questões vultosas
Fernando de Barros e Silva Mar 2025 10h32
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A primeira cena ocorreu no dia 20 de fevereiro, dois dias depois que veio a público a denúncia contra Jair Bolsonaro e outros 33 marmanjos – 23 deles fardados –, todos, de acordo com o procurador-geral Paulo Gonet, membros da organização criminosa que tentou executar um golpe de Estado no Brasil. Mas não estamos em Brasília, e sim nos arredores de Washington, DC, onde se realizava mais uma edição da Conferência da Ação Política Conservadora, ou Cpac, o convescote que reúne anualmente a extrema direita dispersa pelo planeta.
No palco, diante do auditório lotado, com a plateia em pé registrando cada detalhe com celulares, Elon Musk empunha uma motosserra personalizada, com a inscrição Viva la libertad, carajo!, que acabara de receber de regalo das mãos de Javier Milei. Todo vestido de preto, de óculos escuros e boné com os dizeres do maga (Make America Great Again), o homem mais rico do planeta chacoalha o instrumento no ar, observado por um sorridente presidente cucaracho, que acena para o público e dá a impressão de reproduzir por um instante a saudação nazista que Musk havia feito na posse de Donald Trump.
Parece um capricho sinistro que Milei lembre fisicamente Alex, o protagonista estuprador do filme Laranja mecânica, de Stanley Kubrick. O líder argentino também é um sociopata. Em sua campanha à Presidência, a motosserra era oficialmente o símbolo da promessa de erradicar gastos, mas, na prática, funcionou como uma espécie de senha do grau de delinquência e agressividade a que estava disposto o candidato anarcocapitalista em sua cruzada para desmantelar o próprio Estado e a ideia herdada do que seja governar um país.
Nas mãos do titular do Departamento de Eficiência Governamental de Trump, a mesma motosserra evocava menos uma representação do Estado enxuto do que um objeto fálico e uma arma a serviço da pantomima fascista. O seu apelo irresistível vinha daí, da celebração erótica da violência e da morte, dessa confusão entre Eros e Tânatos. O prazer da destruição e o gozo na destruição, encenados sobre o palco por homenzinhos infantiloides fazendo demonstrações pueris de virilidade. Os gestos exagerados, a um só tempo didáticos e caricatos, a apologia da violência como expressão da liberdade e o gosto pelas excentricidades são características comuns entre líderes fascistas. A mise-en-scène com a motosserra foi um aggiornamento estético e político dessa cultura que remete na sua origem, antes de Hitler, a Benito Mussolini.
Sabemos que no mundo real Milei está enroscado com o escândalo da $Libra, a criptomoeda que ele promoveu no mercado pelas redes sociais e cujo valor disparou e, depois de poucas horas, despencou abruptamente, causando enormes prejuízos a milhares de investidores, além da suspeita gravíssima de que o presidente se beneficiou de uma operação fraudulenta.
Musk também está sendo reprovado no teste da realidade: pesquisas de opinião o colocaram entre as figuras mais impopulares do novo governo. No final do mês, ele sofreu um revés, ao ser desautorizado pela Casa Branca, depois de ter anunciado que demitiria os servidores federais que não respondessem a um e-mail que lhes fora enviado pelo Gabinete de Gestão de Pessoal, cobrando que prestassem conta sobre seus afazeres na última semana. A revista The Economist escreveu que a guerra de Musk contra o desperdício e a fraude “corre o risco de se transformar numa farsa” e acrescentou, com sarcasmo britânico, que a motosserra pode se voltar contra o próprio magnata.
O circo que os novos fascistas oferecem à plateia nunca corresponde ao que eles de fato são capazes de entregar aos cidadãos. Mas costuma funcionar. A extrema direita sabe inventar os seus problemas, criar os seus inimigos e produzir as suas próprias narrativas de combate. O importante é estar permanentemente em guerra. Contra o PT, contra os imigrantes, contra a urna eletrônica, contra o STF, contra a globalização, contra o comunismo, o diabo que for. Há sempre alguém para serrar ao meio. A paz, para os fascistas, é a morte.
A segunda cena é anterior à primeira. São, na verdade, dois vídeos que circularam na internet mostrando a interação entre Lula e os jabutis da Granja do Torto, a residência de veraneio da Presidência. O primeiro deles foi gravado no Natal; o mais recente, em 8 de fevereiro – pouco mais de quarenta dias entre um e outro. Podemos ver Lula caminhando pelo gramado, fazendo carinho no pescoço dos animais e dizendo frases do tipo: “Quando a gente respeita a natureza, a natureza entra em harmonia”; “Hoje é Natal, estou fazendo uma visita para ver como as carpas engordaram”; “Vamos dar para esses bichinhos [os jabutis] uma cascatinha […] com água limpa para eles poderem tomar banho e beber; duas casinhas do Minha Casa, Minha Vida”.
Janja também participa das filmagens. Aparece alimentando uma jabota com um pedaço de banana e pergunta aos técnicos do Ibama se as cinco fêmeas recém-chegadas ao novo hábitat haviam sido apreendidas. A preocupação pedagógica e a naturalidade forçada do diálogo tornam o conjunto um tanto constrangedor. A despeito disso, se você tem alguma afeição por animais, ficará sensibilizado. Mas também ficará exasperado com a cena se você é alguém que acompanha minimamente o curso da política nacional.
A motosserra e os jabutis são personagens de peças de propaganda bastante reveladoras do momento atual. Assim como é difícil não ver em Milei, em Musk e em Trump variações do psicopata de Laranja mecânica, é praticamente impossível não associar os jabutis à figura do próprio Lula. O velho político resgatado do cativeiro, provido de uma bela carapaça, um sobrevivente improvável, uma espécie de sábio antigo e vagaroso em tempos vertiginosos e sombrios.
O jabuti é resiliente. Parece desafiar as leis da seleção natural. Mas até ele, o inquebrantável Jabuti-Lula, tem o seu ponto de exaustão. Sua popularidade derreteu e há dúvidas sinceras de que ele ainda tenha forças para enfrentar uma nova disputa contra a motosserra.
Com a perspectiva de que Bolsonaro seja condenado pelo STF e preso em seguida – este, pelo menos, é o cenário que hoje parece mais provável num quadro de muita indefinição –, abre-se no campo conservador, da extrema direita ao Centrão kassabiano e emedebista, um leque de opções para 2026. É um pouco inútil especular sobre nomes a essa altura. Estamos na fase das conversas, das prospecções, do mapeamento do terreno. A temporada de caça aos quelônios começa em outra estação.
Tarcísio de Freitas lidera as apostas. Mas sua reeleição ao governo paulista é dada como certa. Sua escolha entre um destino e outro depende de conversas com Bolsonaro, que pode lhe dificultar o caminho. Depende também, em alguma medida, do estado geral de saúde, física e política, do jabuti. Ronaldo Caiado está convicto de que chegou a sua vez, mas sua viabilidade está atrelada à desistência de Tarcísio. Há ainda os outsiders. O astro sertanejo Gusttavo Lima invade a faixa do governador de Goiás como possível representante do agro e da promessa de transformar este Brasilzão num Grande Centro-Oeste.
Se Bolsonaro chegou à Presidência e Trump foi reeleito, estamos num mundo em que tudo pode acontecer. Inclusive o efeito anestésico diante do que antes nos parecia intolerável. A extrema direita acaba de conquistar um espaço inédito de poder na Alemanha desde o fim do nazismo.
No Brasil, a preocupação com a criminalidade deve dividir com a economia o topo das atenções do eleitorado em 2026. Se a isso se somar o recrudescimento da rejeição à classe política, como indicou recentemente Felipe Nunes, diretor da Quaest, a equação da direita está montada. Menos política e mais polícia é um slogan com sabor de vingança e cheiro de vitória. O candidato ideal seria uma mistura de Javier Milei com Nayib Bukele, o homem que declarou guerra ao crime e instalou um estado de terror em El Salvador para derrotar as milícias locais. A hora é da motosserra, que se danem os vulneráveis. Como disse Lula, “não é fácil a vida animal com o ser humano que está sendo criado no mundo hoje”.