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poesia

YORICK

Um dos personagens mais estranhos de Shakespeare

4 min de leitura

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Yorick é um dos personagens mais estranhos criados por Shakespeare: é o crânio que Hamlet segura no quinto ato da tragédia, com o qual dirige perguntas a um coveiro e ao amigo Horácio. Yorick foi bobo da corte do rei, pai de Hamlet: o príncipe relembra haver sido carregado nas costas pelo bufão, fala dos chistes e das cambalhotas do empregado, da impactante aceitação da morte de quem o alegrou e com quem brincou. Nada mais se sabe de Yorick.

Nos poemas a seguir – parte de um conjunto de cinquenta poemas ainda em preparação sobre o bobo da corte –, Yorick fala sobre suas tarefas, comenta o que passou nas mãos de inimigos e amigos com quem competia, e trata de sua morte. Também fala o coveiro envolvido na cena do cemitério – o túmulo onde estavam os ossos de Yorick agora servirá para o sepultamento de Ofélia.

Yorick se apresenta

Inventei um sorriso no ar (sou eu,
Yorick, quem sorri). Inventei
uma cambalhota parecida com alguém.
Inventei um modo de agradecer
se nada fiz.
Assim sou eu, damas, cavalheiros,
dono de uma impossível matriz.
Surpresa que passeia, anedota
a erodir todo o tempo,
não sugo sangue nem me envaidece
pertencer a outra natureza.
Até na solidão faço rir
até se tivesse
de repetir a anedota para mais três:
ainda provocaria
provocaria
apenas com rosto provocaria
e sairia do salão em triunfo
rindo para que me deixassem em paz.

O poeta comenta Yorick e o poder

Yorick traz um sino à mão.
Badala o sino, pede atenção
por dois minutos. E de novo pede.
Pede mais. Por fim, vai embora
a saltar e a gritar
eu só queria o silêncio de todos
pois todo o resto é mentira. Podem
voltar a conversar.

Vão contar a última de Yorick
cada um tem sua versão,
ninguém confessa que Yorick está certo,
que hoje foi um dia difícil
eu mesmo disse boa noite, como vai?
sem ter culpa disso
queria estar passeando entre flores
sem encontrar um só conhecido.

Um inimigo de Yorick

O nome Giufa me faz frio:
vento de lâmina dentada.

Tolo, Giufa alegre explicava
que mesmo os tímidos sorriam.

Mas era sorrateiro e falso:
quis urinar em mim primeiro,

chamando-me de Yorick cínico,
insolente, fingido e mau.

Giufa morreu faz muito tempo.
Mas ainda faz frio na água,

no campo, na chuva e no raio.
Esse frio é Giufa e seu ódio,

é também Giufa perguntando
por que continuo tão perto.

Sobre Yorick doente

Yorick se pergunta
sempre sozinho:
é possível chegar à eternidade e ainda rir?
é possível ir à eternidade e não doer?

E o sonho que eu tive?
se pergunta
esse animal que escorre no escuro,
esse ruído que não é de ninguém?

Tudo agora se parece
com o medo de Yorick.
O espelho, principalmente, mas
também a vidraça invadida de Sol.

Ali está Yorick movendo sombras.
Já se imagina brincando de lugar em lugar –
mas é o dia
que tem poente,
e todo o jardim fica à deriva.

Yorick fala de sua morte iminente

A luz que atravessa o vitral
vem aqui.
Vitral que tem as cores
das roupas antigas.
Luz que descobre
o corpo de um Yorick roto
por isso não ilumina
antes vasculha onde vai tocar.

Não vai tocar: vai morder.

A luz tem seu revés (vejo
todos os dias) que nunca faz sombras:
antes me flagra quando respiro
e me reduzo ao meu espaço.
Luz que corrompe
a pele nua onde planeja
e aos poucos cauteriza
cada uma das veias.

Não vai brilhar: vai devorar.

Comenta-se a morte de Yorick

O coveiro:
Aqui dentro, sim,
como que por acaso
o camponês e o nobre se abraçam.

É só cavar: tudo aparece.
O que se disse lá fora
não desce. O pouco do que ficou
apodrece. A roda segue
a moer sem reza quem está lá na frente.

É só cavar. Depois de tanto imaginar,
Yorick veio para cá:
não usou as próprias mãos
nem pôde escolher, na pressa,
o lugar onde ficou.
Era muito pestilento.
Agora, curado,
demora a ser esquecido
(lembrar-me dele
não é parte do meu ofício).

E já chega um novo inquilino.


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É poeta, ensaísta e diplomata. Publicou os livros de poesia O mundo à solta (Topbooks) e O rugido do sol (Pinakotheke)