história pessoal
Josefina Licitra Dez 2017 18h37
19 min de leitura
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Acabo de receber um e-mail de Juan Cruz Ruiz, um dos fundadores do jornal espanhol El País. Há alguns anos, Juan Cruz organizou um livro de entrevistas com escritores no qual teve a gentileza de me incluir, e desde então trocamos mensagens esporádicas. Mas este e-mail não trata – como tantos outros – de temas editoriais. O assunto é “Seu pai”, e diz o seguinte: “Tomando o café da manhã em Pozuelo, fui cumprimentado por uma senhora. E em seguida, por um senhor. O senhor Licitra! Seu pai tem um belo sorriso. Beijos!”
Pozuelo é um município nos arredores de Madri, cidade onde meu pai mora desde que deixou a Argentina, como exilado político, em 1978. A senhora mencionada é a mulher do meu pai. Os dois conhecem Juan Cruz pelos textos do jornal; certamente foram eles que o abordaram.
Afora isso, não posso dizer mais nada. Não sei de mais nada.
A mensagem de Juan Cruz é uma das poucas notícias de meu pai que recebo em anos. Por alguma razão que desconheço – ou que só nestes dias começará a se esboçar –, meu pai, de certo modo, desapareceu. Quando muito, telefona nos aniversários para nos cumprimentar – a mim, sua única filha, ou a meu filho, seu único neto –, com um desconforto palpável que anuncia o fim imediato da ligação. E só em casos especiais é capaz de manter uma conversa que fuja às fórmulas das datas comemorativas. A última ocasião de que me lembro foi em 2016. Sua cachorrinha tinha morrido, e a mulher dele suplicou, pelo WhatsApp, que meu filho e eu ligássemos para consolá-lo. Imaginei que devia ser mesmo uma perda séria, porque a imagem do animal é a única foto que meu pai sempre teve em seu perfil do WhatsApp. Então ligamos. Nessa chamada, meu filho e eu o escutamos falar e chorar durante alguns minutos em que eu me perguntei o que estava acontecendo e se aquela conversa era mesmo real. Depois disso não voltamos a ter maiores contatos.
O e-mail de Juan Cruz, portanto, produz em mim um vazio do tamanho dos milhares de quilômetros que separam a Argentina da Espanha. Demoro três dias para responder a essa mensagem tão simples, tão bem-intencionada.
“Caro Juan Cruz”, digo por fim, “seu e-mail foi uma surpresa. Uma bela surpresa, por vir de você. E estranha, porque já faz muitos anos que não sei quase nada de meu pai, por razões que desconheço. Um dia ele simplesmente parou de me procurar. Muita gente me fala da sua expressão afável. E eu não sei o que dizer. Penso nos ‘desaparecidos que na realidade estão na Europa’, essa frase horrorosa que foi tão repetida durante a ditadura, mas que, no caso do meu pai, é terrivelmente atual – e verdadeira. Um dia ainda vou publicar alguma coisa sobre tudo isso. Um abraço enorme.”
Envio a mensagem, mas não consigo dar o assunto por encerrado. Desde então venho acumulando perguntas. Sobre a imensidão que há entre nós. Sobre o sorriso e o olhar que nos une – somos parecidos –, sobre o laço genético que aproxima o que se distanciou com os anos. Quando foi que meu pai partiu de vez? Em que escaninho da história cabem famílias como a minha, que foram desfiguradas pelo terrorismo de Estado, mas não têm um morto, uma foto em preto e branco para receber as honras do herói? Em que vala de significados repousa nosso passado em comum? Quando e por que meu pai deixou de me amar?
Só posso buscar as respostas se penso que vou escrever sobre o tema. Esse é meu único escudo.
Perguntei infinitas vezes como tinha sido a história. Minha mãe sempre me dava a mesma resposta, mas eu esquecia quase de imediato. Agora tenho um gravador e lhe peço que resuma tudo mais uma vez. Estamos na sala do meu namorado – que tem o mesmo nome do meu pai –, e minha mãe veio fazer uma visita.
As perguntas a pegam de surpresa.
“Não quero que você escreva sobre isso”, diz.
Recorro ao mesmo argumento que eu usava anos atrás, quando trabalhava numa revista de atualidades e queria que os personagens esquivos me dessem uma entrevista: “Se você não me ajudar, vou escrever assim mesmo, mas com erros.”
Essa distância me tranquiliza.
Minha mãe começa a falar.
Ela conheceu meu pai quando tinha 18 anos, em La Plata, a capital da província de Buenos Aires, que na década de 70 abrigava um movimento estudantil particularmente ativo. Foi em La Plata que, em setembro de 1976, ocorreu a chamada “Noite dos Lápis”, uma manifestação de estudantes secundaristas que reivindicavam passe escolar e terminou com o assassinato e o desaparecimento de vários adolescentes. E La Plata teve um dos maiores índices de crimes de Estado da última ditadura militar. Tinha 27 centros clandestinos de detenção e cerca de 800 desaparecidos, entre eles 19 mulheres grávidas.
Nessa cidade, meu pai – primeiro como estudante de arquitetura, depois, de história – militava nos Grupos Marxistas Revolucionarios (GMR), uma organização estudantil ligada à facção vermelha, trotskista, do Partido Revolucionario des los Trabajadores (PRT), que, por sua vez, era o braço político do Ejército Revolucionario del Pueblo (ERP). Já minha mãe estudava psicologia e militava nos Grupos Revolucionarios de Base (GRB), que eram o braço estudantil da Frente Argentino de Liberación (FAL 22), da qual se afastou quando, nas eleições de 1973 – em que não pôde votar porque ainda não tinha completado 18 anos –, o grupo apoiou Héctor Cámpora, o candidato peronista. Aí ela entrou no GMR.
Seja como for, naqueles tempos La Plata era muito pequena, e o mundo estudantil era ainda menor do que aquela cidade minúscula, e meus pais, embora não cursassem a mesma faculdade e, no início, militassem em diferentes facções de esquerda, frequentavam as mesmas assembleias. Lá, minha mãe era das que escutavam, e meu pai era dos que falavam.
“Tinha uma presença forte. Soava convincente e tranquilo. Muitos o chamavam de ‘o avô’, por causa da sua circunspecção, incomum naquela idade”, lembra minha mãe.
“Ele era bonito?” pergunto.
“Era, era bonito.”
“Mas quem não é bonito aos 20 anos?”
Quem diz isso é meu namorado. Minha mãe foi visitá-lo porque ele sofreu um acidente de moto e está engessado. Como tem baixa tolerância à dor, para suportar o mês e meio de recuperação, fuma maconha e toma Rivotril num estado de semi-inconsciência. Agora está largado numa poltrona, mas entra na conversa sem pensar duas vezes quando alguma coisa o surpreende.
“Seu pai era um belo rapaz”, minha mãe insiste.
“Assim como 80% das pessoas com 20 anos”, meu namorado diz.
“Como vocês acabaram juntos?”, pergunto.
“Não lembro, vivíamos no bar da arquitetura. E deve ter sido nessa época que começamos a sair.”
“Você foi a primeira namorada dele?”
“É provável.”
Aos 19 anos, casaram – a condição imposta pelos pais de ambos para morarem juntos –, e, aos 20, eu nasci. Em alguma gaveta há uma foto dos dois durante a gravidez: parecem entregues a uma forma de amor núbil, àquela pureza luminosa e frágil que logo desaparece, assim que a vida apresenta o primeiro de seus infinitos obstáculos.
Essa é a última foto daquela época em que minha mãe parece alegre. Nas subsequentes, no meu primeiro aniversário – nasci em junho de 1975 –, ela está pálida e magra, com o olhar perdido num inferno de cansaço, resignação e medo. O golpe de Estado tinha ocorrido em 24 de março de 1976, três meses antes do aniversário, com fortes consequências no país e na família. Minha mãe tinha reduzido suas atividades de militância por medo de que me acontecesse alguma coisa, mas meu pai continuava participando de reuniões que muitas vezes eram realizadas em casa, já que o lugar onde morávamos era também um local clandestino. Finalmente, em 23 de setembro de 1976, eclodiu o primeiro episódio: o Cholo caiu. Ele era o responsável pela célula a que meus pais pertenciam e o único que sabia onde morávamos. Com medo de que o companheiro, sob tortura, delatasse o lugar, eles deixaram o apartamento em vinte minutos.
Com o tempo, tudo indica que o Cholo – cujo nome eu não sei, e a cuja família jamais pude levar uma flor – nunca abriu a boca. Até hoje continua desaparecido.
Mas naquele momento ninguém podia ter certeza disso, portanto não voltamos para a casa.
De vez em quando penso nesse quadro cotidiano como se fosse um time-lapse. Imagino um lar intacto, pontuado pelas marcas do mundo doméstico – o saco de leite na bancada da cozinha, a louça talvez suja, minhas fraldas de pano recém-lavadas no banheiro –, que vai se deteriorando até se transformar no cemitério da vida que tivemos. Essa casa degradada é uma síntese do nosso percurso. Nós também, de certo modo, começamos a apodrecer. Mas ao ar livre. A não ser na primeira semana, quando ficamos na casa de um parente, durante um mês e meio perambulamos sem casa. Meu pai trabalhava num banco, mas minha mãe e eu passávamos os dias nas praças ou nos ônibus, viajando de um terminal a outro até que a noite chegasse e alguém abrisse a porta e nos oferecesse um lugar para dormir.
Quando essa vida errante completou um mês e meio, minha mãe – com 21 anos – resolveu me levar até o Chaco, uma província do norte da Argentina onde, na época, morava parte da nossa família. Ela precisava de um local para ficar sossegada e sem medo, mas meu pai sentiu essa viagem como um abandono. E pela primeira vez usou uma palavra que repetiria no futuro: falou em “traição”.
Um mês e meio mais tarde já estávamos de volta a Buenos Aires. Meu pai tinha alugado uma quitinete na capital, portanto já tínhamos um lugar onde morar.
Era uma vida austera.
“Toda madrugada seu pai lia os classificados para ver se havia um emprego em La Opinión”, lembra minha mãe, referindo-se ao diário de Jacobo Timerman que foi um divisor de águas no jornalismo argentino. Meu pai não tinha muito interesse em jornalismo, mas sim no processo de impressão: uma mecânica que aperfeiçoa-ria ao longo dos anos até ser dono, como hoje, de uma empresa de comunicação visual em Madri. Pouco depois de se instalar em Buenos Aires, conseguiria um emprego de datilógrafo: com extrema rapidez batia à máquina os textos escritos por outros. Mas no início, como em La Plata, trabalhou como bancário. “Ele era muito responsável e muito esperto, por isso logo queriam promovê-lo; mas aí ele dizia ‘isso não é justo, Fulano está esperando por essa promoção faz muitos anos’, e pedia as contas”, lembra minha mãe. “Não tínhamos o que comer, e ele pedia as contas. Aí começava em outro emprego e, assim que lhe ofereciam uma promoção, ele voltava a pedir as contas, pois queria ser ‘da base’. Comecei a me cansar daquilo, porque vivíamos sem dinheiro. Eu trabalhava num escritório, mas o que ganhávamos mal dava para as despesas. Quando me queixava, ele dizia que eram reivindicações pequeno-burguesas.”
“Ainda se usa a palavra ‘pequeno-burguês’?”, pergunta meu namorado.
“Não”, minha mãe responde.
Naquela época achávamos que a revolução estava a um passo; a experiência cubana tinha nos convencido de que outro mundo era possível”, disse Lucía Topolansky, então senadora no Uruguai – e mulher do ex-presidente Pepe Mujica –, numa das duas entrevistas que fiz com ela nos últimos anos. Eu havia começado um livro – no qual continuo a trabalhar – sobre a vertente feminina dos tupamaros, uma guerrilha predominantemente urbana que fez história, dentro e fora do Uruguai, por causa dos métodos criativos e eficazes que usava na luta pela revolução social nas décadas de 60 e 70. Demorei mais de três anos para entender o que me levou a escrever sobre esse assunto. O principal motivo tem a ver com o fascínio da história: a fuga em massa de presas políticas de uma penitenciária em Montevidéu. Mas as razões profundas foram se revelando com o passar do tempo, quando as leituras e as entrevistas submergiram numa espécie de prospecção arqueológica que expôs ossos próprios.
Escrevo sobre as tupamaras para entender uma época e um gênero, e para entender, por meio de uma história com poucos mortos – muito menos sangrenta e mais suportável que a argentina –, do que eram feitos os cordéis continentais que moveram minha vida familiar. E escrevo sobre as tupamaras, também, para forjar pretextos para ir a Montevidéu, a cidade onde meu pai e eu nos encontrávamos nos verões da minha infância, logo depois do exílio, quando ele vinha da Espanha para me ver, mas por precaução ainda não entrava na Argentina.
Meu pai deixou o país em agosto de 1978.
“Por que ele se exilou?”, pergunto para minha mãe.
“Porque todos os nossos contatos estavam caindo. Se ele ficasse, também acabaríamos caindo, porque dentro da organização ele nunca se negava a nada.”
Em Buenos Aires, enquanto passava do banco para o jornal La Opinión, meu pai continuou a militar, e nossa casa voltou a ser um local visado. Dentro da organização havia uma cláusula implícita que desaconselhava ter armas, mimeógrafo e espaço para reuniões num mesmo lugar. Mas enquanto o resto dos companheiros seguia a recomendação, meu pai não. Nossa casa era gráfica, espaço de reunião e depósito de armas.
“Mas nunca usamos nenhuma”, minha mãe esclarece.
“Vocês guardavam as armas embaixo da minha cama?”, pergunto.
“Ficavam numa caixa embaixo da sua cama.”
“Eram armas de grosso calibre?”, pergunta meu namorado com o vocabulário da mídia – é assim que os delegados que aparecem na televisão falam – e a desinibição da cannabis. Meu namorado faz parte da massa de pessoas bem-intencionadas que na década de 70, por causa da idade e por pertencer a outro tipo de família, ficou fora da luta política. Quando, por exemplo, uma de suas irmãs mais velhas apareceu em casa com a Bíblia Latino-Americana – adotada pelo Movimento de Sacerdotes para o Terceiro Mundo –, o pai, aos gritos, mandou que ela escondesse o livro com o seguinte argumento: “Se você for vista com isso na rua, te matam.”
Sempre me perguntei, diante de exemplos como esse – e da minha própria maternidade –, que tipo de família eu defendo. Porque sinto orgulho da minha, mas o preço desse orgulho é o desgarramento.
“Armas de grosso calibre?”, meu namorado repete.
“Sim”, minha mãe responde.
“Você não ficou com nenhuma?”, continua meu namorado.
Minha mãe o encara.
“Foi uma brincadeira, mãe”, digo.
Digo a todos nós.
Minha mãe está junto à porta de entrada, toda encolhida, chorando. Pergunto o que houve, e ela responde: “Minha mão está doendo.” Olho para a mão dela, que está à altura do meu nariz – agora minha mãe está de pé –, e só vejo os nós dos dedos rachados de lavar roupa. Então intuo algo que não consigo definir: algo como uma mentira. Mas não sei pensar na palavra “mentira”.
Essa é, provavelmente, a primeira lembrança da minha vida. Já relatei a cena infinitas vezes para minha mãe, e deduzimos que deve ser de 1977 ou 1978, e que tem uma explicação. Todas as noites meu pai voltava de madrugada do seu trabalho em La Opinión. Mas como ele também militava – principalmente, militava –, minha mãe ficava com a orelha pregada à porta, à espera de algum ruído confirmando que meu pai já tinha entrado no prédio.
Àquela altura, muitos amigos já haviam caído. Alicia, a melhor amiga da minha mãe, tinha sido metralhada pela polícia, grávida de oito meses. E Daniel Mendiburu Eliçabe, irmão de Cali e Marcelo, com quem meu pai almoçava quase todos os domingos desde o tempo do colégio, tinha sido encontrado numa gráfica clandestina que foi explodida com um arsenal respeitável de metralhadoras, morteiros, bombas de fósforo e um tanque, numa das ações mais sangrentas realizadas durante a ditadura.
Os exemplos de casos de amigos assassinados seguem e não param de vir à minha cabeça, que se enche de mortos. Em meio a todos eles, penso em mim.
“Ele gostava de mim? Quero dizer, meu pai tinha tempo de gostar de mim?”
Minha mãe fecha os olhos lentamente, como se precisasse de alguma escuridão própria para, enfim, revelar uma imagem. “Teu pai te adorava”, responde, já de olhos abertos, “e você tinha paixão por ele. Era muito carinhoso e tinha uma postura de gênero bem rara naquele tempo: trocava as fraldas, dava banho, levava você aos encontros com os companheiros nos bares. Você adorava ir aos bares com ele. Quando seu pai foi embora, ele sofreu muito com o distanciamento.”
“O que me disseram quando ele foi embora?”
“Não lembro.”
“Eu chorei?”
“Também não lembro. Mas lembro de duas coisas. A primeira, que no dia seguinte à partida dele, você parou de fazer xixi na cama. A segunda, que o seu temperamento mudou. Você era uma menina muito alegre. Isso também desapareceu.”
Quando eu era pequena, costumava falar do passado com a minha mãe numa das nossas principais sessões de “conversa séria”, logo antes de ir para a cama. Morávamos num apartamento pequeno e luminoso que ela havia comprado depois do longo processo de divórcio. Aí eu fazia perguntas, ela respondia, e eu esquecia tudo quase de imediato.
“Por que nós não fomos com ele?”, devo ter perguntado na época. E volto a perguntar agora.
“Porque eu não quis. Tinha pedido a ele que pelo menos fôssemos para a Venezuela, para continuar no continente. Mas a ordem da organização era ir para a Espanha. Ele era casado com a orga, tudo dependia das conversas com a orga. Quando ele foi embora, a ideia era que nós nos reuníssemos poucos meses depois. Mas assim que ele viajou e eu senti alívio por viver livre dos desígnios da orga, pensei ‘Não vamos’. E escrevi uma carta. Então ele me pediu para ir mesmo que vivêssemos separados, porque queria ver você crescer. Mas eu também não quis. Senti que era um salto no abismo. Estava com 23 anos, exausta, e não tive coragem de tentar a sorte na Europa com uma filha pequena e um ex-marido. Eu me sinto responsável por isso. Aí seu pai voltou a falar em ‘traição’.”
Dez anos atrás, escrevi um texto chamado “Traicioneros por naturaleza”, traidores por natureza, para uma revista que já não existe, cujo nome, por uma curiosa ironia familiar, era La Mujer de Mi Vida. Nele eu contava uma história pessoal, hoje irrelevante, e ligava a ideia de traição ao ofício jornalístico. Dizia – e continuo a sustentar – que às vezes, para ser fiel a uma história, à verdade intrínseca que se oculta numa pessoa ou num tema, é preciso trair seus protagonistas. Que não se deve dizer a eles o que eles querem que se diga – isso seria propaganda –, mas aquilo que se considera ser verdade.
Volto a pensar nisso agora, ao escrever este artigo. Minha mãe sabe que eu estou trabalhando nele, mas não minha avó, a mãe do meu pai, quando almoçamos juntas e ela disse: “Seu pai está mal da cabeça.”
“Ele me liga todo dia, está obcecado em saber se estou bem”, acrescenta.
“Ele nunca me liga.”
“Por que você não liga para ele?”
“Liguei para dar os pêsames pela cachorrinha, acho que já basta.”
“Tem razão.”
Minha avó fica em silêncio, come sua omelete. Pensa um pouco.
“Acho que o kirchnerismo enlouqueceu seu pai de vez”, conclui.
Meu pai apoiou de forma incondicional os presidentes Néstor e Cristina Kirchner, que redimiram como nenhum outro a dor e a épica dos desaparecimentos dos anos 70. A retórica militante foi fundamental no processo de legitimação política do casal K – cada vez mais questionado por suas intervenções populistas e suas manobras corruptas – e foi o ingrediente que fez de meu pai, entre muitos outros, uma espécie de soldado alistado às fileiras de um governo que deu um sentido heroico àquilo que até então havia sido pura desgraça. Meu pai, sempre da Espanha – porque mesmo depois da redemocratização ele só voltou ao país de visita –, defendia os Kirchner com uma veemência que, nos últimos anos, abriu fossos familiares semelhantes ao grande fosso nacional que dividiu o país. Por isso, intuitivamente, a família decidiu fazer o mesmo que se fez em muitas outras casas: não falar de política.
Em relação a meu pai, isso não acarretou uma grande mudança. Já quase não existia diálogo entre nós. Com o passar dos anos, à medida que fui crescendo e me afastando daquela imagem infantil que lembrava nossa vida em comum, meu pai foi aprofundando a distância. Nunca me ligou durante a gravidez e só conheceu meu filho, seu neto, quando o menino tinha 2 anos, no velório de seu pai, meu avô, que ao morrer conseguiu nos aproximar. E fez um silêncio de reprovação cada vez que eu, diferentemente dos cachorros – sempre fiéis –, com grande dor terminava uma relação estável.
A última vez foi em 2015. Fazia quase dois anos que eu namorava um kirchnerista. Conseguíamos nos entender apesar das diferenças políticas, até que Daniel Scioli, o candidato de Cristina Kirchner, perdeu a eleição para Mauricio Macri, e o kirchnerismo inesperadamente se viu obrigado a abandonar o poder. A partir daí meu parceiro radicalizou seu discurso e, em nome da política, começou a destilar um veneno que devia ter outras origens. Uma noite falou em “ditadura macrista”; referiu-se a uns parentes meus – que o haviam recebido de braços abertos, mas tinham votado em Macri –, como “traidores”; disse de um grande amigo meu, antikirchnerista e ativista gay, que ele era “um veado de merda ingrato, que só conseguiu casar graças à Cristina” – isso porque durante o governo dela foi aprovada a Lei do Casamento Igualitário, pela qual meu amigo tinha lutado por mais de uma década –; e coroou essas bravatas ideológicas com uma ameaça real: teve um surto de violência em seu apartamento que me fez sentir insegura.
Dessa vez me limitei a um silêncio longo e submisso, apenas pensando sair de lá o mais rápido possível. Estava apavorada. Passados poucos dias, rompi com ele. Poucos dias depois, também, liguei para o meu pai e disse:
“Tive medo de que ele me jogasse pela sacada.”
Do outro lado, no entanto, apenas mais um silêncio.
Depois os telefonemas se espaçaram até que deixamos de nos falar. Imagino que meu pai decidiu mais uma vez reorganizar seus apoios.
Porque a traição, afinal, é isso: conforme o ângulo do qual se olha, é mesmo um acachapante gesto de lealdade.
É dezembro de 2017 e estou em Montevidéu. Minha avó paterna tem um apartamento em Pocitos, um bairro de classe média-alta, com prédios impecáveis e a poucas quadras da praia. Vim ao Uruguai para a última entrevista que falta para terminar meu livro. E vim, também, para pensar.
O apartamento está vazio – ninguém mora aqui –, mas aparelhado como se fosse um espaço habitado. Há latas e caixas de comida na despensa, há louça nova e completa, há roupa de cama e muitas roupas da minha avó penduradas nos armários. Talvez por isso, quando saio do banho, estranho não achar um secador de cabelo. Isso é impossível no mundo aparelhado da minha avó, portanto começo a procurar em cômodas e guarda-roupas. Estou nessa de revirar os cantos, quando abro uma gaveta em que eu não tinha mexido em nenhuma das minhas viagens anteriores. Dentro há um frisbee de plástico azul, raquetes de frescobol e uma bola de tênis, uma batalha naval, um jogo de xadrez e uma caixa de madeira com pedras coloridas colhidas na praia. São os jogos que eu compartilhava com meu pai no início dos anos 80.
Na época eu não sabia, mas suspeito agora que revejo as poucas fotos daquelas férias: aqueles verões deviam ser angustiantes. Eram lapsos fora do tempo, livres das coordenadas da vida diária, nos quais tentávamos manter um trato cotidiano sem a menor chance de espontaneidade. Por dias a fio olhávamos um para o outro como se fôssemos a encarnação de outra coisa, a representação possível de algo já perdido. E cumpríamos nossos papéis de pai e de filha sem saber – ele com 20 e poucos anos, eu com 5, 6, 7 – em que consistia realmente uma relação filial.
Nesse contexto, jogávamos. Era a melhor coisa – se não a única – que podíamos fazer sem nos machucarmos.
Abro a caixa de batalha naval. O interior da tampa está rabiscado com minha letra, e não entendo muito bem o que está escrito, mas tenho a impressão de que – já desde cedo – estava me queixando que as regras não estavam claras. Pego os pinos de plástico e os encaixo na grade de metal. O gesto apaga a categoria do tempo, e volto a ser quem eu era, e não fica claro qual das duas – a adulta ou a menina – é hoje o fantasma da outra.
“Coisas passadas durante minha infância estão me acontecendo só agora”, diz o poeta Arnaldo Calveyra, e talvez seja disso que se trate: da infância emanando dos objetos e voltando a mim.
Fico assim por alguns minutos. Enfim, deixo o jogo sobre uma cama e saio. Preciso espairecer. Tiro do bolso um baseado do tamanho de um avião. Então caminho até a praia e me sento de frente para o mar. Quando era pequena, meu pai me dizia que olhasse para o céu e escolhesse uma estrela, que mesmo longe ele olharia a mesma estrela, e que com isso iríamos nos encontrar.
Agora observo a linha do horizonte e me perco em sua bruma, e penso se meu pai estará do outro lado.
Como será o horizonte em Madri?
É a última pergunta que me faço. Depois fecho os olhos.