questões da pós-verdade
Alejandro Zambra Out 2018 07h40
4 min de leitura
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Tradução de Miguel del Castillo
Quem viaja a meu lado é Kalămido Crastnh. Nós nos conhecemos ontem à noite, num jantar com uns poetas que se definiam como detetives selvagens, embora de selvagens mesmo não tivessem quase nada, só estavam interessados em investigar como não pagar a conta.
Antes de nos despedirmos, Kalămido me disse que tinha lido todos os meus livros e que gostaria de me entrevistar. Tive a impressão de que enfatizava a palavra todos, o que de certo modo me preocupou porque há alguns que eu preferiria que não fossem lidos nunca mais. Não me disse se tinha gostado deles, e eu obviamente tampouco perguntei. Como havíamos comprado passagens para o mesmo trem, ele propôs que fizéssemos a entrevista durante a viagem.
Não sei se o trem avança rápido ou lento, só sei que avança. Abro o computador e teclo depressa, para que Kalămido pense que tenho um assunto urgente a resolver. Não gosto de entrevistas, mas gosto quando começam, pois isso significa que em algum momento vão terminar.
Kalămido estudou letras na exclusiva Oińcaskc Unyinversdaorc, emendou um mestrado em metajornalismo na mesma universidade (“Mas em outra faculdade”, esclarece), e depois fez um doutorado na influente Universidade de Ertyuing, concluído com summa cum laude e elogios unânimes. Ainda assim, apesar desse currículo intimidativo, ele liga o gravador e a primeira pergunta que faz é a seguinte: “Seus livros são autobiográficos?”
Finjo não entender. Kalămido então refaz a pergunta da seguinte maneira, pronunciando cada palavra com esmero – com fé, eu diria: “Quanto de ficção e quanto de realidade há em seus livros?”
Tento imaginar Kalămido em sua Llaslamnlcmas natal, uma pequena cidade a oeste de Nlńcclael, mais ou menos perto do belo lago Aslvfvsd. Vejo-o criança, na neve, esperando um improvável arco-íris, e depois, adolescente, lendo com devoção e desconcerto Emilia Qwerty, Pol Uiop ou o estranhíssimo Asd Fġhjkl. Penso que ele nunca teria importunado Emilia Qwerty com uma pergunta como a que acaba de me fazer.
A comparação não é muito boa, porque Qwerty nunca deu entrevistas, mas acredito que Kalămido também não teria formulado uma pergunta desse tipo para Uiop ou para Fġhjkl, que falaram muito (talvez até demais). Me sinto ofendido mas deixo passar, já sofri humilhações bem piores. Fico em silêncio, mas não por muito tempo – sou sociável demais. Decido responder. E decido, além disso, mesmo sabendo ser perfeitamente desnecessário, dizer a verdade.
“Meus livros são 32% autobiográficos”, digo.
Não quero que Kalămido pense que estou sendo irônico. Não é essa minha intenção. Minha resposta é totalmente honesta. Estudei num colégio atroz, que só ensinava matemática; estou acostumado a essa precisão doentia. Meu temor, por sorte, é infundado: Kalămido anota a cifra em seu caderno, toma dois pequenos goles de um chá que tirou não sei de onde e me encara como se estivesse pensando em voz alta, como se estivesse me olhando em voz alta, se é que isso é possível.
“Eu sabia. Trinta e dois por cento”, ele diz.
“E eu sabia que você sabia”, minto.
“E eu sabia que você sabia que eu sabia”, ele diz.
E assim continuamos por um tempo, nessa palhaçada. Nosso santo bateu. A gente se deu bem. Kalămido podia ser meu amigo, penso. Deveríamos tentar. Penso que o ritmo da amizade é assim: risadas, silêncio, risadas, silêncio, risadas, silêncio. Palhaçada.
Kalămido me pergunta sobre o futuro da literatura latino-americana e sobre o futuro da literatura, ponto. E sobre o futuro, ponto. E sobre o futuro da palavra futuro. E sobre o futuro da palavra palavra. Tudo flui bem, tudo corre às mil maravilhas, até que chega a incontornável, a campeã mundial das perguntas difíceis: a da ilha deserta.
Que livro eu levaria para uma ilha deserta? Como não nasci ontem, tento negociar: proponho que consideremos a ideia de uma ilha escassamente habitada. Kalămido responde que não pode alterar a premissa da pergunta porque seu editor é um tirano. Peço, então, que me deixe levar mais de um livro. Ele balança negativamente a cabeça. Digo que a pergunta que me faz é deprimente. Que a última coisa que eu pensaria em fazer nessa ilha de merda seria ler.
Kalămido aprova minha resposta com uma risadinha cúmplice e me serve um pouco de chá. Está tudo muito bem. A entrevista ainda não acabou, mas sei que em algum momento acabará. O trem avança rápido ou lento, ou talvez esteja parado sem motivo, não sei e tampouco me importa: tudo o que quero no momento é continuar respondendo às perguntas de Kalămido com total, com absoluta honestidade.