questões estético-políticas
Luigi Mazza Abr 2024 18h43
21 min de leitura
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A cena se passa à noite, sob uma suave luz amarela, que cria uma atmosfera de intimidade. Sentadas em cadeiras de vime, na varanda de uma mansão, em Brasília, pessoas famosas cantam baixinho os versos de Luz do sol, música de Caetano Veloso. Quase todas seguram uma taça, bebendo o que parece ser vinho.
Luz do sol
Que a folha traga e traduz
Em verde novo
Em folha, em graça, em vida,
[em força, em luz.
O grupo é composto por atrizes – Leticia Sabatella, Leona Cavalli, Zezé Polessa –, músicos – Seu Jorge, Maria Gadú, Daniela Mercury – e políticos – a deputada federal Sâmia Bomfim (Psol-SP), o então deputado Alessandro Molon (PSB-RJ). Alguns fecham os olhos, balançam suavemente o corpo, parecem emocionados. Cantam quase sussurrando. O momento foi registrado em vídeo pelo jornalista Guilherme Amado horas depois do Ato pela Terra, misto de show e protesto organizado por Caetano e sua mulher, Paula Lavigne, em março de 2022. Artistas foram a Brasília denunciar o desmonte ambiental que vinha sendo promovido pelo governo de Jair Bolsonaro e pelo presidente da Câmara, deputado Arthur Lira. Terminado o protesto, se reagruparam na casa do músico Orlando Morais e de sua mulher, a atriz Glória Pires.
Assisti ao vídeo dias depois, no Twitter. Achei engraçado e encaminhei para um grupo de amigos no WhatsApp. Uma amiga comentou, brincando: “Já fui a enterros mais animados.” A comparação com um velório não era totalmente descabida. Os convivas exibiam alguma tristeza. Parecia um daqueles momentos em filmes de guerra ou de apocalipse, quando, num respiro da história, entre uma e outra tragédia, os heróis da resistência conseguem confraternizar e ver beleza na vida. Há tristeza, mas há resiliência, como se diz. A cena, no entanto, parecia também um culto, em que o objeto cultuado estava presente em carne e osso, na ponta da mesa: Caetano, acompanhado de um violonista, cantava a própria música. Recebia olhares de reverência e mantinha as mãos cruzadas sobre as pernas cruzadas. No fim, sorrindo, foi aplaudido.
O vídeo é um prato cheio para quem vê elitismo nas fileiras progressistas da classe média e do mundo artístico. A meses de uma das eleições mais importantes desde a redemocratização, uma turma meio intelectual, meio de esquerda – na expressão de Antonio Prata – bebericava vinho numa casa brasiliense, relaxando depois de um dia de árdua militância. Os rostos com expressões graves, como se estivessem de luto pelo país.
Mas o que mais chama atenção é o clima religioso em torno de Caetano. Ele é o centro das atenções, o motivo de tudo aquilo, uma divindade. Seus versos, sussurrados numa espécie de transe, mais parecem uma reza. Seria caricato, mas não inimaginável, se um dos convidados lhe beijasse os pés. Todos olham para o artista como se esperassem dele uma resposta. O mundo está em frangalhos, o poder está na mão dos bárbaros, mas nós temos Caetano. Me pergunto se o próprio Caetano não acha isso tudo muito cringe.
O encontro de Brasília não marcou ninguém, não salvou a Amazônia e não teve maior importância histórica. Mas aqueles 28 segundos de vídeo sinalizam para um fenômeno curioso dos últimos anos: Caetano transcendeu de artista para outra coisa. Oráculo, talvez? Não é culpa dele, que não tem nada a ver com o que os outros fazem de sua imagem e de sua arte. Também não é algo universal, unânime entre brasileiros de todas as classes sociais. É um sentimento que se respira na intelligentsia do país.
Numa manhã de sábado, quem entrar numa livraria descolada de São Paulo ou do Rio de Janeiro ouvirá, quase invariavelmente, uma playlist de canções da Tropicália. Não há nada mais cool. A banda Bala Desejo, que se esforça para ser mais tropicalista que os tropicalistas, com seus looks estrambólicos e câmeras analógicas, foi uma das sensações de 2022. Abundam festas, blocos de Carnaval e adereços inspirados na Tropicália. Nos petits comités nas casas de artistas, uma cena frequente: vestidos de branco, todos cantam baixinho, ao som de um violão, as mais delicadas composições de Caetano.
O músico baiano, hoje com 81 anos, ganhou ares divinos. “Eu acredito em Deus”, escreveu o humorista João Vicente de Castro, ao publicar no Instagram uma foto ao lado de Caetano, seu padrinho. A aura se estende a Gilberto Gil, também com 81 anos, chamado aqui e acolá de “orixá vivo”. Disse Gregorio Duvivier, nas redes sociais, depois de gravar um programa de tevê com Gil: “Não acredito em Deus, mas ontem conversei com ele.”
Essa veneração poderia ser tomada como apenas uma demonstração de apreço pelo artista, mas isso implicaria ignorar uma questão política de fundo. Caetano e Gil encarnam uma visão de país que foi resgatada e anabolizada pela nossa intelectualidade em reação à extrema direita. Tornaram-se, para muita gente, o rosto do Brasil da resistência, não tanto pelo que dizem ou fazem, mas pelo que simbolizam. Contra o Brasil feio e desagradável que emergiu em 2016 portando fuzis, Bíblias e motosserras, evocou-se a ternura de um Brasil bonito, tropical, delicado, plural. Uma imagem reconfortante para tempos desconfortáveis. Daí os elogios um tanto saturados, que traduzem, em seu exagero, um certo desamparo.
Quem vocalizou isso, talvez melhor do que ninguém, foi o escritor português Valter Hugo Mãe. Em 2019, início do governo Bolsonaro, Hugo Mãe publicou uma carta aberta endereçada ao colega brasileiro – também escritor – Marcelino Freire. Aquele foi um ano marcado pelo pânico da intelectualidade diante do bolsonarismo, o que, olhando em retrospecto, produziu algumas manifestações piegas, excessivas na autocomiseração.
Na carta, o escritor fez um pedido comovido: “Cuide de Chico Buarque e de Caetano Veloso, por favor, em qualquer cabeça sã do mundo eles representam o Deus possível. Cuide de Maria Bethânia. De Sonia Braga. Diga a Davi Kopenawa e a Ailton Krenak que a floresta vai sempre amá-los, diga que a arara me garantiu.” Tratava-se de preservar um Brasil sob risco de extinção. Uma extinção simbólica: o Brasil idílico, da beleza, das florestas e das araras, estava indo pelo ralo.
O que Hugo Mãe expressa não é nostalgia, puramente. É uma espécie de reafirmação terapêutica, como se dissesse: “Esse Brasil assustador que vocês estão vendo na rua, com militares, milicianos e evangélicos intransigentes, não é o Brasil de verdade.” Talvez o vídeo de Brasília, mais do que um funeral, se assemelhasse a uma terapia em grupo.
Outros artistas consagrados, como Chico, Gal, Bethânia e Milton, também são celebrados nas pequenas reuniões de Brasília, nas festas da turma do Projac e nas boas livrarias. Os tropicalistas têm certo protagonismo talvez porque, sendo representantes de um movimento artístico que pretendeu reinventar o Brasil, penetraram de forma mais profunda na nossa autoimagem de país. Ou talvez porque se esforcem mesmo para ter esse protagonismo, dialogando com as redes sociais, com os jornais, com os jovens.
As duas hipóteses não são excludentes, mas a primeira é mais reveladora. Pode-se dizer que a Tropicália, se não inventou, ao menos sintetizou um senso de brasilidade que acabou se tornando parte da nossa cultura, da forma como nos vemos no mundo. A ideia de que nós, como povo, somos definidos por nossas contradições: um país exuberante, mas terrivelmente violento; religioso, mas incorrigivelmente depravado; moralista, mas corrupto até na hora de pagar a padaria. Um país da delícia e do absurdo, ao mesmo tempo triste, bonito e cômico.
Esse jogo de contrastes foi bem explicado por Roberto Schwarz. No célebre ensaio Cultura e política, 1964-1969, o crítico literário escreveu que o projeto estético dos tropicalistas consistia na “submissão de anacronismos […] grotescos à primeira vista, inevitáveis à segunda, à luz branca do ultramoderno, transformando-se o resultado em alegoria do Brasil”. Era o contraste tipicamente brasileiro, ou latino-americano, entre modernidade e subdesenvolvimento. O próprio Caetano, embora torça o nariz para Schwarz, escreveu algo parecido no livro Verdade tropical, publicado em 1997. Segundo ele, a Tropicália queria tratar “ao mesmo tempo da revolta visceral contra a abissal desigualdade que fende um povo ainda assim reconhecivelmente uno e encantador, e da fatal e alegre participação na realidade cultural urbana universalizante e internacional, tudo isso valendo por um desvelamento do mistério da ilha Brasil”.
Essa visão tropicalista do Brasil, embora duramente combatida pela esquerda dos anos 1960, que a considerava despolitizada em seus estrangeirismos e ambiguidades, acabou vingando. Tornou-se um mainstream cultural, uma lente por meio da qual artistas e intelectuais passaram a enxergar o país. Quando surge a extrema direita, mostrando que este também é o país da riqueza opressiva, dos pastores, dos empreendedores, dos grileiros e dos viúvos da ditadura, esse status quo é posto em xeque. Não que antes essas figuras não existissem, mas de 2016 em diante passaram a formar uma maioria vocal e radicalizada, com um projeto político mais ou menos bem definido e instrumentos para colocá-lo em prática. Inicialmente dispersas, elas se encontraram na candidatura vitoriosa de Jair Bolsonaro, em 2018.
Foi então que o Brasil tropicalista, um dado da natureza sobre o qual já não se falava, tomou um choque de desfibrilador. “Meus hinos nacionais foram compostos por tropicalistas, e é a eles que recorro quando preciso reafirmar o amor estremecido por minha terra-mãe”, confessou a atriz e escritora Maria Ribeiro, em uma coluna publicada na Veja Rio por ocasião do Sete de Setembro de 2020. Era uma reação à forma como o bolsonarismo vinha se apropriando do Dia da Independência e dos símbolos patrióticos, sobretudo a bandeira nacional. “No meio das estrelas do céu da minha bandeira”, prosseguiu Ribeiro, “estarão para sempre escritos um nome e um sobrenome: Caetano Veloso.”
Cinquenta anos atrás, naquele mesmo ensaio, Schwarz argumentou que a Tropicália dificilmente teria a ressonância que teve, ou a mesma pertinência histórica, se não fosse o golpe de 1964. A quartelada, segundo ele, produziu as contradições que serviram de matéria-prima para Caetano e Gil. O Brasil, que até então vivia em clima pré-revolucionário – com um Partido Comunista forte comandando mobilizações no campo e nas cidades, com discussões crescentes sobre liberdade sexual –, viu-se de uma hora para outra sequestrado pelos elementos mais retrógrados da sociedade. Um show de horrores. “Espetáculo acabrunhador especialmente para os intelectuais, que já tinham se desacostumado”, observou Schwarz, concluindo que esse espanto, essa ressaca política, adubou o terreno no qual floresceu, pouco tempo depois, a Tropicália.
O que foi o impeachment de Dilma e a vitória de Bolsonaro senão um “espetáculo acabrunhador especialmente para os intelectuais” que, depois de trinta anos vivendo em relativa normalidade democrática, “já tinham se desacostumado” com o Brasil arcaico?
Talvez esse luto seja comum a outros países que viveram um trauma similar. Em 2018, na ressaca do Brexit, o grupo inglês The Good, The Bad & The Queen lançou um álbum chamado Merrie land (Terra feliz), em que tenta acertar contas com a morte de um ideal de Inglaterra. É o lamento de uma geração que viveu a efervescência cultural dos anos 1990, a ascensão do Partido Trabalhista ao poder e a sensação de que a ilha, mais do que nunca, estava se irmanando com a Europa e se abrindo para o resto do mundo. Então veio o plebiscito de 2016, veio Boris Johnson, e o sonho cosmopolita evaporou. Sobrou a xenofobia e o velho isolacionismo britânico.
O tom das músicas é lamurioso, propositalmente patético. O líder do grupo, Damon Albarn – mais conhecido por seu trabalho no Gorillaz e no Blur –, em alguns momentos se dirige ao país, como se falasse com um familiar que acaba de morrer – uma morte súbita, inesperada. “Don’t leave me now” (Não me deixe agora), ele repete, agoniado. Depois, lamenta ter sido pego de surpresa: “I was just getting done with my business…” Isto é: eu só estava tocando a vida, quando tudo veio abaixo.
Vivemos nossas rotinas, de casa para o trabalho, do trabalho para casa, observamos desatentos as pessoas nos supermercados, nos ônibus, e raramente pensamos no país, essa massa amorfa que nos cerca, grande demais para ser apreendida. Só esperamos que ele continue lá, existindo, e que de preferência não nos atrapalhe. Apenas seguimos tocando nossas vidas. Ao mesmo tempo, o senso de nacionalidade é algo muito íntimo. Sem que percebamos, ajuda a moldar a forma como nos enxergamos. “Are we green, are we pleasant?” (Somos verdes, somos aprazíveis?), pergunta Albarn, referindo-se à autopercepção da Inglaterra – e de si mesmo. Em seguida, responde, desiludido: “We’re not either of those, Father. We’re a shaking wreck where nothing grows” (Não somos nem uma coisa nem outra, Pai. Somos uma ruína completa onde nada cresce). A autoimagem do país é também a nossa autoimagem. O luto causado por sua perda é também um luto pessoal.
Por isso entendo Valter Hugo Mãe e todos que, como ele, choraram a morte de uma ideia de Brasil. É genuíno o afeto que sentimos pela abstração que é um país; pela sensação de compartilharmos com 200 milhões de pessoas uma experiência comum na Terra. O tropicalismo traduziu esse sentimento de forma magistral. Tentou dar sentido a um país enorme e difícil de entender. Buscou criar uma personalidade para o Brasil abraçando nossas contradições.
O luto, portanto, é saudável e inevitável. Depois de um certo ponto, no entanto, vira uma trava. Um muro com o qual nos blindamos do mundo real. O caetanismo – por falta de melhor nome, chamarei assim esse rebote histórico da Tropicália – padece desse mal. Não se trata de um movimento coeso, muito menos coordenado. É um fenômeno espontâneo, que vai além da figura do artista Caetano Veloso e não deve ser confundido com ele. Uma tentativa de retornar a um estágio anterior da história. Se o tropicalismo inventou uma nova visão de Brasil, o caetanismo nada mais faz do que emular essa visão – quase sempre de maneira caricata, hipertrofiada – num país que, em cinquenta anos, mudou tremendamente. O resultado disso é que paira no ar um incômodo estético.
Lembro de ter sentido isso pela primeira vez em 2017. Naquele ano, fui a um festival de música no Rio de Janeiro que homenageava o cinquentenário da Tropicália. Vários artistas de veia tropicalista iriam se apresentar, como Céu e Pato Fu, mas eu queria mesmo era ver o show do Tom Zé, de quem sou fã. Dilma tinha sido derrubada pelo Congresso fazia um ano e, desde então, Michel Temer, o vice conspirador que assumira o poder, era alvo de protestos contínuos. Um dos curadores do festival, que de vez em quando aparecia no palco para animar a plateia, em dado momento fez um discurso em que citava a música Divino maravilhoso, de Caetano e Gil: “Não temos tempo de temer a morte!” Te-mer. Ele repetiu a palavra, lentamente, umas três ou quatros vezes, para se certificar de que o público – composto quase todo por brancos de classe média e jovens, como eu, na época com 21 anos – tinha entendido o trocadilho. Todos tinham entendido de primeira. Aplaudiram, assoviaram, gritaram “Fora, Temer”, o protocolo completo. Senti um constrangimento enorme.
Meu desconforto era sobretudo político. Àquela altura do campeonato, agosto de 2017, ninguém aguentava mais ouvir “Fora, Temer”. Muitos amigos se sentiam como eu, não porque fossem apoiadores do emedebista, ao contrário. O incômodo existia porque aquele script tinha se esgotado. Temer já era o presidente mais impopular da história. O que faltava não eram palavras de ordem, mas meios políticos para tirá-lo do poder – e isso a esquerda não tinha condições de oferecer. Era um protesto que servia apenas para sublinhar seu caráter inofensivo.
Mas havia também um desconforto estético. Aquele jeito de pensar o Brasil era velho. A brasilidade tropicalista reinava no festival, atrelada, naquele momento de crise, a um fetiche de resistência heroica à ditadura. O curador fez o discurso com o punho em riste. O fato de ele estar fantasiado com trajes ultracoloridos não ajudava. Essas pessoas pensavam estar nos anos 1970? As respostas daquela época nos servem hoje? Estávamos diante de uma quartelada, como em 1964, ou de uma realidade inteiramente nova?
Me pergunto se não estamos, ainda hoje, presos a essa dinâmica. Lula venceu a eleição, é verdade, mas com a menor margem de votos da história. Há um elefante terrivelmente silencioso na sala. Se cantarmos Luz do sol suficientemente alto ele vai embora?
É claro que espetáculos artísticos não são instrumentos revolucionários, mas, quando me deparo com imagens de shows recentes de Caetano, sinto o mesmo incômodo de sete anos atrás. A comunhão entre artista e plateia é integral. Um sabe o que esperar do outro. Um grito de “viva a democracia”? Um “ei, Bolsonaro, vai…”? Quando a plateia puxa o coro, Caetano sorri. É um afago recíproco, que na verdade esconde um desconforto: nem a plateia nem o músico sabem o que está se passando com o Brasil.
Quando completou 78 anos, em agosto de 2020, Caetano fez uma live comemorativa ao lado dos filhos, tocando clássicos de sua carreira. Teceu breves comentários críticos à gestão de Bolsonaro na pandemia e concluiu que, apesar de tudo, o Brasil seguiria em frente e as coisas eventualmente melhorariam. “A gente vai, o Brasil é o Brasil.” A versão em português do jornal El País publicou no dia seguinte uma resenha dizendo, entre muitos elogios, que a live era “um chamado otimista à resiliência, tingido de melancolia”, e que Caetano nos tinha feito lembrar “que ainda existe um Brasil que vale a pena”. Um Brasil que vale a pena: frases com essa tornaram-se lugar-comum.
Quando Caetano completou 80 anos, data celebrada com um programa especial da Globoplay, o cineasta Kleber Mendonça Filho tuitou: “Esse #EspecialCaetanoVeloso80Anos me lembra que o Brasil de verdade é muito melhor. Obrigado.” A turma filmada na mansão, em Brasília, certamente pensava estar representando o Brasil de verdade.
A mansão, nesse caso, tem valor simbólico: o Brasil do lado de dentro dos muros é delicado, bonito, fraternal; do lado de fora, é um país estranho, desagradável. Mais do que isso: é incompreensível. Depois de quatro anos de governo Bolsonaro, a reação predominante nos círculos intelectuais ainda era a estupefação. O luto transformado em negação. Há nisso um problema político elementar: se você não entende seu inimigo, dificilmente terá condições de derrotá-lo.
Estaríamos bem se esse comportamento fosse restrito às rodas de gente meio intelectual, meio de esquerda. O problema é que essa turma só está, na verdade, captando os sinais irradiados por uma parte da esquerda institucional, que reluta em tratar o bolsonarismo em termos políticos – sinal de que continua sem compreendê-lo. As análises sobre a extrema direita, tanto na mansão quanto no Congresso, frequentemente se restringem ao campo da moral e da psicologia – não raro, com pitadas de preconceito de classe. Aos olhos da intelligentsia, o bolsonarismo é uma sujeira histórica, formada por gente desqualificada, militares truculentos, evangélicos estridentes. Não é o Brasil de verdade. São pessoas violentas, reprimidas e rancorosas com a ascensão social dos mais pobres.
Nada disso é falso, mas nada disso explica o todo – e não resolve o impasse político. Como escreveu Vladimir Safatle (Os limites do ressentimento, piauí_206, novembro de 2023), esse tipo de leitura sobre o bolsonarismo talvez só sirva “para mascarar nossa impotência política real”. O filósofo francês Charles Fourier (1772-1837) quis dizer algo parecido quando escreveu que a moral “é a impotência posta em ação” (frase depois resgatada por Marx em A Sagrada Família, de 1845).
Bolsonaro, bem ou mal, conseguiu inventar uma nova forma de o Brasil enxergar a si mesmo. Um novo imaginário, uma nova história, que contrasta radicalmente com o Brasil caetanista: nessa visão utópica da direita, somos o país do agronegócio pujante, dos empreendedores vibrantes, dos evangélicos batalhadores. A esquerda taxa o bolsonarismo de retrógrado, com razão – o homem reverencia torturadores e conseguiu descredibilizar até a vacina. Mas sua visão de Brasil, por mais que doa dizer isso, é, em alguns aspectos, modernizadora, no sentido de que nos oferece uma autoimagem mais condizente com o mundo em que vivemos hoje. O imaginário bolsonarista rasga de vez a imagem de um Brasil católico e fraterno, típica do século passado, e a repõe com uma visão mais alinhada ao Zeitgeist. Dá um banho neopentecostal num país que ainda relutava em aderir espiritualmente ao liberalismo selvagem, ao capitalismo tardio, ao mundo do cada um por si.
O tropicalismo, em contraste, toma o subdesenvolvimento como parte da identidade nacional. Vejo um quê de caetanismo em memes que fazem sucesso nas redes sociais, em páginas de humor como O Brasil Que Deu Certo, onde se retratam cenas daquilo que se costuma chamar “Brasil profundo”. São engraçadas e exóticas para o público jovem das metrópoles, mas não para os envolvidos. Esse misto de amor e fina ironia (ou de simpatia e desgosto, como escreveu Schwarz) compõe o espírito tropicalista. Nisso o tropicalismo – e, por tabela, o caetanismo – transparece um certo caráter de classe: o Brasil profundo só é bonito e exótico para quem não faz parte dele.
A esquerda, desde 2016, tem sido incapaz de propor um novo imaginário para o país. O PT assumiu o governo em 2003 com um projeto reformista conservador de amparo aos mais pobres, apostou na conciliação de classes, confiou na existência de uma burguesia desenvolvimentista interessada nessa agenda, foi traído por essa burguesia e terminou apeado do poder. E, a despeito disso, não tirou lições da derrota. Não houve revisão ideológica no PT – ou melhor, houve, mas ficou restrita às alas minoritárias do partido, que não o comandam. O petismo não propõe hoje um novo caminho para o Brasil. Sua campanha em 2022 foi toda pautada pelo passado. “O Brasil feliz de novo.” Lula subiu a rampa do Palácio do Planalto com o mesmo programa de vinte anos atrás, adornado com acenos tímidos à pauta da representatividade.
O caetanismo parece o sintoma cultural dessa paralisia política. Uma tentativa de restaurar uma visão de país cujas condições não existem mais. Para que essa operação ideológica seja possível, o Brasil que elegeu e quase reelegeu Bolsonaro precisa ser recalcado, considerado um erro de percurso, não uma nova realidade. Precisa ser tratado como perversão moral, alucinação coletiva, nunca como um problema sociopolítico. Invertendo a frase de Mendonça Filho: precisa ser tratado como o Brasil de mentira.
Em outro trecho de seu ensaio, Roberto Schwarz relata como parte da esquerda também descambou para o moralismo depois de 1964, e cita como exemplo a peça Arena conta Zumbi. Encenada no Teatro de Arena, em São Paulo, ela fez grande sucesso, em parte devido a seu apelo político. A trama equiparava a luta de libertação dos negros escravizados no século XVII com a luta contra a ditadura. Dois momentos separados por duzentos anos de história e incomparáveis sob quase todos os ângulos. Mas isso não importava: “Apagam-se as distinções históricas”, escreveu Schwarz, “e valoriza-se a inevitável banalidade do lugar-comum: o direito dos oprimidos, a crueldade dos opressores.” O Bem contra o Mal. Alijada da vida política, “a esquerda derrotada triunfava sem crítica, numa sala repleta, como se a derrota não fosse um defeito”.
Não diríamos coisa parecida de Bacurau? O filme de Kleber Mendonça Filho[1] e Juliano Dornelles foi lançado em 2019, momento em que a esquerda estava no fundo do poço. Bolsonaro tinha acabado de ser eleito, gozava de popularidade, Lula estava preso, e o PT, atônito. Ainda assim, as sessões do filme lotavam e causavam um furor catártico. Era uma alegoria de fácil digestão: os heróis – leia-se, a esquerda – davam uma surra nos vilões – leia-se, a direita. Era comum que a exibição terminasse com gritos de “Fora, Bolsonaro”. A esquerda, derrotada no mundo real, lavava a alma no cinema.
O enredo do filme contrasta o “Brasil real” – sertanejo, pobre, solidário – e o Brasil encarnado por uma classe média eugenista, disposta a se aliar com estrangeiros para cometer um genocídio e varrer os nordestinos do mapa. No interior de Pernambuco, onde se passa a história, a modernidade high-tech convive com as marcas do subdesenvolvimento (ruas de terra, caminhões-pipa), e os habitantes consomem um misterioso psicotrópico. Na primeira cena, flutuamos pela órbita da Terra até que mergulhamos no Brasil ao som de Não identificado, música de Caetano gravada por Gal Costa em 1969. O Brasil tropicalista se descortina à nossa frente.
Os heróis do filme, é claro, são os sertanejos, personagens românticos, mais do que políticos. O pobre do semiárido é o oprimido entre os oprimidos. Categoria útil para enredos desse tipo, porque não comporta complexidades – é o pobre original do Brasil, por assim dizer. Um povo espontaneamente heroico, situado num universo referencial católico: o sofrimento o dignifica, o torna moralmente superior. Diferente, por exemplo, do brasileiro que vive na periferia das grandes cidades, que é evangélico, se identifica como empreendedor, come o pão que o diabo amassou, trabalha doze horas por dia montado numa bicicleta fazendo entregas para o iFood, mas talvez tenha votado em Bolsonaro.
É curioso que, naquele mesmo ano, tenha sido lançado Parasita, do sul-coreano Bong Joon Ho. Os dois filmes tratam mais ou menos da mesma coisa, mas são bichos totalmente diferentes. Como bem observou um amigo meu, em Parasita o povo não é heroico como em Bacurau. Pelo contrário, é forçado a ser cretino para sobreviver no capitalismo – e mesmo assim não consegue. Bacurau é moralista; Parasita é político. Nele, não há final feliz, nem redenção. O inimigo é um sistema complexo e impessoal.
Bacurau é a grande obra do caetanismo. Enquanto a barbárie comia solta do lado de fora, o espectador saía do cinema reconfortado: ufa, os pobres ainda estão conosco. Ou, como diria o próprio Mendonça Filho, o Brasil de verdade ainda está conosco; ainda existe.
Bolsonaro não foi reeleito, e há quem veja nisso um retorno desse Brasil – Valter Hugo Mãe pode comemorar que Chico e Caetano estão vivos e em alta, assim como Sonia Braga, Bethânia e as araras. Ao tomar posse como ministra da Cultura, no começo do ano passado, a cantora Margareth Menezes celebrou: “O Brasil que queremos está de volta.” São comemorações justas, considerando o quão perto estivemos do abismo. Mas há um notável desânimo por trás da festa. Todos sabemos que não há Brasil nenhum de volta. Lula segura as pontas de uma frente ampla desengonçada e, passado o trauma da intentona golpista, tenta esfriar a temperatura política do país. Esfria também a própria esquerda.
É difícil acreditar que o mesmo receituário político e ideológico derrotado em 2016 terá sucesso em resolver, hoje, o nosso impasse civilizacional – a saber, a “abissal desigualdade” que Caetano notou sessenta anos atrás. A composição social do Brasil mudou, mas a frente democrática que garantiu a vitória de Lula não abriu uma brecha pela qual ela possa ser pensada.
Sem que a política indique novos caminhos, novos protagonistas, uma nova história, a sensação é de que estamos num limbo. Há um Brasil a ser inventado politicamente, mas esse processo está empacado porque ainda não foi apreendido pela esquerda institucional. Daí o incômodo estético, o desconforto de se deparar com um vídeo como o de Brasília. Há algo de ridículo na época que vivemos.
Me perguntei se Caetano não acha tudo isso cringe, ele que, em suas constantes interpretações do Brasil, talvez seja mais moderno e mais atual do que a própria esquerda. Mas a verdade é que provavelmente não. Em seu último álbum, Meu coco, lançado em 2021, o compositor foi claro nas ideias. Disse que não vai deixar que se desminta/ a nossa gana, nossa fama de bacana/O nosso drama, nossa pinta. É um trecho da música Não vou deixar, composta durante a pandemia, recado claro ao bolsonarismo. (É sintomático, aliás, que a letra se construa a partir de uma negação, e não de uma afirmação. Considerando tudo o que aconteceu no Brasil nos últimos anos, a música, concebida como um grito de resistência, acaba ganhando um tom de teimosia desolada, como quem lamenta ou nega a morte de alguém – afinal, nossa pinta e nossa fama de bacana já tinham ido para o espaço.)
Ao Brasil que habita o lado de fora da mansão, dominado por vilões de Bacurau e “obscurantistas” lunáticos, os caetanistas cantam, com taças na mão: Apesar de você dizer que acabou/ Que o sonho não tem mais cor/ Eu grito e repito: Eu não vou.
[1] O cineasta Kleber Mendonça Filho é coordenador e curador de cinema do IMS, cujo conselho é presidido pelo fundador da piauí.