carta da inglaterra

FLORES PARA ELIZABETH

Uma semana de luto e onze horas na fila para ver o caixão da rainha
Imagem Flores para Elizabeth

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De Londres
Tradução de Rogério Galindo

QUINTA-FEIRA, 8 DE SETEMBRO DE 2022_Estava em casa, sozinho, checando meu e-mail, quando vi o título de uma mensagem. Antes mesmo de abri-la, escrevi para minha mulher e conferi o grupo de WhatsApp da família. Minha irmã já tinha dado a notícia: “Primeiro a vovó, agora a rainha”, ela escreveu (nossa avó morreu há duas semanas, aos 102 anos). “O que será de nós, na Inglaterra?”, perguntou minha mãe. “Ela era nossa supercola nacional”, respondi.

Eu tinha 4 anos quando foi comemorado o Jubileu de Prata da rainha Elizabeth II, em 1977. Os professores da minha creche nos deram pequenas Union Jacks (como é chamada a bandeira britânica) para agitar e nos fizeram marchar até a esquina, onde havia inúmeras pessoas reunidas. Depois do que pareceu uma eternidade, houve uma onda de emoção quando um carro passou. Vi rapidamente a parte de trás da cabeça de uma mulher dentro do veículo. Marchamos de volta para a escola. Muito barulho por nada, me lembro de ter pensado.

Aquele foi também o ano em que a banda punk Sex Pistols lançou o álbum Never Mind the Bollocks Here’s the Sex Pistols (Esqueça o resto, chegou o Sex Pistols) com a famosa versão deles para God Save the Queen, o hino nacional britânico, na qual incluíram os seguintes versos: Deus salve a rainha/ela não é um ser humano/e o futuro não existe. Apesar de banida das rádios britânicas, a música ficou no topo das paradas por semanas, ajudando a projetar o Sex Pistols para o estrelato mundial.

Antes de dormir, respondi a mensagens de amigos do Brasil. “Amávamos a rainha. Era nossa mãe nacional”, escrevi para Elza, uma psicanalista. “Era nossa cacique”, eu disse a Nereu, um advogado indigenista que defende os povos Guarani-Kaiowá e Terena em Mato Grosso do Sul.

SEXTA-FEIRA, 9 DE SETEMBRO-_Johnny Rotten, ex-vocalista do Sex Pistols, hoje com 66 anos, fez um tuíte com a foto da rainha e uma mensagem conciliatória. Ele escreveu: “Descanse em paz, rainha Elizabeth II. Que ela seja vitoriosa.” A última frase é do hino nacional, não de sua versão idiossincrática de 1977. O punk e a monarquia são lados da mesma moeda cultural britânica: não consigo imaginar um sem o outro. Lembro do poeta e artista inglês William Blake, que escreveu nos anos 1790: Sem contrários não há progresso. Atração e/repulsa, razão e energia, amor e ódio são/necessários à existência humana.

Depois de dezessete anos vivendo no Rio de Janeiro, em Nairóbi (no Quênia) e em Bradford (no Norte da Inglaterra), estou morando outra vez em Londres. Meu novo trabalho na cidade é em uma escola estatal para crianças especiais, que não podem ser educadas no sistema geral, seja por causa de problemas de saúde mental, seja porque foram expulsas por terem cometido atos violentos. É um mundo novo no qual lentamente acho meu caminho.

Enquanto eu assinava o ponto, a administradora da escola chegou. “Dia triste”, ela me disse. “Verdade”, respondi, com um sorriso. Mas ela confundiu meu sorriso com indiferença, o que não era verdade. Eu a tranquilizei, falando sobre como a rainha estava presente em toda a nossa vida. Na sala dos professores, outro momento constrangedor. Uma professora assistente perguntou a um professor de matemática se a camisa preta que ele estava usando era por causa do luto. “Não estou de luto”, ele respondeu. “Nem eu”, disse ela. Eu disse que estava de luto – e os dois olharam com surpresa para mim. “A rainha era nossa chefe de Estado e estava no cargo desde que eu nasci. Por isso estou triste, sim”, expliquei. Meus colegas acenaram com a cabeça e sorriram sem jeito. É evidente: a morte da rainha tem significado diferente para cada pessoa.

No fim do dia, recebi um e-mail do diretor da escola informando que a morte da rainha pode levar a muitas discussões e perguntas na sala de aula. “Por favor, ouçam e debatam”, ele escreveu, “mas se lembrem de que as pessoas têm visões muito diferentes sobre a família real e o papel da monarquia na sociedade britânica e global. Lembrem-se também de que não temos permissão para impor nossas ideias sobre isso e evitem expressar quaisquer opiniões, se for possível.”

Até meus 20 e tantos anos, eu era ambivalente em relação à família real. Só comecei a entender o papel constitucional da monarquia ao me formar em direito. Aprendi que uma série de convenções não escritas, que envolvem o monarca, sustenta o sistema de governo da Grã-Bretanha. Uma vez que o país nunca formulou uma Constituição da forma como fizeram o Brasil ou os Estados Unidos, nossa lei maior é formada pelo conjunto dessas convenções não escritas, que formam o direito consuetudinário, pelo conjunto de leis e pela jurisprudência, que são as decisões fixadas pelos tribunais ao longo dos séculos.

É o monarca que fornece a “cola” que une todas essas leis e convenções, escritas e não escritas. Com isso, a Constituição britânica é fluida e adaptável, sem prescrição fixa nem determinações rígidas sobre o que as pessoas podem e não podem fazer. Por meio do monarca como representante soberano do povo, a Constituição singular da Grã-Bretanha coloca os seres humanos no centro do acordo político da nação.

Certa vez debati com um amigo brasileiro durante horas, na Praia de Copacabana, tentando explicar a situação tão particular do meu país. Ele simplesmente não conseguia acreditar que eu pudesse defender essa forma antiquada de fazer as coisas. Achava um absurdo que eu defendesse um sistema que, para ele, enfatizava a superioridade e a desigualdade de maneira tão óbvia. “Mas pra mim não é assim”, expliquei. “Não vejo a família real como superior. Os palácios que ela ocupa pertencem ao Estado britânico. Seus membros são ocupantes temporários, como inquilinos. Só que eles pagam o aluguel com serviço público. São pessoas como você e eu.” Mas ele disse, meio em português, meio em inglês: “Bobagem, off with their heads! [cortem-lhes as cabeças!].” E a discussão acabou aí.

Hoje, durante uma sessão especial no Parlamento, sir Keir Starmer, líder da oposição e do Partido Trabalhista, prestou uma pungente homenagem, dizendo que “a perda de nossa rainha rouba deste país seu ponto mais sereno, seu maior conforto, precisamente no momento em que mais precisamos dessas qualidades”. Ele continuou: “Neste momento de incerteza, em que nosso país se sente preso entre um passado que não pode reviver e um futuro ainda a ser revelado, devemos sempre lembrar uma das grandes lições do reinado de nossa rainha. Que somos sempre melhores quando nos elevamos acima do mesquinho, do trivial, do dia a dia, para focar nas coisas que realmente importam, nas coisas que nos unem, e não nas que nos dividem.”

Depois do meu trabalho na escola, andei pelo Rio Tâmisa com minha mulher, Inés. Um homem estava sentado sobre uma Union Jack, a bandeira do Reino Unido, ao lado de uma caixa de som portátil tocando música soul relaxante. Ele usava uma boina como as que aparecem na série Peaky Blinders, uma corrente de prata e uma camiseta estampada com a imagem de um toca-discos e os seguintes dizeres: “Não sou velho, sou um clássico!” Elogiei sua bandeira. “Comprei por causa do jubileu da rainha ou algo assim”, disse Richard, de 69 anos, sem se referir à morte de Elizabeth II, e apontou para a caixa de som: “É a rádio Solar FM. Hoje está tocando músicas relaxantes por causa do que aconteceu. Estou com o coração partido. A gente sabia que estava por acontecer desde que o príncipe Philip morreu, no ano passado.” Ele fez uma pausa e disse: “Não sou monarquista, mas sinto muito.” A relação do povo britânico com a família real é contraditória e pessoal, muito parecida com a que temos com nossos próprios parentes.

A bandeira da Grã-Bretanha de Richard é decorada com o nome do time Millwall FC, cujos hooligans estavam entre os mais temidos do país na década de 1980. Todos os jogos da equipe de futebol marcados para amanhã foram adiados em sinal de respeito. Antes de ir embora, expliquei a Richard que iria escrever sobre a morte da rainha para a piauí. “Eu tive uma namorada brasileira uma vez”, ele contou. “Ela me chamava de gatinho.”

Minha mulher e eu paramos para tomar uma cerveja num pub chamado The Angel, onde nos sentamos em uma varanda com vista para o Tâmisa. Ao lado, havia um casal com a filha conversando sobre a rainha. “Eu acho que o legado dela é enorme. Muita gente diz que não gosta da monarquia, mas acaba celebrando a vida dela, tanto o lado pessoal quanto o papel que teve na monarquia”, disse Olivia, de 18 anos. “Essa é a diferença”, acrescentou seu pai, Roger. “As pessoas questionam a relevância da monarquia em uma sociedade moderna, mas seria impossível invalidar a contribuição que tem para nossa sociedade.”

De acordo com Olivia, que acabou de terminar o Ensino Médio, muitos de seus colegas estão postando fotos da rainha nas redes sociais. “Mas parece meio impessoal quando alguém fala disso na internet. Tem muito amigo meu que não liga de verdade para política. Todo mundo está compartilhando, mas não tenho certeza se o pessoal da minha idade realmente sabe do que se trata. Parece modinha.”

Olivia conta que entregou flores para a rainha uma vez. “Ela foi na nossa vila, Crewkerne, em Somerset, quando eu tinha 8 anos.” A jovem pegou o celular e me mostrou a foto. Um grupo de alunos de uniforme azul está na frente da rainha, e uma menina entrega um ramo de flores para Elizabeth II. “Sou eu, a de cabelo curto e franja. Um homem me passou as flores porque não conseguia chegar perto dela.”

SÁBADO, 10 DE SETEMBRO_Hoje de manhã assistimos na BBC à cerimônia de adesão, que confirma o príncipe Charles como o novo rei. É a primeira vez que é transmitida ao vivo. Membros do conselho privado – uma comissão especial composta por atuais e ex-primeiros-ministros, políticos de alto escalão e outros notáveis ​​– são convocados para testemunhar a posse do novo monarca no Palácio de Saint James, uma antiga residência real. Cerimônia parecida aconteceu pela última vez há setenta anos, com a confirmação de Elizabeth II.

Os primeiros-ministros vivos se reuniram em uma fila na frente. Todos eles tiveram audiências privadas semanais com Elizabeth II, uma das muitas convenções constitucionais que sustentam a relação entre o Parlamento e o monarca. Essas conversas pessoais não documentadas permitem que o político discuta assuntos que talvez não compartilhe com seu próprio partido. O monarca, por sua vez, compartilha experiências e ideias colhidas em conversas anteriores com líderes políticos. Durante seu reinado, a rainha teve audiências privadas semanais com catorze primeiros-ministros, começando com Winston Churchill.

Liz Truss, a atual primeira-ministra e a 15ª a se reunir com Elizabeth II, estava perto do príncipe Charles na cerimônia. Que semana teve Truss! Na terça-feira, um dia depois de vencer a disputa para primeira-ministra, Truss voou para a Escócia para sua primeira e única audiência pública com a rainha. Na semana que vem, fará com o rei uma turnê pelo País de Gales, Escócia e Irlanda do Norte, os três países que, junto com a Inglaterra, formam o Reino Unido. Penny Mordaunt, deputada do Partido Conservador (como Truss) e líder da Câmara, leu uma série de medidas para garantir uma transição rápida e legal. “Aprovado”, respondeu Charles a cada uma delas. Fiquei aliviado ao ouvir uma declaração que garantia ser feriado o dia do funeral da rainha. No final, as pessoas reunidas na cerimônia gritaram: “Deus Salve o Rei.”

Após o juramento do novo rei, os arautos vestidos com estranhos trajes medievais foram para uma varanda do lado de fora, onde tocaram uma fanfarra. David White, oficialmente intitulado Rei de Armas da Jarreteira (ordem de cavalaria instituída pelo rei Eduardo III, no século XIV), deu um passo à frente e anunciou o novo rei com palavras arcaicas e poéticas. Após o anúncio, um grupo da Guarda Real (a divisão do Exército que fica do lado de fora do Palácio de Buckingham) tirou suas armas e seus enormes chapéus de pele pretos. Hip hip!, comemorou o Rei de Armas da Jarreteira. Hooray!, responderam os guardas reais. A rainha está morta. Deus salve o rei. A vida toda eu recorri ao hip hip, hooray para comemorações, sem saber que a saudação é reservada ao novo rei ou à nova rainha.

Inés e eu compramos flores e pegamos o metrô, na expectativa de colocá-las em frente ao Palácio de Buckingham. Mas uma multidão tivera a mesma ideia e estava seguindo pelo mesmo caminho. Ao chegarmos ao Green Park, que fica ao lado do palácio, o número de pessoas era tão grande que a polícia pediu que os recém-chegados seguissem por outra rota para tentar se aproximar do palácio. Foi o que Inés e eu fizemos. Mas não conseguimos avançar muito.

Enquanto decidíamos o que fazer, uma mulher com um carrinho de bebê parou ao nosso lado. Louise, de 40 anos, queria que seus filhos Jacob, de 8 anos, e Toby, bebê de 8 meses, vivessem aquele momento. Ela estava também com sua mãe, Karen. O grupo tinha vindo de Exeter, a três horas de trem de Londres e planejava voltar hoje ainda. Karen disse: “Eu era criança quando o pai de Elizabeth morreu, e ela sempre esteve lá. É triste não poder mais contar com ela. Mas essas ocasiões unem o país. Desejo tudo de bom para Charles, mas sei que será um caminho difícil.” Louise acrescentou: “É um dia difícil e triste, mas é também um dia de celebração, porque temos um novo rei. Como a gente equilibra essas emoções?” Jacob, seu filho, comentou que estava se sentindo “muito bem, muito especial e muito histórico”.

Inés e eu fizemos outra tentativa de nos aproximarmos do palácio. Mas continuava uma tarefa difícil. Um jovem carregando um buquê passou por nós, dizendo que não conseguiu ir em frente. “Não é como no dia da morte da Diana. A gente conseguiu colocar as flores no portão. Agora não conseguimos”, disse. Quando a princesa Diana morreu, em 1997, vítima de um acidente de carro em Paris, eu trabalhava como garçom num restaurante em Londres. Nas duas noites seguintes à morte dela, o restaurante se encheu de clientes que bebiam demais e depois cantavam canções em voz baixa, espalhando uma grande tristeza pelo restaurante. O dia do funeral de Diana foi a segunda vez na minha vida que vi Londres inteira parar – a primeira vez foi no casamento dela.

Reagindo à multidão sem precedentes que queria levar flores para a rainha, a polícia pediu que as pessoas deixassem os buquês no próprio Green Park. Inés e eu decidimos voltar para casa. Ao nos afastarmos, enquanto atravessávamos a Trafalgar Square, vimos centenas de ativistas do Black Lives Matter, incluindo Stormzy, um dos principais rappers britânicos, reunidos para protestar. Estavam lá para pedir uma investigação oficial sobre a morte pela polícia de um homem negro desarmado, Chris Kaba, de 24 anos, em 5 de setembro.

Em casa, coloquei as flores que compramos em um vaso.

Mais tarde, li um post da historiadora Lilia Schwarcz numa rede social com um comentário crítico sobre a morte da rainha. Ela apresentava Elizabeth II no cenário internacional como uma marionete usada pelo projeto imperial e pós-colonial britânico. Dentro do Reino Unido, diz Schwarcz, a monarquia e o dramalhão que a acompanha fornecem uma narrativa que distrai o público britânico de fatos e problemas domésticos concretos.

Schwarcz identifica com argúcia as ambiguidades pessoais e públicas que criaram uma tensão entre as duas dimensões da rainha: como monarca e como pessoa. Essas ambiguidades sustentam a ampla gama de reações que as pessoas em todo o mundo estão tendo à sua morte. A maior parte do que sabemos sobre a rainha é de segunda mão, transmitida pelos meios de comunicação, através de impressões de pessoas que a conheceram. Há relatos positivos e há reações fortes, por sua figura pública estar relacionada ao tempo em que a Grã-Bretanha ainda era um império.

Para seus admiradores, Elizabeth personificava o estoicismo e o dever, foi alguém que dedicou sua vida ao serviço público. Ela fez sua primeira transmissão de rádio pública aos 14 anos, para confortar as crianças britânicas evacuadas das grandes cidades para o campo durante a Segunda Guerra Mundial, devido aos bombardeios alemães. Aos 18 anos, tornou-se a primeira mulher da família real a entrar para as Forças Armadas: alistou-se no Serviço Territorial Auxiliar feminino, para atuar como motorista e mecânica. Ao longo do seu reinado, visitou mais de cem países e reuniu-se com treze presidentes dos Estados Unidos e cinco papas. Ela lia sua “caixa vermelha” de documentos do governo todos os dias, tirando folga apenas na Páscoa e no Natal. Em 2017, aos 91 anos, participou de 292 compromissos públicos. Quando seu marido Philip morreu em 2021, tirou apenas quatro dias de folga.

Quando jovem, a rainha desempenhou um papel fundamental na reformulação da Commonwealth, uma comunidade de nações que faziam parte do Império Britânico, desmantelado depois da Segunda Guerra. A moderna Commonwealth data da declaração de Londres de 1949, redigida pelo estadista indiano Vengalil Krishnan Menon, que afirmava: “O Reino Unido, o Canadá, a Austrália, a Nova Zelândia, a África do Sul, a Índia, o Paquistão e o Ceilão declaram que permanecem unidos como membros livres e iguais da Commonwealth, cooperando livremente na busca da paz, da liberdade e do progresso.” A rainha Elizabeth forneceu uma nova missão a essa comunidade de nações quando, em sua transmissão do dia de Natal de 1953, compartilhou sua “concepção inteiramente nova” da Commonwealth, “construída sobre as mais altas qualidades do espírito do ser humano: amizade, lealdade e desejo de liberdade e paz”.

Sob sua orientação, a adesão voluntária à Commonwealth se ampliou, passando de 8 países-membros em 1949 para 56 em 2022 – um grupo único de nações que abrange quase um terço da população mundial. As adesões mais recentes foram das ex-colônias francesas Gabão e Togo, que se tornaram os 55º e 56º membros, respectivamente, em junho de 2022. De acordo com o historiador Philip Murphy, sob a rainha Elizabeth, a Commonwealth, que antes se concentrava em manter laços culturais, históricos e comerciais entre países dominados por brancos, evoluiu para se tornar uma organização mais diversificada, dedicada à promoção dos direitos humanos, do estado de direito e da democracia. Nelson Mandela, que incluiu a África do Sul pós-apartheid na Commonwealth, se referiu à rainha como “minha amiga Elizabeth” e até lhe deu um nome especial, Motlalepula, palavra de origem sesota (língua falada na África do Sul) que significa “pessoa que vem com chuva”. O nome foi dado após a visita da rainha à África do Sul, em 1995, ter coincidido com chuvas torrenciais no país, que não ocorriam havia muito tempo.

Mas o papel de Elizabeth como chefe da Commonwealth também suscita fortes críticas. Em um artigo escrito após a morte da rainha para o Washington Post, a escritora ganense-americana Karen Attiah disse que, “ao administrar a Commonwealth, ela assumiu voluntariamente o papel simbólico e condescendente de ‘mãe branca’ para os povos mais escuros do antigo império”.

DOMINGO, 11 DE SETEMBRO_Acordei cedo e andei pelo parque perto da minha casa. Na última vez que fui lá, as plantas estavam amareladas, e a terra, esturricada, por causa do verão rigoroso e seco. Depois de uma semana de chuva, a grama verde já estava crescendo novamente.

Comprei três jornais. Os conservadores The Sun e The Sunday Telegraph exibiam fotos do príncipe William com sua mulher, a princesa Katherine, e o irmão Harry, com sua mulher, Meghan Markle, e se referiam a uma briga muito noticiada entre eles. O jornal The Observer, de esquerda, estampava uma foto sóbria do rei Charles III. Curiosamente, os editores que apoiam a monarquia preferiram explorar a telenovela da realeza, em vez de falar da ascensão do novo rei. É um lembrete de que a lucrativa máquina de fofocas que ajudou a matar a princesa Diana continua a prosperar.

Na internet e em partes da mídia global, a morte da rainha continua gerando um Fla-Flu ideológico. Para uns, ela é a odiada líder de um projeto colonial voraz. Para outros, é a personificação da discrição e da honra. O comediante sul-africano Trevor Noah zombou dessas reações, dizendo que elas abrangem “um espectro completo de emoções, que vão de ‘Como o Reino prosseguirá?’ até ‘Você não devia ter colonizado a Índia. Tchau, vadia!’”.

Jair Bolsonaro disse que pretende vir a Londres para o funeral.

SEGUNDA-FEIRA, 12 DE SETEMBRO_Um amigo brasileiro me enviou um pequeno vídeo, com uma das minhas histórias favoritas sobre a rainha, contada por seu guarda-costas de mais confiança. O oficial descreve a caminhada com a rainha perto do retiro real escocês em Balmoral, quando a dupla cruzou o caminho de dois turistas norte-americanos. Eles não reconheceram Elizabeth, e perguntaram se ela já havia se encontrado alguma vez com a rainha. “Não”, respondeu a monarca, e acrescentou, apontando para o guarda-costas: “Mas ele se encontra com ela o tempo todo.” Entregando uma câmera à rainha, os turistas pediram que ela tirasse uma foto deles ao lado do guarda-costas. Por polidez, antes de se despedirem, eles tiraram uma foto com ela também. Nesse momento, diz o guarda-costas no vídeo, Elizabeth se virou para ele e disse: “Eu adoraria ser uma mosca na parede quando esses americanos mostrarem minha foto para os amigos.”

TERÇA-FEIRA, 13 DE SETEMBRO_No ônibus, vim conversando com um colega da escola, Banji Ojo, de 40 anos, que se mudou da Nigéria para a Grã-Bretanha quando tinha 8 anos. “Independentemente do que você pensa disso, vai ser o maior funeral do século XXI até agora, com todos os chefes de Estado chegando”, disse ele.

Banji recebeu muitos memes irreverentes zombando da realeza. “Teve até fotos do rei Charles dizendo: ‘Homem de 73 anos consegue seu primeiro emprego.’ Mas acho que muitas pessoas ficam surpresas ao descobrir que sentiram de verdade a morte dela, porque a rainha sempre esteve aqui e, de repente, não está mais.” Matthew d’Ancona, editor do site de notícias Tortoise Media, identificou esse sentimento ao escrever que “muitos dos que não têm grande apreço pela monarquia vão experimentar um luto bastante forte, o que é natural, quando uma figura profundamente familiar morre”.

QUARTA-FEIRA, 14 DE SETEMBRO_O corpo da rainha veio da Escócia para Londres. Depois de uma noite no Palácio de Buckingham, uma procissão liderada pelo rei Charles III levou o caixão ao Palácio de Westminster, onde funcionam as duas câmaras do Parlamento britânico: a dos Lordes (com 792 membros não eleitos e de cargos vitalícios) e a dos Comuns (com 650 membros, equivalentes aos deputados). O caixão foi colocado ali para reafirmar a relação constitucional única entre o monarca e o Parlamento. Ficará exposto 24 horas por dia, até a próxima segunda-feira, dia do funeral. A fila para ver o esquife já tem quase 5 km, e duzentos trens extras já entraram em serviço para trazer, inclusive durante a noite, visitantes de toda parte do país até Londres.

QUINTA-FEIRA, 15 DE SETEMBRO_Ontem à noite, lembrando da conversa com Richard, o torcedor do Millwall FC que já teve uma namorada brasileira, vi o time jogar contra o Queen’s Park Rangers, em Londres. As duas equipes entraram em campo carregando coroas de flores. Antes do pontapé inicial, um locutor pediu um minuto de silêncio. O estádio silenciou imediatamente. Estava tão quieto que “daria para ouvir um alfinete cair”, como os ingleses gostam de dizer. Após a pausa, uma cantora apareceu, e o estádio todo cantou com ela a nova versão do hino nacional britânico, God Save the King. Vi Richard de longe. Ele estava sentado atrás de um dos gols, ao lado de sua Union Jack. Quando os Queen’s Park Rangers marcaram seu segundo gol, ele se levantou e foi embora. O Millwall perdeu.

A fila para ver o caixão da rainha já está com 8 km de extensão e só cresce, a cada hora. A revista The Spectator, criada em 1828, escreveu que “a fila, tanto quanto a monarca, está sendo considerada um símbolo da personalidade britânica: bem organizada, calma e não necessariamente fácil de explicar”.

SÁBADO, 17 DE SETEMBRO_Ontem à tarde, o número de pessoas que desejavam prestar suas homenagens cresceu tanto que foi preciso fechar o Southwark Park, onde os enlutados estavam alinhados na forma de uma gigantesca cobra humana. Na noite de sexta-feira, um aplicativo de rastreamento de filas ao vivo dizia que a espera poderia ser de até 24 horas.

Quando acordei, o aplicativo informava que não estavam mais deixando ninguém entrar na fila. Mas Inés e eu moramos perto do Southwark Park e decidimos ver pessoalmente. Por volta de cinco da manhã, quando ainda estava escuro, caminhamos até o parque, ao Sul do Rio Tâmisa.

Ao chegarmos, o local estava vazio, embora a grama tivesse sinais de pisadas e as fileiras de banheiros químicos indicassem que muita gente havia passado por ali. Seguranças sonolentos nos mandaram primeiro para um lado, depois para outro, mas não encontramos o final da fila. Ao ouvirmos duas mulheres altas pedirem a alguém indicações, decidimos segui-las.

Atravessando pelas ruas do bairro Bermondsey, chegamos a um cordão policial. Os guardas nos indicaram o caminho e nos deram uma pulseira verde, alertando para não a perdermos. Minha pulseira estava marcada com o número 120982. Começava a clarear e caminhamos rapidamente até encontrar o final da fila.

Eram seis da manhã. As pessoas pareciam meio grogues, por causa da noite em claro ou maldormida, mas de bom humor. Na nossa frente estavam as duas mulheres altas. Trocamos cumprimentos de bom-dia e algumas palavras sobre quanto tempo teríamos que esperar até chegar ao Palácio de Westminster. Quando passamos pela Tower Bridge, o Sol já estava nascendo. Algumas pessoas deixaram seus lugares na fila para ir ao banheiro ou tomar o café da manhã. Nós nos oferecemos para reservar os lugares das duas mulheres, as irmãs Zara, de 25 anos, e Alice, de 21. Atrás de nós estavam dois casais, Des e Julia, e David e Fiona, todos com 59 anos.

Ficamos juntos o resto do dia, contando histórias e anedotas para passar o tempo, ou permanecendo em silêncio. Um homem abriu uma sacola cheia de barras de chocolate e ofereceu às pessoas na fila. Ele explicou que mora perto e estava dando o chocolate de boa vontade, nada mais. Passamos pelo Globe Theatre, de Shakespeare, reconstruído em 1997 conforme o original do século XVII, e depois pelo Royal National Theatre, inaugurado em 1976. Union Jacks tremulavam a meio mastro em todos os edifícios públicos.

Às três da tarde, caminhamos ao lado de uma parede coberta de corações pintados em memória das vítimas da Covid. Da fila dava para avistar, do outro lado do Tâmisa, o Big Ben (rebatizado de Elizabeth Tower em 2012) e o Palácio de Westminster. Às 15h30, atravessamos o rio na Ponte Lambeth e entramos no jardim do palácio.

Mas ainda havia mais uma “cobra humana” para superar. E era longa. Às vezes, dava impressão de que podia nos engolir. A fadiga era visível nos rostos. A forma espiralada da fila dava a chance de observar as diferentes pessoas que vieram ver o caixão de Elizabeth. Gente de todos os tipos, cores e idades: desde militares de ambos os sexos, ostentando medalhas, até civis em roupa casual. Uma jovem passava o tempo lendo, absorta, um volume da série Harry Potter. Uma mulher de sobretudo rosa carregava um bebê pequeno.

Ao nos aproximarmos do Palácio de Westminster, entregamos a água e comida que nos restavam para a vigilância, bem como itens de cosmética e objetos pontiagudos – coisas com as quais não se podia entrar. Quem estava com bolsas maiores teve que deixar em um depósito. Um vigário anglicano nos aconselhou a nos preparar para ver o caixão da rainha, pois tudo iria ocorrer muito rapidamente. Passamos pela segurança, com detectores de metal e policiais armados, que nos pediram para desligar os celulares e as câmeras. Estava proibido fotografar dentro do Palácio de Westminster. Subimos, então, os degraus cobertos com carpete vermelho e chegamos ao salão onde estava o caixão da rainha, sobre um pedestal roxo, envolto pelo estandarte real, uma bandeira exclusiva do monarca. A coroa estava em cima do caixão, ao lado de um orbe e de um cetro, ambos cravejados de pedras preciosas.

Policiais uniformizados de preto estavam posicionados nos degraus em frente ao caixão. Guardas de vermelho usando os volumosos ​​chapéus pretos chamados peles de urso vigiavam cada canto do pedestal. Um porteiro nos pediu que esperássemos a troca da guarda, o que ocorria a cada vinte minutos.

A sala gigante estava silenciosa, exceto por um soluço ocasional ou um choro de bebê. Depois da troca de guardas, a fila avançou novamente. Perto do caixão, a uma distância de cerca de 10 metros, alguns enlutados batiam continência, outros se curvavam ou faziam o sinal da cruz. Poucas pessoas paravam para olhar brevemente o esquife.

Inés e eu fizemos uma pausa, olhamos para o caixão e inclinamos nossas cabeças. Eu sou católico, por isso também fiz o sinal da cruz. O momento não durou mais do que quinze segundos. Era impressionante a calma e a quietude dentro do local, apesar da multidão que passava sem cessar.

Quando saímos à rua já eram seis da tarde. Ou seja, levamos quase doze horas na fila, até nos aproximarmos do caixão. Em meio à multidão na rua, perguntei a David, que vinha atrás de nós, qual foi a sensação que teve. “Parecia que ia ser muito cansativo, mas foi divertido na fila, e nem vi direito passarem onze horas. Mas, quando você entra naquela sala, com aquele silêncio e o caixão no meio… Eu não consigo explicar. Eu me senti muito honrado por poder agradecer a ela, ali.”

DOMINGO, 18 DE SETEMBRO_A Polícia Metropolitana de Londres continua a fazer os preparativos para o funeral de segunda-feira, a maior operação já organizada pelo serviço policial desde a sua fundação, em 1829.

Hoje, Jair Bolsonaro – um dos cem chefes de Estado convidados para a cerimônia – se dirigiu a um grupo de apoiadores da sacada da Embaixada do Brasil, no Centro de Londres. Depois de expressar brevemente seus pêsames à família da rainha e ao povo britânico, o presidente brasileiro fez um discurso de campanha política. Durante quatro minutos, falou sobre legalização do aborto, descriminalização das drogas, a chamada “ideologia de gênero” e até sobre a cor da bandeira brasileira.

Embora nenhuma estação de tevê britânica local tenha prestado atenção a Bolsonaro, alguns jornais britânicos comentaram sua performance, discretamente. The Independent publicou um artigo intitulado “Bolsonaro, do Brasil, é acusado de transformar visita ao funeral da rainha em comício político”. The Guardian observou que Bolsonaro estava em “modo campanha, apesar do momento de luto” e relatou que um grupo de manifestantes anti-Bolsonaro fez um protesto diante da embaixada brasileira. A manifestação foi organizada por um grupo local chamado Brazil Matters e incluía parentes do jornalista britânico Dom Phillips, assassinado em junho deste ano no Vale do Javari, junto com o indigenista Bruno Pereira. A polícia britânica precisou proteger os manifestantes depois que eles foram cercados por bolsonaristas.

À noite, Bolsonaro postou um vídeo de um posto, afirmando que a gasolina brasileira custa quase a metade do preço cobrado na Inglaterra. Mas não disse que um londrino enche o tanque de um carro popular de 55 litros com onze horas de trabalho, enquanto um brasileiro precisa trabalhar cinco dias para fazer o mesmo. O jornal Evening Standard, de Londres, não deixou de notar a insensibilidade do chefe de Estado brasileiro: “O presidente do Brasil, Jair Bolsonaro, usa o convite para o funeral da rainha com o objetivo de expressar seu choque com os preços dos combustíveis em Londres.”

Fiquei triste de ver o Brasil representado assim no funeral.

Eu me lembrei hoje de um discurso que a rainha fez em 2019, numa reunião do Women’s Institute, em Sandringham, uma cidade perto de uma das residências reais. Foi talvez o mais próximo que ela chegou de um manifesto pessoal. Elizabeth disse: “Enquanto procuramos novas respostas na era moderna, eu prefiro as receitas testadas e comprovadas, como falar bem uns dos outros, respeitar pontos de vista diferentes, nos unirmos para buscar pontos em comum e nunca perdermos de vista o quadro geral. Para mim, essas abordagens são atemporais e eu as recomendo a todos.”


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Escritor, investigador cultural e skatista, publicou Nothing by Accident: Brazil on the Edge (Independent Publishing Network)