Crédito: ELOAR GUAZZELLI_2026
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questões vultosas

VOLTEI, MANÉ

Está pronta a programação de 2027: o caos

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Há uma bomba-relógio na Praça dos Três Poderes. Ela não é como aquela que foi colocada pelos golpistas no eixo de um caminhão-tanque, nos arredores do Aeroporto de Brasília, na véspera do Natal de 2022. Desta vez, não há o que o esquadrão antibombas possa fazer. A bomba não tem existência material. Se quiséssemos lhe atribuir um corpo, a melhor imagem seria a de um artefato pulsando silenciosamente no interior da estátua que simboliza a Justiça, em frente ao Supremo Tribunal Federal. Ela se encontra lá dentro, entranhada no granito da escultura, à espera do momento de mandar tudo pelos ares.

Alguns desconfiam que ela pode explodir nos próximos meses, na esteira da delação de Daniel Vorcaro e de novas revelações envolvendo o escândalo do Banco Master. Outros apostam que a bomba não tem tanta pressa, que pode entrar em contagem regressiva depois das eleições, a depender do resultado das urnas, ou das oscilações da temperatura das ruas. A bomba pode inclusive falhar na hora H – quem é que sabe? –, mas ela está sendo programada para ser detonada em 2027, quando uma nova safra de marmanjos assumir suas posições no Congresso.

As atenções se voltam com curiosidade inédita para os marmanjos do Senado, que terá dois terços de suas cadeiras renovadas. Como se sabe, é lá que tramitam os processos contra os ministros do STF por eventuais crimes de responsabilidade, o que nunca aconteceu. O atual presidente da Casa, Davi Alcolumbre (União Brasil-AP), acumula sobre sua mesa perto de cem pedidos de impeachment contra os togados do Supremo. Enquanto depender dele, nada irá adiante.

Alexandre de Moraes é o alvo mais visado. Embora as razões imediatas de cada pedido possam variar, até o final do ano passado as iniciativas para destituir Xandão estavam ligadas às suas virtudes como juiz na condução do longo processo que levou à condenação de Jair Bolsonaro. Tentar derrubá-­lo era coisa de golpistas. Isso mudou. O herói da democracia é hoje também um dos vilões do maior escândalo financeiro já visto no país.

Há seis meses, Bolsonaro começava a pagar por seus crimes atrás das grades – havia sido condenado a uma pena superior a 27 anos. Mas seu tempo de prisão, primeiro na superintendência da Polícia Federal, depois na Papudinha, foi curto – não durou quatro meses. Em 24 de março, Moraes autorizou que o ex-presidente fosse para casa, em prisão domiciliar. Em princípio, por três meses.

Depois de ter cumprido pouco mais de 1% de sua pena na cadeia, Bolsonaro encontra-se, por assim dizer, semissolto. E ganhou, além do acesso irrestrito ao leite condensado, um tremendo álibi para se vitimizar: o juiz que o condenou é casado com uma advogada cujo escritório recebeu de Daniel Vorcaro a bagatela de 80 milhões de reais em menos de dois anos. Até hoje, a banca dos Barci de Moraes não conseguiu explicar o trabalho que realizou em troca de quantia tão generosa. Há, além disso, conversas mal explicadas, jatinhos, charutos – uma névoa de suspeitas em torno de Xandão.

Resumo da ópera até aqui, em dois atos: 1. Bolsonaro parece estar mais perto de ser anistiado do que de voltar para a cadeia; 2. A eleição ao Senado será país afora um imenso plebiscito sobre o impeachment de ministros do STF.

Coisa de golpistas? Não só, ou não necessariamente. O senador Alessandro Vieira (MDB-SE), por exemplo, não é um deles, nunca foi. Pode-se chamá-lo de conservador, de inocente útil, até mesmo de idiota político a serviço da moralidade. O relatório que ele produziu como resultado da CPI do Crime Organizado só teve a adesão de políticos simpáticos a Bolsonaro e acabou rejeitado na própria comissão. Era uma peça esdrúxula, que relegava a segundo plano seu objeto – o crime organizado – para pedir o indiciamento de três ministros do STF em razão de suas relações com o caso Master.

As motivações eleitoreiras do senador ficaram óbvias, mas isso é o menos importante. O gesto de Vieira, mais do que uma apelação à caça de votos no Sergipe, é um sintoma do que está por vir em âmbito nacional. Assim como também foi sintomática, no pior sentido, a reação dos magistrados citados no episódio. Dias Toffoli lançou ameaças ao senador, sugerindo que a Justiça Eleitoral o tornaria inelegível. Gilmar Mendes foi além e solicitou ao procurador-geral da República, também citado no relatório, que investigue Alessandro Vieira por abuso de autoridade. Difícil saber quem é mais abusado.

O mesmo Gilmar Mendes pediu a Alexandre de Moraes que investigue o ex-governador de Minas e pré-candidato à Presidência, Romeu Zema (Novo), no âmbito do inquérito das fake news, aquele mesmo iniciado em março de 2019. O motivo foi a publicação de um vídeo de humor de teor calunioso, em que bonecos simulam conversas impróprias entre Toffoli e Gilmar. O boneco do primeiro telefona para o boneco do segundo e pede a ele que anule as quebras de sigilos de suas empresas, requeridas pela CPI. O boneco Gilmar executa o serviço e pede em troca ao boneco Toffoli uma cortesia no resort Tayayá, no que é atendido.

Tudo aqui é lamentável. Ao apresentar uma notícia-crime contra Zema, Gilmar lhe dá visibilidade e oportunidade de vitimização. Mas, além disso, ao recorrer ao famigerado inquérito aberto de ofício há mais de sete anos, reforça a sensação de que os magistrados agem de forma arbitrária e em causa própria. Vistas em conjunto, as movimentações dos ministros – desses ministros – oscilam entre o grave e o ridículo, o trágico e o cômico, o acintoso e o patético. Rimos alto ao assistir ao vídeo dos bonecos corruptos sabendo ao mesmo tempo que isso tudo não vai acabar bem. Quem assistiu a Relatos selvagens, o extraordinário filme de Damián Szifron, lançado em 2014, sabe do que estou falando.

Enquanto Brasília vivia dias de agitação, na pacata cidade de Paulínia, no interior paulista, a cabeleireira Débora Rodrigues dos Santos concedia sua primeira entrevista desde que foi presa por ter pichado a estátua da Justiça com a inscrição “PERDEU, MANÉ”, no 8 de janeiro. Débora do Batom falou durante uma hora à Revista Oeste, em vídeo publicado no último 10 de abril. Trata-se obviamente de uma entrevista chapa-branca, mas tudo foi conduzido com muito cuidado.

Nem Bolsonaro nem Lula são mencionados na conversa, e a política aparece como moldura de um depoimento cuja tônica recai sobre o relato pessoal e o drama familiar (ela tem dois filhos), tudo em tom emotivo, mas ao mesmo tempo contido. Débora recorre a bordões do bolsonarismo e fala que aderiu aos acampamentos movida pelo “senso de justiça que vibrava no coração de todo brasileiro de bem”. Diz que jamais pensou em baderna e vandalismo e descreve o dia do golpe como um movimento de “cegos guiando cegos”, sem programação nem liderança. A pichação, segundo ela, foi feita “no calor da emoção”, a pedido de um homem que disse ter a letra feia.

Condenada a catorze anos de prisão, Débora ficou detida por dois anos e onze dias antes de obter a prisão domiciliar, em setembro do ano passado. Ela conta os terrores da prisão, insiste na descrição das insalubridades que teve que enfrentar e diz que está escrevendo um livro sobre sua experiência. A respeito do futuro, fala que seu maior desejo é conquistar “a completa liberdade, mas não só a minha”. Faz alusão aos presos “que estão morrendo” e aos “exilados”, sem especificar ninguém. Interrompe sua fala e chora, pede desculpas por chorar. O entrevistador está ali para ajudar e evita perguntas que possam incomodá-la.

“Voltei, Mané” seria provavelmente um título excessivo para o tipo de enfrentamento que Débora parece disposta a travar. Mas é exatamente disso que se trata. Depois de terem sido derrotados, os manés estão de volta à arena política para vingar os desmandos do Judiciário. A bomba, ela também cega em terra de cegos, segue seu curso e vai engordando dentro da estátua enquanto aguarda o momento de parir o caos, em 2027.


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