilo, e por isso ela andava por aí contando essa história da Virgem.

A imagem de Karina em posição submissa com aquele saco de banha encaixado no lombo como uma carapaça me revirou o estômago.

“Eca”, falei para Dalia, “esse cara é doente.”

“Mas a teoria dele tem fundamento.”

“Pode ser”, respondi. Mas pensei que se a gente se pusesse a juntar frases soltas do catecismo qualquer teoria podia ter fundamento. E entendi que era para isso que o catecismo servia. Os mistérios mais turvos – a Santíssima Trindade, a gravidez de Maria, o Santo Graal… – se esclareciam pela intervenção de um bom impostor decidido a obter alguma coisa em troca: uma bolsa de moedas, a graça divina ou o rabo de Karina. Dava na mesma.

* – Este é o segundo capítulo das memórias sexuais da escritora colombiana. Para ler o primeiro, clique aquipiauí publicará a série até agosto.

[1] Música típica da Colômbia, derivada de danças africanas trazidas pelos escravos. A dança, muito sensual, espalhou-se por toda a América Latina.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


É escritora colombiana radicada em Buenos Aires, autora de Usted Está Aquí, publicado pela Montacerdos