questões vultosas_ELEIÇÕES 2026_I
Sergio Fausto piauí_239 06 Ago 2026
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Em seu discurso no lançamento da pedra inaugural de Brasília, Juscelino Kubitschek fala em sua “fé inquebrantável” no grande destino reservado ao Brasil. Lido com os olhos de hoje, o discurso provoca um sorriso irônico, pelo tom superlativo e pelo otimismo sem ressalvas com o futuro do país. Na época, as palavras expressavam um sentimento real. O presidente JK simbolizou, como nenhum outro, a confiança do Brasil em si mesmo, como nação moderna, democrática, tolerante e criativa.
Era um outro país, ainda predominantemente rural, mas em rápida transição para uma sociedade de massas urbana. Crescia a taxas chinesas. A industrialização moldava um horizonte comum para todas as correntes políticas, e a migração do campo para as cidades alimentava sonhos de ascensão social para quem deixava a roça. Urbanização e industrialização rápidas serviam de amálgama para uma sociedade cada vez mais conflituosa e polarizada. Polarização mais intensa que a atual, exacerbada pela Guerra Fria, mas circunscrita às elites e concentrada em algumas poucas capitais do país. A tevê apenas engatinhava, e a comunicação de massa se dava pelas ondas do rádio, ainda assim com restrito alcance regional.
Hoje o Brasil é outro. Um país muito mais complexo, populoso e melhor, sobretudo para a grande maioria que então vivia na pobreza, analfabeta, sem acesso a escola, atendimento básico de saúde ou rede de proteção social, num país que precisava importar alimentos tão essenciais quanto o trigo e seus derivados para atender ao consumo interno. Para não falar que em meados dos anos 1950 as mulheres necessitavam de autorização especial dos maridos para trabalhar fora, abrir conta bancária, comprar e vender bens, e a discriminação racial era considerada simples contravenção punível com penas leves.
Melhoramos, mas agora nos falta a confiança no futuro, que naquela época havia de sobra. Segundo o Edelman Trust Barometer de 2026, menos de um terço dos brasileiros acredita que a próxima geração viverá melhor do que a deles.
Por que perdemos a confiança no futuro? Atribuir a perda à polarização afetiva que se exacerbou ao longo deste século é um equívoco. Ela não é a causa principal da perda de confiança, embora contribua para agravá-la e dificulte a sua superação.
Ainda que difícil de ser mensurada com exatidão, a confiança é ingrediente decisivo para um país avançar em seu desenvolvimento. Não será possível recobrá-la idealizando o passado. O desafio é recuperá-la em novas bases, tarefa complexa em uma quadra histórica em que a confiança escasseia em quase todo o mundo, devido a transformações sociais e tecnológicas que criam ressentimentos e incertezas e põem em xeque a legitimidade da democracia representativa e do capitalismo liberal, em suas diferentes versões. Apesar de responder a condicionantes gerais, a perda de confiança nas instituições e no futuro, uma tendência global entre as democracias ocidentais, tem causas e manifestações específicas em cada país.
A confiança do Brasil em si mesmo não despencou da noite para o dia. Ao longo dos setenta anos que nos separam do lançamento da pedra inaugural de Brasília, ela teve altos e baixos. Os primeiros dez anos decorridos depois de 1985, quando se deu o retorno à democracia, não foram fáceis. As esperanças criadas com a recuperação e expansão de direitos, consagrados na Constituição de 1988, se chocaram contra a realidade de um país cronicamente à beira da hiperinflação, submetido a repetidos e fracassados congelamentos de preços e salários, num processo de desorganização econômica, crescimento da pobreza e precarização da governabilidade.
Com o Plano Real, com as reformas institucionais dos governos FHC, com a civilizada alternância no poder ao término de seus dois mandatos e as mudanças sem ruptura introduzidas por Lula, que deixou o Palácio do Planalto como o presidente mais popular da história, nas asas de um amplo processo de inclusão e mobilidade social, o país recuperou a confiança em si mesmo. Ao final de quatro mandatos presidenciais, dois de FHC e dois de Lula, o Brasil pôde apresentar uma singular combinação de conquistas em sua história, rara também em um mundo que mal se recuperava da crise financeira de 2008, a maior desde 1929: estabilidade econômica com crescimento, mobilidade social ascendente, governabilidade democrática, em um quadro de progressivo aperfeiçoamento institucional. Uma das imagens desse período foi a capa da revista The Economist, que mostrava o Cristo Redentor, com os braços abertos sobre a Baía de Guanabara, decolando como um foguete em direção aos céus. Um exagero, sem dúvida, pois nem tudo era tão sólido e sustentável na decolagem do Brasil, mas representativo do sentimento da época.
O processo desandou nos anos subsequentes, em especial a partir de 2014. Experimentamos hoje uma desconfiança crônica, alta e crescente em relação ao futuro do Brasil. É este o sentimento predominante no país ao nos aproximarmos das eleições de outubro deste ano, agora já com o elenco de candidatos definidos pelas convenções partidárias. Antes de avaliar o quadro eleitoral, cabe perguntar como chegamos ao atual estado de depressão da confiança.
Na economia, se deu uma reversão drástica das expectativas de mobilidade social ascendente e crescimento sustentado. Na política, ocorreu uma série de escândalos, que levaram a uma luta fratricida entre PT e PSDB e à emergência de juízes e procuradores imbuídos da missão de “passar o país a limpo”, custasse o que custasse, e de políticos dispostos a “destruir o sistema” para supostamente regenerá-lo. As jornadas de junho de 2013, por vias tortuosas, deram em Jair Bolsonaro, e o fortalecimento do Centrão e a Lava Jato, pelos descaminhos que tomou, produziram retrocesso e não avanço no combate à corrupção sistêmica. A sociedade sofreu decepções em cadeia, e cumulativas.
A mobilidade social ascendente dos governos Lula 1 e 2 desacomodou a sociedade brasileira. Não apenas foi mais longa e mais intensa do que a observada nos primeiros anos depois do Plano Real, como também esteve acompanhada de políticas que mexeram real e simbolicamente com hierarquias sociais enraizadas, a exemplo da chamada PEC das empregadas domésticas e das cotas raciais para ingresso no ensino superior. Nas famílias mais pobres, a perspectiva de ascensão social gerou a expectativa de que estavam a caminho de uma vida de classe média mais estável, previsível e favorável à realização pessoal e profissional.
Nos estratos de classe média e alta já mais bem estabelecidos, a emergência de uma “nova classe média” provocou um misto de irritação, pela “invasão” de espaços antes exclusivos, e insegurança, pela percepção de ameaça a posições sociais adquiridas. Esses sentimentos foram mais intensos porque os benefícios eleitorais da emergência da “nova classe média” eram apropriados por um partido “de esquerda” que, em momentos de dificuldade política, recorria à retórica do nós contra eles.
Assentados em bases relativamente frágeis, os sonhos da “nova classe média” se frustraram na prolongada e profunda recessão de 2015 e 2016 e não se reergueram desde então, apesar da promessa de Lula 3 de que o “povo voltaria a comer picanha”. Sem o boom de commodities, a reedição da receita de expansão do gasto e estímulo ao crédito mostrou-se insuficiente para retomar a confiança do povão. Não que a renda da base da pirâmide tenha ficado estagnada desde então. Nos últimos três anos, ela voltou a crescer com força. O consumo popular, mais ainda. Mas o sonho de virar classe média no curso de uma geração se evaporou, com o endividamento das famílias, hoje em níveis recordes, comprometendo parcelas crescentes da renda e impedindo a acumulação de poupança e patrimônio.
Nada mais distante de uma vida previsível e estável de classe média do que aquela que experimentam os milhões de trabalhadores por aplicativos, que ralam cotidianamente em cima de duas rodas, símbolos de um empreendedorismo de sobrevivência. Foi a segunda interrupção abrupta do mesmo sonho desde o Plano Real. A primeira se deu quando a nova moeda sofreu forte desvalorização no início do segundo mandato de FHC, em 1999.
No acidentado terreno do crescimento brasileiro entre 2014 e 2025, com poucos picos e muitos vales, esvaiu-se também a confiança no país entre as classes mais acomodadas. Um dos sinais disso é a evasão de cérebros, fenômeno que responde não apenas ao mau desempenho da economia, mas também à falta de investimentos públicos e privados em ciência e tecnologia. Estudo do Ipea sobre a saída de doutores e pesquisas de consultorias privadas sobre executivos expatriados mostram que tem havido um aumento na evasão de cérebros tanto no mundo acadêmico como no corporativo. Os dados batem com a experiência dos pais da minha geração, eu inclusive, cujos filhos e filhas, em número crescente, vivem no exterior em caráter permanente. Trajetória distinta da minha geração e da anterior, que estudava e/ou trabalhava no exterior para voltar ao Brasil com uma formação profissional distinta. Teremos de aprender a nos valer dessa diáspora, como fazem, em outra escala, China e Índia.
Como se fosse pouco, o medo da violência do crime se espalhou. Apesar da melhora em muitos indicadores em algumas das principais cidades do país, em particular da taxa de homicídios, o crime organizado passou a ter presença em todo o território nacional, a controlar parte dele, a conectar-se com máfias internacionais e a infiltrar-se no sistema político e no aparato do Estado. Criou-se uma sensação de descontrole e desmoralização da autoridade pública.
No aumento da descrença com o país, o crescimento anêmico se soma à perda da confiança na política como meio pelo qual se constroem soluções para os problemas coletivos. Faz tempo que a economia brasileira cresce pouco (nos últimos quarenta anos, o crescimento da renda per capita foi de 1,2% ao ano). A novidade agora é a sensação de que o país não conseguirá reencontrar o caminho do desenvolvimento, com democracia, segurança pública e soberania nacional. Não porque nos faltem oportunidades, mas porque teríamos perdido a capacidade política de nos organizar em torno de objetivos nacionais de longo prazo. Quando era ministro da Fazenda, Pedro Malan dizia que o Brasil tinha problemas, mas nenhum deles era maior do que a sua capacidade de resolvê-los. A deterioração da qualidade da política põe essa afirmação em xeque. Leva muita gente ao extremo de apoiar a antipolítica, na vã ilusão de que por aí se encontrarão as soluções.
Convém não exagerar no pessimismo quanto à qualidade das instituições brasileiras. Elas se mostraram resilientes às investidas autoritárias do governo de Jair Bolsonaro. Impediram o sucesso da conspiração antidemocrática e conseguiram limitar o número já trágico de vítimas que uma gestão incompetente e tresloucada da pandemia da Covid provocou. O sistema de justiça criminal, em particular quando se dá a ação conjunta das polícias, da Receita e do Ministério Público, tem procurado resistir à expansão do crime organizado. O Congresso aprovou o novo marco legal do saneamento, em 2020, e a reforma tributária do consumo, em 2025, para citar duas reformas importantes.
Feitas as ressalvas, não há como negar que o desempenho e legitimidade das instituições estatais e do sistema político são declinantes. O presidente da República perdeu poder de agenda, necessário para realizar reformas em um país federativo e multipartidário, onde o Executivo federal é chave para coordenar iniciativas de maior alcance. O Congresso abocanhou uma fatia crescente do orçamento do país e ganhou poderes sem o correspondente acréscimo em sua cota de responsabilidade sobre os efeitos de suas decisões. O orçamento é cada vez mais engessado e o planejamento de longo prazo, mais precário. O processo deliberativo dentro do Parlamento se desinstitucionalizou, com o esvaziamento das comissões e a concentração de poder nas presidências das Casas, que jogam um papel central na distribuição dos recursos das emendas ao orçamento, o tema que mais interessa aos parlamentares, não raro o único a que dedicam real atenção. Nesse contexto, matérias importantes são votadas sem discussão ou escrutínio público, de uma hora para outra, frequentemente pelo sistema remoto de votação, que prescinde da presença física do parlamentar. As agências reguladoras se encontram subfinanciadas e, em graus variados, cooptadas por interesses político-partidários. O Supremo Tribunal Federal hipertrofiou-se – em parte por fatores alheios ao tribunal – e passou a ter a sua autoridade contestada, como responsável por dar a última palavra sobre os principais conflitos de interesses e valores que atravessam a sociedade brasileira.
Esse quadro complica a chamada governabilidade, em particular quando dirigida a promover mudanças e não apenas a acomodar interesses setoriais. Está sujeito a curtos-circuitos, pelo choque entre os poderes quanto aos limites das competências de cada um. Cria incerteza e coloca em dúvida a capacidade de o país responder aos desafios de um mundo em rápida transformação. Como reagir bem às demandas da transição ecológica, da mudança climática, da regulação e do uso inteligente da inteligência artificial, que demandam coordenação interna complexa e alianças externas de geometria variável, se continuarmos consumidos por interesses setoriais e corporativos de curto prazo?
Mais preocupante é que o quadro de relativo desarranjo institucional vem acompanhado de um processo de deterioração das virtudes republicanas nas esferas de poder. Não me refiro somente a casos reiterados de flagrante corrupção envolvendo membros do Executivo, do Congresso e dos tribunais superiores, mas também a um amplo conjunto de sintomas que vão desde a incapacidade de separar com clareza negócios familiares e funções públicas e autoconter-se nos limites legais das respectivas esferas de competência até a falta de um mínimo de recato na seleção dos ambientes a frequentar e nas amizades a cultivar, para não falar na desfaçatez em legislar em causa própria, no que os partidos políticos têm sido pródigos.
Não é preciso idealizar o passado – o Brasil, assim como qualquer outro país, jamais foi ou será governado por varões de Plutarco – para perceber a ocorrência desse processo difícil de mensurar, mas ainda assim evidente, de deterioração das virtudes republicanas entre aqueles que detêm parcela importante do poder, seja porque nele estão investidos pelo voto ou pelo exercício de elevada função pública não eletiva.
Ao lançar a pedra inaugural da nova capital, JK se referiu a ela como o “cérebro das mais altas decisões nacionais”. Hoje, o país olha para Brasília e vê não uma elite dirigente com um mínimo de consciência de seu papel e de sua responsabilidade e sim um conjunto de indivíduos interessados em maximizar seus interesses próprios e/ou das corporações públicas e privadas que representam. Onde foi parar a divisão que antes de fato existia entre uma elite parlamentar e o baixo clero?
Se me refiro a Brasília, não é porque a deterioração das virtudes republicanas lhe seja exclusiva, e sim porque, como centro do poder político, ela exerce um poderoso efeito-demonstração para o conjunto do país. Em toda federação, em todos os poderes do Estado, se encontram exceções, mas quem há de negar que a deterioração das virtudes republicanas está por toda parte?
A paixão desmedida pelo dinheiro reflete um fenômeno mais amplo, presente na sociedade em seu conjunto, mas com particular intensidade nas engrenagens que movem o poder. Não só aqui, mas em outras democracias no mundo, haja vista o que se vê hoje nos Estados Unidos, onde os barões ladrões do século XIX retornam à cena sob novas vestes, operando agora em escala global, em aliança com a Casa Branca.
De novo, não quero exagerar: sempre haverá aqui e em qualquer lugar do planeta, em um mesmo ator político, individual ou coletivo, um tanto de interesse público e outro de autointeresse. A questão é a dose. No Brasil de hoje, o desequilíbrio é grande e vem aumentando, com o fracasso desmoralizante da Lava Jato, a permanência de um sistema pouco transparente e insaciável de financiamento dos partidos e das campanhas eleitorais – a proibição das doações de empresas pelo STF mudou apenas a fonte principal dos recursos, agora quase exclusivamente públicos – e relações permissivas entre empresas, escritórios de advocacia e tribunais superiores.
Coexiste com essas tendências a expansão de uma nova e grave ameaça ao estado democrático de direito e à própria soberania nacional: o crime organizado, cada vez mais sofisticado em termos financeiros, econômicos e logísticos. Em alguns lugares do país, ele não é um poder paralelo e sim um substituto do poder do Estado. A deterioração das virtudes republicanas cria o ambiente propício à infiltração do crime organizado no aparelho estatal.
A que distância estaríamos do que o historiador neozelandês John Greville A. Pocock chamou de “o momento maquiaveliano”, aquele em que uma república vive uma crise existencial? O conceito é utilizado pela ciência política para descrever situações-limite em que as instituições e os valores que sustentam o estado democrático de direito são colocados em xeque pela corrupção moral, pela perda das virtudes políticas e pelo espectro da desordem. Impossível medir essa distância.
Não chegamos a essa situação-limite, mas é preciso tê-la em mente para avaliar os riscos que corremos. É papel das lideranças alertar para esses riscos e apontar caminhos que permitam superá-los ou ao menos reduzi-los, sem apelar às fórmulas fáceis do falso moralismo populista (lembremo-nos do Fernando Collor, o “caçador de marajás”, hoje em prisão domiciliar) e a retrocessos autoritários que, a pretexto de “sanear a política”, sufocam as liberdades e destroem a democracia.
Reformas institucionais que reduzam os incentivos e aumentem os custos dos atos de corrupção são indispensáveis. Uma delas é a Emenda Peluso, proposta pelo ex-ministro do STF, Cezar Peluso. Transformada em PEC, ela determina o início do cumprimento de pena depois da decisão na segunda instância. Dada a morosidade da Justiça brasileira, a possibilidade de recorrer ao STF ou ao Superior Tribunal de Justiça em liberdade afasta a ameaça de prisão não raro indefinidamente para quem conta com advogados com trânsito e competência técnica. Reformas dessa natureza, assim como medidas de combate a privilégios nos setores público e privado, encontram grande resistência de poderosos lobbies. Sua aprovação requer lideranças com coragem cívica, mas sem ânimo populista, dispostas a mobilizar apoio político e social a seu favor.
Sem reconstrução da credibilidade na autoridade pública, o sistema político continuará a girar em falso e a sociedade a se virar como pode, gerando mais desigualdade, cinismo e violência. Uma agenda de reformas que não fizer da reconstrução da autoridade pública a sua prioridade – com medidas articuladas na área da Justiça, da gestão do Estado e da segurança pública, compatíveis com a democracia e voltadas a combater a corrupção, os privilégios e o crime organizado – está fadada a não ganhar a tração social e política necessária para que o país se reorganize e amplie seus horizontes de desenvolvimento. Reformas tópicas, ajustes fiscais, por mais importantes que sejam, não terão esse condão. Tendem a se diluir ou naufragar se a descrença na autoridade pública não for revertida.
Já aprendemos, espero, que não há salvadores da pátria, mas a qualidade das lideranças faz diferença, em particular em certos momentos da história de um país. O Brasil não está desprovido delas. Da centro-esquerda à centro-direita, há bons quadros políticos, alguns promissores, homens e cada vez mais mulheres, a serem selecionados pelo processo democrático. Falta que tenham expressão maior no plano nacional.
Não é necessário que surja um De Gaulle. O Brasil de hoje não é a França dos anos seguintes à Segunda Guerra Mundial. Não contamos com heróis da Pátria, como ele de fato foi, muito menos precisamos de um militar que arrogue a si esse papel. A reconstrução da credibilidade da autoridade pública no Brasil é tarefa para as lideranças civis, com o auxílio das Forças Armadas, dentro da Constituição. Para estar à altura do desafio, quem se habilitar precisa ter uma “certa ideia do Brasil”, assim como De Gaulle tinha une certaine idée de la France. A frase completa com a qual ele abre as suas Memórias de guerra, livro escrito quando liderava no exílio a resistência à ocupação da França pelos nazistas, é: “Em toda a minha vida, eu fiz uma certa ideia da França. O sentimento me inspira tanto quanto a razão.” Mais à frente, De Gaulle conclui: “Em suma, a França não pode ser a França sem a sua grandeza.”
Essa “certa ideia do Brasil”, inspirada tanto pelo sentimento quanto pela razão, não deve ser ufanista. Deve ter clareza sobre os nossos passivos históricos, mas também sobre os ativos que adquirimos em mais de duzentos anos como nação independente. Eles não são poucos. Somos uma nação que se implantou sobre um imenso território, conservou sua unidade política, inseriu-se construtivamente no seu entorno geográfico e no sistema internacional, desenvolveu ao longo do século XX uma economia relativamente complexa e diversificada e um Estado nacional com instituições e burocracias comparativamente mais estáveis e eficientes do que a quase totalidade dos países da antiga América espanhola. Uma nação que projetou certa identidade no mundo, sendo ocidental nos valores, mas sem alinhamentos automáticos a potência alguma. Sim, com uma sociedade profundamente desigual, mas crescentemente capaz de se organizar com maior autonomia e contestar hierarquias de poder e privilégios estabelecidos, em democracia, ampliando o espaço da cidadania e nela incluindo quem historicamente dela esteve à margem.
Além de uma certa ideia do percurso do Brasil em mais de dois séculos como nação independente, é preciso ter uma visão sobre o futuro do país. Ela não deve ser grandiosa, pois aqui o sentimento de grandeza convida ao irrealismo. Mas deve reconhecer que o Brasil não é um país qualquer: tem tamanho, recursos naturais e biodiversidade, bases científicas e econômicas, capacidades estatais, dinamismo social e expressão cultural, em suma, elementos de hard e soft power suficientes para ambicionarmos um lugar relevante no sistema internacional.
Nem o mundo nem o Brasil são mais o que foram nos anos 1950. Não se trata de reeditar o Plano de Metas e os Grupos Executivos de JK, que à sua época desempenharam um papel fundamental no desenvolvimento do país. Muito menos de repetir o descontrole fiscal e monetário que fez a inflação dobrar entre 1955 e 1960, um dos ingredientes da instabilidade que levou ao golpe de 1964. Democracia e controle sobre a inflação são hoje premissas inegociáveis.
Não estamos mais na etapa de implantação da infraestrutura de transportes e energia e da indústria de bens de consumo duráveis nem da expansão da área cultivada pela agricultura, nem mesmo de ampliação da rede pública de ensino, como nos anos de JK. O desafio agora é dar um salto na qualidade do capital humano, na aplicação de conhecimento e ciência aos processos produtivos – em especial, mas não exclusivamente, naqueles setores em que temos vantagens competitivas reveladas, como a produção de alimentos, energia renovável e minerais críticos –, na incorporação do meio ambiente como variável decisiva e intrínseca do desenvolvimento, nas políticas sociais e de fomento aos pequenos negócios para seguir incluindo pessoas na cidadania e na economia formal e promover a redução das desigualdades. Para tudo isso, teremos de ser capazes de fazer bom uso das novas tecnologias digitais em particular a ia, sem cair na ilusão de uma “soberania digital autárquica”, de um lado, nem nos braços do neocolonianismo digital, comandado pelas grandes potências e pelas big techs, de outro.
O salto que precisamos dar requer novas estruturas de gestão. Os Grupos Executivos não nos servem mais de modelo, pois se restringiam a membros da burocracia estatal, técnicos e grandes empresários. Tampouco são adequadas estruturas como as do atual “Conselhão”, que não tem capacidade real de coordenação de ações convergentes do governo, setor privado e sociedade civil. Uma coisa é certa: precisamos com urgência preparar o Estado para responder aos desafios contemporâneos do país. A agenda da reforma administrativa, orientada por objetivos de mais longo prazo, precisa incorporar essa urgência.
Tão importante quanto definir prioridades e propor estruturas de gestão à altura dos desafios complexos, muito exigentes em matéria de coordenação entre diferentes atores e áreas de política pública, incluída a política externa, é reconstruir um horizonte simbólico e aspiracional que nos permita reconhecer a nós mesmos como uma nação com uma história comum e um destino compartilhado. Não se trata de retroagir a um ufanismo tolo e autoritário, que nega as nódoas do nosso passado que ainda mancham o nosso presente, mas de recuperar, em uma nova chave, o sentido de que ou somos uma comunidade nacional ou não teremos sequer o direito de sonhar os nossos próprios sonhos e decidir democraticamente as nossas próprias divergências.
Projetados contra esse pano de fundo, nenhum dos candidatos à Presidência da República neste ano mostra estatura suficiente para exercer o tipo de liderança à altura dos desafios do país. Nem por isso a diferença entre os dois principais adversários deixa de ser incomensurável. Flávio Bolsonaro expressa um conjunto de forças que colocou em xeque as instituições do estado democrático de direito e se articula internacionalmente contra os interesses do Brasil e em favor das conveniências e ambições de sua família.
A derrota política desse clã familiar é condição necessária para a recuperação da confiança. É um clã familiar ligado na origem a grupos milicianos e aos remanescentes dos porões da ditadura militar. A vitória de Flávio Bolsonaro colocaria o país na iminência de uma crise institucional, dado seu compromisso filial em indultar o pai, comprometeria a autonomia da política externa brasileira, por suas relações de lealdade e subserviência à extrema direita americana, em geral, e a Donald Trump, em particular, e traria de volta ao poder quem fez do ódio aos adversários e do desprezo à cultura e à ciência a sua principal forma de fazer política. A direita democrática, da qual o Brasil precisa, seria uma das maiores beneficiadas da derrota do clã Bolsonaro. Receberia a alforria pela qual não teve coragem de lutar.
Lula cometeu muitos erros ao longo de uma trajetória política extraordinária, que tem a meu ver até aqui um saldo líquido positivo para o país. O maior desses erros – tão grande quanto a infame campanha de estigmatização do governo FHC, que o antecedeu e serviu de base para o êxito de seus dois primeiros mandatos – é o de não haver preparado a sua própria sucessão. Ser candidato a um quarto mandato que se encerrará quando Lula estiver com 85 anos é um erro que ele próprio tornou inevitável.
Lula é uma estrela em extinção que ainda emite muita luz pelo tamanho da sua liderança e pelo vigor da sua forma física e mental. Seu coração está no lugar certo, mas suas ideias estão aferradas ao passado e a uma retórica autocongratulatória que nenhum dos que o rodeiam tem coragem de contrariar. Parece não se dar conta de que se esgotou a receita fácil da estimulação do crescimento pela via da expansão do gasto público e do crédito. Sofre de nostalgia renitente pelo nacional-desenvolvimentismo.
Parece também não se dar conta de que, a essa altura de sua história, deveria marcar exemplarmente a máxima distância possível de práticas que se tornaram corriqueiras, mas que nem por isso deixam de ser antirrepublicanas, como o hábito de indicar homens de confiança para o STF. Nessa matéria, embora não seja um caso isolado, Lula se sobressai: depois de Dias Toffoli em seu segundo mandato, ex-advogado do PT e chefe da AGU em seu governo, ele indicou, neste terceiro mandato, o seu próprio advogado pessoal, Cristiano Zanin, seu ministro da Justiça, Flávio Dino, e Jorge Messias, seu chefe da AGU, cuja nomeação não foi aprovada pelo Senado (e que Lula parece teimar em reapresentar).
Não tenho dúvida sobre a escolha a fazer entre os dois principais candidatos ao Palácio do Planalto. De qualquer forma, prevejo anos complicados no próximo mandato presidencial. Com transformações geopolíticas e tecnológicas que estão rapidamente redesenhando o mapa de poder no mundo, seria altamente desejável que o país estivesse mais preparado para enfrentá-las.
Para 2030, teremos quatro anos para renovar o quadro de lideranças no plano nacional, articular novas agendas para o país e superar a polarização destrutiva, que é mais sintoma do que causa dos nossos problemas, mas que os agrava e dificulta a sua superação. Até lá, não será pouco evitar crises que comprometam as nossas chances de reconquistar o futuro.
Este artigo é o primeiro de uma série analítica sobre as eleições de 2026.