educação sexual
Margarita García Robayo Mar 2016 15h25
9 min de leitura
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“Assim como no restante da fauna, também nas meninas a umidade atrai porcarias…” Olga Luz percorria a classe inteira e fixava os olhos num ponto invisível acima de nossas cabeças. “Estamos falando de qualquer tipo de umidade?” Tinha o vício de perguntar a si mesma e ela mesma responder. “Sim. O suor também?” Balançava a cabeça em sinal de dúvida, as mãos entrelaçadas sobre a barriga. “O suor também, mas principalmente aquela outra umidade.”
Dalia e eu vivíamos escrevendo bilhetes uma para a outra em nossos cadernos, e Olga Luz nunca percebia. Mas não falávamos, porque Olga Luz era muito sensível aos sussurros, tinha o ouvido treinado: estava na cara que passava horas escutando atrás das portas. [1]
“Esfregar não ajuda, muito pelo contrário. Por exemplo: se, dançando com um rapazinho, vocês se molharem naquela parte, e o rapazinho também se molhar na parte dele, é bem provável que um bicho escape da umidade dele e grude na saia de vocês, e daí na calcinha úmida; e daí para dentro, como um peixe que, depois de sofrer num ambiente inóspito, volta para o mar. Para seu hábitat. E por mais que, dito assim, possa parecer que um peixe no mar é a coisa mais natural e inofensiva do mundo, às vezes não é: certos peixes empesteiam o mar.”
Olga Luz usava uma saia que chegava até o meio das panturrilhas. Tinha os tornozelos muito finos para suportar o peso de seu corpo: não era gorda, mas tinha ossos grandes e quadris maciços e cilíndricos. Vista de frente e em pé, me lembrava uma cristaleira de pezinhos tortos que havia na sala da minha avó.
“Sábios anciões do Egito descobriram um método para evitar a umidade nessas zonas de que estamos falando…”
E farás da tua vulva um deserto, escrevi para Dalia no caderno, e Dalia tapou a boca para abafar a risada, mas Olga Luz ouviu e já estava postada na frente dela:
“Qual é a piada, Dalia?”
Dalia limpou a garganta e disse que a metáfora do peixe lhe parecera de muito mau gosto. Por quê? Porque significava aceitar aquele mito sobre o cheiro das partes femininas.
Ninguém riu.
Ou pior, continuou Dalia, era como dar a esse cheiro um fundamento expressamente inventado para justificar aquele mito, como dizer que cheirávamos assim porque temos lá dentro um exército de peixes pródigos que voltaram para o mar. Traçou com os dedos um par de aspas: para seu “hábitat”. E que era a mesma coisa que dizer que cheirávamos assim porque éramos putas.
Ainda estávamos na primeira terça-feira de março, e Dalia já ganhava uma advertência. Para sorte dela, era o último ano do colégio, portanto o único castigo que podiam lhe aplicar era reter seu diploma por um tempo. Sem diploma, ela não poderia entrar na universidade, mas Dalia não queria entrar na universidade: queria botar uma mochila nas costas e descer até a Patagônia e subir de volta e seguir até Mexicali, Baixa Califórnia. Quantas vezes? Várias. Fazia um ano que, dia sim e outro também, ela falava desses planos, tinha voltado das férias com o cabelo estilo rasta, cheirando a ovo podre. Também tinha parado de se depilar e andava de minissaia, como se nada houvesse. Uma noite seu pai foi lá, quando ela estava dormindo, e cortou seus dreads com uma tesourada; de manhã Dalia correu para o cabeleireiro e mandou fazer um corte de menino, tipo tigelinha. Depois comprou um par de óculos sem grau, de aro grosso. Naquele ano, ela teria look de John Lennon.
Olga Luz levou muito a sério o que aconteceu naquela terça-feira. Depois do incidente com Dalia, proibiu em suas aulas qualquer manifestação que não fosse concordar com tudo em silêncio. Você não podia nem pegar um caderno ou uma caneta, não podia cochichar, espirrar ou bocejar, porque Olga Luz já te encarava com aquele olhar atormentado e fazia um risquinho ao lado do seu nome numa lista. Completando três risquinhos, advertência. E as outras meninas se importavam com o diploma, sim. As outras meninas – eu, inclusive – achavam que as mochilas, os dreads e as viagens pela América Latina eram uma invenção de pobres com pretensões a boêmios. Dalia não era pobre, mas fumava maconha, e isso bastava para se sentir boêmia; claro que ela também adorava sua caminhonete com câmbio automático, que tinha umas caixas de som gigantes e escandalosas. Nessa caminhonete tirávamos rachas pela cidade cantando como umas esganadas: And the sky was all violet! Minha mãe odiava Dalia, entre outras coisas, por causa disso: porque toda vez que eu saía com ela, alguém telefonava para lhe dizer que tinha me visto numa caminhonete absurda com os cabelos ao vento e uma garrafa na mão, cantando umas coisas diabólicas.
As professoras também não gostavam dela, e a advertência não foi surpresa para ninguém. A própria Olga Luz tinha dito certa vez que Dalia era o protótipo da maçã podre. Tinha razão: a capacidade de Dalia para atrair e convencer só podia ser coisa do diabo. E ela nem precisava fazer muito esforço, tudo saía naturalmente, como quando, depois do almoço, nos reuníamos no pátio atrás da cozinha – um lugar afastado onde as professoras raramente apareciam, o que fazia dele um point ideal para fumar – e Dalia começava a contar seus sonhos. Porque sonhar era pecado, mas venial – era muito menos grave do que ter maus pensamentos ou desejos impuros estando acordada, todas nós sabíamos disso. Por isso era nos sonhos onde melhor prosperava o veneno que as professoras do colégio nos incutiam na cabeça.
Eu também sonhava, mas raras vezes lembrava de alguma coisa ao acordar. Lembrava, sim, da sensação no corpo: um misto de felicidade e repulsa muito complicado de processar. Dalia dizia que lembrava perfeitamente de cada um de seus sonhos e podia reproduzi-los com precisão. Parece que estou vendo: todas nós jogadas naquele chão de cimento, com o barulho do exaustor da cozinha servindo de trilha sonora para os sonhos molhados de Dalia. Uma vez ela sonhou que seu Tomasito – o homem que limpava os telhados do colégio e as calhas entupidas de folhas e lagartixas – violentava Lucía, uma colega que havia entrado no penúltimo ano e nunca conseguira se enturmar. No sonho, seu Tomasito estava em pé no telhado, de sunga e com uma capa dourada ondulando às suas costas. Todas nós – alunas e professoras – o víamos de baixo, erguido como uma estátua, com as mãos na cintura e os olhos fixos no pinto, que crescia sem parar, até rasgar a sunga. Mas não ficava nisso: o pinto do seu Tomasito descia como uma serpente e começava a nos perseguir; corríamos apavoradas pelos jardins, subíamos nas árvores, berrávamos. Numa dessas, Lucía caía de bruços, mas não se machucava porque, graças a seus peitos – que eram enormes –, ela quicava. Só que nesse pequeno salto o pinto do seu Tomasito a envolvia pela cintura, se enfiava no meio de suas pernas e, créu!, entrava com tudo nela. Parecia terminar aí, mas não; ainda faltava a parte em que o pinto-serpente gigante e veloz do seu Tomasito avançava por dentro de Lucía – ventre, intestinos, estômago, esôfago, garganta – até sair pela boca e, depois de se dobrar e apontar para os peitos – fazendo uma curva extremamente pronunciada –, pá!, disparar. Seu leite não era leite, e sim petróleo bem preto: como ele.
Silêncio total.
Acho que até o rugido do exaustor silenciava nessa hora. Mas, como em tudo, alguém sempre rompia a harmonia dizendo uma obviedade: “Bullshit, você não sonhou isso.”
E Dalia dava risada, orgulhosa de sua invenção desatinada e suja, embora muito mais realista que as de Olga Luz.
Dalia era isso: uma maçã podre.
Também era minha melhor amiga, e só não tinha sido expulsa até então porque se saía bem nos estudos, e porque era órfã de mãe, e porque seu pai era um sujeito importante da cidade: um deputado do partido conservador. Era um homem que andava sempre de camisa de mangas compridas abotoada até o pescoço – Dalia tinha me contado que era para esconder a cicatriz de uma queimadura. Ele não sente calor?, perguntei. E ela me explicou que não, porque, antes de se vestir, seu pai passava talco antisséptico – eu imaginava os caroços pegajosos de talco no peito do sujeito, e tinha nojo até de cumprimentá-lo de longe.
O fato é que, por culpa de Dalia, passamos boa parte do último ano ouvindo os sermões de Olga Luz sobre o valor do hímen e os indizíveis perigos do sêmen. Olga Luz tinha tanto ódio do sêmen que nunca o chamava pelo nome; das poucas vezes que precisou se referir, por exemplo, a uma ejaculação, disse: essa substância que os homens derramam pelo membro. E franziu o nariz como se seu próprio hálito lhe ofendesse o olfato.
Aquelas aulas faziam parte de um projeto experimental que estava sendo testado na minha turma: em vez da disciplina de educação sexual que, desde 1993, era obrigatória em todos os colégios do país, o nosso nos submetia a um curso de castidade importado de Washington, via Medellín. O nome do curso era Teen-Aid. No primeiro dia do Teen-Aid, três anos antes, uma professora siliconada da Antioquia, toda de rosa, começou dizendo que a abstinência era saudável e cool. Falou num tom que beirava o pornô soft. Depois passaram uns vídeos dos pais fundadores do Teen-Aid – um casal ruivo, roliço e sardento – que gritavam na tela um refrão animado: Abstinence is saying yes to the rest of your life! Todo o material didático do curso – muito papel cuchê colorido – era em inglês, porque no meu colégio até as frases da capela eram em inglês – God is watching.
Os exercícios do Teen-Aid eram testes no estilo da Cosmopolitan, simulando situações de risco muito específicas e detalhadas. Alguns vinham com ilustrações alusivas ao ato sexual – uma trilha pontilhada que levava a um precipício vulcânico que expelia vapores corrosivos –, que era precedido por graus de umidade cada vez mais intensos. Como o orvalho rasteiro que vai embaçando a janela numa manhã de inverno, a umidade avançava pelo corpo das meninas até reduzi-las a um par de pernas trêmulas, vulneráveis e atoladas num pântano, que antes de pântano fora charco, e antes cascata, e antes regato, e antes: apenas uma gota lânguida que nascia e morria entre as pernas.
Nojo. A alegoria do tesão adolescente, além de retorcida, era um nojo.
As respostas dos testes se desdobravam em multiple choice que, dependendo da escolha, ia posicionando você num ponto do labirinto psicodélico que acompanhava o exercício: um turbilhão de cores que levava à felicidade ou à infelicidade, conforme o caminho que você seguisse. À infelicidade podia-se chegar por puro acaso. Uma pequena opção à toa podia acabar em catástrofe: aceitar uma cerveja de um sujeito tranquilo e sorridente – um loirinho de olhos verdes, tipo Jason Priestley, digamos – que depois se revelava um depravado que te arrastava para um canto escuro e sussurrava coisas no teu ouvido e fazia você molhar a calcinha e se derramar toda. E das calcinhas molhadas, como todas sabíamos, só saíam bebês bastardos, como esporos do mofo. À felicidade, ao contrário, chegava-se por um caminho unívoco: reto, claro e seco como uma baguete. Era fácil ser feliz.
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[1] Os próximos capítulos serão publicados nas edições subsequentes da piauí.