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O MONSTRÃO

O bodysurfer brasileiro-havaiano Kalani Lattanzi enfrenta com o próprio corpo uma das maiores ondas do planeta

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Algumas das maiores ondas do mundo ocorrem na costa Oeste da Ilha de Maui, no Havaí, numa região marítima chamada Jaws (“mandíbulas”, em inglês). Para um surfista, desafiar Jaws é aceitar a possibilidade de ser mastigado como um inseto por toneladas de água. As ondas produzidas ali podem alcançar uma altura de cerca de 18 metros, o equivalente a um prédio de seis andares. Por isso, em Maui há grande atenção com a segurança dos surfistas e não faltam equipamentos de proteção, como capacetes e coletes que inflam em segundos, além de jet skis, úteis tanto para colocar o surfista no ponto certo da onda quanto para resgatá-lo. Era assim até aparecer Kalani Lattanzi.

Nascido no Havaí, mas criado no Brasil, Lattanzi, de 28 anos, dispensou esse aparato (exceto a carona dos jet skis) na hora de enfrentar Jaws, em 2 de novembro do ano passado. Ele avançou sobre o Pacífico munido apenas de sua própria força, um par de nadadeiras e um handplane verde – uma pranchinha do tamanho de um caderno escolar. Por volta das três da tarde, enquanto Jaws gestava a sua fúria, Lattanzi – com seus 85 kg de peso e 1,79 metro de altura – encontrou a velocidade e o ponto exatos, desviou-se rapidamente para a direita e, de barriga para baixo e braços esticados à frente, enfrentou a gigante no peito.

Durante cerca de quinze segundos, deslizou pela onda e cruzou as suas entranhas como se escorregasse sobre um amontoado de plumas. “É igual a estar em um salão”, diz Lattanzi, sobre a sensação de penetrar no imenso tubo de água formado pela onda. “Lá de dentro, eu pude ouvir as pessoas comemorando.” Elas festejavam a primeira vez (documentada) que uma pessoa dominou Jaws com o próprio corpo. No registro feito na ocasião (disponível no YouTube), ele atravessa a onda como um bicho do fundo dos oceanos e depois levanta o braço em sinal de vitória. Mais do que isso: Lattanzi repete a façanha em outras seis ou sete ondas gigantes (ele não lembra bem quantas foram).

As muralhas de água de Jaws (ou Peahi, “onda” em havaiano, como a região é identificada pelos locais) ocorrem a 300 metros da costa, nessa parte da ilha desbravada no começo dos anos 1980 por praticantes de windsurfe. Perto, há um canal onde as águas são calmas e barcos conseguem ancorar para dar apoio aos atletas, fotógrafos e cinegrafistas. Foi dessa plateia que chegaram os gritos de comemoração pela façanha de Lattanzi. Depois, vieram os elogios públicos, como o do surfista norte-americano Kelly Slater, de 50 anos, onze vezes campeão mundial da World Surf League (WSL). Em sua conta no Instagram, ele afirmou que a onda de Lattanzi era uma das mais bonitas já surfadas na história. “Fiquei muito feliz quando vi esse comentário do Kelly Slater. Ele é o maior surfista de todos os tempos”, diz o bodysurfer brasileiro-havaiano. “Me lembrei de quando tinha 8 anos e jogava o videogame dele, Kelly Slater’s Pro Surfer.”

Naquele dia 2 de novembro – outono no Havaí –, Lattanzi já havia surfado pela manhã, de prancha e peito, em outro ponto da ilha. Foi para casa e, depois do almoço, viu pelo Instagram imagens das ondas que estavam se formando em Jaws. Resolveu voltar ao mar.

Para chegar até lá perto, é preciso uma picape 4×4, porque a estrada é de terra e muito precária, passando por um matagal. “O caminho é sinistro”, define Lattanzi. Ele foi com seu próprio carro, menos potente, até um ponto e esperou que passasse uma carona. “Durante o trajeto, fui me alongando como um louco já na caçamba do carro.” Depois de atravessar as pedras do penhasco, entrou no mar e nadou em direção às ondas. Na água, cruzou com um conhecido sobre um jet ski e ganhou outra carona, até mais perto da arrebentação. “Quando peguei a primeira onda, percebi que era possível fazer o tubo.” Ele continuou a surfar outras ondas. “Depois que eu pegava uma, os pilotos de jet ski vinham me apanhar para levar de volta, e eu surfava de novo. No canal, as pessoas vibravam, queriam me assistir”, conta.

As grandes ondas em Jaws e em qualquer outro pico de surfe dependem do vento. “Intensidade, duração e o tamanho da área do oceano que o vento vai percorrer são três parâmetros muito importantes para formar uma onda”, explica o oceanógrafo e surfista Douglas Nemes, especializado em mecânica das ondas e com pós-doutorado em engenharia costeira. Nos meses mais frios do outono e do inverno, a geração dos ciclones extratropicais ou subtropicais é mais duradoura, intensa e frequente (o que está relacionado com a diferença de energia solar recebida em cada hemisfério da Terra) – e, com isso, as ondas tendem a ser maiores e mais propícias ao surfe. “A natureza trabalha para fazer um balanço térmico do planeta, ou seja, o ar frio se desloca em direção ao ar quente. No inverno, há passagem ou formação de um ciclone a cada três dias, enquanto a média anual é de um a cada sete dias.” Durante esse processo, nascem as “ondulações bem organizadas”, que ocorrem em intervalos similares de tempo e definem o swell, termo em inglês para designar a chegada de ondas fortes.

Além do vento, é preciso um bom obstáculo, pois é o impacto recebido pelas águas que induz a quebra da onda. O Havaí está no meio do Pacífico, o maior dos oceanos. Até chegar ao arquipélago, as ondulações percorrem longas distâncias, acumulando energia. Ao se aproximarem, esbarram em uma plataforma continental vulcânica em torno das ilhas, onde, em uma curta distância, a profundidade do mar diminui drasticamente, passando em Jaws de 30 metros para 7 metros. “É essa bancada que faz com que a energia oceânica não se perca e potencialize o fenômeno de Jaws”, diz Nemes. Além disso, o fato de o Havaí estar em área tropical expõe suas ilhas a ciclones vindos do Norte e do Sul. “É uma possibilidade única, de 360 graus, com todos os ciclones apontados para lá, por isso há grandes ondas o ano inteiro.”

Não é simples medir o tamanho de uma onda. Para fazê-lo da forma mais precisa seria necessário colocar um equipamento no fundo do mar, no ponto onde a onda quebra, e outro na superfície, o que é inviável pela movimentação intensa da água. “O principal método hoje é a fotografia. Existem os submétodos, como as câmeras que conseguem dar uma estimativa da altura, mas, sem dúvida nenhuma, a foto é a mais confiável”, explica Nemes.

Lattanzi estima que a onda que pegou de peito em Jaws enquanto era filmado tinha entre 6 e 7 metros, mas o tamanho não foi validado por nenhuma liga esportiva nem pelo Guinness Book, que registra somente ondas surfadas em pé. O modo como ele surfa, de peito na água, é algo tão único que, para comprovar o tamanho da onda, seria necessário criar uma equação matemática específica, de acordo com Nemes: “Para calcular com precisão teríamos que pensar em um modelo matemático para o surfista deitado.” Isso porque a altura do atleta é uma referência para chegar ao tamanho da onda.

O peso de uma onda é definido por uma equação em que os fatores são a sua altura, a extensão da crista (a parte superior que vai se dobrando) e a espessura do paredão de água, mas outras variáveis influem, como os ventos, a salinidade da água e a velocidade das ondulações, que em Jaws pode chegar a 70 km/h. Calcula-se que uma onda de 10 metros de altura com uma crista de 20 metros de extensão pode pesar 410 toneladas. Não é possível calcular o peso da onda que Lattanzi surfou porque não se tem certeza nem da altura dela nem da extensão da crista, mas é certo que tinha algumas toneladas.

Apesar de dizer que sua especialidade é o bodysurf – praticado apenas com o corpo, sem o uso de pranchas –, essa não é a única modalidade em que Kalani Lattanzi se destaca. Aos 17 anos, ganhou o título de campeão latino-americano de bodyboard e ainda compete profissionalmente nessa categoria em que o esportista encara a onda deitado sobre uma prancha menor que a do surfe e com nadadeiras. Em junho passado, ele chegou às quartas de final no Itacoatiara Pro, uma etapa do circuito mundial de bodyboard realizada no litoral de Niterói. Apesar de não ter se preparado, participou da prova com a confiança de quem está no seu quintal. Famoso pelas ondas pesadas e sede de vários campeonatos de surfe, o bairro niteroiense de Itacoatiara, onde Lattanzi mora, está voltado para o mar aberto, não para a Baía de Guanabara (que separa Niterói do Rio de Janeiro).

A impressionante versatilidade para dominar as ondas levou com que Lattanzi fosse alçado a uma categoria superior de atletas, os watermen, ou homens da água, cujos requisitos básicos são nadar muito bem e ter uma boa apneia (capacidade de prender a respiração). Na infância, ele frequentou aulas de natação regulares em piscinas e chegou a participar de competições. Mas não gosta do cloro e prefere treinar no mar. A quem lhe pergunta sobre quantos minutos consegue prender a respiração, ele responde: “Pelo tempo que for necessário.” Em Itacoatiara, corre a lenda de que Lattanzi respira dentro d’água.

Sua mãe, a niteroiense Claudia Alvim, tem outra teoria. “Quando fiquei grávida, eu nadava e surfava todo santo dia. Só parei de surfar quando a barriga começou a me atrapalhar para ficar deitada sobre a prancha”, conta. “Mas eu nadava, ia longe no mar, conversava com meu filho na barriga e dava uns goles de água salgada. Acho que isso passou pelo cordão umbilical, porque ele é diferente da gente. Ele sempre ficou muito confortável no mar.”

Quando tinha 24 anos, Alvim foi para a Califórnia estudar inglês. Achou o clima da região frio e se mudou para Maui, no Arquipélago do Havaí. Lá conheceu o pai de Lattanzi, quando trabalhava como garçonete em um hotel à beira-mar. “Eu queria namorar um brasileiro, alguém que me chamasse de ‘meu amor’. Já tinha green card nessa época e pensava até em vir para o Brasil arranjar um namorado e levar para lá. Eu era loira, linda, quem não ia me querer?”, diz, em tom de brincadeira. Certo dia, uma amiga lhe contou que estava hospedado no hotel um brasileiro “bonitinho”. Ela se encontrou com o rapaz, que coincidentemente era de Niterói. “Pensei que ele tinha sido mandado por Deus.” Claudia Alvim e Plinio Lattanzi ficaram juntos por cinco anos. Foi ela quem ensinou o companheiro a surfar.

Em 17 de maio de 1994, nasceu Kalani, prenome escolhido pela mãe e que significa “presente dos Céus” em havaiano. “Lá em Maui me diziam: ‘Que nome bonito.’ Mas, quando contei para os meus parentes no Brasil, ninguém gostou. Só me arrependo de não ter colocado Alvim no sobrenome dele.” Naquele mesmo ano, ela se separou de Plinio e voltou para o Brasil, trazendo consigo o menino de 6 meses. O ex-marido continuou em Maui e foi um dos pioneiros na divulgação do jiu-jítsu na ilha. Morreu no início de 2019, aos 54 anos, após sofrer um ataque cardíaco dentro do mar. Alvim, de 62 anos, vive em Itacoatiara e atualmente pratica canoa havaiana e bodyboard.

O pai de Lattanzi tinha a guarda compartilhada do filho e viajava a Niterói com alguma regularidade. “Mas eu não tinha uma relação muito boa com ele”, conta Lattanzi. E logo lhe vem à memória um episódio vivido quando criança: o pai trouxe de presente para o filho, direto do Havaí, uma prancha. O objeto, porém, era pequeno e fino. “Você não aprende a surfar assim, precisa começar com uma prancha maior e grossa. Então, ele me atrapalhou, quase me traumatizou, porque era muito difícil usar aquela pranchinha.” Lattanzi também faz uma avaliação rigorosa da performance do pai como surfista: “Ele não era muito bom, só evoluiu mesmo depois dos 30 anos. Foi minha mãe que me colocou nas ondas quando eu era pequeno.”

Na infância, a paixão de Lattanzi não era o surfe, mas o videogame. O chamado definitivo para o mar surgiu, aliás, em uma lan house em Itaipu, bairro de Niterói, no início da adolescência. Ele estava jogando com amigos e um deles sugeriu que todos fossem a Itacoatiara – cerca de meia hora a pé dali. “O mar estava perfeito, batendo no peito, dava para se jogar e eu me dei bem, peguei altas ondas. Nesse dia é que me deu o estalo, foi quando decidi pegar onda.” A moda naquela época era o bodyboard, mas ele ainda não tinha o domínio da modalidade e resolveu pegar onda de peito, sem prancha. “Viciei”, diz. “Comecei com 12 anos e fui subindo de nível. É preciso muito treino, constância e evolução.”

Um ano e meio depois da morte do pai, ele fez uma tatuagem do sobrenome Lattanzi em letras garrafais nas costas. Outra homenagem ao pai foi feita no filme Kalani, Gift from Heaven (Kalani, Presente dos Céus), do diretor português Nuno Dias, dedicado à memória de Plinio. O documentário foi exibido em 2019, em um festival de filmes de surfe em Lisboa, e ganhou o prêmio de melhor curta-metragem. “Quando Kalani veio pela primeira vez a Portugal, em 2015, os melhores surfistas do mundo estavam em Nazaré. Eu me lembro de ver um pontinho a nadar no meio do oceano. Primeiro pensava que era um pedaço de lixo ou uma boia, mas era o Kalani”, diz Nuno Dias. “Aquilo me chamou tanta atenção que eu me lembro de ter perdido algumas ondas dos outros porque não conseguia tirar os olhos dele. O mar estava grande mesmo, e eu só pensava: ‘Ninguém está ali a olhar por ele.’ Ele estava sem nenhum tipo de segurança, não tinha nada. Estava sozinho.”

No filme, a brasileira Maya Gabeira, que em 2020 surfou uma onda de 22,4 metros em Nazaré, conta que a primeira vez que viu Lattanzi no mar, pensou: “Quem é esse maluco?” Ele estava perto de umas pedras, o que a deixou preocupada. “Hoje eu entendo que ele tem um nível de conforto e de segurança muito acima do meu, acima de todos nós”, diz Gabeira. Outro especialista nas ondas de Nazaré, o surfista português Nic von Rupp afirma no documentário que viu Lattanzi nadando no meio de ondas de 15 metros, como um peixe. “É o esporte mais radical que existe, porque ele pode perder a nadadeira. A maioria das pessoas não sobreviveria nessas condições.” Com frequência, Lattanzi é comparado ao alpinista norte-americano Alex Honnold, famoso mundialmente por ser o primeiro a subir sem cordas e equipamento de proteção um paredão de 975 metros no Parque Nacional de Yosemite, nos Estados Unidos – façanha registrada no filme Free Solo, que ganhou o Oscar de melhor documentário de 2019.

A pessoa que mais teme por Lattanzi é sua mãe. “Se eu não pegasse onda, não saberia como é ruim ficar no caldo”, diz Alvim, usando a gíria para quem cai de uma onda na hora da manobra e é tragado pela água. “Uma vez, em Itacoatiara, eu tentei subir [para a superfície] e não conseguia. Resolvi abrir o olho, era tudo escuro. É uma sensação de morte.” Desde que seu filho começou a desafiar ondas gigantes, ela se tornou bastante religiosa. “Sempre imagino um anjo com as asas abertas no fundo do mar para trazer ele de volta à superfície, antes que o ar acabe. Foi o que comecei a mentalizar para me tranquilizar. Deus está no comando. Deus está cuidando dele.”

Alvim não quis ir a Portugal nem para ver o filho ganhar o prêmio de resiliência, concedido a quem teve a queda mais impressionante de 2015 – ou levou a maior vaca, outra gíria para caldo. O prêmio de 5 mil dólares foi entregue pelo surfista norte-americano Garrett McNamara, pioneiro das ondas grandes e organizador do evento. “A primeira vez que ele falou que ia pra Nazaré, eu disse: ‘Nazaré não!’”, conta a mãe. “Depois, ele me convidou para ir por causa desse prêmio, mas eu não fui. Imagina se eu vou querer ver ele surfar ao vivo. Demora muito até a cabecinha dele subir. Não tenho estrutura para ver.” Neste ano, Lattanzi levou mais uma láurea de maior vaca, desta vez do Prêmio Brasileiro Ocyan de Ondas Grandes, por uma queda que sofreu de uma prancha com quilha quando surfava em Itacoatiara, em agosto de 2021.

Embora esteja acostumado às grandes ondas de Itacoatiara, foi ali que Lattanzi viveu o momento mais crítico de sua trajetória. No Dia das Mães de 2011, ele entrou no mar com uma prancha de bodyboard, em meio a uma ressaca fortíssima. Pegou uma onda e perdeu a prancha. Já perto da areia, foi puxado novamente para o fundo do mar. “Nem gosto mais de ir à praia no Dia das Mães porque as pessoas ficam me lembrando daquele domingo horrível”, afirma Alvim.

O bodyboarder Dudu Pedra, de 41 anos – um dos dez melhores da categoria no mundo –, estava com Lattanzi no mar. “Kalani é sempre alegre, brincalhão, então me preocupou muito quando chegou perto de mim dizendo: ‘Tô passando mal, me ajuda.’ Ofereci minha prancha, mas ele não quis. Percebi que o negócio era sério. Como todo afogamento começa na cabeça, passei a acalmá-lo. Falei para irmos mais para trás, até onde as ondas não quebram”, relembra. O mar estava muito forte, e Kalani não conseguia nadar. Quando os dois chegaram lá, Pedra tirou a camisa e começou a girá-la no alto, sinal para que os guarda-vidas acionassem o helicóptero dos bombeiros. Lattanzi foi retirado do mar pela aeronave, com a ajuda de uma cesta, e levado para a areia.

Pedra também é professor de bodyboard e, embora não tenha sido um mestre regular de Lattanzi, é uma de suas referências importantes. “Aprendi bastante com o Dudu, é uma pessoa humilde e engraçada. Tento extrair coisas boas de cada pessoa.” Após o incidente em Itacoatiara, Pedra procurou o pupilo para conversar, com medo de que o episódio o traumatizasse. “Falei que isso acontece com todo mundo, que ele não ficasse preocupado”, conta. Ficou admirado com a superação de Lattanzi.

Apiauí se encontrou pela primeira vez com Kalani Lattanzi no início de junho, no apartamento de quarto e sala que ele acabara de alugar junto ao Costão de Itacoatiara, um monólito parecido com o Pão de Açúcar. Como o apartamento ainda não estava mobiliado, ele dormiu a primeira noite em um colchão colocado sobre o assoalho.

De cabelo raspado, para atenuar a calvície precoce, ele usava um japamala, cordão de contas de madeira para meditação, camiseta e bermuda. Com fama de galã entre as meninas de Itacoatiara, diz ter “algumas namoradas”, uma em cada lugar por onde passa. No bairro, ele é não apenas uma celebridade local, mas um vizinho simpático, que cumprimenta e puxa papo com todos, o que contrasta com seu jeito reservado, prático e direto quando lida com jornalistas. Sobre política, diz que prefere não falar. Quando ele menciona que tem medo de armas de fogo, pergunto o que pensa da política pró-armas de Bolsonaro. O discurso dele fica confuso. “Hoje as armas estão só nas mãos dos bandidos”, diz. Ele nunca atirou, mas garante: “Acho que eu atiraria bem, tenho uma boa mira.”

Lattanzi acabara de voltar de Florianópolis, onde vivem sua avó materna e a família de uma tia. Ficou um mês por lá, fazendo um curso para se tornar professor de ioga, atividade que começou a praticar há quatro anos, sem regularidade. O curso significou para ele, acima de tudo, uma volta aos estudos, que ficaram em segundo plano por causa da vida itinerante das competições. Lattanzi concluiu o ensino médio em um supletivo, logo após completar 18 anos e, embora tenha passaporte norte-americano, aprendeu inglês em cursos no Brasil. “Fazia muito tempo que eu não estudava, então essa formação foi importante para mim.”

Durante a entrevista, ele se alongou várias vezes sobre um tapete de ioga. Por fim, tirou o japamala e a camiseta, apanhou um par de nadadeiras e saiu caminhando para a praia, a uma quadra dali, só de bermuda e descalço. Estava na hora de dar sua aula particular de bodysurf a um garoto de 13 anos. Como muitas crianças da região, o aluno é um fã devoto do surfista. “Não sei quantas vezes ele já assistiu ao documentário Kalani, Presente dos Céus”, conta a mãe do menino, enquanto observa da areia as manobras da dupla.

O mar estava pequeno, com ondas de cerca de meio metro, mas foi possível notar a desenvoltura do professor. De braços bem abertos, Lattanzi desceu uma onda rodopiando, manobra conhecida como parafuso. Desapareceu no fundo das águas e reemergiu alguns segundos depois. Para evitar o raso e economizar o esforço de atravessar toda a arrebentação novamente, antes do término da onda, ele deu uma cambalhota, semelhante à virada olímpica que os nadadores fazem ao final de uma competição.

Lattanzi está comprometido em tornar o bodysurf uma modalidade maior, com mais praticantes e patrocínios. Desde o ano passado, ele ajuda a organizar na Praia de Cordeirinho, em Maricá, cidade vizinha a Niterói, um festival de três dias em que o bodysurf é a principal atração. Neste ano, o Cordeirinho Festival aconteceu entre 8 e 10 de julho. A piauí acompanhou os eventos do primeiro dia. Pela manhã, Lattanzi ministrou uma masterclass de bodysurf. Ele deu dicas teóricas de manobras e de posicionamento nas ondas, e depois uma parte da turma seguiu para o mar. Lattanzi permaneceu na areia, ao lado de dez homens, a maioria na faixa dos 20 e poucos anos, assistindo aos outros dez que já estavam na água. Observou o mar por dez minutos e, quando resolveu entrar, o fez num impulso. Na sequência, pegou uma onda e fez um front flip, um tipo de cambalhota de frente, acompanhando o fechamento da onda, que termina com o atleta em posição de sapo no meio da espuma. Os seus alunos na areia entraram em êxtase.

À tarde, Lattanzi assumiu o papel de mestre de cerimônias e apresentou, num microfone, por quatro horas, as baterias classificatórias do Bodysurf Classic, campeonato que aconteceu durante o evento. Entre a convocação dos atletas para cada bateria e a narração das manobras dentro da água, usava o microfone para divulgar as atrações do festival e o próprio esporte. “O bodysurf e a altinha são os esportes mais democráticos que existem”, disse a quem acompanhava o evento. Ambos não necessitam de equipamentos caros, apenas um pé de pato e, no caso da altinha, uma bola. Muito popular nas areias fluminenses, a altinha consiste na troca de passes em grupo. Os fundamentos são os mesmos do futevôlei, mas não há um ganhador, só o objetivo de manter a bola sempre no ar.

O público do festival era composto na maioria por rapazes pardos ou negros, bem diferente dos frequentadores dos campeonatos de Niterói, majoritariamente brancos. “Não é só a competição, é algo para a gente se divertir com a galera”, disse o paraibano Eduardo da Silva Santos, de 20 anos, enquanto assistia da areia à performance dos amigos. Ele vive há três anos em Maricá, onde trabalha na construção civil. Santos é integrante de uma das turmas de praticantes de bodysurf, os Crias do Surf, que reúne cerca de cem pessoas em um grupo de WhatsApp. “O bodysurf também mexe com a nossa mente e me ajudou a superar uma depressão”, contou Santos. Ele não seguiu na competição, mas era visível a satisfação que sentia quando algum de seus companheiros tinha uma boa performance na água.

Há muita similaridade entre as manobras do bodyboard e do bodysurf. Ambos são praticados com o corpo do atleta na posição horizontal, o que explica a facilidade de Lattanzi em alternar as modalidades. Ele aponta como seu maior herói o havaiano Mike Stewart. “Aprendi vendo ele surfar. O Mike Stewart também pega de peito e de bodyboard, parece eu, mas é mais velho”, diz. Stewart tem 59 anos. “A gente faz aniversário no mesmo dia e eu já fui patrocinado pela marca de prancha dele, escolhido pelo representante aqui do Brasil. Foi uma vibe boa. No mesmo ano, fui campeão latino-americano, e eles se amarraram.”

Conhecido por estrelar um programa no OFF, o canal da tevê paga dedicado a esportes radicais, o bodysurfer Henrique Pistilli, chamado de Homem Peixe, define como “aquacidade” a característica mais importante de um bodysurfer. Ele explica o que é isso: “É a habilidade de se movimentar na água com fluidez, sem esforço, sem se cansar, de usar a força da onda a seu favor. Isso envolve todo o movimento de respiração, com pensamentos e ações focadas, como a leitura do ambiente, das ondas e das correntes.” Para tanto, é preciso muito condicionamento, muitas horas de natação e de treino. “Mas sem técnica o esforço será em vão e, quando a pessoa tem muita técnica, ou seja, aquacidade, ela chega ao estado da arte, ao seu jeito único de pegar onda, de se posicionar”, descreve Pistilli, que acompanhou Lattanzi quando ele foi surfar em Jaws pela primeira vez, em 2015. Foi também sua primeira viagem ao Havaí desde que saiu de lá, aos seis meses de vida. “Tenho o Kalani como um irmão mais novo. A gente brinca que o apelido dele é Monstrão. O nível de autocontrole que ele tem em relação ao medo e às ondas gigantes, além da força e da preparação, o fazem ser um cara reconhecido”, diz Pistilli.

Ao contrário dos atletas da WSL, a principal liga do surfe, os bodyboarders costumam viajar sem equipe e sem um técnico formal. “São os amigos que ficam na areia e me dão algum toque”, diz Lattanzi. Quando começou a correr o campeonato mundial da categoria, ele era ainda adolescente, e a mãe o acompanhava. Depois dos 20 anos, passou a viajar sozinho. Hoje, tem apenas um preparador físico.

A piauí acompanhou uma fase da competição de bodyboard do Itacoatiara Pro, numa manhã de domingo enevoada, de mar mexido e com bandeiras vermelhas espetadas na areia, alertando para o perigo da correnteza. As condições anunciavam a chegada do primeiro grande swell do ano. Kalani caiu (jargão do surfe que significa “entrar no mar”) apenas uma vez e obteve a melhor pontuação de sua bateria, formada por mais dois atletas. No dia seguinte, ápice da ressaca no mar, ele voltou a competir, dessa vez de quilha – a prancha usada para surfar de pé.

Sempre à mercê das condições ideais, os campeonatos acontecem nos dias que o mar está para surfe, dentro de um determinado período, que pode ser de uma semana, quinze dias e até três meses, caso do Itacoatiara Big Wave (IBW), competição local de ondas gigantes. Com a previsão favorável, o IBW declarou aberta a temporada. Era segunda-feira, 13 de junho, fazia 15oC e o mar estava enorme: a faixa de areia, que em geral tem cerca de 20 metros de largura, havia sumido, e a água chegava na restinga.

Dos quiosques na rua, entusiastas do esporte e cinegrafistas se posicionavam para o espetáculo. Na categoria ondas grandes, o registro visual é fundamental, e a organização concede prêmio em dinheiro para quem filma os vencedores. Não eram nem sete da manhã, e os primeiros homens já estavam no mar. Duas mulheres se juntariam ao grupo depois. No total, onze surfistas participaram do desafio. A primeira manobra arriscada de Lattanzi foi tentar entrar no mar pelo íngreme costão com uma enorme prancha laranja nos braços.

Quando estava próximo à arrebentação, ele escorregou pela pedra. Mais tarde, revelou que foi um tombo e que acabou rasgando a parte de trás do macaquinho de mangas curtas, feito de neoprene e com gomos flutuantes distribuídos pelo peito. Dentro da água, ele lutou muito para ir até o outside, onde as ondas se formam, mas acabou cuspido para fora e só voltou rebocado por um jet ski. Ao menos duas motos aquáticas faziam parte da organização: uma para a segurança, a outra para o transporte dos atletas até o ponto onde havia as melhores condições. Naquele dia, o IBW determinou que seria a vez da categoria remada – a outra é a tow-in, em que o surfista é puxado pelo jet ski até alcançar a velocidade e a melhor posição para descer uma onda grande.

Havia muita espuma na superfície, causada pela agitação frenética das ondas. Até quem acompanhava de binóculo em terra firme se enjoava. Dentro do mar, a surfista Michaela Fregonese vomitou e disse que o mesmo ocorreu com outros atletas – Lattanzi não sentiu nada nem percebeu o mal-estar dos companheiros. Tomado pela adrenalina, o público emitia gritos de espanto quando alguém entrava em uma onda duas ou três vezes maior que seu tamanho, ou mesmo quando uma onda maior explodia, projetando uma rajada de espuma muitos metros acima, como um gêiser. Os adjetivos “louco”, “maluco” ou “dodói da cabeça” eram usados com frequência para se referir aos competidores.

Lattanzi pegou duas ondas, que ele estimou ter entre 4 e 5 metros. A última foi bastante comemorada e considerada uma das melhores de toda a sessão. Tamanho, dificuldade e criticidade (inclinação e potência da onda) estão entre os critérios de julgamento. São dois prêmios de 20 mil reais: para o melhor atleta de remada e para o melhor de tow-in. No final desse primeiro dia, sete surfistas – entre eles, Lattanzi – submeteram, em vídeos, suas ondas aos organizadores. Só após o término da janela de competição, em 31 de agosto, seria declarado o vencedor (esta edição da piauí foi finalizada poucos dias antes).

É no circuito profissional que os atletas ganham e firmam patrocínios, que possibilitam o sustento da maioria deles e pagam suas viagens constantes. “Todo mundo busca um patrocinador e quem já tem precisa se provar. Em Nazaré, mesmo sendo um lugar onde todo mundo cuida um do outro, é um cenário de guerra”, conta Lattanzi. Hoje ele recebe cerca de 5 mil reais de apoios, um deles de uma marca de CBD, um dos princípios ativos da maconha.

Visibilidade é fundamental para um surfista profissional. Embora o bodysurf tenha se tornado uma forma de Lattanzi ser visto, para o público trata-se de uma modalidade extremamente difícil de acompanhar. Nos campeonatos com prancha, os atletas usam blusas de lycra com cores diferentes para serem reconhecidos no mar. Já no bodyboard, são usadas toucas coloridas amarradas sob o queixo, que lembram as dos jogadores de polo aquático, justamente para distinguir os atletas em meio ao turbilhão da água.

As redes sociais se tornaram um meio incontornável de divulgação para os esportistas. Lattanzi utiliza o Instagram, onde tem 70 mil seguidores, com frequência postando diariamente pelo menos cinco stories, a maioria fotos e vídeos de sua rotina. Se não há competição, ele acorda entre 7 e 8 horas, e suas primeiras publicações do dia são imagens da praia. Ele cai no mar cinco vezes por semana, no mínimo, e em dia sem onda em Itacoatiara treina na academia de seu preparador físico, Dudu Vianna. “Não curto sair e não bebo”, diz ele, que por volta das dez da noite já está na cama. Em seus stories, ele menciona frequentemente uma loja de sucos de Itacoatiara e, quando perguntado se esses posts são pagos, ele nega. “Faço porque lá é bom mesmo.”

Apesar de participar de competições, Lattanzi não esconde suas críticas a elas. “Competição hoje é pelo dinheiro. Sempre alguém perde e não gosto de ver os outros perderem, de ver alguém triste”, diz. “Participo de campeonatos aqui em Niterói, mas se é no Rio não vou, evito. Competir não é muito minha vibe hoje em dia.” Depois de alguns minutos em silêncio, com o olhar fixo no nada, ele completa o raciocínio: “A vida é assim, é minha profissão.”


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É jornalista, pesquisadora e roteirista