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FALA GROSSA E SALTO FINO

As façanhas de Joice Hasselmann, do rádio ao Congresso

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“Oi, pessoal, tudo bem? Eu aqui, Joice Hasselmann, deputada federal pelo Brasil.” Em meio à balbúrdia que havia tomado o plenário da Câmara na noite de 10 de julho, mal se escutava o que ela dizia. Com 2,6 milhões de seguidores no Facebook, a parlamentar transmitia ao vivo pela rede social a sessão que aprovaria em primeiro turno, depois de nove horas de discussão, a reforma da Previdência. “A esquerda pira” – ela dizia, enquanto filmava a galeria no mezanino, onde se aglomeravam “alguns sindicalistas, o pessoal da CUT [Central Única dos Trabalhadores] e o escambau.” “Aqui os líderes de centro”, prosseguiu, apontando para a Mesa Diretora, “e Rodrigo Maia, que é o grande avalista da reforma na Câmara dos Deputados.” Virou a câmera para o modo selfie e reapareceu na tela com o seu bordão nas redes: “Já sabe aí, gente. Vai curtindo, vai compartilhando, vai curtindo, vai compartilhando.”

A jornalista e deputada pelo PSL de São Paulo tinha retocado o visual. A sombra rosada e os cílios postiços pretos realçavam os olhos azuis. O cabelo dourado era escuro na raiz e alisado até a altura do ombro, onde formava uma suave curva côncava. Hasselmann, 41 anos, ajeitou os fios atrás da orelha.

“Pode soltar, Alexandrão”, disse ao deputado Alexandre Frota, que havia tirado o celular de suas mãos. “Bebe água”, ele recomendou. Hasselmann tomou o último gole em uma garrafa de plástico, enquanto era filmada pelo aliado. “Alexandre sendo gentil comigo”, agradeceu, ao pegar de volta o aparelho. “Tá fácil não, gente. É hoje!” Ela respirou fundo, sorriu com cansaço para a câmera, olhou para o chão e desabafou: “Eu estou realmente exausta. Exausta, sem voz, mas com a sensação de dever cumprido.”

O plenário da Câmara era um mar de celulares se movimentando para lá e para cá. A bancada do PSL estava numa animação só. Helio Lopes (PSL-RJ) se aproximou de Hasselmann. “Ó o Negão aí, ó o Helio Negão”, ela anunciou atrás da tela. “Meus amigos”, ele disse aos seguidores da colega, “essa Nova Previdência é tão boa para o povo que, se o PT a tivesse elaborado, eu votaria.” Voltando a câmera para si mais uma vez, ela emendou: “A esquerda tá pirando!” Mal concluiu a frase, foi interrompida por Daniel Silveira, o parlamentar fluminense do PSL que, durante a campanha de 2018, rachou ao meio a placa de rua com o nome de Marielle Franco, a vereadora assassinada no Rio. “Joice, deixa eu invadir aqui, mandar um recadinho aqui”, solicitou. Enquanto, na transmissão dele, Hasselmann defendia a aprovação da reforma “pelos nossos filhos e netos”, Silveira fazia um sinal de “joinha” com o polegar para a câmera da deputada.

Aline Sleutjes (PSL-PR) chamou-a logo em seguida. “Joice, Joice!” Ela não escutou. “Jóóóiceee. Dá um alô para o pessoal do Paraná, Joice”, insistiu. “Oi, pessoal do Paraná, tudo bem? Vamos aprovar essa Previdência aí”, repetiu, soltando um beijo para a câmera. Júnior Bozzella, do PSL de São Paulo, quis uma selfie. A deputada sorriu, fez o clique e acarinhou o cabelo do colega. Dayane Pimentel (PSL-BA) apontou sua câmera na direção dela, anunciando “a nossa rainha da Previdência”. “Obrigada pelo carinho, meu povo baiano”, retribuiu. Deu uma sacolejada e, gargalhando, prometeu a aprovação “em ritmo de axé”.

No meio do tumulto, Hasselmann entregou o telefone a um assessor, que deu sequência à transmissão ao vivo. Ele flanou pelo plenário e, instantes depois, a reencontrou, vestida de macacão amarelo cor de gema, sem mangas, com decote em “v”, balançando bandeirinhas do Brasil. Brincos dourados com pedras verde-escuras completavam o figurino. Hasselmann se voltou para as galerias no mezanino, onde agora fotógrafos e cinegrafistas profissionais estavam posicionados. Ela ergueu as bandeiras e sorriu. No dia seguinte, um ponto amarelo em meio a ternos escuros coloria as fotos das reportagens sobre a votação da reforma da Previdência nos sites de notícia.

Foram 379 votos a favor da reforma e 131 contra. Quando o resultado apareceu no telão, a deputada ergueu o punho esquerdo e gritou: “Três, sete, nove! Três, sete, nove!” A transmissão que ela fez em tempo real, com duração total de duas horas e trinta minutos, teve 370 mil visualizações, o equivalente a 1,8 ponto do Ibope para a Grande São Paulo.

Na semana seguinte, a Câmara entrou em recesso. Acabava o primeiro semestre de Joice Hasselmann como deputada federal, e ela, prostrada na cama, ardia em febre, com a garganta inflamada. Havia viajado a 24 estados em quatro meses, o que batizou de Caravana da Previdência. Dormiu pouco, comeu mal e se privou do convívio familiar – não viu o filho caçula, de 11 anos, nenhuma vez nesse período.

Uma semana de repouso depois, estreou o filme O Rei Leão. Fã de desenhos animados e já recuperada, Hasselmann foi ao cinema com o terceiro e atual marido, o médico piauiense Daniel França, escolhendo a última sessão da sexta-feira. Colocou os dois telefones celulares no modo “não perturbe”. Quando o casal voltou para casa, ele foi cuidar de afazeres no computador e ela, assistir na Netflix a uma série de contos de fada chamada Era Uma Vez. Os telefones continuavam silenciados, e Hasselmann se esquecera de checá-los depois da sessão de cinema. Perto de três horas da manhã, quando finalmente ligou os aparelhos novamente, notou que havia num deles três ligações feitas daquele mesmo número. “Daniel, olha que coisa estranha”, comentou. “Foi a mesma coisa que aconteceu com o Moro”, notou o marido. O ministro da Justiça, Sergio Moro, teve o celular hackeado, em junho, depois de atender inadvertidamente chamadas feitas de sua própria linha. Hasselmann viu que havia um novo acesso à sua conta no Telegram e concluiu que ela também tinha sido alvo de uma invasão de celular.

“Aí, na manhã do dia seguinte, o Sergio [Moro] estava no exterior, mas o incomodei, mandei mensagem. Falei: Sergio, o que eu faço? Ele falou: ‘Eu troquei meu telefone e meu número, porque achei mais prudente, mas o ideal é você já mandar uma comunicação oficial para mim que vou mandar para a Polícia Federal.’”, contou Hasselmann. “Fiquei tão transtornada. Meu primeiro impulso foi fazer como o Moro, que deletou o Telegram. Mas não deletei, porque, em uma perícia, pode-se constatar o que é meu e o que foi usado.”

A deputada recebeu a piauí no gabinete da liderança do governo no Congresso, na última quarta-feira de julho, durante o recesso parlamentar. Dois funcionários de uma operadora de telefonia trocavam seus aparelhos e linhas. Sentada à cabeceira da mesa de reunião, ela mostrava mensagens e evidências da invasão. Além dos dois celulares, com capa cor-de-rosa, havia a seu alcance um iPad, uma garrafa térmica e uma cuia de chimarrão. Na porta da sala, um cartaz avisa: “É proibido entrar com celular.”

Hasselmann migrou para a política há um ano e meio, depois de passar duas décadas dentro de redações – ela trabalhou na revista Veja e na rádio Jovem Pan, entre outros veículos. Durante sua campanha para deputada, militou intensamente por Jair Bolsonaro e João Doria. Elegeu-se e viu seus candidatos eleitos – fosse ela um homem, alguém diria que fez, no jargão da política, barba, cabelo e bigode. O milhão de votos que obteve em 2018 e a atuação como líder do governo no Congresso este ano fizeram de Hasselmann uma potencial candidata à Prefeitura de São Paulo, em 2020. Mas também a transformaram em alvo privilegiado entre seus pares.

Em um canto escuro à direita do plenário da Câmara, no início de junho, um mês antes da votação da Previdência, o deputado federal Eduardo Bolsonaro recebia cumprimentos por seu casamento, ocorrido no final de maio. Ele sorria e agradecia, fazendo piada das maravilhas dos primeiros dias de matrimônio. No corredor central e iluminado do plenário, Hasselmann e Alexandre Frota conversavam. O Grandão, como ela chama Frota, vinha desferindo naqueles dias seguidos ataques virtuais a Eduardo, presidente do PSL no estado de São Paulo. “Eles acham que me estressam”, desdenhou o filho do presidente a um interlocutor, lançando um olhar na direção da dupla.

Na transição do governo de Michel Temer para o de Bolsonaro, no final de 2018, o PSL expôs suas fraturas. Em conversas em grupo de WhatsApp, Hasselmann e Eduardo se desentenderam – não pela primeira vez nem pela última. A deputada criticou a articulação política liderada pelo colega, tachando-o de infantil. Eduardo condenou os métodos de Hasselmann que considerou ardilosos chamando-a de “sonsa” com “fama de louca”. O pano de fundo da desavença era a campanha para a presidência da Câmara, que ocorreria em fevereiro. Hasselmann apoiava Rodrigo Maia, do DEM do Rio de Janeiro. Eduardo queria alguém identificado com o governo de seu pai. Maia acabou obtendo o apoio formal do bloco do qual o PSL fazia parte e se reelegeu.

A cúpula da Câmara que se formou em torno de Maia rapidamente identificou em Hasselmann uma interlocutora privilegiada. Com acesso a Bolsonaro, ela trazia a seus pares informações sobre as movimentações do governo, ajudando-os a se posicionar com antecedência. Hasselmann manifestou interesse na função de líder do governo na Câmara, mas Bolsonaro optou por um aliado antigo, o deputado Major Vitor Hugo, do PSL de Goiás. Com apoio de Maia e Davi Alcolumbre (DEM-AP), presidente do Senado, Hasselmann acabou nomeada líder do governo no Congresso, cargo que daria a ela suficiente visibilidade, apesar de menos atribuições formais. Ela então mergulhou nos bastidores do Congresso, alinhando-se gradativamente às posições do grupo de Maia, o chamado Centrão, que tem entre seus integrantes líderes de partidos fisiológicos. Os atritos da deputada com o núcleo bolsonarista da bancada do PSL se evidenciariam em pouco tempo.

“A relação hoje está boa. Ela está com a energia 100% voltada para a Previdência”, contemporizou Eduardo, em conversa com a piauí naquela tarde no início de junho. A reforma da Previdência ainda não tinha sido aprovada pela Câmara, tampouco o deputado fora indicado a embaixador do Brasil em Washington pelo pai. “Tenho me dado bem com ela. A questão toda, a única crítica que eu faço, não especificamente em relação à Joice, mas a todos na bancada, é que algumas coisas que poderiam ser tratadas internamente vão a público”, reclamou. Perguntei a ele se, em seu partido, não era raro o que ficava entre quatro paredes. Eduardo inclinou o rosto, sem responder. Quando indaguei como ele interpretava a relação de Hasselmann com Maia, ele deu um tapinha em meu braço direito e sorriu. “Deixa eu falar dela, não”, disse, e piscou. Mas logo retomou a expressão séria e improvisou uma resposta: “Quem vai fazer o julgamento são os eleitores dela, não eu. Não fico fiscalizando os deputados. Para isso tem o tre [Tribunal Regional Eleitoral], o Ministério Público…”

A indicação de Eduardo para a embaixada em Washington parecia facilitar o caminho da deputada até o Palácio do Anhangabaú, sede do Executivo paulistano. Mas o adversário mostrou que está disposto a trabalhar contra Hasselmann onde quer que ela esteja. No controle do diretório estadual, o deputado impõe sucessivos obstáculos à candidatura dela, ora ventilando outros nomes, como o do apresentador de tevê José Luiz Datena, ora defendendo prévias ou barrando a ocupação de espaços de poder pelo grupo rival. O comando da executiva do PSL paulistano, por exemplo, um pleito de Hasselmann, está prometido a um aliado de Eduardo.

No primeiro semestre de 2019, representando o grupo de Hasselmann, Frota foi para o enfrentamento com Eduardo. Mas o peso do sobrenome se sobrepôs, e Frota terminou expulso do partido. A convite do governador paulista, João Doria, filiou-se ao PSDB, somando-se à lista de ex-bolsonaristas ressentidos pelo tratamento dispensado pelo clã presidencial.

Assim, Hasselmann perdeu um aliado nas disputas internas do PSL. Mas ganhou outro. O senador paulista Major Olimpio, que era seu desafeto e chegou a pedir a expulsão da deputada em 2018, recompôs-se com ela, num movimento de oposição a Eduardo. Na entrevista em julho em seu gabinete, uma sala sem janelas num andar abaixo do plenário, Hasselmann avisou que não deixará seu futuro nas mãos de um ou de outro correligionário. “Se eu quiser ir para a briga, eu vou. Seja no partido A, B ou C”, ameaçou. “Eu sempre deixei muito claro que sou a favor da meritocracia. Sou a mulher mais votada da história desta Câmara dos Deputados. Não vou aceitar ser tratada por qualquer partido como tendo um tamanho menor do que aquele que o povo me deu. Eu espero continuar no PSL pelos próximos longos anos”, disse, antes de arrematar: “Depende mais deles do que de mim.”

Sua aproximação com o PSDB de Doria deixa no ar especulações sobre uma eventual migração partidária, como fez Frota. Ela tem “um pé em cada canoa”, criticou o presidente Bolsonaro à Folha de S.Paulo. A declaração causou ainda mais desgaste à relação da deputada com a família presidencial. Para aliados de Hasselmann, Bolsonaro quer controlar o fundo partidário do PSL e garantir candidatos de sua confiança nas principais disputas da eleição municipal de 2020. Para se defender, a deputada disse que se tornou “amiga” de Doria antes de se aproximar de Bolsonaro e que o presidente sente “ciuminho”. Nos bastidores, contudo, admite-se que não há clima para ela permanecer na liderança do governo no Congresso, e as conversas para trocar de partido se intensificaram.

Joice Hasselmann anda rápido, com energia – é difícil não notá-la. No Congresso, ela se desloca acompanhada de cinegrafista, fotógrafo, assessora e chefe de gabinete, fazendo gravações para as redes sociais. Em plenário e comissões, está sempre ocupada, interagindo de alguma forma com alguém ou com as coisas – conversa com colegas, fala ao telefone, dá entrevistas, digita com vontade ao celular, toma goles e goles de água e masca chicletes. É quase impossível flagrá-la num momento de introspecção. Se as atividades em público esfriam, ela dispara rumo ao gabinete – e o entourage corre atrás.

“Ela parece um general, né? Sempre tem aquela procissão de homens atrás”, comparou Terezinha Miketen Bejuska, achando graça da imagem que encontrou para descrever a filha. De uniforme branco, touca na cabeça, rodo e vassoura nas mãos, Bejuska se dividia entre a faxina, o caixa e o atendimento aos clientes de sua confeitaria no Centro de Ponta Grossa, no Paraná, quando a visitei em junho. Agora dona do próprio negócio, em sociedade com a filha deputada, ela parou de trabalhar aos domingos. Durante muitos anos, teve três empregos simultâneos, nos sete dias da semana, para sustentar os três filhos.

O ex-marido e pai de seus filhos, Clemente Bejuska, era dono de frigoríficos pelo país, negócio que levou a família a mudar de cidade várias vezes. O casal morava em Rio Branco, no Acre, quando Terezinha engravidou pela primeira vez. Voou para Ponta Grossa só para dar à luz Joice Cristina Bejuska, em janeiro de 1978. Voltou a Rio Branco, onde a família viveu quase dois anos. De lá, todos seguiram para Aquidauana, no Mato Grosso do Sul, onde a segunda filha, Ernestiana Cristina, foi encomendada. Mais uma passagem por Ponta Grossa para o parto, e mudaram-se para Várzea Grande, nos arredores de Cuiabá. Moraram quinze anos não consecutivos na capital do Mato Grosso, onde nasceu Emerson Henrique, o caçula. “Eu tive uma infância que não foi muito fácil. Essas idas e vindas fazem com que você não forme vínculos. Eu não tenho um amigo desde sempre”, lamentou Joice Hasselmann. A agressividade do pai, com problemas com o alcoolismo, perturbava a rotina familiar.

Naquela manhã em Ponta Grossa, enquanto servia rissoles a um grupo de estudantes, Terezinha Bejuska falou com orgulho da “filha da confeiteira” que chegou tão longe. “A gente era assalariado, passava aperto, muita dificuldade. Criei três filhos honestos e trabalhadores, então, apesar de tudo, não tenho do que me queixar.” No salão estreito da confeitaria Donna, Bejuska encheu de lágrimas seus olhos claros como os da filha e disse: “O coração da Joice é uma manteiga. Você pode ter feito o que você tiver feito, mas, se precisar dela… Até me emociono… Se precisar dela, ela vai estar do lado para te ajudar.”

A filha costumava ligar para Bejuska e pedir a bênção antes de viajar, hábito que abandonou com o tempo. A mãe contou que reza por ela diariamente, em silêncio. “Tudo preocupa, né? Muito, meu Deus, tem noite que eu não durmo.” Quando a família decidiu voltar para o interior do Paraná, Joice Hasselmann, com quase 18 anos, preferiu permanecer em Cuiabá, sozinha, a fim de fazer vestibular para medicina. Prestou para mais de uma faculdade, mas não passou. Durante as férias na casa da mãe em Ponta Grossa, uma amiga pediu que Hasselmann a acompanhasse até uma emissora de tevê local, onde estavam fazendo testes para apresentador. Hasselmann resolveu concorrer – e passou. Não voltou mais a Cuiabá e desistiu da medicina. Ao ingressar no curso de jornalismo da Universidade Estadual de Ponta Grossa (UEPG), em janeiro de 1999, ela já ancorava um noticiário na tevê. Tinha 21 anos.

Os atrasos na faculdade seriam motivo de reprimendas, mas a chegada de Hasselmann na sala de aula era sempre um acontecimento. De maquiagem, salto alto e roupas chamativas, em vez da calça jeans da maioria dos estudantes, ela entrava na sala e imediatamente arrastava a carteira para perto de uma parede em que houvesse uma tomada. Tirava um notebook da bolsa e o conectava. A inicialização do aparelho era ruidosa, como costumava ocorrer com os computadores do início dos anos 2000. “Desculpa, mas você atrapalha a aula assim”, reclamou uma professora. “Acontece que eu trabalho e só tenho tempo de fazer as tarefas da universidade aqui”, Hasselmann retrucou.

A essa altura, os colegas já tinham se esquecido da aula para acompanhar a chegada da “Dioisse”, como a chamavam. Assistiam à cena um tanto surpresos, mesmo porque um notebook, naqueles anos, era artigo de luxo. Certo dia, um deles teve uma ideia. Esperou que Hasselmann ligasse o computador e então abriu sua mochila. Sacou de dentro uma máquina de escrever portátil e começou a batucar, fazendo frente ao barulho da vizinha. A classe toda caiu na gargalhada, e ela se enfureceu. Desligou tudo e foi embora, marchando. “Eu era vista como a supercoxinha”, comentou a deputada em seu gabinete, depois de um gole generoso de chimarrão. “Como só tinha esquerdinha na faculdade, eu fazia questão. Eu era uma coitada, não tinha onde cair morta, mas estava sempre poderosa.”

Ainda cursando a universidade, Hasselmann trocou o trabalho na tevê local por outro, na sucursal da rádio CBN em Ponta Grossa, onde começou como repórter e depois se tornou âncora e diretora. Nos primeiros tempos de trabalho na rádio, ela não se apresentava como estagiária, e sim como jornalista. Isso incomodava ainda mais os professores, que faziam campanha para que os alunos se dedicassem exclusivamente aos estudos.

Com seis meses de curso de jornalismo, Hasselmann se casou e ficou grávida de uma menina. Afastou-se por um período e, ao retomar as aulas, teve que conciliar os horários na escola com os dedicados à filha e ao trabalho. Os atritos com professores aumentaram. Em 2003, no terceiro ano, ela resolveu pedir transferência para uma instituição particular, o Centro Universitário Santa Amélia (UniSecal). Na nova turma, ficou amiga de Edgar Hampf, hoje secretário de Turismo de Ponta Grossa e bolsonarista convicto. Juntos, os dois fizeram em 2004 o TCC (Trabalho de Conclusão de Curso) intitulado Rádio Escola-Cidadã: Uma Proposta de Educar Através do Meio Rádio. A parte prática do trabalho resultou num programa de vinte minutos apresentado por crianças para crianças. A parte teórica foi submetida a uma banca de qualificação, que constatou plágio. “Havia trechos copiados de uma outra publicação acadêmica, de um autor de referência na área”, afirmou uma docente (que pediu anonimato) presente à banca.

Hasselmann confirmou o episódio. “É verdade. O Edgar era redator de um jornal, então a gente dividiu o TCC da seguinte maneira: eu tenho a ideia, faço o esboço e depois faço o projeto, porque trabalho em rádio. E você, que é redator, escreve. E realmente o Edgar fez isso. Botou um trecho em que ele não colocou as aspas nem a citação. Foi uma pessoa que levantou isso, mas foi voto vencido na banca, todo mundo viu que não teve dolo nenhum.” Procurei Hampf, mas ele não respondeu ao pedido de entrevista. A dupla foi aprovada na banca final. A aluna colou grau em 2005, mas só solicitaria a entrega de seu diploma treze anos depois, em agosto de 2018, a dois meses da eleição.

Formada, a jornalista se mudou para Curitiba para trabalhar na rádio BandNews. “O convite era para ser editora de política, e aí sempre tem alguém no meio do meu caminho.” O âncora do jornal da manhã e diretor da rádio, Gladimir Nascimento, “ficou meio enciumado e me colocou para ser repórter camelo, para fazer um zilhão de reportagens por dia”, segundo ela. “Tudo bem, eu gostava.” Ela disse que pediu a Nascimento para apresentar o jornal da noite, mas ele nunca consentiu. Segundo o jornalista, Hasselmann foi contratada como repórter.

Três anos se passaram, e o diretor foi demitido. Ele havia chamado deputados estaduais de “ladrões de galinha” por terem aprovado uma aposentadoria especial para si próprios. Glad, como é chamado, era respeitado na redação. Jornalistas viram pressão política por trás da demissão e deixaram a rádio em solidariedade. Depois de um curto período de arranjo provisório, Hasselmann o substituiu. “Muitos acreditam que Joice conspirou para minha queda. Não seria preciso. Caí porque era inevitável”, afirmou Nascimento em uma mensagem escrita – ele se afastou do jornalismo e hoje se dedica à cerâmica. “No jantar de minha despedida, em um restaurante mexicano, Joice parecia pouco à vontade. Chegou a perguntar se ainda éramos amigos. Não entendi a pergunta. Ela saiu cedo do restaurante”, lembrou. “Enquanto dirigi a BandNews, Joice trabalhou muito e, tanto quanto sei, respeitou minhas orientações. Sempre foi combativa e determinada, mas era repórter. Envolveu-se em disputas, discussões e encrencas com outros integrantes da equipe, mas nada comparável a essa personalidade controversa que aflorou a partir do momento em que teve o microfone para si. Começou a se tornar essa personagem depois que assumiu a BandNews. Nesse período, foram raros os momentos em que nos vimos.”

Empossada diretora e âncora, a jornalista fez do Blog da Joice a página extraoficial da rádio na internet, já que não havia, à época, um portal da BandNews. E colocou os estagiários da emissora para cuidar da página com as notícias que iam ao ar em tempo real. Era uma chefe ríspida e incansável. No ar, fazia colocações duras e trazia, com frequência, informações exclusivas. Cunhou quadros como “Olho no Olho”, de entrevistas, “Sapatada do Dia”, no qual distribuía opiniões, e “Band em Forma”, sobre vida saudável. Com os programas, não demorou a ganhar projeção estadual e a particular devoção dos taxistas.

Na BandNews, contudo, os atritos com o diretor-geral da rádio se avolumaram. Ele reclamava da âncora, de suas sapatadas e frequentes viagens. Hasselmann o ignorava, tratando diretamente com o dono da emissora. Depois de seis anos e uma montanha de desentendimentos, a jornalista foi mandada embora, em 2012.

Semanas depois começou a trabalhar na RIC, a retransmissora da Record no estado, e fechou um contrato com a Aerp (Associação das Emissoras de Radiodifusão do Paraná) para apresentar um programa a ser transmitido por rádio para mais de cem municípios no interior. Para ajudá-la, contratou dois jovens jornalistas e três estagiários. Não queria que seu blog perdesse relevância e mandava os estagiários atualizar as notícias na mesma frequência com que o fazia na BandNews. Eram mais de quarenta publicações por dia. Hasselmann dormia pouco e, não importa que horas fosse, ligava ou escrevia aos subordinados, para passar instruções. Um e-mail intitulado “ATENDEEEEE”, dirigido à equipe em 2013, começava assim: “Pqp, não consigo falar com NINGUÉM!!!!!!! Tá difícil.” Muitos que conviveram com Hasselmann reclamam das atitudes dela; outros consideram que mais aprenderam do que sofreram em suas mãos.

A cobrança para atualizar o blog era tanta que os estagiários foram instruídos a recorrer a notícias de portais e jornais. Ao perguntarem como dar o crédito pelas notícias, ouviram que não era necessário mencionar a fonte original da informação. “Copiávamos e colávamos mesmo”, recordou um desses ex-estagiários durante um encontro em um shopping em Curitiba, em junho passado. Os repórteres iniciantes apuravam, escreviam, davam título e punham no ar, tudo por conta própria. Mas, se depois fosse constatado algum problema, a chefe não economizava nas reprimendas.

De vez em quando, Hasselmann confraternizava com os subordinados. No seu aniversário de 35 anos, ganhou deles um bolo e a visita da mãe à redação. Na festa de um repórter numa balada country, ela se acabou na dança sertaneja. À prática de usar texto alheio sem dar crédito juntava-se um agravante: algumas reportagens exclusivas de outros veículos eram replicadas no Blog da Joice com horário anterior ao da divulgação do texto original, sugerindo que ela havia publicado antes. O repórter Chico Marés, então na Gazeta do Povo, principal diário do Paraná, reclamava com seus superiores sobre a prática, e a jornalista foi notificada extrajudicialmente algumas vezes. Hasselmann dava uma trégua, mas, segundo ele, reincidia tempos depois. Nas redações em Curitiba, até hoje o verbo “joiciar” é usado como sinônimo de copiar.

Em um bar na capital paranaense, numa noite de junho, Marés lembrou quando decidiu tomar uma atitude. “Era uma época em que eu estava meio com insônia, peguei uma latinha de cerveja e abri o Excel. Fui lendo todas as notícias, pegando uma frase e jogando no Google [para identificar a fonte]. Pum, Gazeta. Pum, Estadão. Pum, Veja”, disse. “Fiz um infográfico bem tosco mesmo, de sacanagem, mostrando que X por cento do que ela publicava vinha daqui, X por cento, dali”, contou, sorrindo. “Inicialmente era só para dar uma risada, botar um pouco da prática jornalística para fins de humor, mas… a gente podia acionar o sindicato.”

Como punição, a entidade poderia até expulsar Hasselmann, mas ela não era sindicalizada. O efeito seria apenas simbólico. Vinte e três jornalistas assinaram uma denúncia que listava 65 reportagens de 42 autores republicadas pelo Blog da Joice sem o devido crédito, entre 24 de junho a 17 de julho de 2014. A petição foi encaminhada ao Conselho de Ética do Paraná, braço do sindicato, que começou a apurar o caso.

Hasselmann mandou um e-mail para Marés: “Olá, Chico, boa tarde. Antes de mais nada peço desculpas pelo ocorrido. É óbvio e claro que não há a menor necessidade de eu fazer esse tipo de coisa, copiar uma matéria e não dar crédito. Tenho nome e reconhecimento suficientes conseguidos com muito trabalho”, escreveu. “Demiti ontem o menino que fazia esse trabalho. Ele desrespeitou todas as minhas ordens, e eu não tive tempo de corrigir. De qualquer forma, a culpa é minha, pois o funcionário era meu. O que posso fazer para me retratar?” Seu apelo chegou tarde demais. A denúncia já fora encaminhada.

Nessa época, Hasselmann já não estava mais na Record nem na Aerp. Fazia trabalhos como assessora de imprensa e mantinha o blog. Em um jantar na casa de um amigo, foi apresentada a Bia Bansen, dona de uma assessoria de imprensa em São Paulo, e comentou que tinha planos de se mudar para a capital paulista. Bansen ofereceu hospedagem. Alguns meses depois, Hasselmann desembarcou no apartamento da recém-conhecida, em Moema. Foi acomodada no escritório e, rapidamente, sentiu-se em casa: além de desfrutar das refeições da família, tinha acesso à senha da Netflix, à chave do carro e à casa de praia da anfitriã, que ela chamava de “mami”. Como uma filha, também passou a usufruir do guarda-roupa da dona da casa, com o consentimento dela.

Bansen apostava em Hasselmann profissionalmente e a apresentou a Ricardo Setti, então blogueiro na Veja, que, por sua vez, a aproximou de Augusto Nunes, colunista da revista, em meados de 2014, ano eleitoral. Convencidos do potencial da moça, Nunes e Setti a recomendaram ao diretor de redação da revista, que procurava alguém para comandar o canal de televisão do site. Eurípedes Alcântara vasculhou no Google informações sobre Joice Hasselmann, assistiu a alguns de seus vídeos e considerou o perfil demasiadamente interiorano e personalista para a revista de maior tiragem do país. Setti e Nunes insistiram – e Alcântara resolveu recebê-la. “Mas só por dez minutos”, avisou.

No encontro, o diretor de redação perguntou quais eram as pretensões de Hasselmann na casa. Ela não hesitou: disse que queria assumir o lugar dele, mandar na redação inteira e revolucionar a revista. Alcântara gostou da arrogância da jornalista. Duas horas depois, Hasselmann saiu do prédio da Editora Abril contratada como a nova âncora da tevê da Veja.

Em questão de semanas, a revista começou a implementar o canal, que mudou de nome: passou a se chamar TVeja. Equipamentos foram comprados, montou-se uma pequena equipe e foi organizada uma grade de programação diária. Grandes figuras da política nacional passaram a frequentar o estúdio. Hasselmann poliu o sotaque do interior paranaense com um “r” paulista e um “s” carioca. A audiência cresceu. Ela, porém, negava-se a tratar com o seu superior imediato, o editor do site. Ia diretamente à mesa de Alcântara, a quem apelidou de “imperador”. Tampouco se preocupava em ser simpática com os colegas, que, aliás, ficaram sabendo quem era a mais nova contratada quando ela desfilou pela redação gravando um vídeo para as redes sociais: “Eu aqui, Joice Hasselmann…”

Ia fazer seis meses que a jornalista estava morando na casa de Bansen e seu marido. A anfitriã planejava receber os filhos para as festas de final de ano e não via sinais de que a amiga pretendesse liberar o quarto. Como vagou um apartamento no mesmo prédio, Bansen sugeriu que Hasselmann o alugasse. A jornalista gostou da ideia, e o casal anfitrião se dispôs a ser fiador do aluguel.

Depois de assinar o contrato, Hasselmann mudou de planos. Disse que preferia outro imóvel que visitara nas redondezas. Bansen argumentou que isso traria problemas, mas Hasselmann comprou a briga e ficou sem pagar aluguel e condomínio do primeiro apartamento. Em poucos meses, a dívida acumulada passou de 30 mil reais. O proprietário recorreu à Justiça, que acionou os fiadores para resolverem a pendência. A disputa se estendeu por mais de um ano até que a anfitriã resolveu desembolsar cerca de 10 mil reais para saldar uma diferença que Hasselmann não aceitava pagar em um acordo extrajudicial. “Pagamos para nos vermos livre da pendência”, afirmou Bansen. “Hoje a questão está superada.”

Segundo Hasselmann, ela foi “obrigada” a mudar de apartamento, porque o primeiro “estava podre, caindo aos pedaços, e o proprietário era um pilantra”. A jornalista culpou a defesa de sua fiadora pelo mal-entendido. “Ela pegou um advogado muito ruim. O meu tinha feito um acordo, acho que de 30 mil reais, e o dela foi lá e fechou por 35 mil reais, idiota. Eu disse à Bia: ‘O teu é burro, cobre do burro do teu advogado.’”

Na Veja, a redação começou a se voltar contra Joice, dos chefes aos estagiários. Uma das jornalistas sob seu comando, hoje assessora de imprensa do governador João Doria, chorou ao relatar a Setti como era tratada pela apresentadora. “Ela berrava e humilhava a equipe”, desabafou. Setti foi falar com a âncora, que também foi às lágrimas, ao reconhecer o destempero. Estava estressada, justificou.

Hasselmann admirava Reinaldo Azevedo, um dos principais colunistas da Veja. Quando se tornaram colegas, ele de pronto mostrou resistência à aproximação dela. Nas entrevistas semanais que a âncora conduzia na TVeja, incomodava-o a forma como ela usava ideias sustentadas por ele para formular perguntas, sem dar o crédito. O articulista reclamou com Alcântara.

Augusto Nunes achou por bem dar um toque em Hasselmann. Sugeriu que ela deixasse Azevedo falar mais livremente e o interrompesse menos, explicando que, por sua formação intelectual, o jornalista era “justificadamente vaidoso” (tempos depois, após ser demitida da Veja, Joice tornaria público esse apelo). Nunes chegou a revisar alguns textos de Hasselmann, que ela digitava freneticamente deixando passar erros de português e redundâncias. Durante todo o período que esteve na Veja, ela nunca publicou na revista impressa semanal.

Para cuidar da imagem, a âncora montou um camarim dentro do estúdio, com cortinas pretas, de modo que pudesse se trocar entre uma e outra gravação. Antes de entrar no ar, ia ao salão de Rosângela Cardoso, no prédio da Editora Abril, a maquiadora que a revista contratou a seu pedido. Passava cerca de uma hora lá para fazer a maquiagem e o cabelo – à época, Hasselmann usava aplique para alongar e dar volume aos fios, contou Cardoso. A cabelereira depois subia ao estúdio para retoques finais. “Ela era muito divertida e comunicativa. Perguntava aos entrevistados o que podia perguntar para não criar constrangimento”, lembrou Cardoso, sobre o que ouviu nos bastidores.

A intimidade com que Hasselmann tratava os convidados da tevê e colegas surpreendia até mesmo os amigos dela. De perfil reservado, Alcântara não costumava parar na redação para conversas animadas. Certo dia, ele se viu sendo massageado nos ombros por Hasselmann, enquanto esperava para conversar com repórteres. Diante da cena embaraçosa, os jornalistas mergulharam no silêncio. A mesma massagem foi aplicada por Hasselmann nos ombros de outros convidados, como o hoje deputado federal Aécio Neves (PSDB-MG), segundo testemunhas.

“A minha capacidade de causar ciúmes nas pessoas é impressionante”, comentou a deputada, quando mencionei tais relatos. “Qual é a maneira mais fácil de denegrir? Ah, chegou essa loirinha aí, ó, ela não está aqui pelos méritos dela, ela está aqui porque é bonitinha. É só uma forma de gente incompetente que queria estar onde eu estava tentar me agredir, mas isso jamais aconteceu”, rebateu. “No Brasil, infelizmente, competência é pecado. Quanto mais o povo ficava dodoizinho, mais eu provocava, só para ver a cara.”

Fazia um ano que Hasselmann estava na Veja. O Conselho de Ética do Sindicato de Jornalistas do Paraná deu o veredicto, atestando a prática de plágio pela jornalista. O Blog da Joice estava fora do ar, e ela se tornara uma figura conhecida nacionalmente, graças à TVeja. “A escória do jornalismo só podia estar num sindicato ligado à CUT. Minha resposta aos vira-latas: Retournez à la Merde!”, ela atacou, em sua página no Facebook. Chamou os acusadores de “gente frustrada”, com “preguiça, inveja e uma boa dose de canalhice”. O presidente do Conselho de Ética à época, Hamilton Cezario, é um antipetista declarado e, entre os signatários da denúncia, há vencedores do Prêmio Esso. Hasselmann entrou na Justiça. Em 2017, em uma decisão provisória que não discutia o mérito (plágio), o juiz considerou que ela não havia sido notificada satisfatoriamente para poder se posicionar ao longo do processo administrativo. O sindicato recorreu, e o caso segue em curso.

“Eu nem vi, passei para meu advogado, que deu risada da denúncia, porque tinha coisa que era de assessoria de imprensa, jornalista reivindicando material de outro jornal”, minimizou Hasselmann, em julho passado. “Isso aconteceu completamente à minha revelia e, olha só, justo no momento em que eu estava estourando na Veja. É dor de cotovelo.”

A história explodiu em má hora para a acusada. Naquelas mesmas semanas, Hasselmann fora citada por um delator da Operação Lava Jato. Um diretor de marketing da Caixa Econômica Federal, Clauir dos Santos, relatou ao então juiz Sergio Moro que intermediava contratos de patrocínio do banco a veículos de comunicação. Santos fora indicado pelo deputado federal petista André Vargas, posteriormente cassado e agora sem partido, para, segundo o Ministério Público, operar um esquema de desvios de recursos da Caixa. “Lembro uma vez que, às oito horas da noite, ele [Vargas] me ligou para atender uma jornalista aqui de Curitiba, da rádio BandNews aqui”, afirmou o delator a Moro. “Eu estava saindo e daí aguardei. Ela queria saber como funcionava um blog, que ela queria montar um blog, Joice… acho que Hasselmann era o nome dela.” Segundo a jornalista, a conversa com Santos não teve prosseguimento, e ela não recebeu patrocínio.

No final de 2015, quando a revelação veio à baila, Hasselmann se posicionara a favor da Lava Jato e contra o PT, focando seus ataques na então presidente Dilma Rousseff e em seu antecessor, Luiz Inácio Lula da Silva. A direção da Veja começou a achar o estilo da âncora estridente e a alertou a respeito. Com o acúmulo de desgastes, Alcântara determinou que Hasselmann fosse demitida, depois de um ano e três meses na Veja. A jornalista atribuiu a decisão, mais uma vez, à pressão política. Apontou como pivô um vídeo do quadro “Salto Agulha”, em que ela afirmou que os ex-presidentes Lula e Dilma haviam “roubado o futuro da nação”. Lula chegou a processá-la, mas perdeu.

Foi numa sexta-feira que ocorreu a demissão. À noite, o diretor de redação e outros jornalistas da revista foram jantar no Fasano, nos Jardins. Eles já haviam começado a comer quando um garçom se aproximou com uma garrafa de champanhe Cristal safrada – que custa pelo menos 3 mil reais no restaurante –, oferecida por Hasselmann, que também estava no local. Junto com a garrafa foi entregue um bilhete em que ela dizia estar fazendo um “brinde ao futuro”. Quando os jornalistas se viraram para agradecer, Hasselmann ergueu a sua taça e sorriu.

A demissão foi litigiosa. A Abril a processou por adotar a marca Veja Joice na internet depois de sua saída, e a jornalista foi condenada a pagar 225 mil reais a título de indenização por danos morais à editora. Hasselmann, por sua vez, processou a revista na Justiça trabalhista, caso que foi encerrado após um acordo extrajudicial em valor similar ao da primeira ação. Um terceiro processo envolvendo Reinaldo Azevedo se estenderia por mais tempo.

Após sair da Veja, Hasselmann mergulhou no ativismo político, defendendo bandeiras da direita. Somou-se aos protestos na Avenida Paulista e posicionou-se de maneira mais enfática em seus canais na internet. Em 2014, ela chamara o então deputado federal Jair Bolsonaro de “machão do Congresso” e qualificara a “suposta candidatura” dele a presidente de “piada, uma brincadeira”, “com chance zero de vingar”. Em 2016, Hasselmann adotou outro discurso. “Jair Bolsonaro é meu amigo e tenho liberdade para criticá-lo, como já fiz no passado”, defendeu-se, em um vídeo. “Quem dera tivéssemos mais Bolsonaros aqui no Brasil.” Em março de 2019, petistas compartilharam nas redes sociais as antigas críticas da deputada do PSL ao atual presidente da República. “Pra você ver como às vezes erramos na avaliação. Conheci Bolsonaro e vi o quanto ele é decente e corajoso”, ela rebateu.

O antipetismo de Hasselmann aflorou. A presidente do PT, Gleisi Hoffmann, paranaense como ela, deixou de ser a convidada frequente em seus programas de entrevista para se tornar “doidinha de pedra”, “baranga”, “a louca do PT”. Hoje colegas na Câmara, as duas não se falam. “Ela quis me pegar para cristo, bater em mim para fazer contraposição, essa coisa do PT, né?”, comentou Hoffmann, com um sorriso gelado no rosto. “Acho que o desprezo é a melhor resposta. Ela gosta de aparecer”, emendou. Minutos depois, pediu para substituir a palavra “desprezo” por “desconsideração”.

Em 2016, época de sua afirmação como ativista de direita, a jornalista publicou uma biografia do símbolo da Lava Jato, cujo pai nasceu, como ela, em Ponta Grossa: Sérgio Moro: A História do Homem por Trás da Operação que Mudou o Brasil, lançada pela editora Universo dos Livros. A biografia pouco avança em detalhes da trajetória de Moro, além de contar do seu gosto por histórias em quadrinhos e da criação austera e religiosa que recebeu em casa. Hasselmann nem sequer entrevistou o juiz. À revisão do livro escapou uma penca de erros, a começar pelo título – Sergio Moro não usa acento agudo no prenome. Hoje execrado pela direita bolsonarista, o ministro Gilmar Mendes, do Supremo Tribunal Federal, é qualificado na obra como “a grande voz da sensatez naquela Corte”. Não é a única frase de efeito da biografia, que aconselha, em dado momento: “É possível despertar o Moro que existe dentro de você.”

Magnetizados pela proximidade das eleições, ativistas bolsonaristas começaram a encarar Reinaldo Azevedo como um traidor, por causa das críticas do jornalista a Moro e à Operação Lava Jato. “Reinaldo Azevedo não é mais um dos ícones” da direita antipetista, afirmou Hasselmann em um vídeo em fevereiro de 2017. “Agora ele arregaça as mangas para atacar os movimentos democráticos e qualquer um que minimamente divirja de suas ideias.” A resposta veio em uma gravação de 25 minutos em que Azevedo a chamou de louca, boba, maluca, “desinformada, preconceituosa, arrogante, malcriada”, além de representante da “direita chucra”, “do bolsonarismo asqueroso”. Ele continuou: “Você não leu bosta nenhuma, Joice. Você é uma coisa melancólica, Joice. Coisa patética, Joice. Aliás, os seus amigos da extrema direita tiram sarro de você, saiba disso.” E mais: “Sempre tive vergonha de ficar do seu lado, nunca reparou? […] Você é uma pessoa muito física, se impõe, gosta de encurtar distâncias. Não só eu como outras pessoas da Veja ficavam muito constrangidas com isso.”

Hasselmann resolveu processar Azevedo por crime de difamação, perdeu em primeira instância e recorreu.

Como Bolsonaro, a nova ativista se aproximou das comunidades judaica e evangélica – e assumiu a defesa de Israel. Em agosto de 2017, viajou a Jerusalém, segundo ela a convite da embaixada israelense e também da Comunidade Brasil-Israel, grupo comandado pela pastora evangélica Jane Silva. Plantou árvore na Terra Santa, “em nome do nosso país”, recebeu o título de “embaixadora extraordinária de Israel” (sem valor oficial) e defendeu a posição da direita mais radical em relação ao conflito judaico-palestino. “Israel não sobreviveria a dois Estados, até o [ex-presidente americano Barack] Obama defendeu essa besteira”, declarou.

Quando voltou de viagem, a jornalista Leda Nagle, que mantém um programa de entrevistas no YouTube, perguntou se Hasselmann era judia. “Eu não sei”, respondeu a ativista. Nagle quis saber a origem de seu sobrenome. “É para ser alemão, mas… Né? Alguns dizem judeu-alemão”, afirmou, sem mencionar o fato de o sobrenome Hasselmann ser do primeiro marido (o seu nome de solteira é Bejuska).

Em 2018, já candidata a deputada federal, ela voltou ao assunto ao dar uma entrevista ao canal da Associação Sionista Brasil-Israel (Asbi), entidade criada em 2017, sem vínculos com a comunidade judaica tradicional e que declara apoio a Bolsonaro. Hasselmann disse que o pai é ateu, mas que ela frequenta igrejas evangélicas desde a infância. “Recentemente descobri que sou judia”, revelou, explicando que o sobrenome de sua avó materna era o mesmo de um grupo de judeus do Rio Grande do Sul de pronúncia Colacjuc. “Como essa bênção é passada de mãe para filho, cá estou eu. Sou judia e sou cristã e não sei como faz, a gente mistura tudo e fica tudo ótimo.” No documento de identidade de sua mãe, o nome da avó está registrado como Ana Kolachinika e o do avô, José Miketen.

A ascensão de Hasselmann ganhou um novo capítulo quando Reinaldo Azevedo deixou o programa Os Pingos nos Is. Foi a ela que a rádio Jovem Pan, em São Paulo, decidiu recorrer. A ativista passou a fazer o programa junto com o antigo amigo Augusto Nunes e Felipe Moura Brasil (atual diretor de jornalismo da emissora). Lá, os três dividiam igualmente o microfone, que não tinha um âncora. Ao mesmo tempo, Hasselmann se dedicou à gravação da websérie Pensando Juntos, sobre ela mesma.

Na Jovem Pan, Hasselmann ficou mais à vontade do que nunca. Chegou a dar passos de samba enquanto Moura Brasil tocava pandeiro. “Vocês querem acabar com a minha carreira”, brincou ao microfone. Quando se despedia dos ouvintes porque ficaria uma temporada fora do ar, falava como comandante da atração. “Meninos, deixo o programa com vocês. Cuidem bem dele”, orientou, em certa ocasião. O tom de mando desagradou a Nunes, que, numa mensagem por WhatsApp, escreveu que ela fora deselegante. Semanas depois, Hasselmann repetiu o recado no programa. Aí ele se irritou. “Você não é nem jamais será minha chefe”, avisou. Pouco depois disso, em fevereiro de 2018, Hasselmann deixou o programa.

Em março, depois de dois anos rodando o país, a campanha de Jair Bolsonaro começava a deslanchar. Ele finalmente tinha escolhido o partido pelo qual disputaria a Presidência. Nas semanas seguintes, um batalhão de pré-candidatos seguiu o capitão reformado do Exército e ingressou no PSL. Entre eles, Joice Hasselmann, convidada pelo presidenciável para ser candidata ao Senado por São Paulo – proposta que irritou o então presidente do diretório paulista do PSL, Major Olimpio, decidido a disputar o mesmo cargo.

No Dia de São Jorge, 23 de abril de 2018, feriado no Rio de Janeiro, Bolsonaro e Hasselmann encontraram-se na casa de Flavio Bolsonaro. Foram horas de reunião, em que o candidato mais ouviu do que falou, e Hasselmann mais falou do que ouviu. Deu palpites de como Bolsonaro poderia melhorar sua imagem. Deveria mudar a forma de se vestir, usar laquê, arrumar os dentes. Em dado momento, o presidenciável quis escrever algo num papel e pediu emprestada a caneta da ativista. Depois de usá-la, colocou-a sem cuidado sobre a mesa. “Minha Montblanc de brilhantes!”, ela gritou.

Hasselmann discorreu sobre a necessidade de Bolsonaro, às voltas com acusações de machismo, contemplar o eleitorado feminino. Aventou-se que o presidenciável escolhesse uma mulher como candidata a vice. Bolsonaro disparou: “Você, claro” – o que foi interpretado por aliados como uma ironia. Também foram mencionadas a advogada Janaina Paschoal e Eliana Calmon, ministra aposentada do STJ (Superior Tribunal de Justiça). Hasselmann ainda se encarregou de convencer Michelle, mulher de Bolsonaro, a ter um papel ativo na campanha. Quando ela foi embora, o presidenciável estava visivelmente irritado.

Dois meses depois, em 15 de junho, o empresário Rodrigo Andolfato, presidente do PSL de Araçatuba, foi buscar Hasselmann e o marido de manhã no aeroporto da cidade no interior de São Paulo. Ele organizara um evento que teria a presença da jornalista e de Eduardo Bolsonaro. No caminho, Andolfato e Hasselmann falaram de política e do fato de o PSL não ter candidato a governador no estado. “São Paulo merece você, Joice”, exclamou o anfitrião. “Vou fazer uma surpresa no evento”, ele antecipou. No final de maio deste ano, rememorando a cena, o empresário lembrou a reação de Hasselmann. “Ela riu, acho que…”, e não completou a frase. “É uma mulher muito inteligente.”

À noite, em Araçatuba, a ativista vestiu uma bota de salto alto, calça preta colada ao corpo e uma camisa branca, desabotoada no decote. Sentou-se ao lado de Eduardo, em uma mesa no palco. Andolfato discursava. “Queria convidar você, Joice. Vem cá, Joice”, ele chamou. Hasselmann se levantou e se posicionou de pé ao lado do empresário, olhando-o. “Se nós vamos fazer de Jair Bolsonaro a ponta de um time completo, não é possível que o estado de São Paulo tenha que ser subserviente à esquerda”, pregou o empresário. “Então você tem a responsabilidade moral de aceitar o convite para…” Enquanto ele ainda falava, Hasselmann deu um passo para trás, abriu os braços com as palmas das mãos voltadas para o teto e olhou para Eduardo. “… o convite para ser candidata ao governo do estado de São Paulo, e eu peço uma salva de palmas”, completou Andolfato.

Rindo, Hasselmann levou as mãos à boca e pegou o microfone. “Gente, não se faz uma coisa dessas em público”, disse, dobrando o tronco para a frente e levando as mãos aos joelhos. Em seguida, reergueu-se e apontou para Eduardo. “Vocês têm alguma coisa a ver com isso?”, perguntou, sem tirar o sorriso do rosto. Respirou fundo. “A minha vida política está na mão do povo e do partido. Eu sou boa de briga, Rodrigo. E eu não entro para perder.” E, canhota, mostrou o muque esquerdo.

Coronel Tadeu, então candidato a deputado federal pelo PSL paulista que também estava na mesa, perguntou a Eduardo: “Estava sabendo?” O filho de Bolsonaro respondeu que não. Tadeu mandou um WhatsApp para Major Olimpio. Quando Hasselmann voltou ao seu lugar na mesa, Eduardo fitava-a sorrindo, imóvel.

Depois do evento, ela entrou ao vivo no canal Terça-Livre TV, no YouTube, por telefone, para falar de seus planos de governo. “Já havia uma conversa dentro do partido, fiquei sabendo disso tudo agora, tá? Precisavam de um candidato para não ficar neutro no maior estado brasileiro”, disse. Hasselmann criticou um por um os demais postulantes até chegar em João Doria. “Todo mundo sabe que eu acho o Doria uma pessoa bacana, simpática, isso e aquilo”, reconheceu. “Mas entre achar uma pessoa simpática e achá-la qualificada para governar o estado de São Paulo, há um abismo gigantesco, né?”

Na manhã seguinte, Eduardo Bolsonaro escreveu no Twitter: “O PSL de São Paulo nada deliberou sobre possível pré-candidatura estadual. Eu, como filiado, desautorizo minha imagem para promover qualquer ato em desacordo com o estatuto.” Horas depois, Major Olimpio publicou um vídeo carregado de ataques à correligionária. “Aqueles que acham que o partido é a casa de mãe Joana, que podem mandar e deliberar pela internet, vão cair do cavalo”, avisou. Ele via também digitais dela em notas de sites de notícia questionando sua candidatura ao Senado e o incomodava que ela jamais aparecesse na sede do partido para discutir pessoalmente o futuro eleitoral de ambos.

Em uma carta dirigida ao Major Olimpio na página dela no Facebook, dias depois, a jornalista disse esperar que ele não se apequenasse “pensando apenas na sua eleição a deputado federal, que é o que deve acontecer no final das contas”. E cutucou: “Como o senhor bem sabe, sou a pessoa mais conhecida depois dos Bolsonaros em São Paulo, tenho milhões de seguidores, ficha limpa, nunca estive em partido nenhum, muito menos em partidos de esquerda.”

Antes de se filar ao PSL, Major Olimpio passou pelo PDT e outras legendas. Hasselmann, por seu lado, tinha no currículo uma passagem pelo antigo Partido Popular Socialista, o PPS, em Curitiba. “Ela queria ser senadora ou governadora, nos procurou, nós tínhamos interesse em que fosse candidata”, contou o deputado federal Rubens Bueno, presidente da agremiação no Paraná.

As conversas não prosperaram. Segundo Hasselmann, a filiação foi feita à sua revelia. Quando o PPS mudou o nome para Cidadania, em março de 2019, a ex-filiada foi ao Twitter. “O partido ainda consta como membro do Foro de São Paulo, no site da organização”, provocou. O foro, evento para discussões da esquerda latino-americano criado em 1990, é visto pela extrema direita como uma conspiração para implantar o comunismo no continente.

Nas semanas que antecederam a campanha de 2018, Major Olimpio vivia furioso com Hasselmann. Queria expulsá-la do PSL e, com o apoio de Eduardo, levou o pleito a Bolsonaro. Como desenvolvera certa resistência à jornalista desde a conversa na casa do filho, em abril, o presidenciável comprou a briga. O advogado Gustavo Bebianno, presidente nacional do PSL à época, ponderou então que o desligamento da ativista poderia trazer prejuízos eleitorais ao grupo. Hasselmann havia mandado recados de que, caso o partido rompesse com ela, não deixaria barato. Bebianno foi a São Paulo e a convenceu de que a melhor opção, dado o cenário conflagrado, seria disputar uma vaga a deputada federal.

“Não tive como negar, eles precisam de mim para puxar voto”, justificou Hasselmann aos mais próximos. “Puxa, amiga”, respondeu a também ativista Carla Zambelli, “com você saindo a deputada, fico até em dúvida se voto em mim ou em você.” As duas se conheciam desde 2015, quando Hasselmann entrevistou Zambelli, fundadora do movimento Nas Ruas, para a Veja. Quando começaram as manifestações a favor do impeachment de Dilma, as duas se uniram. Dividiram carros de som na avenida Paulista, passeavam com os respectivos filhos em shoppings e dormiam uma na casa da outra. Ambas se filiaram ao PSL e disputariam uma vaga na Câmara.

Entre as pessoas próximas de Hasselmann, criou-se a expectativa de que Zambelli aceitaria concorrer à Assembleia Legislativa de São Paulo para não competir com a amiga. Mas a líder do movimento Nas Ruas não cedeu. Em agosto, Bolsonaro organizou uma caravana pelo interior paulista, onde ele tinha grande vantagem nas pesquisas eleitorais. Os postulantes do PSL a cargos legislativos queriam colar sua imagem à do presidenciável. Costumava haver empurra-empurra nos palanques para ver quem estaria junto com o candidato. Hasselmann estava sempre perto, fazendo os deslocamentos de uma cidade a outra em seu carro. Filmava Bolsonaro ao seu lado, sentava-se perto dele nos jantares e chegou a ser confundida com a futura primeira-dama. Zambelli, por sua vez, não conseguiu ter o mesmo acesso. Chegou a ser vetada em um carro de som na caravana, e Bolsonaro mal olhava para ela. As duas amigas se afastaram.

Terminado o tour, Hasselmann fez uma transmissão ao vivo nas redes sociais. “As únicas candidaturas [em São Paulo] que o Jair está chancelando, de fato, são a do filho Eduardo Bolsonaro para federal, a minha, Joice Hasselmann, para federal, e a da Janaina Paschoal para estadual”, anunciou. O vídeo repercutiu entre os outros 65 candidatos a deputado federal do PSL no estado. Um deles, o ator Alexandre Frota, a insultou, como havia feito antes (“biscate” e “vale nada” foram duas das expressões que usou). Ela rebateu: “Grosseiro, quinta categoria, ator pornô.” Hasselmann, depois, apagou o vídeo, mas o estrago estava feito.

Na transmissão, a candidata aproveitava para informar os eleitores que ela e Janaina Paschoal eram uma dupla eleitoral – uma “dobrada”, no jargão político. No início de setembro, a jornalista havia telefonado para Paschoal dizendo que “a ajudaria” e imprimiria 1 milhão de “santinhos” (propaganda eleitoral com a imagem do candidato e o número de urna) das duas juntas. Paschoal resistiu, argumentando que preferia ter controle sobre o seu material de propaganda política para facilitar a prestação de contas mais tarde. Dias depois chegou a seu escritório um pacote de santinhos com o rosto dela e de Hasselmann. A advogada dispensou todos, dando-os ao porteiro. A dobrada de Paschoal era com Zambelli.

Hasselmann arrecadou 263 mil reais para sua campanha, dos quais 100 mil reais foram repassados pelo PSL – antes de se lançar candidata, ela tachava o fundo eleitoral de “grande golpe no nosso bolso”. Nas eleições de outubro de 2018, conquistou 1.078.666 votos – a segunda maior votação para deputado federal no país, depois de Eduardo Bolsonaro (com 1.843.735). Zambelli recebeu 22 mil reais do partido, de uma receita total de 518 mil reais, fez 76 306 votos e também foi eleita.

No dia da votação, Hasselmann cobrou a fatura: afirmou que o seu desempenho era responsável pela eleição de Zambelli – pelo sistema proporcional vigente, os candidatos que obtêm votação superior à necessária para se eleger legam o excedente de seus votos aos colegas de coligação (são, por isso, chamados de “puxadores de voto”). Contrariada com a declaração da ex-amiga, Zambelli foi às redes sociais e mandou seu recado. Em um vídeo agradeceu a Eduardo Bolsonaro, dizendo que o desempenho dele foi suficiente para eleger outros cinco candidatos, sendo ela, no seu cálculo, a quinta. “Tem gente que não sabe fazer conta, está dizendo que me puxou. Não foi, não, tá? Foi o Eduardo Bolsonaro”, alfinetou Zambelli.

Passado o calor da campanha eleitoral, as duas deputadas federais tentaram marcar uma conversa, mas se desencontraram. Na Câmara, Zambelli é uma expoente da ala bolsonarista da bancada do PSL, enquanto Hasselmann se firmou como aliada de Rodrigo Maia. Desde o início do ano, a cada votação, as divergências entre os grupos passaram a se tornar mais evidentes. Foi em maio último, porém, que a situação se agravou. Hasselmann se posicionou contra um protesto endossado pela família Bolsonaro em defesa do governo e contra o Congresso. Zambelli apoiou o ato e mais: foi às redes expressar as críticas bolsonaristas a Hasselmann. “Você vai explicar por que está defendendo o Centrão? Por que suas redes só servem para fazer campanha para 2022?”, cobrou. “Jair Bolsonaro que abra o olho com você.”

Hasselmann não deixou barato. “Você é aquela que ninguém do PSL queria. Que EU tive que filiar e que me arrependo PRODUNDAMENTE. Filiei, dei meus votos e agora vejo meu erro em apostar em uma farsa.” As duas deixaram de se olhar nos olhos. A distância, Zambelli acompanha os movimentos do seu desafeto para se lançar à Prefeitura de São Paulo. “Faria campanha para ela”, afirmou à piauí, no cafezinho da Câmara. “O perfil da Joice é de Executivo. Lá, pode comandar e fazer tudo do jeito que quiser.”

Assim que começou o ano, deputados com trânsito político constataram que Hasselmann “engoliu Vitor Hugo”, o líder do governo na Câmara, nas articulações mais importantes da Casa. Homem da confiança de Bolsonaro, o deputado não demonstrou autonomia nas negociações, enquanto a colega, mesmo sem procuração formal do Planalto, com poucos telefonemas liquidou os problemas. Major Vitor Hugo tentou formar um núcleo de apoio ao governo reunindo o PSC, o Novo, o Patriotas, o Cidadania, o Pros, o Podemos e o PV, além do PSL. Foi eclipsado pela base de Maia, que encontrou em Hasselmann um canal para que as demandas dos deputados, como a liberação de emendas parlamentares, chegassem ao Planalto.

“Não quero acirrar qualquer problema com a Joice, mas, em certos casos, ela tem posicionamento contrário ao da maioria do partido”, disse Major Vitor Hugo. Não é uma questão apenas de conteúdo, mas também de forma. Deputados do PSL a consideram arrogante. Especialmente entre as mulheres, causa espécie o desembaraço com que ela se lança para abraçar as pessoas.

Em maio, o ministro da Educação, Abraham Weintraub, foi convocado pelo plenário para explicar sobre cortes na área. Hasselmann não desgrudou dele durante toda a sessão. Foi ela que o escoltou da entrada do Congresso à Mesa Diretora. Mascando chicletes, apontou o assento do ministro e sentou-se ao lado dele. Major Vitor Hugo assistia ao depoimento em pé, de braços cruzados. “Ela estava agindo quase como uma segurança do ministro, e esse não é meu papel”, disse o líder do governo na Câmara, na semana seguinte. “Alguém veio me perguntar se isso me incomodava. Não me incomoda. Porque o meu papel foi ligar no dia anterior para os líderes, articular um acordo que equilibrasse palavras contrárias e favoráveis. Isso é articulação real. Agora, aparecer ali na frente é indiferente para mim, entendeu?”

“Se deixar, a Joice pega o lugar de todo mundo”, me disse Rodrigo Maia, em junho. “Ela gosta de poder. Trabalha vinte horas por dia e faz direito. Cumpre acordo”, afiançou. A confiança do presidente da Câmara na deputada não aconteceu de graça. Na transição, Maia suspeitava do apoio de deputados do PSL, como Hasselmann, à sua reeleição, dada a tentativa anterior do governo para ter um aliado no comando da Casa. Mas também sabia que o futuro ministro da Economia, Paulo Guedes, defendia seu nome, assim como o governador João Doria – duas pessoas com as quais Hasselmann tinha boas relações.

No PSL, o grupo de Hasselmann argumentava que era preferível negociar e vencer que entrar em atrito e perder. A deputada não fazia qualquer rodeio antes de aparecer na residência oficial do presidente da Câmara, com ou sem convite, para as reuniões de políticos, buscando empregar a língua dos seus pares. Em um ambiente dominantemente masculino, palavrões e piadas entravam pelos ouvidos de Hasselmann com a mesma facilidade com que saíam de sua boca. Por fim, ela tornou-se um deles, à medida que deixou de ser vista como uma “bolsonarista raiz”.

“Ela perdeu a confiança deles [dos deputados do PSL], porque passou a fazer política. Eles não querem fazer política”, interpretou Maia. “Ela tem prestígio na Câmara. Nem [o líder do PSL, Delegado] Waldir nem Vitor Hugo têm perfil agregador.” Dos três, Hasselmann é a única que transita entre o Planalto, a Esplanada e a cúpula do Congresso.

Foi a deputada quem restabeleceu o diálogo entre Maia e Sergio Moro, no final de março, depois que o presidente da Câmara chamou o ministro da Justiça de “funcionário do Bolsonaro”. A líder marcou um café da manhã na residência oficial do deputado e saiu de lá com fotos em que os três apareciam sorrindo, embora de maneira contida. Postou as imagens nas redes sociais, anunciando um acordo para acelerar a tramitação do pacote anticrime de Moro. Passaram-se meses até que o projeto avançasse – mas na direção contrária à desejada pelo ministro.

Em um almoço no final de junho, no gabinete presidencial, conversavam Bolsonaro, Hasselmann, Major Vitor Hugo e o líder do governo no Senado, Fernando Bezerra Coelho (MDB-PE). O senador Flavio Bolsonaro (PSL-RJ) chegou no meio da refeição, cujo cardápio era o habitual do Palácio do Planalto: salada, legumes, arroz, feijão, uma opção de carne ou peixe e, como sobremesa, frutas ou pudim. Os políticos terminavam o almoço quando a conversa derivou para a eleição de 2020 e, em particular, para a Prefeitura de São Paulo. “Aí [Jair] Bolsonaro brincou comigo. Ele falou: ‘Acho que a loira mais inteligente do Brasil vai administrar o terceiro maior orçamento do país’”, contou Hasselmann na saída. O presidente tem dificuldade de pronunciar o sobrenome da deputada, colocando um “l” a mais na primeira sílaba – Halsselmann. “Eu respondi: ‘Presidente, sou soldado. O que mandar, estou indo.’” Antes de seguirem para uma solenidade no segundo andar, a deputada o abordou. “Vou descer, e a imprensa vai perguntar. Ele falou: solta essa para a imprensa e vamos ver.”

Minutos depois, Hasselmann relatava aos jornalistas o diálogo à mesa. “Hoje foi muito importante porque, até o presidente se manifestar, para mim era uma saia justa”, afirmou ao grupo de repórteres que a rodeava. Ela comemorava o apoio público do presidente, mas a vitória durou pouco. Semanas depois, Bolsonaro disse que não encampava candidatura nenhuma. A proximidade da deputada com João Doria é sempre citada por adversários como motivador da desconfiança do presidente. O governador paulista a tem como aliada, mas o PSDB deve lançar o prefeito Bruno Covas à reeleição.

Nas eleições de 2018, Hasselmann se dedicou intensamente à campanha do tucano no segundo turno. Doria reconhece a dívida. “Na primeira reunião que tivemos depois da eleição, o João disse para Bolsonaro: ‘Parte dessa vitória eu devo a essa guerreira aqui do meu lado’”, contou-me a deputada. Em sua Caravana da Previdência, Hasselmann foi recebida em pelo menos quatro cidades em eventos do Lide, o grupo empresarial fundado por Doria. A deputada trabalha, nos bastidores, para conseguir um apoio velado do governador em 2020. Numa projeção otimista, ela calcula que derrotará Covas no primeiro turno e chegará ao segundo com um oponente de esquerda. Sem um tucano no páreo, Doria então poderia declarar adesão à candidatura dela.

Políticos tucanos e assessores de Doria no PSDB resistem a Hasselmann, pois a consideram “espaçosa” e pouco confiável. Mas admitem que o governador tem simpatia pessoal pela deputada. “Conheci a Joice Hasselmann há cerca de quatro anos”, afirmou Doria por escrito. “Sempre fui seu admirador e seguidor nas redes sociais. No período da campanha eleitoral para o governo de São Paulo, Joice se posicionou clara, aberta e decididamente a nosso favor, independente das posições de seu partido, o PSL. Essa relação se fortaleceu e assim continuará.” Perguntei a ele qual futuro político enxergava para Hasselmann. “Joice já tem presença brilhante no Congresso Nacional, se tornou líder respeitada. Ao longo dos anos, continuará crescendo, ganhando ainda mais respeitabilidade e dimensão política”, respondeu.

O ministro-chefe da Casa Civil, Onyx Lorenzoni, disse que Bolsonaro confia em Hasselmann, apesar da proximidade que ela mantém com o governador de São Paulo. “Isso é mais uma tentativa de cizânia. Ela é uma parlamentar aguerrida, uma pessoa séria, honra seus acordos”, descreveu Lorenzoni. Os desentendimentos da líder com Eduardo Bolsonaro “são um outro problema, não têm nada a ver com o governo”, afirmou. “Hoje a equipe que trabalha no governo é muito coesa. Por mais que setores da imprensa tentem criar a cizânia, não vão conseguir, inclusive o teu veículo”, disse Lorenzoni. “A piauí sempre tem uma posição contrária à gente e sempre tentou criar problemas para a gente.”

Joice Hasselmann usava um vestido laranja de seda transparente na tarde de setembro em que recebeu a equipe da piauí em seu apartamento de 225 metros quadrados em Brasília. Manicure e cabeleireiro já tinham deixado o local. Ela perguntou o que deveria vestir para a sessão de fotos. Foi para o quarto e voltou em um vestido preto colado ao corpo com decote cavado. Nas mãos trazia cabides com três opções de figurino: um macacão preto, “meu clássico”, um vestido azul-marinho, “que parece de menininha, mas não é”, e uma camisa branca com mangas de renda.

Começou com o macacão e um sapato vermelho de salto agulha da grife francesa Christian Louboutin. O fotógrafo pediu para clicá-la com o gato, chamado James Bond. “Não sei. Paga cachê?”, respondeu com voz de bebê, enquanto acariciava o focinho do seu felino.

Na sala de jantar, havia uma garrafa de espumante francês Moët & Chandon e outra de azeite extravirgem espanhol Marqués de Tomares, além de dois pratos sujos. “A cena do crime”, ela apontou, mencionando o foie gras que havia degustado na véspera com o marido.

Duas poltronas de couro marrom e três sofás de camurça pretos compunham a sala de estar. O único livro exposto era um presente de Salim Mattar, fundador da Localiza e secretário de Desestatização do Ministério da Economia. Hasselmann folheou o catálogo de cavalos árabes do haras Sahara, do empresário mineiro, elogiando a raça. Ela contou que monta. “O que eu não faço?”

Modelo dos 8 aos 16 anos, Hasselmann mostra gosto pelas câmeras. Ao posar na sala de jantar, tirou o sapato Louboutin do pé e o colocou em cima da mesa. Disse que o salto agulha representava o feminino e a cor vermelha fazia alusão ao PT. “Quando pisa, machuca muito”, resumiu.

No dia a dia, o salto alto se tornou artigo de luxo para ela. A deputada prefere agora usar sapatilha rasteira para transitar pelos Poderes da República. “Você conhece alguém que trabalhe mais que eu? Eu te desafio”, ela me disse. “Não estou falando isso para me exibir. Tive que descer do salto.”


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Foi repórter da piauí. Na Folha de S.Paulo, foi correspondente em Nova York e repórter de política em São Paulo e Brasília