poesia

AMERICANAS

Quatro poemas existenciais
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A poeta americana Louise Glück foi a vencedora do prêmio Nobel de Literatura de 2020. O anúncio foi feito nesta quinta (8 de outubro de 2020) pela Academia Sueca. Glück, de 77 anos, é professora da Universidade Yale, nos Estados Unidos. Não há livros seus traduzidos no Brasil. A piauí publicou em 2018 poemas de quatro americanas, Glück entre elas. 

“Uma das mais puras sensibilidades poéticas que se pode encontrar no mundo hoje”, escreveu sobre a poeta o crítico Daniel Mendelssohn. O elogio se explica, em parte, pelo fato de Mendelssohn ser também um renomado professor de literatura clássica. A poesia de Glück, habitualmente descrita como uma reflexão sobre a família, o casamento, a relação mãe-e-filha e a passagem do tempo, não menos habitualmente é descrita também como arte “clássica”, uma poesia de elegância e controle, com muitas referências a figuras da literatura antiga, especialmente femininas (Penélope e Perséfone, por exemplo). Já outro crítico importante, Dwight Garner, fala de seu livro Ararat como “brutal, carregado de sofrimento”.  O contraste entre as citações não chega ser uma contradição. Glück parece ao mesmo tempo controladamente classicista e desesperadamente íntima, um tanto à maneira de Sophia de Mello Breyner Andresen, talvez quem mais se aproxime dela, em língua portuguesa. Uma e outra dimensão estão presentes nesse “Fragmento Arcaico”, que saiu (em tradução minha) na piauíem fevereiro de 2018, quando seu nome ainda era pouco conhecido entre nós.

(Atualização em 8 de outubro de 2020) 

*

POETRY

I, too, dislike it.
Reading it, however, with a perfect
contempt for it, one discovers in
it, after all, a place for the genuine.

POESIA 

Também não gosto.
Isto posto, pode-se ler com puro
desgosto e intuir no
fundo, a contragosto, um lugar do genuíno.

– MARIANNE MOORE (1887–1972)

IN THIS DREAM 

In this dream the typewriter
is a piano    and I play
with unplanned accuracy and
such fluency you would think
I was a Southerner whose tradition
recommended continuous telling

or an Englishwoman home at last
writing    writing in English     you
would think that I was one
of the persons in charge of this
language    owning it from infancy
if this piano    on which I have learned
to play preludes nicely    if
this piano were a typewriter

NESTE SONHO 

Neste sonho a máquina de escrever
é um piano    e eu toco
com precisão espontânea e
fluência tal que seria de pensar
que eu fosse uma daquelas mulheres do Sul
que têm tradição de falar muito e bem

ou uma inglesa finalmente em casa
escrevendo   escrevendo em inglês   seria
de pensar que eu fosse
uma das pessoas encarregadas desta
língua    dominada desde a infância
se este piano     em que dou conta
de tocar alguns prelúdios   se
este piano fosse uma máquina de escrever

– GRACE PALEY (1922–2007)

ARCHAIC FRAGMENT 

I was trying to love matter.
I taped a sign over the mirror:
You cannot hate matter and love form.

It was a beautiful day, though cold.
This was, for me, an extravagantly emotional gesture.

……. your poem:
tried, but could not.

I taped a sign over the first sign:
Cry, weep, thrash yourself, rend your garments –

List of things to love:
dirt, food, shells, human hair.

……. said
tasteless excess. Then I

rent the signs.
AIAIAIAI cried
the naked mirror.

FRAGMENTO ARCAICO 

Tentava ter amor pela matéria.
Colei uma frase no espelho:
Não se pode odiar a matéria e amar a forma. 

Fazia um dia lindo, mas frio.
Isso, para mim, era um gesto de extravagância emocional.

……. teu poema:
tentei, mas não deu.

Colei outra frase em cima da primeira:
Grita, chora, te escabela, rasga tuas roupas 

Lista de coisas para se amar:
Sujeira, comida, conchas, cabelos

……. disse
excesso de mau gosto. Então

arranquei as frases.

AIAIAI gritou
o espelho cristalino.

– LOUISE GLÜCK (1943)

EXSANGUINATION

Life as it unfolds
ever more eludes
examination.

We wonder what is best –
exsanguination in a rush,
or in 1,000 small slashes.

SANGRADURA

A vida que vai se desenrolando
vai cada vez mais escapando
à compreensão.

A gente se pergunta o que é melhor:
uma sangradura só,
mil pequenos talhos, ou não.

– JOYCE CAROL OATES (1938)


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É violonista e compositor. Foi diretor artístico da Osesp entre 2010 e 2022. Autor do livro Tudo Tem a Ver (Todavia), lançou os álbuns Violão Violão e Sarabanda (Selo Circus), entre outros.