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1967-1982, PARA MEUS PAIS

Cartas de um cineasta quando jovem
Imagem 1967-1982, para meus pais

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Em fevereiro deste ano, publiquei na piauí um conjunto de cartas que escrevi para meus pais em 1964. Eu estava com 18 anos e contei a eles, que viviam em Roma naquela época, o impacto causado no país e em mim pelo filme Deus e o diabo na Terra do Sol, de Glauber Rocha. Aquele foi também o ano fatídico do golpe militar que me colocou em um dilema: deixar ou não o Brasil.

Em 1967, com 21 anos, retomei a correspondência com meus pais, que agora viviam em La Paz, com minha irmã caçula, Maria Luisa. Meu pai, Lauro Escorel, era embaixador do Brasil na Bolívia. Naquele mesmo ano, minha irmã mais velha, Silvia, ganhou o mundo, com a mochila nas costas. A terceira, Sarah, adolescente na época, estava semi-interna no Colégio Bennett, no Rio de Janeiro, com direito a sair nos fins de semana. Meu irmão, Lauro (cinco anos mais novo que eu), morava comigo no apartamento 601 da Rua Voluntários da Pátria, nº 100, em Botafogo. Em 1966, eu havia feito meu primeiro filme, obediente aos ditames do cinema direto, em parceria com Julio Bressane – o documentário Bethânia bem de perto, que teve duas pessoas na equipe de filmagem, ele e eu, desempenhando todas as funções.

RIO–LA PAZ, 1967

Faltam 10 dias para Castelo Branco deixar o governo
4 e 5 de março, Tribuna da Imprensa

5 DE MARÇO

Pai querido,

Acabamos Terra em transe[1] e já vimos, na quinta-feira, a primeira cópia. Está realmente muito bom. O embaixador Senghor,[2] que viu o filme com o representante da Unifrance,[3] saiu comovidíssimo. Somente umas quinze pessoas já assistiram ao filme, mas causou grande impacto nelas. Esta semana uma cópia deve seguir para Paris, onde a comissão de seleção do Festival de Cannes a assistirá, havendo expectativa de que possa ser convidado para participar do festival.

A minha operação das amígdalas correu só mais ou menos bem, com alguns contratempos que mamãe poderá lhe explicar.[4] Agora já estou quase que completamente recuperado; ainda um pouco fanhoso, mas bem.

Terminado Terra em transe e recuperado da operação, penso tirar uns diazinhos de férias e depois de concreto ainda não sei o que vai surgir. Recusei montar Garota de Ipanema[5] por vários motivos – cansaço e saúde entre eles.

Um grande abraço com saudades.

Decretada a nova Lei de Segurança do país
12 e 13 de março, Jornal do Brasil

14 DE MARÇO

Queridos pai e mãe,

As coisas aqui vão bem, ou melhor só mais ou menos bem. Sassá,[6] como era de se esperar, não conseguiu resistir muito tempo sem começar a criar pequenos problemas: a moça se recusa a passar qualquer fim de semana na casa de Rosita e Thiers[7] porque declara que é muito longe, que não vai poder ir às festas, que ninguém vai levá-la até lá depois das festas etc. Isso não representa nenhum problema enquanto eu estiver aqui no Rio, é claro; mas, se eu sair do Rio, como estava pensando em fazer na Semana Santa, ela não pode ficar aqui em casa sozinha e a situação complica. Ela me declara que você (mãe) disse a ela que poderia, quando quisesse, passar os fins de semana na casa da Edméa,[8] mas a mim você simplesmente não mencionou essa possibilidade e então estou meio sem saber o que decidir para a Semana Santa: se desistir da minha viagem ou falar com a Edméa. Favor escrever com urgência a ela e esclarecer de uma vez por todas esse problema. […]

Eu já escrevi duas cartas à Silvia,[9] ambas ainda sem resposta. Acredito que o diálogo entre vocês poderá se restabelecer aos poucos, dependendo só dela amadurecer e deixar de lado certas revoltas infantis completamente sem base. Você declara que o Luiz[10] é um menino imaturo e sem um eixo interior, e é verdade, mas a definição cai como uma luva para a nossa querida Silvia também. Esperemos que a Silvia (e isso depende um pouco também de um grande esforço de compreensão e adaptação por parte de vocês dois) consiga se enquadrar entre as pessoas que saem de um estado de perplexidade e desorientação para uma situação mais objetiva, concreta, dedicada a tarefas que realmente representam alguma coisa, para ela mesma e para os outros. O caso da Silvia é um típico reflexo de uma total desorientação.

Desculpem os “conselhos”, mas são coisas nas quais eu acredito. Se vocês ficarem rigidamente dentro de certos conceitos não conseguirão nunca dar o apoio de que agora, mais do que nunca, ela está precisando.

Laurinho[11] segue estudando nestes primeiros dias. Estudando, mas não se matando. Acho que é o jeito dele mesmo. […]

Calor incrível e racionamento confuso. Chuvas fortes no fim do período.

Eu continuo de férias. Lendo muito e só.

Se conseguir encontrar “guarida” para a Sassá devo ir passar a Semana Santa em Poços [de Caldas] com os cândidos sogros e Ana Luisa.[12]

Chuva volta forte e desabriga
90 famílias
19 e 20 de março, Jornal do Brasil

19 DE MARÇO

Soube ontem da morte do Lourival[13] pelos jornais. Gilda[14] telefonou hoje para Ana Luisa e disse que o corpo vai chegar quarta-feira e que A. Candido[15] deverá ir recebê-lo a pedido da Lourdes.[16] Terrível, não? Ana Luisa está pensando em ir para São Paulo na Semana Santa para visitar o Lucio.[17] Não sei ainda se poderei ir também, mas se for farei uma visita a Lourdes por vocês.

Achei muito curioso você (pai) comentar na sua carta que “graças à minha boa vontade” a Sassá poderá sair todas as semanas, considerando que eu não fui, em nenhum momento, consultado sobre esse problema e nem sobre os problemas todos que adviriam do simples fato de ela estar internada no Brasil, longe de vocês. Não tendo sido consultado, não vejo muito bem como posso ter qualquer autoridade sobre a Sassá, que não é exatamente uma menina dócil.

Cassações ameaçam Pedrossian, deputados e mais um prefeito
19 de agosto, Correio da Manhã

20 DE AGOSTO

Cara a cara é um longa-metragem de ficção.[18] Estou trabalhando há já um mês e pouco, mas esse é bem mais simples que TemT [Terra em transe] e já está quase pronto. O problema todo é que a fita é bem ruim e o meu trabalho por isso não é tão estimulante quanto no filme anterior. Glauber [Rocha] tem me escrito, uma fera com os últimos feitos do Ita [Itamaraty] (Sauer, Grieco[19] e cia.) em relação ao cinema. […] Ele esteve no Canadá, fazendo parte do júri do Festival de Montreal e agora deve estar a caminho de Veneza para depois voltar ao Brasil. Além do trabalho da montagem, continua a preparação da nossa revista, que deverá lançar seu primeiro número só em novembro,[20] e estamos tentando (com o Joaquim Pedro)[21] organizar e conseguir produção e exibição (na TV Educativa do Gilson Amado)[22] de uma série grande de filmes sobre o tema geral de cultura brasileira.[23]

Esta semana deveremos começar a assistir (Ana Luisa e eu) a um curso que um professor italiano, Andrea Bonomi,[24] vai dar sobre o estruturalismo de Claude Lévi-Strauss.[25] […]

Quanto à nossa Sil querida, sinceramente acho que não adianta nada eu escrever para ela dizendo o que disse para vocês por que, do ponto em que ela está, acho que só se volta apanhando muito e descobrindo as coisas sozinha. De qualquer maneira, acho que escrevo assim mesmo, mas para onde agora, se vocês me dizem que não está mais em Barcelona?

Quanto ao Laurinho e o problema profissão, acho que vocês ainda estão raciocinando exatamente da mesma maneira que raciocinavam quando era eu que estava no momento de escolher, o que me parece um erro. Além do fato evidente de que cada pessoa é extremamente diferente da outra e de que existe uma situação social que gera necessariamente uma grande perplexidade no mundo (perplexidade que se reflete no adolescente como dúvida, incerteza), me parece que vocês jogam erradamente com os conceitos de realização profissional, conforto material, profissão. Conversa longa e difícil, que talvez seja melhor deixar aqui para o Rio. […]

Pai, desde já pelos 50, um grande abraço. Nada de reflexões em torno do número de anos, pois afinal cinquenta é só metade de cem e, portanto, um princípio de vida.

Jango nega pacto com Lacerda
6 de outubro, Correio da Manhã

6 DE OUTUBRO

Escrevo para lhe dizer que Ana Luisa e eu queremos nos casar. Espero o seu consentimento e a sua aprovação para completar a unanimidade. Se assim for e você quiser escrever para Antonio Candido a respeito, por favor o faça. Eu não vou fazer nenhum pedido formal, mas talvez fosse simpático você escrever aos Candido. O.k.?

Talvez lhe pareça estranho eu ter manifestado este desejo tão pouco tempo depois que você viajou, mas por favor acredite que não foi intencionalmente. Apenas, essas coisas você sabe como são. […]. A gente vai pensando e um dia se decide. Espero carta sua.

Um beijo em Maria Luisa[26] (diga que estou comunicando a ela também a nossa vontade).

1969-70

Marighella morre metralhado
em São Paulo
5 de novembro, Jornal do Brasil

Em 1º, 2 e 3 de novembro, filmei a romaria de Finados, em Juazeiro do Norte, no Ceará, tema de Visão de Juazeiro, segundo curta-metragem que dirigi, produzido por Thomaz Farkas. Jorge Bodanzky[27] fez a fotografia e Hermano Penna[28] o som.

Antes do fim do mês, fui para Roma onde montei O leão de sete cabeças e, em seguida, a Barcelona montar Cabeças cortadas, ambos de Glauber Rocha. Ana Luisa foi me encontrar em Roma, no início de janeiro de 1970, e seguimos juntos para Paris, onde montei Un séjour, de Carlos Diegues.

Voltamos para o Brasil em julho de 1970 e, só então concluí Visão de Juazeiro, antes de montar Nelson Cavaquinho, curta-metragem de Leon Hirszman.

RIO–ASSUNÇÃO, 1971-72

China Popular estuda ONU preparando a sua admissão
11 e 12 de abril, Jornal do Brasil

12 DE ABRIL

Preciso pedir um favor a vocês; nós continuamos em situação financeira precária; pensando em como remediá-la, já que está mesmo difícil conseguir trabalho regular, falei com o Fernando Martins Moreira[29] sobre a possibilidade de obter um empréstimo no banco; ele me disse que, como eu não movimento uma quantia suficiente, eles só poderiam emprestar dependendo de quem fosse o avalista, e disse que você seria um avalista que eles aceitariam; embora eu preferisse resolver a situação sem recorrer a esse empréstimo, não sei se vai ser possível e por isso peço que me mande dizer o mais depressa possível se estaria de acordo em avalizar os títulos, pois, se estiver e eu chegar à conclusão de que não há outro jeito, ainda precisaria mandar os títulos para você assinar, o que leva algum tempo.

Gilda esteve aqui passando um fim de semana e está muito bem, agora que passou adiante a chefia do departamento;[30] Ana Luisa vai bem, com bastante trabalho; agora várias capas já foram aceitas e há indícios de que o campo talvez possa mesmo ser explorado com proveito. Eu, enquanto o trabalho não vem, vou aproveitando para me dedicar bastante à faculdade.[31] Laurinho tem escrito e sexta-­feira telefonou; a situação deles melhorou um pouco e parece que agora não estão mais passando fome; pelo que ele disse deve estar de volta somente no fim do mês;[32] Silvia esteve aqui ontem e achei ela ótima, realmente há muito tempo que não a via assim; os elogios do Carpeaux[33] aos trabalhos dela acho que têm valido por dez sessões de análise.

Adorei sua carta, Lu.[34] Com mais calma, da próxima vez, escrevo só para você.

Beijos gerais em você e em Titiá.[35]

Arena em peso contra o divórcio
28 de abril, Correio da Manhã

27 DE ABRIL

Gilda telefonou dizendo que tinha estado com o Dante,[36] que gostara muito de seu trabalho, pai; ele já lhe escreveu a respeito? Ela disse que eles [Antonio Candido e ela] gostariam muito de ler o trabalho e, diante disso, acho que o melhor seria você escrever primeiro dizendo o que está fazendo e perguntando se eles teriam tempo de ler.[37] […]

Do que você diz na última carta me parece que o perigo é o que você mesmo reconhece: o de se deixar levar por uma identificação com o autor e, através de uma autoanálise, projetar nele suas próprias obsessões…

Quanto ao problema do dinheiro: peço a vocês apenas que avalizem, ou seja, assumo eu com vocês o compromisso de pagar. Só farei o empréstimo em último caso, mas do jeito que as coisas vão acho que vai mesmo ser necessário. Pensei em 7 a 8 mil cruzeiros, o que nos permitiria pagar as dívidas e viver uns dois meses e nesse tempo dar tratos à bola, sem a pressão das dívidas, para reorganizar as finanças. […]

O roteiro com o Joaquim [Pedro de Andrade] também vai sendo retomado depois de um período de desânimo.[38] Tenho estudado regularmente e isso tem me feito bem; se não fosse a necessidade de ganhar a vida e pagar dívidas e inventar uma maneira de conseguir trabalho, estaria tudo perfeito. […]

Aqui, a temperatura caiu brutalmente e estamos nos deliciando com um friozinho de dias lindos.

Laurinho, ao que tudo indica, deve chegar esta semana. Não tivemos mais notícia direta, mas parece que agora as filmagens vão mesmo chegando ao fim.

1972

Mina de carvão explode e soterra 468 na Rodésia
7 de junho, Jornal do Brasil

7 DE JUNHO

O trabalho apertou recentemente. Estou na arrancada final de Quando o Carnaval chegar (1972), filme do Carlos Diegues. É um musical com Chico [Buarque], Nara [Leão] e Maria Bethânia do qual você talvez já tenha ouvido falar através dos jornais.

Os inconfidentes foi exibido com repercussão excelente entre a intelectualidade mais cotada; Antonio Candido e Gilda adoraram.[39] Algumas restrições em outras áreas e um público restrito como já esperávamos. S. Bernardo só deve ser exibido no segundo semestre. […]

Volto a lhe escrever logo em resposta mais detalhada à sua última carta com suas preocupações sobre o Laurinho. Acho que ele está bem de um modo geral.

Um beijo em você e em Maria Luisa com saudades.

Delfim quer do Nordeste maior produção agrícola
24 de agosto, Jornal do Brasil

24 DE AGOSTO

Silvia passou por aqui ontem para apanhar as coisas dela e estava radiante com a carta que você escreveu, pai. Ela teve uma boa conversa comigo sobre o problema dela. […]

Espero que essa troca de cartas possa reestabelecer o diálogo entre vocês de que ela com certeza necessita.

Escrevi hoje ao Laurinho via Liana;[40] se ele telefonar ou vocês escreverem digam a ele que falei com o Jabor[41] no dia 8 de agosto e ele me disse que o filme[42] estaria pronto no fim do mês. É provável que haja algum atraso, penso eu, mas a marcação de luz deverá ser feita ainda no mês de setembro.

RIO – COPENHAGUE, 1973-74

México para a busca de sequestrador do cônsul
8 de maio, Jornal do Brasil

8 DE MAIO

Estivemos em São Paulo, aproveitando o fim de semana prolongado com o 1º de Maio; nossa estadia coincidiu com a volta dos Estados Unidos de Antonio Candido; por incrível coincidência, ele viu no Museu de Arte Moderna de Nova York o primeiro filme do Stangerup, Give God a chance on sunday[43] e, apesar do dinamarquês sem legendas, gostou muito. […]

Ainda em São Paulo tivemos o choque de saber que o Rogério Noel,[44] com 21 anos, tinha morrido. Talvez vocês não saibam quem é: primo da Ana Luisa, amigo do Laurinho, fotógrafo de grande talento, ganhou vários prêmios no ano passado pela fotografia de um filme chamado A culpa. Não sei se o Laurinho já soube, mas imagino que não. Ele teve uma parada cardíaca. […]. Um verdadeiro absurdo.

Em São Paulo vi um dos primeiros exemplares, ainda com acabamento (colagem da capa) à mão, de seu livro, pai.[45] Ontem, Gilda telefonou dizendo que a livraria já tinha recebido os exemplares definitivos e que dez já tinham seguido para aí. […]

Quanto ao Laurinho, acho, pelo contrário, que ele deve encontrar uma maneira de manter um contato profissional mais regular com o Brasil. Não vejo maiores problemas de segurança pelo que ocorreu no passado, tudo dependendo naturalmente do que ele esteja ou pretenda fazer. Isso, só ele pode saber e avaliar os riscos. Me parece que ele está vivendo uma situação irreal e desenvolvendo uma atitude negativa em relação ao que é feito aqui – seja o que for. Está superexigente. Sem dúvida ele tem amadurecido muito. […]. Pretendo escrever a ele, mais em detalhe, sobre essas coisas, respondendo à carta que ele me mandou e que gostei muito de receber.

Aqui, realmente a repressão recrudesceu muito em todos os campos: censura, polícia etc. O que tudo indica estar ligado com o problema da sucessão.[46] A disputa pelo poder, ainda que restrita, repercute dessa maneira. Das várias listas a que Castelo[47] se refere, eu também já ouvi falar de uma que aponta o homem da Petrobras[48] como líquido e certo, Sergio Corrêa da Costa[49] para Exteriores, Flexa Ribeiro[50] para Educação e Raphael de Almeida Magalhães[51] para Planejamento. Parece meio absurdo, mas é, pelo menos, uma das listas que correm pelo país.

Soube também que a embaixada em Buenos Aires vagou. Que ironia, hem? Quem sabe aguentam uns meses e mandam vocês para lá.

De Watergate realmente tem se falado muito. Segundo o Antonio Candido, é assunto exclusivo nos Estados Unidos. Aqui se tem reproduzido as matérias dos jornais americanos e talvez o caso todo sirva para iluminar em algumas poucas almas a ideia da caducidade de um regime autoritário-repressivo como o nosso.

Terroristas apoiam Campora mas se negam a depor armas
25 de maio, Jornal do Brasil

25 DE MAIO

Anteontem chegaram os exemplares da capista[52] de A pedra e o rio; já demos um para as três irmãs e outro para Inez,[53] de modo que a distribuição começou; imagino também que os membros da lista que você elaborou já devem estar recebendo seus exemplares; os do autor, provavelmente remetidos por navio, devem, logo mais, estar chegando. […]

Receberam minha carta para o Laurinho? De tudo aquilo o mais importante é que, a não ser que ele esteja disposto a se desligar inteira e definitivamente, ele deve trabalhar aqui, pois na verdade ele não está preparado ainda para as exigências profissionais e políticas que uma situação como a de lá impõe. Quanto à segurança, tudo depende do que ele esteja fazendo, ou pretendendo fazer, lá, aqui e in between. […][54]

Hoje devemos saber os resultados de Cannes; pelo que diz o JB, o nível foi muito baixo com exceção dos três hors-­concours Losey-Bergman-Truffaut; de modo que a exclusão dos filmes brasileiros da mostra competitiva fica evidentemente mais por conta dos interesses comerciais-políticos do festival do que do valor dos filmes. Ser subdesenvolvido continua um agravante sério, também no mundo dos espetáculos.

Estudantes enfrentam polícia
no Uruguai
7 de julho, Jornal do Brasil

7 DE JULHO

Há vinte dias me chamaram para fazer esse documentário sobre Santos Dumont. Até esse dia eu não sabia quase nada sobre ele, de modo que, de lá para cá, tenho dedicado todo meu tempo a me informar sobre ele, a selecionar fotografias e cenas de atualidades da época, ver locais para filmar etc. Estou totalmente dedicado a isso já que temos um prazo muito curto para fazer o filme. Por isso não tenho escrito.

Assim que Santos Dumont deixar retomo a correspondência mais regular.

Terror mata assessor militar
de Allende
28 de julho, Jornal do Brasil

28 DE JULHO

Cheguei quinta-feira de uma semana de filmagem: estivemos em Ribeirão Preto, Campinas, São Paulo, São José dos Campos, Santos Dumont (antiga Palmira, perto de Barbacena) e Petrópolis. Apesar de quase 2,5 mil km rodados em uma semana, essa parte é relativamente pequena dentro do filme,[55] cujo principal material é formado de fotografias e cenas de atualidades do princípio do século e dos voos de Santos Dumont.

Realmente, você tem razão, pai; o tema não poderia ser mais delicado, principalmente no momento. Há uma profusão de filmes sobre o mesmo assunto, além das festividades oficiais.[56] […] Normalmente, eu nem poderia pensar em aceitar tal incumbência; mas como a ideia partiu da TV Educativa, eu achei que havia uma boa margem de autonomia. Até agora tudo tem corrido bem e não tem havido interferências, embora o momento crítico vá ser quando o filme estiver montado ou quando sair a primeira cópia.

Quanto ao resultado, ainda não posso avaliar bem. A dificuldade em fazer um filme sobre o mesmo assunto de quatro ou cinco outros é enorme; além do desgaste que ele sofre diante de tanta repetição. Vamos ver como me saio dessa.

Meu longo silêncio se explica então pela necessidade de me pôr a par de um assunto em que era totalmente ignorante; passei o último mês todo dedicado a estudar o homem e a reunir documentação iconográfica. A figura real, da qual nenhum dos filmes dá ideia, é fascinante e trágica. Como os tempos que correm não são nem para verdades, nem para tragédias, é provável que eu tenha que superar certos obstáculos para poder ao menos ser sincero. […]

Atrás de caricaturas procurei o Herman Lima,[57] que falou de você com muita simpatia, lembrando-se de um artigo que você pediu a ele certa vez de Buenos Aires. Ele está muito doente, saindo de um ataque de angina, mas foi de uma simpatia e boa vontade absolutas comigo. […]

Ficamos, todos, satisfeitos com os grandes elogios feitos ao seu livro, pai; segundo me disse o Humberto,[58] eles preveem a saída maior a partir de agosto, início de um novo semestre. Imagino que façam, então, alguma publicidade. […]

Acho que vocês estão exagerando com a preocupação a respeito dos filhos. […] Problemas há e haverá sempre; esperemos que nenhum se agrave e se torne uma tragédia. Mas, de qualquer modo, não tem sentido vocês ficarem preocupados, com o pensamento permanentemente voltado para o que está ocorrendo aqui. No news, good news; infelizmente, quando algo de realmente ruim ocorrer vocês podem ter certeza que vão saber rapidamente. Enquanto isso, “curtam” a Dinamarca e a Europa. O.k.? (Esta é a bronca nº 1 desta carta. Agora, a bronca nº 2 dirigida mais especialmente a você, mãe).

Não tem nenhum sentido você ficar insistindo tanto a respeito da faculdade. Lembre-se que quando resolvi entrar na faculdade foi uma decisão exclusivamente minha. Agora, é pouquíssimo provável que deixe de completar o curso. Não posso, no entanto, deixar passar oportunidades profissionais que dificilmente aparecem duas vezes, nem de arranjar trabalho remunerado para viver. Tenho muito poucos créditos para completar (só três cadeiras), embora dois deles sejam trabalhosos (uma cadeira de estatística e a monografia que tenho que redigir). Pretendo continuar tentando conciliar minhas atividades, mas se não for possível fazer esse pouco neste semestre passarei para o ano que vem, até que aos poucos chegue lá. Na ordem das prioridades, o trabalho está à frente da faculdade.

Nixon causa decepção
com suas explicações
17 de agosto, Tribuna da Imprensa

17 DE AGOSTO

Jacyntho[59] jantou conosco terça-feira passada. O incorrigível padrinho chegou com duas horas de atraso; mas foi tudo bem; Maria Luisa e Silvia também estiveram aqui. […] Conversamos muito e ainda devemos nos falar por telefone antes dele partir para a Europa.

O trabalho com o Santos Dumont continua absorvente. Vou a São Paulo neste fim de semana fazer a filmagem das fotografias. Depois será a montagem por umas três semanas. Difícil ser original em 15 minutos e com as pressões da imagem oficial. Por enquanto, tenho tido autonomia absoluta, mas temo que no final haja alguma reviravolta. O homem era uma boa figura, mistura de dandy e esportista, muito mais do que cientista. Milionário sem preocupações e muito doente. Corajoso e imaginoso antes de tudo.

O Opinião,[60] apesar de tudo, continua a sair. Esta semana publicaram um depoimento meu.[61] Como sempre nesses casos, o copydesk faz o que quer com o texto e o resultado é que ficou tudo um pouco truncado, sem falar das coisas mais contundentes que sumiram. Mandarei um xerox […] pelo Jacyntho.

Junta começa a esmagar resistência no Chile
13 de setembro, Jornal do Brasil

17 DE SETEMBRO

Depois de passar a semana voltados para os trágicos acontecimentos chilenos, foi bom, ao menos, poder, no fim de semana, saber que o Laurinho estava bem. Transmiti a ele no domingo à noite o que vocês tinham dito e dei o telefone daí para que ele tentasse se comunicar diretamente com vocês. Espero que ele resolva logo a situação, pois me disse que tinha como se identificar não sendo necessário mandar nada daqui. Continuo planejando vê-lo antes que ele vá para os USA, mas ainda não sei quando será.[62] […]

Estou enfrentando, finalmente, as agruras de querer trabalhar no Brasil. A TV Educativa está criando os maiores problemas a propósito do texto da narração que escrevi para o documentário sobre Santos Dumont. Uma censura absurda e pusilânime, principalmente porque feita em função de uma hipotética reação. Não querem que se diga que ele se matou, que a mãe se matou, não querem ênfase no fato dele ter se transformado num pacifista etc. Estou tentando ainda reconquistar algumas coisas, mas como estão as coisas vou mesmo ter que engolir alguns desses sapos e aprender a lição: não fazer mais esse tipo de filme. O que tem seu lado grave, pois reduz ainda mais as limitadas possibilidades de trabalho. E agora, nem a mirífica alternativa chilena. Vamos mal… vamos mal…

O Santos Dumont, além de absorvente, está levando, com essas complicações da narração, muito mais tempo que o previsto. Tenho que começar a me dedicar a isso senão não dá tempo.

Além disso, estou montando uma adaptação de Os condenados,[63] do Oswald de Andrade, dirigida pelo Ze­lito;[64] ele, simpático; o filme, bem fotografado, mas nada de excepcional. O romance é muito ruim, de maneira que seria necessária uma mão de mestre para transformá-lo em algo de interesse maior.

1974

Vicente Dale Coutinho será ministro da Guerra
19 de fevereiro de 1974, Tribuna da Imprensa

19 DE FEVEREIRO

Realmente demorei a escrever; em parte por estar cheio de trabalho e de pequenas providências, em parte por querer falar da Silvia e ajudar vocês a encaminharem todos os problemas que surgiram ligados a ela, mas sem saber muito bem o que dizer e como ajudar. Por isso meu silêncio.

Estou me sentindo muito bem livre de obrigações de assistir aulas e fazer provas – um alívio. Estive, depois de ter colado grau, trabalhando no roteiro de Amar, verbo intransitivo,[65] que, como filme, deverá se chamar Lição de amor. A produção está encaminhada e se não houver contratempos e/ou adiamentos deveremos começar a preparação do filme em fins de maio para filmar em julho. Recebi hoje carta do Laurinho disposto a vir fotografar o filme, de maneira que por esse lado estou garantido e ele terá um bom pretexto para voltar e uma boa maneira de ir se reintegrando.

O [Luiz Carlos] Barreto[66] me chamou de novo para montar um filme sobre o Pelé. Tendo desistido de fazer a famosa série planejada (da qual eu tinha montado dois pilotos), ele e a TV Globo resolveram agora, em cima da hora, fazer apenas um filme longo para ser exibido aqui e na Europa antes da Copa do Mundo![67] Desta vez temos um vasto material de arquivo com jogadas realmente sensacionais do Canal 100,[68] mas eu acabei ficando com a sobrecarga de inventar um filme a partir desse material e do que o Luiz Carlos tinha filmado para os pilotos, pois ele anda ocupadíssimo. Estou quebrando a cabeça para ver se consigo organizar o material de alguma maneira interessante no prazo curto de um mês, pois eles precisam das cópias até 15 de abril para poder negociar a tempo!!!

Saiu o segundo volume das memórias do Pedro Nava, Balão cativo,[69] a meu ver tão bom quanto o primeiro. Se vocês já não tiverem posso mandar pelo primeiro portador. Além disso, na área cultural, a revista Argumento,[70] depois de ter saído o nº 3 foi proibida pela censura. Há quem tenha esperanças de que depois do dia 15 a proibição poderia voltar atrás. […]

Quanto aos ministros restantes devem ser anunciados na quinta-feira; jornais e revistas aqui apontam para Exteriores o Silveirinha[71] como mais provável. Salvo surpresas de última hora.

Silvia chegou bastante bem; o comportamento manifesto parece indicar um esforço de reequilíbrio. Ela tem vindo bastante aqui, está contactando pessoas atrás de trabalho, procurando onde morar, já arranjou uma tradução, que está fazendo, enfim tentando organizar a vida. Ficamos todos ansiosos, na esperança de que ela se firme, querendo ajudá-la, mas ao mesmo tempo não podendo querer controlar a vida dela.

Tem sido ótimo o carro;[72] além de facilitar enormemente os deslocamentos e as pequenas tarefas cotidianas, tem permitido lindos passeios pelo Rio que Ana Luisa conhecia menos ainda do que eu. Já estou guiando bastante bem, já fui até Teresópolis, e toda hora me pergunto como foi possível ficar tanto tempo sem saber dirigir e ter carro. […]

O prêmio do Laurinho[73] ainda não foi depositado. Assim que tiver sido eu aviso vocês.

Geisel já dá 2 expedientes
no escritório
1º de março, Jornal do Brasil

1º DE MARÇO

Depositei hoje no Bradesco Cr$ 8.350,00 correspondentes ao prêmio do Laurinho. Pelo que me disse em carta recebida hoje, ele está precisadíssimo desse dinheiro.

Afinal confirmou-se o Silveirinha; isso influi nos seus planos?…

Silvia nos parece continuar bem e agora animada com a perspectiva de um emprego na Abril; o Houaiss[74] deu uma carta de apresentação que deve ajudá-la bastante. Segunda-feira ela tem uma entrevista na Abril. Vamos ver.

Laurinho tem escrito e parece cada vez mais inclinado a voltar. […] O Peru parece ser = ao Brasil, só que mais sub.

Oficial japonês surge após
29 anos na selva
11 de março, Jornal do Brasil

A revista Visão, de 11 de março de 1974, definida no editorial como “número de reflexão… aos dez anos da deposição do regime janguista”, publicou declaração de Glauber Rocha, na qual ele afirma:

“Arte no Brasil de 1964-74: são dez anos de Bode, daquele Demoz que crava fundo as patas no dorso da plebe. Reagimos, o sangue correu em Jardim das Piranhas, Antônio das Mortes falou ao terceiro mundo, esperamos agora, sobretudo Eu, que sou protestante, Luz e Ação. Acho que Geisel tem tudo na mão para fazer do Brasil um país forte, justo e livre. Estou certo inclusive que os militares são os legítimos representantes do povo. Chegou a hora de reconhecer sem mistificações, moralismos bobocas, a evidência: Costa [e Silva] era quente, frias eram as consciências em transe que não viram pintar as contradições no espelho da história. Em 1968 eu era albuquerquista e Antônio das Mortes é o profeta de Alvarado e Khadafi. […]

Chega de mistificação. Para surpresa geral, li, entendi e acho o general Golbery um gênio – o mais alto da raça ao lado do professor Darci [Ribeiro]. Que Celso Furtado é a metáfora do terceiro mundo dragado pela Wall Street Scout. Que Fernando Henrique é o príncipe de nossa sociologia.

Que leio e curto a revista Argumento. Que Chico Buarque é o nosso Errol Flynn. Que entre a burguesia nacional internacional e o militarismo nacionalista eu fico, sem outra possibilidade de papo, com o segundo. De Cinema Novo? O novo é sempre viveterno e São Bernardo ainda surpreendeu incrédulos da geração 1950. Não tenho nada de pessoal contra tropicanalhistas: detesto a finura sutil dos machadianos, o revisionismo time-life da moçada abrilhantada. Sou um homem do povo, intermediário do cujo, e a serviço. Força Total pra Embrafilme, Ordem e Progresso.”

Esse texto delirante causou impacto em mim, especialmente os elogios aos militares à frente da ditadura instaurada desde 1964.

A segunda etapa do meu aprendizado em cinema teve início depois da edição de Isto é Pelé.

Silveira prega diplomacia
com realismo
27 de abril, Jornal do Brasil

27 DE ABRIL

Pelé deve ser responsabilizado pelo meu silêncio. Terminamos quinta-feira a mixagem, após um mês de virada contínua numa corrida contra o tempo para que o filme pudesse ser lançado antes da Copa do Mundo. Agora, só falta a fase de copiagem no laboratório, censura etc., e se tudo correr bem o filme deve ser lançado dia 13. De qualquer modo, a minha participação agora diminui e estou tentando recuperar o sono para já começar a enfrentar novos projetos.

Dentro das limitações do projeto (um filme feito de material de arquivo e de cenas filmadas por outros, sem roteiro prévio, em suma, o típico filme de montagem),[75] acho que o resultado é bem satisfatório. Luiz Carlos Barreto ao menos parece bem satisfeito, vamos ver se as rendas não o decepcionam.

Além disso, estou com uma agenda digna do Kissinger: o Lição de amor continua de pé para a mesma época; filmagem em julho, o que significa iniciar a preparação em fins de maio. A produção será do Barreto associado com a Embrafilme e mais um coprodutor minoritário.[76] Devo passar cinco dias em Salvador, do dia 20 a 25, participando de um seminário de cinema na universidade; devo montar o filme do Joaquim Pedro[77] de agora até começar a preparação do Lição de amor e, ainda por cima, parece que agora finalmente vão sair os tais documentários de que creio ter lhes falado (o meu tema é Fortificações Portuguesas no Brasil). Enfim, só mesmo o Kissinger. […]

Aqui a boataria anda solta. […] Ainda é impossível saber se vai haver alguma mudança, embora haja sinais disso. Não acredito, no entanto, que seja uma coisa para já, mas sim para quando o atual governo estiver mais consolidado. De qualquer modo também não acredito que essas mudanças de que se fala signifiquem grande coisa.

Silvia foi para Brasília assustada com a nova vida. Não nos escreveu, mas segundo vovó,[78] que nos telefonou, ela está muito deprimida. Até um certo ponto isso é natural, resta saber se ela terá forças para reagir ao impacto da capital. […]

Vimos finalmente Day for night,[79] que me pareceu bastante bom. Quanto ao inferno da profissão, acho que é mesmo meio infernal […] do qual é difícil se livrar […], uma espécie de permanente desafio cujos resultados podem ser fatais.

Vovó esteve aqui em visita-relâmpago, como sempre. Almoçou e partiu, praticamente. Conversamos muito sobre os antepassados russos com planos de algum dia fazer uma viagem às origens mais remotas.

Tentarei com mais calma escrever para vocês de São Paulo ou Poços.

Nixon firma nova Carta Atlântica em Bruxelas
26 de junho, Jornal do Brasil

26 DE JUNHO

Estamos aqui vivendo meio em função do futebol; hoje, finalmente, uma vitória, embora ainda sem convencer (a vitória contra o Zaire não conta). A verdade é que não parece haver nenhum grande time jogando, sendo a Holanda, a Polônia, a Alemanha Ocidental e o Brasil, apesar de tudo, os melhores. Mas se formos comparar qualquer desses times com o nosso de 1958 ou 1970 não haveria nem termo de comparação.

Nos dias de jogos, a vida para, e temos tido com isso sucessivos feriados, sempre com a expectativa de que um time tão medíocre formado de grandes jogadores finalmente acorde […], o que a esta altura parece difícil, e apesar da torcida ninguém ousa imaginar uma final com o Brasil em campo.

Estou na etapa final da montagem do filme do Joaquim [Pedro de Andrade], Guerra conjugal. Espero viajar para filmar as fortificações dentro de quinze ou vinte dias. Em princípio, irei de carro, a Natal, João Pessoa, Recife e Salvador, sendo a viagem para uns 25 dias, mais ou menos. Ainda não fiz a escolha definitiva de que fortificações filmar, mas esta semana ainda tudo deverá estar resolvido.

Domingo fomos a um churrasco na casa de um amigo em Nogueira. Aproveitamos e passamos a manhã em Petrópolis procurando possíveis casas para o Lição de amor. Por enquanto, não encontramos nada satisfatório. Uma casa com jardim grande em volta, tipo Avenida Higienópolis anos 20. Difícil, não?

Ana Luisa vai retomando contato com os clientes enquanto distribui seu livro, que finalmente saiu.[80]

Silvia telefonou e também me pareceu bem; enfrentando a análise individual que parece ser para valer. Ela anuncia uma escapada para o aniversário da Maria Luisa e já nos ofereceu acomodação no apartamento para o qual deve ter se mudado esta semana.

Spínola destitui os ministros e amanhã forma gabinete
12 de julho, Jornal do Brasil

12 DE JULHO

Silvia me escreveu e mandou a crítica do Wilson Martins.[81] Realmente lisonjeira, mas como crítica não gostei. Ele não dá nenhuma contribuição pessoal para a compreensão do João Cabral ou do seu livro. Limita-se a falar superficialmente do método e fazer uma síntese das suas ideias. De qualquer modo, leu o livro e escreveu, o que já é simpático, tendo em vista a indiferença geral nos tempos que correm.

Laurinho também escreveu e telefonou dizendo que embarcaria para Nova York por estes dias. Parece que os adiamentos do Lição de amor[82] atrapalharam algum plano dele. Infelizmente, muita coisa não depende de mim e até se chegar realmente a iniciar as filmagens muita coisa acontece. Espero que tudo se arrume e que ele possa realmente vir seja quando for que se iniciem as filmagens.

Como vocês veem, ainda não viajei. Problemas burocráticos no MEC impediram que eu conseguisse receber até agora a primeira parcela do contrato. Isso, em parte, foi bom, pois permitiu que eu terminasse o filme do Joaquim [Guerra conjugal] agora já praticamente pronto, em parte atrapalhou minha vida pois quanto mais demorar esse filme, mais demorará o Lição. Agora calculo que seja possível viajar até o dia 29 deste mês e estar de volta até 26 de agosto. […] As recomendações da mamãe são engraçadas, em se tratando de um filho que já tem filha e que se aproxima dos 30, mas de qualquer maneira serão seguidas.

Quanto ao S. Bernardo, parece que com as rendas e os prêmios estaria sendo atingida a soma necessária para levantar a falência: o que não significa que receberíamos todo o dinheiro que nos é devido, mas pelo menos uma parte.

Angola rejeita proposta de independência
11 de agosto, Jornal do Brasil

11 DE AGOSTO

Estou finalmente de partida depois de duas semanas intensas de preparativos; vou amanhã de madrugada para Natal e venho voltando por João Pessoa, Recife e Salvador, prevendo estar de volta lá pelo dia 2 ou 3 de setembro.[83]

Escrevi ao Laurinho comunicando essas datas e pedindo que ele confirmasse minha presença aqui para programar sua chegada. Pretendo ir recebê-lo, embora sinceramente acredite que ele chegará tranquilamente.[84] Guardei sua carta, pai, com a relação de suas acquaintances.

É claro que na viagem para o Norte Ana Luisa não vai. […] Vou com um rapaz chamado Murilo Salles[85] (fotógrafo) e um auxiliar geral deve se incorporar à equipe no meio do caminho, vindo de outra filmagem.

Entre 1974 e 1982, escrevi três roteiros e dirigi os filmes Lição de amor (1975), O arremate (1977), adaptação de um conto de Aercio Flavio Consolin, e Ato de violência (1980), a partir de roteiro feito por mim e pelo meu ex-professor de filosofia e amigo Roberto Machado. Nesse período, também montei Vereda tropical (1977), de Joaquim Pedro de Andrade, Terra dos índios (1979), de Zelito Viana, e Eles não usam black-tie (1981), de Leon Hirszman.

RIO–MADRI, 198

Argentina ocupa as Ilhas Falkland
3 de abril, Jornal do Brasil

5 DE ABRIL

Estamos aqui em meio a mais um turbilhão cinematográfico, só que desta vez é para valer. Vocês devem ter sabido da demissão do Celso Amorim[86] e das repercussões do filme Pra frente, Brasil,[87] ainda não liberado pela censura. Agora, em meio a articulações para fazer o sucessor, há a expectativa de saber o que será da Embrafilme daqui para a frente. Com isso tudo nem foi possível falar com os Sabino[88] antes deles embarcarem.

Sábado, em horário inteiramente improvável (23h30) foi ao ar, na TVE, o programa Cinema Rio com a minha participação.[89] O programa em geral estava razoável e meu pequeno filme bastante bom. Não sei quantas pessoas terão visto, mas houve até manifestações de alguns amigos. Mesmo assim, tivemos antes que passar por alguns percalços. A transmissão estava prevista para o dia 31 de março. Às sete da noite, a direção [da TVE] “lembrou-se” que era o dia do aniversário da gloriosa. Julgaram então “inconveniente” a transmissão naquela data! Sábado estava prevista a repetição que acabou sendo a estreia do programa. Depois de protestos e telegramas, conseguimos que o programa seja repetido na próxima quarta-feira, embora de novo só para os corujas, às 23 horas. E o pior é que tudo isso foi provocado por um filme sobre parto com algumas imagens fortes e o meu filme por mostrar as consequências de uma chuva de verão. Realmente, não é possível saber que país é este?

O outro filme documentário[90] continua saindo do forno. Vencidos os últimos percalços devemos ter a primeira cópia em alguns dias.

Além disso, crise financeira absoluta […], eu, há uns dois meses que ando fracativo. […] De qualquer modo, não estou contando isso para preocupá-los, pois parece que essa precariedade é mesmo meu destino. […]

Haig teme que não haja tempo para fazer a paz
13 de abril, Jornal do Brasil

13 DE ABRIL

Imaginem que só agora consigo sentar para terminar esta carta. O filme [Pra frente, Brasil] acabou proibido e da demissão [do Celso Amorim] para cá iniciou-se uma difícil negociação, via Aloísio [Magalhães],[91] em que me envolvi até o pescoço. Agora estamos na expectativa de uma solução vinda do Olimpo brasiliense dentro dos próximos quinze dias. Tudo indica que, apesar da gravidade dos fatos e da repercussão em áreas tão sensíveis poderemos ter um desdobramento positivo, pelo menos no que diz respeito ao nome para o cargo de diretor-geral [da Embrafilme] que tudo indica será o nosso grande amigo Calil.[92] […]

Hoje comecei a montagem do filme do Eduardo Coutinho, Cabra marcado para morrer e com isso abre-se a perspectiva de algum alívio nas finanças.

Por aqui, além da Embrafilme e do futebol, o grande assunto natural são as Ilhas Malvinas. Há até voluntários querendo embarcar solidários com nossos irmãos do Sul. Que dilema, hem? Apoiar o Império ou o regime militar? Tudo indica que os americanos resolverão a questão entre seus dois grandes aliados, mas está dando o que falar.

Espero poder retomar o contato com o Fernando [Sabino] quando ele voltar. No que diz respeito ao Encontro marca­do,[93] estou mais inclinado a não achar grande interesse em uma adaptação para o cinema. Mas confesso que não sei bem se não estarei avaliando mal a questão diante do extraordinário sucesso editorial do livro. […]

Essa carta, a última que meu pai guardou, encerra minha correspondência com meus pais. De Madri, ele foi removido para Brasília, onde dirigiu o Instituto Rio Branco, de 1985 a fevereiro de 1987, quando requereu aposentadoria por tempo de serviço, antes da data compulsória. Em 1986, havia sido professor titular da disciplina Introdução à Diplomacia no mesmo instituto.

Eu, por minha vez, fiz o documentário Chico Antônio, o herói com caráter (1983), completei a montagem de Cabra marcado para morrer (1984) e dirigi o longa-metragem O cavalinho azul (1984). Também fui diretor de Operações da Embrafilme por um ano, em 1986, na gestão do diretor e pesquisador de cinema Carlos Augusto Calil, que desde 1985 passara a ser o diretor-geral da estatal, tendo o crítico José Carlos Avellar como diretor de Operações Não Comerciais.

A partir de 1987, teve início a terceira etapa do meu aprendizado de cinema.

A interrupção da correspondência pode ser atribuída, em parte, à maior proximidade de meus pais e à intensidade do trabalho feito nesse período, ou apenas à perda do hábito de escrever cartas. 


Nota: Agradeço aos que colaboraram para levantar parte substancial das informações contidas nas notas de rodapé – em especial minhas irmãs e meu irmão, mas também colegas, amigas e amigos.

[1] Terra em transe (1967), de Glauber Rocha.

[2] Henri Senghor (1928-2025), diplomata senegalês, anticolonialista e humanista.

[3] Amy Bakaloff Courvoisier (1907-84). Búlgaro de origem, mas de nacionalidade francesa e venezuelana, foi jornalista, poeta, escritor, crítico de cinema e representante do cinema francês na América Latina.

[4] Logo após a cirurgia, o contratempo havido foram coá­gulos de sangue se formando na garganta e que iam me sufocando. Era um sangramento localizado, decorrente de um corte mínimo ocorrido inadvertidamente durante a cirurgia. Para dar os pontos necessários e estancar o sangramento, seria necessário não anestesiar o local, pois do contrário o cirurgião não conseguiria ver o corte. E assim foi feito, a frio, com algumas enfermeiras tentando me manter imóvel e eu urrando, meus gritos ecoando pela Rua das Laranjeiras.

[5] Garota de Ipanema (1967), de Leon Hirszman, que já havia dirigido Pedreira de São Diogo (1962), Maioria absoluta (1964) e A falecida (1965). O principal motivo da minha recusa foi soberba imperdoável – estava me achando o tal por ter montado Terra em transe.

[6] Apelido em família de Sarah, minha irmã do meio, adolescente de 14 anos, na época.

[7] Rosita (1913-85) e Thiers Martins Moreira (1904-70), amigos de meus pais. Thiers, professor, escritor e pesquisador, foi catedrático de literatura portuguesa na Faculdade Nacional de Filosofia (extinta), posteriormente chamada Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ). Dirigiu o Centro de Pesquisa da Fundação Casa de Rui Barbosa e o Serviço Nacional de Teatro (SNT). Escreveu, entre outros livros, O menino e o palacete (1954) e Os seres (1963).

[8] Edméa de San Tiago Dantas (1913-2010), viúva do político Francisco Clementino de San Tiago Dantas (1911-64), ainda morava na famosa mansão da Rua Dona Mariana, próximo de onde meu irmão e eu morávamos.

[9] Silvia, minha irmã mais velha, estava em viagem no exterior. Ela havia sido casada com o diretor de fotografia Luiz Carlos Saldanha de dezembro de 1964 até fevereiro de 1967. Reuniram-se outra vez em dezembro de 1967 e se separaram, em definitivo, em março de 1968.

[10] Luiz Carlos Saldanha foi meu colega no curso de cinema do diretor sueco Arne Sucksdorff (1917-2001), realizado no Rio, entre 1962 e 1963. Foi diretor de fotografia de Maioria absoluta (1964), de Leon Hirszman, e de Jornal do Brasil (1964), de Nelson Pereira dos Santos. Viveu em Roma a partir de 1964 e se casou com Silvia em dezembro daquele ano. Fez a direção de fotografia, com Giorgio Pelloni, do terceiro episódio da série La via del petrolio (1967), de Bernardo Bertolucci.

[11] Em 1966, meu irmão Lauro fez fotografias de cena na filmagem de Terra em transe. Em 1967, aos 17 anos, cursava o terceiro ano científico (equivalente, hoje, ao ensino médio) no Colégio Andrews e foi diretor de fotografia do curta-metragem A falência, de Ronaldo Duarte, premiado como Melhor Filme do 3º Festival Brasileiro de Cinema Amador do Jornal do Brasil – o prêmio não impediu a censura de interditar a exibição do filme em todo o país.

[12] Ana Luisa de Mello e Souza, na época. A partir de 1964, aluna da segunda turma da Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi).

[13] Lourival Gomes Machado (1917-67), professor, crítico e historiador da arte, além de cientista político, morreu em Milão, aos 49 anos. Foi amigo de mocidade dos meus pais.

[14] Gilda Rocha de Mello e Souza (1919-2005), ensaísta e professora de estética, mulher do crítico Antonio Candido.

[15] Antonio Candido de Mello e Souza (1918-2017), crítico literário, ensaísta e professor, autor de Formação da literatura brasileira e Os parceiros do Rio Bonito, entre outros.

[16] Maria de Lourdes Santos Machado (1914-2006), viúva de Lourival Gomes Machado.

[17] Lucio Gomes Machado, filho de Lourdes e Lourival. De 1957 a 1958, fomos contemporâneos no então ginásio do Colégio Rio Branco, em São Paulo. Em 1967, na mesma cidade, estava cursando o terceiro ano da Faculdade de Arquitetura da Universidade Mackenzie.

[18] Cara a cara (1967), primeiro longa-metragem de Julio Bressane.

[19] Vera Regina Amaral Sauer (1912-89), diplomata, chefe da Divisão de Difusão Cultural do Itamaraty, em 1966.  Donatello Grieco (1914-73), diplomata, chefe do Departamento Cultural e de Informações do Itamaraty de 1967 a 1969.

[20] Houve, de fato, reuniões para discutir o projeto de uma revista, mas, pelo que me lembro, nunca passamos disso.

[21] Joaquim Pedro de Andrade (1932-88), diretor, na época, de Garrincha, alegria do povo (1962), O padre e a moça (1966) e Cinema Novo (1967), entre outros. Eu havia sido seu assistente de direção, em 1965, em O padre e a moça, filme que depois montamos juntos.

[22] Gilson Amado (1908-79), educador, escritor e jornalista, pioneiro do rádio e da televisão com finalidade educativa.

[23] Mais um de inúmeros projetos nunca levados adiante.

[24] Andrea Bonomi (1940-2025), professor de filosofia da linguagem. Em 1967, publicou Esistenza e struttura. Saggio su Merleau-Ponty, primeiro livro de sua extensa obra.

[25] No bacharelado em ciências políticas e sociais, iniciado na PUC-Rio, no ano seguinte, fui introduzido à obra de Claude Lévi-Strauss (1908-2009) nas aulas do crítico literário e professor Luiz Costa Lima. Foram lidos trechos de Antropologia estrutural (1958) e O cru e o cozido (1964), primeiro volume de Mitologias.

[26] Com 10 anos, em outubro de 1967, Maria Luisa é minha irmã mais moça. Ela estudava no Saint Andrew’s School, em La Paz, escola católica dirigida, na época, por padres. Dizia-se que havia um fantasma morando na residência da embaixada. Conversar com ele era a estratégia de Maria Luisa para não ficar com medo, caso estivesse sozinha no banheiro. Quando saía da embaixada com nossa mãe para fazer compras, às vezes as duas eram obrigadas a voltar logo por razões de segurança. Estava em curso na Bolívia, desde 1966, a Guerrilha de Ñancahuazú, da qual participavam bolivianos e cubanos liderados por Ernesto Che Guevara.

[27] Jorge Bodanzky, cineasta e fotógrafo. No início da carreira foi repórter fotográfico do Jornal da Tarde e das revistas Manchete e Realidade.

[28] Hermano Penna, cineasta iniciante na época, viria a dirigir Sargento Getúlio (1983) e Fronteira das almas (1986), entre outros.

[29] Fernando Martins Moreira (1937-2013), advogado, segundo filho de Rosita e Thiers Martins Moreira.

[30] Gilda de Mello e Souza foi diretora do Departamento de Filosofia da Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, da USP, de 1969 a 1972, período em que fundou a revista Discurso.

[31] Eu havia retomado, em 1971, o curso de ciências políticas e sociais, após a interrupção feita em 1969 para montar os dois filmes de Glauber Rocha e o de Carlos Diegues.

[32] Aos 21 anos, Lauro estava em Alagoas, trabalhando pela primeira vez como diretor de fotografia de um filme de longa-metragem, S. Bernardo, de Leon Hirszman. Após cursar, em 1968-69, a Escola Superior de Desenho Industrial (Esdi), em 1970 estudou fotografia no Instituto Brooks, em Santa Barbara, na Califórnia, e fotografia colorida em Nova York, antes de ser assistente de câmera de Dib Lutfi no filme A catástrofe (Das Unheil), do diretor alemão Peter Fleischmann (1937-2021), em que atuou também como intérprete.

[33] Otto Maria Carpeaux (1900-78), ensaísta e jornalista austríaco, naturalizado brasileiro. Em 1971, era editor da Enciclopédia Mirador Internacional. Silvia foi contratada como coletora de dados e promovida, depois, a redatora auxiliar.

[34] Apelido, em família, de Maria Luisa Escorel, minha irmã caçula.

[35] Adalgisa Dulce de Oliveira Escorel (1893-1972), tia do meu pai, foi quem o criou, depois da morte da irmã dela, Maria Carmelita Escorel Rodrigues de Moraes, em 1918, vítima da gripe espanhola. Nesse momento, meu pai tinha menos de 2 anos. Em 1971, Titiá foi levada para morar na embaixada em Assunção, onde morreu, no ano seguinte.

[36] Dante Moreira Leite (1927-76), psicólogo, professor e escritor, casado com Miriam Moreira Leite (1926-2013), socióloga, pesquisadora, professora e escritora, irmã da minha mãe. Dante publicou O caráter nacional brasileiro (1969) e O amor romântico e outros temas (1964). Miriam é autora de Retratos de família (1993), e Maria Lacerda de Moura: uma feminista utópica (2005), entre outros.

[37] Referência à análise da poesia de João Cabral de Melo Neto que meu pai havia começado a escrever.

[38] Adaptação para o cinema de Grande sertão: veredas, de Guimarães Rosa, que não foi adiante.

[39] Minha memória e o artigo que Gilda escreveu sobre Os inconfidentes desmentem a afirmação de que ao menos ela tenha adorado o filme. O artigo chamou-se Os inconfidentes e foi publicado na revista Discurso, nº 3, em 1972 (e republicado no livro Exercícios de leitura, 1980).

[40] Liana Aureliano, economista e professora, foi uma das fundadoras e reitora da Faculdade de Campinas de Administração de Empresas e Ciências Econômicas (Facamp). É autora de No limiar da industrialização (1981).

[41] Arnaldo Jabor (1940-2022), diretor de A opinião pública (1967), Pindorama (1970) e Toda nudez será castigada (1973), entre outros filmes.

[42] Toda nudez será castigada, de Jabor, foi baseado na peça homônima de Nelson Rodrigues, que estreou no teatro em junho de 1965. Filmado em 1972, foi o segundo filme de longa-metragem do Lauro como diretor de fotografia. Lançado no ano seguinte, foi considerado imoral pela censura, que expediu um Comunicado de Proibição de Exibição e uma Ordem de Recolhimento dos Certificados, em todo o território nacional, o que levou a Polícia Federal a apreender os rolos da película nas salas de cinema. Em 1973, porém, o filme foi premiado com o Urso de Prata no 23º Festival Internacional de Cinema de Berlim, o que propiciou novo lançamento no Brasil, com cortes.

[43] Henrik Stangerup (1937-98), escritor e cineasta dinamarquês que eu havia conhecido, em Paris, em 1970. Depois, ele veio ao Brasil e estabeleceu uma relação forte com o país. Dirigiu A terra é plana (1977), filmado em Porto Seguro, na Bahia. É autor do livro Na trilha de Lagoa Santa (1999). O título original do filme visto por Candido é Giv gud en chance om søndagen (1970).

[44] Rogério Noel, nascido em agosto de 1951, morreu em abril de 1973. Foi diretor de fotografia do longa-­metragem A culpa, dirigido por Domingos Oliveira, lançado em 1972.

[45] O livro do meu pai, Lauro Escorel, chama-se A pedra e o rio: uma interpretação da poesia de João Cabral de Melo Neto, e foi publicado em 1973 pela Duas Cidades.

[46] A quarta eleição presidencial indireta da ditadura militar estava marcada para 15 de janeiro de 1974 e o presidente tomou posse em 15 de março.

[47] Carlos Castelo Branco (1920-93), colunista do Jornal do Brasil.

[48] “O homem da Petrobras” é referência, supostamente velada, a Ernesto Geisel, presidente da empresa de 1969 a 1973, durante o governo do general Emílio Garrastazu Médici.

[49] Sergio Corrêa da Costa (1919-2005), diplomata, foi ministro interino das Relações Exteriores entre 1967 e 1968. Ocupou também, entre outros postos, o de embaixador em Ottawa (1962-66), Londres (1968-74) e representante permanente junto às Nações Unidas, em Nova York (1975-83).

[50] Carlos Otávio Flexa Ribeiro (1914-91), professor de história da arte e estética, foi deputado federal e subdiretor-geral da Unesco de 1967 a 1970.

[51] Raphael de Almeida Magalhães (1930-2011), advogado, executivo e político, veio a assumir o Ministério da Previdência e Assistência Social apenas em 1986, no governo de José Sarney.

[52] Ana Luisa Escorel é autora do projeto gráfico da capa do livro de Lauro Escorel.

[53] Inez Cabral, cineasta, escritora, diretora de curtas-metragens e organizadora de Notas sobre uma possível “A casa de farinha” (2013), longo poema que João Cabral de Melo Neto, seu pai, deixou inacabado, e da antologia A literatura como turismo (2016), com poemas dele comentados por ela.

[54] Não mandávamos, Lauro e eu, cartas pelo correio diretamente um para o outro com receio de que fossem censuradas.

[55] O que eu vi, o que nós veremos (1973), meu terceiro documentário de curta-metragem.

[56] As celebrações naquele ano do centenário de Alberto Santos Dumont (1873-1932).

[57] Herman Lima (1897-1981), crítico de arte e estudioso da caricatura no Brasil. Autor de História da caricatura no Brasil, em quatro volumes, publicado em 1963.

[58] Humberto Geraldo Pereira, editor da Duas Cidades.

[59] Carlos Jacyntho de Barros (1916-2007), chefe do cerimonial do Itamaraty entre 1967 e 1969, embaixador em Helsinki (1969-73) e em Berlim Oriental (1974-76). Foi padrinho de batismo de Maria Luisa e de casamento de Silvia, minhas irmãs.

[60] Um dos principais jornais da chamada imprensa alternativa, com artigos de oposição ao regime militar. Foi lançado pelo editor Fernando Gasparian em 1972, com projeto gráfico de Elifas Andreato. Seu editor-­chefe foi o jornalista Raimundo Rodrigues Pereira. As restrições impostas pela censura levaram o jornal a encerrar sua atividade em 1977.

[61] Meu depoimento fez parte de uma série chamada Dez anos de cinema nacional e foi publicado no nº 40 do Opinião, em 1973. Nele, escrevi: É muito propalada uma certa ‘união’ entre os integrantes do Cinema Novo. Existe realmente uma amizade entre as pessoas que de qualquer modo perdura, apesar de divergências menores. Agora, nos termos da atuação cinematográfica, que seria o que mais interessa […] tenho a impressão de que essa ‘união’ já desapareceu. Hoje, as pessoas estão entregues a caminhos e soluções individuais, estão praticamente sem contato umas com as outras. Não se trabalha mais em função de princípios comuns. Difícil pensar em qualquer unidade no momento presente. E isso há anos atrás. Quem fazia cinema sentia-se participante de algo que estava acontecendo no Brasil. […] O Cinema Novo não existe mais, não existe nada que possa configurar um movimento, um princípio de solidariedade, uma referência comum.

[62] Lauro estava no Chile quando o golpe de Estado de 11 de setembro de 1973 derrubou o presidente Salvador Allende. Em janeiro de 1972, ele havia sido preso por sua militância política, no Rio de Janeiro, e levado para o infame quartel da Rua Barão de Mesquita. Libertado na segunda semana de fevereiro, chegou a trabalhar como assistente de Dib Lutfi, na filmagem de Quando o Carnaval chegar, antes de embarcar para o Chile, em maio de 1972, indo ao encontro de amigos e de uma atmosfera acolhedora.

[63] Os condenados, primeiro romance de Oswald de Andrade, publicado em 1922.

[64] José Viana de Oliveira Paula, conhecido como Zelito Viana, produtor, entre outros, de Terra em transe e O dragão da maldade contra o santo guerreiro (1969). Como diretor, fez, além de Os condenados, Minha namorada (1970) e Terra dos índios (1979), entre outros.

[65] Amar, verbo intransitivo, primeiro romance de Mário de Andrade, publicado em 1927. O roteiro para este filme, dirigido por mim, foi escrito em parceria com o diretor Eduardo Coutinho (1933-2014).

[66] Luiz Carlos Barreto, repórter e fotógrafo da revista O Cruzeiro, foi produtor de inúmeros filmes, como O assalto ao trem pagador (1962), O padre e a moça (1965), Terra em transe (1967), Isto é Pelé (1974) e Lição de amor (1975), esse último com a participação da Embrafilme. Também foi diretor de fotografia de Vidas secas (1963) e Terra em transe.

[67] Isto é Pelé foi lançado em maio, antes da Copa do Mundo na Alemanha Ocidental, entre 13 de junho e 7 de julho de 1974.

[68] Cinejornal criado em 1957 por Carlos Niemeyer, exibido toda semana em cinemas e que inaugurou um novo estilo de filmar jogos de futebol.

[69] Baú de ossos, primeiro volume das memórias de Pedro Nava, havia sido publicado em 1972. Balão cativo, foi lançado, na verdade, em 1973, e não em 1974. A série continuaria nos anos seguintes com Chão de ferro, Beira-mar, Galo das trevas, O círio perfeito e Cera das almas (póstumo).

[70] A revista Argumento teve quatro números mensais, entre 1973 e 1974. O lema da revista era “Contra fato há argumento”. Deixou de ser publicada por causa das intervenções da censura.

[71] Antônio Francisco Azeredo da Silveira (1917-90), diplomata, ministro das Relações Exteriores no governo Geisel, de 1974 a 1979.

[72] Meu primeiro carro, um Fuscão cor de camarão que ganhei de presente, dado por meus pais.

[73] Prêmio pela direção de fotografia de S. Bernardo, dado pelo Festival de Gramado. Com a quantia em dinheiro recebida, Lauro comprou as latas de filme com as quais fez o documentário de curta-metragem Teatro de la calle, em Lima.

[74] Antônio Houaiss (1915-99), professor e filólogo. Diplomata, foi aposentado em 1964 e teve seus direitos políticos suspensos por dez anos. Foi editor-chefe da Enciclopédia Mirador Internacional.

[75] Feito com apenas algumas cenas filmadas por Barreto e José Medeiros (1921-90). Medeiros foi fotógrafo da revista O Cruzeiro e diretor de fotografia de A falecida (1965), Roberto Carlos em ritmo de aventura (1968), Xica da Silva (1976) e Memórias do cárcere (1984), entre outros filmes.

[76] Corisco Filmes.

[77] Guerra conjugal (1974), filme com roteiro e direção de Joaquim Pedro de Andrade, baseado em contos de Dalton Trevisan (1925-2024).

[78] Minha avó materna, Anna Lifschitz (1902-88), nascida em Secureni, no Império Russo, cidade que desde 1991 faz parte da Ucrânia, com o nome de Sokyryany.

[79] A noite americana (1973), de François Truffaut.

[80] O livro Brochura brasileira: objeto sem projeto, de Ana Luisa Escorel, publicado em 1974 pela José Olympio e o Instituto Nacional do Livro.

[81] Wilson Martins (1921-2010), professor e crítico literário, autor, entre outros de História da inteligência brasileira, em sete volumes. Fez crítica literária de 1954 a 1974 no jornal O Estado de S. Paulo.

[82] As filmagens de Lição de amor só foram iniciadas, afinal, em janeiro de 1975.

[83] Para as filmagens de Relação da visita feita às fortificações portuguesas do litoral nordeste do Brasil, curta-metragem lançado em 1974.

[84] Quando Lauro voltou ao Brasil, em dezembro de 1974, nosso pai estava esperando por ele, no pé da escada do avião.

[85] Murilo Salles, diretor de fotografia de Tati, a garota (1973) e A estrela sobe (1974), ambos de Bruno Barreto, seria também o diretor de fotografia de Lição de amor (1975). Em 1984, passou à direção com Nunca fomos tão felizes, seguido de Faca de dois gumes (1989) e vários outros.

[86] O diplomata Celso Amorim foi diretor-geral da Embrafilme entre 1979 e 1982. Foi ministro das Relações Exteriores (de 2003 a 2010) e ministro da Defesa (de 2011 a 2014). Hoje é assessor-chefe da Presidência para Política Externa.

[87] Pra frente, Brasil (1982), filme com roteiro e direção de Roberto Farias (1932-2018), conta a história de Jofre (Reginaldo Faria), um homem comum que é preso e torturado. Depois de ganhar os prêmios de Melhor Filme e Melhor Edição no 10º Festival de Gramado, em março de 1982, foi considerado pela censura como “capaz de provocar incitamento contra o regime vigente, a ordem pública, as autoridades e seus agentes” – e teve sua exibição vetada. Por ter sido produzido com financiamento da Embrafilme, resultou na demissão de Celso Amorim, sucessor do próprio Roberto Farias na direção-geral da estatal. Em fevereiro de 1983, o filme estreou nos cinemas sem cortes.

[88] O escritor Fernando Sabino (1923-2004) e sua mulher, Lygia Marina de Moraes.

[89] O curta-metragem Primeira página (1982).

[90] Jubileu (1982), documentário de média-metragem sobre a procissão do Jubileu do Senhor Bom Jesus de Matosinhos, em Congonhas do Campo, em Minas Gerais.

[91] Aloísio Magalhães (1927-82), artista plástico e designer. Foi secretário da Cultura, no Ministério da Educação e Cultura (MEC), e, no início da década de 1980, atuava como presidente da Fundação Nacional Pró-Memória.

[92] Carlos Augusto Calil acabou permanecendo no cargo de diretor de Operações Não Comerciais da Embrafilme. O nomeado foi Roberto Parreira, que havia sido diretor executivo da Fundação Nacional de Artes (Funarte).

[93] Romance de Fernando Sabino, publicado em 1956.


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Eduardo Escorel é cineasta. Dirigiu os documentários Antonio Candido, anotações finais, Imagens do Estado Novo 1937-45 e 1968 – Um ano na Vida, entre outros filmes