memória
Afonso Reis Cabral Mar 2023 17h56
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Entre 3 e 11 de setembro do ano passado, o escritor português Afonso Reis Cabral esteve no Brasil como convidado da segunda residência literária promovida pelo Festival Literário Internacional de Poços de Caldas (Flipoços) e pelo Centro Cultural Português (CCP) do Camões – Instituto da Cooperação e da Língua Portuguesa. Dessa experiência na cidade turística mineira deverá resultar um romance ou um conto. Antes disso, Cabral escreveu o relato pessoal que a piauí publica a seguir e que se passa, em parte, no dia da comemoração dos 200 anos da Independência do Brasil.
Afonso Reis Cabral tem 33 anos e publicou quatro livros, dois deles vencedores de relevantes prêmios literários em Portugal. Seu primeiro romance, O Meu Irmão, lançado em 2014, recebeu o Prêmio LeYa (mesma editora que o publicou no Brasil). O segundo, Pão de Açúcar (HarperCollins), de 2018, baseado na história real do assassinato de uma transexual brasileira na cidade do Porto, foi agraciado com o Prêmio Literário José Saramago. Reis Cabral é trineto do escritor Eça de Queiroz, autor de Os Maias.
Ele, escritor, 30 e mais 2 anos, vocabulário pronto, mas não demasiado pronto – falta-lhe wit, e agora não sabe como o dizer em português, prova de pouca sagacidade, seja no português daqui ou dali, do Brasil, aonde chegou há alguns dias –; ele, português, não mais de 1,85 metro, alto o suficiente, mas não alto a valer, ele, para quem caminhar sempre é melhor do que escrever um conto, um texto, uma crónica, está em Poços de Caldas.
Por quê?
Porque o convidaram.
Na casa de banho do quarto de hotel, cujas torneiras soam a metal antigo, não percebe a causa de a água escorrer viscosa. Película de azeite ou óleo, de uma qualquer sujidade? Costumava ser curioso – estar sempre de olho disposto, de boca aberta, ele todo pronto a tragar o mundo –, mas agora, cabrão, sofre de tibieza.
Não sabe de onde veio a ti-bi-e-za. Parece um recuo, soa a apito de carro em marcha-atrás. E é excesso de imaginação igual ao excesso de escrúpulos. É tíbio porque se fez pequeno. E não lhe sobrou a curiosidade para confirmar que a água viscosa vem de uma garganta de terra. Vem inteiríssima da terra, das terranhas, e sai delas quente, viscosante, a graus Celsius de caírem bem no corpo e serem o que se chama, em resumo, águas termais.
Quando lhe dizem que a água do hotel – e do duche também – não passa pelo aquecimento da caldeira ou do gás ou da electricidade, e é água inteiramente dádiva da terra, do antigo vulcão, continua a sofrer de tibieza. Quase não se recrimina pela falta de curiosidade. Mas gosta da água quente a escorrer-lhe películas no corpo.
Seca-se com a toalha, pensa num novo passeio por Poços de Caldas para ouvir as maritacas e os pássaros tão diferentes de Portugal. O Parque José Affonso Junqueira, o Espaço Cultural da Urca, depois a antiga estação ferroviária. Mas não se mexe. Deita-se na cama em misérias de cinema francês. E pensa como se estivesse num texto de Marguerite Duras, o que lhe excita não só a tibieza como lhe dá ares de adolescente. Teoricamente cheio de teen angst, e não sabe por que lhe calhou pensar em termos de angst pop americana.
Acaba por sair, que é melhor do que ficar. Manhã. Festejam-se na cidade os 200 anos da Independência do Brasil, e têm saído à rua as bandeiras nacionais. Pessoas envoltas em bandeiras, carros também. Parece-lhe sobretudo ouvir berros envoltos em bandeiras – e ouve palavras de ordem que são como os SUVs: enormes, inestacionáveis, e de gente a quem falta a medida certa de tibieza.
Nas cercanias dos festejos, lá perto de onde as bandas juvenis batem o tambor e a gente compra carne em espeto pequeno e dança a felicidade simples dos 200 anos, pessoas conduzem carros desmesurados, SUVs, lentamente. Querem medir territórios com a restante população, e parecem agarrados ao volante e à classe média.
Primeiro estacionou um SUV, depois outro. De tarde, já em Poços de Caldas habitam à mostra as grandes viaturas particulares dos bolsonaristas. De novo envoltos na bandeira da ordem e do progresso, que serve de manta para acalmar os cavalos de ferro, para lhes empapar o suor. Um carro conduzido com tamanho propósito tem de suar.
Mas ele, que é escritor, estrangeiro, 32 anos, faz como fez com a água do duche: não compreende a que se deve a erupção das bandeiras.
Segue o dia e vai ouvindo o português de rua, que é uma outra mesma língua. E agora até na sua língua se sente tímido: quando fala não o compreendem, e atrapalha-se a ponto de pedir desculpa. Cê pediu quê? Dsclp. É que as suas desculpas, ao contrário do perdão brasileiro, só têm consoantes para se redimirem.
Começa a juntar-se nele muita matéria para divã de psicanalista, se até julgou ser incompreensão de linguagem – coisa perdida na transladação do Atlântico de lá para o Atlântico de cá – quando a mulher de uma loja de recuerdos (por que raio o diz em espanhol?); quando uma mulher da loja de artesanato lhe perguntou se já o viu na novela. Que quer ela dizer é mistério.
Por mais que caminhe, e que os passos desatem duas ou três atrapalhações, não consegue desfazer-se da grande atrapalhação geral.
Aos 200 anos e 1 dia da Independência do Brasil, levam-no a uma escola. Os alunos vão ouvir pela primeira vez uma outra língua que não a língua que é sua. Um português forasteiro. E já está aflito que não o compreendam, cada vez mais enovelado na preocupação de não o perceberem. Mas nem tem tempo de ensaiar uma abertura decente de vogais porque, de súbito, é atirado entre os alunos para a luta do tíbio com os não tíbios.
Os alunos estão sentados nas cadeiras em volta dele igual a um cerco, a um fim de perseguição. Disseram-lhes que este aqui – ele que não passa do 1,85 metro – é um escritor grande. Ele gostaria de ser um grande escritor, mas não tem estatura, e não sabe o que lhes dizer.
Antes fizeram uma roda de capoeira, ele participou metendo os pés pelas mãos (assim é a capoeira, as mãos confundem-se com os pés), engrandecido e acanhado pelo acolhimento. Aquilo tinha uma espécie de libertação que não era dele.
O que gostava de contar? Com que idade começara? O que era escrever? Estavam sentados vinte alunos, afinal vinte crianças, e tinham perguntas.
Um rapaz de 6, 7 anos apertava e desapertava os atacadores. Ouvia escondendo-se no ténis. Ao cabelo preto faltava-lhe a limpeza de uma água termal. Enquanto remexia no ténis, olhava-o de lado como uma maritaca. Semelhante a esses pássaros, prestes à desordem mesmo na tranquilidade.
Quando acabou de responder, o rapaz pediu-lhe que contasse uma história de quando era pequeno. E só lhe ocorreu, encurralado, a fábula que surgia nos dias de março no livro que a mãe lhe lia em criança.
“Eu conto-te então a história do Príncipe Feliz. Não é minha. É doutro. O príncipe era uma estátua coberta de ouro no meio da cidade. Do alto do pedestal via a vendedora de fósforos, que era uma menina de 8 anos. Via o escritor num quarto frio. Via a mãe de um rapaz doente. Todos muito pobres. Um dia, uma andorinha pousou no ombro do príncipe e ele pediu: ‘Andorinha, pequena andorinha, leva o meu ouro à vendedora de fósforos, leva o meu ouro ao escritor, leva o meu ouro à mãe.’ Ia e vinha a andorinha com lascas de ouro no bico. Por fim, quando todos os pobres da cidade tinham ouro suficiente para sobreviver, a andorinha morreu de exaustão e o príncipe, também morto, transformou-se apenas numa estátua de ferro.”
Depois da história, o rapaz sumiu entre os vinte alunos como se não tivesse ouvido.
Ele e as professoras lanchavam pães de queijo – delícia da cozinha de metal para o prato de plástico –, quando o rapaz saltou lá do molho de crianças.
Bem lhe parecera que era igual às maritacas, pronto à desordem. Chegou ao pé de si e disse-lhe, forçando o olho no olho: “Cadêmoro?” Ele não compreendeu. “Cadêmouro?” Ele não compreendeu. Finalmente o rapaz disse para ser compreendido: “Cadê meu ouro?”
A pergunta não era de pedinte, mas era de quem pedia. Entre os dois agora havia um contrato. Uma palavra dada, uma palavra pedida. Mas ele, que era escritor e nunca estátua talhada a ouro, não soube o que responder, e o rapaz, acanhando-se, sumiu de novo.
De noite não cantam as maritacas. Mas nessa noite, enquanto caminhava pela Praça José Affonso Junqueira, cadê meu ouro ouvia-se na boca dos caminhantes esparsos, dos assaltantes possíveis e até da boca do tenor que cantava na varanda principal do hotel em frente a uma multidão. Afastou-se para as ruas mais comerciais, a essa hora vazias e levemente pousadas de sombras.
Imaginou que o rapaz chegava no ónibus ao Leste da cidade e entrava numa casa de tijolo nu. Estava a mesa posta para o jantar, que seria só o pão de queijo que o rapaz trouxera dos pratos de plástico. A sala – pode ser – fedia. E nas paredes de tijolo não passavam as águas termais.
À volta, as luzinhas das casas improvisadas eram velas tristes incendiando a cidade.
Também imaginou que perto da casa de tijolo nu havia um encontro de ruas (não merece o nome de cruzamento) onde ficava uma estátua de ferro descuidado. Uma estátua a um republicano qualquer. Agora o rapaz aproximar-se-ia da estátua para lhe estender a mão e pedir, se faz favor, estátua, por favor, andorinha, cadê meu ouro? Cadê?
Mas todo o dia, e toda a vida também, no regresso à escola e mais tarde no trabalho, nunca a estátua lhe responderia. E o rapaz seguiria na vida recriminando-o, a ele que o iludira com fábulas, e achando que a literatura é coisa de gente rica e não coisa de gente que sonha.
Regressou ao hotel noite grande. Adormeceu certo de que na sua pele, ao contrário da pele da estátua, não havia ouro para oferecer.
No dia seguinte, visitou a feira do livro no Espaço Cultural da Urca. Debatiam-se coisas importantes, o passado como um país em aproximação. No público havia quem dissesse: “Querido, mas você é colonizador.” Coisas mais importantes eram as mesas dos livros.
Sempre achou ter a mão treinada para o livro certo. Mas no Hemisfério Sul a mão treina-se de outra maneira, porque não encontrava nesta, naquela, na outra prateleira. Via catrefadas de autoajuda, resmas de poesia, alguns centímetros de romance, e só no fim da feira, quando na banca quase só sobravam os livros sobre dinossauros, encontrou Oscar Wilde.
Tímido, pediu que enviassem o livro à escola e escreveu na primeira página: “Aqui está o Príncipe Feliz. É a ele que deves pedir o teu ouro.”
Depois de se sentar no jardim, soltaram-se as maritacas. Sabia bem, a água fria que a fonte largava no ar. Trinta e poucos anos, escritor ou lá o que é, antes curioso e pronto de espírito, agora afligido pela tibieza, como se esta o tivesse contagiado como doença a partir de uma ferida no calcanhar, ia apreciando o canto dos pássaros e o libertar das águas.
Estava prestes a levantar-se, animado por uma leveza que não o perturbava há já quanto tempo – a alegria de ter actuado –, quando teve a certeza de que afinal o rapaz não lhe perguntara cadê meu ouro. A certeza de que era culpado por não compreender o que ele lhe dissera. E ocorreu-lhe (fuck) que o rapaz, se calhar, ainda não sabia ler.