questões vultosas

UM INVENTÁRIO INCÔMODO

O arrivismo, a corrupção – e a política
CRÉDITO: ALLAN SIEBER_2026
CRÉDITO: ALLAN SIEBER_2026

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Um jatinho privado vindo da Ilha de São Martinho, no Caribe, transportou pesos-­pesados do mundo político brasileiro em abril de 2025. Depois do desembarque no Aeroporto Executivo Catarina, em São Roque, no interior do estado de São Paulo, parte da bagagem passou por fora do raio X da Receita Federal. Valendo-se das facilidades reservadas à aviação executiva, o piloto da aeronave conseguiu burlar a fiscalização alfandegária.

Ao analisar as imagens das câmeras de segurança, a Receita acionou a Polícia Federal. A investigação apontou que cinco volumes que estavam no jatinho passaram ao largo do equipamento de inspeção com a anuência de um auditor fiscal. Quem desviou as malas da fiscalização foi o piloto, mas, como entre os ocupantes da aeronave estavam autoridades graúdas – o presidente da Câmara, Hugo Motta (Republicanos-­PB), o senador Ciro Nogueira (PP-PI) e os deputados Doutor Luizinho (PP-RJ) e Isnaldo Bulhões Jr. (MDB-AL) –, o caso subiu ao Supremo Tribunal Federal.

Em maio deste ano, o ministro Alexandre de Moraes, relator do caso, arquivou a investigação, alegando ausência de indícios concretos de malfeitos por parte das autoridades. Piloto e auditor continuam sendo investigados. Mas, até hoje, não se sabe o que havia naquelas malas que precisavam escapar do raio X. E nenhuma autoridade presente no voo se sentiu obrigada a dar explicações públicas sobre os volumes. Motta foi o único a divulgar uma nota, que, afinal, não explicava nada. Limitou-se a dizer que seguiu as regras alfandegárias no transporte de suas bagagens.

Nenhum deles tampouco esclareceu por que viajava no jatinho de um empresário com interesses crescentes em Brasília: Fernando Oliveira Lima, conhecido como Fernandin OIG, dono de plataformas de apostas online que exploram jogos altamente viciantes, como o Fortune Tiger, popularizado no Brasil como “jogo do tigrinho”. Como se fosse justificativa plausível, Motta disse se tratar de uma viagem “privada”. E tudo ficou por isso mesmo.

Nascido no Piauí em uma família humilde, Fernandin oig acumulou uma fortuna de centenas de milhões de reais durante a explosão das apostas online no governo Michel Temer. Em velocidade semelhante à da ascensão financeira, o empresário se aproximou do centro do poder político, onde foi muito bem recebido. Ao cultivar amizades tão poderosas em Brasília, ele rapidamente colheu frutos, já que o Congresso trabalhou arduamente para reduzir os tributos sobre as bets que haviam sido propostos pelo governo.

Também oriundo de família modesta, o banqueiro Daniel Vorcaro, dono do Master, teve acolhimento caloroso do mundo político. Menos de uma década atrás, ele aplicava golpes em fundos de pensão de cidadezinhas de Rondônia. Poucos anos depois, havia se tornado “amigo de vida” de algumas das figuras mais poderosas de Brasília. Manter tal círculo de relações custava caro. Implicava oferecer a elas desde mesadas de centenas de milhares de reais até viagens luxuosas e contratações advocatícias por valores descabidos. Como seu salto financeiro foi vertiginoso e sua ostentação chamava a atenção, Vorcaro recrutou uma gangue de hackers, policiais corruptos e milicianos para garantir sua tranquilidade, monitorar adversários e intimidar desafetos.

A vida privada de Vorcaro foi amplamente exposta nos vazamentos da investigação da pf e ficou bem documentado que ele percebe a si mesmo como alguém especial, destinado a ocupar um lugar onde não vigoram as regras comuns. Suas leituras devocionais na Igreja Batista da Lagoinha talvez não tenham sido suficientes para lhe mostrar que a figura do arrivista que penetra círculos de poder corruptíveis oferecendo vantagens materiais é um dos arquétipos mais banais da história. Aparece inclusive em clássicos, de Shakespeare a Balzac, passando por Zola e Dostoiévski, que não deixaram de observar que a corrupção não é mero desvio ocasional, mas parte estruturante da engrenagem política. Um mecanismo alimentado, em larga medida, pela energia erótica do dinheiro e sua promessa de prestígio, pertencimento, poder e impunidade.

O risco corrido por Vorcaro ao criar o Banco Master e dotá-lo de um sistema para o desvio de fundos e o pagamento de propinas tampouco é novidade, na forma ou no conteúdo. Sobretudo quando do outro lado do balcão há ministros, deputados, senadores, governadores e prefeitos que entendem perfeitamente a natureza instável do poder político. O dinheiro, nesse universo, serve para preservar influência quando os mandatos acabam, as alianças se desfazem e os antigos aliados deixam de atender às ligações. Serve também para garantir uma bela vida a bordo de jatinhos próprios ou de amigos.

Roberto Augusto Leme da Silva, o Beto Louco, operador de um esquema criminoso no setor de combustíveis, teve de irrigar uma extensa rede de “amigos da vida” para que seu negócio prosperasse. Alvo de um mandado de prisão, está foragido e tenta negociar uma delação premiada. Apesar da generosidade pregressa do empresário, ele ganhou um apelido pouco lisonjeiro entre os figurões de Brasília: João Bobão.

O rótulo depreciativo revela muito sobre a lógica dessas trocas. O dinheiro é celebrado enquanto circula. O homem que paga a conta é tratado como indispensável enquanto permanece útil. Quando perde força, proteção ou capacidade de distribuir vantagens, transforma-se rapidamente em piada, estorvo ou ameaça.

É a posição em que Daniel Vorcaro se encontra hoje. Ao tentar poupar os “amigos da vida” na Justiça, teve sua proposta de delação rejeitada. Desde então, uma tensão eletrizante percorre Brasília, alimentada pelo medo do que o banqueiro possa vir a contar e também do que podem contar seus celulares apreendidos pela polícia.

São muitos os critérios pelos quais se pode esquadrinhar o alto preço pago por corruptores para ter acesso ao poder. No caso do Master, se a medida for de grandeza, o ex-governador Ibaneis Rocha (MDB) é favorito: o banco estatal do Distrito Federal, o BRB, injetou 12 bilhões de reais no Master em troca de ativos cuja consistência hoje é questionada pelos órgãos de controle. Como nada acontecia no BRB sem a aprovação do Conselho de Administração, comandado por indicados de Ibaneis, será difícil o ex-governador convencer as autoridades de que nada sabia. Cláudio Castro (pl), ex-­governador do Rio de Janeiro, também figura no topo da lista, já que sua gestão responde pelo aporte de 3,7 bilhões de reais das economias dos aposentados fluminenses em fundos ligados ao Master. Conforme a investigação avançou, descobriu-se que Castro não só sabia, como autorizava os repasses do fundo ao Master e mantinha “vínculo pessoal estreito” com Vorcaro, participando de encontros privados com o banqueiro que antecediam os aportes do estado.

Davi Alcolumbre (União), presidente do Senado, é a figura política dominante no Amapá. O governador é seu aliado, e raros são os cargos relevantes do estado que escapam ao seu crivo antes de serem preenchidos. Seu irmão Alberto Alcolumbre é um dos responsáveis pelo fundo de previdência estadual, que aplicou 400 milhões de reais em ativos do Master. A polícia agora investiga se tamanha adesão ao banco de Vorcaro decorreu apenas de imprudência administrativa ou se houve pagamento de vantagens a agentes públicos envolvidos nas operações, incluindo o próprio Alcolumbre.

O histórico de Vorcaro indica que ele sabia cultivar generosidades estratégicas. Hugo Motta apresentou uma emenda pela qual o Master fazia intenso lobby: obrigar fundos de pensão e seguradoras a destinar parte de seus lucros a investimentos em créditos de carbono, setor no qual a família Vorcaro havia ingressado pesadamente. A emenda foi aprovada em dezembro de 2023. Três meses depois, a cunhada do presidente da Câmara, Bianca Medeiros, então com 33 anos, recebeu 22 milhões de reais do Master a título de empréstimo. Como garantia, ofereceu uma empresa com capital social de apenas 100 mil reais. A Folha de S.Paulo revelou que o dinheiro do empréstimo foi usado para adquirir um loteamento em João Pessoa cuja área equivale a três vezes o tamanho do Parque Ibirapuera, em São Paulo.

Mas nenhum político mereceu tanta deferência por parte do banqueiro quanto Ciro Nogueira. Até o momento, a investigação identificou indícios de que Vorcaro pagava despesas pessoais do senador, disponibilizava cartão de crédito, financiava viagens de luxo e mantinha outras formas de apoio financeiro contínuo (leia a reportagem O amigo do crime, na p. 14 desta edição). Em troca, Nogueira atuava como lobista do Master no Congresso. Foi de sua autoria a emenda que previa elevar de 250 mil para 1 milhão de reais a cobertura do Fundo Garantidor de Créditos (FGC) para cada pessoa física prejudicada pela quebra de uma instituição financeira. Na prática, o seguro para investidores do Master aumentaria 300%, caso a proposta fosse aprovada.

Nogueira está em todas. Além de aparecer ao lado de Vorcaro e Fernandin OIG, o senador surgiu nas investigações envolvendo Beto Louco. Em áudios interceptados pela polícia, é descrito como “muito amigo” do empresário foragido. O piloto de uma das aeronaves utilizadas por Beto Louco afirmou ao site ICL ter transportado para Nogueira uma sacola de papelão que suspeitava conter dinheiro vivo, no mesmo dia em que o empresário se reuniria com o senador. Também foram rastreados repasses vultosos de empresas ligadas ao esquema de Beto Louco para um ex-assessor de Nogueira.

O caso do senador, por sua nitidez, talvez fosse suficiente para ensejar ao menos explicações públicas da parte dele. Nada disso ocorreu. Enquanto denúncias e investigações se empilhavam, Nogueira passou o Carnaval numa viagem de volta ao mundo a bordo da aeronave de Fernandin OIG, como mostrou uma reportagem da piauí (Nas asas do Tigrinho, maio de 2025). Ele jamais demonstrou considerar inadequada a sua proximidade com empresários investigados e que dependem de decisões políticas em Brasília

Circulando com tanta desenvoltura entre políticos ligados ao bolsonarismo, Daniel Vorcaro não teria por que privar o clã do ex-presidente de seu altruísmo. Além do evidente alinhamento ideológico, o operador e cunhado do banqueiro, Fabiano Zettel, foi o principal doador da campanha de Jair Bolsonaro em 2022. Não houve surpresa, portanto, quando veio à tona o áudio em que Flávio Bolsonaro solicitava 134 milhões de reais a Vorcaro para – supostamente – financiar um filme sobre o pai.

Por enquanto, não há evidências de que o dinheiro tenha chegado às mãos dos produtores – ou se foi desviado no caminho. Tampouco se sabe se esse foi o único investimento do Master em negócios ligados à família Bolsonaro. O que já está muito claro é que Flávio Bolsonaro se sentia bastante seguro de que Vorcaro não o implicaria na Justiça. Nos últimos meses, o senador insistiu publicamente na narrativa de que o escândalo do Master seria, na verdade, “um escândalo do PT”.

Em mais um indício de acomodação entre as partes, Flávio visitou Vorcaro pouco antes de anunciar sua pré-candidatura à Presidência da República. O banqueiro havia deixado a cadeia pouco tempo antes e estava em prisão domiciliar. Vorcaro não apresentou qualquer informação sobre sua relação com o senador na proposta de delação rejeitada pelas autoridades.

O governo evitou Vorcaro o quanto pôde. Fernando Haddad nunca o recebeu, e Lula só o fez depois da insistência do ex-ministro Guido Mantega, também contratado pelo banqueiro, e mesmo assim concedeu-lhe uma audiência cercada de testemunhas. Apesar disso, a origem do negócio lícito mais rentável do Master, a carteira de crédito Credcesta, na Bahia, só se materializou depois de um apoio fenomenal, em 2018, do então governador Rui Costa (PT), atual ministro da Casa Civil de Lula. O senador petista Jaques Wagner também foi tragado pelo escândalo, depois das revelações de que a empresa de sua nora, Bonnie de Bonilha, recebeu 11 milhões de reais do Master.

A esse inventário incômodo somam-­se as contratações de escritórios ligados a familiares de ministros do STF, entre eles Alexandre de Moraes, Dias Toffoli e Kassio Nunes Marques. Dos 129 milhões de reais previstos em contrato para a banca da advogada Viviane Barci de Moraes, ao menos 80 milhões foram pagos, segundo declarações patrimoniais analisadas pela investigação. Moraes, que nos últimos anos triscou os limites de um poder quase imperial, jamais deu explicações sobre sua relação e a do escritório de sua mulher com o banqueiro. Aconteceu o oposto. O ministro passou a conduzir, sob sigilo, investigações destinadas a identificar possíveis responsáveis por vazamentos de informações fiscais ligadas à sua família no âmbito de um inquérito aberto ainda no governo Bolsonaro, que nada tem a ver com os fatos do presente. Até agora, servidores da Receita Federal, do Serpro e da Polícia Federal foram alvo de operações autorizadas por ele no âmbito dessas apurações.

Nos bastidores de Brasília, Moraes também atuou contra a indicação de Jorge Messias à vaga deixada por Luís Roberto Barroso no STF. O principal motivo dessa campanha é a proximidade de Messias com André Mendonça, hoje relator do caso Master no Supremo. Devido à forma como vem conduzindo a investigação, sem indícios de que poupará a Corte, Mendonça tornou-se um desafeto de Moraes. O rigor investigativo que pauta as ações de Moraes contra possíveis violadores de seu sigilo curiosamente não se repete no caso Master.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época