questões literárias
Douglas Pompeu Nov 2021 15h31
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Setembro de 2018: a ferrugem da paisagem comprova o início do outono. Acabo de sair de uma inesperada entrevista de emprego em Marbach, na Alemanha, e tomo um trem para Zurique, na Suíça. Dali faço o traslado para a comuna de Hinwil, onde antes de voltar a Berlim passarei mais uma semana finalizando o manuscrito de uma tradução. Tento não pensar no meu desempenho na entrevista. Ser um germanista brasileiro na Alemanha deve parecer atrevimento para alguns colegas da área. Para outros, trata-se de pura ingenuidade, dada a alta concorrência e precariedade pela qual a área passa há mais de quarenta anos. No trem, envio algumas mensagens, leio, escrevo, tento me distrair e por fim cochilo. Mais tarde, quando receber o telefonema da coordenadora do departamento de pesquisa do Arquivo Alemão de Literatura de Marbach (DLA), dizendo que fui aprovado na entrevista, esquecerei quase por completo a insegurança e o nervosismo durante a viagem.
Um mês depois, em outubro de 2018, no escritório acima da sala de manuscritos, sou apresentado aos meus colegas de trabalho. Sou o único estrangeiro e o segundo homem a integrar o departamento de pesquisa. A coordenadora eu conheço desde minha primeira visita ao arquivo, em 2009. É muito gentil comigo. Falamos rapidamente sobre a minha formação em linguística, minha pesquisa de mestrado sobre W. G. Sebald, a de doutorado sobre o arquivo da editora Suhrkamp e por fim sobre o Brasil, as sombras das eleições e o incêndio do Museu Nacional, no Rio de Janeiro. Conto que foi a pesquisa sobre Sebald que me levou pela primeira vez, ainda como bolsista, a Marbach. Foi naquela época que descobri o imenso arquivo editorial da Suhrkamp, para o qual montaria um projeto de doutorado que começaria alguns anos depois.
Até 2013, quando ainda morava no Brasil, nunca tinha imaginado que pudesse um dia viver e me estabelecer como pesquisador na Alemanha – um país que eu só conhecia por livros, e que evocava sobretudo a linha de produção de uma fábrica de filtros industriais onde meus pais trabalharam. Durante os primeiros anos vivendo na capital do país, não senti um grande choque cultural. Berlim é uma cidade onde todo mundo parece ter a chance, mesmo que ilusória, de se sentir em casa. O mesmo não pode ser dito sobre as demais cidades alemãs, Marbach entre elas. Tendo que me adaptar à província suábia, eu tentava assim me agarrar à motivação inicial que me fizera emigrar: o gosto e a curiosidade por arquivos literários.
Fundado em 1955, por meio de coleções de manuscritos de poetas locais, o DLA é o maior arquivo de literatura moderna da Alemanha e fica numa colina à margem do Rio Neckar, onde por acaso nasceu Friedrich Schiller, célebre dramaturgo e poeta nacional. A instituição conserva hoje em seus depósitos subterrâneos a maior coleção de legados dos cânones da modernidade em língua alemã e se tornou nas últimas décadas um ponto de encontro de germanistas de todo o mundo. Com suas casinhas de enxaimel – cercadas pela ruína de uma muralha, um portão e uma torre medieval –, Marbach lembra uma aldeia. Há açougues e padarias familiares, barracas de azeitona e de queijo na feira semanal e um curtume centenário. É curioso pensar hoje que foi ali, e não em Berlim, que fiz a maior parte de minhas novas amizades e contatos dentro e fora da Alemanha.
Sobre a Colina de Schiller (Schillerhöhe), visível da ponte ferroviária que conduz à estação de Marbach, se erguem três construções que representam momentos históricos distintos da instituição, e que hoje formam um pequeno campus de pesquisa. A mais exuberante é o Museu Nacional Schiller, fundado em 1903 – uma construção neoclássica que, até o início da década de 1970, abrigava em seu último andar também seu arquivo e sua sala de manuscritos. À frente do museu está a estátua de Schiller. Como notei nos últimos anos, há inúmeras delas no país todo. É comum que o dramaturgo leve a mão com a pena ao peito, próxima ao coração, mas somente nessa estátua de Marbach ele parece quase deixar cair seu rolo de manuscritos à altura da cintura, como se ao ver algo mais adiante, ao olhar para o próprio museu, parasse de escrever.
Quando pensamos em arquivos, a imagem que vem à cabeça é a de prédios herméticos, de difícil acesso e com pouca iluminação. À primeira vista, a arquitetura do arquivo literário de Marbach – hoje separado do Museu Nacional – não se distancia tanto desse estereótipo. Encravado como uma rocha no lado direito da colina, o prédio do arquivo, construído em 1972, remete a uma fortificação ou um bunker. Mas essa impressão é logo dissolvida com uma visita ao seu interior. Apesar da fachada escura de concreto lavado, a parte interna, naturalmente iluminada e forrada com carpete vermelho, é constituída por um espaço amplo e acessível: biblioteca de referências, salas de leitura e de manuscritos estão dispostas imediatamente ao alcance do leitor. Apesar do exterior algo hostil, o interior do prédio é confortável, aconchegante, seus funcionários simpáticos e solícitos.
Talvez fosse justamente esse contraste que os arquitetos buscassem enfatizar para os visitantes. Não foram poucas as vezes em que o meu próprio caminho até o interior subterrâneo do arquivo me fez pensar na história do termo técnico que mais se ouve nas discussões entre bibliotecários, arquivistas e pesquisadores em Marbach: Erschließung. A palavra alemã, que no contexto arquivístico é usada para ordenação, descrição e indexação de acervos, vem da mineração. É empregada, por exemplo, para descrever o processo de exploração de uma jazida antes de sua perfuração. Como no caso das jazidas, arquivos preservam seus tesouros no subsolo, longe da luz e em condições ideais de umidade e temperatura. Talvez justamente porque a superfície seja tão receptiva – com funcionários solícitos e salas que em seu conforto remetem ao interior de um porta-joias – o ato de adentrar o arquivo, baixando na direção da sala de manuscritos e depois para os depósitos onde estão armazenados seus fundos e coleções, é um pouco como aclimatar-se ao trabalho da mineração.
Mas, como no caso de muitas instituições de preservação da memória, o DLA se esforça em trazer vida ao mundo subterrâneo da posteridade. E faz isso não somente por meio da conservação e da aquisição de legados, mas também de leituras com scholars e autores contemporâneos, exposições cada vez mais interativas e, no caso da pesquisa, com bolsas de estadia para investigação. Algo da atmosfera mórbida de seus porões, porém, persiste mesmo quando itens são trazidos à superfície. Além de manuscritos, o arquivo de Marbach coleciona imagens e objetos como bustos, retratos, pinturas, mãos de gesso, máscaras mortuárias. Há uma espécie de sarcófago com roupas e mechas de cabelo de Schiller, coleções de besouros de Ernst Jünger, a mochila das caminhadas de W. G. Sebald, os sintetizadores e computadores construídos por Friedrich Kittler, além de objetos mais dramáticos, como o capacete de guerra de um soldado norte-americano baleado por Jünger na Primeira Guerra Mundial e o revólver que o romancista Wolfgang Herrndorf, autor do best-seller Adeus, Berlim (Tschick), usou para se suicidar em 2013.
Em 2014, alguns anos antes de começar a trabalhar na instituição, visitei uma exposição no terceiro e mais jovem prédio do campus, o Museu de Literatura Moderna (LiMo). Sob o tema “o valor do original” e feita em cooperação com outros arquivos, a curadoria era ainda mais explícita em seu fetichismo necrófilo, trazendo em suas vitrines não somente máscaras mortuárias e mãos de escritores em gesso, mas também a agenda de bolso quase destruída pela água que pertencera ao filólogo húngaro Peter Szondi, morto por afogamento em 1971 em Berlim, a almofada original do divã de Sigmund Freud, maços de cigarro do poeta Oskar Pastior e o cinzeiro de Ingeborg Bachmann, que causou o incêndio em seu apartamento em Roma e as graves queimaduras no corpo da poeta em 1973, pouco antes de sua morte.
Muito antes disso, na minha primeira visita ao museu, em 2009, também tinha sido levado pelo fascínio do original. Na época, acabei visitando a exposição fixa do limo, nomeada de Seele (alma), onde o arquivo expõe cronologicamente numa sala à meia-luz o melhor de suas raridades. Ali acabei encontrando dois objetos do poeta suábio Eduard Mörike aos quais volto até hoje quando estou de visita ao arquivo. O primeiro é um bastão de madeira corroído por um caruncho, cujos caminhos tortuosos o poeta marcara com tinta vermelha e verde, como se nele dois insetos desenhassem suas formas de escrita. O segundo, o manuscrito de um soneto em que as rimas tinham sido substituídas por um código feito de pontuação e cores – algo que parecia prenunciar o poema Vogais, de Arthur Rimbaud.
Três anos antes de eu começar a trabalhar no DLA, em outubro de 2018, o instituto tinha passado por um processo de transformação. Um dos legados do último diretor fora o de estabelecer um programa de cooperação internacional, estimulando projetos multilaterais que buscassem descentralizar coleções e conectar internacionalmente acervos literários. Já não se tratava mais de apenas adquirir e salvaguardar arquivos de escritores e intelectuais alemães, mas também de estabelecer relações transversais entre acervos para a preservação e visibilidade de arquivos literários ao redor do mundo.
Parte do estímulo para essa política viera dos trâmites envolvendo um dos maiores escritores de língua alemã: Franz Kafka. Desde os anos 1970, a Biblioteca Nacional de Israel buscava adquirir o espólio de Max Brod, amigo próximo de Kafka e em grande parte o responsável por sua obra não se perder na obscuridade (num dos episódios mais famosos da literatura, Kafka pediu a Brod que queimasse seus papéis após a sua morte; o amigo não obedeceu). O DLA fizera duas parcerias com a instituição israelense em torno desse objetivo, mas perante as constantes disputas pelo legado do autor e diante de tensões políticas e culturais entre as duas instituições, em 2015 o diretor do DLA decidiu criar a Global Archives, uma iniciativa estratégica voltada à cooperação internacional, focada em conectar legados literários de diversas instituições. Em 2016, o DLA perdeu de vez a disputa pelo espólio de Brod em Israel. A nova política do arquivo se tornou, a partir de então, a única chance de o instituto manter alguma relação com os documentos de Kafka em Israel – e, nesse contexto, a iniciativa Global Archives se tornou uma espécie de carro-chefe do DLA, concentrando esforços na investigação e indexação de coleções, espólios e materiais de autores e intelectuais exilados durante o Terceiro Reich. Meu trabalho na época da minha contratação envolvia coordenar a parte da iniciativa ligada à América Latina – entre os acervos brasileiros já catalogados na época em que cheguei estavam a biblioteca do exílio de Stefan Zweig, cartas de Lasar Segall e o acervo de Herbert Caro, primeiro tradutor de Thomas Mann e Ernst Bloch para o português.
Mas antes de iniciar minhas viagens a outros arquivos, passo meus primeiros três meses de adaptação em contato com os acervos preservados em Marbach. As sensações ali são distintas daquelas descritas pela historiadora francesa Arlette Farge, ao relatar seu contato com documentos de arquivos judiciários do século XVIII, em seu livro O Sabor do Arquivo. Como pesquisador, não foi pequena a importância que o livro de Farge exerceu sobre mim. A forma como ela enfatiza a materialidade e instauração de arquivos induziu minha própria experiência no manuseio com documentos. Mas, ao contrário dos documentos manuseados por Farge, os do arquivo em Marbach não repousam com uma camada de poeira nem estão carcomidos pelo tempo ou pelos bichos do depósito. Ali eles repousam em caixas verdes, revestidas por uma textura que lembra a pele de cobras e lagartos. São caixas fabricadas exclusivamente para Marbach. Em pastas de papel não oxidante, os manuscritos chegam à mesa do pesquisador sequíssimos e ainda frescos da refrigeração. As marcas do tempo e da luz estão ali, mas já não provocam o receio de tocá-los. Não vão mais se desfazer. Parecem se revigorar a cada olhada, tirar força de toda atração, aura e feitiço que provocam em nós.
Minha primeira tarefa era começar pelos documentos de autores exilados presentes entre os acervos de Marbach, e a partir dali traçar um plano para rastrear manuscritos em posse de bibliotecas e herdeiros fora da Alemanha. A lista era razoável. Para entender um pouco mais do projeto e talvez por impulso pessoal, decidi começar pela sua peça central, ou seja, por Franz Kafka. A maior parte dos manuscritos do autor se encontra hoje na Biblioteca Bodleiana em Oxford, na Inglaterra, devido à concessão desse material por parte de Max Brod à sobrinha de Kafka, Marianna Steiner, que os depositou em 1961 na biblioteca inglesa. Mas nem todos os manuscritos tiveram o mesmo destino. As cartas de Kafka à sua amante Milena Jesenská – bem como a coleção de Hélène Zylberberg com os originais do livro Carta ao Pai e os manuscritos do conto O Professor da Aldeia –, por exemplo, foram todos adquiridos pelo dla em 1956, 1981 e 1994, respectivamente. Além disso, os originais de O Processo, entregues por Kafka a Brod em 1920, foram leiloados por Esther Hoffe, secretária de Brod, e adquiridos de forma espetacular em 1988 por 1 milhão de libras, tornando Marbach a segunda instituição no mundo, depois da Biblioteca Bodleiana, com mais manuscritos do autor nascido em Praga.
Não espanta que, à diferença de outros manuscritos, os originais de O Processo estejam guardados em um cofre. Durante o processo legal em Israel, que durou nove anos e só terminou em 2016, também este manuscrito esteve ameaçado de restituição. Sem as intervenções do DLA e a criação de uma iniciativa de cooperação, talvez também ele estivesse hoje num cofre em Jerusalém, onde ainda se encontra o envelope vazio que o continha. Trata-se do manuscrito mais citado e mais consultado em Marbach. Mas os pesquisadores interessados em consultá-lo hoje precisam se contentar com cópias em microfilmes. Por questões de segurança e conservação, os originais não abandonam o seu cofre.
O maço de folhas arrancadas dos dez cadernos em que Kafka escreveu parte do romance que ele condenou como fracassado, mas que devido aos esforços de Brod se tornou um marco na história da literatura mundial, ficou à minha disposição por uma semana. Sozinho em uma cabine de vidro ao lado da sala de manuscritos manuseio com tranquilidade, página a página, os originais de O Processo, enquanto faço algumas anotações daquilo que não se pode encontrar nas publicações e nas edições críticas. As dobras, a textura, o peso do papel sobre a mão. Com uma lupa tento reconstruir na cabeça o movimento da pena do autor. Que pena ele usou, que tipo de tinta, que ideia perseguiu aqui e ali quando pareceu escrever de forma apressada. A letra de Kafka é legível. Não exige esforços paleográficos, como no caso de Alfred Döblin, Walter Benjamin ou Robert Walser.
Ao folhear as primeiras páginas, é possível notar que sua escrita vai gradualmente se comprimindo no espaço das folhas de caderno. Como é sabido entre os estudiosos desse manuscrito, notar a diferença do número de palavras nas páginas foi decisivo para sustentar a tese de que o autor, depois de escrever o primeiro capítulo do romance, não escreveu o segundo, mas passou diretamente para o último. Tento lê-lo na ordem em que supostamente foi escrito. Quero compará-lo com as edições que conheço. Até hoje se discute quais seriam as ordens dos outros capítulos. A hipótese que naquele momento me parecia a mais curiosa era a do colombiano Guillermo Sánchez Trujillo, segundo a qual Kafka teria usado essas folhas como uma espécie de palimpsesto para Crime e Castigo, do escritor russo Fiódor Dostoiévski. Mas de todas as hipóteses, nenhuma questiona o início do romance. A primeira página é um consenso. Fica difícil acreditar que é ela que está agora na minha frente. As suas margens e algumas dobras e ranhuras atestam que já foi reproduzida uma centena de vezes. Mas mesmo conhecendo a letra, ver a disposição das frases na folha, ler a famosa frase que abre o romance entre uma dezena de rasuras – “Alguém certamente havia caluniado Josef K. pois uma manhã ele foi detido sem ter feito mal algum” –, passar a mão pela página e sentir que aquelas saliências deixadas no papel têm uma relação física com o escritor é espantoso.
Passo duas semanas anotando detalhes sobre as folhas do romance inacabado. O caminho que estas folhas fizeram de Praga, passando por Israel e Londres, por todos os que as consultaram, pelos microrganismos acumulados no papel, até chegar às mãos de um funcionário brasileiro do arquivo em Marbach é tão improvável que por um instante me faz acreditar no sentimento ingênuo de ter rompido o véu entre a cópia e o original, ter chegado à matéria de algo essencial. Ainda em outubro de 2018 dedico-me a outros materiais de escritores exilados. Começo a seguir rastros de autores como Paul Zech e levantar hipóteses sobre cartas de Walter Benjamin a Gustav Glück, um de seus conhecidos exilados na Argentina, ao qual ele dedicou um texto importante de sua obra, intitulado O Caráter Destrutivo.
Durante uma das pausas para o café no terraço do arquivo, porém, algo ainda mais inesperado me faz voltar aos manuscritos de Kafka. É fim de outubro. Apesar das temperaturas cada vez mais baixas, os suábios seguem aparando os jardins na vizinhança. Faz um pouco de sol e os funcionários saem para tomar o primeiro cafezinho do dia. No geral, sem contar o almoço, há três pausas diárias para o café. Estão oficialmente incluídas no regulamento da instituição. Pergunto a um colega o motivo para tantas pausas, e ele me explica que boa parte dos funcionários que trabalham na catalogação ou mesmo nos depósitos subterrâneos não suportaria a jornada de outra forma. Tomo meu expresso e sento-me em uma das mesas, sem notar que ao meu lado está o chefe do departamento de manuscritos. Ele parece ter ouvido sobre o meu interesse em Kafka e me conta que, poucos meses antes, o arquivo havia adquirido mais um inédito do autor.
Pergunto se posso dar uma olhada nos papéis. Marcamos um encontro na sala de manuscritos e o próprio chefe do departamento me traz a pasta onde repousam. O manuscrito esteve em um cofre privado na Suíça desde 1983. Em maio de 2018, durante um leilão, as páginas foram adquiridas por um colecionador norte-americano que cobrira o lance feito pelo DLA. Mais tarde, no entanto, o novo proprietário, caridoso, as revendeu ao DLA pelo valor do lance feito anteriormente pelo próprio instituto. Tratava-se desta vez de seis folhas preenchidas com uma letra comprimida: o esboço de um romance de viagem que deveria ser escrito por Kafka e Brod. “Esboço para Introdução de Samuel e Richard”, como foram intituladas estas seis páginas, se refere a um preâmbulo de um projeto literário dos dois amigos escritores numa viagem que fizeram de Praga a Zurique em 1911. Chamado por eles de “Richard e Samuel – uma breve viagem através da Europa Central”, o projeto que Brod e Kafka esboçaram juntos deveria dar forma a um romance pouco convencional, baseado na representação ficcional das experiências autobiográficas dos dois viajantes – especificamente, nos “diários de viagem de dois amigos de caráter distintos”, que deveriam se desdobrar em uma forma narrativa dialógica.
Os amigos já tinham tentado fazer algo semelhante em 1909, numa viagem a Brescia, comuna da região italiana da Lombardia. Mas enquanto o intuito daquela primeira viagem era gerar uma espécie de duelo literário, em que cada autor escreveria o próprio texto a partir de uma experiência mútua, “Richard e Samuel” buscava dar forma a algo mais radical. O objetivo seria a criação de um texto único – a quatro mãos, por assim dizer – por meio da cooperação e da complementação de anotações sobre a experiência vivida pelos dois durante a viagem, tomando como base a reprodução jornalística objetiva. Por insistência de Brod, o primeiro capítulo do romance chegou inclusive a ser publicado em 1912 no jornal Herder-Blätter. Mas, depois disso, o projeto foi abandonado.
Ao manusear estes manuscritos sinto que descobri algo. Penso na descoberta. Em como pesquisadores e cientistas são reféns da descoberta. Anoto em meu diário que há algo na pesquisa de arquivo, em sua prática, que posso chamar de particular, especial, talvez único. Esse algo, no entanto, não tem a ver com qualquer emanação aurática do documento, muito menos com seu suposto ineditismo. Tem a ver com a contingência da busca, com o que a ciência da informação chama de serendipismo, um alegre acidente de percurso. Mais do que a tesouros, o fuçar, revirar, remexer e escavar de papéis e pastas em arquivos nos conduzem ao perigo da fabulação de uma descoberta. Mas o que afinal descobrimos? Por um lado, que o manuscrito não é simplesmente o original de um livro, que a sua originalidade está justamente em sua fragilidade – na inconsistência e instabilidade da faísca que gera a obra. Por outro lado, nos damos conta de que o achado não está na descoberta em si, mas no processo concreto do movimento de busca.
“O arquivo não conhece nenhum tipo de limite!”, me surpreendeu uma vez um colega arquivista durante o almoço. Trabalhar num arquivo torna nítido a um pesquisador que há algo sobre arquivistas que não cabe numa narrativa romantizada. Arquivistas trabalham horas, dias, semanas e até anos com dados, metadados, catálogos, registros e com a aquisição, ordenação, contagem e disposição maçante de folhas de papel em condições climáticas que permitam aos itens guardados ultrapassar todas as expectativas da vida humana. Arquivistas, nesse sentido, agem no contrapelo do tempo, permitindo à posteridade material da memória. Em depósitos frios e artificialmente iluminados, são os primeiros a estar expostos a toda contingência do arquivo. São eles que a ordenam em metros de estante e a tornam acessível, os responsáveis, no fim, pela possibilidade de toda descoberta.
Passados três meses de adaptação ao novo trabalho, começo a viajar pela Europa e América Latina para estabelecer parcerias. Entre outros institutos, visito o arquivo do Institut Mémoires de l’édition contemporaine (Imec), em Caen, na Normandia, em cujos depósitos estão acervos pessoais de Roland Barthes, Samuel Beckett, Michel Foucault, Marguerite Duras e Jean Genet. A visita me faz reconsiderar a metáfora da escavação. Há uma sala de leitura localizada dentro de uma abadia do século XI, na qual os manuscritos consultados pelos leitores são pesados numa balança antes e depois da leitura. Esta sala e sua balança chamavam a minha atenção menos para a materialidade do que para o inefável presente em arquivos, evocando mais uma espécie de sacralização do que a exumação de seus mortos.
Não são poucos os escritores que se valem dessa sacralização dos papéis de sua obra. Nos corredores e salas de Marbach, há uma expressão muito corrente que me parece concorrer com a expressão “mal de arquivo” (cunhada por Jacques Derrida ao discutir a ligação do arquivo com a pulsão de morte e com o apagamento da memória). Eu traduziria essa expressão por “consciência de acervo”. Refere-se à consciência de autores sobre a posteridade de sua própria obra, à forma como atuam estrategicamente no estabelecimento de um pré-arquivo de si. W. G. Sebald e o editor Siegfried Unseld seriam exemplos claros de pessoas que trabalharam conscientes do valor simbólico de seus próprios legados. Mas até mesmo Kafka, ao pedir ao seu amigo Brod para queimar tudo o que ele havia escrito, parecia estar consciente do valor de seu arquivo. Hoje é quase um consenso que o autor tcheco não teria deixado seus manuscritos nas mãos de Brod se não estivesse certo de que ele seria o único capaz de garantir a posteridade de sua obra. O último pedido do escritor ao amigo, ou seja, queimar tudo sem ler e sem deixar rastros do que compunha o seu legado (sim, ele escreve “legado” em seu testamento), teria dado ainda mais força ao valor da obra.
Quase no final de meu trabalho em Marbach, um artigo do jornal Süddeutsche Zeitung, assinado por Hans-Gerd Koch, o organizador e editor das cartas de Kafka, chama minha atenção para novos rastros do autor no espólio perdido de Dora Diamant, última pessoa próxima do autor até a sua morte. Segundo Koch, entre as atas de pessoas perseguidas (e seus bens) durante o regime nazista, estariam os documentos de Diamant. Koch menciona não somente 35 cartas de Kafka direcionadas a Diamant, como também 20 cadernos escritos por ele, e páginas de perguntas e respostas escritas nas últimas semanas de vida do autor, depois que seu médico lhe impôs uma proibição de fala. Todo esse material teria sido tomado pela Gestapo, ido parar na Rússia durante a Guerra Fria e voltado a Berlim nos anos 1990, onde estaria agora preservado no Arquivo Federal Alemão (Bundesarchiv).
Brod teria entrado em contato com Diamant depois da morte de Kafka em 1924, no intuito de adquirir esses manuscritos, ao que ela teria respondido que o autor lhe pedira para queimar tudo em sua presença. Mas Brod não contava com um blefe de Diamant, como ela mesma assumiu posteriormente, ao dizer que jamais teria podido se separar dos manuscritos. Depois de uma busca feita em sua casa pela Gestapo em 1933 – e sua posterior fuga para a União Soviética em 1936 –, a única lembrança material de Kafka que Diamant teria levado consigo teria sido uma escova de cabelo com cerdas douradas. Todos os manuscritos de Kafka teriam se perdido. “Cartas, páginas dos diários e todo o resto que eu tinha”, ela diz a Brod. Mas que resto?, Koch se pergunta. O resto que possivelmente se encontra nos cipoais dos arquivos de um Estado dividido politicamente por quarenta anos? Devido à censura, ao deslocamento de material e a processos administrativos e burocráticos entre as duas Alemanhas, grande parte desses espólios como o de Diamant está longe de ser catalogado, e até o presente é impossível acessá-los. Eu lia o artigo de Koch como um apelo, um chamado de resgate aos arquivistas.
No final de 2019, o projeto Global Archives é encerrado devido a mais uma virada na política cultural em Marbach, e retorno a Berlim. Em plena pandemia, a cidade parece voltar a pertencer aos seus habitantes. Depois de um ano longe de qualquer arquivo, sou convidado no início de 2021 pela Biblioteca Estadual de Berlim (Staatsbibliothek zu Berlin) a desenvolver um conceito de indexação para o arquivo da editora Klaus Wagenbach. Tenho duas mesas de trabalho, uma na biblioteca no Leste de Berlim, onde fica meu escritório, e outra no Oeste da cidade, onde está o arquivo da editora. Todos os dias, durante o horário de almoço, cruzo a linha de marcação do Muro de Berlim, indo de uma biblioteca a outra. O meu movimento pendular recupera de certa forma o feito por Wagenbach, um dos primeiros editores da Berlim ocidental a publicar autores censurados na Berlim oriental, perdendo a sua permissão para entrar na Alemanha oriental em 1967 por essa razão. Mas o movimento também sublinha metaforicamente minha própria história com a Alemanha, sua memória e seus legados literários e, sobretudo, minha condição ambivalente enquanto pesquisador ligeiramente distorcido e alterado pela minha experiência como instaurador de arquivos.
É de volta a Berlim que começo a entender que instaurar um arquivo é respeitar a biografia de cada acervo e de cada um de seus manuscritos. Ao contrário de outros acervos com os quais me ocupei, o da editora Wagenbach se dispõe à minha frente como as franjas de um oceano desconhecido. Composto de milhares de cartas entre autores e tradutores e de diversos tipos de manuscritos, nele habitam mil histórias de edição, censura, perseguição judicial e amizade. Cruzar esse oceano equivale a sair de meu lugar de puro usuário do arquivo para assumir responsabilidades de ordenação de um legado, cuja pré-organização e triagem foi feita não apenas pelo editor, mas também, e talvez até mais, pelas intempéries políticas e culturais da segunda metade do século XX. E mesmo aqui o legado de Kafka continua me perseguindo. Aos 91 anos, Wagenbach foi o primeiro editor a colecionar e publicar fotos pessoais do autor e até hoje é conhecido como uma das pessoas mais velhas a serviço da consagração de sua obra.
Naturalmente, me alegro com a possibilidade de voltar à busca por vestígios. A ideia da descoberta ainda me assombra. Mas depois de dois anos de viagens por arquivos e salas de manuscritos movimentados, onde pesquisadores de luvas, máscaras e lupas passam o dia a copiar trechos de cartas aparentemente indecifráveis, algo mudou. Caminho agora por salas de leituras tão silenciosas como os depósitos no subsolo, e sinto ser o único funcionário de duas bibliotecas vazias. Lido com o pó, o mofo, marcas de danos por inundações e incêndios, caixas, maços e pilhas de papéis avulsos. Tenho ao meu lado meu próprio carrinho para o transporte de livros e manuscritos, as chaves para armários e cofres nos subsolos usados como bunkers na Guerra Fria. Com os meses vou aprendendo a andar pelo labirinto feito de estantes, corredores, elevadores e escadarias. Passo a sofrer as marés do arquivo, que ora se expande, ora parece retrair-se. E toda vez ao abrir uma caixa temo que algo se danifique ou se desfaça. Já não me ocupo apenas com as contingências e apelos da descoberta, mas antes com a instauração e conservação de uma ordem da massa de informação acumulada ao longo de uma vida, com as negociações e solicitações materiais e temporais da posteridade. Sinto que estou finalmente ingressando no reino dos arquivistas.