questões literárias
Vinícius Portella Mai 2022 18h26
19 min de leitura
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Já virou quase uma frase de efeito a famosa constatação atribuída ao teórico norte-americano Fredric Jameson segundo a qual seria mais fácil imaginar o fim do mundo do que o fim do capitalismo. A cultura pop já convivia com ficções pós-apocalípticas como Mad Max quando especialistas começaram a alertar sobre o potencial destrutivo de nosso modo de vida na Terra, mas, até a queda do Muro de Berlim, o principal medo de destruição planetária ainda parecia ser o de uma guerra nuclear. Nas duas últimas décadas, isso mudou.[1] Quando a exaustão ambiental chega até aos filmes fofos da Disney, como Wall-E, de 2008 – uma saga sobre um robô encarregado de limpar o planeta devastado enquanto a humanidade foge numa nave –, é sinal de que já está instalada, no fundo da cultura, a percepção de que tudo tem um limite. De que a conta ambiental viria a ser cobrada, mais cedo ou mais tarde. Só não se sabia ainda que seria mais cedo do que tarde.
Hoje, o consenso científico informa que a humanidade tem pouquíssimo tempo para mudar sua matriz energética e sua expectativa global de consumo, caso não queira comprometer a sobrevivência da própria espécie e da maior parte das outras espécies deste esferoide. Já não é possível impedir totalmente o aquecimento global, assim como não é possível evitar de todo diversas transformações que vão desde a acidificação dos oceanos até a dispersão de incontáveis partículas de plástico por toda a sua extensão. Esse processo já se instalou. Nós já vivemos num mundo parcialmente destruído, severamente danificado, que se encaminha para a quebra do precário equilíbrio do qual emergiu a vida animal no planeta. A questão que resta é o quanto dessa destruição será amainada. E com que rapidez e força as mudanças radicais vão ocorrer.
No final do ano passado, estreou na Netflix a comédia Não Olhe para Cima, do diretor norte-americano Adam McKay. Em que pese a aparente vontade do filme de ecoar clássicos de desastre, com a sua ameaça tosca de meteoro, a ameaça real não se trata do cometa que chega para nos levar como ato divino, conforme bem apontou no Twitter a professora de matemática e história e filosofia das ciências Tatiana Roque, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Tanto no caso da pandemia como no da mudança climática (duas crises inextricáveis), o problema não está em contingências externas, mas sim nos limites internos ao nosso modo de vida. E, mesmo com todos esses sinais cada vez mais evidentes de exaustão, mesmo com o mar pegando fogo e o céu se cobrindo de fuligem, o crescimento eterno a qualquer custo segue sendo a regra do jogo, como se esse mesmo jogo pudesse ser jogado para sempre. Dentro desse quadro, tão preciso em sua desesperança, o que se pode escrever? Num mundo que já tem tantas outras demandas urgentes, tantos outros alarmes tocando ao mesmo tempo, que história pode ser contada que não seja só um balbucio ressentido e indignado diante dos negacionistas, ou um remake secular do livro do Apocalipse?
Os escritores Daniel Galera e Natalia Borges Polesso nos dão duas tentativas sólidas em O Deus das Avencas e A Extinção das Abelhas (respectivamente, uma coleção de novelas e um romance). A primeira é uma resposta mais especulativa à crise, a segunda, mais afetiva. Uma está ancorada nos possíveis mundos que virão após a destruição do atual, enquanto a outra tenta registrar a textura alucinada do nosso presente.
Galera nos oferece em O Deus das Avencas uma “trinca de novelas”. A novela-título se situa no passado recente e é tensa e bem narrada, ainda que um pouco previsível em alguns movimentos. Acompanhamos um casal no Sul do país que passa por um parto difícil e enrolado nas vésperas da eleição presidencial de 2018. Aqui temos o Galera que já conhecemos, autor de ficções realistas sóbrias e controladas. É um esforço competente de capturar algo da tensão daquele momento, mas o autor se contenta um pouco demais em ficar contido nos limites da sua marchetada miniatura emocional. As outras duas histórias da coleção se passam no futuro (Tóquio num futuro mais próximo e Bugônia num futuro já mais nebuloso). É difícil não ler o livro como um tríptico temporal, as duas histórias da Terra devastada se dando como reverberações da primeira, que narra o nosso presente e suas péssimas decisões.
Em Tóquio, a segunda novela da coleção, acompanhamos um narrador cuja mãe era uma bilionária brasileira da tecnologia que teve suas memórias e experiências copiadas na nuvem antes de morrer. O narrador participa de um grupo de terapia de pessoas que também tiveram seus entes queridos digitalizados e transformados, bizarramente, em avatares físicos de diversos tipos (desde os que parecem um alto-falante sem fio, como é o caso da mãe do protagonista, até os que se aproximam de seres humanos naturais, com vários meios-termos esdrúxulos). Isso tudo se dá numa cidade de São Paulo devastada por crises de energia e abastecimento, escaldada por um calor que força seus habitantes a trafegar em túneis subterrâneos e criar fazendas urbanas nos prédios, fustigada por tempestades e outras calamidades constantes. Enquanto o protagonista cuida dos tanques onde cria vida vegetal e animal, ele também lida com o ressentimento e o afeto confuso por esse avatar digital de uma mãe que já era quase robótica antes de desistir do próprio corpo, e com a memória de um relacionamento fracassado com uma ativista ambiental, cujo fim foi catalisado por um raro encontro com a mãe, ainda viva.
Não fica claro em que ano estamos em Bugônia, a terceira novela da coleção, até porque muitos dos personagens tentam deliberadamente negar o passado. O pouco que sabemos é que estamos num mundo violento e devastado por pandemias bacterianas e virais, sem energia elétrica, e que há entre a violência e a peste o pequeno povoamento cooperativo da personagem Chama, onde uma anciã chamada apenas de Velha serve de liderança. Esse pequeno povo estabeleceu uma aliança com uma espécie de abelha mutante que produz um mel essencial para a atual sobrevivência na Terra. Essa aliança com as abelhas é, portanto, vital para a comunidade, mas os personagens também sabem que o remédio resultante da aliança interespécie não elimina a bactéria do corpo, apenas lhes permite conviver com ela sem ter seu corpo devorado. De modo que a sobrevivência humana na história está sempre sombreada por sua precariedade, sujeita a um acordo cooperativo que a qualquer momento pode ruir.
Ainda se opera para boa parte da crítica literária hoje uma divisão um tanto rígida entre literatura tida como séria (às vezes chamada redundantemente de ficção literária) e literatura de gênero (ficção científica, fantasia, terror). Enquanto isso, em alguns nichos de pensamento teórico, a ficção científica é vista há anos como um repositório especulativo fecundo.[2] Mesmo com acenos da crítica especializada ao gênero (dos quais a entrada de Philip K. Dick na prestigiada Library of America é um exemplo), continua relativamente raro que autores atravessem essas fronteiras do decoro crítico, ainda mais no Brasil – o que torna o gesto de Galera ousado e bem-vindo.
Seu híbrido aqui entre os dois registros é muito bem realizado. É notável, por exemplo, a atenção de Galera ao descrever procedimentos materiais, como a manutenção de um tanque de aquaponia: “Os excrementos dos peixes eram convertidos por bactérias em nitratos que eram absorvidos diretamente pelas raízes das plantas, o que por sua vez regulava a toxicidade da água.” Ele parece fazer a pesquisa pertinente ao que narra, e isso dá estofo à sua especulação. Há, é certo, um excesso de didatismo em alguns diálogos – como se o autor quisesse demonstrar que fez o dever de casa.
Mas é um detalhe comparado aos méritos de O Deus das Avencas. Não sou o maior admirador dos primeiros livros do autor, mas desde Barba Ensopada de Sangue, seu quarto romance, a sua prosa amadureceu para um registro realista sólido e arguto, com rara precisão vocabular, metáforas visuais inventivas e maior amplidão emocional. A partir de Meia-Noite e Vinte, seu quinto romance, isso também vem acompanhado de uma tentativa mais encorpada de lidar ou assimilar uma série de discursos e assuntos sociais e políticos mais vastos – já passando pela crise climática, ainda que lateralmente. Até aqui, porém, Galera nunca havia se estirado muito além de um realismo bem controlado, ainda que com seus arroubos eventuais de gauchismo selvagem e sutis acenos ao fantástico, como nos finais dos dois romances citados. O Deus das Avencas parece expandir o repertório da sua imaginação de maneira considerável, e para este leitor, ao menos, as histórias – sobretudo as duas últimas da coleção – compõem no todo o melhor livro que Galera já escreveu, com algumas boas léguas de distância.
Em Tóquio, a sua sátira a uma seita de pós-humanos que querem viver para sempre, digitalizados em avatares, Galera ecoa muito da crítica feita a gurus do trans-humanismo como Ray Kurzweil, um inventor norte-americano admirado por diversos empreendedores do Vale do Silício. Kurzweil promete há quase vinte anos a chegada de uma “singularidade”, o momento em que o aumento de poder da inteligência artificial atingiria uma mudança substancial de fase, gerando como consequência um mundo miraculoso e sem limites de transformação tecnológica. Essa sensibilidade trans-humanista ainda seduz muita gente por meio da promessa de que eventualmente viverão para sempre (presenciei um jovem milionário numa aula em Stanford confessando candidamente esse desejo como a coisa mais natural do mundo, em 2018). Para Kurzweil, até 2045 seremos capazes de descarregar toda nossa consciência em suportes digitais. Muitos pensadores são críticos dessa ideia – a teórica dos meios de comunicação Katherine Hayles e o filósofo argentino Fabián Ludueña, por exemplo, enxergam no trans-humanismo uma reedição do antigo dualismo entre corpo e alma, com uma crença subjacente de que a imundície do corpo deva ser resolvida pela pureza da abstração. Como se a matéria fosse não uma dimensão inevitável da vida, mas apenas mais um problema inconveniente de engenharia a ser solucionado, e o corpo fosse algo em si mesmo corrupto, a ser, necessariamente, transcendido (antes por Cristo, agora por silício).
Galera dramatiza essas questões de maneira efetiva na novela, que oferece cenas genuinamente tocantes e perturbadoras com os avatares robóticos bizarros que conjura. Além da relação do protagonista com o avatar que contém as memórias digitalizadas de sua mãe, vemos no grupo de terapia vários androides com relações disfuncionais com seus familiares. Uma das participantes do grupo é Nora, cuja irmã Samanta morre de câncer e é substituída por um ser artificial realista e hiperforte. Mesmo parecendo gente, ela tem olhos que brilham demais, uma postura neutra como a de um manequim. Notam-se marcas de desgaste nos pulsos e coxas que denunciam sua artificialidade, e que fazem o protagonista pensar no farelo de borrachas escolares que ele gostava de despedaçar na infância, quando “materiais como plástico, borracha e silicone ainda eram vistos como coisas mundanas, substâncias mais reles que o barro ou a pedra, ainda sem traço dessa qualidade um pouco amaldiçoada ou espectral que parecem emitir hoje”. Ainda assim, o protagonista se sente sexualmente atraído pela criatura.
Esses seres estranhos – que não chegam a parecer humanos, mas estão recheados das memórias dos mortos – condensam um dos pontos mais fortes da novela. A estranha ideia de família viajando através do metal e do plástico, para parafrasear Drummond. O protagonista não acredita que aquele alto-falante modernoso que contém as memórias da sua mãe é a sua mãe, de fato, mesmo podendo conversar com ela. A conclusão de que não se pode fugir do corpo pode soar banal, mas Galera expressa a ideia com imagens fortes de fracassos técnicos bisonhos e meios-termos perturbadores entre o artifício e a vida.
Se há uma crítica mais contundente que possa ser feita a Tóquio é que a história e algumas das relações (em particular entre a ex-namorada ativista ambiental e a bilionária mãe do protagonista) acabam apresentando momentos esquemáticos, talvez pelo pouco espaço que elas têm para respirar, mesmo quando bem desenhadas no geral e nos detalhes. Galera nos leva rapidamente a mundos convincentes que se armam e desarmam em conclusões dramáticas igualmente súbitas. Há habilidade nessa presteza narrativa, que lembra, ainda que vagamente, o poder de concisão da escritora canadense Alice Munro, que condensa aparentes romances inteiros em contos de trinta páginas. Mas aqui, como em Meia-Noite e Vinte, o que algumas dessas ideias e premissas mereciam era respirar mais, ganhar a gordura necessária para que seus personagens ancorassem a especulação do escritor no chão das suas experiências.
Mas se Tóquio acena um pouco demais com o peso de suas (boas) ideias e lhes dá, em momentos, pouco espaço para se movimentar, a terceira novela, Bugônia, faz quase o oposto disso. Sem dar grandes contextualizações, enreda um mundo em ruínas na tessitura afetiva da trama, dando exatamente o vislumbre que precisamos de um mundo radicalmente distinto do nosso, mas saído das entranhas do atual. Galera parece acenar aqui em direção a toda uma frente do pensamento e da ficção erguida nas últimas décadas – uma que se volta para a importância de alianças com outras formas de vida, e que tenta reconhecer o quanto a nossa própria identidade, mesmo nossas entranhas (ambiente para nossa microbiota) e nosso material genético (carregado de muito peso morto virótico) são feitos do que nos é alienígena. Nomes como a filósofa Donna Haraway, na teoria, e Ursula K. Le Guin na ficção, por exemplo. Não sei se identifico bem a inspiração, mas de todo modo seu livro, e em especial esta última história, tenta com sucesso se inspirar nas tramas que sempre contamos, na sua materialidade afetiva e mecânica, mas também nos lampejos preciosos que a ciência e o pensamento crítico arrancam da natureza. Galera já havia demonstrado esse interesse em ciência ao menos desde Barba Ensopada de Sangue, com seu protagonista acometido por prosopagnosia (uma desordem neurológica que incapacita a pessoa de reconhecer rostos, inclusive o próprio). Mas aqui o autor vai mais fundo. Em seu relato sobre a cooperação necessária entre humanos e abelhas mutantes, em sua descrição das bactérias ajudando a purificar um tanque de agricultura, Galera tenta narrar a dificuldade de se manter laços e vínculos coletivos através do tempo, diante das adversidades materiais e de impulsos violentos que sempre ameaçam retornar. E faz isso a partir de uma admissão larga e atenta das muitas alianças que precisaremos aprender a fazer para seguirmos vivos, “mesmo amaldiçoados”.
Abelhas também são parte importante do romance de Natalia Borges Polesso, menos como possíveis aliadas e mais como índice de colapso. A Extinção das Abelhas nos dá um retrato cômico e exasperado da destruição arrastada de que a maioria de nós toma parte todo dia, consumidores ansiosos num mundo em chamas. Acompanhamos no livro as desventuras de Regina, dona da gata Paranoia e uma testemunha ansiosa da derrocada da civilização, também a partir do Sul do Brasil. Sua mãe, cuja vida atribulada acompanhamos em paralelo à de Regina, largou a família muito cedo sem dar explicações, e seu pai era um alcoólatra que a ensina a beber para esquecer os sentimentos, até falecer e deixar a protagonista com um casal de senhoras e uma irmã de criação. Com um ouvido agudo para diálogo e inflexão de personagem, Polesso registra via sua personagem a precarização da vida no Brasil, o crescimento da população em situação de rua e o modo como vamos nos acostumando a circunstâncias insustentáveis de colapso e de exceção.
O livro começa num futuro próximo, num lugar que aos poucos entendemos ser um Brasil presidido por Luciano Huck, que estaria governando as crises sanitárias e ambientais com o uso de aplicativos e joguinhos para tudo (o nome dele não é dito, mas a referência é óbvia). Longe de ser inverossímil, o retrato que Polesso faz do nosso colapso é, ainda assim, deliberadamente histriônico. O tom se cristaliza já no início, na descrição de um “colapsômetro” que está sendo inaugurado para registrar a quantas anda a taxa de destruição da Terra:
No dia que anunciaram o colapsômetro como “medida de proteção e segurança planetária”, eu ri e chorei. Montaram um circo em Davos, e a gente acompanhou pelas redes. Todos os palhaços, doidos e leões decrépitos que mandavam no mundo estavam lá. […] Demorou um pouco porque as coisas ficaram meio enroladas, literalmente. Tiveram que arrancar o pano de cima do que parecia ser um enorme termômetro, que marcava a “temperatura” de vários índices em vários lugares do mundo. Os limites tinham que ser respeitados por todos. Ou o país, ou determinadas regiões do país, sofreriam sanções, e algumas zonas seriam fechadas. […] Era preciso construir monumentos esquisitíssimos, com nomes ridículos e em algumas línguas impronunciáveis, para que as pessoas acreditassem nas palavras, nas promessas. Nos indicadores reais das coisas do mundo: os preços, as faltas, as mortes.
Eu ainda estava tateando o tom do livro quando li esse trecho, e algo em mim de início não gostou muito dessa cena, ainda que pudesse apreciar que a própria Polesso parecia admitir, com seu tom autoconsciente, o quanto aquilo era tolo, mesmo como sátira. Para o ficcionista contemporâneo, anda um tanto difícil calibrar o ridículo ao tentar satirizar, ou mesmo só descrever em registro pretensamente realista, uma sociedade que chega aos píncaros do delírio coletivo, como a nossa chegou desde a eleição presidencial em 2018.
Talvez seja impossível satirizar com sucesso o que já é extremamente caricato, mas Polesso chega bem perto de conseguir. Acabou me conquistando com essas camadas sucessivas de desgraça narrada com graça, e os desarmes trazidos pelas vulnerabilidades públicas e privadas da personagem principal. Também ajudou o recurso de suprimir a última palavra de cada pequeno capítulo, que serve de título para o próximo. Essa estrutura rítmica enganchada e viciante, que Polesso usa frequentemente para criar incongruência e algumas boas piadas, deixa a leitura do início do livro quase irresistível, além de adequada para capturar o nosso circuito atual de atenção atomizada. Polesso usa quase sempre frases curtas, com alguma repetição para dar ritmo, e muitas vezes para efeito cômico. A concisão estilística contrasta com a expansividade das personagens de Polesso, que vão se abrindo em ondas curtas de tagarelice e não param de se abrir, como um saco que não se sabia tão fundo, ou um brinquedo anelado de palhaço que é muito mais comprido do que deveria ser.
O tom cômico não impede o livro de ter gravidade e peso. A violência está presente na vida dos personagens, assim como a onda de medo real e de ameaças concretas que a população lgbtqia+ vem sofrendo com a ascensão da extrema direita no Brasil (Regina é lésbica). Há uma mistura estranha e muito expressiva, entre violência e humor, gravidade e graça, ainda que nem sempre Polesso consiga manejar esse equilíbrio com o mesmo sucesso. O absurdo real do governo Bolsonaro e da destruição ambiental que leva à morte em massa de abelhas por uso indiscriminado de pesticidas estão lá como pano de fundo, o que ancora qualquer irrealidade do livro a um chão de realidade infelizmente cada vez mais palpável.
A história de Regina chega aos poucos a uma torrente de contingência e de precariedade que é brutal e, no geral, convincente. A personagem diversas vezes constata que o fim do mundo não é como nos filmes, em que de repente todo mundo sabe para onde é que se deve ir ou qual é o dispositivo que precisa ser encontrado. O mundo vai terminando sucessivas vezes não como num estrondo, mas como uma massa de murmúrios, sucessivas disestesias que vão arrombando ainda mais as poucas redes de proteção, deixando quem já era vulnerável mais vulnerável, encarecendo o café e a insulina. Até um fim derradeiro que nunca chega. Essa forma de tratar o apocalipse invoca a asserção dos pesquisadores Déborah Danowski e Eduardo Viveiros de Castro, apresentada no livro Há Mundo por Vir? – de que o mundo já acabou para alguns, e vem acabando faz tempo para outros. “O futuro já está aqui, só não é bem distribuído”, disse o autor de ficção científica William Gibson. O mesmo pode ser dito sobre o apocalipse: já está aí faz tempo, só é muitíssimo mal distribuído.
A segunda metade de A Extinção das Abelhas, além de conter detalhes absurdos – como um segundo Sol que traz para a Terra um dia contínuo –, intensifica o colapso geral do mundo até algo que somos convidados a chamar de pós-apocalíptico. A zona em que a personagem vive é excluída oficialmente do Brasil, vira terra de ninguém. É a parte do livro que menos convence. A oralidade forte ainda está lá, as urgências dos personagens são vívidas, mas de algum jeito senti que Polesso não acreditava tanto no mundo que nos traz no fim do livro, ainda que acredite nas ameaças e violências que descreve – e mesmo que bote toda fé disponível na rede de resistência LGBTQIA+ que resgata Regina, e na qual Polesso parece querer inscrever o seu romance. O livro não para de ressoar, mas de algum jeito sabemos que ainda estamos no presente.
Talvez haja intenção nesse gesto de teimar em repetir o presente, mesmo ao tentar invocar o futuro. A autora sabe que o sonho antigo de progresso tecnológico do mundo sempre teve o seu lado destrutivo embutido, e sabe também que quer, sim, participar de uma nova “configuração de mundo”. Ela só não finge que já sabe qual seria.
O que seu romance nos oferece é a textura ansiosa, hiperinformada e impotente do nosso presente, que consegue projetar gráficos e mais gráficos para atestar o colapso, apresentar para os problemas soluções que não são necessariamente absurdas ou utópicas, mas difíceis, e só receber como resposta uma intensificação da negação, do delírio de consumo eterno sem consequência. “Pequenos índices do avanço e do colapso, e do avanço do colapso”, escreve Polesso. A certa altura Regina diz: “A gente tenta análise, tira a lona pesada de cima dos problemas, expõe os monstros, fica junto deles, faz um jogo tosco de espelhos […] A gente senta para um chá, uma vodca. Mas nada, nada mesmo se encaixa. Aí a gente pode pôr a lona de novo por cima ou tirar a poeira de tudo e fazer um inventário imenso desses desastres. E conviver com eles.”
Tanto A Extinção das Abelhas como O Deus das Avencas retratam uma geração que consegue vislumbrar com minúcia o fim do mundo atual, mas que não consegue enunciar visões coletivas que correspondam à radicalidade do que sabemos. Em seu tríptico, Galera dá um passo ao futuro para imaginar algumas das extensões possíveis do nosso presente e alguma reconstrução precária, mas tampouco propõe um mapa direto e unívoco de um futuro melhor. O que tanto ele como Polesso fazem, e isto já é um tanto, é mapear um pouco do sentimento de testemunhar o chão ruir, de poder ver as fissuras enquanto elas se arrombam adiante. “Naquele ano o aquecimento já se fazia sentir,”, escreve Galera em Tóquio, “mas tínhamos a impressão de estarmos vivendo os dias mais quentes de nossas vidas, e não os dias mais amenos do futuro que nos aguardava.” A previsão é simples, nada ousada, e ainda assim lê-la me deu um frio na espinha. É o que a ficção pode fazer: tornar palpável e urgente coisas que, enunciadas em outros contextos, soam abstratas demais.
Não se pode culpar romancistas por não saber como salvar o mundo, mas é sintomático que tanto os nomes de políticos e partidos políticos reais quanto de movimentos ambientais de oposição ou resistência estejam amplamente ausentes da especulação futura dos autores. Não é o tipo de registro que os escritores buscavam nos seus livros, mas é uma ausência que talvez aponte para regras implícitas de decoro presentes na nossa ficção. Em Bugônia, as identidades religiosas e políticas do passado parecem ter sumido, como se a novela viesse de lugar nenhum. Talvez a desmemória congênita ao universo digital, que já devorou tanto da diversidade do mundo, de fato nos leve a apagamentos do tipo num futuro próximo. Mas é um gesto que livra o autor de ter que especular em cima do território político que temos, e a ausência mostra a relutância de nossos ficcionistas de darem nomes a alguns bois (ainda que os dois saibam que os literais donos dos bois são boa parte do problema).
Polesso posiciona seu livro contra o agrobusiness devastador (que ela chama de agrotech) e uma sociedade patriarcal violenta, mas Regina seria a primeira a admitir que, na prática, não saberia bem conjurar outro mundo. Poucos sabem, claro. Ambos os livros me parecem, também nessa desesperança e nessa desarticulação, reações expressivas deste momento que nos arrasta e cujos termos coletivos ainda precisamos aprender a enunciar. Mesmo aumentando a consciência geral do problema, mesmo vencendo algumas camadas de negacionismo com iluminismo e checagem de fatos, a impotência da nossa imaginação política continua na sua sinuca habitual.
De todo modo, sempre importa que histórias contamos sobre o mundo e o colapso, como diria Donna Haraway. Importa quem conta essas histórias de fim, e para que fim. Dificilmente um romance vai convencer multidões a respeito da realidade da crise climática, mas imaginar os futuros mutantes que brotarão das ruínas, mapear essa agonia e essa ansiedade aguda do nosso presente, tudo isso é um bom começo. E um dos meios de, com sorte, começar a adiar o fim.
[1] A guerra na Ucrânia certamente reacendeu esse medo, mas ainda não o consolidou.
[2] O filósofo e crítico Steven Shaviro, professor da Universidade de Wayne State, no estado norte-americano do Michigan, é um dos principais admiradores do gênero. A obra da belga Isabelle Stengers, especialista em filosofia da ciência, também recorre com frequência a autores de ficção científica para ancorar suas especulações.