Imagem Vini Jr, a construção de um jogador antirracista

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VINI JR, A CONSTRUÇÃO DE UM JOGADOR ANTIRRACISTA

A estratégia do atleta brasileiro para combater o preconceito dentro e fora dos campos

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De Madri

O dia 21 de maio tinha tudo para ser especial para o Valencia, um dos times de futebol mais tradicionais da Espanha, e para a historiadora brasileira Sylvia Brito, moradora da cidade que dá nome ao clube. O Valencia comemorava o centenário de seu estádio, o mítico Mestalla, um dos mais antigos do país. E Sylvia Brito iria a um jogo em Valência pela primeira vez, em companhia do marido espanhol, Carlos González. O casal queria testar se a experiência de ir a um estádio seria amigável para o filho de 5 anos, que está no espectro autista. Carlos, ele próprio, estava voltando ao Mestalla depois de vinte anos, quando desistiu de ver os jogos devido aos “ultras”, apelido das torcidas conhecidas pela violência intolerável. Sylvia vestiu uma camiseta da Seleção Brasileira em homenagem aos craques brasileiros que estariam em campo: Rodrygo, Militão e Vinícius Júnior, todos do time adversário, o Real Madrid.

O Madrid, como é chamado por seus torcedores, é a equipe que todos os times espanhóis sonham em derrotar. Afinal, o clube é o mais vitorioso não apenas da Espanha, mas do mundo. Ganhou catorze vezes a Liga dos Campeões da Uefa, torneio que reúne as principais equipes europeias, e está para o futebol assim como a NBA está para o basquete ou o Oscar está para o cinema. Nas prateleiras da Casa del Libro, a maior livraria da capital espanhola, as vitórias do Real Madrid na Liga dos Campeões inspiram obras épicas. Os “madridistas” – como são chamados os torcedores do clube – enumeram seus títulos como Beethoven contava suas sinfonias: La Primera, La Quinta, La Nona… O livro intitulado La Decimocuarta, que trata da conquista mais recente, em 2022, mostra uma sequência de fotos sobre o gol da vitória por 1 a 0, numa final duríssima contra o Liverpool, da Inglaterra. O herói da décima quarta – “como Héctor Rial na Primeira, Gento na Terceira, Serena na Sexta, Mijatovic na Sétima, Zidane na Nona…”, escreve o autor Enrique Ortego – é o brasileiro Vinícius Júnior.

A tarde de 21 de maio começou festiva, com músicas que celebram o time e a cidade – a velha Valência, fundada pelos romanos, conhecida entre os séculos VIII e XIII como um lugar de tolerância, onde os governantes muçulmanos garantiam a liberdade de culto dos cristãos. O primeiro tempo da partida, válida pelo Campeonato Espanhol, transcorreu em paz, com a vitória parcial do Valencia por 1 a 0. Sylvia e Carlos puxaram conversa com uma simpática família sentada nas cadeiras contíguas. Era um casal, dois filhos e as avós das crianças. No intervalo, o placar eletrônico seguia a tradição de tolerância de Valência e exibia mensagens edificantes sobre o fair play no futebol – uma delas, lembra Sylvia, fazia uma condenação veemente do racismo nos estádios. Aos 27 minutos do segundo tempo, porém, tudo mudou.

Vinícius Júnior, craque do time, tentava uma jogada de ataque no momento em que um torcedor do Valencia começou a gritar: Mono (macaco, em espanhol). A família simpática, sentada ao lado de Sylvia e Carlos, aderiu ao insulto racista. “Até as avós e as crianças”, recorda Sylvia, que testemunhou a cena com perplexidade. Seu marido tentou conter os insultos, censurando os agressores, e foi xingado. Em campo, Vinícius Júnior apontou para as arquibancadas, identificando um dos racistas. O juiz parou o jogo por alguns instantes, não tomou qualquer providência adicional e retomou a partida. Os insultos se agigantaram e tomaram o estádio inteiro.

No fim da partida, já nos acréscimos, deu-se um entrevero em campo. Um jogador do Valencia, talvez querendo gastar tempo, pois seu time continuava com vantagem de 1 a 0, desabou no chão. Vinícius Júnior se dirigiu ao jogador, protestando, o goleiro adversário correu até os dois e outro atacante adversário já chegou aplicando um mata-leão em Vinícius, que reagiu empurrando o agressor pelo rosto. Resultado: nada aconteceu com o atacante do mata-leão, o goleiro recebeu cartão amarelo e Vinícius Júnior, que jogara com um estádio gritando um insulto racista, foi expulso do jogo.

A infâmia no centenário do Mestalla cansou indignação. Na entrevista coletiva depois do jogo, o italiano Carlo Ancelotti, treinador do Real Madrid – e convidado para assumir a Seleção Brasileira –, disse que não falaria de futebol naquele dia. “O que aconteceu hoje não pode acontecer, um estádio inteiro gritando ‘macaco’ para um jogador, e um treinador pensa em tirar o jogador [de campo] por causa disso. Há algo errado nessa Liga”, disse, referindo-se à entidade que organiza o Campeonato Espanhol. No Twitter, Vinícius postou um texto duro, mas elegante: “O racismo é o normal na LaLiga. A competição acha normal, a federação também e os adversários incentivam. Lamento muito. O campeonato que já foi de Ronaldinho, Ronaldo, Cristiano e Messi hoje é dos racistas.”

Os chefes dos governos da Espanha e do Brasil foram veementes. “Não podemos permitir que o racismo e o fascismo tomem os estádios de futebol”, disse o presidente Lula. “Tolerância zero para o racismo no futebol”, decretou o governante espanhol Pedro Sánchez. Sylvia e seu marido voltaram para casa impressionados. “Foi uma barbárie. Era uma raiva incontida”, me disse ela, em conversa por Zoom. “Decidimos não ir mais ao estádio, e eu preferia que meu filho não tivesse esse carinho pelo Valencia.”

A indignação e os protestos atingiram um volume que, pela primeira vez, parecia que alguma providência efetiva poderia ser adotada contra as manifestações racistas nos estádios. O Real Madrid emitiu notas de repúdio, a expulsão de Vinícius Júnior foi anulada, três suspeitos pelos insultos racistas foram presos, a arquibancada reservada aos torcedores mais fanáticos do Valencia foi interditada por cinco jogos e o time recebeu uma multa de 45 mil euros. Passados quase quatro meses, a cena era outra: a interdição da arquibancada fora reduzida para três jogos, a multa caíra para 27 mil, os três suspeitos estavam soltos há muito tempo – e o Real Madrid nunca mais tocou no assunto. “Até hoje ouço, na fila do supermercado, meus vizinhos reclamando que as punições ao Valencia foram desproporcionais, que não há racismo na Espanha”, diz Sylvia Brito, que mora ao lado do Mestalla.

No silêncio e na aparente indiferença, no entanto, uma coisa aconteceu. O episódio tornou-se mais um tijolo na construção de algo raro nos gramados: um jogador radicalmente disposto a enfrentar a chaga do racismo. Diz Esteban Ibarra, presidente do Movimento Contra a Intolerância, uma tradicional ONG madrilenha de defesa dos grupos discriminados: “Quando o racismo atinge uma grande estrela, é a oportunidade de avançar na luta. Temos esperança que Vinícius Júnior assuma as causas antirracistas e se torne um líder.”

Vinícius José Paixão de Oliveira Júnior trabalha com uma equipe que chega a 27 pessoas, metade das quais em regime de dedicação exclusiva. Remunera seus auxiliares com seu salário da ordem de 10 milhões de euros por ano, o equivalente a 54 milhões de reais, e seus milionários contratos publicitários com patrocinadores como Pepsi, Vivo, Ambev e a casa de apostas Betnacional. Como não é apenas um jogador, mas uma marca altamente valiosa, Vinícius não tem apenas assessores esportivos, mas também publicitário, cinegrafista, administrador de redes sociais, empresário, agente, além de três amigos de infância, que o ajudam a se sentir em casa em um país estrangeiro. (Hoje, Vinícius sente-se à vontade em Madrid, onde mora no luxuoso condomínio La Moraleja, o mesmo onde vivia Ronaldo Fenômeno, e onde tem a companhia de vários outros jogadores do clube. La Moraleja fica perto do campo de treinos do Madrid e, acreditam seus dirigentes, a uma distância segura das tentações da movimentada noite madrilenha.)

A equipe de Vinícius vem definindo com precisão o modo como o jogador deve se portar diante de casos de racismo. Há duas estratégias em curso. A primeira, segundo contaram seus assessores para a piauí, com a condição de ficarem no anonimato porque não têm autorização para falar em nome de Vinícius, é evitar que a imagem de ativista antirracista possa desvalorizar a cotação do jogador no mercado da bola. Uma das conclusões dos assessores é que Vinícius não deve se colocar publicamente como “vítima” de racistas, mas como “carrasco” de racistas. Não como alguém que sofre com o racismo, mas como alguém que expõe e combate os agressores. Não é por acaso que, no episódio em Valência, o jogador apontou para torcedores que imitavam macacos, levando o juiz a parar o jogo.

Na questão da imagem, seu staff zela para que Vinícius continue projetando aquilo que consideram seu maior diferencial: o garoto batalhador que deixou em segundo plano as diversões juvenis para treinar duro e colecionar recordes esportivos, como um atleta olímpico. Tinha 16 anos quando, depois de despontar no Flamengo, assinou seu primeiro contrato com o Real Madrid. Nesse sentido, Vinícius cultiva imagem oposta à de Neymar, que também chegou cedo ao estrelato mundial, mas ganhou fama de baladeiro. (Em agosto, Neymar transferiu-se para o Al-Hilal, time do bilionário campeonato da Arábia Saudita, uma espécie de parque de diversões para alguns astros que começam a se aproximar da aposentadoria.)

A segunda estratégia de Vinícius Júnior é selar “alianças potentes”. O entendimento do seu staff é que o jogador tem força própria – seja por sua imagem única, seja por seu talento ímpar –, mas a atuação pública requer apoiadores de peso para evitar seu isolamento. Há pouco, Vinícius – ou apenas Vini, como é chamado por amigos e fãs – conversou com o ex-jogador britânico Rio Ferdinand, que se envolveu em polêmicas sobre racismo no início da década passada e hoje é comentarista numa emissora de tevê. Ferdinand é um grande defensor do jogador brasileiro.

Outra “aliança potente” é com Ednaldo Rodrigues, o primeiro negro a presidir a Confederação Brasileira de Futebol (CBF). Num amistoso em junho contra a Guiné, em Barcelona, a Seleção Brasileira pela primeira vez usou um uniforme inteiramente preto, em protesto contra as ofensas sofridas por Vinícius dias antes. No mesmo jogo, o staff do jogador denunciou um caso de racismo contra Felipe Silveira, um de seus amigos de infância. Um segurança do estádio Cornellà-El Prat, em Barcelona, mostrou uma banana ao amigo de Vinícius. Ainda em Barcelona, o craque brasileiro recebeu a visita do presidente da Fifa, o suíço-italiano Gianni Infantino. Ele convidou o jogador para liderar um comitê antirracismo da entidade, que lutará por punições rigorosas contra jogadores, clubes ou torcedores que cometam ofensas racistas. Vinícius aceitou.

Pouco depois do vexame do Mestalla, o craque brasileiro publicou em suas redes sociais uma foto com o rapper Jay-Z. Eles estavam nos bastidores de um show de Beyoncé, mulher de Jay-Z, em Londres. Selava-se ali mais do que uma “aliança potente”. Jay-Z acaba de virar acionista da empresa que administra a carreira de Vinícius, a TFM. O fundador da empresa, Frederico Pena, é agente de Vinícius desde 2014, quando o jogador, com 14 anos incompletos, ainda era uma promessa na categoria sub-15 do Flamengo. Agora, com a participação de Jay-Z, a TFM mudará de nome para Roc Nation Sports Brazil, usando a marca consagrada pelo rapper.

Jay-Z agencia artistas e atletas no mundo inteiro e foi o responsável por aumentar a presença de cantores negros nos shows do Super Bowl, a final da liga de futebol americano e um dos maiores eventos esportivos do mundo. Em entrevista ao UOL, o empresário Frederico Pena disse: “A influência de Jay-Z vai elevar o interesse pelas histórias de superação dos atletas, pelas suas ideias, pelas causas que defendem, pelos seus planos e pelas suas marcas além do esporte. Esse é o maior diferencial de estar associado a ele, alguém que expande a influência de artistas e atletas além das suas atividades originais.” Também outros jogadores brasileiros, como Paquetá e Endrick, estão na Roc Nation, ao lado de artistas como Rihanna e Alicia Keys.

Vinícius está de olho no mercado americano. Está aprendendo inglês, e alguns de seus ídolos são atletas ativistas que disputam as ligas esportivas dos Estados Unidos, como o jogador de basquete LeBron James, que teve atuação corajosa no repúdio ao assassinato de George Floyd. Ele é também fã de filmes e séries com temática social ou racial, como Coach Carter, com Samuel L. Jackson, que destaca a importância da educação para combater as mazelas sociais. Um de seus filmes favoritos é 42 – A História de uma Lenda, sobre a vida de Jackie Robinson, o primeiro jogador negro a disputar a principal liga de beisebol nos Estados Unidos. “Na era do TikTok e do clickbait, ele é alguém que quer ler e aprender. Sempre escuta e pensa, e se prepara muito antes de falar sobre qualquer assunto”, diz um dos integrantes do staff de Vinícius.

Antes da Copa de 2022, Vinícius Júnior acertou com a Netflix a produção de uma série sobre sua carreira. Será o terceiro brasileiro a ter um documentário do gênero naquela plataforma, depois de Pelé e Neymar. O material é farto. Desde os 18 anos, Vini vive uma espécie de constante Big Brother, com um cinegrafista e um fotógrafo acompanhando seus passos. Seu staff guarda em arquivo mais de 40 mil imagens do craque. A ideia é que a série mostre, entre outras coisas, o cotidiano esportivo de Vinícius, cujos treinadores estabelecem metas rigorosas – que depois metrificam e cobram. Além do repertório de dribles, Vinícius é um jogador de velocidade e força física, e depende da parte atlética para ter bom desempenho. A série da Netflix deve ficar pronta em 2025, para ser exibida antes da próxima Copa do Mundo, cujos principais jogos serão nos Estados Unidos.

Além de pujança do mercado, os Estados Unidos oferecem uma tradição de combate ao racismo, que vem dos movimentos por direitos civis dos anos 1960. Nesse sentido, uma posição mais firme de Vinícius sobre a questão racial, para além do imperativo humanitário, não deixa de ser um ativo na carreira. Já na Europa em geral, e na Espanha em particular, o tema é mais complexo. A luta contra o racismo se mistura com mazelas recorrentes do futebol: a infiltração de grupos neonazistas nas torcidas uniformizadas e o fenômeno dos hooligans, os violentos torcedores que começaram a chamar a atenção na Inglaterra e depois se espalharam pelo continente.

Para se defender das acusações de tolerância com o racismo, a LaLiga divulgou um dossiê logo depois do episódio do Mestalla. Enumerou catorze casos de racismo, ocorridos entre 2020 e 2023, todos levados à Justiça pela entidade. Dez deles – ou seja, mais de 70% dos casos – envolvem o craque brasileiro, mais uma prova de que Vinícius é, de longe, a maior vítima de ataques racistas no futebol europeu. Ao tentar explicar as razões disso, alguns de seus críticos usam um argumento de fundo racista: Vinícius sofre xingamentos porque provoca os adversários e comemora alguns de seus gols com dancinhas – como se a catimba em campo fosse exclusividade sua, e as comemorações descontraídas não fossem parte da cultura dos jogadores brasileiros que atuam na Europa. É mais provável que as ofensas racistas tenham a ver com suas atuações decisivas. Na última temporada, na disputa da Liga dos Campeões, Vinícius se destacou em assistências a gol (seis) e em gols marcados (sete).

O dossiê contabiliza os casos conhecidos, claro. “Mas há subnotificação”, diz David Moscoso-Sánchez, professor da Universidade de Córdoba e especialista em sociologia do esporte. “Em 2021, por exemplo, foram apenas 638 denúncias, o que é muito pouco para o tamanho da população espanhola.” Além da subnotificação, o dossiê da LaLiga mostra que a maior parte das denúncias racistas não foi acolhida pela Justiça. Num dos casos mais escandalosos, cuja vítima foi o basco Nico Williams, jogador negro do Athletic Bilbao, o agressor foi flagrado em ação por outros torcedores e o vídeo acabou sendo postado nas redes sociais. A Justiça recebeu o vídeo, escrutinou as redes sociais do agressor e concluiu que “não parece uma pessoa que pretenda incitar o racismo, nem que os gestos realizados pretendem atacar tal fim”. O processo foi arquivado.

Historicamente, o futebol espanhol em geral, e o Real Madrid em particular, nunca foram acolhedores para jogadores negros. Em 1959, os madridistas contrataram ninguém menos que o brasileiro Didi, o melhor jogador da Copa do Mundo do ano anterior, realizada na Suécia. O supercraque botafoguense foi o primeiro jogador negro a ganhar um título continental de clubes, mas nunca se firmou no Real Madrid. Enfrentou os ciúmes do maior mito do time – o atacante Alfredo Di Stéfano – e outro mito madridista, o presidente Santiago Bernabéu, que hoje dá nome ao estádio do clube, ficou ao lado do argentino.

Outro craque negro a vestir a camisa do Real Madrid foi o inglês Laurie Cunningham, no início dos anos 1980. Cunningham, que tinha características semelhantes às de Vinícius Júnior e jogava na mesma posição – atacante pela esquerda – era um jogador habilidosíssimo, mas sofreu com o racismo tanto em seu país, quanto em Madri, onde a torcida madridista não perdoava suas saídas para restaurantes e casas noturnas. A carreira de Cunningham entrou em decadência e o craque acabou morrendo num acidente de carro na capital espanhola, em 1989.

Um dos exemplos mais repulsivos de racismo contra Vinícius Júnior veio da torcida do maior adversário do Real Madrid na cidade, o Atlético de Madrid. Em janeiro deste ano, um boneco negro apareceu pendurado pelo pescoço, na posição de enforcado, num viaduto do bairro de Valdebebas, perto do campo de treinamento do Real Madrid. O boneco estava vestido com a camisa branca de número 20, usada por Vinícius ao longo do campeonato passado. No viaduto, havia uma faixa com os dizeres “Madrid odeia o Real”, nas cores vermelha e branca do Atlético de Madrid. A infâmia foi assumida pela Frente Atlético, um dos inúmeros grupos de torcedores “ultra” da Espanha.

“Grupos de torcedores com afinidades neonazistas não são, infelizmente, novidade na Espanha”, diz Esteban Ibarra, do Movimento Contra a Intolerância. “A ação deles, no entanto, segue existindo por causa da indolência institucional.” Praticamente todos os times grandes da Espanha têm seus grupos de torcedores “ultra”. Eles são violentos e, em geral, se agrupam sempre no mesmo lugar nos estádios, atrás de um dos gols, nas gradas de fondo, onde os ingressos são mais baratos. De tempos em tempos, quando há um ato de violência, são banidos dos estádios, mas acabam voltando. Os integrantes da Frente Atlético já foram proibidos de assistir aos jogos do Atlético de Madrid, mas voltaram. O Real Madrid já teve um dos piores grupos de “ultras”, o Ultras Sur, que chegou a receber subvenção do clube. No caso do Real Madrid, porém, o combate foi mais efetivo. Os integrantes do Ultras Sur foram banidos e tiveram suas benesses cortadas.

Segundo Ibarra, a primeira reação relevante contra ofensas racistas na Espanha ocorreu em 2004. A vítima era o craque camaronês Samuel Eto’o, centroavante do Barcelona. Na ocasião, como hoje, houve reação do chefe do governo espanhol – o socialista José Luis Zapatero. Ele instituiu um Observatório da Violência e Racismo no Esporte, que teria como missão criar um protocolo para combater esse tipo de crime. No mesmo espírito, três anos depois, criou-se uma lei antirracista bastante completa, na avaliação de Ibarra. Em seu artigo 35, pune “comportamentos e atos de menosprezo ou desconsideração a uma pessoa ou grupo de pessoas em relação à sua origem racial ou étnica, religião, convicções, capacidades, idade, sexo ou orientação sexual”. Entre as punições para os clubes estão o fechamento dos estádios, perda de pontos e postos na classificação – e até descenso de categoria ou divisão.

Ocorre que as punições nunca foram aplicadas a sério na Espanha, como se viu no caso de Vinícius Júnior no Mestalla. O Observatório da Violência e Racismo no Esporte, criado por Zapatero, teve um papel importante na criação da lei, mas depois de 2011 nunca mais se reuniu. Num livro que publicou sobre o assunto, Los Crímenes del Odio, Ibarra fala do hooliganismo britânico e dos grupos “ultra” que surgiram na Itália, fomentados por partidos políticos de origem fascista.

De acordo com Ibarra, o modelo violento e intolerante se espalhou pela Europa. “As torcidas de futebol, formadas por jovens, são um ambiente propício para que ideologias racistas, autoritárias e homofóbicas floresçam”, diz. “Os grupos ‘ultra’ hoje trocam informações nas redes sociais e estão cada vez mais próximos de partidos de extrema direita.” No jogo que assistiu com o marido, a historiadora Sylvia Brito identificou – e fotografou – uma tenda em que integrantes do Vox, o belicoso partido da direita radical espanhola, buscavam novos filiados na parte externa do Mestalla.

A ONG de Ibarra está convenientemente localizada no bairro de Lavapiés, na região central de Madri, próxima a uma praça com o nome de Nelson Mandela. Lavapiés, com seus restaurantes africanos e asiáticos, tem uma diversidade racial superior à média das cidades espanholas. Ao contrário de capitais de países que mantiveram colônias na África – como Londres, Paris, Bruxelas ou Lisboa –, Madri não é uma cidade que se destaque pela cena multicultural. Não se sabe quantos negros há na Espanha, pois o censo não demanda uma autodeclaração racial. Estima-se que, numa população de 47 milhões, a maior parte dos cerca de 5,5 milhões de imigrantes seja proveniente da América do Sul, e não da África ou da Ásia.

Como Vinícius Júnior é um dos atletas mais caros do mundo e joga nas ligas mais ricas, não é incomum que sua militância antirracista seja confundida com um negócio. Javier Tebas, o presidente da LaLiga, trouxe essa confusão à tona no dia seguinte aos ataques racistas no Mestalla. Em sua conta no Twitter, censurou o jogador brasileiro e disse que ele deveria se informar “adequadamente” e não se deixar “manipular” antes de “criticar e injuriar @LaLiga”. Abaixo do tuíte de Tebas, um vídeo – gravado meses antes – mostrava Vinícius Júnior elogiando LaLiga por punir racistas nos estádios.

Tebas queria sugerir que as críticas de Vini Jr contra a LaLiga eram um jogo de cartas marcadas no qual o craque brasileiro, mal-informado, estava sendo manipulado pelo Real Madrid. A questão, na verdade, é uma guerra financeira. O torneio com mais público e renda por jogo no mundo é a Liga dos Campeões, disputa entre as equipes europeias que tiveram boa colocação em seus campeonatos nacionais. O Real Madrid alega que perde dinheiro nas fases iniciais da Liga dos Campeões, quando se vê obrigado a enfrentar times de menor expressão, em jogos com pouco público.

Por isso, o Real Madrid lidera um movimento cujo objetivo é criar uma “Superliga” apenas com os clubes mais ricos e tradicionais, que atraem bom público, como os ingleses Manchester City, Manchester United, Liverpool, Chelsea, Arsenal e Tottenham, o alemão Bayern de Munique, o francês Paris Saint-Germain e os espanhóis Real Madrid e Barcelona. A proposta do Real Madrid significaria, na prática, a morte da Liga dos Campeões tal como é hoje, e resultaria no esvaziamento dos campeonatos nacionais – como o próprio Campeonato Espanhol, que vem a ser razão de existência e fonte de recursos da LaLiga.

O Real Madrid é um empreendimento fabuloso. No museu do time, localizado no Estádio Santiago Bernabéu, um painel informa que o clube tem quase 1 milhão de torcedores com a carteirinha de associado – o equivalente ao programa de sócio-torcedor dos clubes brasileiros – e nada menos que 2,3 mil torcidas uniformizadas espalhadas pelo mundo. Para ser sócio-torcedor do clube, nem é necessário morar na capital espanhola. Pode-se fazer uma carteira de sócio em qualquer lugar do planeta – desde que se pague uma contribuição anual, que começa em 150 euros, cerca de 800 reais. Esse império está sob o comando de Florentino Pérez, dirigente que tem investido – e prestigiado – Vinícius Júnior. Na primeira partida do Real Madrid depois do racismo no Mestalla, contra o modesto Rayo Vallecano, Vini não entrou em campo, mas assistiu ao jogo ao lado do presidente do clube. “Foi uma deferência concedida a pouquíssimos jogadores e um grande sinal de apoio, dado o peso que Florentino Pérez tem no futebol espanhol”, diz Tomás Roncero, apresentador de tevê e autor de vários livros sobre o Real Madrid.

Florentino Pérez, o presidente do Real Madrid, é o principal articulador da dissidência da “Superliga”. Ele dificilmente atingirá seu objetivo porque lhe falta a adesão dos clubes ingleses, cujo campeonato – a Premier League – rivaliza em faturamento com a Liga dos Campeões (6 dos 10 clubes mais ricos do mundo são do Reino Unido). A imensa maioria dos torcedores do continente também é contrária ao que considera uma espécie de golpe. Pérez, além de cuidar dos interesses do Real Madrid, é o principal patrocinador da carreira de Vinícius dentro do clube.

Trata-se de um investimento que, até agora, vem trazendo resultados. O site Transfermarkt, que afere a cotação dos jogadores no mercado da bola, aponta Vini como o terceiro jogador mais caro do mundo. De acordo com o site, ele só sairia do Real Madrid se o clube recebesse uma compensação astronômica, da ordem de 150 milhões de euros, o equivalente a mais de 800 milhões de reais. Vinícius só perde para o norueguês Erling Haaland, a maior estrela do Manchester City e atual campeão europeu, e para o francês Kylian Mbappé, o artilheiro da última Copa do Mundo. Os dois estão cotados a 180 milhões de euros, quase 1 bilhão de reais.

O mercado de futebol atual funciona assim: as estrelas assinam contratos com multas rescisórias astronômicas e impagáveis, que em muitos casos são apenas pró-forma. Os sites de cotações calculam por quanto os clubes os liberariam na vida real. Jogadores jovens são mais valorizados. Vini acaba de fazer 23 anos, a mesma idade de Haaland. Mbappé tem 24. Nos bastidores do Real Madrid, comenta-se que Pérez aposta em Vini para fazer história no clube. Se isso não acontecer, no mínimo geraria caixa para a contratação de Mbappé, o maior sonho dos dirigentes e torcedores madridistas.

Vinícius não tratou da acusação de Tebas de que está sendo manipulado por falta de informação adequada. Em seu Twitter, escreveu o seguinte ao cartola: “Mais uma vez, em vez de criticar racistas, o presidente da LaLiga aparece nas redes sociais para me atacar. Por mais que você fale e finja não ver, a imagem de seu campeonato está abalada. Veja as respostas dos seus posts e tenha uma surpresa…” As respostas chamavam Tebas de racista. Boa parte era escrita por brasileiros, anônimos ou conhecidos, como o escritor e comediante Gregorio Duvivier e o influenciador Felipe Neto. Para tentar aplacar a ira pública, Tebas convidou Vini publicamente para uma conversa. “Não sou seu amigo para conversar sobre racismo”, respondeu Vini. “Quero ações e punições. Hashtag não me comove.”

No início de agosto, dias antes da rodada inaugural do Campeonato Espanhol de 2023/2024, LaLiga lançou uma campanha antirracismo em seu site. A entidade se compromete a seguir denunciando na Justiça os casos que ocorrem nos estádios. Inspirada em campanhas feitas em outros países europeus – em especial, na Premier League britânica –, a campanha é educativa. Seu objetivo é chegar àquelas crianças e avós que gritaram “macaco” nas arquibancadas do Mestalla. Os próprios dirigentes de LaLiga, no entanto, admitem que o esforço será inócuo se as punições previstas pela lei não forem aplicadas.

A canção diz assim: O meu cabelo é bem bonito/é black power e bem pretinho./O do João também é bonito/é amarelo e bem lisinho./O da Vitória é uma gracinha/cor de chocolate, feito de trancinha./O do Ricardo é muito legal/é bem crespinho e é natural./Muitos formatos, vários cabelos./Não tenha medo, se olhe no espelho./Ele representa a nossa identidade./Ninguém vai tirar a minha liberdade.

Essa música para crianças viralizou nas redes sociais. Seu autor, o educador carioca Allan de Souza, no seu perfil do Instagram onde contabiliza mais de 50 mil seguidores, define sua obra como “Música Popular Brasileira Infantil Antirracista”. Souza, que acredita no combate ao racismo pela via da educação, acaba de ser contratado pelo instituto de Vini Jr para desenvolver um trabalho nas escolas adotadas pela entidade.

O Instituto Vini Jr foi fundado em julho de 2021. O craque do Real Madrid queria criar algo diferente das iniciativas de outros jogadores brasileiros, como Raí, Leonardo, Jorginho e Neymar. Na avaliação do staff de Vinícius, os institutos desses jogadores seguiam um padrão: todos giravam em torno de escolinhas de futebol, onde crianças talentosas com a bola participavam de projetos educacionais – para que tivessem outro caminho a trilhar, caso a carreira esportiva não prosperasse.

Vinícius queria fazer o contrário: um instituto onde a educação fosse o centro de tudo, e o futebol fosse usado como um instrumento educacional, uma ferramenta pedagógica. “Não queria formar novos Vinícius, mas crianças que pudessem ser o que elas quisessem”, disse o jogador a um integrante de seu staff. Vinícius queria também que o instituto atacasse um problema que o incomodava na escola quando era menino: a chatice das aulas.

Contratados pelo instituto, especialistas em educação desenvolveram uma metodologia que usa o futebol para estimular o aprendizado de matemática, geografia, história e português, em paralelo com os programas estabelecidos pela Base Nacional Comum Curricular. As escolas que participam do projeto só têm que ceder uma sala. Lá é feita uma “obra de ambientação”: cria-se um espaço em que o tema é o futebol, com bolas, tapete imitando grama, pôsteres de jogadores e times. A escola ganha também um “enxoval tecnológico”: dez smart­phones, uma televisão, um tablet e um notebook. A equipe do instituto instala nos equipamentos um aplicativo em que pontos do programa são apresentados em forma de games, relacionando a matéria com futebol. Os professores são treinados sobre o aplicativo e podem usá-lo como quiserem.

“Só trazer os alunos para esse espaço diferente, fora da sala de aula, já é estimulante para eles”, diz a professora Flávia Christina de Lima, que dá aulas no primeiro ano da Escola Municipal Visconde de Sepetiba, localizada em São Gonçalo, onde Vinícius nasceu. As primeiras escolas a aplicar o método do instituto do jogador estão situadas em São Gonçalo. Agora, a entidade vem fechando parcerias com empresas e governos para estender o projeto a outros lugares. Estão em curso estudos para medir o impacto e a eficácia do aplicativo na aprendizagem das crianças. Os resultados ainda não saíram.

Depois de dois anos de atividade, Vinícius não quer que seu instituto trabalhe só para tornar as aulas mais atraentes para crianças em municípios pobres. Desde o começo do ano, ele pediu para incluir outro foco: o combate ao racismo. O primeiro passo foi contratar o professor Allan de Souza, o influenciador da MPB infantil antirracista. O segundo será desenvolver oficinas de educação antirracista para professores. A ideia inicial é ensinar a reconhecer – para combater – comportamentos racistas que são tratados no dia a dia como se fossem normais. Um levantamento do instituto mostrou que 80% das crianças da rede pública brasileira são negras.

No Campeonato Inglês, tornou-se comum que os jogadores se ajoelhem em campo, em sinal de protesto contra o racismo. No Campeonato Brasileiro, onde é comum a omissão dos jogadores na hora de assumir posições políticas, o gesto já foi imitado, aqui ou ali, mas é raríssimo. No Campeonato Espanhol, nem isso. A presença de jogadores negros, porém, é um convite à tolerância.

A nova temporada na Espanha, que vai até maio do ano que vem, começou no dia 11 de agosto. O primeiro jogo do Real Madrid foi fora de casa, contra o Athletic Bilbao. A partida marcou a estreia oficial do craque britânico Jude Bellingham na equipe madridista. Com sua chegada e a presença de Vinícius Júnior, o Real Madrid entrou em campo com sete jogadores negros. Vini, que antes usava a camisa 20, agora usa a camisa 7. É a mesma que pertenceu a duas lendas do time – o ponta-direita Juanito, astro da seleção espanhola nos anos 1970 e 1980, e o artilheiro português Cristiano Ronaldo. O Real Madrid ganhou por 2 a 0. Vini jogou bem, como acontece quase sempre, mas não fez gol. Deixou o gramado sem receber insultos racistas.

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_204 com o título “Veni, vidi, vici, Vini Jr”.


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É repórter da Folha de S.Paulo em Lisboa e autor dos romances O burlador de Sevilha e Carnaval (Companhia das Letras)