questões médicas
Thomas Hager Fev 2020 07h03
33 min de leitura
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Existem milhares de drogas disponíveis, mas só uma é conhecida universalmente como “a pílula”. É uma droga estranha: não alivia sintomas, como os analgésicos, nem salva vidas, como os antibióticos. O seu desenvolvimento tem raízes tanto na pesquisa médica como no ativismo social, e sua importância para a saúde não é nada perto do seu enorme impacto cultural. A pílula revolucionou os hábitos sexuais, abriu uma vasta gama de oportunidades para as mulheres e – como praticamente nenhum outro remédio conseguiu fazer – mudou o nosso mundo.
Antes da pílula, os prazeres do sexo eram quase inevitavelmente ligados à concepção. A criação da vida ainda era vista por muitas pessoas como algo relacionado tanto à esfera divina quanto à medicina. Isso não impediu que, ao longo da história, pessoas tentassem romper a ligação entre fazer sexo e ter filhos. Na China antiga, as mulheres bebiam soluções de chumbo e mercúrio para tentar impedir a gravidez. Na Grécia clássica, sementes de romã eram usadas como anticoncepcional (prática associada à deusa Perséfone, que comeu uma semente de romã quando estava aprisionada no submundo, o que a obrigou a retornar ao Hades durante seis meses por ano, gerando os meses inférteis do inverno). Mulheres europeias na Idade Média penduravam testículos de doninha nas coxas, usavam grinaldas de ervas, amuletos de ossos de gatos; experimentavam infusões e uguentos misturados com sangue menstrual; caminhavam três vezes ao redor de um lugar onde uma loba grávida houvesse urinado – tudo na esperança de impedir a gravidez. Não apenas porque a gravidez e o parto fossem as principais causas de lesões e morte entre as jovens, ou porque a gravidez fora do casamento fosse um pecado. Engravidar significava o fim da independência, uma restrição de oportunidades e o começo da responsabilidade doméstica que duraria a vida toda. Tudo que pudesse evitar isso, não importa quão absurdo, valia a pena.
Mesmo depois de os cientistas entrarem em cena, a situação não melhorou muito. Nos séculos XVIII e XIX, a biologia da gravidez – tudo o que ocorria dentro do ventre da mulher durante os nove meses entre a concepção e o parto – era uma caixa-preta, um mistério quase absoluto. A gravidez em si podia ser evitada pela abstinência de sexo, é claro. Mas, fora isso, os únicos êxitos em prevenir a concepção eram alcançados ao equipar homens de protótipos de camisinhas, profilácticos pouco confiáveis, feitos de tudo, desde intestinos de ovelha picados a sacos de linho amarrados ao redor do pênis com fitas coloridas.
Em 1898, Sigmund Freud escreveu: “Teoricamente, um dos maiores triunfos da humanidade seria elevar a procriação a um ato voluntário e deliberado.” Ele falou em nome de um número cada vez maior de especialistas que, na virada do século XX, enxergavam bons motivos para o controle da natalidade: a ameaça crescente de fome em massa devido ao excesso populacional, um movimento cada vez maior a favor da igualdade de direitos para as mulheres, e um desejo de muitos líderes de racionalizar e dominar o que pareciam ser impulsos incontroláveis, com resultados indesejados – e isso incluía o sexo.
Entre as pessoas deste último grupo estavam os representantes da Fundação Rockefeller nos Estados Unidos, que na década de 1930 começaram a investir parte dos seus enormes recursos financeiros na nova área de biologia molecular. Um dos motivos pelos quais esse esforço mobilizava tanto os empresários quanto os cientistas era que prometia uma melhor compreensão da relação entre biologia e comportamento. “Psicobiologia” era uma das palavras do momento.
Havia muitas razões para fazer esse investimento. Os anos entre as duas guerras mundiais foram de agitação política e social, depressão econômica e uma preocupação crescente com a ameaça comunista, a criminalidade urbana, o declínio moral e o desgaste dos laços sociais. Os representantes da Fundação Rockefeller queriam compreender melhor o papel da biologia, encontrar as raízes genéticas da criminalidade e da doença mental, tornar claras as ligações entre moléculas, ações e emoções. O que estava em jogo era mais que pura ciência; os homens poderosos que dirigiam e aconselhavam a fundação também queriam usar o que aprenderam para criar um mundo mais racional e menos impulsivo, menos apto a desmoronar – e, como benefício adicional, um mundo mais favorável aos negócios. Os primeiros passos no mundo do controle biológico e social – passos um tanto quanto desconcertantes – foram incluídos pela fundação num programa que batizaram de “A ciência do homem”, no final dos anos 1920. Como escreve a historiadora da ciência Lily Kay: “A motivação por trás do enorme investimento na agenda política [da Fundação Rockefeller] era desenvolver as ciências humanas como uma moldura compreensiva, explicativa e aplicada de controle social com base nas ciências naturais, médicas e sociais.”
Entre as muitas coisas que a fundação financiou estavam as investigações sobre a biologia do sexo. Hormônios sexuais apenas começavam a ser compreendidos. Todos sabiam que, na puberdade, o corpo humano passava por grandes mudanças, adquiria pelos em novos lugares, tornava-se fértil e desenvolvia um fascínio pelo sexo. Muitas dessas transformações pareciam ser moderadas por moléculas no sangue que transportavam mensagens das glândulas para outros sistemas do organismo. Essas moléculas – hormônios – começavam a se infiltrar na puberdade e então viravam uma baderna absoluta nas mulheres durante a gravidez. Nas décadas de 1920 e 1930, os pesquisadores apenas começavam a entender por que e como isso tudo acontecia, e quais eram os principais agentes.
Uma dica importante veio de Ludwig Haberlandt, um fisiologista austríaco magro, intenso e bigodudo que usou os fundos da Fundação Rockefeller para financiar o seu trabalho de pesquisa sobre os hormônios. Por exemplo: nos anos 1920, era bem sabido que, após engravidar, uma mulher não engravidaria de novo até que desse à luz. Em termos científicos, ela ficava temporariamente estéril. Quando grávidas, fêmeas param de ovular (de liberar ovos para serem fertilizados). Haberlandt descobriu que podia fazer isso acontecer no laboratório, sem a gravidez, ao transplantar para cobaias fêmeas, que não estavam prenhes, pedaços de ovários das grávidas. Esses pedaços de tecido pareciam liberar algo, uma espécie de mensageiro químico – Haberlandt achou que fosse provavelmente um hormônio – que impedia a ovulação. Ele fez com que as cobaias fêmeas ficassem temporariamente estéreis. E ele sabia muito bem qual era seu objetivo: isolar aquele hormônio, purificá-lo e produzir uma pílula anticoncepcional.
Mas ele era um homem à frente do seu tempo. Os laboratórios relativamente primitivos e as tecnologias químicas disponíveis no final da década de 1920 não estavam aptos ao estudo biomolecular no nível de sofisticação necessário; essa falta de boas ferramentas e o estágio inicial da pesquisa científica sobre a química da gravidez diminuíram a velocidade da empreitada. Isso não o impediu de publicar suas ideias. Em 1931, ele escreveu um livro curto que delineava, “em detalhes incomuns”, de acordo com um especialista, “a revolução anticoncepcional de cerca de trinta anos mais tarde”. Haberlandt é frequentemente chamado de “o avô da pílula”.
Naquele tempo, seu trabalho gerou uma enxurrada de críticas na Áustria. “Acusado de um crime contra a vida dos nascituros”, escreveu sua neta, “foi pego no fogo cruzado das ideias morais, éticas, eclesiásticas e políticas da época.” Virou alvo daqueles que acreditavam que a procriação era trabalho de Deus, não algo que os humanos devessem tentar controlar. Um ano após a publicação de seu livro tão presciente, Haberlandt se suicidou.
Outras pessoas deram continuidade ao trabalho. Dentro de poucos anos, nada menos do que quatro grupos de pesquisa isolaram a molécula que ele buscara, o hormônio progesterona. Outros pesquisadores deram prosseguimento à descoberta, tentando compreender como esse hormônio agia no corpo. Durante a década de 1930, cientistas entenderam como são gerados a progesterona e outros hormônios sexuais, como a testosterona e o estradiol. Estão relacionados. Fazem parte da família química dos esteroides e são todos formados por anéis de carbono de cinco e seis lados, com diferentes cadeias laterais encaixadas. Químicos estudiosos dos esteroides chamam os anos 1930 de a “década dos hormônios sexuais”. Então veio a Segunda Guerra Mundial, deslocando as prioridades de pesquisa para as necessidades militares. O investimento diminuiu, e a pesquisa foi freada. No período imediatamente posterior à guerra, o importante era ter muitos filhos, não impedir nascimentos. Um dos poucos cientistas que continuaram trabalhando bastante com a questão química da contracepção foi Gregory Pincus, um dos fundadores de um grupo de pesquisa privado, a Fundação Worcester de Biologia Experimental, em Massachusetts, em 1944. Assim como Haberlandt, Pincus e seu colega Min Chueh Chang, um imigrante chinês, estavam fascinados pelos hormônios que podiam interferir na ovulação.
No início da década de 1950, seus esforços receberam um grande impulso de energia e dinheiro graças ao trabalho de uma ativista social chamada Margaret Sanger. Essa figura lendária conquistou notoriedade mundial por sua luta pelos direitos das mulheres, especialmente o direito ao voto e ao controle de natalidade. Ela foi presa após abrir a primeira clínica de controle de natalidade nos Estados Unidos em 1916, lutou nos tribunais pela sua causa, fundou a organização que se tornaria, mais tarde, a Planned Parenthood [Paternidade Planejada] e incentivou outras mulheres a se unirem a ela. O trabalho dela recebeu apoio de uma velha amiga, Katharine McCormick, igualmente dedicada aos direitos das mulheres e herdeira da imensa fortuna da International Harvester Company, fabricante de máquinas e veículos. Uma das mulheres mais ricas do mundo, McCormick destinou boa parte do seu dinheiro às causas defendidas por Sanger.
Sanger e McCormick, que estavam na faixa dos 70 anos, entraram em contato com Gregory Pincus em 1951. As duas mulheres sentiam que havia chegado a hora de fazer um esforço final e definitivo para criar um anticoncepcional. Elas queriam acabar com os abortos de fundos de quintal, tornar o controle de natalidade seguro, confiável e acessível em termos financeiros, e acreditavam que as mulheres, e não os homens, deveriam decidir se e quando engravidariam.
Não ia ser fácil. Os Estados Unidos eram a terra das Leis Comstock, um pacote de medidas elaborado em 1873 com o objetivo de reprimir a difusão de literatura obscena e “artigos de uso imoral”. As Leis Comstock tinham sido usadas em 1916 para fechar a primeira clínica de planejamento familiar de Sanger no Brooklyn, apenas dez dias depois de aberta. Por décadas, Sanger e McCormick combateram os sucessivos ataques baseados nas Leis Comstock, uma paixão legislativa em nível estadual e local que visava erradicar todas as formas de comportamento imoral e obsceno. As leis foram usadas para banir a venda de anticoncepcionais em 22 estados, e para tornar ilegal em trinta estados a exibição de propagandas de controle de natalidade. Em Massachusetts, onde Pincus pesquisava, dar uma só pílula anticoncepcional a uma mulher podia resultar numa multa de mil dólares ou cinco anos de cadeia, por causa das Comstock. E as leis também proibiam a realização de testes de controle de natalidade no país.
Sanger e McCormick foram à guerra contra o sistema. Se fosse preciso, questionavam as leis e buscavam caminhos alternativos. E financiaram a ciência necessária para que o controle de natalidade funcionasse. Depois de alguma discussão com Pincus sobre a possibilidade de controles químicos para a gravidez, Sanger aderiu à pesquisa que ele fazia, e McCormick passou a apoiar o trabalho dela na Fundação Worcester. O investimento financeiro fez o trabalho de Pincus evoluir mais rapidamente. Ele se reuniu com John Rock, um ginecologista que também pesquisava hormônios sexuais, e passou a se concentrar na progesterona como uma via para desenvolver uma pílula anticoncepcional.
Desde o início houve problemas. Um deles era que a progesterona, produzida em pequenas quantidades nos ovários dos animais, era difícil de colher e purificar. Muitas vacas, ovelhas e outros animais tiveram que ser sacrificados para extrair um pouquinho do hormônio, o que tornava a progesterona pura muito cara – 1 grama desta substância custava mais caro que 1 grama de ouro.
Um segundo problema é que a progesterona não se deslocava de forma muito eficiente do estômago para a corrente sanguínea. Por ingestão, quase nada da substância era absorvida pelo corpo. Isso significava que seria difícil fazer comprimidos. Se quisessem usar uma pílula de controle de natalidade, teriam que encontrar alguma espécie de substituto químico.
A resposta para a primeira questão – a escassez e o custo da progesterona – veio do México, onde uma pequena empresa farmacêutica chamada Syntex encontrou um meio de purificar esteroides a partir de uma cepa local de inhame gigante. A Syntex tinha sido fundada em 1944 por um químico norte-americano de esteroides. Pioneiro e criativo, Russell Marker (“um sujeito valente”, como disse certo colega), estava trabalhando em métodos para transformar esteroides de plantas (plantas também fabricam esteroides, mas estes precisam ser alterados quimicamente para serem ativos nos humanos) em produtos mais valiosos. Ele percorreu o mundo em busca de plantas que produzissem grandes quantidades da matéria-prima de que precisava. No final de 1941, encontrou o que procurava num livro de botânica: uma planta estranha que havia perto de certo riacho no México. A imagem que acompanhava o texto mostrava uma raiz que se projetava acima do solo. Os nativos a chamavam de cabeza de negro, uma espécie de inhame mexicano com um tubérculo do tamanho da cabeça de uma pessoa – ou maior. Uma só raiz podia pesar mais de 90 quilos. Marker foi para a Cidade do México, pegou uma série de ônibus lotados e ruidosos até Córdoba, e no caminho cruzou o riacho do qual ouvira falar. Perto do riacho havia uma loja. Marker convenceu o dono a ajudá-lo a encontrar amostras de cabeza de negro.
Localizou-as, mas o resto foi meio que um fiasco: ele não tinha licença para colher as plantas; mesmo assim, juntou algumas raízes, porém suas amostras foram roubadas; teve de subornar um policial para reaver uma única raiz que pesava 22 quilos. Ele a contrabandeou para os Estados Unidos e começou a testá-la. A planta produzia boas quantidades da matéria-prima necessária. Marker descobriu uma maneira nova de transformar esse material em progesterona. E começou a procurar uma empresa farmacêutica grande o suficiente para financiar seu esquema de produção de progesterona e outros esteroides a partir da cabeza de negro.
Ninguém mordeu a isca. Então Marker e outros parceiros abriram a própria empresa, a Syntex, no México. Ele botou o dono da loja para coletar e secar cerca de 10 toneladas da raiz. Depois conseguiu pessoas para extrair o material que desejava. E acabou com 3 quilos de progesterona – a maior quantidade já produzida até então –, uma pequena fortuna em hormônios.
Com essa abundância de progesterona disponível, abriu-se uma porta para a pesquisa, e esta se acelerou.
O passo seguinte foi colocar o hormônio que bloqueia a ovulação na corrente sanguínea. Cientistas da Syntex passaram a fazer experimentos, criando novas versões sintéticas da progesterona. Uma delas, chamada progestina, agia como a progesterona, impedindo a ovulação, e conseguia (o que era mais importante) passar incólume pelo estômago, o que a tornava muito ativa quando ingerida por via oral.
Essa era quase a última peça do quebra-cabeça. Mas ainda faltava algo. Estudos com animais mostraram que a progestina, embora eficaz, também era potencialmente perigosa, porque às vezes desencadeava sangramento uterino anormal. A solução veio de outro desses acidentes que parecem acontecer com frequência na pesquisa de remédios, quando os pesquisadores notam alguma coisa intrigante e então tentam desvendar o enigma. O paradoxo era o seguinte: quando estavam purificando os hormônios semelhantes à progestina, descobriram que, quanto mais puros eram os preparos – ou seja, quanto mais cuidadosos eram ao filtrar todas as substâncias contaminantes –, pior era o sangramento. Isso não fazia o menor sentido, a não ser que, talvez, houvesse um contaminante que inibisse o sangramento. Então voltaram a estudar as preparações mais antigas e menos puras, e descobriram que elas tinham uma pequena quantidade de outro hormônio, o estrogênio. Testes posteriores provaram que um pouco da molécula de estrogênio, aliada à progestina, ajudava a controlar o sangramento. Isso virou parte da receita da pílula.
Reunindo toda essa informação, Pincus e outros pesquisadores financiados por Sanger em Worcester pensaram ter finalmente encontrado a solução: uma pílula de controle de natalidade que permeava o intestino e liberava o medicamento na corrente sanguínea, composto em sua maior parte de uma versão da progestina, com um toque de uma variação sintética do estrogênio, que impedia o sangramento. Tinha chegado a hora de realizar os testes clínicos em mulheres.
O último desafio foi de caráter legal. Não podiam testar o anticoncepcional em mulheres nos Estados Unidos por causa das leis contra a ministração de contraceptivos. Se Pincus e Rock quisessem fazer testes em humanos, precisariam ir a um local fora da jurisdição das Leis Comstock. Foram a Porto Rico, que oferecia, como um historiador resumiu, “uma mistura perfeita de excesso de população e nenhuma lei proibitiva”. Lá, na primavera de 1956, no conjunto habitacional Río Piedras, a primeira versão experimental da pílula anticoncepcional foi distribuída a centenas de mulheres.
Os testes de Porto Rico viraram uma espécie de escândalo. Mulheres receberam o remédio sem as informações adequadas sobre os possíveis efeitos colaterais (até porque se sabia pouco sobre o assunto) e sem nenhuma chance real de uma autorização depois de adequado esclarecimento. Após o início dos testes, quando as mulheres começaram a relatar dores de cabeça, náusea, tontura e coágulos de sangue, muitos desses casos pessoais foram descartados como provenientes de “historiadores não confiáveis”. O próprio Pincus deixou de lado muitos relatos de efeitos colaterais menores, considerando-os resultado de “hipocondria”. Mas os efeitos colaterais eram verdadeiros. Uma mulher porto-riquenha morreu de ataque cardíaco durante os testes.
Para Pincus e outros pesquisadores, a questão do consentimento era menos importante do que o fato de a pílula funcionar de forma brilhante. A FDA [Food and Drug Administration, órgão norte-americano responsável pela regulação de medicamentos] foi rápida em aprovar o Enovid (o nome comercial dessa primeira fórmula) em 1957, mas não para a prevenção de gravidez. Para conseguir desviar das Comstock, a ideia de impedir a gravidez era evitada ou considerada um efeito colateral. O remédio foi oficialmente aprovado para regular a menstruação – uma classificação que era precisa e evitava a menção ao controle de natalidade, tornando-o assim disponível mesmo nos estados onde vigoravam as Leis Comstock. Em 1960, quando a FDA finalmente deu a aprovação oficial para que a pílula fosse usada para o controle de natalidade, centenas de milhares de mulheres já a tomavam. E, depois da aprovação completa, o uso da droga realmente disparou. Em 1967, 13 milhões de mulheres ao redor do mundo já haviam consumido algum tipo de pílula anticoncepcional. O número de usuárias hoje, quando estão disponíveis fórmulas muito mais aprimoradas, ultrapassa 100 milhões.
As atuais versões da pílula foram desenvolvidas, em parte, para lidar com os efeitos colaterais, como os problemas de coração nas mulheres jovens, incluindo um aumento significativo no risco de ataque cardíaco. Embora o número total de mulheres com doenças graves no coração ainda fosse relativamente pequeno – em boa parte porque, para início de conversa, os ataques cardíacos são raros entre jovens –, o aumento do risco era muito real. Doenças cardíacas e coágulos sanguíneos levaram a Noruega e a União Soviética a banir a venda da pílula em 1962. O problema, embora se manifeste de maneira menos severa com as novas fórmulas, ainda existe, e ninguém sabe ao certo por quê. Como escreveu recentemente um especialista, “ainda continua o debate sobre os efeitos exatos de diferentes contraceptivos hormonais no sistema hemostático”.
Apesar dos efeitos colaterais, o uso da pílula disparou, desencadeando mudanças culturais profundas. Como se esperava, o medicamento desconectou o ato sexual e a procriação. “A pílula permitiu que homens e mulheres jovens adiassem o casamento, sem colocar o sexo de lado”, observou um jornal da época. “O sexo não precisava mais ser empacotado com dispositivos de comprometimento”, como os laços matrimoniais. Era o começo da revolução sexual.
Num nível mais profundo, a pílula abriu novas oportunidades para as mulheres. Assim que puderam controlar a gravidez, elas começaram a organizar estilos de vida diferentes. Um estudo mostrou que, depois que a pílula passou a ser amplamente usada nos anos 1970, o número de mulheres na pós-graduação ou que investiam em carreiras profissionais aumentou radicalmente. A proporção de advogadas e juízas, por exemplo, subiu de 5% em 1970 para quase 30% em 2000. Apenas 9% dos médicos eram mulheres em 1970; o número era de quase 30% em 2000. O mesmo padrão se repete para dentistas, arquitetas, engenheiras e economistas.
A pílula não fez isso tudo sozinha, mas teve um papel importante. Antes de sua aparição, o padrão antigo que as mulheres norte-americanas seguiam era terminar o ensino médio e casar imediatamente ou alguns anos mais tarde, adiando o casamento até obterem um diploma de graduação. Claudia Goldin e Lawrence Katz descobriram em 2002 que, após o advento da pílula, a idade do primeiro casamento das mulheres começou a subir, acompanhando a taxa de sua participação em programas de pós-graduação.
Em certo sentido, isso completa a ligação entre os homens da Fundação Rockefeller que pretendiam usar a biologia como uma ferramenta para lidar com as infelicidades da sociedade na década de 1920 e as ativistas pelos direitos das mulheres, como Margaret Sanger e Katherine McCormick. Ambos os grupos queriam usar o conhecimento científico cada vez maior do corpo e dos efeitos das drogas para atingir um fim social. A diferença é que as mulheres queriam liberdade e escolha, enquanto os homens queriam controlar o impulso humano à rebeldia. A pílula ofereceu às mulheres uma maneira de obter o que desejavam. Então, graças a um efeito colateral famoso, tinha chegado a vez dos homens.
Giles Brindley era um desses cientistas meio malucos, magro, de óculos, com o cabelo rareando. Era um pesquisador bem estabelecido e especialista no funcionamento dos olhos, mas também compositor musical e inventor de um instrumento que ele denominou “fagote lógico”.
Além disso, interessava-se muito por ereções, o que o levou a receber uma das notas de rodapé mais estranhas da história da ciência. Aconteceu em 1983, numa conferência de urologia em Las Vegas, quando Brindley entrou no palco vestindo um folgado agasalho esportivo azul, olhou para a plateia de cerca de oitenta pessoas e mostrou a sua última descoberta.
Seu tópico naquele dia, ele explicou com o sotaque britânico, era a disfunção erétil, um tema muito importante entre os urologistas na década de 1980. Na época, ninguém sabia exatamente como as ereções aconteciam, ou o que fazer quando elas não ocorriam. Ninguém tinha uma imagem clara de como os sistemas interagiam uns com os outros ou quais substâncias estavam envolvidas no processo da ereção.
O que as pessoas sabiam é que muitos homens tinham dificuldades e que essas dificuldades aumentavam com a idade.
As únicas soluções disponíveis então eram mecânicas: uma gama de bombas, balões, talas de plástico e implantes de metal que precisavam ser inseridos cirurgicamente e depois dobrados, encaixados e bombeados numa certa posição para criar uma ereção artificial. Pesquisadores iam longe na busca por soluções que fossem confortáveis para todas as pessoas envolvidas. Mas, na maioria das vezes, fracassavam.
Pode parecer divertido agora, mas o assunto não era motivo de riso para os milhões de homens que na época sofriam, em algum grau, de disfunção erétil. Para eles, tratava-se de um problema médico sério.
Então apareceu Giles Brindley, polímata, tocador de fagote lógico e um dos últimos praticantes da antiga e honrável tradição de autoexperimentação médica. Desde Paracelso, com seu láudano, até Albert Hofmann, o químico suíço que descobriu o LSD, médicos ao longo da história com frequência testaram drogas experimentais em si mesmos antes de envolver pacientes inocentes.
Brindley, que estava na faixa dos 50 anos na época, andara fazendo experimentos com seu próprio pênis. Para ser mais específico, injetou drogas nele em busca de algo que quimicamente, e não mecanicamente, gerasse uma ereção. E, conforme contou à plateia em Las Vegas, conseguiu progredir no projeto. Mostrou mais ou menos trinta slides dos efeitos da experimentação. Mesmo numa reunião de urologia, era algo aventuroso (pelo menos antes das redes sociais) ver um homem mostrar de forma tão tranquila imagens do próprio membro. Mas a plateia levou aquilo numa boa.
Até que Brindley se sentiu impelido a demonstrar os resultados. No final da projeção, contou ao público que, pouco antes de ir para a sala de conferências, havia aplicado uma injeção em si mesmo no quarto de hotel. Ele saiu detrás do pódio e, para espanto geral dos presentes, apertou a calça contra o corpo para mostrar os resultados.
“Nesse momento”, lembra-se uma pessoa da plateia, “eu, e creio que todos no local, ficamos irrequietos […] Mal podia acreditar no que estava acontecendo no palco.”
O professor olhou para baixo, meneou a cabeça e disse: “Infelizmente, isso não mostra direito os resultados.” Então baixou as calças.
Não se ouviu um pio na sala. “Todos pararam de respirar”, lembrou um participante. Brindley fez uma pausa dramática e disse: “Eu gostaria de dar a oportunidade aos membros da plateia para confirmarem o grau de tumescência.” Com as calças na altura dos joelhos, ele desceu do palco em direção ao público. Algumas mulheres na primeira fileira levantaram os braços e gritaram.
Os gritos pareceram despertar Brindley. Ao perceber o efeito causado, ele ergueu as calças, retornou ao palco e encerrou a palestra.
A ideia de Brindley de usar uma seringa para injetar drogas no pênis nunca pegou, e os aparatos de plástico e metal difundidos pelos outros pesquisadores sobrevivem, em grande parte, apenas como curiosidade médica. Todos foram substituídos por uma nova geração de remédios, liderados pela famosa pílula azul.
E tudo isso aconteceu – como costuma ocorrer no caso de descoberta de drogas – por acidente.
Sandwich, uma pequena cidade na costa Sul da Inglaterra, é principalmente conhecida por seu paço medieval bem conservado e alguns agradáveis cafés para turistas. Também é lá que está a sede do centro de pesquisa da Pfizer, uma das maiores indústrias farmacêuticas do mundo. Em 1985, cientistas buscavam uma nova maneira de tratar a angina, a dor excruciante no peito e no braço causada pela redução do fluxo sanguíneo devido a uma doença no coração. A equipe de Sandwich queria encontrar um remédio que pudesse dilatar as veias para que o sangue fluísse mais facilmente, aliviando assim a dor causada pela angina.
Isso se revelou um problema difícil de solucionar. Vasos sanguíneos reagem a várias substâncias diferentes no corpo, e cada uma está ligada a uma série de reações – uma que desencadeia a produção de outra que desencadeia a produção de outra e assim por diante –, e cada acionamento em cascata provocava outros sinais químicos em outras partes do corpo. Mas os funcionários da Pfizer em Sandwich, destemidamente, seguiram em frente, concentrando-se nas reações que eles sabiam estar relacionadas ao problema, buscando outras que fossem novas e procurando drogas que pudessem relaxar as veias ao redor do coração, sem provocar efeitos colaterais terríveis.
Em 1988, após observarem milhares de substâncias possíveis, finalmente encontraram uma que parecia boa. Tratava-se da UK-94280, que bloqueava uma enzima que destruía outra substância, que por sua vez estava ligada ao processo de relaxamento das veias – tudo parte de um sistema impressionantemente complicado –, e pareceu-lhes que valia a pena testá-la em humanos. Então fizeram testes em pacientes com doenças nas coronárias.
E, como a maioria dos remédios em início de desenvolvimento, o resultado foi um grande desastre. Como disse um pesquisador, a performance clínica inicial “estava abaixo das expectativas” – uma maneira educada de dizer que a droga experimental funcionava de forma errática e tinha efeitos colaterais demais. Doses mais altas causavam muitos problemas nos pacientes, desde indigestão a dores de cabeça insuportáveis.
E havia outro efeito colateral relacionado ao fluxo sanguíneo que afetava apenas os homens do grupo de testes: o UK-94280 provocava ereções. Poucos dias depois de ingerirem a dose, pacientes do sexo masculino relataram que, embora os sintomas cardíacos permanecessem iguais, sua vida sexual com certeza havia melhorado. “Nenhum de nós na Pfizer demos muita atenção a esse efeito colateral na época”, conta um pesquisador. “Lembro-me de pensar que, mesmo que funcionasse, quem gostaria de tomar um remédio na quarta-feira para ter uma ereção no sábado?”
Então, alguém em Sandwich percebeu que a oportunidade estava batendo à porta. Executivos de indústrias farmacêuticas como a Pfizer sempre andavam à procura do próximo grande sucesso. A questão era criar a droga certa para o momento certo do mercado. E, na década de 1980, as atenções se voltavam para o maior dos mercados em potencial: os baby boomers, que estavam envelhecendo. Membros da geração pós-Segunda Guerra Mundial, responsáveis pelo maior aumento populacional na história, tinham atingido a faixa dos 40 anos de idade e já vislumbravam a aposentadoria. Quando isso acontecesse, os farmacêuticos queriam estar prontos, com uma nova leva de remédios, para enfrentar os problemas do envelhecimento.
Ao longo da década, fundos de pesquisa investiram na busca de qualquer coisa que pudesse tratar as principais enfermidades dos idosos: doenças cardíacas, claro, mas também artrite, declínio da capacidade mental, problemas renais, calvície, rugas, catarata e assim por diante. A ideia não era encontrar uma fonte da juventude em forma química, uma cura definitiva para esses problemas, mas tratar os sintomas, diminuir a dor, reduzir a gravidade, controlá-los, torná-los toleráveis – melhorar a qualidade de vida. Drogas como essas tinham ainda o benefício da longevidade – para as prescrições médicas mais ainda que para os pacientes. Remédios que atenuassem os sintomas de problemas relacionados ao envelhecimento não seriam tomados por curto período, como um antibiótico, mas por tempo indefinido, como se faz com comprimidos de vitamina. Seria possível lucrar por décadas a fio. Eram nessas “drogas de qualidade de vida” que se poderia encontrar o dinheiro. Um dos grandes problemas da meia-idade tardia era a disfunção erétil. Sessenta por cento dos homens na faixa dos 60 anos tinham em algum momento dificuldade para ter ereção, e a porcentagem aumentava com a idade. Era um grande mercado em potencial. E então apareceu o UK-94280 e seu efeito colateral inesperado. A Pfizer decidiu continuar trabalhando com o remédio. Só que o interesse da empresa deixara de ser a angina.
Como testar uma droga dessas para conferir sua eficácia? Eis uma maneira: reúna um grupo de homens que sofrem de disfunção erétil, amarre um aparelho ao redor do pênis deles para medir comprimento e rigidez, dê-lhes várias doses de UK-94280 e os deixe assistindo a filmes de pornografia. Os resultados, no jargão médico, foram “encorajadores”.
Então um pesquisador da Pfizer, Chris Wayman, construiu um “homem modelo” no seu laboratório em Sandwich, com interruptores elétricos no lugar de nervos e, no lugar da genitália, pedaços de tecido extraídos de homens impotentes. Cada pedaço de tecido era estendido entre dois pequenos cabides de metal ligados a um dispositivo de medição e suspensos em um banho líquido. Era possível, dessa forma, medir tensão e relaxamento do tecido. O que Wayman buscava era o relaxamento. Vasos sanguíneos relaxados carregam mais sangue e são mais capazes de inchar o pênis.
Quando se adicionou o UK-94280 à solução e a eletricidade foi ativada, os vasos sanguíneos nos pedaços de tecido relaxaram, como precisariam fazer numa ereção. “Estávamos diante de algo que só podia ser descrito como especial”, disse Wayman à BBC. A Pfizer deu à sua nova droga experimental o nome científico de sildenafila e continuou desenvolvendo-a para realizar testes em humanos. Sua eficácia foi surpreendente.
Ereções não são fenômenos simples. A rigidez peniana ocorre por meio de uma comunicação entre mente e corpo, de muito fluxo sanguíneo e uma gama impressionante de reações químicas. A própria excitação parece paradoxal: em vez de ativar o pênis, ela abafa os sinais que mantêm o fluxo sanguíneo num mínimo. Em vez de bombear mais sangue, é como se abrissem as comportas de uma represa. Mas isso é só o começo. Os vasos sanguíneos também precisam relaxar para que possam ser preenchidos e ficar rígidos. O processo de excitação manda sinais aos nervos dos vasos sanguíneos para dar início a uma reação química em cadeia; ao final da cadeia está a cGMP [monofosfato cíclico de guanosina], uma molécula que o corpo produz para relaxar a musculatura lisa vascular e permitir o inchaço.
O sistema também precisa ser reversível, é claro, ou o sujeito, depois de excitado, passaria o dia inteiro com uma ereção tremenda. Algo precisa reverter o processo. O corpo faz isso ao produzir uma enzima que rompe a cGMP; quando o nível fica baixo o bastante, acaba a ereção.
E é então – descobriu-se – que entra a sildenafila. Ela bloqueia a enzima que rompe a cGMP, permitindo que os níveis dessa substância crítica fiquem altos o suficiente para manter uma ereção. Funciona especialmente bem em homens cuja capacidade de produzir cGMP foi danificada, assim como em alguns pacientes cardíacos. Ela não causa ereções por conta própria – você ainda precisa de estímulos eróticos para isso –, mas as mantém depois que começaram.
Enquanto a Pfizer se preparava para lançar a sildenafila para o público, os Institutos Nacionais de Saúde do governo americano deram à empresa um grande presente. Em uma conferência de 1992 (mais tarde apoiada por um estudo muito influente publicado em 1994), especialistas decidiram expandir a definição médica de disfunção erétil. Ela não seria mais considerada o fracasso completo em atingir uma ereção (a antiga ideia de “impotência”), mas abrangeria qualquer incapacidade de atingir uma ereção adequada à “performance sexual satisfatória”. O significado preciso do termo ficava a cargo dos médicos e seus pacientes. Com essa definição mais subjetiva e abrangente do que seria considerada uma doença diagnosticável, o universo dos homens com disfunção erétil se tornou muito mais amplo. O mercado pré-1992, de cerca de 10 milhões de homens impotentes, triplicou do dia para a noite e incluía um quarto de todos os homens com mais de 65 anos.
Para a Pfizer, o momento não poderia ser melhor. Eles investiram dezenas de milhões de dólares para acelerar a testagem de sildenafila em milhares de homens. Os resultados “superaram nossas expectativas mais altas”, disse um pesquisador. A droga fazia o que precisava ser feito e com um número impressionantemente baixo de efeitos colaterais. Agora era necessário apenas um nome comercial que aumentasse as vendas. A companhia revirou seus arquivos e veio à tona o nome Viagra, que surgira numa sessão de brainstorm algum tempo antes e fora arquivado, à espera do remédio certo. Era perfeito, ao fazer alusão tanto à potência masculina (vigor) como a águas que não param de fluir (Niágara).
A Pfizer patenteou a droga em 1996 e obteve aprovação da FDA em 1998. Desde o início era evidente que a empresa tinha um sucesso nas mãos. O departamento de marketing fez a festa. No dia 4 de maio de 1998, a revista Time dedicou sua capa ao Viagra, com um desenho de um homem mais velho agarrando uma loira pelada enquanto ingeria a nítida pílula azul de quatro faces da Pfizer. A manchete parecia algo saído dos sonhos da equipe de marketing e publicidade: “A pílula da potência: Sim, o Viagra funciona! E o frisson diz muito sobre os homens, as mulheres e o sexo.” Na matéria, repórteres perguntavam: “Seria possível um produto mais adequado à psique norte-americana, tão apaixonada por soluções fáceis e tão insegura sexualmente?” É isso o que chamam de publicidade gratuita.
Impulsionadas por histórias entusiásticas e um tanto lúbricas da mídia, as vendas dispararam. No primeiro dia em que o Viagra ficou disponível, um urologista de Atlanta redigiu trezentas receitas para os pacientes. Alguns médicos aceleraram o processo, prescrevendo a droga em troca de 50 dólares, após examinar por telefone pacientes que eles jamais encontraram. Mais empresas de planos de saúde começaram a cobrir os custos. O New York Times descreveu a situação como “a mais bem-sucedida apresentação de um remédio na história dos Estados Unidos”. As ações da Pfizer subiram 60%.
E só melhorava. Dois anos depois de chegar ao mercado, o Viagra foi disponibilizado em mais de cem países; médicos faziam 30 mil prescrições por dia; mais de 150 milhões de pílulas foram vendidas no mundo todo, e o Viagra rendia 2 bilhões de dólares em vendas por ano. A pílula azul agora fazia parte do equipamento noturno de um idoso.
Outras empresas viram o sucesso da Pfizer e entraram imediatamente no jogo. Os remédios Cialis e Levitra apareceram em 2003. Eram moléculas levemente diferentes que funcionavam mais ou menos da mesma maneira, com o mesmo objetivo, mas variavam em termos de efeitos colaterais e tempo de ação. O Cialis, por exemplo, fica mais tempo no corpo, permitindo que os homens tenham mais de um dia de eficácia, em comparação com as cerca de quatro horas do Viagra.
Mas o Viagra continuou sendo o rei dos medicamentos para disfunção erétil, mudando padrões de comportamento sexual entre idosos e dando origem a milhões de piadas – além de levantar algumas questões importantes. Uma delas dizia respeito à cobertura do plano de saúde. Quando apareceu, o Viagra era coberto pela maioria deles (fato que não passou despercebido entre as mulheres: as pílulas anticoncepcionais não eram, em grande parte, cobertas pelos planos). Por que a saúde sexual dos homens era mais importante do que a das mulheres? Em 2012, a Secretaria de Saúde e Serviços Humanos, no governo do presidente Barack Obama, respondeu a essa pergunta ao definir por lei que a maioria dos empregadores deveria dar cobertura aos anticoncepcionais das mulheres nos planos de saúde com o Affordable Care Act.[1] E alguns planos de saúde pararam de bancar o Viagra (embora muitos ainda cubram o uso dele).
Próxima pergunta: por que não havia um Viagra para mulheres também – algo que elas pudessem tomar para ter mais prazer sexual? As empresas farmacêuticas gastaram milhões em busca de um remédio assim, mas não encontraram nada até agora. A questão para as mulheres não é de disfunção erétil, mas frequentemente uma condição chamada de distúrbio de interesse/excitação sexual feminina (FSIAD, no inglês), que tem menos relação com o fluxo sanguíneo e mais com o desejo. Muitas das mulheres que sofrem disso (e até um quinto de todas as mulheres tem o distúrbio) não sentem desejo sexual nem fantasiam com sexo. Pesquisadores acreditam que isso esteja ligado a redes hormonais e de neurotransmissores no cérebro e buscam soluções que serão menos parecidas com o Viagra e mais com antidepressivos.
Essas drogas levantam questões que existem há muito tempo a respeito da relação entre mente e corpo. Seria a disfunção sexual algo relacionado ao corpo ou à mente? A impotência masculina – vista antes de 1990 como um problema psicológico difícil, enraizado na maneira como os pais criaram o garoto e nos traumas de infância – agora é considerada, em muitos casos, como um simples problema de bio-hidráulica corporal. É mais mecânico do que psicológico. A resposta sexual feminina parece ser um problema mais complexo, com uma ligação mais forte com a mente. Tire suas próprias conclusões. Mas quando se trata de sexo, por enquanto, parece que os homens são simples, e as mulheres, difíceis.
No início dos anos 2000, o Viagra continuou dominando o mercado. Homens continuavam comprando a pílula, sem se importar com o preço, que por sinal decolou. Uma pílula custava 7 dólares quando o remédio foi lançado, e agora sai por aproximadamente 50 dólares.[2] Por ser tão popular e caro, surgiu um mercado negro, com dezenas de farmácias clandestinas oferecendo as pílulas azuis sem receita e com desconto. Um estudo da Pfizer estimou que cerca de 80% dos sites que afirmam vender Viagra, na verdade, oferecem remédios falsificados, produzidos em fábricas sem licença para operar. Essas pílulas falsas continham, junto com uma quantidade variável de sildenafila, um pouco de tudo, desde talco e detergente até veneno para rato e tinta para demarcar estradas. Em 2016, autoridades polonesas estouraram um suposto local de produção para o mercado negro; atrás de um armário falso, investigadores descobriram passagens secretas e cômodos contendo mais de 1 milhão de dólares em máquinas para fabricar e empacotar remédios, além de 100 mil pílulas azuis falsificadas. Fecharam o lugar, mas outros surgiram. O Viagra falso é um grande negócio. Os compradores que se cuidem.
Demorou uma década para que a loucura do Viagra passasse. Muitos usuários perceberam que, apesar de a pílula funcionar, ela também causava dores de cabeça, priapismo ocasional (ereções que continuavam por horas além do esperado) e outros efeitos colaterais menores. Remédios rivais foram disponibilizados. E a novidade começou a desaparecer. Homens descobriam que uma ereção instantânea não era necessariamente a cura para todos os seus problemas sexuais. A química numa pílula pode ser ótima para a autoconfiança, mas não substituía a química numa relação.
Em 2010, quase metade dos homens que tinha receita para Viagra deixou de solicitá-la. As vendas de remédios para disfunção erétil começaram a diminuir um pouco naquele ano; o ápice do consumo foi em 2012, com mais de 2 bilhões de dólares obtidos da venda de Viagra, e então começou a queda. A lua de mel chegara ao fim. Por volta da mesma época, terminou o prazo de validade da patente do remédio fora dos Estados Unidos (onde irá expirar em 2020).[3] Uma patente tradicional para um novo remédio nos Estados Unidos dura vinte anos a partir do momento em que a empresa a solicita, embora as firmas estejam virando especialistas em encontrar maneiras de estender esse prazo. Depois que ele acaba, no entanto, o remédio cai num “abismo da patente”, como é chamado pelas pessoas da indústria, e outras empresas ficam livres para fabricar a mesma droga. Versões genéricas surgem, a competição fica mais acirrada e os preços caem. Isso pode significar bilhões a menos em lucro para a empresa que detinha a patente original para o remédio.
A ascensão e a queda do Viagra trazem algumas lições. A primeira é que as indústrias farmacêuticas precisam de grandes sucessos como a pílula azul para sobreviver. Uma droga bem-sucedida é algo raro: só uma pequena fração dos remédios testados em humanos acaba sendo aprovada pela FDA, e apenas um a cada três que chega ao mercado lucra o suficiente para pagar os custos de desenvolvimento. O custo de desenvolvimento é a chave do negócio: um novo remédio hoje demora uma ou duas décadas para fazer o caminho que vai do laboratório em que foi descoberto até o mercado, engolindo, em média, mais de meio bilhão de dólares em investimento até chegar à farmácia – um custo que aumentou dez vezes desde a década de 1970. (Há uma discussão sobre como as empresas calculam e relatam esses valores, e se são tão altos quanto elas afirmam. Os números que apresentei aqui estão no meio do caminho.) Não importa como você calcule, é absurdamente caro encontrar um novo medicamento de sucesso. Para pagar os custos de todos os medicamentos que fracassam, os fabricantes precisam se concentrar em alguns poucos remédios que tenham grande sucesso. O Viagra foi um desses casos. Assim como a grande conquista seguinte da Pfizer: o remédio para artrite Celebra – cujo marketing também focou nos baby boomers na terceira idade –, que gerou lucros ainda maiores. Empresas precisam de grandes sucessos para seguir lucrando e deixar os acionistas felizes.
A segunda lição é que a melhor maneira de obter um medicamento bem-sucedido a longo prazo é garantindo que ele não cure nada. Nenhum dos grandes êxitos da Pfizer que acabo de mencionar curou o problema subjacente. Tanto a disfunção erétil quanto a dor nas juntas são dolorosas, de maneiras diferentes, porém nenhuma delas representa um risco à vida. Viagra e Celebra tratam sintomas, não doenças.
Drogas de qualidade de vida que tratam sintomas podem ser prescritas constantemente; se um paciente para de tomá-las, os sintomas voltam. Então, lucra-se para sempre. Levando em conta os altos custos do desenvolvimento de remédios, é fácil compreender por que fabricantes buscam esse tipo de recompensa. A necessidade de lucro limita o tipo de drogas desenvolvido. Isso explica por que as indústrias farmacêuticas se esforçam muito pouco para encontrar antibióticos, dos quais necessitamos desesperadamente, e investem tanto dinheiro para descobrir drogas que tratam os sintomas do envelhecimento.
Não é que as gigantes da indústria não estejam procurando remédios que salvem a vida dos pacientes. Estão sim, especialmente no tratamento do câncer. Mas elas precisam de drogas de sucesso como o Viagra para financiar o processo.
E, afinal, salvar vidas não é tudo. “Mais do que qualquer outro remédio, o Viagra atiçou os desejos da cultura norte-americana: juventude eterna, proezas sexuais, sem contar o anseio por uma solução rápida”, opinou um ensaísta. “É a droga perfeita para a nossa época.”
[1] Como é mais comumente chamada a Patient Protection and Affordable Care Act, ou Lei de Proteção e Cuidado Acessível ao Paciente. Também conhecida como Obamacare, foi sancionada em 2010 com o objetivo de ampliar o acesso de cidadãos norte-americanos aos planos de saúde. Entre suas novidades, está a obrigatoriedade de as empresas com mais de cinquenta funcionários oferecerem planos aos seus empregados. Em 2017, Trump alterou a regra para permitir que empregadores possam optar por não oferecer a cobertura de métodos contraceptivos, como pílulas anticoncepcionais, aos seus empregados por motivo religioso ou moral. No início deste ano, o caso foi parar na Suprema Corte. [Todas as notas são da redação]
[2] Uma pílula de Viagra custa em torno de 20 reais no Brasil.
[3] No Brasil, expirou em 2010.