anais da psicopolítica
Luigi Mazza Ago 2023 12h36
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Prefeitos, vice-prefeitos, secretários, subsecretários, vereadores e líderes comunitários se espremiam no corredor que leva ao plenário da Assembleia Legislativa do Espírito Santo. Alguns conversavam ruidosamente, outros cercavam o bufê montado para a ocasião: bolo de fubá, sanduíches, suco de caixinha e Guaraná Coroa – uma bebida capixaba. No plenário, o locutor anunciava os convidados mais ilustres, conforme iam se acomodando nas cadeiras: Raposão, vereador de Serra; Bocalisa, vereador de João Neiva; Ailton “Véin”, prefeito de Ibitirama. Quando o salão estava lotado, arrematou: “Muito bem-vindos, nesta manhã de sábado, a mais um Diálogos Tucanos pelo Brasil.”
A primeira edição do evento havia sido realizada em Salvador, um mês antes. Agora estava em Vitória e, nas semanas seguintes, percorreria outras capitais do país. Responsável pela ideia, o governador do Rio Grande do Sul e presidente do PSDB, Eduardo Leite, diz que o objetivo dos encontros é conversar com a militância para encontrar “a espinha dorsal” do partido, que passa por uma crise aguda de identidade. Afinal, o que significa ser um tucano?
Prosseguia o locutor, repetindo o que consta no site da legenda: “O PSDB é um dos maiores partidos do Brasil. A seriedade e a eficiência na gestão pública, principais marcas da legenda, estão presentes no governo de três estados e em mais de seiscentas cidades. É o partido com maior população sob seu governo. No Legislativo, o PSDB conta com uma bancada sólida no Congresso Nacional…”
A “bancada sólida” é a menor desde que o partido existe. São catorze deputados (um a mais que o Psol) e dois senadores (metade de um Republicanos), um contraste agudo com seu auge, no governo Fernando Henrique Cardoso, quando chegou a ter 99 deputados e catorze senadores. O PSDB já governou oito estados, hoje governa três – Rio Grande do Sul, Pernambuco e Mato Grosso do Sul, que, juntos, concentram apenas 11% do eleitorado nacional. No ano passado, pela primeira vez desde sua fundação, não lançou candidato à Presidência da República. Pior: perdeu o governo de São Paulo, que comandou, com interrupções de apenas alguns meses, ao longo de 28 anos. Com a morte de Bruno Covas, em 2021, perdeu também a prefeitura paulistana, ocupada hoje pelo emedebista Ricardo Nunes, que arrasta asa para o bolsonarismo. Embora ainda seja um partido com forte presença municipal, também vem encolhendo nesse quesito: em 2020, elegeu 30% menos prefeitos que na eleição anterior. Só governa uma capital: Palmas, a menor do país, com 300 mil habitantes. Nem o mais otimista dos tucanos descarta uma derrota ainda maior no ano que vem.
Diante desses escombros, a pergunta faz todo o sentido: depois de comandar os destinos do Brasil por oito anos e ser o principal antagonista do PT por anos a fio, o que é um tucano hoje?
Na entrada da Assembleia, os convidados eram presenteados com um suvenir: um porta-cartão azul para celular com o logotipo do evento e o slogan do PSDB – “Pelo Brasil”. Fichas de filiação ao partido ficavam à disposição, numa mesinha. Quando, pouco depois das nove da manhã, Eduardo Leite, a estrela do dia, apareceu no plenário, houve uma tímida salva de palmas. Vestia seu look padrão: camisa social branca e calça jeans. A camisa para fora da calça, num gesto de informalidade. No peito, um broche em forma de tucano. Caminhou em direção à tribuna e, sorridente, parou para tirar uma dezena de fotos com seus apoiadores. Cumprimentou de Raposão a Bocalisa.
Mordiscando um pão árabe, do lado de fora do plenário, a vereadora Brunella Santos, de Itarana, lamentava a situação do partido. Tem 35 anos, é filiada há mais de dez, está no segundo mandato. Escolheu o PSDB por acreditar que os tucanos sempre deram apoio às mulheres – “e porque nunca fui de esquerda”. Hoje, disse, o partido não sabe o que quer. “Parece que estagnou no tempo. Tá faltando se posicionar. Em tudo”, avalia, talvez ignorando a antiga fama dos tucanos como uma espécie política que vive pousada em cima do muro.
Enquanto falava, a vereadora foi abordada por um dos organizadores do evento. O homem, carregando na mão uma prancheta, explicou a Santos que, depois de discursar, Leite abriria o debate para perguntas da plateia. Eles gostariam que a vereadora fizesse o seguinte questionamento, ipsis litteris: “O que o partido tem feito e fará, a nível nacional, com a pauta da inclusão de pessoas com deficiência?” Um pouco constrangida, a vereadora aceitou a pergunta pronta. Chegado o momento, foi a primeira a falar no microfone. Leite agradeceu a questão e respondeu serenamente. Sabia de cabeça os números de atendimento a crianças autistas na cidade gaúcha de Pelotas, onde foi prefeito.
O plenário lotou. Havia em torno de duzentas pessoas, algumas em pé. Na sala de imprensa, nem uma alma. Seguindo a tradição, os primeiros a falar ao microfone foram os políticos locais. Mazinho dos Anjos, deputado estadual que entrou para o PSDB faz pouco mais de um ano, defendeu apaixonadamente o partido e terminou o discurso com um apelo divino: “Se Deus quiser, nós vamos ter futuramente um presidente do Brasil do PSDB, e esse presidente vai ser Eduardo Leite.” Aplausos e gritos de apoio.
O governador foi o último a falar. Pegou o microfone e, ao contrário dos colegas que o antecederam, desceu da tribuna para o chão do plenário, misturando-se à plebe. “Vou pedir licença para falar aqui de baixo, ao lado de cada um de vocês. A gente precisa entender que a mudança que a gente quer na política está mais do lado de cá” – disse, apontando para a plateia – “do que do lado de lá” – completou, com o dedo virado para os tucanos na tribuna. Provocou os aplausos mais animados daquela manhã.
Continuou: “O PSDB passa por um momento de crise? Passa. Mas enquanto a gente tiver uma base que acredita, que se envolve, que se engaja, a gente tem futuro e tem esperança.” Explicou que o propósito daquele encontro era ouvir as “angústias” dos tucanos para, com base nisso, “organizar o que a gente pensa, quais são as nossas bandeiras, e como a gente vai comunicá-las melhor”. O governador ouviu e respondeu, ao todo, cinco perguntas.
Em dado momento, Leite interpelou a plateia: “Quem aqui é casado levanta a mão, por favor.” Dezenas de braços para cima. “E quem aqui é casado há mais de trinta anos?” Poucos braços para cima, entre eles o de uma vereadora tucana, na casa dos 60 anos. O governador pediu que ela ficasse de pé. Pôs um dos braços em seu ombro e, como um animador de auditório, passou a entrevistá-la, microfone em mãos.
– Trinta anos de casada… Vocês brigaram em algum momento? – perguntou Leite.
– Várias vezes – disse ela, arrancando risos no plenário.
– Vocês concordam em tudo?
– Não.
– Quando vocês discordam, vocês xingam um ao outro? Param a conversa?
– Dá um tempo, depois volta a conversar.
– Isso aí – concluiu Leite. – E quando conversam, buscam ajustar os ponteiros e olhar mais o que une do que o que separa. Palmas!
A vereadora, tímida, sentou-se de volta na cadeira. O governador, então, fez uma analogia. “Se mesmo com a pessoa que a gente mais ama a gente não concorda em tudo, como a gente vai querer que na sociedade, com milhões de pessoas, a gente pense exatamente da mesma forma, defenda as mesmas coisas? É claro que não dá. Mas temos que saber respeitar.” Ser tucano, para Leite, é isso: “Ajudar o país a ter um caminho de serenidade, de razoabilidade, de equilíbrio, de bom senso.”
Terminado o evento, diante de assessores com câmeras em punho, os políticos formaram um semicírculo no plenário da Assembleia – Leite ao centro – e, a plenos pulmões, cantaram Parabéns pra Você. No dia seguinte, 25 de junho, o PSDB completou 35 anos.
Quando políticos e intelectuais descontentes com o MDB fundaram o Partido da Social Democracia Brasileira (PSDB), em 1988, Eduardo Leite tinha 3 anos de idade. A legenda, encabeçada por opositores da ditadura, muitos deles formados intelectualmente no marxismo, inspirava-se na centro-esquerda europeia, de inclinação liberal. Mas não tardou para que o partido caminhasse para a direita. No poder, com Fernando Henrique Cardoso, o PSDB fez uma aliança de unha e carne com o PFL, cuja origem remonta à Arena, partido de sustentação da ditadura, que depois trocou o nome para DEM, depois para Democratas e, mais recentemente, se diluiu dentro do União Brasil.
Durante os governos do PT, os tucanos se acomodaram no papel de porta-vozes da classe média antipetista, já que a raia da esquerda estava ocupada e o voto dos mais pobres era majoritariamente lulista. Foram derrotados pelo PT em quatro eleições presidenciais consecutivas, até que, em 2018, perderam o posto de oposição ao petismo para o bolsonarismo, que ajudaram a gestar. Eis a crise de identidade: a legenda inspirada na centro-esquerda europeia acabou como braço auxiliar da extrema direita.
Aloysio Nunes, a língua mais afiada da velha guarda tucana, recorre a Maquiavel para descrever a debacle tucana. Há dois conceitos centrais na obra do filósofo florentino: fortuna e virtù. O primeiro diz respeito aos fatos objetivos e incontroláveis da história. O segundo alude à capacidade humana de agir sobre eles. Para o ex-senador, fortuna foi o maremoto do bolsonarismo, que engolfou o sistema político em 2018. E virtù foi o que faltou ao PSDB. “Não tivemos inteligência, vontade para reagir. Fomos todos contaminados pelo que Lênin chamava de cretinismo parlamentar, achando que a vida se resumia ao Congresso”, diz ele, referindo-se ao bolchevique Vladimir Lênin, cuja obra revolucionária, na prática e na teoria, deu origem ao leninismo.
O baque levou o PSDB ao divã. O ex-deputado federal João Almeida, um dos mais hábeis articuladores tucanos, homem da máquina, reflete: “Logo depois da fundação do partido, o Fernando Henrique se elegeu presidente. O PSDB chegou muito cedo ao poder, antes de cristalizar suas ideias, seu propósito. Agora veio essa última eleição, um desastre previsto, e as pessoas têm o dever de entender verdadeiramente o que são.”
A tarefa do autoconhecimento coube a Eduardo Leite, 15º presidente da história do PSDB. Ele anda tentando decifrar a alma tucana para descobrir o que fazer daqui em diante. Dobrar a aposta no antipetismo? Resgatar o projeto original de uma social-democracia mais ou menos de esquerda? Cerrar fileiras na direita democrática? No começo do ano, tomado por um turbilhão de dúvidas, Leite resolveu se aconselhar com o apresentador Luciano Huck e o ex-governador do Espírito Santo, Paulo Hartung. Os dois, além de amigos, são mentores políticos do jovem tucano. Depois de ouvir as ponderações de Leite, recomendaram que contratasse os serviços de Irina Bullara, uma executiva paulistana com trejeitos de Faria Lima.
Bullara acaba de fazer 39 anos (é sete meses mais velha que Leite) e, durante três anos, presidiu o RenovaBR, uma escola de políticos criada por Eduardo Mufarej, empresário do mercado financeiro que, em 2018, chegou a ser cotado para o Ministério da Educação de Bolsonaro. Bullara já conhecia o trio Huck, Hartung e Leite, que gravita em torno da escola. Antes do RenovaBR, ela trabalhou na Odebrecht, foi diretora geral do Sistema Anglo de Ensino e ganhou fama de boa gestora de pessoas. Segundo ela recorda, Leite a procurou dizendo: “Ó, tô assumindo como presidente do PSDB e ia adorar que você me ajudasse a reconstruir o DNA do partido.”
A executiva é a mente por trás dos Diálogos Tucanos pelo Brasil. Nunca trabalhou com um partido político, ou engajou-se na definição de uma plataforma política, tampouco teve militância partidária, mas avalia que “esse processo de escutar, propor diretrizes, analisar, honrar o passado e olhar o futuro com inovação é muito parecido com basicamente todas as minhas experiências ao longo da vida”. Mestre em empreendedorismo e reconhecida como young global leader pelo Fórum Econômico Mundial, Bullara quer resgatar a autoestima dos tucanos – com inovação. Em março, abriu uma empresa de consultoria, a Bullara.Co, e contratou três funcionárias para ajudá-la na tarefa. O PSDB não quis divulgar o valor do contrato.
Em Vitória, Bullara zanzava pelo plenário, certificando-se de que tudo corria bem. Sua equipe preparou uma apresentação de PowerPoint que Leite exibiu para a plateia, num telão. Um desavisado que chegasse naquele momento poderia pensar que se tratava do lançamento de uma startup. Um dos slides, com o título “Nossa visão”, dizia: “PSDB irá retomar o protagonismo nacional para reconstrução do Brasil AO CENTRO”, gritando em maiúsculas. O slide seguinte, intitulado “Nossos valores”, exclamava: “Nem Estado mínimo, nem máximo: Estado necessário para fazer acontecer!” A apresentação falava ainda em “tomada de decisões com base em evidências”, lema repetido à exaustão em eventos e materiais do RenovaBR.
O grand finale foi um vídeo comemorativo do aniversário do PSDB. A peça destaca a militância de FHC na campanha pelas Diretas Já e homenageia tucanos que fizeram história. São citados: Teotônio Vilela, Franco Montoro, José Serra, Mário Covas, José Richa, Tasso Jereissati, Bruno Covas. Outros nomes são cuidadosamente omitidos, como Geraldo Alckmin, João Doria, Aécio Neves. “Doria e Alckmin se desfiliaram do PSDB”, justificou Leite, ao deixar o plenário. Talvez notando que a explicação não contemplava Aécio, que continua filiado ao partido, prosseguiu: “Estamos valorizando os líderes do passado e os que estão em posição eminente no presente.”
Aécio Neves, cujo primeiro mandato ocorreu em 1987, deu ao PSDB a maior votação de sua história: 51 milhões de votos, em 2014. Mas perdeu a eleição para Dilma Rousseff, que teve 3,5 milhões a mais. Inconformado, Aécio insinuou, com base em nada, que poderia ter havido fraude na eleição e pediu uma auditoria nas urnas. Em retrospecto, pode-se dizer que esse foi o ato inaugural do bolsonarismo.
Os tucanos hesitaram em aderir ao impeachment de Dilma em 2016, mas aderiram. Em seguida, hesitaram em participar do governo de Michel Temer, mas participaram. O PSDB, no entanto, não ocupou o vácuo de poder deixado pelo PT. Aécio, que se imaginava favorito à Presidência em 2018, foi atropelado pelas denúncias de corrupção da Operação Lava Jato e submergiu, levando consigo o partido. O candidato tucano acabou sendo Alckmin, que, embora cercado por uma coligação mastodôntica de partidos, conseguiu só 5 milhões de votos – um décimo de Aécio quatro anos antes. Jair Bolsonaro, candidato da extrema direita, filiado a um partido nanico, teve 49 milhões de votos no primeiro turno. O eleitor tucano havia se transmutado em eleitor bolsonarista. A bancada do PSDB na Câmara caiu pela metade.
A derrota só não foi mais estrondosa porque João Doria, tucano neófito, se elegeu governador de São Paulo, mas abraçado ao bolsonarismo. Em 2019, com uma caneta poderosa num partido enfraquecido, Doria tentou apoderar-se do PSDB. Maquinou pela expulsão de Aécio Neves para extirpar a mácula da Lava Jato. Foi derrotado e Aécio permaneceu. No começo de 2021, sentindo o risco de ser sabotado em sua ambição presidencial, tentou se tornar ele próprio presidente do PSDB, afastando Bruno Araújo, até então seu aliado. Foi derrotado e Araújo permaneceu.
Magoado, o presidente tucano pegou um voo para Porto Alegre, se encontrou com Eduardo Leite e, na mesa de jantar, surpreendeu o governador gaúcho: queria que ele se candidatasse à Presidência da República, peitando Doria. Mesmo incrédulo, Leite topou. Assim, o PSDB anunciou que faria prévias para escolher seu candidato – velho sonho de alguns tucanos históricos, inspirados na tradição americana. Arthur Virgílio, ex-senador pelo Amazonas, também entrou no páreo, mesmo sabendo não ter chances.
O desfecho é conhecido: Doria ganhou as prévias, mas perdeu o partido, que acabou bandeando-se para o colo de Simone Tebet (MDB-MS). Leite, derrotado, não quis abrir mão do sonho presidencial e cogitou se filiar a outras legendas para manter a candidatura, mas, aconselhado por amigos prudentes, desistiu da ideia e disputou a reeleição no Rio Grande do Sul. Passou para o segundo turno por uma margem microscópica – 2 441 votos a mais que o terceiro colocado – e conseguiu reeleger-se, menos por seus méritos e mais pelos deméritos do adversário, Onyx Lorenzoni (PL), um bolsonarista periclitante que fora pau para toda obra no governo Bolsonaro.
O PSDB, sem um candidato presidencial, amargou o pior desempenho eleitoral de sua história. Em São Paulo, Rodrigo Garcia – tucano de última hora, aliado circunstancial de Doria – nem chegou ao segundo turno. Seguiu-se uma debandada. Doria se desfiliou do partido e voltou a se dedicar ao lobby empresarial, fazendo encontros em diferentes pontos do planeta, cujas atrações são noticiadas por um colunista de jornal por vez. Virgílio também deixou a legenda, diz ter “desprezo” pelo PSDB e tornou-se um bolsonarista de capa e espada. Garcia resolveu passar uma temporada na Flórida com a família, estudando inglês. E Araújo largou a política para se dedicar aos negócios, com seu escritório de advocacia no Brasil e sua empresa de representação comercial em Dubai.
Sobrou Leite.
Eduardo Figueiredo Cavalheiro Leite se formou politicamente no PSDB da direita, embora seu pai, um advogado de certo renome, fosse um tucano das antigas. Em 2008, aos 24 anos, o jovem gaúcho começou uma carreira fulminante: elegeu-se vereador em Pelotas, sua cidade natal, e cumpriu apenas um mandato. Em seguida, depois de uma fracassada candidatura a deputado estadual, elegeu-se prefeito de Pelotas, e também cumpriu apenas um mandato. Por fim, elegeu-se governador e, depois de ser preterido em sua ambição presidencial, deixou de ser o crítico vigoroso que sempre fora contra o instituto de reeleição – e voltou ao governo gaúcho. Fugindo à regra dos presidentes do PSDB, nunca passou pelo Congresso Nacional, uma carência, dizem os tucanos, que explica sua falta de tato político.
Em 2018, Leite apoiou Bolsonaro contra Fernando Haddad, uma decisão que deixaria o velho PSDB, do qual ele se apresenta como herdeiro, de cabelos em pé. Tempos depois, ele disse ter se arrependido. Seu partido, no entanto, demorou ainda mais para se arrepender. Só aderiu formalmente à oposição ao governo Bolsonaro em setembro de 2021, quando o país já beirava 600 mil mortes pela Covid e o atraso na compra das vacinas já era um escândalo conhecido.
A opção pela extrema direita deixou sequelas. De um lado, há os tucanos históricos, que declararam voto em Lula na disputa contra Bolsonaro em 2022, mas que já não são ativos na vida partidária. Do outro, há os tucanos com mandato, que, permeáveis à pressão do eleitor, mantêm um pé na canoa bolsonarista. A encruzilhada tem consumido o partido e Leite tenta se equilibrar entre as duas facções. Seu projeto, ele costuma dizer, é consolidar o PSDB como “centro democrático” do Brasil.
A assessora de um emedebista graúdo, interlocutor frequente dos tucanos, comenta que o PSDB “é um partido pequeno com ego de partido grande”. Por que caberia a ele ser o centro democrático do país, havendo uma infinidade de partidos de centro-direita e centro-esquerda de igual tamanho ou maiores? “Porque ele formula”, responde João Almeida. “Agora, só vai ter espaço para entrarmos nessa briga se tiver uma formulação mais clara. ‘Ah, eu quero ser centro.’ Mas e aí, cara pálida? Isso já fez presidente da República?”
Diz Aloysio Nunes, o tucano histórico: “O PSDB é incapaz de definir uma linha política porque faz aposta na unidade a qualquer preço, para manter suas bancadas. É incapaz de fazer uma qualificação interna, com medo de perder os elementos mais à direita, ou talvez mais à esquerda. Qual é a visão do PSDB sobre os problemas da reforma tributária? E em matéria de política externa? Nenhuma palavra.”
Tucanos antigos e novos queriam que Eduardo Leite tivesse condenado, enfaticamente, a recepção calorosa que Lula deu ao venezuelano Nicolás Maduro, em maio. Ele não deu um pio. Os colegas atribuem seu silêncio ao cargo que ocupa – já que, como governador, depende do governo federal para destravar obras em estradas, renegociar dívidas, atrair investimentos. Um conflito de interesses inédito e desconfortável para o PSDB.
Aloysio Nunes não perdoou. Numa entrevista recente ao jornal O Estado de S. Paulo, o ex-senador e ex-chanceler debochou de Leite e chamou Irina Bullara de “influencer”. Dias depois, o partido publicou uma nota sutilmente irônica, agradecendo a ele por suas contribuições e o chamando de “ex-militante”. No site Metrópoles, Nunes retrucou em seguida, replicando o tom irônico: “Como é possível militar no PSDB hoje?”
Semanas depois, em conversa com a piauí na ampla sala de estar de seu apartamento em Higienópolis, Aloysio Nunes sustentou a artilharia. Antes de começar a entrevista, o ex-senador e ex-chanceler de Temer quis entender melhor o escopo da reportagem. Ao ouvir a resposta, replicou: “Então é um necrológio?” Luciana Moherdaui, sua assessora de imprensa, soltou uma risada. Nunes riu junto.
“Eu li uma entrevista do Eduardo Leite, coisa de um mês atrás. Você pode espremer aquilo de tudo quanto é jeito que não sai uma ideia sobre o Brasil. Nada. ‘Ah, o PSDB é um partido de centro.’ O que quer dizer isso? É um partido que se posiciona tendo como limite os outros? O que ele é em si mesmo?”, perguntou o ex-senador, inconformado. Nunes é da opinião de que Leite deveria apresentar um texto definindo a linha política do PSDB e levá-lo à votação no partido – tudo da maneira tradicional, em vez de perder tempo com “dinâmicas de grupo”, como se refere aos Diálogos Tucanos pelo Brasil.
Nunes acha que Aécio Neves tem um papel a cumprir. “Saia da toca! Saia da toca!”, ele conta ter dito ao colega mineiro, aludindo ao marasmo em que o tucano se encontra desde que foi abatido pela Lava Jato. Os dois foram colegas de Senado por vários anos. Para Nunes, Aécio é o único nome com projeção nacional no PSDB de hoje, que é escutado quando dá uma declaração à imprensa. O atual líder tucano na Câmara, Adolfo Viana (PSDB-BA), é, por outro lado, “um deputado paroquial, ninguém conhece”.
Segundo Nunes, Aécio respondeu ao seu chamado dizendo que não era bem assim, que ainda estava enrolado com processos da Lava Jato. “Eu disse a ele pra deixar de ser besta. Ele já foi absolvido de tudo. O PSDB se acoelhou com essa história da Lava Jato. O PT foi para a briga. O PSDB se acoelhou”, lamenta Nunes, ele próprio investigado pelos procuradores curitibanos, num inquérito que acabou não resultando em denúncia.
Aécio se reelegeu deputado federal no ano passado, ainda que com 21 mil votos a menos que na eleição anterior. Em julho, foi absolvido no processo que mais manchou sua imagem: a gravação em que aparece pedindo empréstimo de 2 milhões de reais para Joesley Batista, dono do frigorífico JBS que grampeou meia República e quase derrubou o governo Temer. Em agosto, na edição dos Diálogos Tucanos em Brasília, Aécio parecia um novo homem. Surpreendeu a todos com uma barba grisalha cerrada. Sorria o tempo todo. “Olha o prestígio dele”, comentou o deputado federal Paulo Abi-Ackel (PSDB-MG), ao se deparar com uma fila de pessoas aguardando por uma selfie com Aécio. Ninguém foi mais tietado do que ele.
Sentado numa mesa comprida, no gabinete da liderança do PSDB, o senador Izalci Lucas (PSDB-DF) parece sereno. Os cabelos grisalhos, as olheiras profundas e o jeito de falar, sempre lento, traduzem um certo tédio. Contrastando com sua figura sorumbática, lê-se num quadro branco, em uma das salas do gabinete: “Bom dia, Izalci lovers!”
“O eleitor do Bolsonaro é o eleitor do PSDB”, constatou Izalci, numa manhã de julho, sem fazer disso um problema. Até 2021, ele foi vice-líder do governo Bolsonaro no Senado. Avalia que Aécio Neves acertou ao pôr em dúvida a eleição de 2014 – “acho que tinha que aprofundar”. Nos últimos anos, gabaritou no bolsonarismo ao votar pela facilitação do acesso a armas e em favor do homeschooling, além de criticar uma suposta doutrinação de esquerda nas escolas. Declarou voto em Bolsonaro contra Lula.
O senador, conforme ele próprio ressalta, é do PSDB “desde Mário Covas”, mas não está em linha com a velha guarda tucana, que sente urticária só em pensar no bolsonarismo. “Sempre fui mais de centro-direita”, diz. Ele fala do PSDB com desânimo. Acha que o partido não deve mais ruminar sobre Plano Real, estabilização da economia e conquistas do século passado. “Precisamos apresentar um novo programa. A gente tem que se posicionar”, explicou. “Lógico que, com 35 anos, você não é o mesmo que com 16, 17, 18 anos”, prosseguiu, referindo-se ao partido como uma pessoa. “Mas o PSDB foi fundamental para o Brasil.” E pôs-se, então, a falar do Plano Real, da estabilização da economia e conquistas do século passado.
O gabinete da liderança tucana fica, nas palavras de uma assessora, “no Lago Sul do Senado”. Quer dizer que está localizado numa área tão valorizada quanto o bairro mais rico de Brasília – e do Brasil. A repartição, bastante ampla, fica no Salão Azul, de frente para o plenário e ao lado do gabinete do presidente da Casa, Rodrigo Pacheco (PSD-MG). É ocupada pelo PSDB desde 1988, quando FHC era o líder tucano no Senado. Depois vieram Mário Covas, Arthur Virgílio, Alvaro Dias, Aloysio Nunes…
Por muito tempo, o PSDB foi dono de um latifúndio no Senado. No segundo governo FHC, contava com catorze senadores (o PT, no auge, teve treze). Neste ano, começou a legislatura atual com apenas quatro, e foi logo minguando. Em janeiro, a senadora Mara Gabrilli trocou o tucanato pelo PSD. Em junho, o senador Alessandro Vieira bandeou-se para o MDB. Não deram muitas explicações, e nem precisavam. “Hoje o PSDB não é atrativo nas questões pragmáticas: nominata, recursos, tempo de televisão”, reconhece Izalci, que agora é líder de uma bancada de apenas dois senadores – ele próprio e Plínio Valério (PSDB-AM). Os dois têm sido cortejados por meia dúzia de partidos, mas se mantiveram fiéis até agora. “Isso incomoda, você fica na vitrine”, desabafa Valério. “Parece que você está à venda.”
A condição para ocupar um gabinete de liderança é que o partido tenha, no mínimo, três senadores. Por isso, no dia seguinte à desfiliação de Alessandro Vieira, Izalci recebeu uma carta de despejo. A rapidez com que a cartinha chegou foi, na visão dos tucanos, uma retaliação, pois, em fevereiro, ele apoiou o bolsonarista Rogério Marinho (PL-RN) para presidente do Senado, em oposição a Rodrigo Pacheco, o eleito. Depois de reclamar da pressa, os tucanos conseguiram uma extensão no prazo. Agora, têm até o meio de setembro para desocupar o gabinete. Se, até lá, conseguirem filiar outro senador ao partido, atingindo a cota mínima, poderão permanecer onde estão. Não precisarão, com isso, demitir os cerca de quinze servidores que trabalham no gabinete.
“Tivemos uma conversa muito boa com o Styvenson [Valentim, do Podemos-RN]. Outros poderiam vir. Mas como vou convidar um senador sem dar pra ele o comando no estado?” O PSDB potiguar está nas mãos do presidente da Assembleia Legislativa do Rio Grande do Norte, Ezequiel Ferreira, que não está interessado em sair. É um xadrez paroquial complicado: se os tucanos derem a Styvenson o que ele quer, correm risco de os dez deputados estaduais do PSDB se filiarem ao PL– o que não seria estranho, já que são próximos do bolsonarista e ex-tucano Rogério Marinho.
Izalci acha que negociações como essa cabem ao presidente do partido. Num grupo de WhatsApp dedicado à articulação política do PSDB, onde estão figurões tucanos, o senador diz ter cobrado Eduardo Leite “quatro ou cinco” vezes. “Mas cadê a resposta?” Em agosto, finalmente, Leite telefonou para Styvenson e ouviu suas demandas. Até a publicação desta reportagem, a negociação estava empacada. Izalci pondera que, por ser governador, Leite não tem tido tempo para essas coisas.
Eduardo Leite está imbuído de uma missão, digamos, psicanalítica. “Além das questões pragmáticas, de estrutura e estratégia eleitoral imediata, a gente precisa discutir o profundo”, ele diz. Sob sua batuta, Irina Bullara conduziu entrevistas com tucanos de todos os matizes para tentar captar o feeling do partido. A ideia é extrair daí alguma conclusão sobre o futuro. Foram feitas mais de cem entrevistas.
Pouco depois de contratar Bullara, Leite convocou os presidentes dos 27 diretórios do PSDB para uma reunião virtual. Novamente, houve uma apresentação de slides. Um deles anunciava: “O sonho já tem forma.” A forma, no caso, era a de um triângulo equilátero. Cada lado do triângulo correspondia a uma bandeira do partido: economia sustentável, respeito à diversidade e educação. No meio da forma geométrica, lia-se: “Centro democrático.”
Na ocasião, Bullara pediu aos dirigentes que baixassem um aplicativo de celular e, nele, respondessem a um questionário. Foram confrontados com perguntas como: “Você é a favor ou contra a redução da maioridade penal?” e “É a favor ou contra a legalização da maconha?”. Também tiveram de responder se acham que o PSDB deve mudar de nome ou de cores, e até mesmo como situam o partido no espectro político: é centro-direita? Centro-esquerda?
O deputado Paulo Abi-Ackel, presidente do partido em Minas Gerais, participou do encontro. Também conversou com Bullara em outras ocasiões. Aliado de Leite e membro da Executiva Nacional, ele recorda que as perguntas da consultora diziam respeito a como o PSDB deve se comportar em relação a Lula. Ser oposição? De que tipo? “Eu acho que ela tenta entender qual é a média do pensamento do partido”, disse. “São subsídios importantes pro Eduardo pensar.”
O resultado disso tudo deve ser um aggiornamento do PSDB, defende o ex-senador José Aníbal. Um dos poucos tucanos históricos ainda envolvidos com o dia a dia do partido, ele conta que Bullara “ficou sensibilizada” ao ouvi-lo. Os dois estiveram juntos mais de uma vez. “Eu disse a ela que o partido tem que voltar à cena com ideias concretas, disruptivas.” E acrescenta: “Acho uma bobagem essa coisa de oposição ao governo Lula. Claro que nós somos oposição, mas temos que tirar o Brasil dessa enrascada.” Aníbal declarou voto em Lula no segundo turno contra Bolsonaro.
Paulo Serra, o prefeito de Santo André, tesoureiro do PSDB e aliado de Leite, diz que a possibilidade de o partido mudar de nome ao final desse processo “não existe, mas não está descartada”. João Almeida é menos quântico. Pondera que talvez seja hora de rifar a letra P. “Social Democracia Brasileira. Só isso, sem partido. Acho legal, pode ser uma boa ideia.” Mas há senões. Segundo Leite, uma pesquisa de opinião contratada pelo partido mostrou que o PSDB é a terceira força política mais lembrada pelo eleitor brasileiro, depois de Lula e Bolsonaro. Ou seja, a marca ainda é forte – o que pode ser bom. Ou ruim.
“Nós identificamos que o PSDB tem, por um lado, um passivo de ser um partido já com história, e, consequentemente, erros e acertos. E tem também um ativo muito presente”, diz o governador. Sobre uma possível mudança de nome, ele desconversa. “Agora é hora de discutir o conteúdo. Uma vez que a gente tenha o conteúdo consistente e sólido, aí vamos para a etapa de: ‘Como a gente comunica esse conteúdo? Ele envolve mudança de marca e posicionamento?’”, explica Leite, com a fluência de um publicitário. “Senão é meramente cosmético.”
No final de agosto, na edição dos Diálogos Tucanos em Brasília, veio à luz o relatório Brasil 2045, um esboço de programa partidário feito por Bullara com base nas entrevistas que conduziu. A nata do PSDB compareceu ao evento, realizado num moderno centro de convenções. Leite, munido do bom e velho PowerPoint, apresentou o documento à plateia. Sessenta páginas recém-saídas do forno, com um resumo do que os tucanos devem pensar sobre cada aspecto da vida brasileira: economia, meio ambiente, educação. “Um sobrevoo”, resumiu José Aníbal. Para facilitar a leitura, as palavras-chaves de cada tópico foram resumidas em hashtags. Descobre-se que os tucanos defendem, por exemplo, #ResponsabilidadeFiscal, #ProteçãoAmazônia e #ProfessoresValorizados.
Cuidou-se também do cosmético. Finda a apresentação, Leite exibiu, nas telas de LED do salão, a nova identidade visual do partido: saiu a bandeira do Brasil, remanescente da era Doria, entrou um tucano de traços minimalistas, azul, verde e amarelo. “Estamos trazendo o tucano de volta!”, celebrou o governador, sob aplausos. Por ora, o PSDB ainda se chama PSDB.
A contratação de Irina Bullara e seu trabalho de consultoria não são unanimidade entre os tucanos. “Isso para mim margeia o ridículo”, espanta-se Orlando Morando, prefeito de São Bernardo do Campo, adversário mordaz de Leite. Procurado pela consultora, Morando se recusou a dar entrevista. “Política eu faço com quem tem voto. Com amador e consultor não se ganha eleição.”
Morando, aliado incondicional de Doria, move um processo contra Eduardo Leite e o PSDB, acusando-os de terem feito uma gambiarra estatutária, que envolveu renúncias em série, para que o governador pudesse assumir o partido. Em função disso, as convenções tucanas foram adiadas em alguns meses: as municipais ficaram para agosto e setembro; as estaduais, para outubro; e a nacional, para novembro. Nelas, são eleitos os dirigentes do partido em cada parte do país. O adiamento foi pensado para evitar que diretórios como o de São Paulo, onde Leite ainda não formou maioria, tomassem decisões contrárias à sua vontade. O governador gaúcho é, para todos os efeitos, um presidente provisório. Será presidente de fato quando – e se – for eleito na convenção.
Como Morando só se refere à direção do PSDB como “fraudulenta e golpista” – isso nos dias de bom humor –, espera-se que a qualquer momento ele deixe o partido. Se acontecer, será mais um baque: com 811 mil habitantes, São Bernardo é a cidade mais populosa governada por um tucano no Brasil.
Apesar das incertezas, das brigas e dos rachas, Aécio Neves está otimista. “O nosso pior momento já passou”, afirma o deputado, que participou da articulação para levar Leite à presidência do partido. Ele reconhece que o colega anda tendo dificuldades no trato político, mas diz que o problema está sendo superado. Leite, diz Aécio, é a chave para que o PSDB volte a falar com os eleitores que perdeu nos últimos anos: os jovens e “os setores mais liberais da economia”.
Como é hábito entre os tucanos, Aécio cita uma pesquisa, realizada pelo Ipec em março, segundo a qual 57% dos eleitores gostariam de ter uma opção que não fosse nem Lula, nem Bolsonaro. “Quando a Simone Tebet opta por fazer parte do governo Lula, ela reabre para o PSDB uma avenida no centro”, diz o deputado mineiro. “Temos que saber ocupar.” Na eleição de 2022, a tal avenida pareceu uma ruela, considerando que o eleitorado praticamente ignorou, ainda no primeiro turno, qualquer nome que não fosse Lula ou Bolsonaro.
É difícil achar, no PSDB, quem concorde com a leitura de que “o pior já passou”. Isso porque as eleições municipais do ano que vem prometem um cenário ainda pior que 2020. Como o PSDB deixou o governo de São Paulo, muitos prefeitos tucanos estão abandonando o partido para se filiar à base do novo mandatário, Tarcísio de Freitas (Republicanos-SP). “Prefeito não fica fora de governo”, diz, resignado, o tucano João Almeida. Ele foi convidado por Leite para ajudar na articulação do PSDB. Em São Paulo, reconhece, o máximo que pode fazer é reduzir danos. O partido elegeu 179 prefeitos paulistas em 2020. No ano passado, quando ainda tinha a poderosa máquina estadual nas mãos, Doria promoveu uma onda de filiações que inflou esse número para cerca de 230 – mais de um terço dos municípios do estado. Na estimativa de Paulo Abi-Ackel, sobrarão sessenta no ano que vem.
São Paulo, onde Doria deixou raízes profundas, é o grande desafio de Eduardo Leite. Marco Vinholi, presidente do PSDB paulista e “dorista” até a medula, é acusado por aliados do governador gaúcho de estar sabotando o partido. Participou, em junho, de um evento em que cinco prefeitos tucanos se filiaram ao PL. A cerimônia contou com a presença de Valdemar Costa Neto e de Jair Bolsonaro. Vinholi alega que foi pego de surpresa: estava num outro compromisso e, quando distraidamente deu por si, estava sendo levado ao ato de filiação.
Morando, o mais vocal dos insatisfeitos com Leite, explica a situação da seguinte forma: “O PSDB não percebeu que nosso eleitor foi mais à direita, e o partido ficou sem rumo. Em São Paulo, já elegemos mais de vinte deputados estaduais, agora elegemos nove. Isso é falta de posicionamento. O partido envelheceu e ficou sem narrativa para a sociedade. Se perguntar para um tucano o que ele pensa sobre liberação de armas, ele não sabe. Legalização da maconha? Não sabe. Não vejo problema de o partido ir mais à direita.”
No final de junho, estava marcada uma edição dos Diálogos Tucanos em São Paulo, na Assembleia Legislativa. Seria um evento especial, por acontecer no berço do tucanato e no dia do aniversário do PSDB. Os aliados de Leite, no entanto, souberam que Vinholi estava convocando um ato comemorativo para o mesmo dia, no mesmo lugar. O paulista pretendia usar a ocasião para se colocar ao lado do governador gaúcho e, assim, demonstrar força. A ideia desagradou a direção nacional do partido, e o evento foi cancelado com menos de 24 horas de antecedência. Desde então, não se fala mais em fazer Diálogos Tucanos em São Paulo. A turma de Leite está agora tentando articular a saída de Vinholi da presidência estadual.
Os constrangimentos se sucedem. Em julho, o Diretório Municipal do PSDB em São Paulo promoveu uma feijoada de aniversário do partido. O festim descambou para um ato de aclamação do prefeito Ricardo Nunes (MDB-SP), que compareceu ao evento e ganhou de presente um tucano talhado em madeira – além da promessa de que o PSDB apoiará sua reeleição. Acontece que nem o feijão, nem a reeleição foram combinados com o Diretório Nacional, que, por enquanto, alimenta a ideia de lançar candidato próprio em São Paulo.
As mesuras a Ricardo Nunes se explicam por sua generosidade com os tucanos: dos 24 secretários da prefeitura, quatro são filiados ao PSDB, entre eles o secretário da Casa Civil, peça central da engrenagem política. Até Aloysio Nunes, que anda afastado das atividades políticas, participa do governo. É presidente da São Paulo Negócios, agência que tenta promover investimentos estrangeiros na cidade.
Ao comentar o ocorrido, o prefeito Paulo Serra foi diplomático: “Não me parece momento de festa, parece muito mais momento de trabalho, de reconstrução. Mas cada um tem seu estilo.” O presidente municipal do PSDB em São Paulo, Fernando Alfredo, diz que mandou mensagens para Leite convidando-o para a feijoada, mas não recebeu resposta. Ligou, mas não foi atendido. Os dois não conversam desde o ano passado. “O Eduardo não conversa com ninguém. Somos o maior diretório municipal de todos, e ele não fala com a gente.” Leite não foi à feijoada porque estava em Stanford, nos Estados Unidos, aprendendo sobre economia verde num curso lecionado, entre outros, por Francis Fukuyama.
Com menos prefeitos, tem-se menos puxadores de votos para deputados e senadores em 2026. O problema não está só em São Paulo. No Rio de Janeiro, o PSDB foi virtualmente liquidado: elegeu só um prefeito em 2020, que, para piorar, foi afastado do cargo em maio deste ano por suspeita de fraude em licitações. Em Alagoas, foram eleitos dois tucanos, mas ambos se desfiliaram. O partido vai bem em Mato Grosso do Sul, onde o governador Eduardo Riedel (PSDB-MS), tucano da safra bolsonarista, tem conseguido trazer uma leva de prefeitos para a legenda. O cenário é semelhante, mas em menor escala, no Rio Grande do Sul, com Leite, e em Pernambuco, com a governadora Raquel Lyra (PSDB-PE). Mas não é o suficiente para reverter a tendência geral.
Roberto Freire, por isso, anda perdendo o sono. Como presidente do Cidadania – que até pouco tempo se chamava PPS, sigla nascida nos anos 1990 a partir de um racha do velho PCB –, Freire tem seu futuro atrelado ao PSDB, já que os dois partidos compõem uma federação. “É a crônica da morte anunciada”, lamenta. Juntas, as duas legendas somam dezoito deputados federais, uma bancada modesta. Caso ela diminua ainda mais, PSDB e Cidadania poderão ser barrados na cláusula de desempenho, que a cada ciclo eleitoral aumenta o sarrafo para a existência de partidos. Se tropeçarem na cláusula, os dois partidos deixarão de ter acesso às verbas do fundo partidário ou a tempo de propaganda eleitoral gratuita na tevê.
Além de frações do PSDB, deputados do Cidadania defendem que, antes de qualquer coisa, os dois partidos devem se fundir, criando uma nova legenda. “Eu considero que federação é a antessala da fusão. Um test-drive”, diz Eduardo Leite. Freire, porém, é terminantemente contra a ideia: “Seria um abraço dos afogados”, desdenha o ex-comunista. A fusão significaria, para ele, perder o comando de seu partido, já que o PSDB é maior que o Cidadania e, uma vez fundidos, o presidente da nova legenda inevitavelmente seria um tucano. Freire está no cargo há mais de trinta anos. No Cidadania, brinca-se que ele já superou Stálin no critério de longevidade política – e sem mandar matar ninguém.
O sonho de Freire é trazer o MDB para a federação com os tucanos. Seria o equivalente, na política, a regressar ao útero materno, pois tanto o PSDB quanto o antigo Partidão saíram da costela do MDB, legenda da qual faziam parte durante a ditadura. “Eu já defendi, inclusive, que a nossa federação criasse um nome fantasia”, diz ele, criativo. “Qualquer um. Federação Social-Democrata, por exemplo. Poderia até fazer sorteio de outros nomes”, diz ele, generoso. “Nós não temos grande perspectiva de futuro, então não podemos ficar prisioneiros de tradição”, diz ele, pragmático.
Ocorre que os tucanos, em sua maioria, são alérgicos à ideia porque, nesse caso, virariam um apêndice, dado o tamanho do MDB. Dificilmente teriam a palavra final na escolha do candidato à Presidência em 2026. E essa é, por ora, a única unanimidade no partido: ter candidato próprio. O postulante óbvio, neste momento, é Leite. “É soltarmos a rédea e sentarmos na garupa do cavalo”, resume Aécio Neves, ao tratar de uma possível federação com o MDB. “A gente vai ser jantado”, concorda o senador Plínio Valério, acrescentando outro motivo para se opor à ideia: seu principal adversário no Amazonas, o senador Eduardo Braga, é do MDB. “Sacrifica minha carreira política”, diz Valério. “Tô sendo egoísta? Claro que não. Só não posso ser maluco.”
Em abril, surgiu uma outra ideia. Marcus Pestana publicou, nas redes sociais, uma carta aberta dirigida “aos amigos e amigas do PSDB, PSB, PDT, Cidadania e Solidariedade”. O ex-deputado mineiro, considerado um dos intelectuais do tucanato, defendeu a união desses partidos em torno de uma plataforma social-democrata. Sugeriu o seguinte roteiro: tudo começaria com uma aliança, depois uma federação e, por fim, um novo partido, unindo “as boas tradições do trabalhismo, da social-democracia e do socialismo democrático”.
Pestana procurou velhos tucanos para subscrever seu manifesto. José Aníbal disse que concordava com o colega, mas só isso. “Eu sou duro de queda. Achei melhor não assinar, porque preciso dialogar com todo mundo”, explica. Aloysio Nunes, a mesma coisa. Mas ele diz que, no fim das contas, Pestana desistiu de coletar apoios e decidiu assinar sozinho. “Em manifesto, você acaba pondo alguns e excluindo outros. Ele achou melhor fazer como sendo uma manifestação dele mesmo.” Em maio, Pestana se desfiliou do PSDB e aceitou o convite do senador Rodrigo Pacheco para virar diretor executivo da Instituição Fiscal Independente (IFI), entidade criada pelo Senado para dar transparência às contas públicas.
A ideia de Pestana morreu no nascedouro. Aliando-se a partidos de centro-esquerda, o PSDB inevitavelmente estaria na base do governo Lula – basta lembrar que o vice, Geraldo Alckmin, e outros dois ministros são do PSB. “E qual o problema?”, indaga Aloysio Nunes. “O Lula tá fazendo um mau governo ou um bom governo? Eu acho que faz um bom governo.” Os demais tucanos nem cogitam esse cenário: o PSDB é oposição ao PT. No começo de agosto, quando se aventava a possibilidade de tucanos assumirem cargos no governo, a direção do partido esclareceu esse ponto com uma nota. “O PSDB não fará parte do atual governo federal comandado pelo PT, em cargo nenhum e sob nenhum pretexto”, diz a mensagem oficial. “Somos oposição. E continuaremos sendo.”
O que existe são conversas com o Solidariedade, partido que, embora vinculado a uma base sindical, está longe da esquerda. Seu presidente, Paulinho da Força, reuniu-se em julho com Aécio Neves para tratar do assunto. “Com o Solidariedade, não vejo problema de nossa federação durar até depois de 2026. É um partido menor, então nós teríamos mais poder de decisão”, diz Aécio, indo direto ao ponto que interessa. Discute-se ainda uma federação com o Podemos, mas, nesse caso, também há impasse: o partido tem dois deputados a menos que os tucanos, mas tem mais que o triplo de senadores. Quem vai mandar na federação? Quem vai escolher o candidato à Presidência, quando chegar o momento?
Plínio Valério tem ideias mais avançadas: defende a tripla fusão de PSDB, Cidadania e Podemos. “Acaba com os três e surge um”, diz o senador. “Vão ter mil dificuldades para seguir em frente, mas a gente tem que arcar com nosso legado, nossa responsabilidade e nossa culpa estratégica.” Como o Podemos é um partido mais preocupado com o Congresso do que qualquer outra coisa, talvez não se oponha a deixar a eleição presidencial a cargo dos tucanos. É um risco. Mas Valério, como Roberto Freire, não tem apego à tradição. “Sou contra esse resgate de DNA. Acho que a gente tem que se reinventar para a sociedade brasileira. Temos muito respeito por quem fez a história do PSDB, mas eles não entenderam até agora que já não são mais atores da peça teatral. Eles entendem o jogo. Mas não participam mais.”
A socióloga Maria Hermínia Tavares, próxima ao tucanato, conta uma anedota. “Na época que o Fernando Henrique foi candidato a prefeito de São Paulo, tomei um táxi. Era um Volkswagen todo arrebentado, o motorista tinha lábio leporino. Fomos conversando, e ele me perguntou em quem eu ia votar. Eu disse que no Fernando Henrique. Ele respondeu que votaria no Jânio [Quadros]. E falou: ‘Seu candidato não vai ganhar porque é muito bonitinho!’ Ele falou aquilo com raiva.” Não se sabe se os motivos foram estéticos, mas o motorista estava certo: FHC, favorito segundo as pesquisas de opinião, não ganhou.
Tavares recorre à anedota ao falar de Eduardo Leite, a quem classifica como “um dirigente competente e razoavelmente civilizado”, mas talvez inelegivelmente bonitinho. Professora aposentada da USP e pesquisadora sênior do Centro Brasileiro de Análise e Planejamento (Cebrap), ela está escrevendo um livro sobre como o PSDB entortou à direita nos últimos vinte anos. “O Fernando Henrique sabia perfeitamente bem que ter virado presidente foi uma coisa acidental, que teve a ver com o Plano Real, com a estabilização da economia”, explica Tavares, dizendo que não basta um programa bem elaborado com pautas liberais; é preciso voto. “Você chama o RenovaBR, mas depois tem que ganhar a eleição. E ganhar eleição no Brasil é Terra em Transe”, afirmou. “Tem que ser político mais popular.”
A professora não descarta que o projeto presidencial do PSDB – e do autointitulado “centro democrático” – possa ter apelo. “Tem uma parte da sociedade que é mais liberal, que ascendeu e percebe sua ascensão como resultado do esforço, do trabalho, do mercado. Seja isso verdade ou não, é um discurso que ressoa.” O fenômeno abre espaço para “uma direita menos truculenta”, diz ela. “Mas é difícil. Não estamos na Espanha. O Brasil é um país muito mais duro. Você não vai falar com as pessoas usando PowerPoint.”
Depois da exibição do PowerPoint, diante da plateia de prefeitos, vereadores e secretários capixabas, naquele sábado de junho em Vitória, Eduardo Leite encerrou seu discurso com uma dose de otimismo empresarial. “Não se iludam. Aqueles que dizem que o PSDB acabou desprezam vários casos que mostram capacidade de virar o jogo. Um dos homens mais ricos do país, Jorge Paulo Lemann, quebrou antes de virar bilionário. O [Guilherme] Benchimol quebrou e, quando já estava desistindo, resolveu vender o carro para fazer um novo negócio, que virou a XP Inc. Ou poderia pegar como case – não tô entrando em juízo de mérito, de valor – o presidente da República. Há quatro anos diziam: acabou. Estava preso. Hoje é presidente novamente.”
O evento durou três horas. Ao final, Leite posou para mais uma dezena de fotos e deixou o plenário. Numa sala contígua, onde recebeu a piauí para esclarecer dúvidas pontuais, reconheceu que o fundo do poço ainda não chegou. “É, talvez o PSDB passe por um momento de mais perdas ainda. Mas não acho que seja exatamente um problema. Temos que resgatar o que está na nossa formação”, disse, antes de recitar o lema de fundação do partido: “Longe das benesses do poder e perto do pulsar das ruas.”
Em 16 minutos de conversa, Leite usou a palavra “profundo” seis vezes. “Alma”, cinco vezes. “O programático é a alma do partido. Se não tiver alma, não adianta a gente ter federação, fusão, seja o que for. Se for pelo pragmático, vamos pra outro partido.”
Levantando-se para cumprir um dia de agenda cheia, afirmou que o PSDB trabalha para lançar candidato a presidente em 2026. Pode ser ele, pode ser outro. Tal qual um empresário, disse que sua aspiração ao Planalto “é legítima, como qualquer pessoa que quer crescer profissionalmente, como um jornalista que quer espaço num veículo nacional. É legítimo que quem foi prefeito e governador tenha essa aspiração”. Em seguida, ressaltou: “Mas não é sobre a minha aspiração. É sobre a necessidade do país.” E foi embora. O vereador Bocalisa e o prefeito Ailton “Véin”, que acompanharam o evento em Vitória, estão entre os entusiastas da candidatura própria. “É de fundamental importância”, diz “Véin”, tucano há mais de vinte anos no município de Ibitirama. E Bocalisa, da cidade de João Neiva, está otimista. “Tem tudo para dar certo.”
* Na versão impressa desta reportagem, publicamos que Irina Bullara completou 40 anos de idade, e que Ricardo Nunes é filiado ao União Brasil. Na verdade, Bullara completou 39 anos, e Nunes é filiado ao MDB. As informações foram corrigidas na versão online.