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“EU PREFERIA IR PARA O HAVAÍ”

Janio de Freitas e a construção do furo jornalístico que sacudiu a República e marcou sua trajetória

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A primeira providência tomada pelo delegado José Carlos Conceição foi chamar o jornalista Janio de Freitas para um interrogatório. Era maio de 1987. A Polícia Federal acabara de instaurar um inquérito para investigar suspeitas de fraude na concorrência aberta para a construção do primeiro trecho da nova Ferrovia Norte-Sul. Dias antes, o jornalista noticiara que as maiores empreiteiras do país haviam transformado a licitação num jogo de cartas marcadas, dividindo os dezoito lotes da ferrovia entre elas, antes de submeter suas propostas ao governo. O objetivo do policial era extrair do autor da revelação mais informações sobre o conluio e seus participantes.

De início, o delegado enviou um telex para a sucursal da Folha de S.Paulo no Rio de Janeiro, onde Freitas trabalhava. Depois de receber a informação de que o jornalista não comparecera à redação nos dias anteriores, Conceição resolveu telefonar. Na segunda tentativa, conseguiu falar com o jornalista e o convidou para tomar um café e prestar esclarecimentos na sede da PF. Disse que não pretendia criar constrangimentos para o repórter e estava ciente da proteção legal ao sigilo de suas fontes de informação. Freitas concordou, mas avisou: “Desde logo esclareço que nada direi que não tenha escrito antes.”

Na manhã do dia seguinte, o jornalista chegou no horário marcado e saiu depois de duas horas e meia de depoimento. Indagado por Conceição, afirmou que não revelaria a identidade de seu informante porque não tinha autorização para fazê-lo. O delegado perguntou então o que ele pretendera dizer ao escrever na reportagem que a concorrência da ferrovia era “fraudulenta e determinada por corrupção”. Conforme a transcrição do depoimento feita pela polícia, Freitas disse que usara a palavra corrupção “em linguagem jornalística e não no sentido técnico-jurídico”, e argumentou que o conluio das empreiteiras corrompera a lisura da licitação. Conceição perguntou se ele soubera de alguma vantagem indevida oferecida aos participantes do processo. Freitas respondeu que nada publicara a respeito e, portanto, nada tinha a declarar.

Embora nunca tenha escrito isso, o jornalista sempre teve a convicção de que altas autoridades haviam participado do acerto com as empreiteiras. Quando almoçamos em dezembro do ano passado, no Rio, ele me explicou que nunca obteve comprovação, mas sempre pensou que o conluio das empresas só fazia sentido com o envolvimento de gente graúda, que pudesse garantir aos participantes da concorrência que suas combinações prevaleceriam. “Não era uma dedução, nem foi uma informação que eu tivesse recebido”, disse Freitas. “Era uma forçosa ocorrência.”

Para atestar a fraude, a Folha publicou no caderno de classificados do jornal, em linguagem cifrada e cinco dias antes da reportagem de Freitas, uma lista antecipando o resultado da concorrência e seus dezoito vencedores A reportagem causou tamanho escândalo que o então presidente José Sarney se viu obrigado a anular a licitação e mandar apurar responsabilidades. Freitas achava possível que as investigações fossem mais longe do que ele conseguia chegar como repórter, mas não apostava muito nisso. Aconselhado por amigos, achou melhor se precaver para não virar alvo de um processo judicial. “Não valia a pena agravar a minha situação, que era um tanto precária”, disse no almoço. “É aquela coisa: você põe a bomba no lugar e sai de perto.”

Janio de Freitas era um osso duro de roer e, a essa altura, quase uma lenda. Estava com 54 anos e já tinha feito de tudo um pouco, em 33 anos de profissão. Começou como repórter no antigo Diário Carioca e fez seu nome como editor ao participar das reformas que modernizaram a revista Manchete e o Jornal do Brasil, nos anos 1950. Teve breves passagens pelo Correio da Manhã e pela Última Hora do Rio, que dirigiu na década seguinte. Sobreviveu ao ostracismo imposto a muitos profissionais na fase mais repressiva da ditadura militar, quando ficou sem espaço para trabalhar nas grandes redações. Conseguiu uma nova chance em 1980, quando a Folha o contratou para escrever uma coluna dedicada a assuntos políticos, duas vezes por semana.

Numa entrevista em 2019 ao site Tutaméia, o jornalista contou que teve duas oportunidades de sair do Brasil durante a ditadura: um convite para trabalhar na BBC em Londres, pouco depois do golpe de 1964, e outro para reformar um jornal francês. Como não havia ameaça de prisão ou outra circunstância que o impelisse a buscar refúgio no exterior, Freitas preferiu ficar. “Achei que era o caso de defender aqui as minhas opiniões, os meus princípios, a minha visão das coisas”, disse. “Foi uma burrada monumental.” Ficou uma década afastado das redações, ganhando a vida por algum tempo com uma gráfica que imprimia livros para a editora Civilização Brasileira.

A Folha apoiou o golpe de 1964 e se encolheu diante do endurecimento do regime dos generais, como a maioria dos jornais da época, mas o empresário Octavio Frias de Oliveira, dono do jornal, soube aproveitar o processo de abertura política da segunda metade dos anos 1970 para promover uma guinada editorial. Nesse período, a Folha arejou suas páginas de opinião, abrindo espaço para críticos dos governos militares e para intelectuais que tinham sido perseguidos, e passou a cobrir assuntos antes vetados pela censura. As mudanças deram prestígio e relevância ao jornal, e criaram o ambiente propício para a volta de Freitas ao jornalismo diário.

Em junho de 1983, sua coluna passou a ser publicada cinco vezes por semana, com lugar cativo no alto da página 5 do primeiro caderno. O jornalista oferecia análises e informações exclusivas, em textos apimentados com ironia, e virou referência para os leitores. Dias depois da estreia do novo formato, Freitas revelou que os médicos do general João Figueiredo, último presidente do regime militar, cogitavam submetê-lo a uma cirurgia cardíaca. A notícia foi desmentida e ironizada, até que, uma semana depois, acabou confirmada. Numa coluna publicada depois da operação, Freitas reproduziu algumas das refutações ao seu furo e concluiu: “Ao general Figueiredo, pronta recuperação. Aos outros citados, também.”

O clima era muito diferente em 1986, quando José Sarney decidiu iniciar a construção da Ferrovia Norte-Sul. Os governos militares tinham ficado para trás e os civis estavam de volta ao poder. Com a popularidade momentaneamente em alta graças ao Plano Cruzado, sua primeira tentativa de domar a inflação, Sarney sonhava com obras grandiosas como as que haviam marcado os governos desenvolvimentistas do passado e incluiu o projeto da estrada de ferro entre suas prioridades. Ela teria 1 570 km de extensão e ligaria Anápolis, em Goiás, a Açailândia, no Maranhão, estado onde Sarney iniciou sua carreira política como deputado e governador. A ideia era criar um corredor que permitiria transportar a produção agrícola da região Centro-Oeste até um porto em São Luís, capital do Maranhão, e de lá para o mercado externo.

Os primeiros estudos do Ministério dos Transportes concluíram que o empreendimento custaria 1,5 bilhão de dólares e só seria viável se o governo financiasse um quarto dos investimentos e fomentasse atividades econômicas que gerassem mais demanda para a ferrovia. O ministério chamou a Valec, subsidiária da Companhia Vale do Rio Doce que construíra a Estrada de Ferro Carajás, para tocar o novo projeto. Baseada na experiência anterior, a estatal estimou que a ferrovia custaria quase o dobro do cálculo original: 2,5 bilhões de dólares – o equivalente a 6,5 bilhões de dólares em dinheiro de hoje, ou quase 35 bilhões de reais pelo câmbio atual.

A Valec abriu concorrência para selecionar as empresas que construiriam a Norte-Sul em fevereiro de 1987. A legislação vigente exigia um projeto básico para licitação da obra e recursos orçamentários garantidos para início dos trabalhos, mas os dois pré-requisitos foram ignorados. Havia pressa no governo, porque a inflação voltara a subir e o prestígio de Sarney estava caindo. Os 870 km da primeira etapa da ferrovia foram divididos em dezoito lotes. De acordo com a Valec, o objetivo era despertar o interesse do maior número de empreiteiras e estimular a competição entre elas. As exigências contidas no edital da licitação asseguravam que somente empresas de grande porte e com experiência comprovada poderiam participar.

No início de maio, quando as construtoras se preparavam para apresentar as propostas, Freitas começou a achar aquilo muito estranho. A inexistência de estudos aprofundados que justificassem a obra e examinassem alternativas, o interesse das grandes empreiteiras, as cifras elevadas, a pressa do governo – tudo parecia motivo para desconfiar do projeto. Suas primeiras tentativas de buscar informações sobre a ferrovia nos jornais e no governo deram em nada. Ele resolveu então entrar no assunto com uma coluna que levantasse dúvidas sobre a obra e chamasse a atenção de alguém que pudesse lhe contar o que se passava nos bastidores.

Esse primeiro artigo, intitulado O Desafio Autoritário, foi publicado em 7 de maio, dois dias depois da entrega das propostas das empresas. Seu alvo principal era o então ministro dos Transportes, José Reinaldo Tavares. Ele trabalhara antes com Sarney no governo do Maranhão e tornara-se um de seus correligionários mais fiéis. Na véspera, o ministro havia convocado uma entrevista coletiva para rebater os críticos do projeto, que tinham movido uma ação popular na Justiça para impedir a obra e começavam a mobilizar aliados no Congresso. Tavares afirmou que nada faria o governo desistir da ferrovia. Freitas descreveu sua atitude como autoritária e incompatível com os novos tempos e comparou a Norte-Sul às obras faraônicas da ditadura militar. O ministro, escreveu o colunista, tinha “atração por estes empreendimentos que cuidam do futuro por gerações e gerações”.

A intuição de Freitas se confirmou ao longo do dia, quando algumas pessoas com as quais nunca tinha falado o procuraram para conversar. Alguns eram funcionários do governo – e uma das ligações veio do Maranhão. Freitas se recorda de ter atendido seis telefonemas, a maioria de pessoas que queriam apenas fazer comentários políticos ou observações técnicas. Até que alguém lhe disse que o resultado da concorrência da Valec havia sido definido por um acerto prévio com as empreiteiras, antes da entrega dos envelopes com as propostas, que estavam lacrados e só seriam abertos no dia seguinte, 8 de maio. O anúncio público dos vencedores pela Valec estava previsto para o dia 12 de maio.

Um segundo informante complementou as informações fornecidas pelo primeiro, e Freitas conseguiu assim descobrir, uma a uma, qual empresa ficaria com qual lote. “Eu tive certeza de que a informação era correta”, ele contou, em dezembro passado. Embora não conhecesse as pessoas que o procuraram, achou que mereciam a mesma confiança que haviam depositado nele ao contatá-lo naquele dia. “Pude verificar sua seriedade, a coerência nas conversas e a segurança com que repetiam os dados”, afirmou.

Freitas obteve o resultado da concorrência no início da noite daquele mesmo dia 7 de maio. O único jeito de aproveitar a informação seria publicá-la antes que se abrissem os envelopes com os lances das empreiteiras. Só assim seria possível demonstrar, quando a comissão da Valec anunciasse o resultado do julgamento das propostas em 12 de maio, que os vencedores já eram conhecidos uma semana antes. Freitas precisava encontrar um meio de fazer isso dissimuladamente, para evitar que o processo todo fosse anulado antes da proclamação do resultado e da confirmação da fraude.

Ele concluiu então que a solução seria publicar a informação de forma cifrada, em algum lugar do jornal que não chamasse atenção, como a seção dedicada a corridas de cavalos ou no meio dos anúncios classificados. Outra possibilidade seria registrar em cartório um documento que atestasse a posse antecipada da informação, mas era tarde para fazer isso. Freitas pensou no problema por meia hora e telefonou para Frias. Disse ao dono do jornal que tinha conseguido o resultado da concorrência e explicou a ideia que tivera para publicá-­lo sem que o governo e as empresas percebessem. Frias riu, aprovou o plano e pediu que ele acertasse os detalhes com o jornalista Caio Túlio Costa, então secretário de redação da Folha.

Como o jornal não tinha seção dedicada ao turfe, restavam os classificados. Depois de combinar com Costa, Freitas datilografou os códigos que comporiam o anúncio e os enviou por fax para a redação da Folha. O secretário foi até o andar em que as páginas do jornal eram montadas antes de serem impressas, para cuidar da composição do anúncio. Sob o título LOTES, seis fileiras de letras e números indicavam as iniciais das empreiteiras vencedoras e os trechos da obra que caberiam a cada uma. Ficou assim:

LOTES

L 1A: NO – L 2A: QG – l 3A: MJ

L 5A: CRA – L 6A: Ser – l 7A: EI

L 8A: Cow – L 9A: Cee – l 1B: CB

L 2B: CC – L3B: AG – L 5B: Cons

L 6B: Sul – L 7B: CBr – L 8B: AV

L 9B: T – L 10B: Par – L 11B: FG[1]

O pequeno retângulo tinha 6 cm de largura e 5 cm de altura. Foi inserido no centro da página, cercado de anúncios de detetives particulares e garotas de programa, ao lado de duas orações para Santa Clara.

Ninguém achou que algo pudesse dar errado. “O velho Frias confiou em mim e não me questionou em nenhum momento”, relembra Freitas. “Não perguntou nada.” O colunista achava os riscos desprezíveis. Se algum imprevisto ocorresse e o anúncio cifrado não se confirmasse, ninguém precisaria saber que aquilo tinha sido feito, e o jornal não teria que dar satisfações. “A probabilidade de estarmos certos era muito maior”, disse Costa, numa conversa em dezembro passado. Além de Freitas, somente ele, Frias e Otavio Frias Filho, que dirigia a redação e estava viajando naquele dia, souberam da operação antes que seu intuito fosse revelado.

Em 12 de maio, quatro dias depois da publicação na página de classificados, a comissão que presidia a licitação da Norte-Sul reuniu-se no escritório da Valec no Rio de Janeiro para anunciar o resultado. A coincidência com as informações publicadas de forma cifrada na Folha era total. A antecipação dos vencedores representava uma evidência incontornável de que as empresas tinham combinado entre elas a divisão dos lotes, fraudando a concorrência. Na edição do dia seguinte, 13 de maio, Freitas publicou um texto enxuto para apresentar suas conclusões e descrever o procedimento adotado para expor o conluio das empreiteiras. O texto saiu com destaque na capa do jornal. Concorrência da Ferrovia Norte-Sul Foi uma Farsa, proclamava o título, redigido pelo então editor da primeira página do jornal, Domingos Ferreira Alves. Uma reprodução dos classificados com uma lupa desenhada sobre a imagem para destacar o anúncio criado por Freitas serviu como ilustração.

A revelação bombástica ocupou um quarto do espaço disponível na primeira página da Folha nesse dia. A manchete do jornal, no entanto, foi reservada para outro assunto, a divulgação de um novo plano de combate à inflação formulado pela equipe do ministro da Fazenda, Luiz Carlos Bresser-Pereira. Terceira tentativa de Sarney de controlar os preços, o pacote parecia fadado ao fracasso como todos os outros, mas a notícia atendia às preocupações mais imediatas dos leitores. Freitas ficou surpreso quando soube que o furo não tinha sido elevado à manchete. Trinta anos depois, contou em um artigo que ganhou vários jantares apostando com amigos que juravam que a matéria tinha sido o destaque principal do jornal.

O impacto da descoberta foi avassalador. “É um vendaval aqui em Brasília”, disse o deputado federal Delfim Netto, ex-ministro dos governos militares, primeiro a procurar Janio de Freitas, logo cedo, no dia da publicação da reportagem. Nessa época, a Folha só chegava às bancas de Brasília no início da tarde, mas a notícia correu mais rápido. Sarney cancelou a licitação antes do fim do dia e mandou investigar tudo, mas rejeitou os conselhos que recebeu de auxiliares e empresários para demitir o ministro Tavares. “Não tive coragem, porque eu gostava demais dele e não acreditava que ele tivesse feito qualquer desonestidade”, disse o presidente à sua biógrafa Regina Echeverria, décadas mais tarde. “Hoje eu acho que ele é capaz de ter feito, sim, mas naquele tempo eu não acreditava.”

O jornalista Antonio Frota Neto, porta-voz do Palácio do Planalto, telefonou dois dias depois para pedir, em nome de Sarney, a colaboração de Freitas nas investigações oficiais. “Transmita ao presidente, desde logo, que o que tenho a dizer e eticamente posso dizer, sobre assuntos públicos, digo no meu trabalho de jornalista”, respondeu o colunista, que relatou o episódio em seu espaço na Folha no dia seguinte. O artigo expressava ceticismo sobre a disposição do governo de ir fundo nas investigações, e sugeria que seu propósito era apenas isentar os funcionários encarregados de tocar a Norte-Sul de qualquer envolvimento com os acertos das empreiteiras.

O Ministério dos Transportes criou uma comissão de sindicância para analisar a licitação, nomeando para presidi-­la o coronel Stanley Fortes Baptista, que era também engenheiro e dirigira a Rede Ferroviária Federal no governo do general Ernesto Geisel (1974-79). Ele mandou uma carta convidando Freitas a prestar esclarecimentos, “a fim de possibilitar a apuração dos fatos, em defesa da plena moralidade pública”. O jornalista recusou o convite, argumentando que não tinha nada a acrescentar ao que publicara na Folha e lembrando que a legislação protegia o sigilo das suas fontes de informação, o que tornaria o depoimento “inútil, despiciendo e ilegal”.

Dias depois do interrogatório na Polícia Federal, o Senado instalou uma Comissão Parlamentar de Inquérito para entrar no caso e também chamou Freitas para depor. A CPI mandou comprar passagens aéreas e reservou hotel para o jornalista em Brasília, mas ele não compareceu no dia marcado. Num telegrama enviado à comissão, Freitas esclareceu que morava no Rio e o voo adquirido pelo Senado partia de São Paulo. Aproveitou para pedir dispensa do depoimento, dizendo que seria repetitivo e inútil, e acrescentou que só aceitara o convite anterior da PF porque se sentira constrangido: “Inequívocos aspectos intimidatórios de que se revestia esse convite levaram-me […] ao intuito de demonstrar concretamente que não tenho motivos para intimidar-me, por ter apenas cumprido os meus deveres simultâneos de cidadão e jornalista.”

A CPI ignorou o apelo e Freitas finalmente compareceu em 30 de junho. Ele repetiu o que tinha escrito em seus artigos e respondeu à maioria das perguntas de forma respeitosa, ainda que muitas vezes lacônica, de acordo com as notas taquigráficas publicadas mais tarde. Quando o senador Ruy Bacelar, do PMDB da Bahia, sugeriu que Freitas revelasse a identidade de seus informantes “para o bem da moralidade pública”, o jornalista disse que princípios éticos o impediam de fazê-lo. “Não é que eu queira ou não queira, essa questão não se põe para um jornalista”, explicou. “É da ética do jornalismo, que eu adotei, ao adotar o jornalismo como profissão.”

Questionado pelo senador Mansueto de Lavor, do PMDB de Pernambuco, relator da CPI, Freitas disse apenas que não tivera contato com as construtoras interessadas na Norte-Sul. Na sessão anterior, o empreiteiro Lúcio Vasconcelos Lana e Souza, sócio da mineira Tratex, havia sugerido que os senadores mandassem prender o jornalista se ele não apresentasse provas do conluio das empresas. “Este Brasil está precisando de uma Sibéria para colocar um sujeito que faz uma coisa dessas em trabalhos forçados lá”, disse. Na sessão do dia 30, Freitas respondeu fazendo blague: “Eu preferia ir para o Havaí.”

A anulação da concorrência da Norte-Sul representou um duro golpe para as construtoras. Andrade Gutierrez, Camargo Corrêa e Odebrecht – as três grandes empreiteiras que iriam à lona com a Operação Lava Jato décadas depois – estavam entre as mais bem posicionadas para realizar a obra dos sonhos de Sarney em 1987. Todas viram na licitação da Valec uma oportunidade imperdível, numa época em que o Brasil estava atolado numa crise econômica profunda, o governo acumulava dívidas bilionárias com as construtoras e não se encontravam recursos para novos investimentos. A denúncia de fraude não só frustrou seus planos, como expôs de forma constrangedora os meios que elas empregavam para fazer negócios.

A Valec credenciou 21 construtoras para participar do processo. Seguindo as regras do edital da licitação, atribuiu notas a cada uma, classificando-as de acordo com a saúde financeira e a capacidade técnica. Elas tiveram um mês para preparar suas propostas, indicando quais trechos lhes interessavam e quanto cobrariam para executá-los. O edital adotou como referência o orçamento estimado pela Valec, de 2,5 bilhões de dólares, e limitou os descontos possíveis a 10%, para inibir lances aventureiros de empresas que depois não teriam como executar o serviço sem reajustes. As regras impediam que qualquer uma ganhasse mais de um lote, caso houvesse outras ofertas equivalentes à sua, e estabeleciam as notas atribuídas no início como critério de desempate.

As condições favoreciam as maiores construtoras, mas também serviam para proteger o interesse do governo na realização da obra. Dias antes do prazo para apresentação das propostas, desviando-se do roteiro previsto no edital, a Valec decidiu divulgar as notas de todos os concorrentes e lhes deu mais uma semana para fazer seus lances. Era tudo que as empreiteiras precisavam para dividir na surdina os dezoito lotes conforme seus interesses. Como a Andrade Gutierrez recebera a maior nota no início, bastava oferecer o desconto máximo de 10% para ficar com o trecho que desejava, mesmo que outra empresa igualasse o preço. Para a Camargo Corrêa, a Odebrecht e outras grandes construtoras, era só assegurar que rivais com melhor pontuação não oferecessem descontos maiores pelos lotes que elas queriam. Concorrentes menores poderiam ser contemplados com outros trechos. As três empresas classificadas com piores notas pela Valec ficariam sem nada a princípio, mas poderiam ser subcontratadas pelas outras para executar parte dos serviços.

A Polícia Federal ouviu dirigentes de todas as empresas. Ninguém admitiu ter participado de um conluio. Como todos tinham oferecido por seus lotes os menores preços autorizados pelo edital, os vencedores diziam que a ideia de uma combinação prévia não fazia sentido, porque não haveria possibilidade de ganho indevido para as construtoras com descontos tão altos, nem prejuízo para os cofres públicos. Nenhum investigador examinou a fundo a hipótese de que a Valec tivesse inflado os preços de referência, o que tornaria irrelevante mesmo o desconto máximo de 10%. Freitas bateu nessa tecla com insistência em seus artigos, mas os investigadores deram pouca atenção à questão, e as contestações aos cálculos da estatal acabaram não prosperando.

As investigações contribuíram pouco para esclarecer o que aconteceu. A comissão nomeada pelo Ministério dos Transportes concluiu que a divulgação das notas pela Valec favoreceu uma combinação entre as empreiteiras, mas arquivou o caso sem culpar ninguém pelo fiasco. O delegado Conceição encerrou o inquérito da PF em dois meses, isentando o governo e fazendo críticas veladas ao jornalista que revelara a fraude. “O próprio Janio de Freitas, denunciante da primeira hipótese [o conluio das empreiteiras], não forneceu qualquer dado objetivo que pudesse comprovar essa assertiva”, escreveu no relatório final do caso. “Difícil acreditar que um jornalista do porte de Janio de Freitas se furtasse ao oferecimento de provas para se chegar à verdade dos fatos.”

O anúncio publicado pelo jornalista nos classificados da Folha, antes mesmo da abertura dos envelopes com as propostas das empresas, era um indício irrefutável de que o acerto ocorrera, mas o delegado preferiu ficar com os argumentos das empreiteiras. Elas diziam que, após a entrega das propostas à Valec, não havia mais motivo para manter sigilo entre os concorrentes, e qualquer pessoa conhecedora das regras do edital teria condições de levantar no mercado as informações necessárias para antecipar o resultado antes que a Valec analisasse as ofertas recebidas. De fato, essa versão ajudava a entender como Freitas poderia ter obtido as informações em poucas horas sem ter contato com nenhum empreiteiro, mas era insuficiente para afastar suspeitas.

Chamados a se explicar, os empreiteiros tergiversaram. Eduardo Andrade, então superintendente da Andrade Gutierrez, sugeriu à PF que empresas estrangeiras e grupos interessados em desestabilizar Sarney estavam por trás da denúncia. Na CPI, ele reclamou do tratamento dispensado às construtoras nacionais, que considerava injusto. “O país não está reconhecendo o valor que deve ser dado à indústria nacional da construção”, afirmou. Seu primo Sérgio Andrade buscou aproximação com Freitas por meio de um amigo em comum, o banqueiro José Luiz de Magalhães Lins, mas o jornalista recusou o convite para um almoço.

Emílio Odebrecht, que dirigia a construtora da família, disse às autoridades que companhias europeias estavam usando as notícias do Brasil para difamar sua empresa, em meio à disputa por um contrato no Equador. Numa tentativa de convencer as autoridades federais de que seu quintal estava ameaçado, o empreiteiro fez chegar ao governo um dossiê sobre o grupo norte-americano Fluor, que teria manifestado interesse em participar da construção da Norte-Sul. Um consultor que atuava no Rio de Janeiro e era velho conhecido de Norberto Odebrecht, o pai de Emílio, apresentara à empreiteira brasileira a ideia de uma associação com a Fluor poucos dias depois do cancelamento da licitação. Ao ser interrogado pela PF, o consultor admitiu que não tinha autorização para falar em nome dos norte-americanos.

A CPI do Senado fez barulho por algum tempo e teve seus holofotes desligados depois de cinco meses. A maioria governista garantiu a rejeição do relatório do senador Mansueto de Lavor, crítico da Norte-Sul, e tudo acabou com a publicação de um parecer anódino. “Não foi constatado nenhum fato concreto pelo qual se pudesse responsabilizar qualquer autoridade em razão das supostas irregularidades ocorridas”, escreveu o senador Leopoldo Peres, do PMDB do Amazonas. Ele encerrou o caso adotando as mesmas conclusões da comissão de sindicância do ministério e do inquérito da PF: “Não houve ilícito penal punível e nem prejuízos ao erário.”

A Procuradoria-Geral da República, que nessa época funcionava como um braço do Poder Executivo e ainda não tinha a independência que lhe seria garantida pela Constituição de 1988, livrou-se da batata quente engavetando o processo sem maiores explicações. Um dos procuradores que lidaram com o caso, Juarez Tavares, chegou a visitar Freitas no Rio, em busca de pistas para aprofundar as investigações, mas o inquérito logo foi retirado de suas mãos e transferido para Brasília. Designado pelo então procurador-geral, Sepúlveda Pertence, para rever tudo, o procurador Eugênio Aragão concluiu que não havia nada de errado e propôs o arquivamento. “A licitação não foi feita pelo melhor método, mas não vi dolo para ninguém”, lembrou Aragão, ministro da Justiça do governo Dilma Rousseff e hoje advogado em Brasília, numa entrevista em 2021.

Sarney nunca desistiu da Ferrovia Norte-Sul, mas o agravamento da crise econômica o obrigou a postergar seus planos. A Valec lançou nova concorrência no fim de 1987 e limitou seu escopo a apenas dois trechos da ferrovia, o que afastou o interesse das maiores empreiteiras. A construção foi retomada mais tarde, no governo Fernando Henrique Cardoso, ganhou impulso depois da chegada de Lula à Presidência e foi concluída durante o governo de Jair Bolsonaro. De 2004 para cá, os investimentos na ferrovia consumiram mais de 26 bilhões de reais do orçamento federal, em valores corrigidos pela inflação, sem contar os gastos realizados pelas concessionárias privadas que se tornaram responsáveis pela sua operação e manutenção.

“Foi uma luta tremenda, mas fico satisfeito porque o tempo demonstrou que tínhamos razão”, afirmou o ex-ministro Reinaldo Tavares, numa conversa telefônica no fim do ano passado. “A região Centro-Oeste se tornou a maior produtora de grãos do Brasil, e o crescimento do agronegócio nos últimos anos mostrou que o país precisava disso, para não continuar dominado pelo transporte de caminhões, caríssimo.” Para ele, os críticos da ferrovia nunca tiveram interesse em discutir as vantagens do projeto. “Eles só queriam protelar”, disse.

Tavares aceita a ideia de que pode ter havido uma combinação entre as empreiteiras para a divisão dos lotes da primeira concorrência da Valec, mas diz que não houve participação do seu ministério ou da Valec nessas discussões e insiste na tese de que não houve prejuízo para os cofres públicos. “Se houve acerto, não foi para manipular os preços e ganhar dinheiro, mas uma conversa normal entre as empresas para assegurar os lotes cuja localização fosse mais conveniente a cada uma.” Eleito governador do Maranhão em 2002, com apoio da família Sarney, ele brigou com o ex-presidente depois de assumir o poder. Hoje, faz parte do secretariado do governador Carlos Brandão, do PSB, que foi vice de Flávio Dino, atual ministro da Justiça.

A aceleração das obras nos governos do PT atraiu novamente as grandes empreiteiras, que voltaram a se acertar nos bastidores para participar do empreendimento. Em 2012, o então presidente da Valec, José Francisco das Neves, conhecido como Juquinha, foi preso pela Polícia Federal em meio a investigações sobre suspeitas de desvios, fraude em licitações e superfaturamento de contratos. Depois da deflagração da Operação Lava Jato, executivos da Andrade Gutierrez, da Camargo Corrêa e da Odebrecht confessaram que tinham formado um cartel com outras empresas para fraudar as licitações da Valec e disseram ter pagado propinas a fim de garantir os contratos. As ações movidas contra os envolvidos ainda não têm julgamento definitivo.

Tavares também teve complicações na Justiça, por outros motivos. Em maio de 2007, após deixar o governo do Maranhão, ele virou alvo de uma operação desencadeada pela PF para investigar contratos da construtora baiana Gautama em vários estados. Acusado de ganhar um carro de presente de Zuleido Veras, dono da empreiteira para a qual havia feito o pagamento de uma obra, Tavares ficou preso em Brasília por quatro dias. Mais tarde, livrou-se do processo na Justiça sem que houvesse julgamento, beneficiado pela prescrição do caso. Num artigo escrito na época da prisão de Tavares, Freitas disse que mandou para ele um presente: um bolo, com um cartão lembrando o ex-ministro do aniversário de vinte anos da denúncia da fraude na concorrência da Norte-Sul. “Algum intermediário comeu, porque nunca chegou até mim”, disse Tavares em dezembro passado.

O furo de reportagem da Norte-Sul deu a Janio de Freitas, em 1987, o Prêmio Esso, na época o mais importante do jornalismo no país. Ele recebeu um diploma e um cheque no valor de 250 mil cruzados, cerca de 50 mil reais em dinheiro de hoje. Segundo relatos publicados pelos jornais, Freitas fez um discurso irônico, em que agradeceu a Sarney, Tavares e aos responsáveis pela licitação da Valec. Também recebeu o Prêmio Internacional Rei da Espanha de Jornalismo pelo trabalho, na categoria jornalismo impresso. Foi até Madri buscar a estatueta do prêmio, entregue pe­lo rei Juan Carlos, e o cheque de 6,9 mil dólares, quase 100 mil reais hoje.

Na festa do Prêmio Esso, Freitas afirmou ter recebido três ameaças de morte e inúmeros telefonemas anônimos desde a publicação da reportagem. Acrescentou à conta uma tentativa de abalroar seu carro. Trinta anos depois, num artigo na Folha, ele disse que pior foi a abordagem de um homem desconhecido na garagem do prédio onde ficava a sucursal do jornal, no Centro do Rio, numa noite em que saiu da redação mais tarde do que o habitual. Freitas recorda que o homem se aproximou, desabotoou o paletó, deixando entrever o cabo de um revólver enfiado dentro da calça, e disse algo que lhe pareceu um recado ameaçador. “Anotei a frase quando entrei no carro, mas não sei onde está isso”, ele contou.

Os principais jornais deram ampla repercussão à denúncia de fraude e aos desdobramentos do caso. O Globo publicou um editorial na primeira página no dia seguinte, em que classificava a obra como inoportuna, dada a penúria financeira do país, e criticava a superficialidade dos estudos sobre a viabilidade econômica da ferrovia. O Jornal do Brasil mencionou Freitas no texto da manchete e incluiu na cobertura um perfil de seu ex-editor. A revista Veja estampou o escândalo na capa e dedicou dezoito páginas ao tema, incluindo uma reportagem sobre as relações dos empreiteiros com sucessivos governos.

Ao noticiar o escândalo, o Jornal Nacional, da Rede Globo, citou Freitas, destacou a “maneira engenhosa” que ele encontrara para revelar a fraude e abriu espaço para explicações do governo. Em artigos e entrevistas, Freitas fez críticas à cobertura da Globo, cujo tom considerou oficialesco. Atribuía o enfoque a uma suposta má vontade do então diretor de jornalismo da emissora, Armando Nogueira, amigo de quem se distanciara com o tempo. Na época, Nogueira enviou à Folha um telex parabenizando o jornal e seu colunista: “O jornalismo investigativo viveu um dia de plena consagração: a reportagem de Janio de Freitas denunciando, de forma admirável, irregularidades na concorrência da Ferrovia Norte-Sul. Permita-me, como jornalista, participar do orgulho que os colegas da Folha estão sentindo.”

Freitas voltaria a usar o artifício dos anúncios cifrados muitas vezes, em alguns casos publicando-os em outros jornais para despistar as empreiteiras, que passaram a vasculhar os classificados da Folha preventivamente. Em 1989, ele provocou a anulação de uma concorrência bilionária, lançada pela Companhia Estadual de Águas e Esgotos do Rio de Janeiro (Cedae), para construção de um sistema de captação, armazenamento e fornecimento de água à região metropolitana da capital, publicando a seguinte mensagem nos classificados do Globo: “Marajó – Grande empreendimento múltiplo, muita água. V. Paranapanema. Infs. c/ Norberto ou Camargo. Tel. 201.0389.” Traduzindo: a obra estava destinada às empreiteiras Paranapanema, Odebrecht (fundada por Norberto) e Camargo Corrêa. Acertou de novo.

O método também inspirou outros repórteres, num momento em que a redemocratização do país estimulava a investigação de desmandos dos governos e casos de corrupção. “A reportagem sobre a Norte-Sul apareceu pouco depois da saída do último presidente militar”, observa o professor Solano Nascimento, do Departamento de Jornalismo da Universidade de Brasília, cuja tese de doutorado examina a evolução do jornalismo investigativo nesse período. “Ela foi publicada no momento histórico certo, com a relevância social certa e as ferramentas certas para se tornar um exemplo para outros jornalistas.” Em 1991, com o governo Fernando Collor acossado por denúncias de corrupção, o colunista Ricardo Boechat, do jornal O Globo, publicou um anúncio nos classificados do Jornal da Tarde, de São Paulo, e estragou a festa de um grupo de indústrias que se acertara para garantir um contrato de fornecimento de fardas do Exército.

Janio de Freitas nunca revelou a identidade das fontes de sua reportagem sobre a fraude da Norte-Sul. Em agosto de 2012, pouco depois de completar 80 anos de idade, ele pareceu abrir a guarda ao rememorar o caso no finzinho de uma entrevista ao programa Roda Viva, da TV Cultura, mas se mostrou inflexível. “Tudo ali naquele episódio foi muito feliz”, disse. “A começar de um reconhecimento que eu nunca poderei fazer plenamente, que foi a fonte da informação.” O jornalista Ricardo Noblat pressentiu que uma oportunidade surgira e perguntou se seu informante estava vivo. “Não é da sua conta”, respondeu Freitas, rindo. “Meta-se na sua vida.”

Noblat insistiu lembrando o caso de Mark Felt, o ex-diretor do FBI que pouco antes de morrer revelou ter sido o informante anônimo que forneceu aos repórteres Bob Woodward e Carl Bernstein, do jornal The Washington Post, pistas cruciais no caso Watergate, o escândalo que levou Richard Nixon a renunciar à Presidência dos Estados Unidos em 1974. Felt foi identificado pelo apelido de Garganta Profunda no livro escrito pela dupla de repórteres, Todos os Homens do Presidente, e manteve seu envolvimento em segredo por três décadas. “Não quero saber desse tipo de pergunta”, disse Freitas a Noblat, rindo mais uma vez.

Em junho de 2021, quando ele me concedeu um longo depoimento sobre o caso da Norte-Sul, perguntei por que ainda mantinha sob sigilo a identidade de seus informantes. “Porque eu tenho um compromisso, que vai atravessar os meus tempos”, respondeu. “Enquanto durarem os meus tempos, eu tenho o compromisso de não revelar essa fonte. Eu não sei que efeito pode ter sobre a pessoa ou, se não estiver viva, sobre sua memória. E eu vou cumprir isso.” Perguntei que riscos ainda haveria a essa altura. “Alguém pode achar que foi uma traição”, sugeriu. “Essas coisas a gente não tem condição de prever, e não me custa nada ficar calado.”

No almoço que tivemos em dezembro, Freitas manteve a posição quando insisti no assunto, mas contou que um dos informantes era uma mulher, e que um deles ainda está vivo. “Mantivemos relações muito cuidadosas e nunca fomos vistos juntos por conhecidos, embora tenhamos nos encontrado muitas vezes”, disse. “Ficamos muito amigos, amigos especiais, dessa categoria de amigos que são unidos também por um segredo, por uma confiança mútua muito rigorosa e muito extensa.” Eles nunca cogitaram quebrar esse compromisso. “Se alguém tivesse me liberado, era uma coisa, mas nunca fui procurado para isso e nunca pedi essa autorização, nem pedirei.”

No dia 15 de dezembro passado, Janio de Freitas foi demitido pela Folha, aos 90 anos de idade, três semanas depois de completar 42 anos na empresa. O diretor de redação do jornal, Sérgio Dávila, comunicou a decisão por telefone, numa conversa em que apontou a necessidade de cortar custos. Na mesma semana, outros oito profissionais foram demitidos pelo jornal. Dávila ofereceu a Freitas a possibilidade de se despedir dos leitores com uma última coluna no domingo seguinte, mas ele não quis. “Se o jornal me dispensou, ele é que deve explicações”, disse uma semana depois, quando nos encontramos no Rio. “Não fui eu que pedi para sair.”

A coluna teve sua periodicidade reduzida com os anos e, em abril de 2019, passou a ser publicada somente aos domingos. No texto em que anunciou o fim da coluna, a Folha evitou a palavra “demissão” e noticiou a saída de Freitas como se tivesse resultado de um “pedido do jornal” para que o colunista deixasse de publicar seu artigo semanal. O texto resumiu a trajetória do jornalista e repetiu trechos de uma reportagem publicada meses antes para marcar seu aniversário de 90 anos. O furo da Norte-Sul foi lembrado, assim como o que revelou os problemas cardíacos do general Figueiredo. Sua primeira coluna na Folha, publicada em 20 de novembro de 1980, tratou das relações entre os militares e a Igreja Católica. A última foi ao ar no site do jornal em 10 de dezembro. Nela, Freitas previu dificuldades para o presidente Lula na tarefa de despolitizar os quartéis depois de quatro anos de Bolsonaro.

Freitas e a Folha tiveram uma convivência muitas vezes tempestuosa. O colunista nunca deixou de expressar gratidão a Octavio Frias de Oliveira pela confiança depositada nele e pela liberdade que sempre lhe foi assegurada, até mesmo para criticar o jornal. Com o tempo, porém, a relação se desgastou. Numa coluna de 2020, em que classificou como “erro ignominioso” um editorial que comparou Bolsonaro com Dilma Rousseff, Freitas acusou a Folha de ter colaborado de forma “substantiva e indigna” com a ditadura militar, emprestando veículos aos órgãos de repressão na década de 1970 – uma antiga suspeita que o próprio jornal investigou e nunca foi comprovada. Dávila respondeu dias depois com um artigo em que acusou Freitas de cometer uma injustiça ao desprezar os esforços feitos por Otavio Frias Filho para esclarecer o que aconteceu nos anos de chumbo.

Nos dias que se seguiram à demissão, leitores mandaram cartas de protesto e sete colunistas do jornal usaram seu espaço para lamentar a saída do colega veterano. “Janio é indemissível, mas vivemos tempos sombrios, que desconhecem o reconhecimento e o respeito”, disse a atriz e escritora Fernanda Torres. Marcelo Coelho, que também estava no jornal desde os anos 1980, decidiu encerrar a colaboração com a Folha e se despediu fazendo uma constatação na sua última coluna para o caderno cultural: “Num processo longo e implacável, a Folha foi se alienando do que era e do que significava para seus leitores. Envelheceu. Janio, não.”

Depois de receber algumas ofertas de trabalho de sites independentes, sem ligação com grandes grupos de comunicação, Freitas assinou contrato com o Poder360, em cujo site passou a publicar uma coluna às sextas-feiras. “Houve uma desvalorização do jornalismo profissional, que culmina com a internet como alternativa única”, comentou. Há projetos em estudo também. Ao longo de 2018, Freitas concedeu uma série de entrevistas sobre sua trajetória aos jornalistas Mário Magalhães e Fernanda da Escóssia, editora da piauí. Foram tomados vinte depoimentos, que somam pouco mais de sessenta horas de gravação e deverão resultar num livro-depoimento.

No final do nosso encontro, Freitas fez questão de pagar a conta do almoço em vez de dividi-la. Quando o garçom colocou a maquininha à sua frente, ele hesitou antes de digitar a senha do cartão e preferiu consultar uma anotação pessoal. Tirou da carteira uma pequena tira de papel, amarrotada e rasgada nas extremidades, com números manuscritos ao lado de letras impressas. Leu, digitou a senha, sorriu ao ouvir o apito com a confirmação e guardou o papel. Virou-­se então para o garçom e disse: “Nada como um pedacinho de jornal.”


[1] As empreiteiras vencedoras eram, pela ordem dos lotes, Norberto Odebrecht (NO), Queiroz Galvão (QG), Mendes Junior (MJ), C. R. Almeida (CRA), Serveng-­Civilsan (Ser), EIT (EI), Cowan (Cow), Ceesa (Cee), CBPO (CB), Camargo Corrêa (CC), Andrade Gutierrez (AG), Constran (Cons), Sultepa (Sul), Brasil (CBr), Alcindo Vieira (AV), Tratex (T), Paranapanema (Par) e Ferreira Guedes (FG).


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Jornalista, foi repórter e editor da Folha de S.Paulo e correspondente do Valor Econômico nos Estados Unidos