poesia

CADA OSSO TRITURADO PODE VOLTAR E DANÇAR

Imagem Cada osso triturado pode voltar e dançar

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 À SOMBRA

Brincamos com o peixe

estampado no chão de nossas ruas

Largamos nossas mochilas reviradas

por policiais

e corremos atrás desse peixe negro

que segue rente à calçada

É um peixe aéreo gigante

com garras afiadas

e lá do alto

de onde nascem as sombras

suas hélices traiçoeiras

nos ameaçam

MASSACRE

Estou na cozinha

preparando um café

O vizinho ouve Alceu Valença

Estão jogando bombas

A fumaça chega ao 17° andar

Eu também gosto de Alceu Valença

Estamos encurralados

numa rua estreita

perto da Carioca

e a tropa de choque cerca

todas as saídas

É preciso espantar o pessimismo

Primeiro tiro

com bala de verdade

Entre um estouro e outro

a ambiguidade histórica

de uma marchinha de Carnaval

A VOZ DOS OSSOS

Por que não desiste

dessa voz que ainda

insiste entre tantas

Que parece chegar

inteira no meio de tantos

estilhaços de ontem

e de hoje: a voz quebrada

deveria ser a sua

arruinada diante do

macabro que sempre

pautou esse pasto

indigesto que tentamos

com travo na boca

chamar de país

Os antigos tentaram

deixar uma lição de coisas

mas nunca convenceram

Também desistiram

para um giro rápido

quando anunciaram

o fim de tudo, o lamento

que restou entre destroços

Cada osso triturado

pode voltar e dançar

na sua frente, a voz

dos ossos é a sua

A minha voz de agora

Um agora que permanece

incendiando a linha

fóssil do horizonte

ESTRELA INVERTIDA

A morte

é de uma banalidade infernal

um bairro quieto

no meio da tarde

sempre à margem

o postigo aberto na porta da frente

algum velho

e um programa de auditório

(todos os dias são domingos)

A mercearia

traz uma estrela invertida na fachada

a cara do bode

a cara do tempo

Meu avô já morto

nunca sorri nas fotos finais

as fotos que o patrão mandava fazer

quando concluíam uma obra

Jamais saberei

se foi descuido ou intenção

aquele pentagrama em relevo

uma estrela brilhando

no alto da porta

ou se era a morte

espreitando um prato

de arroz, feijão e couve

DEPOIS DA CHUVA

Bolinhas de plástico

coloridas

espalhadas na grama

formam uma

constelação invertida

ou um súbito encontro

de astros desorientados

nas mãos macias das crianças

que a toda hora

inventam novos esquemas planetários

Tento me orientar

por estas pistas coloridas

lançadas ao acaso

um mapa em que não importa o destino

os homens

suas guerras particulares

apenas o gesto livre

os passos de alguém

um tanto descrente (é verdade)

que cruza o jardim molhado

depois do temporal


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Heitor Ferraz Mello é poeta, autor de Coisas Imediatas (1996–2004), da editora 7Letras.