história pessoal
Arnon Grunberg Fev 2020 16h14
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O filósofo italiano Giorgio Agamben escreveu: “Sempre se soube que existem lugares e situações em que a dignidade é inadequada.” Para ele, amor, paixão e sexualidade, por exemplo, não são compatíveis com a dignidade.
Eu costumava ver o circo como o lugar em que se pode perder a dignidade de maneira controlada, em que se pode brincar com essa perda.
Há muito tempo, desejava me juntar a um circo, mas custei muito a encontrar algum que topasse me receber.
Até que o Circo Zanzara finalmente me aceitou. É um circo familiar, originário de Achterhoek, uma região no Leste da Holanda, de onde sai todos os anos, às vésperas do Natal, para se instalar no Westerpark, em Amsterdã.
Eu fui admitido na trupe mesmo sem que testassem minhas habilidades ou as colocassem em discussão. A única pergunta que me fizeram em nossa primeira reunião foi: “Você se incomoda de sentir dores musculares?” Entendi que queriam me aproveitar como acrobata. E logo me dei conta de que a perda da dignidade poderia vir junto de algo como a queda mortal de um trapézio. Voltei ileso do Iraque e do Afeganistão, mas talvez não tivesse a mesma sorte no circo.
Durante a segunda reunião, Mayka e Paulo – fundadores do Zanzara – já não pareceram levar muito a sério a ideia de me transformar em acrobata. “Basta que você se sente conosco à mesa da cozinha”, disse Mayka. “Isso é mais importante do que conseguir manter duas ou quatro bolas no ar.”
Adrian Schvarzstein é o diretor do circo. Seus antepassados eram judeus da Ucrânia que migraram para a Argentina no começo do século xx, fugindo dos pogroms. Adrian morou na Itália, na Espanha e em Israel, onde estudou arqueologia, mas sua atração pelo circo acabou falando mais alto.
Ele me disse: “Não consigo decorar seu nome. Vou te chamar de Grunstein, ok? Acho que te arranjei um papel. Você vai interpretar um imigrante judeu com medo de que lhe roubem a mala.”
“Pensei que eu seria acrobata”, murmurei.
“Grunstein”, continuou Adrian, “existem muitos tipos de acrobacia.”
Ele me contou, então, o caso dos Ovitz, uma família judia de artistas circenses, proveniente da Romênia e, em parte, composta por anões. Os anões tinham sobrevivido aos experimentos de Josef Mengele em Auschwitz. Há, inclusive, um livro sobre o episódio: Gigantes no Coração – A Emocionante História da Trupe Lilliput.
Fui levado até meu trailer, que dispunha de uma cama, um aquecedor a gás e um cobertor elétrico.
Minhas primeiras horas no circo começaram com Auschwitz e Mengele. A dignidade seria realmente perdida, isso era certo.
No picadeiro, fico sentado na diagonal, atrás do baterista Gino. Ele usa rabo de cavalo e tem ascendência ítalo-holandesa. O acrobata Martijn, que integra o Zanzara há mais ou menos dez anos, permanece do meu lado durante parte da apresentação. Estou num de meus primeiros ensaios. Na próxima quarta-feira, às três da tarde, vamos estrear. Circo é improvisação. O olhar de Martijn indica que ele está tentando me tranquilizar. Não é necessário. Meses atrás, eu sonhava em engolir espadas e cuspir fogo, mas agora compreendi que terei de ajustar minhas ambições.
Jans, filha de Paulo e Mayka, é uma excelente acrobata, uma artista muito engenhosa. Ainda não vi seu parceiro, Rik, em ação. O menor gesto de Jans, uma dancinha, um breve caminhar, já nos transmite a sensação de que ela está diante de uma plateia.
Há também a Linn, da Suécia, que se mudou para a Inglaterra por amor. Entre outras façanhas, Linn anda sobre garrafas. É a primeira vez em sua carreira que ela faz algo do gênero. Por isso, o número às vezes não dá certo. Adrian, o diretor, diz: “Se você cair, encare o público e ria de si mesma.”
Eis uma boa lição para a vida: o ser humano é um artista de circo à beira da queda. Depois do tombo, encare o público e ria de si mesmo.
Como também entra em cena e participa dos espetáculos, Adrian dirige os colegas de um jeito agradavelmente caótico.
Estamos num navio. Eu interpreto um imigrante judeu que se viu forçado a embarcar quando o expulsaram de seu país. A mala que ele carrega é sua casa; a vodca, seu consolo. Adrian me diz: “Todos no palco vão acenar para a plateia, menos você. Você não terá ninguém para quem acenar.”
Um ano atrás, o comediante holandês Micha Wertheim escreveu no jornal NRC: “Sozinha, a orquestra do circo já basta para fazer com que o Zanzara transcenda os clichês do picadeiro.” Pura verdade.
Adrian chama Paulo de “o ditador”. Não é bem assim. Paulo exibe a melancolia de um artista que, no camarim, pensa consigo mesmo: “Eles aplaudiram, mas isso não significa que tenham gostado.”
Às 19 horas, todos nós comemos no trailer que serve de cozinha. O sorvete passa de mão em mão, como um baseado. Dorus, um menino de 7 anos, filho de Jans e Rik, nos abraça antes de ir para a cama. Dois cachorros que não fazem parte do espetáculo circulam por ali.
Ao que parece, os cachorros são surdos e cegos.
No segundo dia da minha temporada circense, Frits, o técnico do Zanzara, pede demissão. Eu já havia notado um clima tenso na noite anterior. Ele reunira todos os artistas e os acusara, indiretamente, de roubo. Pensei: qualquer processo artístico – um modo elegante de nos referirmos a qualquer processo humano – é inevitavelmente acompanhado de tensão.
Na manhã seguinte à reunião do técnico com o elenco, Mayka dá a impressão de estar irritada comigo: “Por onde você andava? Sumiu justamente quando as coisas começaram a ficar interessantes? Você não queria participar de tudo? Frits se demitiu. Eu disse ontem para ele: ‘Se você não aguenta, não deve continuar.’ Frits parecia bem fisicamente, mas não de cabeça.”
“Eu estava escrevendo. Você ficou brava com ele?”, pergunto.
“De jeito nenhum”, responde Mayka. Ela agora se mostra inteiramente serena. Lá no fundo, deve ser taoista. Talvez os circos sejam pouco mais do que isso: o taoismo sob uma lona. “O Frits pode vir comer aqui ou tomar um café a hora que quiser.”
Mayka conta que consultou um dicionário italiano com a filha a fim de selecionar possíveis nomes para o circo. Os homens gostaram de Zanzara. Ela e a filha tinham outras preferências. Paulo, o marido de Mayka, explica: “Zanzara significa mosquito em italiano. Achei bonito. Somos mosquitinhos no meio dos grandes circos.”
Ensaiamos pela primeira vez o espetáculo inteiro. Como meu figurino não chegou a tempo – eu mesmo terei que comprá-lo num brechó –, a figurinista Tula me cede algumas roupas velhas.
Tula diz: “Sou a irmã do Dirk.” Dirk toca flauta transversal, entre outros instrumentos. Às vezes, durante o ensaio, lança umas piscadelas irônicas para mim.
Adrian, o diretor, me orienta: “Você se senta esplendidamente em sua cadeira e bebe uísque. De súbito, a catástrofe acontece.”
Uma frase dita de maneira displicente que, no entanto, parece resumir toda uma vida. De fato, a catástrofe sempre acontece, ainda que eu não goste de uísque. Prefiro vodca.
Como estamos sem técnico, tenho que cuidar da iluminação. “Você é mesmo pau para toda obra”, comenta Dirk.
Depois do ensaio geral, a reunião de avaliação.
O pessoal sugere que eu venda meus livros no intervalo do espetáculo. Adrian diz: “Você pode vender pipoca e seus livros. Vai ser um sucesso.”
Por um instante, aquilo me soa indigno, mas então percebo que, depois da Guerra Total, a vida é o Circo Total. Tenho que ser taoista entre os taoistas, circense entre os circenses. Fazer acrobacias no sentido mais amplo da palavra. Eis o significado de viver.
Linn, da Suécia, conta durante o almoço que frequentou a escola de circo por cinco anos – dois em Copenhague, três em Estocolmo. Ela viajou muito, inclusive num barco que navegava pelo Mediterrâneo, onde acabou conhecendo o pai de sua filha, um técnico inglês de teatro.
Ainda durante o almoço, Linn diz: “Sempre estive ciente de que, um dia, vou me cansar do circo. Tenho um sonho. Quero ser parteira.”
A acrobata que sonha em virar parteira. Eu sonho em me tornar acrobata, como Jans. Quero ficar no alto do picadeiro, suspenso por uma corda, sedutor e inatingível.
Adrian Schvarzstein – que também faz teatro de rua e dirige óperas, e às vezes me chama de Grunstein, outras vezes de Grunschnabel – coleciona selos. Custo a acreditar. Ele entra em detalhes: “Eu tinha 6 anos e morava em Milão quando comecei a coleção. Os selos são minha terapia. Sou absolutamente normal.”
Não estou certo de que Adrian seja mesmo normal. Me parece fugir da normalidade o fato de sua ex-mulher ser uma israelense que hoje vive com um palhaço argentino e esse palhaço ser um dos melhores amigos do próprio Adrian.
Último dia antes da estreia. A pedido do diretor, encomendo umas garrafas de vodca que, segundo ele, terei que beber aos poucos em cena. Mayka, no entanto, afirma categoricamente que é proibido ingerir álcool durante o espetáculo.
Adrian sussurra para mim: “Bebe escondido.” Mas, em voz alta, diz: “A partir de agora, faça o que quiser. Você é livre.”
Um artista de circo deseja realmente ser livre?
Jans faz alongamentos. Há um zum-zum-zum sobre o técnico substituto, que precisa aprender a função às pressas.
A figurinista Tula relembra: “Meus pais escolheram meu nome no atlas. Tula é uma cidadezinha do México.”
Adrian está agora num terreno encharcado, não muito longe dos toaletes – os banheiros não são químicos, o que é ruim. Joga-se um pouco de serragem nos vasos sanitários e pronto. Ouvi o Paulo, dono do circo, comentar: “Se fizerem muito xixi, vai ser difícil esvaziá-los.”
“No fim de Falstaff, a ópera de Verdi, canta-se sobre a honra”, diz Adrian. “Será que a honra enche barriga? Será que a honra nos faz conversar com os mortos? Para que serve a honra, afinal? No circo, perdemos a honra voluntariamente.”
Penso em cidadezinhas do México.
Chega o dia da estreia. Com exceção de uma ou outra apresentação noturna, a temporada só terá matinês. Espera-se para hoje um público de aproximadamente cem pessoas – o circo pode acomodar até quinhentas. “Nunca lota antes dos feriados de Natal”, explica Mayka.
De manhã, fazemos um ensaio sem figurino, em que encenamos apenas alguns trechos do espetáculo.
No almoço, falamos do passado.
“O Circo Holiday não oferecia banheiro para os funcionários”, conta Paulo. “Teve um cara – um analfabeto, devo frisar – que encontrou um jeito de resolver o problema. Ele esburacava o miolo de livros grossos como a Bíblia, cagava no buraco e depois fechava o livro.”
“Quem fazia serviços gerais nos circos recebia o nome de Nablo”, relembra Mayka.
“As pessoas se esquecem de como o universo circense costumava ser muitíssimo hierarquizado”, diz Paulo, sem tristeza ou indignação.
“Me lembro de um rapaz – um Nablo – que cuidava dos elefantes”, prossegue Mayka. “Ele viajava junto dos elefantes, fedia a elefante, era praticamente um elefante.”
Vestimos nossos trajes. O diretor Adrian precisa fazer xixi. Eu também. “Vou mijar lá fora”, ele anuncia com olhar jocoso.
Fazemos xixi ao lado do trailer de Jans. Ela passa e diz: “Meu marido e meu filho também fazem aqui.” Eu fico imaginando um Nablo que é quase um elefante.
A apresentação corre razoavelmente bem.
No intervalo, Mayka grita para mim: “Vai vender pipoca!” Mas a pipoca ainda não havia chegado.
Depois do espetáculo, recebemos o público na tenda da frente. “Talvez você pudesse ler um conto no intervalo”, sugere uma senhora, gentilmente.
Uma boa amiga me diz: “Você ficou todo o tempo sentado naquela cadeira. Eu esperava que brilhasse um pouco mais.”
“Fiz muita coisa naquela cadeira”, rebato.
“Mas as coisas espetaculares aconteciam na frente do palco.”
Uma tenda fria abriga a reunião de avaliação. Há uma melancolia pungente no ar, que me lembra de décadas atrás, quando eu trabalhava num restaurante italiano de Nova York. As cadeiras em cima das mesas, a equipe comendo, a dona jogando tarô.
À noite, os artistas enchem saquinhos de pipoca para o dia seguinte. Pipoca doce em saquinhos vermelhos, pipoca salgada nos amarelos.
“Queria tanto ser acrobata”, digo a Jans.
“Ainda dá para aprender”, ela responde, me olhando com doçura. “Nunca é tarde.”
Mais um saquinho de pipoca. Podemos sentir o cheiro dos elefantes.
Y ou’re not funny, fucking clown. I want your name (Você não é engraçado, palhaço de merda. Eu quero seu nome). Adrian, o diretor, conta que, certa vez, quando se apresentava em Londres, num circo com música tradicional judaica, uma mulher da plateia expressou aos berros sua indignação diante do que via. Adrian ordenou, então, que os músicos tocassem mais alto, mas os gritos da mulher superavam o volume dos instrumentos. O julgamento estético como uma forma de provocação por parte do público. Depois de se sentir insultado ao longo de anos, o espectador finalmente decidia reagir.
Falta meia hora para a segunda sessão. Já estamos de novo com nossos figurinos e fizemos o aquecimento. Adrian parece ter passado boa parte da vida entre festivais e apresentações de rua. Ele levou um de seus espetáculos, Homem Verde, para vários países. Na Croácia, acabou preso. Confundiram o homem verde com um ladrão de banco.
O saxofonista Dirk comenta: “Conheci dois palhaços em Barcelona. Um é o Adrian. O outro, ele odeia.”
“Acho que palhaços frequentemente se odeiam”, digo.
Tudo indica que a segunda sessão estará repleta de adolescentes.
“É o público mais difícil”, afirma Steven. Ele nasceu no Quênia e, depois de ingressar no Zanzara, se uniu à acordeonista Fiora, com quem agora tem um bebê de 5 meses chamado Raphael.
Os adolescentes são barulhentos e quase não se interessam por circo nem por pipoca. Fiora e eu suamos para vender sete saquinhos.
Na segunda parte do espetáculo, há uma cena em que quatro artistas fazem acrobacias num barco salva-vidas. Fora da embarcação, eu e o resto da trupe estendemos as mãos, ansiando pelo resgate. Cada gesto deve seguir fielmente as instruções de Adrian e, com sorte, soar espontâneo.
O diretor me ensina: “Se você for sincero, não tem erro.”
De repente, no meio da apresentação, Jans cai do barco. Uma queda pode ser sincera?
O público nem percebe. “Segurança em primeiro lugar”, costuma-se dizer no Zanzara. Entretanto, o artista de circo também tem a obrigação de continuar com o show, aconteça o que acontecer. Uma atitude diante da vida que me agrada. No fundo, o que diferencia o escritor e o artista de circo é apenas o sotaque.
Depois do espetáculo, Mayka recorda: “Antigamente eu fazia um número em cima de um cavalo enquanto ele galopava. Se você soubesse quantas vezes me estatelei…”
A fundadora do Zanzara dá um analgésico para a filha com uma expressão que não deixa dúvidas: Mayka acha que ela mesma já levou tombos piores.
Certa tarde, abro minha mala no palco, como em todas as apresentações, e tiro dela um porta-retrato, uma garrafa de vodca e um copo. Muitas pessoas nem reparam, já que fico sentado atrás do baterista. Atuo, no fim das contas, para um público imaginário.
Tomo um gole da bebida e sinto gosto de sabão. Depois descubro que substituíram a vodca por água de coco.
Paulo diz: “Se fizeram esse tipo de brincadeira, significa que aceitaram você.”
Quando entro no meu trailer à noite – o cobertor elétrico é um pequeno milagre –, encontro uma garrafa de vinho branco doce pela metade, com um bilhetinho: “Cumprimentos do monstro da vodca.”
No dia seguinte, durante o café da manhã, Jans me aconselha: “Cheire a garrafa primeiro.”
Acho que botaram vinagre dentro dela. E, se a gente suspeita de vinagre, acaba mesmo sentindo cheiro de vinagre.
Jans resolve me dar aula de acrobacia. O simples ato de subir pela corda é mais difícil do que eu imaginava.
“Todo acrobata sente medo”, afirma Jans. “Uns mais do que outros. Somos obrigados a nos relacionar com o medo.”
Eu e o medo iniciamos um relacionamento há muito tempo. Já nos desafiamos e nos esculhambamos, nos amamos e nos destruímos. Agora que estou aqui, pendurado nas cordas do circo, mesmo que a apenas 1,5 metro do chão, percebo com quem foi que me relacionei mais intimamente: o medo.
Ainda falta andar sobre garrafas, o que espero estar apto a fazer antes do Natal.
Na apresentação seguinte, encontro de novo um bilhete do monstro da vodca na minha mala, com algumas pistas de quem poderia ser o autor. Dorus, o garoto de 7 anos, quer investigar a fundo. Ele se põe a farejar os artistas e gritar: “Sinto cheiro de vodca.”
Jans diz: “Ginastas só conseguem ganhar dinheiro se estiverem entre os melhores. Eu, como acrobata, pratico um esporte de alto nível, mas não estou entre as melhores. Ainda assim, consigo ganhar dinheiro. É por causa do modo como me apresento. Taí a vantagem de ser acrobata e não ginasta. Se você vier até aqui, posso te dar mais uma lição.”
Poucas horas antes do espetáculo, estou outra vez pendurado numa corda. Acrobata para um público imaginário… A vida não precisa ser mais do que isso.
Escapulir é meu dom. A palavra, a minha luz. Desaparecer, o truque que pratico há décadas. O circo também é meu habitat.
Oito e Meio, o longa-metragem que Federico Fellini lançou em 1963, termina no circo. Em Fellini, o circo está sempre por perto. O final de Oito e Meio nunca deixa de me comover. O protagonista – o diretor de cinema Guido Anselmi, interpretado por Marcello Mastroianni, que está em confronto consigo mesmo, a arte e a existência – leva os principais personagens de seus filmes e de sua vida para um circo. Filme e vida se entrecruzam. Os mortos e os vivos. No circo, tudo é possível.
Na companhia dos músicos, de um palhaço, de uma criança e de outros artistas, os personagens dançam uma polonaise pelo picadeiro. O artificialismo do circo não resulta em afastamento, mas em intimidade. O personagem de Mastroianni parece só conseguir se aproximar realmente das pessoas por intermédio de sua arte – o circo. O comovente é que o fim do filme não se limita a essa constatação trágica. Oito e Meio termina com uma celebração. O teatral, a encenação verdadeira, é uma vitória sobre a impotência de Anselmi, que talvez seja a impotência de todos nós.
Dia seguinte ao Natal, segunda sessão, minha última apresentação. Adrian me permite fazer um número que normalmente ele mesmo faz: o da dança brasileira, o ponto alto da minha vida.
Martijn, que dividirá o número comigo, diz: “Se você fizer tudo com convicção, vai dar certo.”
Estou vestindo uma cueca grande e branca. Algumas penas foram coladas no meu corpo. Pareço uma estranha ave tropical. Danço como se a minha existência dependesse disso.
Mayka afirma: “Você é um viajante, como nós.” Não um cosmopolita, palavra um tanto pretensiosa, que esconde associações desagradáveis. Apenas um viajante. Prefiro assim.
O circo não deve ser romantizado demais. Após o espetáculo, o picadeiro e a tenda da frente precisam ser varridos. Os próprios artistas se encarregam da tarefa. Todo fim de tarde, dizemos uns aos outros: “Como as pessoas são porcas!” Ou: “Que imundo o público de hoje!” Lenços de papel, garrafas, copos plásticos, saquinhos, cartões de Natal.
Depois do jantar no trailer-cozinha, os artistas enchem saquinhos de pipoca para a apresentação do dia seguinte. Os banheiros de serragem ainda têm que ser limpos. Uma função da qual me pouparam e que geralmente é desempenhada pelo Paulo. Ele se assemelha a um palhaço italiano, com belos cachos grisalhos, olhos desolados e meigos. Paulo mantém um jeito de quem está sempre surpreso, o que talvez seja parte essencial do circo: a disposição para surpreender e ser surpreendido.
As lesões e os riscos tampouco devem ser romantizados. Quando machucou o tornozelo durante um ensaio na gangorra e teve que procurar ajuda às pressas na segunda-feira antes do Natal, Jans disse: “Com certeza, o fisioterapeuta vai pedir que eu descanse, mas quero fazer tudo aquilo para o que me preparei.” Ela mal conseguia andar. Rik precisou carregá-la. Mesmo assim, Jans falou: “Às três, tenho que me apresentar. Não sei como, mas vou.”
De tarde, ela executou seus números e sorriu para o público, passando por cima da dor. Eu gostaria de me comportar assim em relação à vida, caso já não tenha me comportado. A plateia é todo mundo – pais, filhos, amigos, colegas. Superar a dor e continuar sorrindo, fazer aquilo para o que se preparou.
Escrever também é circo, talvez o circo de um único homem, com inúmeras pessoas quase invisíveis nos bastidores e um aspecto intelectual que me agrada.
Desde que vi a Jans cair, não pude mais assistir àquele número sem me concentrar em Dorus, que costumava se sentar do meu lado. O menino me contou que a mãe não o obriga a subir no palco e que ele só falta a uma apresentação quando adoece. Dorus, porém, nunca fica doente em dia de espetáculo.
Jans havia dito: “Meu filho tem que se sentar perto da avó durante a minha performance. Se eu cair, todo mundo vai me socorrer, mas quero que alguém se preocupe com o garoto.” Às vezes, Dorus observava a mãe, que flutuava lá no alto; às vezes, se mostrava um pouco distraído e olhava fixo para a frente. Ou então brincava com uma boia. Uma criança vê os pais caírem, mas os pais se levantam, riem e driblam a dor, porque às 16 horas há outro espetáculo. Também se pode viver assim. Talvez se deva viver assim.
O circo fica literalmente na periferia. Jans, Rik e Dorus, Paulo e Mayka, todos moram em trailers na região de Achterhoek. Dorus já tem um trailer só dele. O mero fato de os próprios artistas precisarem esvaziar e limpar o banheiro do público demonstra que o circo – este circo, pelo menos – está na periferia das artes.
Abraçar o Zanzara é abraçar a periferia. Faço isso com uma entrega absoluta.
Não me admira que, no Natal, alguns artistas do circo (infelizmente não havia lugar para todos) participaram de um almoço oferecido a um grupo de sem-teto num restaurante próximo. Claro que um artista circense não é um típico sem-teto, mas existem gradações de sem-teto.
Mais tarde, naquela noite, trouxeram roupas e bolo para os artistas. Jans examinou uma calça jeans transformada em bermuda e disse: “Esse jeans tem enchimento na bunda. Eu não gosto.” Sua mãe logo retrucou: “Não faz essa carinha de inocente. Você adora calça com enchimento.”
Foi desse modo que celebramos o Natal: com dois espetáculos e, à noite, com papos sobre jeans e enchimento na bunda. Depois, Adrian compartilhou conosco mais algumas histórias sobre a sua rica trajetória amorosa – episódios que mal se distinguiam dos números de palhaço protagonizados por ele. Aqui, o amor e a mise-en-scène do clown se fundem.
Ainda tive mais uma conversa com o Adrian sobre a inocência, tão indispensável para o circo e talvez para toda a arte. Não uma inocência fingida nem uma glorificação da ignorância. Pelo contrário: saber de tudo e mesmo assim se perder em sua própria história, na história do outro (o que é a paixão, senão perder-se numa história?), na plateia e na obrigação de se apresentar. Manter a dignidade, afastando-se dela voluntariamente.
Encontrei uma família no Zanzara. Me encontrei. Às três, tenho que me apresentar. Não sei como, mas vou.
No fim, só queremos uma coisa: fazer aquilo para o que nos preparamos.