questões vultosas
Fernando de Barros e Silva Mar 2025 14h05
11 min de leitura
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Cada um tem um papel na democracia. Esse é o título do artigo que Eduardo Pazuello publicou no jornal O Globo do último dia 14 de março. O papel dele, Pazuello, é sabotá-la, como se sabe. O papel do jornal da família Marinho é mais complexo. Mas vamos por partes. O texto do general veio a público dias antes do ato em Copacabana convocado por Jair Bolsonaro e seus apoiadores em favor da anistia para os golpistas do 8 de janeiro.
O ato foi um fiasco. O ex-presidente e seus comparsas atraíram pouco mais de 18 mil pessoas para a orla no domingo ensolarado, segundo a medição do Monitor do Debate Político no Meio Digital, ligado à Universidade de São Paulo (USP).
O texto de Pazuello, ao que consta, também passou batido. Diferente do que ocorreu quando Bolsonaro publicou na Folha de S.Paulo, em novembro do ano passado, um artigo intitulado Aceitem a democracia. Lá, o uso do imperativo no título acrescentava uma camada de violência à publicação, como se estivéssemos novamente diante de algo comparável à homenagem ao torturador por ocasião do voto pelo impeachment de Dilma Rousseff. A reação do leitor de boa-fé foi de indignação – como é que viemos parar aqui?
Visto sob o prisma da desfaçatez, o artigo de Pazuello parece mais anódino, não há dúvida. A USP não mediu o número de desocupados dispostos a perder seu tempo lendo o general, mas suspeito que não tenham sido muitos. Fui um deles. E, para minha surpresa, o texto praticamente não fala de democracia. Num total de 534 palavras, a expressão aparece apenas duas vezes, no primeiro e no último parágrafos.
Temos a abertura:
A democracia não é um conceito abstrato, nem uma responsabilidade exclusiva dos políticos. Ela pertence a todos nós.
E depois de oito parágrafos enfadonhos, a conclusão:
A democracia se fortalece quando cada um assume seu papel. E o papel de quem governa é servir ao país, não a interesses individuais ou de grupos políticos.
São frases ocas, sem nenhuma substância. Estão ali, no início e no fim, como moldura retórica de uma peça preguiçosa e vazia, parida burocraticamente por algum assessor pouco iluminado. O deputado Pazuello entrou com o polegar – fui eu que fiz.
Não deixa de ser sintomático – na acepção psicanalítica de sintoma, como expressão cifrada de algo recalcado – que a democracia só apareça no texto como verniz, para enfeitá-lo. Pazuello grita no título olha a democracia, mas corre dela. O assunto real do artigo é outro. O general divaga sobre o papel central da segurança na vida de um país. Peço licença para citá-lo:
A segurança, sem dúvida, é a base sobre a qual tudo se constrói.
As pessoas querem se sentir seguras em todos os aspectos de sua vida.
A segurança é, portanto, o alicerce sobre o qual devemos construir um país próspero.
Platitudes, clichês, generalidades. Mesmo sob a ótica conservadora, é difícil sustentar que o general tenha ideias originais ou acrescente algo ao debate. Pazuello não acende nenhuma luz. O texto serve tão somente para que ele faça xixi no poste. É essa a sua finalidade. Marcar posição, demarcar o terreno – cão mijando no caos. (Que nos perdoe Carlos Drummond de Andrade, autor deste verso. Está no poema Oficina irritada, de Claro enigma.)
A rigor, não causa nenhuma surpresa que a direita faça manobras coreográficas em torno de um tema tão propício à demagogia como a segurança pública. Sempre foi assim, agora está um pouco pior. Também não constitui exceção na imprensa nativa que um de seus principais jornais publique artigos sofríveis, mal escritos e mal pensados. Essa também é uma tradição brasileira. Agora, que Eduardo Pazuello, ocupando o que antigamente era chamado de “espaço nobre”, venha nos ensinar que cada um tem um papel na democracia – parece que aí temos algo que vai além da demagogia e da precariedade. Algo como um sintoma, que talvez mereça mais atenção.
Fora da caserna, quase ninguém conhecia o general quando ele chegou ao Ministério da Saúde, já com a pandemia em curso. Pazuello foi o terceiro a ocupar o cargo sob Jair Bolsonaro, depois de Luiz Mandetta e Nelson Teich. Permaneceu lá por dez meses, de maio de 2020 a março de 2021, sendo os quatro primeiros na condição de interino, o que acentuava a percepção geral de que a Covid não era, nunca foi, uma prioridade daquele governo e vinha sendo tratada com descaso e improvisação.
A gestão Pazuello foi uma sucessão de descalabros. Assim que foi efetivado, ele determinou a expansão do uso da cloroquina e da hidroxicloroquina no chamado “tratamento precoce”, procedimento àquela altura já amplamente desacreditado pela comunidade científica. O ministro posou de garoto-propaganda do remédio e o Exército participou da produção de milhões de comprimidos, distribuídos pelo país com recursos do SUS.
Em outubro de 2020, já efetivado, Pazuello afirmou que “nem sabia o que era o SUS”. Naquele mesmo mês, depois de ser desautorizado por Bolsonaro, ele apareceu num vídeo ao lado do presidente e soltou, sorridente, outra frase que ficaria famosa: “Simples assim: um manda e o outro obedece.” Na véspera, numa reunião com governadores, o ministro havia anunciado o protocolo de intenções de compra de 46 milhões de doses de CoronaVac, a vacina que vinha sendo desenvolvida por uma farmacêutica chinesa e pelo Instituto Butantan, do governo de São Paulo. Bolsonaro mandou cancelar o acordo, e assim foi feito.
Quando o sistema de saúde de Manaus entrou em colapso em decorrência da falta de oxigênio nos hospitais, levando dezenas de pessoas a sufocar até a morte – mortes terríveis e evitáveis –, Pazuello atribuiu a tragédia à “falta de atenção da capital ao tratamento precoce”. Estávamos em janeiro de 2021. No final de dezembro, quando o ano terminou, o país havia registrado 412 880 mortes por Covid em doze meses. Pazuello havia feito sua parte.
Indicado ao cargo para satisfazer a perversão negacionista do chefe, o general levou a sério a máxima do meio militar – missão dada, missão cumprida. Eximindo-se de coordenar ações e campanhas preventivas, recomendando tratamentos contrários ao que dizia a medicina, retardando a compra de vacinas e omitindo da população dados sobre a extensão do problema, o general cumpriu à risca o papel para o qual havia sido escalado. Até 2022, o Brasil foi responsável por 11% das mortes por Covid no planeta, mas responde por menos de 3% da população mundial.
Tudo isso são coisas sabidas. As pessoas, no entanto, tendem a apagar da memória os episódios traumáticos depois que o pior já passou.
Já fora do cargo, depois de ter sido substituído por Marcelo Queiroga, Pazuello participou de um ato político no Rio de Janeiro, em 23 de maio de 2021, ao lado de Bolsonaro. Era ainda um general da ativa, o que não o impediu de subir no palanque e discursar. O comportamento afrontava o regulamento disciplinar do Exército, que veda ao militar da ativa “manifestar-se, publicamente, […] sem que esteja autorizado, a respeito de assuntos de natureza político-partidária”. Estava mais do que caracterizada a transgressão disciplinar, com o aval e o incentivo do presidente da República. Uma esculhambação, que Pazuello definiu como um gesto de “camaradagem”.
Na ocasião, o comandante do Exército era o general Paulo Sérgio Nogueira, que depois seria ministro da Defesa e hoje figura entre os réus que serão julgados por tentativa de golpe. Nogueira chegou à conclusão de que “não restou caracterizada a prática de transgressão disciplinar” e arquivou o processo. Um gesto de camaradagem. Cada um tem um papel na democracia.
Sendo Pazuello quem é, quase tudo, e sendo o seu artigo o que é, quase nada, resta perguntar o que significa oferecê-los dessa forma ao leitor do jornal. Não é difícil imaginar as respostas, começando pelas mais óbvias: publicamos em nome do pluralismo e do debate livre de ideias; ele é deputado federal, foi eleito com mais de 200 mil votos, é um representante legítimo da população fluminense. E por aí vai.
Além do mais, perguntaria meu interlocutor imaginário, qual seria a alternativa? Não publicar? Fingir que Pazuello não existe? Eu diria que o incômodo maior não está na publicação, mas em fingir que Pazuello é um democrata. Que ele existe, sabemos até demais. As vítimas da Covid não nos deixam esquecer disso.
Pazuello se safou da denúncia do procurador-geral, Paulo Gonet. Não aparece na lista dos 34 arquitetos do golpe que agora devem responder por seus crimes perante a Justiça. Quem não teve a mesma sorte foi o general Mario Fernandes, ex-comandante dos chamados “kids pretos”, a tropa de elite do Exército, quase sempre apontado como o mais radical dos golpistas. Durante um ano, entre março de 2023 e março de 2024, Fernandes foi assessor remunerado do gabinete de Pazuello na Câmara. Uma coincidência.
Em 2022, ele estava lotado na Secretaria-Geral da Presidência quando mandou imprimir, dentro do Palácio do Planalto, o plano Punhal Verde e Amarelo, no qual se considerava até o assassinato de Lula, Geraldo Alckmin e Alexandre de Moraes a fim de impedir a posse do petista. O general-kid se encontra preso preventivamente desde novembro do ano passado. Na ocasião, Pazuello disse acreditar “na idoneidade” do colega de farda.
O que nem todos se recordam é que o próprio Pazuello aparece atuando a favor do golpe num dos áudios encontrados pela PF no celular de Mauro Cid. O ex-ajudante de ordens relata ao general Marco Antônio Freire Gomes, então comandante do Exército, que Pazuello havia visitado Bolsonaro uma semana depois da eleição e proposto, durante a conversa, que o então presidente se valesse do artigo 142 da Constituição para dar respaldo jurídico a uma intervenção militar no país.
Se o golpe de Estado tivesse sido exitoso, sabemos de que lado estaria Pazuello. Não há nenhuma dúvida a esse respeito. Gostaríamos de ter a mesma certeza em relação aos veículos de imprensa, o Grupo Globo entre eles.
A desconfiança pode soar excessiva, mas não é gratuita. Mesmo nos Estados Unidos, onde o vínculo dos grandes jornais com a democracia é mais antigo e mais sólido, o retrocesso é visível. Acompanhando as big techs no movimento de adesão a Donald Trump, Jeff Bezos começou a patrocinar mudanças editoriais no Washington Post para alinhá-lo à nova cartilha da Casa Branca. A intervenção começou antes mesmo da eleição e até agora se concentrou nas páginas de opinião do jornal.
Martin Baron, o jornalista que chefiou a redação do Post entre 2013 e 2021, publicou em março, na revista The Atlantic, um relato precioso sobre a conversão do fundador da Amazon ao trumpismo. O título é autoexplicativo: “Onde Jeff Bezos errou com o Washington Post.” Ele conta em detalhes como o bilionário resistiu à primeira onda da barbárie, quando Trump foi eleito, em 2016, mas está sucumbindo a ela desta vez.
O que acontece por lá costuma ter repercussão por aqui, sabemos disso, mas os paralelos entre as relações da imprensa com seus respectivos governos devem ser feitos com cautela. A começar pelo histórico de cada uma: enquanto o Washington Post se dedicava a investigar o escândalo de Watergate, que culminou na renúncia de Richard Nixon, o Globo auxiliava os militares a esconder os crimes da ditadura, publicando em manchete de primeira página que o deputado Rubens Paiva havia sido sequestrado por terroristas. É só um entre muitos exemplos.
Voltando ao presente, a publicação do texto do general golpista que dissimula se ocupar de democracia é um termômetro do nosso Zeitgeist. Mais do que um simples sintoma, suspeito que estejamos diante de uma opção deliberada pelo vale-tudo disfarçada sob o verniz do pluralismo.
Trata-se – vale tanto para o Globo como para a Folha – de uma operação de adequação aos novos tempos, uma espécie de capitulação e de rebaixamento editorial, vendida ao leitor como uma atitude elevada e uma mercadoria nobre. Aplicado sem mais a uma realidade que o atropelou e a uma configuração histórica que ameaça liquidá-lo, o pluralismo não é mais do que um instrumento de legitimação de algo que podemos chamar, sem medo de errar, de bolsonarismo sem Bolsonaro, o sonho de consumo do patronato da mídia brasileira. É nessa página que nos encontramos hoje.
Recentemente, durante uma reunião interna da redação da Folha, um dos chefes tomou a palavra para lembrar a todos que o jornal tinha poucos colunistas de direita. Disse também que nenhum deles, mesmo sendo de direita, havia defendido a anistia para os golpistas, que ele, segundo dois relatos que ouvi, chamou de manifestantes. O recado era claro: a redação e a opinião do jornal precisam contemplar melhor a clientela, um eufemismo para extrema direita.
Mais recentemente, os jornalistas da GloboNews foram apresentados a uma pesquisa realizada pela Quaest, para consumo interno da emissora. Não era uma pesquisa quantitativa, mas o que se ouviu como recomendação no Jardim Botânico foi parecido com que os colegas haviam escutado na Folha. Muitos espectadores consideram que a emissora é de esquerda, querem mais pluralismo (a palavra mágica), mais ideias divergentes. Mas que tipo de divergências? A Jovem Pan foi citada como exemplo.
Seja porque todos estão correndo desesperadamente atrás de audiência num ambiente de crise do modelo de financiamento do jornalismo e dispersão extrema, seja porque a eleição presidencial está se aproximando, o fato é que as redações tradicionais vêm sendo cada vez mais constrangidas a “entender os novos desafios da realidade”, o que, trocando em miúdos, significa considerar Pazuello um democrata e chamar os golpistas de manifestantes. De agora em diante, os “pazuellos” são parte legítima da nossa paisagem. Aceitem a democracia.
Sendo assim, o governador de São Paulo não precisa tirar o boné do MAGA (Make America Great Again) em saudação a Donald Trump, não precisa descer do carro de som de Bolsonaro, não precisa parar com a matança de pobres na Baixada Santista. No lusco-fusco conveniente em que mergulhamos, os patrões da mídia já decidiram que Tarcísio de Freitas serve de democrata. As instituições estão funcionando, o STF está cuidando de Bolsonaro. Como nos ensinou aquele sábio, cada um tem um papel na democracia.