heróis do gramado II
Marcela Mora y Araujo Jan 2023 17h30
31 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Tradução de Rubia Goldoni e Sérgio Molina
De Buenos Aires
Patria de las perfectas luces, tuya la ingenua […]
y melodiosa fiesta, calles que cubren hoy brazos de cruces.
Com as devidas desculpas a Miguel Ángel Asturias
Debaixo de um Sol de rachar, um menino de 8 anos nos ombros do pai – excepcionalmente alto –, com uma bandeira argentina (ou trapo, como a chamamos aqui) amarrada no pescoço, feito um super-homem. Seus ombrinhos balançam sobre um mar de gente também vestida com a camisa celeste e branca. Ele vira a cabeça olhando em todas as direções. As pessoas ocupam todos os espaços, como um líquido, gritando, pulando, cantando. Estão trepadas nos semáforos, em cima dos carros, nos abrigos dos pontos de ônibus. Soltam fogos, há fumaça, há quem jogue linguiças em churrasqueiras portáteis. São mulheres, crianças, idosos e muitos, muitos homens. As cores da camiseta se repetem em pinturas de rostos e cabelos, nos bumbos. “São as cores do céu”, ouvi uma mulher explicar a um inglês na caminhada até o Estádio de Wembley, em junho do ano passado. Foi uma noite inesquecível que a seleção campeã da América deu de presente aos torcedores, antes do Mundial do Catar, com a vitória sobre a Itália campeã europeia, numa nova Copa inventada, A Finalíssima. Hoje o menino, cavaleiro vitorioso, observa a comemoração maciça de uma Copa mais do que real. É A Copa. A terceira da Argentina. Ele levanta o bracinho com o punho erguido para o céu, canta com o povo, sorri como se o universo fosse uma fruta deliciosa que lhe pertence, que está prestes a morder. “Você acha que ele vai se lembrar disso?”, me pergunta a mãe dele, minha irmã.
Cerca de 5 milhões de pessoas saíram às ruas só em Buenos Aires – mais de 10% da população argentina, segundo o censo de 2022. Talvez o mesmo tanto no resto do país. Sem barreiras de proteção, sem nenhum esquema de segurança, sem banheiros químicos, bem o contrário da fila inglesa organizada para a despedida da rainha. Como disse a cantora Bárbara Recanati, num breve tuíte cheio de ironia: “6 milhões de pessoas. Supermal organizado. Não havia pontos de hidratação, nem beer garden, nem espaços para crianças, nem quiosques de grife, nem food trucks sortidos, só choripanes [sanduíches de linguiça]. A fila para chegar até Lionel Messi, eterna. Eu fui, esperei mil horas e nem cheguei perto dele. País inviável.”
Os campeões, bêbados, viram um sujeito se atirar de uma ponte sobre o ônibus onde estavam, errar o alvo e cair de cabeça na rua. Aí o desfile dos jogadores foi interrompido e eles voltaram de helicóptero ao centro de treinamento em Ezeiza. Mas as pessoas continuaram festejando. Nem o governo federal, nem a segurança da cidade estiveram à altura de um povo que saía para dançar e cantar e, mesmo desapontado ao saber que os campeões não chegariam à Casa Rosada nem ao Obelisco, continuou sua cerimônia e se dispersou sem incidentes. Ou com relativamente poucos incidentes – alguns dos quais ocorreram em González Catán, município do distrito de Matanza, na periferia profunda da Grande Buenos Aires.
É esse o lugar de origem de Gonzalo Montiel, o jogador que cobrou o pênalti que nos deu a Copa. Gonzalo é cria da academia do River Plate, viveu nos alojamentos do clube desde os 13 anos. Quando era criança, no seu bairro, batia pênaltis por dinheiro, coisa bem comum nas vilas e comunidades – já no River, quando Marcelo “El Muñeco” Gallardo o promoveu à categoria profissional (Gallardo o chamava de “bombeiro”, porque o garoto vivia apagando incêndios por todo o campo), Montiel se confirmou como exímio batedor de pênaltis. Na carreira profissional, não errou nenhum. Nas categorias de base, apenas um.
Montiel chuta no Estádio Lusail, no Catar, o goleiro francês Hugo Lloris pula para o lado errado e a bola estufa a rede. Todos explodimos num frenesi misto de soluço de alívio e grito de êxtase merecido. Messi cai de joelhos. Lionel Scaloni, o técnico, cobre o rosto. Emiliano “Dibu” Martínez, o goleiro, se joga no chão. Uma bicicleta no Centro de Buenos Aires captou com uma câmera de celular aquele exato momento: tudo deserto, silêncio absoluto e, ao grito de goool!, as pessoas começam a encher a rua. Parecem formigas movendo-se em ritmo coordenado.
Durante três dias, o sorriso continuou estampado nos rostos argentinos. O dia da chegada dos jogadores foi declarado feriado nacional. Mesmo que formalmente não fosse, ninguém conseguiria trabalhar, pois as principais vias do país estavam tomadas pelos torcedores. Viralizaram vídeos de gente jogando bola no meio das ruas e avenidas, de uma multidão cantando o hino nacional em cima e embaixo dos viadutos. Como se as arquibancadas de um estádio tivessem sido esticadas e enroscadas, num imenso desenho do holandês Maurits Escher sem começo nem fim; milhões de pessoinhas sob o Sol vestidas de azul e branco, cantando, brincando, festejando.
O que estávamos comemorando? O que mudaria para cada um daqueles cidadãos? Aquelas desorganizadas celebrações patrióticas que foram acontecendo com mais intensidade depois de cada partida, dando voz à felicidade de pertencer, lembram um pouco esta joia filosófica que ouvi certa vez: “Dizer ‘ganhamos’ quando teu time ganha é como dizer ‘trepamos’ depois de ver um filme pornô.” Aqui estamos diante de um país inteiro dançando ao grito de “ganhamos” em meio a uma das piores crises socioeconômicas dos últimos tempos. Também vale citar um diálogo imperdível entre o humorista argentino Sebastián Wainraich e um sujeito avesso ao futebol que, justamente, questionava a racionalidade desse “nós ganhamos”. Aconteceu em outra Copa, em outra época, mas continua valendo. Por que as pessoas se identificam com uma vitória que não tem nada a ver com elas? “Acho uma tremenda besteira assistir partida de futebol. O próprio fato de existirem dois grupos fanatizados pelo confronto. O que eles comemoram? Não é ‘nós ganhamos’; você não ganhou nada”, diz o interlocutor de Wainraich, “Mas a Wanda Nara,[1] que tem uma bolsa Louis Vuitton, ganhou, sim.” Wainraich reconhece com franqueza a irracionalidade de ser “torcedor”. “Vamos por partes: é ilógico, é como o amor, não sei por que eu quero que certo time ganhe de outro, mas é o que acontece comigo. Quanto a essa história de ‘não ganhei nada’, você está redondamente enganado, e eu sinto muito que você pense que ganhar ou perder só passa pelo material… Reconheço que o material é muito importante, mas, se meu time ganha, eu fico feliz. É forte. E não são muitas coisas que me deixam feliz.”
Existe o bem-estar imaterial. Existe um bem não quantificável que vale muito. É por isso que foram criados os índices de felicidade para classificar as sociedades. É por isso que as universidades incluem o ranking de satisfação emocional dos estudantes na promoção de sua imagem. É por isso que, cada vez mais, as empresas estão procurando formas de mitigar a ansiedade de seus funcionários, com massagens no escritório ou pufes coloridos em áreas de relaxamento. “Estar bem” é um estado real, emoções e sentimentos são reais. Contentment é uma medida válida. E o futebol é uma grande ferramenta, o veículo por excelência para canalizar tanto frustrações como alegrias. Como já disse Jorge Sampaoli, o técnico à frente do fiasco de 2018 na Rússia: “Sei muito bem que sou um gestor de emoções.”
Diego Pietrafesa, do jornal cooperativo Tiempo Argentino, detalhou esses festejos populares, jogo a jogo, numa crônica intitulada Por Quién Jugamos: “As pessoas estão felizes, os vizinhos se reúnem e se cumprimentam com outra cara, mais bandeirinhas celestes e brancas são vendidas na feira. Por um momento, a vida é o que deveria ser para todos, e não só para quem tem dinheiro.”
Antes da Copa, meu irmão e uns amigos dele fizeram uma pequena pesquisa informal perguntando a várias pessoas escolhidas ao acaso nas ruas (garçons, frentistas…) o que elas preferiam: ganhar a Copa ou que a economia do país melhorasse. Parte das respostas delata uma lógica brilhante: “Quanto pode durar a melhora da economia? Já a Copa é para sempre…”
Quando seu time é seu país, a irracionalidade do amor se mistura com nacionalismos, nacionalidades e patriotismos. Mas afinal, o que é ser argentino? Recuo algumas copas até aquela em que o grande contista e editor independente Hernán Casciari revelou como ele explicava isso à filha, nascida na Catalunha: “Ser argentino é pôr doce de leite em tudo que é frio, pôr queijo ralado em tudo que é quente, pôr limão em tudo que é frito e fazer cara de nojo para tudo que é cozido.”
Será que a nação é um punhado de costumes, uma tradição culinária? Certamente não se trata de um alinhamento político ou ideológico, porque nossas sociedades estão mais divididas do que nunca. Na Argentina, chamamos de grieta [rachadura, fosso] esse espaço impossível de transpor, esse abismo entre os dois lados das batalhas culturais que vão ganhando terreno. Talvez por isso as imagens das comemorações sejam muitas vezes acompanhadas de alguma observação melancólica, na linha de “como nosso país é lindo sem grieta…”.
Durante o campeonato, mulheres intelectuais de meia-idade confessaram: “Descobri que sou muito competitiva e muito nacionalista.” Conheci uma mulher de 23 anos que tatuou na perna uma ilustração de Diego Maradona entregando a bola a Lionel Messi. Um desenho detalhado que ocupa toda a panturrilha. “Foi minha mãe que fez”, ela me explica. Pergunto se as duas são muito ligadas em futebol, e ela me diz que não, mas que esta Copa a pegou de jeito, por causa das boas vibrações que criou. “Estávamos num momento de muita briga, e de repente veio essa onda de felicidade.” No muro de um grande cemitério, algum pândego pendurou uma faixa com a frase: “Vocês não sabem o que perderam.”
Muito humor e bom humor. Alegria. Harmonia. “É a construção da bandeira a partir de outro lugar”; alguns fazem análises sociológicas, enquanto outros postam uma imagem de uma enorme bandeira dobrada que parece uma vagina, e pelo orifício aparece um pequeno Messi com o 10 bem claro na camiseta. “Aqui na Avenida General Paz encontrei a pátria dando à luz uma lenda.”
Entrevistei Messi em 2009, para um livro da Unicef sobre a infância de grandes craques. Naquela época, os poucos jornalistas que o entrevistavam comentavam sua relutância em falar. “Ele é supertímido”, diziam seus companheiros do Barcelona. O próprio Messi disse que não precisava de palavras, que ele falava com os pés ao entrar no campo. Meu encontro com ele foi agradável, mas parecia que eu estava conversando com uma criança. Hiperliteral, às vezes parecia não entender alguma palavra. Disse que odiava perder, em tudo, e que ficava com tanta raiva quando não ganhava que tinha a impressão de que seus irmãos mais velhos o deixavam ganhar só para evitar seu berreiro. Perguntei sobre seus ídolos do futebol, e ele respondeu: “Pra ser sincero, nunca vejo futebol”. Depois de muita insistência, ele finalmente reconheceu que gostava de ver Pablo Aimar jogar no River Plate.
Apesar das críticas à sua falta de domínio verbal, entendi a essência inefável da sua arte. Lembro bem de uma imagem de uma final da Liga dos Campeões, Barcelona contra Manchester United. Messi, parecendo um personagem de Mafalda, a camiseta larga, os ombros caídos, enredado entre os corpos de três enormes jogadores ingleses que tentam cercá-lo. Mas – e aqui cito a mim mesma nessa descrição porque me custou muito chegar a ela – Messi, “uma espécie de homem-bola, como uma larva engendrada nas entranhas daquela massa inglesa, sai inteiro, lagarta feita borboleta, em moto-perpétuo; seus braços estendidos, seus pés no encontro perene com a bola. É tudo uma coisa só, uma curva, um movimento”. Nossa profissão dá extremo valor ao dixit dos astros, mas devemos reconhecer que pedir que eles nos expliquem como fazem aquilo que fazem é pedir muito. “Eu jogo como jogo. Sei lá. Como eu gosto. Como sai. Na verdade, não penso muito nisso”, ele me disse naquela ocasião. Messi conservou seu sotaque e seus costumes de um natural de Rosário; açúcar no mate, loucura por bife à milanesa. Conversamos sobre as dificuldades de adaptação a um novo país: “Quando cheguei aqui não tinha nada do que eu tinha lá”.
Há um orgulho inexplicável em ser natural do mesmo país que um herói – um acidente geográfico que nos valida aos olhos do mundo. No meu caso, a coincidência de compartilhar o mesmo chão com Diego Armando Maradona sempre despertou admiração e respeito, numa espécie de rima espontânea e universal. Você diz “Argentina”, e a resposta imediata é “Maradona”. Compatriotas receberam refeições gratuitas em restaurantes remotos; correspondentes de guerra contam que conseguiram atravessar fronteiras em zonas de conflito só por serem argentinos. Esquerda e direita, miseráveis e magnatas, executivos, xeiques árabes, intelectuais africanos e toda a Índia, Bangladesh e Nepal souberam transmitir sua adoração pelo 10 mais emblemático e controverso da nossa história.
Lionel Messi também veio do mesmo solo. Ele poderia ter jogado pela Espanha, pois era muito novo quando se mudou para Barcelona para receber um tratamento médico caro que o Newell’s Old Boys, de Rosário, não estava disposto a custear. É quase um espanhol. Isso foi muito repetido na Copa de 2010, quando a campeã Espanha contava com um grande número de companheiros de Messi, e o jovem Lionel terminou seu segundo Mundial desiludido, derrotado por uma jovem e diversa Alemanha, ainda nas quartas de final. Na Argentina, foi recriminado por manifestar seu exílio no campo de jogo internacional. Dizia-se que fazer tanto pelo Barcelona e tão pouco pela seleção nacional era coisa de “traidor da pátria”. E que ele não cantava o hino.
Sua estreia na Copa do Mundo tinha sido em 2006, pela mão de José Pékerman, o verdadeiro arquiteto da revolução do futebol argentino. Pékerman chegou à Associação Argentina de Futebol (afa) com um projeto para trabalhar as seleções juvenis que incluía nutricionistas, psicólogos e especialistas em educação. Seu objetivo era treinar homens, não jogadores. Com muita ênfase no fair play e no jogo bonito, muita atenção nos valores humanos e na inteligência emocional, ganhou os torneios internacionais mais cobiçados de todas as categorias de base. Ferrenho opositor do que ele denominava “ditaduras resultadistas”, Pékerman, dizem, uma vez deixou Pablo Aimar no banco durante uma final juvenil só para ele aprender que “o banco também faz parte da equipe”.
Pablito Aimar foi um daqueles jogadores criativos que deleitam até os torcedores adversários. Um pensador que entendia o jogo e o honrava. Se bem que no campo a gente não pensa, dizia Aimar, mas toma decisões. Chegou a ser identificado por Alex Ferguson como “o único jogador que eu temo” e teve momentos de brilhantismo arrasador quando o Valencia venceu o Liverpool numa Liga dos Campeões em que todas as bolas passavam por ele, enquanto Steven Gerrard corria desesperado de um lado para o outro, “como uma galinha sem cabeça”, conforme a expressão inglesa.
Aimar foi companheiro de Messi na Copa de 2006. A mesma em que Pékerman acabou rompendo com a Argentina, durante a coletiva logo após o jogo em que a seleção perdeu para a Alemanha, em Berlim. Eu estava lá, vi a cara amarrada de um jovem Lionel sentado no banco. O futebol é uma dessas encenações em que há tantas interpretações quanto olhos assistindo, mas aquele jogo e aquela ausência de Messi em campo foi uma das raras ocasiões em que todos os milhões de espectadores do espetáculo concordaram. “Como é que ele não pôs o Messi?!” A fúria foi universal, de Jorge Messi, pai de Lio, ao alto-comando da Fifa. Do torcedor mais fervoroso da periferia de Buenos Aires aos jogadores de elite da Europa. Messi, visivelmente irritado, assistiu à queda do sonho argentino sentado à beira do campo.
Talvez ainda tivéssemos algo a aprender com Pékerman. Na Copa de 2014, no Brasil, ficamos sabendo que Messi costumava vomitar antes de jogos decisivos. Medo cênico com sintomas físicos. O mesmo que vimos acontecer com Ronaldo Fenômeno, na França em 1998, quando ignoraram sua convulsão, pagando o alto custo de uma derrota. Não sabemos que características Pékerman identificou no taciturno Lionel – um paralelo interessante é a decisão de César Luis Menotti de deixar Diego Maradona, então com 17 anos, fora da seleção de 1978, talvez também por identificar uma imaturidade que seria superada na Copa seguinte, a juvenil de 1979. Nunca saberemos. Assim como tampouco sabemos o que poderia ter acontecido se o técnico argentino tivesse posto em campo aquela promessa em que o mercado apostava todas as fichas.
O fato é que Pékerman se demitiu logo em seguida, e Messi iniciava uma longa jornada com a seleção argentina que traria muitas finais e poucas taças. Uma jornada dolorosa e sofrida. Mas, como diz o próprio Messi, “soubemos sofrer”.
“O futebol é feito com a dança desta terra: é malambo e zamba, tango e pericón, chamamé e milonga. É daí que ele tirou sua ginga, sua elasticidade, seu preciosismo”, escreveu Juan Mora y Araujo, meu avô paterno, num volume intitulado Fútbol Argentino, há mais de setenta anos. “Sabe o que acontece? No futebol criollo está toda a nossa terra. Olhe para ele, de dentro, e você vai ver. É feito de tudo que é nosso. De pampa e céu, de montanha e floresta, de rios calmos e torrentes que arrastam, de música de acordeão sobre o barco que se embala junto ao cais. Das regiões montanhosas veio o que ele tem de áspero e duro; das planícies, sua coragem serena e amplidão tranquila; das florestas, sua sagacidade; e na cidade ele juntou tudo, temperou com malícia e se tornou pícaro… e às vezes maldoso. Mas só às vezes. Porque no futebol, como na vida, você nem sempre pode ser bom. De vez em quando tem que abrir a porta para o selvagem.”
Meu pai levou um tombo e bateu a cabeça, bem no dia em que eu estava em Sevilha entrevistando Jorge Sampaoli. Falávamos justamente sobre essa ideia da identidade nacional, sobre a Argentina de Messi e sobre a dificuldade de fazer uma pátria a partir do exílio. Sampaoli então me perguntou: “O que é o exílio?” Quando eu soube que meu pai nunca mais despertaria da sua queda, ainda no aeroporto, respondi àquele ser que eu mal conhecera numa entrevista sobre futebol: “É isso: estar longe quando as coisas importantes acontecem.”
Um ano depois, publiquei um escrito lembrando a relação com meu pai por meio do futebol e da poesia. Sua cara de felicidade no dia em que a Argentina ganhou a Copa de 1978. Quase vinte anos depois, conheci Graciela Daleo, que fora sequestrada e detida clandestinamente, durante o campeonato mundial, num centro de tortura a poucos metros do Estádio Monumental, e foi levada para “comemorar” a vitória na mesma avenida em que meu pai e eu cantávamos alegremente. Meu pai me incentivou a publicar e difundir a entrevista que fiz com Daleo, na qual descobrimos a coincidência de duas décadas antes. Ela me disse que pôs a cabeça para fora do teto do carro militar conversível e, olhando para o mar de gente em festa que se estendia por todos os horizontes, pensou: “Se eu gritar ‘socorro, sou uma desaparecida!’… quem é que vai me ouvir?”
Agora eu sempre penso nas atrocidades que podem se ocultar sob a superfície do papel e da propaganda durante as comemorações em massa do futebol. Em meio ao canto sagrado, a mais repugnante perversão.
O mito do futebol nivelador, unificador, igualador e até restaurador é isso mesmo, um mito. Assim como a própria ideia de que ele poderia ser tudo isso. Uma partida de futebol não altera a realidade. Nenhuma realidade. É puro escapismo. Como dizia o ex-técnico Menotti, seu valor consiste na sua relação “com o tempo de lazer do homem”. A escritora colombiana Beatriz Vélez vai além: “As cerimônias no estádio, brilhando com sua própria luz, refletem o consenso em torno da importância do jogo na vida humana.”
Esse direito ao prazer é comum a todos nós, seres humanos. Diversas culturas ao longo de diversas épocas souberam defendê-lo com diferentes formas de expressão. Na Argentina, o futebol ocupou o lugar de honra de ser considerado o mais nobre veículo de expressão cultural e fortalecimento da identidade. Há quem argumente que isso tem a ver com a população majoritariamente imigrante, que não tem muito em comum, mas encontra uma força unificadora no amor pela camiseta. Muitos destacam que, para ser jogado, o futebol não exige nada além de um espaço relativamente aberto e uma esfera de algum material (a forma geométrica mais perfeita). “Você nem precisa de uma bola”, costuma-se dizer, “basta uma laranja, uma trouxinha de trapos, no caso de Maradona, uma tampinha…”
Isso é verdade em todos os cantos do planeta Terra. Não tem força explicativa suficiente para cravar conclusões sobre a relação do povo argentino com o futebol. O jornalista Andrés Burgo ressalta que, no território argentino, os jogos internacionais da seleção começaram antes da existência dos grandes clubes profissionais; talvez por isso a relação do torcedor com a camiseta nacional seja tão intensa. O fato é que, desde que os primeiros ferroviários ingleses começaram a difundir o jogo nos lugares aonde o trem chegava (por isso, por causa das estações, tantos clubes acabaram com um “Central” no nome), há uma paixão e um fervor que os descendentes de todas as ondas migratórias aqui nascidos têm sabido saborear até suas últimas consequências.
É uma coisa que fascina o resto do mundo. Especialmente quando essa paixão se torna violenta e são organizados “combates”, ou se acendem fogueiras nas barreiras do estádio, ou os cantos e bumbos retumbam nas arquibancadas fazendo tremer as entranhas do próprio concreto. Jornalistas de todos os cantos vêm “cobrir” o fenômeno – o fiasco mais recente foi, talvez, a final da Libertadores de 2018, entre Boca Juniors e River Plate. Pela primeira vez, dois times da mesma cidade disputariam a final. O então presidente Mauricio Macri, ele mesmo um homem ligado ao meio futebolístico, que chegou ao poder depois de presidir o Boca Juniors, resolveu mostrar ao mundo a celebração do futebol argentino e permitiu que os torcedores visitantes também entrassem no estádio pela primeira vez em mais de uma década. Por causa da violência incontrolável entre as “barras bravas”,[2] há muito se adotara o sistema de torcida única. Uma operação policial desastrosa impediu que a partida começasse. A maioria dos torcedores, tranquilos e na esperança de passar uma tarde agradável, ficou presa dentro do estádio por horas a fio. Concluiu-se que a cidade não estava à altura da tarefa de realizar um evento esportivo de tal magnitude, e a final foi levada para o Estádio Santiago Bernabéu, em Madri. Menos de uma semana depois, em Buenos Aires, realizou-se o encontro do g20. O Centro da cidade foi então cercado com os reforçados tapumes que tanta falta haviam feito no estádio; os moradores foram aconselhados a deixar a cidade por alguns dias e a presença policial em cada esquina foi impecavelmente eficiente. Gianni Infantino, presidente da Fifa, foi o convidado de honra do g20 e saiu nas fotos presenteando os principais líderes mundiais com camisetas de futebol.
Persiste, sobretudo na Europa, a ideia de que nossos países em desenvolvimento do chamado Sul Global não cumprem os requisitos necessários para sediar grandes eventos esportivos. É difícil digerir essa posição no contexto da mais recente final da Liga dos Campeões, transferida de São Petersburgo para Paris, porque a Ucrânia estava sob bombardeio russo. Em Paris, a polícia encharcou os participantes de gás lacrimogêneo; milhares de pessoas não conseguiram entrar no estádio por causa de aglomerações e problemas nos controles de entrada. Vimos crianças chorando inconsoláveis dizendo que nunca mais queriam voltar a um estádio. Mesmo assim, a mídia ocidental continua insistindo em que o Primeiro Mundo é o palco mais adequado para esse tipo de espetáculo.
A escolha do Catar como país-sede da última Copa foi talvez o momento-chave em que a velha balança de poder da Fifa começou a se desmantelar. Uma votação conjunta para definir as sedes das copas de 2018 e 2022 deu vitória à Rússia e ao Catar em detrimento da Inglaterra e dos Estados Unidos. Os ingleses tiveram David Beckham e o príncipe William como embaixadores de sua campanha, e esses belos espécimes jovens, altos e loiros eram fotografados ao lado de representantes de federações africanas e caribenhas. “Não podemos permitir que esses octogenários terceiro-mundistas continuem mandando no ‘nosso jogo’”, proclamava com fúria a imprensa do mundo livre. Não tardaram as denúncias de suborno, corrupção e compra de votos. O fbi foi acionado, e as cabeças começaram a rolar. Conta-se que Julio Grondona, tesoureiro da Fifa e autoproclamado “vice-presidente do mundo”, disse o seguinte, quando o resultado da votação veio a público: “Vamos ser todos presos.” Ele foi salvo pela morte. Vários dos seus colegas foram condenados num tribunal dos Estados Unidos.
Foi assim que Gianni Infantino, então secretário geral da Uefa, assumiu o poder absoluto dentro da Fifa. Seus antecessores estavam descontentes com a votação, mas Infantino se abraçou a Vladimir Putin, a quem chamou de “amigo do futebol”. Depois de uma Copa em que dez das dezesseis seleções classificadas pertenciam à Uefa e os quatro semifinalistas foram equipes europeias que jogaram diante de um público presencial notavelmente masculino e branco, Infantino se instalou num luxuoso apartamento em Doha para dar início à Copa de 2022. Seria a primeira em muitas coisas: por causa do calor, seria disputada no final do ano; também seria realizada numa nação de língua árabe, de maioria muçulmana. “Aspirava a significar algo mais”, escreveu o historiador de futebol David Goldblatt, no New York Times, “com seu calendário, sua cronometragem, seus torcedores visitantes e suas narrativas, o torneio ofereceu uma visão do mundo em que o Sul Global, com sua miríade de complexidades, está mais presente e mais poderoso”.
Rússia 2018 foi desastrosa para a Argentina. As rupturas dentro da afa, ainda mergulhada no vazio deixado pela morte de Grondona, e vacilante sob uma nova direção, integravam uma conspiração de fatores que se refletiu dentro do campo. Um Maradona perturbado, gesticulando obscenidades na Tribuna de Honra, era a imagem mais literal do fiasco. O projeto fracassou. Vazaram e viralizaram mensagens privadas do WhatsApp, os jogadores foram insultados e ameaçados, os jornalistas imersos no clima de horror disparavam acusações indignadas, e Messi não falava. Ninguém sabia o que estava acontecendo com ele, que permaneceu de cabeça baixa, olhando para o celular. Sampaoli foi rotulado de charlatão. A França eliminou a seleção a caminho de se tornar a digna campeã do mundo.
Antes, em 2014, a Argentina teve um bom desempenho. Chegou à final. Jogou com tudo. O time literalmente deu sangue, suor e lágrimas em cada uma das sete partidas que disputou. Por algum tempo, o povo adorou. Jogar toda a Copa com a esperança viva é realmente o máximo a que se pode aspirar. Mas a paixão durou pouco, e logo recomeçaram as recriminações. Depois, a seleção de Messi ainda conseguiu chegar a mais duas finais importantes, ambas da Copa América, mas, depois de perder um pênalti em 2016, Messi teve um colapso emocional total e desistiu da Argentina ao deixar o campo.
Naquela altura, a afa estava “sob intervenção” de uma comissão híbrida criada por Macri e Infantino. Como boa parte da receita televisiva gerada por um contrato com o governo de Cristina Kirchner estava congelada, Macri procurava compradores midiáticos para voltar a “privatizar” o futebol. Comenta-se que Messi e Sergio “Kun” Agüero teriam pagado do próprio bolso os salários dos roupeiros e outros funcionários da afa, mas isso não foi confirmado. Os detalhes logísticos dos traslados eram tão desorganizados que, quando Messi discursa para seus companheiros na final da Copa América de 2021, faz questão de lembrar os quarenta dias que passaram “sem reclamar de hotel”. A importância que ele dá a esse detalhe me chama muito a atenção.
Conseguir a volta de Messi à seleção virou a prioridade número 1. Procuravam técnicos que soubessem como tirar o melhor dele. Todos conversaram com Pep Guardiola, o catalão que soube montar um time dentro do qual Messi funcionou. Pep recomendou que falassem com o craque só sobre futebol e só o estritamente necessário.
Agora penso que muitos anos foram perdidos trabalhando sob o errôneo pressuposto de que se tratava simplesmente de levar a bola para Messi, esperando que, a partir daí, ele resolvesse tudo. Isso funcionava com Maradona, que se nutria de uma piada interna e de um conflito internalizado, e sozinho contra o mundo podia arrancar com fúria e beleza. Messi é evolutivamente mais avançado; como toda espécie bem-sucedida, ele se beneficia mais da cooperação que do conflito. Precisa de uma equipe ao seu redor, um maquinário em perfeito funcionamento. Não precisa receber a bola; precisa saber onde os outros vão estar. Assim, seu cérebro pode computar o espaço, calcular as distâncias, ler sem olhar. Na Copa do Catar, isso ficou claríssimo num punhado de jogadas suficientes. Como exemplo ilustrativo, seu passe para Nahuel Molina no jogo contra a Holanda, no qual é impossível que Messi possa vê-lo, pois seus olhos estão na bola e nos jogadores adversários que o cercam. Mas ele não precisa vê-lo, porque sabe onde Molina vai estar a partir do momento em que o próprio Molina lhe passa a bola e indica para onde está indo.
São esses os cálculos que Messi faz com seu “corpo que pensa”, como diz a cineasta Lucrecia Martel, que, com seu olhar cinematográfico, comenta uma tomada panorâmica: “Com a lente de longa distância você vê a silhueta dele se movendo enquanto todo o resto parece parado, como as ondas do mar vistas de um avião, não se distingue nenhum movimento além de Messi levando a bola para o gol”; e a contrasta com um plano próximo: “Você dá zoom e literalmente vê a velocidade, a tomada de decisão, um corpo que pensa.” Como disse Pep, “99% das decisões que Lio toma são certas.”
Por alguma razão, no Barcelona, ele encontrou esse equilíbrio entre sua habilidade superdotada, ou savant, e o desempenho dos companheiros. E na seleção argentina, apesar das finais, a vitória lhe escapava.
Como diz o ditado, há males que vêm para bem, e, se algo de bom ficou da depuração dos sentidos provocada pelo monstro enfim manifesto na Copa da Rússia, foi a presença de Lionel Scaloni na comissão técnica da Argentina. Scaloni, que na sua juventude de jogador também foi tocado pela sábia orientação de Pékerman, era um dos auxiliares de campo de Sampaoli. Apesar de sua pouca experiência como treinador, tinha ótimo relacionamento com os jogadores. Numa das versões desse relato, afirma-se que César Luis Menotti, já nomeado diretor-geral de seleções na afa, foi quem sugeriu que Scaloni assumisse o comando em alguns jogos da seleção, que já constavam do calendário, mas eram de pouca importância competitiva.
Scaloni conta que ligou imediatamente para seu velho amigo Pablo Aimar, que, juntos, convocaram Walter Samuel (um dos mais inteligentes defensores, capaz de um jogo altamente criativo, também formado na era Pékerman). Como uma equipe, eles puseram mãos à obra para convocar um grupo de jogadores jovens, habilidosos e ávidos, sem Messi. Com Lio, fizeram uma videochamada e anunciaram que o esperavam de braços abertos. Mas começaram organizando um grupo volátil, taticamente hiperflexível, com revezamentos que garantiam a cobertura de todas as funções, não importando quem estivesse em campo, e com pleno entendimento entre os jogadores. Quando Messi se uniu ao grupo, já existia essa base bem azeitada, que, agora podemos afirmar categoricamente, era a fórmula tão necessária.
Ganhar a Copa América no Brasil em 2021 fortaleceu a confiança do elenco e a fé do povo nele. Messi já não precisava provar nada. Com a argentinidade confirmada, suas partidas seguintes na Argentina foram festas de bom futebol. Ele aparecia sorridente, fruindo do seu jogo, e no campo se criou um clima de amor e alegria que todos os que estávamos lá concordamos que não se sentia há muitos anos. As gerações mais jovens, sem a carga e o fantasma de Maradona, se apaixonaram definitivamente por esse grupo. Nós, os mais velhos, conseguimos nos livrar da bagagem emocional que nos sabotava e aceitar novas alegrias.
Talvez a morte de Maradona tenha dado a Messi o respiro necessário. Também deixar o Barcelona foi uma espécie de libertação. E, numa imagem muito forte, criada pelo jornalista Daniel Arcucci, a pesada mochila de Messi ficou mais leve quando ele colocou dentro o título da Copa América. O fato é que o camisa 10 foi se ajeitando, adquirindo confiança em ser ele mesmo, reforçada ao longo dos sete jogos na Copa do Catar. Quanto mais o comparavam a Maradona, ou evocavam Diego através dele, com mais força se impunha a própria identidade de Messi.
A trajetória não foi fácil. Depois de um início marcado pela soberba, excessivamente confiante, uma Arábia Saudita retrancada jogou um balde de água fria nas esperanças nacionais e deixou a Argentina em choque ao derrotá-la. A “goleada fake” sobre os sauditas foi seguida por uma partida contra o México, que terminou, como o escritor Juan José Becerra apontou na ocasião, com “as imagens de Scaloni e Pablo Aimar chorando no banco de reservas como se estivessem assistindo ao final do E.T. […] subindo e descendo com a gente nas mesmas ondas de emoção coletiva”.
E essa sintonia entre as emoções da torcida e da seleção continuou jogo após jogo ao longo de toda a Copa. Aimar parecia se afogar em soluços (“Me veio tudo”, seu pai conta que ouviu do filho, que se referia à morte recente da mãe, mas também aos anos de esforço que esse projeto custou). Mas logo Scaloni avisa, na coletiva, que devíamos baixar a bola, não nos esquecermos de que era só um jogo. A isso se seguiu uma partida tranquila contra a Polônia, que valeu a passagem para as oitavas apesar do tropeço inicial, e uma tensa queda de braço com a Austrália, que repetiu a estratégia da Arábia Saudita e voltou a nos mergulhar no medo. O medo de ficar fora até o último minuto, numa Copa em que as partidas se prolongaram muito além dos 45 do segundo tempo para atender às novas tecnologias e às casas de apostas.
O jogo contra a Holanda foi épico, quase mais épico que a final de todas as finais. O técnico mais jovem da Copa contra o técnico mais velho. Louis Van Gaal e seus titãs provocando os argentinos, os argentinos reagindo com agressões infantis. Messi comemorando um gol com as mãos nos ouvidos, num gesto de Topo Gigio, evocando Juan Román Riquelme, que inaugurou essa tradição dedicada àqueles que o criticaram (Mauricio Macri, principalmente) como quem diz: “Não tô te escutando. Que foi que você disse mesmo? Não tô te escutando.” Mas Riquelme também foi um mestre da bola lenta, dos ritmos cadenciados, da inteligência de um tecelão de sonhos que trabalha sem pressa, e no Barcelona topou com um Van Gaal estrategista e tático que lhe disse: “Não quero você no meu time.” Os argentinos chutando bolas contra o banco holandês. Os holandeses incitando-os ao fracasso na hora de bater os pênaltis. Uma agonia desencadeada por um gol planejado e executado com perfeição no minuto 100. Já estamos entrando num tempo que não existe; o centésimo minuto de uma partida de futebol (não na prorrogação, mas ainda no segundo tempo do jogo normal). O sofrimento argentino se espalha dos jogadores sobre a marca do pênalti às arquibancadas do Catar, que vão se enchendo de torcedores argentinos de todas as nacionalidades não europeias do planeta, até chegar às praças e casas da Argentina, onde todos seguram a cabeça, põem a mão no coração, se levantam e dão as mãos, numa longuíssima corrente de torcida rodeando todo o planeta.
A Argentina se classifica para as semifinais, e o alívio é tamanho que até o próprio Messi perde a típica compostura; gesticula desenfreado contra Van Gaal, reclama do árbitro (não é um juiz qualquer, é um árbitro espanhol com um histórico de decisões polêmicas entre o Real Madrid e o Barcelona) e, finalmente, num repente totalmente atípico, interrompe uma câmera ao vivo na zona mista para interpelar o “número 19” da Holanda. ¿Qué mirá, bobo? ¡Andá pa’allá! (Tá olhando o quê, bobão? Sai pra lá!).
A imprensa mundial interpretou esse desabafo como se fosse o espírito de Maradona manifestando-se através de Messi, mas nada mais longe de uma “maradonada” do que essa frase pronunciada por Lionel. Bobo é uma palavra inocente, muito da sua infância em Rosário, como observou o cineasta Andrés Di Tella, que também detectou aí uma citação direta de Roberto Arlt: Rajá, turrito, rajá, sendo que esse turro, na época, significava algo como “otário”. Logo começaram a circular nas redes mil criações em cima da frase, como slogan em camisetas, ímãs, cartões, tatuagens dos jovens. Um escritor fez versos referindo-se a quemirá e andá pa’allá como duas palavras: Hay dos palabras tremendas/Que se han echado a volar/Y han dado la vuelta al mundo/En segundos nada más (Há duas palavras tremendas/ Que saíram a voar/E deram a volta ao mundo/Em segundos, nada mais). Nasceu um novo dito.
A engenhosidade linguística de Maradona sempre esteve à altura do seu talento futebolístico. Talvez ele inteiro fosse genial, tão genial quanto diabólico. Suas observações eram sagazes, cheias de humor, ele inventava expressões que se tornaram parte da linguagem cotidiana de todos os argentinos. Até sua infame e célebre “mão de Deus”, para definir o primeiro gol contra a Inglaterra em 1986, foi uma resposta admirável por ser rápida e espirituosa. Maradona, que nesse jogo brindou o mundo com o futebol mais completo possível, com uma porção de minutos nos quais expôs tudo o que o futebol pode ser, primeiro com trapaça, malandragem, ousadia e irreverência, e depois, como se fizesse parte da mesma jogada, com beleza, astúcia, ginga e excelência esportiva. A bela e a fera. O bem e o mal. Naqueles minutos, Maradona começaria a ser elevado a um status praticamente de divindade, venerado em todos os continentes, e, a partir daí, conquistaria um segundo triunfo mundial para a Argentina. Desta vez, política e socialmente menos tortuoso do que o primeiro, em 1978. Mas também conturbado, por causa do gol de mão.
Maradona é como uma imensa sombra que pesa sobre os ombros de Messi, como uma cobrança que ele recebeu praticamente desde que começou a brilhar com luz própria. Seu “dever” era dar à Argentina o que Diego lhe dera. Essa cobrança que parecia pesar sobre seus ombrinhos caídos começou a se dissipar recentemente, até subir e se esfumar talvez para sempre a partir daquele ¿Qué mirá, bobo. Andá pa’allá. Foi como se Messi marcasse seu território, impondo-se como indivíduo. Ele mencionava Maradona com frequência, mas como que se distanciando. Ao lado, mas separado. “Diego está olhando por nós”, “Diego vai nos ajudar” – um modo de dar significado ao outro. Ao mencioná-lo, tornava-o alheio.
Esse novo Messi, sem timidez ao se expressar com suas próprias palavras, sem pudor em se mostrar como é, capaz apenas de pensar em futebol, cresceu diante dos nossos olhos no Catar. No jogo contra a Croácia, a semifinal, ele foi quase perfeito. Para um time que vinha melhorando passo a passo, superando as debilidades mais evidentes da partida anterior, a final representava um único grande perigo: voltar àquela soberba da primeira partida.
E foi assim que chegamos à final das finais. Messi sereno. Acompanhado de sua equipe no campo de jogo, liderada, por sua vez, pelos técnicos no banco. Um grupo humano que, ao longo das semanas, foi conquistando corações; no mundo e também na Argentina. Os jovens jogadores, que eram uma novidade no início do torneio (Julián Álvarez, Enzo Fernández, Alexis Mac Allister) já são nomes conhecidos em todo o planeta. Eles estão “na idade de querer devorar o mundo”, disse Scaloni. E eles sabem como construir parcerias com Messi, conseguem o melhor dele e o melhor deles próprios. Esses jovens velozes são complementados por um Messi que caminha (Menotti dizia que, quando um jogador caminha, talvez esteja pensando), mas domina. Seus velhos compadres, como Angelito Di María, compareceram com toda a genialidade possível, quase a ponto de parecer acidental. Começam mesmo geniais, num primeiro tempo com que nenhum ser humano sobre a Terra deixou de se deliciar. E, de repente, assim como aconteceu contra a Holanda, o técnico da França faz alterações inesperadas, provocadas pela estratégia argentina, mas que acabam sendo respostas precisas. De 2 a 0, o placar vai para 2 a 2. A Argentina faz 3 a 2, e respira. A França responde com 3 a 3, e o povo todo volta a segurar o fôlego. No minuto 122’43”, a França, liderada por um Kylian Mbappé que ainda vai nos encantar por muitos anos, quase faz mais um gol. O goleiro Emiliano Martínez, “El Dibu”, “estende uma perna salvadora”, como diz o escritor e jornalista peruano Jaime Bayly, de Miami, e se estende também o acréscimo e uma definição por pênaltis que nos levará, em breve, àquela bicicleta com câmera percorrendo o silêncio de Buenos Aires sob o Sol da meia-tarde.
[1] Wanda Nara é uma modelo argentina e agente de futebol.
[2] A expressão é usada na Argentina para designar as torcidas organizadas que, como seu nome indica, são quadrilhas notórias pela violência, com inúmeros casos de homicídios, e também pelo envolvimento em outras atividades criminosas, como venda de armas e drogas.