Imagem O reino e o poder de Celso Amorim

anais da guerra e da diplomacia I

O REINO E O PODER DE CELSO AMORIM

Como o chanceler mais longevo da história do Brasil se dedica a dar uma voz global ao país e se transformou numa peça fundamental do governo Lula

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O Natal de 2008 mal havia passado quando o então chanceler Celso Amorim, que passava o recesso de fim de ano com a família no Rio de Janeiro, foi chamado às pressas para Brasília. Sua missão era gerir uma crise que estourara a mais de 10 mil km dali. No dia 27 de dezembro, Israel bombardeara a Faixa de Gaza, o enclave palestino controlado pelo Hamas, em meio às tratativas para um acordo de paz, iniciadas um ano antes na Cúpula de Annapolis, nos Estados Unidos.

O Brasil não tinha papel relevante nas negociações de paz no Oriente Médio, mas o presidente Lula, então no exercício de seu segundo mandato, estava indignado. Primeiro, porque Israel ignorara os compromissos selados em Annapolis. Segundo, porque a comunidade internacional estava apática diante do que Lula classificou como “carnificina” dos palestinos. O presidente cogitou que se convocasse uma “reunião especial” dos países do grupo de Annapolis para tratar do tema.

Em Brasília, Amorim telefonou para todo mundo entre 30 de dezembro e 2 de janeiro. Acionou Bernard Kouchner, então chanceler da França, e Condoleezza Rice, a secretária de Estado americana. Falou com Ban Ki-moon, então secretário-geral da ONU, e com Mahmoud Abbas, que ainda hoje preside a Autoridade Palestina. Lula passava o Réveillon em Fernando de Noronha.

Em suas conversas, Amorim percebeu que havia simpatia pela iniciativa do Brasil, mas o país carecia de força para convocar uma reunião. Fez um apelo para que a chanceler de Israel, Tzipi Livni, considerasse fazer o encontro, mas ela desconversou no início e foi assertiva no fim: não negociaria com o Hamas, a organização que acabara de assumir o controle da Faixa de Gaza. Amorim ainda pediu a Rice que ela tentasse convencer Israel a um cessar-
fogo. Não resolveu. Os ataques duraram 22 dias e resultaram na morte de treze israelenses e mais de mil palestinos.

No início do mês passado, quinze anos depois daquele conflito, Amorim estava novamente no Rio de Janeiro, desta vez como assessor especial de Lula. No Rio, assistiu à estreia de Utopia tropical, documentário que retrata suas conversas com o linguista Noam Chomsky, filmado por seu filho, o cineasta João Amorim. Na manhã do dia seguinte, hospedado em um hotel em Copacabana, acordou às seis da manhã, como de costume. Levou poucos minutos para dar-se conta da gravidade do atentado terrorista do Hamas contra Israel.

A situação, agora, era mais delicada, tanto pelo risco de uma escalada bélica, quanto pela presença de brasileiros na região. No dia dos ataques, 7 de outubro, Lula convalescia de uma cirurgia nos quadris em Brasília. O chanceler Mauro Vieira dava as primeiras orientações enquanto aguardava uma conexão no aeroporto de Doha, capital do Catar, a caminho de uma visita oficial à Indonésia e ao Camboja. Sozinho no Rio, Amorim começou a tomar as primeiras providências.

De início, ajudou Lula a fazer uma nota, divulgada nas redes sociais. Como o Itamaraty fora criticado pela brandura do seu comunicado, no qual não fazia menção a “terrorismo”, Lula resolveu ser mais duro. Na sua nota, mencionou os “ataques terroristas” e reafirmou seu repúdio “ao terrorismo em qualquer de suas formas”. Dado seu histórico de amizade com a Autoridade Palestina, pediu negociações que garantam “a existência de um Estado palestino economicamente viável, convivendo pacificamente com Israel dentro de fronteiras seguras para ambos os lados”.

Como ocorrera no passado, Amorim deixou o Rio e voou para Brasília. Passou dias de exaustão. “Há vários fins de semana que eu não descanso”, disse ele, numa conversa telefônica na manhã de 15 de outubro, domingo. Foi nossa terceira conversa no decorrer da apuração desta reportagem e a primeira por telefone. Antes, em agosto, conversamos em Joanesburgo, na África do Sul, durante a Cúpula dos Brics, o bloco formado por Brasil, Rússia, Índia, China e África do Sul, que ganhou a adesão de outros seis países. Depois, voltamos a nos falar no Rio de Janeiro, em seu hotel, na véspera dos ataques do Hamas.

No domingo, sua voz transmitia preocupação. Naquela altura, as múltiplas conversas com autoridades do Oriente Médio – conversas de Lula, de Amorim e do chanceler Mauro Vieira – ainda não haviam resultado na abertura da fronteira entre a Faixa de Gaza e o Egito para a passagem dos estrangeiros, brasileiros incluídos. O conflito, em vez de refluir, parecia recrudescer. “Nunca vivi nada tão perigoso em termos de alastramento como agora”, disse Amorim, com base nas seis décadas de carreira diplomática, incluindo os treze anos em que foi ministro de Estado – a gestão ministerial mais longeva do período democrático.

Nos dias seguintes ao conflito, ele conversou com autoridades da Arábia Saudita, do Egito, da China e da Turquia, além do secretário-geral da Liga dos Estados Árabes, Ahmed Aboul Gheit, que foi chanceler do Egito no mesmo período em que Amorim foi chanceler do Brasil. “Algumas dessas pessoas são meus velhos amigos”, diz. Uma delas é Faiza Abou el-Naga, assessora de segurança do presidente egípcio Abdel Fattah Khalil al-Sissi. Ela foi embaixadora em Genebra ao mesmo tempo que ele, trinta anos atrás. “É alguém com quem sempre tive contato.” Nessa conversa, transcorrida em 12 de outubro, Naga revelou imbricações do conflito que chamaram sua atenção.

“Eles têm uma preocupação real de, abruptamente, ter 1 milhão de pessoas a mais no país. Não é uma tarefa para a qual eles estejam organizados e possam cumprir com tranquilidade”, relata. “E há uma coisa difícil, polêmica, que às vezes não dá para compreender direito, mas há uma preocupação de não legitimar o desejo de Israel de expulsar uma parte enorme da população palestina de Gaza. Eles estão tratando isso como uma segunda Nakba”, disse Amorim. A palavra árabe significa “catástrofe” ou “desastre” e é usada para designar o grande êxodo de 1948, quando 700 mil palestinos deixaram suas casas durante a Guerra Árabe-Israelense.

Antes de encerrarmos o telefonema, Amorim recordou uma conversa que teve com o então chanceler israelense Silvan Shalom, numa viagem que fez ao Oriente Médio como ministro, em 2005. Shalom disse ao brasileiro acreditar que o Hamas era um problema maior para a Autoridade Palestina do que para Israel e acrescentou que o grupo “podia ocasionar uma morte aqui e outra ali, mas não representava uma ameaça ao Estado de Israel”. Amorim diz que, na época, aconselhou as autoridades israelenses a enfraquecer o Hamas e deu o caminho: “A melhor maneira é fortalecer a Autoridade Palestina. Mostrar aos palestinos e ao mundo que o processo de paz será importante.”

Além de dar conselhos para Israel, Amorim tentou encontrar-se com membros do Hamas em 2009, na tentativa de atuar como uma espécie de mediador do conflito. Ele narrou esse episódio em detalhes no seu livro Teerã, Ramalá e Doha: memórias da política externa ativa e altiva, de 2015. Segundo o seu relato, para que haja uma mediação, as duas partes em disputa precisam avalizar o mediador. Mas o encontro não ocorreu porque, embora a Autoridade Palestina tivesse demonstrado interesse na iniciativa brasileira, o primeiro-ministro de Israel, Benjamin Netanyahu, com quem ele também acabara de se encontrar, “não mordeu a isca”.

Mesmo antes de tudo isso – aconselhar Israel, articular encontro com o Hamas, fazer negociações nucleares com o Irã, ser enviado de paz a Moscou e Kiev, e tantas outras missões para lá de ambiciosas –, Celso Luiz Nunes Amorim, hoje com 81 anos, fluente em cinco idiomas, pai de quatro filhos, avô de dez netos, teve uma trajetória única como diplomata, anterior à ascensão do PT ao poder. Foi ministro das Relações Exteriores no governo de Itamar Franco durante um ano e meio. No governo de Fernando Henrique Cardoso, foi embaixador em Londres e representante do Brasil na Organização Mundial do Comércio (OMC), em Genebra, e na ONU, em Nova York – todos postos cobiçados na carreira diplomática.

Sob FHC, embora fosse um diplomata progressista no Itamaraty, uma instituição então gerida por profissionais alinhados com os tucanos, Amorim nunca foi prejudicado. Mas achava o Itamaraty “acanhado”. “Eles me davam razoável liberdade. Mas eu fiz coisas na ONU que eles aceitavam porque ficava difícil não aceitar”, diz. Uma delas, ele recorda, foi sua sugestão de criar os “painéis do Iraque”, em 1999, que concluíram que Bagdá não tinha armas de destruição em massa. A embaixadora Gisela Padovan, que trabalhava na equipe de Amorim na ONU, relembra a ousadia daqueles dias. “O Brasil, um membro não permanente no Conselho de Segurança, um país em desenvolvimento, ia se meter num tema destinado às grandes potências, aos membros permanentes? Então era uma coisa arriscada.” Em Brasília, a chancelaria não gostou da ideia de Amorim. “No governo brasileiro de então, pensava-
se: ‘Por que você vai se meter no jogo dos grandes?’” Amorim não só se meteu como, ao final de dois meses de trabalho, quando os relatórios ficaram prontos, ainda orientou Padovan a enviar o material à imprensa antes que os membros do Conselho o vissem. Ele temia que os Estados Unidos mudassem o texto. “Ele disse: ‘Se chegar na imprensa, não dá para mudar mais’. Aí passamos para o New York Times”, relembra a diplomata. Deu certo.

Amorim conta que a pauta econômica era sempre a que provocara mais desconforto nos tucanos. “Quando voltei para Genebra, na OMC, eu sentia isso de maneira mais evidente. Diziam: ‘Olha, não faz, não irrita, não briga…’” Uma das razões para a suposta timidez da diplomacia da época era a tese do “excedente de poder”. Acreditava-se que, para voos mais ambiciosos, o Brasil precisava do poder advindo da pujança econômica ou do poderio militar. Como o país não tinha nem uma coisa, nem outra, o Itamaraty avaliava que, quanto menos confusão houvesse nas relações econômicas com outros países, melhor – uma situação que exasperava Amorim, diplomata de perfil altamente combativo.

Apesar das discordâncias, ele diz guardar boas recordações de FHC. Não o considerava pessoalmente “acanhado” no âmbito da política externa, mas achava que esse era o caso de seus chanceleres, Celso Lafer e Luiz Felipe Lampreia, já falecido.

Foi nos governos do PT, no entanto, que Amorim chegou ao apogeu. Ao servir durante oito anos como ministro de Lula, tornou-se o chanceler que mais tempo permaneceu no cargo na história, superando o Barão do Rio Branco. Na primeira gestão de Dilma Rousseff, chefiou a Defesa, durante o período em que se instalou a Comissão Nacional da Verdade, destinada a investigar as violações de direitos humanos ocorridas durante a ditadura militar. Em tom de ironia, chegou a comentar com Lula que, no governo dele, pôde ser o “guerreiro”, mas no governo de Dilma teve que ser o “diplomata”.

Sob Lula, enquanto comandava a burocracia do Itamaraty, Amorim deu o tom da diplomacia brasileira, que atingiu uma relevância mundial inédita até então, ainda que à frente de missões nem sempre bem-sucedidas. Em 2009, um artigo publicado na revista Foreign Policy classificou-o como “o melhor chanceler do mundo”. Na OMC, em Genebra, sua habilidade de negociação é até hoje evocada como parâmetro de excelência. Na ONU, em Nova York, suas intervenções sobre temas relacionados à defesa e segurança são ainda lembradas, como no caso dos “painéis do Iraque”. Entre seus amigos estão Sergey Lavrov, atual chanceler russo, e Jake Sullivan, assessor de segurança nacional de Joe Biden.

Na diplomacia, nenhum outro egresso do Instituto Rio Branco alcançou tal nível de poder, embora sua influência sobre Lula nunca se dera sem concorrentes. Marco Aurélio Garcia, professor do Departamento de História da Unicamp, foi assessor especial nos dois primeiros mandatos de Lula, e também assessorou Dilma até o impeachment. Com a experiência de quem se exilou no Chile durante a ditadura, Garcia era o articulador das relações políticas do Brasil com os países da América Latina, sobretudo os governados pela esquerda. Como também passara parte de seu exílio na França, tinha conexões com os socialistas franceses, espanhóis e portugueses. Era tão influente que se mudou para o Peru em 2011 para ajudar na campanha contra a candidata da direita, Keiko Fujimori, então a favorita. O nacionalista Ollanta Humala acabou vencendo o pleito, e o PT considerou que a ajuda do enviado petista fora decisiva.

A relação entre Amorim e Garcia nunca foi ruim, mas passou por percalços. Na mesma época em que Amorim era chanceler, Garcia era conselheiro internacional de Lula, de cuja amizade privava havia décadas. Garcia chamava o petista por um apelido carinhoso (“Lulinha”), Amorim sempre preferiu ater-se à hierarquia (“presidente” e “senhor”). No início, ainda que nenhum dos dois tivesse disposição para o fogo amigo, uma disputa velada se impôs. Quem, afinal, exerceria maior influência sobre o chefe em política externa? Depois de algumas colisões, estabeleceram-se os termos da convivência: Garcia tentaria costurar um bloco político sul-americano liderado pelo Brasil e Amorim tentaria conquistar o mundo. Cada um a seu modo, e dentro de certos limites, atingiu seus objetivos. Garcia morreu de um infarto em 2017.

Nos últimos anos de Celso Amorim como chanceler – e até os dias de hoje –, o norte do seu trabalho foi e continua sendo tornar o Brasil um ator de destaque nos grandes temas geopolíticos, mesmo naqueles em que o país não tem interesses diretos. Como chanceler de Lula, envolveu-se no conflito em Gaza, na crise no Iraque, nas relações entre Síria e Israel e até na mediação de um acordo de paz entre o Irã e o Ocidente, em parceria com a Turquia. Como assessor de Lula, colocou sua digital como negociador na guerra da Ucrânia, valendo-se das boas relações com a Rússia e sua amizade com Lavrov. Na sua visão, um país com as dimensões territoriais do Brasil, mesmo sem arsenal militar ou economia pujante, tem de estar presente nas discussões globais, de preferência sem alinhamento com nenhum lado – estratégia que resulta em certa indulgência com governos e regimes identificados como antiocidentais ou antiamericanos.

A política externa “ativa e altiva” de Amorim nunca teve como premissa a antipatia pelo Ocidente, mas, atuando nas brechas, ele desenvolveu um modelo peculiar: conquistar um nível de confiança que lhe permita servir de ponte entre as potências ocidentais, com as quais por tradição o Brasil se identifica, e as nações mais distantes desse eixo. Nesse jogo de movimentos sutis, o país precisa colocar-se como “um dos grandes”, e não como “aliado dos grandes”, para não gerar desconfianças – e nem pode adotar uma postura excessivamente belicosa com parceiros do Ocidente, pondo em risco suas próprias relações. Por isso, Lula, sobretudo em seu primeiro mandato, fazia críticas públicas a Washington, mas só até certo ponto. Jogava com o fato de que os Estados Unidos, depois de décadas apoiando ditaduras latino-americanas, haviam deixado esse passado para trás e valorizavam sua gestão estável e democrática numa América do Sul permeada por governos imprevisíveis ou com tendências autoritárias.

Tradicionalmente, o Brasil conduzia uma diplomacia independente e “não alinhada”, cujo interesse não ia além de cacifar-se como uma liderança regional. A política externa concebida por Amorim era mais ambiciosa. Além da liderança regional, o país passou a aglutinar outros países com interesses comuns, fosse na OMC, na ONU ou nas relações multilaterais, liderando iniciativas como o Ibas (grupo composto por Índia, Brasil e África do Sul, criado por Amorim), a Cúpula América do Sul – Países Árabes (Aspa), pensada por Lula, ou a ampliação do Mercosul. Tudo, de preferência, conduzido com o pragmatismo de Amorim.

O acordo com a Venezuela, anunciado há pouco, é um exemplo de como passou a funcionar a plataforma de política externa da dupla Lula-Amorim na região. Embora as tratativas entre Caracas e Washington para a libertação de presos políticos e a suspensão de embargos tenha sido negociada entre os dois países, coube ao Brasil sinalizar que Nicolás Maduro estava disposto a ceder. Primeiro, Amorim foi a Caracas em março, para sentir o clima. Depois, convidou Maduro para a reunião dos presidentes de países sul-americanos em Brasília, em maio. A intenção do governo, em especial do ex-chanceler, era fazer um gesto de normalização das relações da Venezuela com o restante do continente, e assim enviar uma mensagem de cooperação aos Estados Unidos e à União Europeia.

Um episódio recente ilustra o pragmatismo de Amorim. Um advogado bem relacionado de Brasília, com interesses comerciais na Coreia do Sul, perguntou ao diplomata se Lula anunciaria uma posição em favor de determinado candidato na disputa presidencial do país asiático – considerando que tomou partido, em público, do candidato Gabriel Boric, que acabou ganhando a eleição no Chile. Claro que não, respondeu Amorim. Disse que no Chile havia um interesse regional que justificava a manifestação do petista. Na Coreia do Sul, o governo brasileiro trabalharia com quem ganhasse.

A diretora-geral do Instituto de Estudos Políticos de Paris (Sciences Po) e ex-chanceler da Espanha, Arancha González, conviveu com Amorim na OMC. Numa conversa que tivemos em Genebra, durante o Fórum Público da organização, em setembro, ela sintetizou o legado de Amorim na busca por relevância global para o Brasil. “Quando ele vira chanceler, sua ambição é uma liderança brasileira no âmbito internacional, e uma liderança que começa muito claramente utilizando o comércio internacional como porta de entrada.” Ela pondera que a excelência do Brasil nos foros de debate sobre comércio não começou com Amorim, já vinha de antes, mas o comércio se tornou uma “boa maneira de ser líder porque era um tema no qual o Brasil tinha credibilidade” e “grandes negociadores”. Para González, a liderança em comércio levou o país a outras plataformas, mais políticas, como a questão do Irã. “O que eu retenho dessa época é um desejo do Brasil, do Celso, de ser construtor de uma ordem internacional que levasse muito em conta os países emergentes.”

Dez passos separam a sala de Celso Amorim da porta blindada que dá acesso ao gabinete de Lula. É a mesma sala que foi ocupada por Garcia e pelos assessores especiais de Jair Bolsonaro, como o olavista Filipe Martins. Logo na entrada, à esquerda, há um desenho do arquiteto Le Corbusier que faz parte do patrimônio da União. Na parede à direita, uma mensagem emoldurada na qual o papa Francisco cumprimenta Amorim, que não é religioso, por seus 80 anos. Na parede oposta, está a foto oficial de Lula. A vista de sua sala assemelha-se à do gabinete presidencial: a Praça dos Três Poderes e o prédio do STF. Ele chega diariamente às 8h30 e sai por volta das 19 horas. Não vê o presidente todos os dias (“Tomo menos café com ele do que eu gostaria”, diz), mas cumpre uma agenda extensa de reuniões com autoridades.

Sua equipe é composta por dezoito pessoas, mais da metade das quais são mulheres, a seu pedido. É o dobro do efetivo empregado nos tempos de Garcia. O chefe do grupo é o diplomata Audo Faleiro, que trabalhou com Garcia nos governos Lula e Dilma e é um dos incumbidos de escrever os discursos de Lula. Sobre sua mesa, Amorim guarda um pedaço de mármore que ganhou de presente de um grupo de deputados democratas americanos liderados por Alexandria Ocasio-Cortez, quando visitaram o Brasil em agosto deste ano. Dali, ele atua, segundo a definição do próprio Lula, como “assessor para assuntos conflituosos”. E, apesar de apagar incêndios criados pela retórica por vezes atabalhoada do presidente, Amorim, na grande maioria das vezes, concorda com a visão do chefe.

Quando começou a dar entrevistas sobre temas geopolíticos – antes mesmo de vencer –, Lula já deu sinais de que sua política externa seria, em certa medida, arestosa, sobretudo quando o tema era a guerra na Ucrânia. Numa entrevista à revista Time, em maio de 2022, disse que o presidente ucraniano Volodymyr Zelensky era tão responsável pela guerra quanto o russo Vladimir Putin. Causou um salseiro. Depois, adotou um discurso pela paz, com o cuidado de não vilanizar Putin, enquanto a Rússia permanecia como alvo do Ocidente. Na Cúpula dos Brics, em Joanesburgo, criticou países que declaram guerra sem o aval do Conselho de Segurança da ONU, mas não citou Moscou. Depois, durante o encontro do G-20, em Nova Delhi, na Índia, disse que Putin poderia ir à cúpula do grupo no Brasil em 2024, sem correr o risco de ser preso, ainda que haja um mandado de prisão emitido pelo Tribunal Penal Internacional (TPI). Causou outro salseiro – e depois inventou que nem sabia da existência do TPI.

Lula e Amorim se complementaram desde o início. Lula tinha experiência internacional, sobretudo como sindicalista. Conhecia os círculos de esquerda na América Latina e na Europa, estivera nos sindicatos de Michigan na década de 1980, quando o estado reunia a nata da indústria automobilística, e visitara a Polônia de Lech Wałęsa. Quando assumiu em 2003, sabia o que fazer: queria que o Brasil ganhasse relevância com caminho próprio. Em respeito ao Itamaraty, escolheu um diplomata de carreira como chanceler, em vez de um nome do PT, mas logo mostrou que sua diplomacia não seria tucana: melou a formação da Área de Livre Comércio das Américas (Alca), na qual os Estados Unidos insistiam, e condenou a guerra no Iraque, recorrendo à frase que repete até hoje: “Minha guerra é contra a fome.”

Um diplomata que conhece Lula e Amorim diz que a combinação deu certo porque juntou o melhor político com o melhor negociador. “O Lula vê a política sem limites e o Celso vê a negociação sem limites, nada é inegociável”, diz, ponderando que os bons negociadores, de tão bons, “perdem um pouco a noção da realidade”. Na avaliação de um interlocutor do governo, Amorim sempre soube interpretar as vontades de Lula e enquadrá-las numa chave diplomática, além de ser um dos únicos membros do gabinete a – diplomaticamente – ousar dizer “não” ao presidente quando avalia necessário.

Em julho, durante a cúpula da Comunidade de Estados Latino-Americanos e Caribenhos (Celac) e da União Europeia, em Bruxelas, havia uma declaração já negociada, mas o ditador nicaraguense Daniel Ortega se negava a avalizá-la, em razão de um parágrafo condenando a guerra na Ucrânia. Amorim insistiu que Lula entrasse na plenária da cúpula e dissesse que, apesar de Ortega, todos os outros 59 países do grupo concordavam com o texto. Lula se negava. Dizia que o problema era dos europeus, os anfitriões. Amorim ponderou que esse era um papel de liderança que o petista devia assumir. Entre xingamentos (“Porra, Celso, tá bom, eu vou”), Lula foi e resolveu a questão. Quando, antes da ida a Nova York para a Assembleia Geral da ONU, Amorim propôs que Lula fosse a Cuba para o encontro dos países do G-77, o petista também não quis (“Estou cansado, é muita viagem”), mas acabou topando.

Mas nem sempre o diplomata é ouvido. Quando Dilma ganhou a eleição, Amorim insinuou a Lula que não se importaria em continuar chanceler no novo governo. O presidente matou a ideia com uma piada: “Celso, a gente está velho. Agora é a vez dos jovens.” (Quem assumiu o cargo foi o embaixador Antonio Patriota, que trabalhara no gabinete de Amorim no Itamaraty.)

Em 2006, quando tentava intermediar as relações tensas entre Hugo Chávez e a Casa Branca, Lula disse a Amorim que queria falar com o presidente George W. Bush ao telefone. Sua intenção era pedir que Bush orientasse sua secretária de Estado, Condoleezza Rice, a parar de publicar artigos na imprensa criticando o venezuelano. Amorim não gostou da ideia e tentou dissuadir Lula. Achava que a iniciativa criaria ruído com sua amiga Rice, a quem ele chamava de “Condi”. Lula insistiu e a ligação aconteceu. (No telefonema, Lula disse a Bush que os artigos só tumultuavam mais as relações com Caracas. Não se sabe o que Bush respondeu, mas Rice nunca mais escreveu sobre Chávez enquanto esteve no governo.)

Um episódio mais recente aconteceu durante o acordo entre o Mercosul e a União Europeia, que há muito vem sendo negociado por diplomatas dos dois blocos. Lula queria impor um percentual maior de modo a favorecer a venda de produtos brasileiros para os países da União Europeia. Depois de tanta negociação, Amorim e o Itamaraty achavam que a versão atual do acordo já contemplava a indústria de maneira satisfatória. Lula não cedeu. Um novo negociador do Itamaraty – Maurício Lírio, um dos mais destacados diplomatas da nova geração – entrou no jogo para repactuar os termos do texto, o que postergou ainda mais uma definição que já leva décadas.

Curiosamente, a relação de Lula e Amorim alcançou um patamar mais elevado quando ambos estavam fora do governo – e Lula estava na cadeia. Amorim foi quem mais o visitou na prisão, depois de Gleisi Hoffmann e Fernando Haddad. Levou lideranças internacionais para visitá-lo e coordenou a estratégia de divulgação externa da campanha “Lula Livre”. Chegou a dizer, numa entrevista à TV 247, que desconfiava que a Operação Lava Jato tivera “interferência” dos Estados Unidos. Ao longo dos vinte anos de convivência, houve momentos, contudo, em que o diplomata duvidou que seu trabalho estivesse agradando. Em 2004, achou que fosse cair em razão de desavenças comerciais entre Brasil e Argentina. Dois anos depois, quando fez um discurso que desagradou Hugo Chávez na Cúpula da Comunidade Sul-Americana de Nações (Casa), chegou a cogitar, ainda que momentaneamente, que o presidente pudesse despachá-lo, em solidariedade a Chávez. Saiu ileso nos dois casos.

Em Joanesburgo, durante a Cúpula dos Brics em agosto, Celso Amorim estava trabalhando debaixo de fogo cruzado. O Brasil não queria ampliar o número de membros do bloco, mas era uma missão impossível, pois enfrentava a oposição da China, da África do Sul e da Rússia, e a hesitação da Índia. Mas ele aparentava tranquilidade e bom humor. “Vou te contar uma anedota pretensiosa”, me disse, logo no início da conversa, ao recordar que os Brics nasceram graças, em boa medida, ao seu esforço. O diplomata lembrou que, ao participar de um evento com o economista Jim O’Neill, que criou o acrônimo quando trabalhava no banco Goldman Sachs, resolveu abordá-lo com uma provocação: “Foi você que inventou os Brics, né?”, perguntou. O’Neill assentiu: “Sim, fui eu.” Amorim replicou: “Mas fui eu que fiz os Brics.”

Brics era apenas um acrônimo para análise econômica, mas não era um bloco econômico. Em 2006, Sergey Lavrov, o chanceler russo, durante uma reunião na ONU em Nova York, sugeriu a Amorim a formação de um bloco reunindo Brasil, Rússia, Índia e China (a África do Sul viria a se juntar depois, em 2011). Amorim gostou e dedicou-se a articular com os chanceleres dos respectivos países para vender a ideia. Na crise financeira de 2008, na qual os países emergentes sofreram menos que os desenvolvidos, formou-se um consenso de que a hora dos Brics estava chegando. Em 2009, deu-se a primeira reunião presidencial, ocorrida em Ecaterimburgo, na Rússia.

Durante a conversa de 1 hora e 10 minutos, a memória de Amorim não vacilou uma só vez. Ele recordou diálogos, nomes, datas e locais de episódios que atravessam pelo menos seis décadas de vida diplomática. Como chanceler, e mesmo antes disso, costumava fazer anotações diárias, movido pelo seu forte sentimento de produzir registros históricos para as futuras gerações. Desse apanhado de notas, resultaram três livros publicados pela editora Benvirá: Breves narrativas diplomáticas, Laços de confiança: o Brasil na América do Sul e Teerã, Ramalá e Doha – todos eles com um nível de franqueza incomum.

Hoje ele deixou de tomar notas, tampouco grava. “Eu fico com pena, porque cito muita coisa interessante que depois desaparece. E nunca criei o hábito de gravar. Imagine, nessa idade, é difícil criar hábitos novos. Eu gostava mesmo era de escrever.”

Ao rememorar sua trajetória na OMC, onde foi embaixador duas vezes, explicou como o desempenho da diplomacia brasileira colocou o país no diminuto grupo que liderava as decisões da entidade. O ponto alto de sua passagem, segundo ele próprio, deu-se em 2001, quando conseguiu derrubar as patentes das grandes farmacêuticas, durante a gestão de José Serra como ministro da Saúde de FHC. Era o início da rodada de Doha, um conjunto de negociações articuladas pela OMC que visava a reduzir barreiras comerciais entre os países. Ainda sob os efeitos trágicos da Aids, o pleito brasileiro era permitir que os países em desenvolvimento pudessem adotar medidas de saúde pública sem pagar pelas patentes dos medicamentos usados. Com o resultado, os medicamentos genéricos chegaram ao Brasil.

“Eu estava 100% dedicado ao tema das patentes, até porque as outras áreas já estavam aglomeradas. E o Serra sempre ligava para um assessor dele que era diplomata para saber quem estava sentado à mesa [de negociação]. Se era eu, ele ficava sossegado”, conta. “O Brasil liderou [a discussão] indiscutivelmente. Tanto que o coordenador disse: ‘Só quero Estados Unidos e Brasil na sala.’ Porque eram os dois países principais na disputa. Os europeus ficaram olhando, os japoneses também. Mas aí eu disse: ‘Não entro na sala sem um africano.’ E aí aconteceu uma das coisas mais agradáveis que já ouvi. O representante de Camarões disse: ‘Se o Brasil entrar, estamos representados’”, conta o diplomata, com ar orgulhoso.

As patentes foram derrubadas em 2001. Amorim faz questão de lembrar seus méritos e os de Serra no resultado positivo. “Só foi porque foi com o Serra. Porque eu não tinha força política para isso e ele não teria ninguém com o conhecimento das malandragens e especificidades da OMC a não ser eu.” No ano seguinte, Serra disputou a eleição presidencial com Lula, catapultado, em boa medida, pela chegada dos genéricos. Naquela altura, Amorim havia saído de Genebra e assumido a embaixada em Londres. Quando Lula ganhou e anunciou o diplomata como seu chanceler, Serra ligou para Amorim. “Ele me ligou para cumprimentar com aquele jeito dele, e disse: ‘Você é o único ministro que eu estou cumprimentando. E você sabe que seria ministro de qualquer maneira.’” Ou seja: Amorim também seria escalado para a chancelaria se Serra tivesse ganhado.

Na vitória de Lula, Amorim ligou primeiro para FHC para cumprimentá-lo “pelo que achava até então ser a consolidação da democracia no Brasil”. Para Lula, ele apenas mandou um telegrama formal de cumprimentos. Votara no petista pela primeira vez no segundo turno de 1989, contra Fernando Collor. Nos anos seguintes, escolheu FHC. Em 2002, apesar de sua amizade com Serra, votou em Lula nos dois turnos.

Em seu livro Breves narrativas diplomáticas, Amorim relembra que, entre o primeiro e o segundo turnos de 2002, havia rumores de que seu nome estava no páreo, embora nunca tivesse sido próximo dos quadros do PT. Como vivia em Londres, sua então esposa Ana Maria disse que ele precisava ter uma atitude mais proativa, como viajar ao Brasil e ir à luta pelo cargo. Em certo momento, Ana Maria chegou a perguntar se ele por acaso se considerava um “príncipe”, em razão de sua atitude de indiferença. Amorim relembrou essa passagem na nossa conversa em Joanesburgo. “Eu era muito convencido”, diz. E acrescentou a resposta que deu a ela: “Mas eu sou um príncipe… da diplomacia!”

A disputa pela chancelaria de Lula estava acirrada no final de 2002, quando o petista despachava diariamente num hotel nos Jardins, em São Paulo, entrevistando candidatos ao cargo. No caso do Itamaraty, o cenário era ainda mais pantanoso porque o presidente eleito não sabia se designava um diplomata de carreira ou seu fiel assessor, Marco Aurélio Garcia. Por sua boa entrada com líderes da política latino-americana e seus conhecimentos em geopolítica, Garcia mantinha amizade com diplomatas mais simpáticos à esquerda e interagia com eles em encontros organizados por intelectuais da época, como a economista Maria da Conceição Tavares.

Para o grupo dos diplomatas progressistas, Garcia era a escolha natural para chanceler. E logo o grupo se ocupou em repassar uma lista dos melhores nomes para as principais embaixadas. Amorim surgiu como primeiro da lista para a embaixada em Washington. Não tinha relações com o PT, mas era visto pelo grupo não só como progressista, mas também como um nacionalista e, acima de tudo, como um crítico à política externa dos Estados Unidos. Naquele período, o governo de George W. Bush ameaçava invadir o Iraque em busca de um hipotético arsenal militar, a despeito das resoluções da ONU contrárias à invasão. Amorim era considerado uma referência no assunto, em razão dos seus “painéis do Iraque”. Além disso, como já passara duas vezes por Londres e Genebra, uma vez por Nova York e nenhuma, como embaixador, por Washington, o grupo avaliou que era o melhor nome para o posto. Garcia tomou nota.

Lula, no entanto, não demorou a deixar claro que desejava um diplomata como chanceler, tanto mais que Garcia jamais demonstrara apetite para o cargo. Nas pastas estratégicas, como a Fazenda e o próprio Itamaraty, o petista queria sinalizar uma transição branda em relação ao governo anterior. A partir daí, correu solta a disputa das correntes majoritárias dentro do PT pelo cargo. Uma ala queria Ronaldo Sardenberg, diplomata e ministro da Ciência e Tecnologia de FHC. Outra tentava emplacar o então embaixador na Rússia, José Viegas Filho, cujo nome fora cotado nas campanhas de 1994 e 1998, quando Lula perdeu para FHC. Poucos sabem, mas uma terceira ala, da qual fazia parte Marta Suplicy, apostou até em Rubens Barbosa, embaixador em Washington na gestão tucana.

Sardenberg chegou a ser cogitado por Lula, mas petistas resgataram uma entrevista que dera à revista Veja em 2001, sobre um acordo para Base de Alcântara, para dinamitar sua indicação. Assim, às vésperas do segundo turno, restava o nome de Barbosa. Para evitar esse desfecho, Garcia e Luiz Dulci, que coordenavam a campanha de Lula, apressaram-se em buscar alternativas. Durante um café da manhã no hotel de Lula, Garcia expôs sua ideia de sugerir Amorim para o Itamaraty, em vez da embaixada em Washington. Dulci gostou. Conhecia Amorim de nome, lera artigos seus sobre San Tiago Dantas, o chanceler da Política Externa Independente antes da ditadura, e apreciava seus passos dentro da burocracia estatal – em especial o fato de ter sido chanceler de Itamar, um político que acabara de apoiar Lula no segundo turno. Levaram a sugestão a Lula, que disse não conhecer o candidato, mas que queria entrevistá-lo.

Neste período, o próprio Viegas Filho, nomeado para o Ministério da Defesa, já havia ligado para Amorim sugerindo que ele viesse ao Brasil para se apresentar. Foi o que fez. No primeiro encontro, Lula gostou da ideia de uma política externa mais incisiva, como também dos modos despojados do diplomata, que tinha até um pouco de caspa no paletó, em oposição ao ar empolado tão comum nos egressos do Instituto Rio Branco. No segundo encontro, no meio da conversa, Lula fez o convite. Amorim aceitou na hora.

Assim que assumiu, não pôde fazer as mudanças que queria. FHC conversara com Lula antes da posse e lhe pedira que os embaixadores que ainda tinham tempo a cumprir em seus postos – e cuja transferência poderia resultar em perdas na carreira – fossem mantidos onde estavam. Lula aceitou. Nesse pacote de afagos ao tucano, Barbosa permaneceu em Washington até o final de 2004, Sardenberg foi enviado a Nova York e Sergio Amaral, ex-porta-voz de FHC, ficou quase dois anos em Paris.

Com os que ficaram de fora da lista, Amorim foi implacável. José Alfredo Graça Lima, que era embaixador do Brasil para a Comunidade Europeia, assumiu o consulado de Nova York, um posto considerado menos relevante. Carlos Alberto Simas Magalhães saiu da Presidência da República para a embaixada de Rabat, no Marrocos. Marcos Caramuru, assessor internacional de Pedro Malan no Ministério da Fazenda, foi enviado à Malásia e, depois, ao Brunei.

O embaixador Paulo Roberto de Almeida, que se aposentou em 2021, diz que sua proximidade com os tucanos e suas críticas à política externa lhe congelaram a carreira durante os governos petistas. Foi um longevo inquilino do “Departamento de Escadas e Corredores”, o jocoso órgão do Itamaraty inventado pelos diplomatas para designar o local de trabalho dos colegas que não tinham qualquer função. Almeida conta que, em dezembro de 2006, ao esbarrar com Amorim num evento em Brasília, travou o seguinte diálogo:

– Paulo Roberto, você por aqui? – disse Amorim.

– Sim, ministro. Estou aqui esperando ser designado para trabalhar no seu governo.

– É, mas aquela sua entrevista ao Estadão não ajudou em nada – respondeu o chanceler, referindo-se à crítica que Almeida fizera à ideia de criação dos Brics em entrevista ao jornal O Estado de S. Paulo.

Almeida só foi promovido a embaixador em 2016, já no governo de Michel Temer.

Ao assumir a chancelaria, Amorim montou um gabinete com o intuito de subverter a ordem no Itamaraty, na qual, salvo raras exceções – como ele próprio, Rubens Ricupero e Rubens Barbosa –, os cargos mais altos eram ocupados por castas de diplomatas da elite carioca, que se perpetuavam na instituição por gerações. Era o caso de um de seus antecessores, Luiz Felipe Lampreia, com quem travara embates públicos. Para sacudir a instituição, levou um time jovem e de sua confiança, entre os quais estavam Antonio Patriota, Maria Nazareth Farani, Maria Laura da Rocha, Ricardo Neiva Tavares, Antonio Simões e Mauro Vieira, o atual chanceler. Roberto Azevêdo também integrava seu núcleo duro, embora não ficasse no gabinete, e sim na chefia do Departamento Econômico. Azevêdo foi nomeado para o cargo antes de virar embaixador – o que mostrava o apreço de Amorim por ele.

O novo chanceler queria um Itamaraty mais oxigenado, fora do pedestal e integrado ao projeto político de inclusão social do governo do PT. “E um pouco menos vassalo da aristocracia empresarial global”, diz um diplomata que acompanhou de perto esse período, mas preferiu manter-se no anonimato. “O Itamaraty é muito engessado, tudo acontece lentamente. Ao trazer pessoas mais jovens para cargos mais altos, seria possível acelerar as mudanças. Enquanto um diplomata mais experiente encontraria mil entraves para atender a um pedido incomum de Amorim, os ‘Amorim boys’ apenas diziam ‘sim, ministro’”, conta esse diplomata, que continua na ativa.

Algumas das principais mudanças foram levadas a cabo por seu secretário-geral, Samuel Pinheiro Guimarães Neto, um defensor de ideias desenvolvimentistas e nacionalistas, que ampliou o acesso de estudantes à instituição. As 20 vagas anuais no Instituto Rio Branco passaram para 100, aumentando o contingente de diplomatas de 500 para cerca de 1400 no final da década de 2000. O exame de francês, idioma que há pelo menos cinquenta anos não era mais obrigatório nas escolas, deixou de ser compulsório e passou a ser uma opção ao espanhol. Além disso, desde o governo FHC, políticas de cotas vinham sendo aplicadas para arejar o corpo diplomático, que, até então, parecia um aglomerado de sobrenomes de ruas da Zona Sul carioca.

Embora tudo parecesse correr bem – o ministério ganhara aval e orçamento para crescer, novas embaixadas eram abertas, e Lula e Amorim estavam cada vez mais alinhados na política externa –, a instituição era alvo de críticas ferozes da opinião pública. Os elogios constantes de Amorim a Lula provocavam desconforto, sobretudo nos diplomatas mais experientes, que prezavam a autonomia da instituição. Com a arraigada crença no Itamaraty como um órgão de Estado, e não de governo, alguns embaixadores – o próprio Amorim incluído – consideravam a si próprios figuras superiores à maior parte dos presidentes que os governavam. Por isso, o comportamento de Amorim diante de Lula soava como uma subserviência inaceitável da instituição a um partido. A impressão chegou ao nível mais crítico na formatura da turma do Instituto Rio Branco em 2005, quando Amorim fez um discurso em que se referiu a Lula como “nosso guia e mentor”.

Vinte anos depois, a reforma não se completou – em parte, porque foi boicotada. Nos anos Temer e Bolsonaro, houve fechamento de embaixadas, cortes orçamentários e múltiplas crises. Embora o acesso ao Itamaraty tenha sido ampliado, o número de postos de embaixadores ficou igual, apertando o funil para chegar ao topo da carreira – para insatisfação geral dos diplomatas. Os “Amorim boys”, que dominaram a política externa nos anos 2000, percorreram caminhos mais ou menos homogêneos – com duas grandes exceções. Antonio Patriota e Mauro Vieira se tornaram chanceleres nos governos Dilma, Maria Laura da Rocha serviu na ONU e tornou-se secretária-geral de Vieira no atual governo e Ricardo Neiva é embaixador em Paris. Antonio Simões fez uma genuflexão discreta aos governos Temer e Bolsonaro, mas as maiores decepções são Maria Nazareth Farani e seu marido Roberto Azevêdo.

Nos anos 2000, Farani, conhecida como Lelé, era pule de dez para ser a primeira mulher a chefiar a chancelaria brasileira. Conduzia o gabinete de Amorim com competência técnica e tino político, era filha de um empresário influente no mundo político e empresarial de Brasília (José Farani foi preso por sonegação em 2007, mas a filha não perdeu as boas conexões), e era casada com um diplomata promissor, Roberto Azevêdo. Era referência para praticamente todas as diplomatas em formação, numa instituição dominada por homens. Em 2008, o casal foi enviado a Genebra. Azevêdo seria preparado para concorrer ao comando da OMC, cargo que nunca fora ocupado por um brasileiro, enquanto Farani chefiaria a missão brasileira junto à ONU.

As coisas começaram a desandar para Farani no governo Dilma, quando Patriota assumiu a chancelaria no lugar de Amorim. Antes de encerrar o prazo de sua missão junto à ONU, Farani pleiteou um cargo na Comissão sobre o Desarmamento da organização, mas acabou nomeada para um posto menor, o de cônsul em Genebra. Ficou irada. Sentia-se perseguida pela instituição desde que, em 2011, usara da elasticidade de uma instrução do Itamaraty para defender a liberdade de imprensa e do Judiciário na Venezuela de Hugo Chávez. A diplomacia de Caracas reclamou da ousadia e o assunto chegou a Dilma. “Quem essa mulher pensa que é?”, esbravejou a presidente. Alguns interpretaram que, ao criticar Caracas, a diplomata estava querendo turbinar a candidatura do marido à omc, buscando aliados críticos ao regime de Chávez.

Farani se resignou. Naquele momento, todos os esforços se dirigiram à carreira de Azevêdo na OMC. Em 2012, a presidente Dilma destacara o diplomata Ruy Pereira, considerado um dos mais competentes do Itamaraty, para dedicarse somente a angariar votos. A petista emprestara um avião da FAB para que Azevêdo viajasse a duas dúzias de países da África, um agrado presidencial inédito na diplomacia nacional. Em maio de 2013, Azevêdo ganhou a parada e elegeu-se diretor-geral da OMC. Farani, por sua vez, partiu para o consulado.

No início do governo Temer, Farani saiu da geladeira e voltou a ser embaixadora na ONU, um movimento natural já que a diplomata nunca dera indícios de alinhamento com o PT. No governo Bolsonaro, contudo, veio a surpresa: ela deu uma guinada inesperada para a extrema direita. Farani nunca foi da ultradireita, mas viu chances de voltar a ascender na carreira quando Ernesto Araújo virou chanceler, sendo menos experiente, menos capacitado e menos sagaz que ela – e ainda vivia causando atritos. Farani então compareceu a um evento na ONU com a presença de Jean Wyllys, ex-deputado do Psol, confrontou-o abertamente e fez uma defesa de Bolsonaro. A cena foi filmada, ganhou as redes sociais, e Bolsonaro telefonou a Farani para elogiá-la. Ao desligar, ela comentou com assessores: “Teve exatamente o efeito que eu esperava.” Calculou que o movimento a colocava na linha sucessória da chancelaria bolsonarista.

Quando Ernesto Araújo caiu, Farani pensou que sua vez pudesse ter chegado, mas Bolsonaro escolheu Carlos Alberto França. “No momento decisivo da vida dela, ela apostou errado. Não existe o calculista absoluto. Mesmo o calculista absoluto tem convicções. E é muito mais fácil você ser traído pelas suas convicções”, disse um ex-subordinado de Farani. Tal como no governo Dilma, Farani voltou a ser cônsul, então sob Bolsonaro. Dessa vez em Nova York, para onde se mudara acompanhando o marido, que assumira a presidência do Conselho de Administração da Fundação PepsiCo nos Estados Unidos.

Hoje, Azevêdo está prestes a assumir a administração da nova gestora de recursos criada pelo ex-ministro Paulo Guedes. Farani, ao saber que seria removida do consulado depois da posse de Lula, decidiu pedir licença do Itamaraty. O casal comprou uma casa e fixou residência em Greenwich, no estado de Connecticut, onde vivem muitos dos gestores das fortunas de Nova York.

Indagado sobre a trajetória do casal, Amorim aparentou incômodo com a pergunta e disse que não tinha nenhum comentário a fazer.

Celso Amorim tem um ar simpático, estatura baixa, cabelos abundantes e grisalhos. Não tem mais caspa no paletó e prefere roupas claras ao terno cinza dos tempos de ministro. Seu sotaque é peculiar – uma mistura do mineiro, com o do interior paulista e o carioca. Quando expõe um ponto de vista, evita afirmações assertivas e sempre deixa aberto um ponto de retorno, que lhe permita recuar ou contemporizar. Quem já trabalhou com ele diz que é exigente e impaciente, mas não tolera grosserias. Preza a objetividade e detesta conversas longas. É um inimigo contumaz da modéstia e sua autoconfiança pode ser detectada a quilômetros de distância – traço que ele mesmo reconhece, tanto que está em várias passagens dos seus livros.

Em Laços de confiança, que trata de sua atuação com os países da América Latina quando era chanceler, Amorim conta um episódio de 2010 em que foi reconhecido nas ruas em Caracas quando caminhava ao lado de Nicolás Maduro.

Tive que fazer um pequeno percurso a pé, em uma espécie de calçadão. Vários populares saudaram o chanceler venezuelano, obviamente uma figura de destaque na política interna. Mas muitos também me reconheceram: Compañero Amorim, gritaram, erguendo o punho cerrado. Isso é reflexo da politização (neste caso, no bom sentido) dos meios de comunicação venezuelanos, que transmitem ao vivo eventos praticamente ignorados pela mídia brasileira, como, por exemplo, minhas audiências no Congresso.

Segundo quem convive com Amorim, sua ousadia e sua coragem são evidentes. Às vezes, até em excesso. Em 2010, uniu-se à Turquia para negociar um acordo de paz entre Irã e Estados Unidos, talvez o movimento mais ambicioso da diplomacia brasileira neste século. A operação internamente chamava-se Yasemin, em homenagem à neta de Amorim, cujo pai é o embaixador turco Murat Esenli. Mas as coisas não saíram conforme ele esperava. Na última hora, os americanos recuaram. Alguns acusaram Amorim de “ingênuo” por não ter percebido o jogo duplo da Casa Branca, mas a crítica está longe de ser unânime. “Ingênuo ele não é”, diz um ex-subordinado. “O que acontece é que ele perde o senso de realidade. Ele vai indo, indo, até que alguém coloque a mão no peito dele e diga ‘não’.” Amorim até hoje garante que os Estados Unidos deram um aval claro e sincero à iniciativa brasileira.

Todas as fontes que ouvi para esta reportagem – mesmo os críticos – falam sobre a inteligência e a excelência do trabalho de Amorim, embora alguns não concordem com suas diretrizes na política externa. O próprio Paulo Roberto de Almeida, que ficou anos no Departamento de Escadas e Corredores, reconhece o mérito do ex-chanceler. “Eu o considero um diplomata de primeira grandeza por sua capacidade de argumentar”, diz. Um diplomata hoje aposentado, que era próximo dos tucanos e acabou despachado para um pequeno consulado, faz questão de destacar as qualidades de Amorim – antes de criticá-lo. “A primeira coisa que a gente tem que dizer é que ele é um cara muito inteligente”, diz. Em seguida, o diplomata avalia que Amorim manteve sua cabeça e suas convicções no século XX e ainda acredita num mundo regido pelos preceitos da Guerra Fria.

Keith Rockwell, que por 25 anos foi porta-voz da OMC e hoje é pesquisador do Wilson Center, em Washington, diz que Amorim, ao lado do americano Robert Zoellick e do francês Pascal Lamy, foi o negociador mais brilhante que já passou pela organização. “De vez em quando, Lamy e Zoellick até pediam ajuda para o Celso, porque ele conhecia o secretariado e sabia como o lugar funcionava. Sabia o que precisava ser feito”, diz Rockwell. “Ele entendia os detalhes e também o todo. Era mais que um negociador. Fazia referências fantásticas a filmes, músicas, literatura e poesia.”

Rubens Ricupero, contemporâneo de Amorim no Itamaraty e seu colega de ministério no governo Itamar, embora crítico de muitas de suas iniciativas na política externa, também está no coro dos elogios. “Da geração à qual ele pertence, que inclui a minha geração e um pouco depois, ele foi o diplomata que teve mais êxito dentro da instituição. Ninguém foi ministro das Relações Exteriores três vezes. Isso reflete os méritos dele. É uma pessoa culta. Na política externa, sempre tem ideias novas. É audacioso em suas propostas, como aquela do acordo com o Irã. É uma pessoa de múltiplas facetas, muita riqueza cultural e intelectual”, diz o ex-ministro.

Ricupero, que nunca foi amigo íntimo de Amorim, relembra que voltou a ter contato com ele durante os anos Bolsonaro. “O que nos uniu foi a repulsa pela política externa daquele período.” O grupo também contava, entre outros, com os ex-chanceleres Celso Lafer, Aloysio Nunes e José Serra. (Lafer deixou de ser próximo de Amorim quando, como chanceler, colocou Guimarães Neto na geladeira. Amorim nunca o perdoou.) Ricupero diz ter integrado o núcleo que estimulava o voto em Lula logo no primeiro turno em 2022, em razão da inoperância de uma terceira via. Não se arrepende, mas se diz desapontado com os rumos gerais, que não demonstram reproduzir a “frente ampla” prometida, e mais ainda com a política externa, que ele avalia estar parada em 2007.

“Concordo que eles têm razão em procurar uma postura mais ativa. Mas eles interpretam a situação mundial, a meu ver, de maneira equivocada, que é muito enviesada contra o Ocidente e muito benevolente em relação à China, à Rússia, ao Irã”, avalia Ricupero. Ele diz que a dupla Lula-Amorim está desatualizada, implantando uma política externa que não reproduz o consenso da nação, em especial a questão Rússia-Ucrânia. (Quando conversamos, não havia ocorrido ainda o ataque do Hamas a Israel.) “Eles estão transformando a visão de mundo de uma minoria, por mais respeitável que seja, na posição do Brasil. É uma política externa que reflete a visão de mundo de um partido que está longe de ser majoritário. O partido nunca teria ganhado a eleição sozinho e procurou apoio dos outros. Mas, na hora de governar, segue suas próprias tendências.”

Nascido em Santos, Celso Amorim mudou-se com a família para o Rio de Janeiro quando tinha 4 anos de idade. Seu pai, Vicente, que tinha uma vida profissional instável, conseguira um trabalho na então capital do Brasil. “Meu pai era uma mistura de Carlitos com Dom Quixote”, diz ele. “Um idealista, mas muito longe da realidade.” Eram cinco pessoas morando num quarto sem banheiro, numa pensão na Praça General Osório, em Ipanema. Seus pais logo se separaram. E Amorim, filho temporão – sua única irmã, Maria Lúcia, era quase doze anos mais velha –, passou a ser criado por mulheres: Beatriz, a mãe, a irmã e a avó.

Ele conta que a mãe fazia de tudo para que o filho tivesse uma boa educação. Por isso, Amorim foi matriculado num colégio particular, o Mello e Souza. Em sua classe, estava Ruy Nogueira, amigo que o inspirou a ingressar no Instituto Rio Branco na juventude, e acabou sendo anos mais tarde seu contemporâneo e subordinado no Itamaraty. “Era um colégio muito bom”, relembra. “Numa foto de classe que o Ruy Nogueira me deu, em apenas um quadradinho estavam ele, eu, o Maurício Botelho, que foi presidente da Embraer, e o Júlio Moura Neto, que foi comandante da FAB”, conta, com orgulho.

Amorim não era o primeiro da classe – “Era sempre uma menina”, diz ele –, mas não raro ficava entre os três primeiros. Era um leitor voraz e ambicioso. Em uma edição de A república, de Platão, anotou na margem de uma página: “Aqui Platão errou.” “Para você ver como eu era metido. E sou até hoje, acho, um pouco”, diz ele. Enquanto fazia o curso pré-vestibular para cursar ciências sociais, decidiu – influenciado por suas leituras de Jean-Paul Sartre – que não podia ir para a universidade naquele momento já que não estava certo do que queria estudar. Tinha 18 anos. A mãe, exasperada, concordou que o filho esperasse, mas disse que só lhe daria casa, comida e roupa lavada. “Condução e cigarro, não”, relembra ele. (Amorim logo abandonou o cigarro, mas foi fumante de cachimbo até o início dos anos 2000.)

Para ganhar algum dinheiro, deu aulas de inglês, que aprendeu na escola, e fez traduções. Diz que a primeira tradução de O mágico de Oz, publicada pela editora Record, é de sua autoria. Cinéfilo, frequentava todos os festivais de cinema do Rio. Acabou conhecendo o cineasta Leon Hirszman, que o indicou para ser assistente de Ruy Guerra na filmagem de Os cafajestes, em 1961, no auge do Cinema Novo. “Eu disse: ‘Mas, Leon, eu nunca fiz nada de cinema.’ E ele falou: ‘Mas você fala bem. E quem fala bem, faz cinema bem.’ Ele era muito dialético.” Amorim brinca que, nesse período, viveu o ponto alto de sua vida. “Eu era encarregado de dar a toalhinha para a Norma Bengell no primeiro nu frontal do cinema brasileiro”, diz, com sorriso tímido, sobre a cena histórica de Os cafajestes. Depois, foi assistente de Hirszman no curta Pedreira de São Diogo, do projeto Cinco vezes favela, e encerrou sua carreira atrás das câmeras. Chegou a receber um convite para dirigir sozinho um longa, mas declinou. “Eu era muito jovem, meu pai não era o [diretor e produtor] Luiz Carlos Barreto. Se eu caísse, ia cair mesmo, levar um tombo para valer”, diz. “E eu também não sabia o que queria porque me interessava por literatura, filosofia, outras coisas.”

Por um breve período, trabalhou como redator do jornal Tribuna da Imprensa, sob a chefia de Zuenir Ventura, mas faz questão de frisar que, nessa época, a publicação não era ligada a Carlos Lacerda, mas aos donos do Jornal do Brasil. Amorim desistiu rápido do jornalismo. “Eu deveria chegar às cinco da tarde no jornal, mas, na realidade, chegava às nove da manhã e saía às nove da noite. Não tinha tempo de ler, fazer minhas coisas.” Foi quando o amigo Ruy Nogueira disse que passara no exame do Instituto Rio Branco. “Eu então falei para a minha mãe que iria fazer o concurso para o Itamaraty. Aí ela achou que eu estava louco mesmo. Ela vendia seguros, passava em frente ao prédio do Itamaraty, no Rio, e achava que aquilo era coisa de príncipes, de nobres. E eu era superplebeu, filho de uma mulher desquitada que morava num apartamento pequeno.”

Amorim tinha interesse em política externa, mas não fazia ideia de como era o trabalho de um diplomata. “Por que eu fiz o curso? Eram só dois anos, tinha bolsa e não precisava ter uma faculdade.” A bolsa era um atrativo importante. “Eu já ia entrar ganhando alguma coisinha, uma bolsa de salário mínimo para ajudar.” Ele diz que vários amigos do Mello e Souza tentaram, mas só Nogueira e ele conseguiram. Em 1962, entrou no Instituto Rio Branco em primeiro lugar. Estava em vigência a Política Externa Independente de San Tiago Dantas, o chanceler do então presidente João Goulart, por quem nutria grande admiração. Em 1964, formou-se como o primeiro da turma, mas o país já vivia sob a ditadura militar. O chanceler da época era Vasco Leitão da Cunha, que conduzia uma política de alinhamento automático com os Estados Unidos. Amorim pensou em desistir da carreira. Só não o fez para não frustrar sua mãe mais uma vez.

Na cerimônia pública de premiação como estudante do ano, Leitão da Cunha estava escalado para entregar o prêmio. Amorim pensou em não ir ao evento. “Mas uma das coisas que me fez ir foi para não pensarem que eu estava imitando o Sartre, que ganhou o Nobel e não foi receber”, disse, num misto de ironia e honestidade. Logo depois de ingressar no Itamaraty, casou-se com Ana Maria, sua namorada de juventude, com quem teve seus quatro filhos. (O casal se separou em 2022 e hoje ele namora uma professora cerca de quarenta anos mais jovem.)

Ele conta que, ao entrar na diplomacia, passou um longo período pensando em como sair da carreira. Uma alternativa seria migrar para a academia. Por isso, pediu para ser alocado num posto mais tranquilo em Londres, onde pudesse estudar. “Era o consulado, que tem menos prestígio. Não estou dizendo que é menos importante, mas que tem menos prestígio que a embaixada.” Fez um mestrado na London School of Economics, sob orientação do teórico marxista Ralph Miliband. Segundo Amorim, enquanto elaborava sua tese, Miliband disse que seu trabalho tinha nível de doutorado, mas, para fazê-lo, precisava ficar mais um ano em Londres. Por questões burocráticas do Itamaraty, Amorim não conseguiu a permanência. Ele acredita que, se tivesse ficado e concluído o doutorado, teria abandonado a diplomacia e migrado para a academia. Seu apartamento londrino, em vez do mobiliário moderno preferido por outros diplomatas brasileiros na cidade, era decorado com grandes fotos do Nordeste árido, segundo um diplomata que o visitou naquela época. Amorim não se recorda das fotos, mas lembra de passar o tempo estudando, em vez de ir aos coquetéis rotineiros da diplomacia, que muitas vezes abriam caminhos para promoções.

Na década de 1970, integrou o gabinete de Antônio Azeredo da Silveira, chanceler do governo de Ernesto Geisel. Ele considera esse posto relevante em sua carreira, pois a política externa do chanceler ia além do Ocidente. Propunha relações mais sólidas com países da América Latina, aproximação com países árabes e fim ao alinhamento do Itamaraty com a política colonial de Portugal na África. Ele era um “Silveirinha boy”, cujo traço estético mais visível eram as barbichas que todo subordinado usava. Por disputas internas, deixou a função em 1978, mas foi promovido de primeiro-secretário a conselheiro e assumiu a chefia do Departamento Cultural do Itamaraty, onde voltou a lidar com a turma do cinema. “Eu fui kicked up”, disse, usando a expressão em inglês equivalente a “cair para cima”.

No comando do Departamento Cultural, encontrou uma guerra de bastidores generalizada entre produtoras, distribuidoras e cineastas. A Embrafilme, estatal que financiava as produções nacionais, era a face mais visível da briga. O principal embate opunha os grupos dos cineastas Roberto Farias, da turma do cinema comercial (como as pornochanchadas), e Gustavo Dahl, ligado ao Cinema Novo. Para neutralizar os dois lados, Amorim assumiu a Embrafilme como força imparcial e agiu com diplomacia. Sua estratégia era deixar Farias e Dahl ocupados com seus projetos, bem financiados pela estatal, imaginando que isso os desencorajaria a brigar.

Luiz Carlos Barreto, hoje com 95 anos, lembra que, naquele período, Azeredo da Silveira lhe recomendou que se valesse de sua liderança no setor e cuidasse bem de seus “meninos de ouro” – ele se referia a Amorim e a Samuel Pinheiro Guimarães Neto, que fora escalado como número dois na estatal e também servira em seu gabinete. “Silveirinha me disse: ‘Vocês do cinema são muito complicados. Eu tenho muito cuidado com a carreira deles. Não vão complicar a vida deles’”, conta Barreto, numa conversa em seu apartamento no Rio de Janeiro.

Apesar do pedido de Silveirinha, a guerra entre os dois lados não só continuou como se voltou contra Amorim. Farias detonava o diplomata junto à indústria. Dahl e Nelson Pereira dos Santos o criticavam entre a turma do Cinema Novo, onde Amorim tinha velhos conhecidos – Ruy Guerra, Glauber Rocha, Leon Hirszman, Cacá Diegues e Barreto. Diegues diz que Amorim sempre foi “atencioso” e “correto”, e que nunca houve problemas entre o diplomata e seu grupo mais próximo de amigos do cinema, como Glauber, Joaquim Pedro de Andrade e Paulo César Saraceni. Ainda assim, as críticas se sobressaíam aos elogios, e o clima belicoso piorou depois que Amorim viajou de Concorde para o Festival de Cannes, num período de orçamento apertado na Embrafilme, suscitando críticas ainda mais ácidas. Apesar de tudo, saíam do forno produções que seriam mais tarde premiadas, como Bye bye Brasil, de Diegues, Eles não usam black-tie, de Hirszman, e Cabra marcado para morrer, de Eduardo Coutinho. Foram três anos intensos até que, em março de 1982, Farias exibiu Pra frente, Brasil, no Festival de Gramado.

O filme denunciava os anos de chumbo da ditadura. Mostrava que, enquanto o país vibrava com a Seleção Brasileira de Futebol, a tortura corria solta nos porões do regime. Quando o longa apareceu nas telas de Gramado, a ditadura estava moribunda, mas ainda levaria três anos para morrer. A crítica enfureceu os generais, que reagiram. Amorim sabia da produção e até cogitara propor a Farias uma mudança no provocativo título Pra frente, Brasil, que era o slogan ufanista da ditadura. Acabou desistindo da ideia. Tinha convicção de que, quando o filme viesse a público, conseguiria contornar a situação, sobretudo porque tinha boa relação com o general Golbery do Couto e Silva, o criador do Serviço Nacional de Informações (SNI), que espionava a vida de meio mundo. Mas a repercussão na imprensa foi grande, constrangeu o regime – e Amorim caiu.

Ele avalia que a beligerância dos cineastas não era para atingi-lo. Era a forma que haviam encontrado para mostrar independência do governo enquanto seus filmes eram financiados por uma estatal. Barreto, por sua vez, diz que, mesmo depois da saída definitiva de Amorim do mundo do cinema, mantiveram-se muito amigos. “Nossa amizade se aprofundou e eu pude verificar que o Celso é uma das pessoas mais bem preparadas no Brasil para exercer o papel de homem público.” Ele destaca que uma das características do diplomata é sua capacidade de equilibrar a emoção e a razão. “Eu sou uma pessoa muito levada pela paixão. Eu tenho muita dificuldade e faço muita força para ser racional. E aprendi muito com o Celso nessa minha busca pela racionalidade. O pouco de dose de racionalidade que tenho, eu devo a ele.”

Demitido da Embrafilme, Amorim voltou ao Itamaraty. Pela primeira vez, acabou no Departamento de Escadas e Corredores. O diplomata Gelson Fonseca Júnior trabalhava como assessor no gabinete do então chanceler Ramiro Saraiva Guerreiro e lhe ofereceu uma “salinha” no Itamaraty, apenas para que ele fosse à repartição e depositasse seu paletó na cadeira, de modo que não “passaria vergonha” perante a própria família. Amorim deu-lhe uma resposta colérica: disse que não precisava de nenhuma “salinha” e que sua família tinha muito orgulho dele.

Embora sua carreira no cinema não tenha vingado nem como operário  nem como patrão, três de seus filhos – Vicente, João e Pedro – se tornaram cineastas. Anita, a única filha mulher, vive em Genebra e dedicou-se ao multilateralismo. Na dedicatória que faz aos quatro em um de seus livros, Amorim escreve: “Aos meus filhos, que realizaram os sonhos que eu sonhei.”

Celso Amorim ficou na geladeira durante parte do governo do general João Baptista Figueiredo, o último dos ditadores militares, e saiu logo depois que José Sarney assumiu. Foi convidado por Renato Archer, um ex-diplomata, para assessorá-lo no Ministério da Ciência e Tecnologia, onde participou da elaboração da Lei de Informática e criou as bases de cooperação internacional da pasta, vigentes até hoje. Ali, teve um encontro produtivo: pela primeira vez, trabalhou com Mauro Vieira, hoje chanceler. Quando Archer deixou o ministério, Amorim continuou como assessor, mas afastou-se quando seu grupo político – liderado por Ulysses Guimarães, o pai da atual Constituição – rompeu com o governo. Nessa época, chegou a se filiar ao PMDB.

De volta ao Itamaraty, a história se repetiu. Ficou um tempo no Departamento de Escadas e Corredores até que voltou a ser nomeado para o Departamento Cultural. Tinha décadas de carreira e já podia ter sido promovido a embaixador havia quase dez anos, mas continuava patinando. Foi quando recebeu a incumbência de organizar a primeira reunião de países de língua portuguesa, em São Luís, no Maranhão, reduto político de Sarney. Fez um bom trabalho e acredita que, por isso, Sarney lembrou de promovê-lo no apagar das luzes do seu governo. Dali a um ano, se não viesse a promoção, teria de se aposentar como ministro de segunda classe, um grau abaixo na hierarquia. “Foi uma decisão solitária”, disse Sarney, ao comunicar a promoção. Amorim entendeu que nem o chanceler da época, Abreu Sodré, um aliado da ditadura, nem seu número dois, Paulo Tarso Flecha de Lima, tão poderoso quanto o ministro, faziam questão de vê-lo como embaixador.

A amizade com Mauro Vieira, nascida nessa época, aprofundou-se no decorrer dos anos. Os dois trabalharam juntos no governo Itamar e no início do governo Lula, quando Amorim, já chanceler, enviou Vieira para ser embaixador em Buenos Aires. A indicação de Vieira para suceder Antonio Patriota como chanceler de Dilma também teve suas digitais. Quando assumiu no lugar da petista, Temer cogitou manter Vieira na chancelaria, mas o PSDB pediu o cargo para José Serra. Temer, então, prestigiou Vieira com o posto de embaixador na ONU, em Nova York, onde ficou até os primeiros meses do governo Bolsonaro. Dali, foi despachado para uma embaixada de pouco prestígio – Zagreb, capital da Croácia. (Como chanceler de Lula, Vieira não partiu para a vingança. Os diplomatas prestigiados no governo Bolsonaro deixaram os postos centrais da diplomacia, mas não foram transferidos para regiões isoladas, e muitos seguiram em cargos de prestígio. O ex-chanceler Carlos Alberto França comanda a embaixada brasileira no Canadá, Orlando Leite Ribeiro continua embaixador em Madri e Raimundo Carreiro, em Lisboa.)

Discreto e cometido, Vieira tem um perfil complementar ao de Amorim, mais inquieto e mercurial. Quem convive com ambos já viu o ex-chanceler ultrapassando os limites de suas atribuições e dando orientações ao chanceler. “Quando o Celso começa, acaba falando por ele, pelo Itamaraty, pelo governo… É difícil, porque ele é ansioso. Ainda está se habituando ao fato de haver um ex-subordinado seu na chancelaria”, diz um interlocutor de Lula com acesso ao seu gabinete. Vieira não demonstra publicamente nenhum desconforto e faz elogios frequentes ao ex-chefe.

Conversei com Vieira rapidamente, por telefone, no dia 9 de outubro, quando ele estava em Jacarta, na Indonésia, a caminho do aeroporto. Pegaria um avião para o Camboja e depois para Cingapura. De lá, enfrentaria mais de dezoito horas de voo até Nova York, onde presidiria a reunião do Conselho de Segurança da ONU sobre o conflito no Oriente Médio. Disse que, nos dois dias anteriores, falara duas vezes com Amorim, afinando os pontos sobre a atuação humanitária do Brasil diante do conflito. Na noite anterior, também falara com o presidente Lula sobre os planos para a reunião e para as próximas que presidiria no Conselho. Disse que a sintonia entre o Itamaraty e o Palácio do Planalto é afinada. “É a mais perfeita e a mais absoluta. Nos vemos, nos reunimos. Ele está lá para assessorar o presidente e é um mecanismo muito bem estruturado, um diálogo perfeito”, disse Vieira. Comentou que, enquanto Amorim está mais presente na rotina de Lula, ele viaja mais (só este ano, foram 33 viagens oficiais). “Além disso, Celso é um grande amigo. Conheço todos os filhos dele, frequentamos a casa um do outro, ele conheceu meus pais, que já faleceram. Enfim, somos muito próximos.”

Vieira comentou sobre o período em que trabalharam juntos com Renato Archer e das vezes em que serviu no gabinete de Amorim, nos governos Itamar e Lula. Ele acha que a política externa “ativa e altiva” impactou gerações de jovens diplomatas, que retomaram o ânimo com a diplomacia, como nos tempos dos chanceleres San Tiago Dantas (1961-62) e Azeredo da Silveira (1974-79). Lamentou que todo o trabalho tenha sido desfeito no governo anterior, mas se declarou “seguidor” do modelo implantado por Amorim.

Celso Amorim é um dos poucos decanos da diplomacia mundial ainda em atividade. São raros seus contemporâneos que ainda estão no jogo, como o chanceler Lavrov, da Rússia. Com tantas décadas de exposição, o escrutínio público, dentro e fora do país, já está feito. Dentro do país, há quem diga que Amorim está sendo vítima de seu próprio êxito porque ninguém, pelo menos entre os diplomatas menos experientes, sente-se à vontade para confrontá-lo. “Ninguém vai dizer: ‘Celso, não estou convencido disso.’ Não há debate. Os diplomatas da geração dele, que o chamam de Celso, não estão mais na ativa. E quem o chama de ‘ministro’ ou ‘embaixador’ tem pelo menos 25 anos a menos. Não vai divergir”, pondera um diplomata ainda na ativa que já foi subordinado de Amorim. Outro interlocutor que presenciou muitas interações entre Lula e Amorim vaticina que, apesar das críticas, o ex-chanceler é hoje uma peça fundamental do governo. “É o diplomata vivo com mais experiência. E tem a ousadia que os outros não têm. Ele reúne um conjunto de qualidades que estão muito acima da vaidade dele, de seu protagonismo excessivo.”

Seu poder e sua influência ainda produzem temor entre os profissionais do Itamaraty. Dos 23 diplomatas ouvidos para esta reportagem, 18 só aceitaram conversar com a condição de que seus nomes não fossem publicados. Em alguns casos, eles têm receio de que suas declarações, ainda que anônimas, permitam que, por um detalhe ou outro, Amorim os identifique – o que pode resultar em alguma indisposição no Itamaraty ou obstáculos na carreira. Amorim é cioso de seu espaço – e astuto na crítica. Desde que Lafer, então chanceler de FHC, tirou os sapatos para a inspeção ao entrar nos Estados Unidos em 2002, na esteira das restrições do pós-Onze de Setembro, Lula gostava de fazer chacota ao dizer: “Ministro meu não tira os sapatos para revista”. Amorim, muito reservadamente, repetia a blague presidencial. Com sutileza, a um só tempo sublinhava a suposta subserviência tucana aos americanos e enfatizava sua própria posição de superioridade e independência.

Para um diplomata, o mundo das sutilezas é como o ar que se respira, mas Amorim não se perde nesse universo menor. Sua ambição e visão global nunca deixaram de pautar seu trabalho – e isso acontece até hoje. Em uma de nossas conversas, perguntei a razão de sua determinação em envolver o Brasil nos grandes temas globais, como a espinhosa questão do Oriente Médio. Ele respondeu: “Sinto que as pessoas esperam isso do Brasil.” Em seguida, ponderou: “A gente não pode representar o Brasil como ele é. A gente tem que representar o Brasil como ele pode ser, como ele deve ser.” Então contou uma história, ocorrida durante discussões na OMC. Congressistas japoneses comentaram – em tom bem-humorado – que o Japão era um gigante do comércio mundial e o Brasil era muito pequeno, mas, nas rodadas de negociação da OMC, o Japão parecia muito pequeno e o Brasil era um gigante. “Era o poder diplomático que a gente aglutinava”, diz Amorim.

Sobre sua política “ativa e altiva”, ele diz, com modéstia incomum, que não foi ideia sua. “Eu fiz com mais determinação coisas que já estavam presentes na política externa. A volta um pouco do espírito do San Tiago Dantas, que me inspirou na minha juventude.” Ele também recorda que o período em que serviu no Itamaraty na ditadura rendeu-lhe uma lição valiosa, que norteou toda a sua atuação como diplomata: atuar em brechas. “Eu via que dava para trabalhar, mesmo nos interstícios. Isso sempre ficou na minha cabeça. Numa realidade qualquer, seja a rodada do Uruguai, a rodada de Doha, o Irã… me perguntam: ‘Você vai mesmo fazer isso? Não tem chance!’. Mas eu não olho para o lado da escuridão. Eu olho para a brecha.”

O método também se traduz em reconhecimento pessoal para Amorim. Quando telefonou a Lula para parabenizá-lo pela vitória em outubro do ano passado, Bill Clinton pediu que o petista mandasse um abraço para “meu amigo Celso”. O mesmo fez o primeiro-ministro norueguês, Jonas Gahr Støre. Na cúpula entre a Celac e a União Europeia, em Bruxelas, o presidente francês Emmanuel Macron convocou alguns chefes de Estado da América Latina, Lula incluído, para uma reunião particular sobre a Venezuela, e fez questão de mandar seu assessor convocar Amorim para também participar. Quando o diplomata esteve em Madri recentemente, foi convidado pelo ex-primeiro-ministro da Espanha José Luis Zapatero para um almoço. Amorim estava num café em Bruxelas num fim de tarde de julho, quando o presidente argentino Alberto Fernández passou, pediu licença e sentou-se para conversar com o diplomata. Em Havana, como na anedota de Caracas, ele é reconhecido nas ruas de vez em quando. Numa entrevista em meados de agosto à NPR, a jornalista americana Carrie Kahn disse, ao final da conversa, que havia lido todos os seus livros já traduzidos para o inglês e perguntou se ele não escreveria outros.

Amorim respondeu: “Agora estou escrevendo as memórias do futuro.”

Esse conteúdo foi publicado originalmente na piauí_206 com o título “”Eu sou um príncipe””.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época