vultos da música
Julio Maria Abr 2024 19h07
31 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Era uma daquelas noites que negam a escuridão, de Lua cheia e vigilante, quando a respiração de Rita Lee foi ficando mais lenta. Ao seu lado estavam os três filhos – Beto, João e Antonio – e o marido, Roberto de Carvalho, ajoelhado ao pé da cama.
Ela havia feito três pedidos finais. Em 2021, antes mesmo de iniciar a quimioterapia para combater os tumores no pulmão (e depois em outras partes do corpo), disse que não queria que seus médicos a mantivessem viva à custa de tubos, ventiladores pulmonares e outros recursos. Se Rita havia lutado pela liberdade em vida, queria ser livre para morrer. Ela pediu também que seu último momento acontecesse longe de um hospital e perto da família. Para isso, um quarto em seu apartamento do bairro Morumbi (próximo ao Hospital Albert Einstein, onde se tratava) foi adaptado às suas necessidades, com duas enfermeiras particulares.
Em 8 de maio do ano passado, deitada em sua cama, sedada e incapaz de falar e abrir os olhos, estava agarrada na mão de Carvalho – o que atendia ao segundo pedido dela: “Pelo amor de Deus, Rob, nunca me deixe. Não vá embora antes de mim.” Para Rita, a vida sem o marido era impensável.
Era justo que naquela noite de 2023, tudo fosse dito pelas mãos. Em maio de 1976, Carvalho foi levado por Ney Matogrosso a um jantar na casa de Rita, na Vila Mariana. Antes de qualquer diálogo mais longo com a anfitriã, ele se sentou ao piano da sala para improvisar um boogie-woogie quente e sedutor, ao estilo de Fats Domino. Rita sentou-se ao lado dele e assumiu os graves, enquanto Carvalho solava nos agudos. Quatro mãos jovens de dedos longos deslizavam pelas teclas, improvisando palavras proféticas. “Hey baby, estamos finalmente juntos”, Carvalho cantou. “Sim, baby, e parece que vai ser por muito tempo”, devolveu Rita. Ele tinha 23 anos; ela, 28.
“Como você me aguenta há 44 anos?”, perguntou Rita a Carvalho, em uma entrevista que o jornal O Estado de S. Paulo pediu que ela fizesse com o marido em 2020, meses antes de descobrir a doença. “Sou uma mulher esquisita, ex-presidiária, ex-Alcoólicos Anônimos, ex-Narcóticos Anônimos, não sei cozinhar, sou cinco anos mais velha, sem peito, sem bunda e fumante.” Carvalho respondeu: “Quando você se declara esquisita, eu a vejo original e genial. Ex-presidiária por injustiça, vítima da repressão. Não precisa cozinhar, eu cozinho pra você. Os peitos amamentaram nossos três filhos. Cinco anos mais velha não, mais antiga. E você sabe o quanto eu adoro antiguidades. Quanto ao AA e ao NA, well, shit happens to everyone [bem, merda acontece com todo mundo].”
O primeiro diagnóstico do câncer no pulmão foi feito em março de 2021. Rita enfrentou com firmeza o baque. Depois das quimioterapias, novos exames constataram que o tumor havia sido eliminado. “A cura da minha mãe me emocionou pra caralho, melhor notícia de todos os tempos”, escreveu na época o filho Beto Lee no Instagram. Novos exames, porém, constataram que a doença havia migrado para outras partes do corpo, incluindo o cérebro. Tudo entrou em pane. A cura não era cura; o milagre era malogro. A cantora desistiu de seguir lutando. Depois, desistiu de desistir – e lutou mais. Agora, nada mais importava.
Nos últimos dias, Carvalho, espiritualista por inquietude e católico por tradição familiar, tentara construir um ambiente positivo para Rita, que não era feita de aço, apesar de ter enfrentado militares e militantes, governos e gravadoras, além de todos os demônios do álcool, das drogas e do próprio rock‘n’roll. Para Rita, Deus sempre foi um mistério. Ela se assumiu pagã em Nunca fui santa (1988), mas depois se beatificou em Santa Rita de Sampa (1997). Em 1993, inseriu uma Ave-Maria em Benzadeusa, mas, herege, declarou: “Acho arrogante a raça humana se achar à imagem e semelhança de Deus.” Como tinha medo de o marido partir antes, costumava rezar todas as noites antes de dormir ao lado dele.
A conexão com Deus começava com um Pai-Nosso e uma Ave-Maria. Depois, uma Salve-Rainha, que Rita aprendera com a mãe, Romilda Padula Jones (chamada de Chesa pela família), “mais católica que o papa”, como disse Rita. Por último, rezava A Grande Invocação, uma prece da doutrina teosófica Fraternidade Branca, que diz: Do centro do que chamamos a raça dos homens/Que se realize o plano de amor e de luz/E feche a porta onde se encontra o mal/Que a luz, o amor e o poder restabeleçam o plano divino sobre a Terra/Hoje e por toda a eternidade.
Naquele 8 de maio de 2023, quando a noite avançou mais ainda, ela parou de respirar. Rita Lee Jones de Carvalho, de 75 anos, não estava mais ali. Eram 22h35. “Foi difícil demais ver a pessoa que eu mais amava se desmantelar, você não pode imaginar”, conta Carvalho à piauí. Ele não se lembra de mais nada, salvo que teve de soltar a mão de sua mulher para que levassem o corpo.
“Aquela é Luiza”, diz Carvalho, apontando para uma árvore no jardim de sua casa em um condomínio na Granja Viana, em Cotia, a cerca de uma hora do Centro de São Paulo. “Rita a chamava de Luiza, o nome de uma senhora que trabalhou por anos na casa de sua mãe, acabou sendo adotada pela família e ela considerava sua madrinha.” A árvore está sem flores e folhas, com os galhos ressecados. “Ela não floresceu mais depois do dia em que descobrimos a doença de Rita.” Luiza é uma espatódea, uma árvore nativa da África que, quando floresce, espalha pelos galhos vistosas flores de pétalas de cores vermelha e amarela. Sua beleza é um perigo: as flores contêm uma substância tóxica para beija-flores e abelhas.
Em dezembro do ano passado, sete meses depois da morte de Rita, era a primeira vez que um jornalista entrava no espaço em que ela e Carvalho viveram nos últimos dezoito anos. O imóvel, cercado de vegetação, foi comprado no início dos anos 2000 de um jogador de golfe coreano. “Os macacos estão chegando”, diz Carvalho, depois de ouvir um barulho de galhos perto de Luiza – e me convida para entrar na casa.
Ainda mais silenciosa que o jardim, a sala da casa, fechada por portas de madeira e vidro, tem uma decoração feérica: orquídeas amarelas e rosas, um Buda com colar de flores brancas, um ursinho de pelúcia, uma cabeça de dragão chinês, o busto de madeira de uma mulher que lembra Carmen Miranda, um relógio de parede com referências a James Dean (ídolo maior de Rita Lee), dois duendes sentados em uma estante alaranjada, um grande aparelho de tevê, uma mesinha de trabalho, uma placa azul na qual se lê “reparo e manutenção de disco voador” e uma poltrona arredondada, de cores quentes.
Era nessa poltrona que Rita se instalava logo cedo, aguardando o espetáculo de Carvalho para o dia. Ele saía da cama mais tarde, depois de diluir os eventuais pensamentos ruins com alguns goles de café, feito na máquina disposta no quarto. Quando estava “100% aterrissado”, descia degrau por degrau da escada até o térreo, cantando e dançando o número daquela manhã: podia ser um ponto de terreiro ou uma versão de Garota de Ipanema. Ao final do show na escada, Rita batia palmas, e Carvalho se curvava para agradecer. “Agora, eu nem sempre tenho vontade de sair do quarto”, diz ele. “Existe uma batalha grande dentro de mim. É a libido versus o mortido, o desejo da vida versus o desejo da morte. O que vai sair disso? Não tenho ideia, porque as duas coisas podem se manifestar com muita clareza…”
Sua fala é controlada, com espaços para sorrisos curtos e alguns momentos de tensão, embora sua expressão seja sempre serena. Ele usa calça de moletom, tênis e camiseta, mantendo a barba crescida, mas alinhada. O que denuncia seu vazio são os olhos, sempre atraídos para baixo em algum instante de suas lembranças. “Eu fico à espreita, ouvindo as vozes que se manifestam. Às vezes, estou preparado para ir a algum lugar, mas a voz diz: ‘Não vai, fica quieto.’ E eu não vou. E há o contrário, quando estou decidido a não ir, mas a voz diz: ‘Pode ir que tudo vai dar certo.’ E eu vou. Eu vou recebendo algumas pessoas, tenho vontade de algumas coisas, isso é a libido. Mas aí vem o mortido, e traz um certo desalento, uma constatação do que já foi…”
Nesse momento, ele rompe mais uma vez. “Eu queria tanto parar com essa choradeira”, diz, retirando outro lenço de pano do rolo deixado sobre a mesa da sala. “Eu falava sobre isso com um psiquiatra que veio ver a Rita no começo do tratamento. Dizia que minha vontade era de desligar o botão, de apagar tudo. Mas esse botão não existe. Então, não vai acontecer. Mas que eu tenho vontade, tenho.” Dias depois, ele disse à piauí: “Não penso em me matar. Essa luta da libido versus o mortido é algo que está em todos nós.”
Rita imprimia uma rotina natural ao marido. Sem ela, os horários dele se tornaram líquidos e flexíveis, confundindo noite com dia. Ele vai para a cama entre 22h e 1h, ou “quando dá vontade”, como diz. Acorda por volta das 4h30, revira-se visitando memórias e volta a pegar no sono até despertar novamente em algum horário entre 9h e 13h. Antes de deixar o quarto, responde aos e-mails e olha as redes sociais. Então, faz alongamento e toma café. Tem lido mais nos últimos tempos, sobretudo livros de psicologia, desde que começou a fazer sessões de terapia, em fevereiro.
Dois violões estão dispostos em suportes na sala. O de tampo avermelhado é um Hermanos Conde, espanhol, que ele usou para gravar músicas dos álbuns Aqui, ali, em qualquer lugar (de 2001, chamado Bossa’n Beatles no exterior), Balacobaco (2003) e Reza (2012). O violão de madeira mais clara e envelhecida é um Di Giorgio Bel-Son fabricado nos anos 1970, com o qual nunca gravou nada. “O Di Giorgio está ali porque tenho ele há pouco tempo e quero me acostumar com o instrumento, mas procuro mesmo é um Tarrega.” (Ele acabou comprando o violão Tarrega meses depois.) Outros quatro violões e mais nove guitarras, além de cinco cases (caixas protetoras dos instrumentos) fechados, seguem enfileirados no escritório, na parte superior da casa, à espera de algum chamado da vida.
Um dos chamados aconteceu em novembro, seis meses depois da morte de Rita. O telefone tocou: era Marisa Monte convidando-o para participar de um show que ela faria dia 2 de dezembro, no festival Primavera Sound, em São Paulo. Carvalho sacou a guitarra Fender Stratocaster creme que não tocava havia onze anos, desde seu último show ao lado de Rita Lee. “Eu nunca fui tão aplaudido”, conta, sorrindo, sobre o instante em que surgiu no palco para se apresentar ao lado de Marisa Monte para 50 mil pessoas.
Ele tocou Doce vampiro e Mania de você, do repertório de Rita, e Já sei namorar, dos Tribalistas. “Eu erguia a mão para o céu e me conectava com Rita de uma forma calma.” Marisa Monte o chamou para outros dois shows da turnê Portas, no Rio, e Carvalho planeja compor com ela algumas canções. Serão suas primeiras parcerias depois da partida de Rita. “Ter o Roberto por perto, conversar, aprender, ouvir seu violão, sua guitarra e cantar com ele é inspirador”, diz Marisa. “Cada encontro reverbera por dias.” Ele ativou também a parceria com Arnaldo Antunes. E tem em mãos uma série de letras deixadas por Erasmo Carlos, que lhe foram entregues depois da morte do roqueiro (em 2022) por Leonardo Esteves, filho do Tremendão. Nesse material, porém, ele só irá mexer quando tiver mais tempo.
Carvalho segue como parceiro de Rita Lee, musicando letras inéditas da cantora. “Ainda estou descobrindo o que ela deixou. Tem muita coisa. Dia desses, encontrei um caderno cheio delas”, conta, quase eufórico. Uma das primeiras letras que devem virar canção é Ego, publicada em Rita Lee: uma autobiografia (2016), mas nunca musicada. “Eu amo esses versos”, diz Carvalho. Um trecho diz: Do Deus que duvidei, o sim/Das mortes que vivi, o além/Dos vícios que virei refém/Dos bichos que sou, felina/Na velha que estou, menina.
Há ainda inúmeras gravações não oficiais de Rita, como sobras e ensaios em fitas-demo que nunca foram mostradas, entre outros materiais inéditos. Três músicas chegaram a ser gravadas para um projeto chamado Bossa‘n’movies, que não foi para a frente. Ela colocou voz em duas delas. Uma das canções será lançada neste mês de maio, quando faz um ano da morte da cantora, com a exibição de um clipe inédito no Fantástico, da Globo. “As coisas vão sair, mas ainda estou nesse processo de montanha-russa”, diz Carvalho. “Ao mesmo tempo em que sei que tenho que fazer essas coisas, que os shows me farão bem, posso não conseguir decidir se devo ou não sair do quarto.”
Viver e criar, para ele, eram vontades regidas pelo impulso de entrega a uma mulher. “Tudo o que eu fazia era para Rita. Se ela gostasse, estava resolvido. Mas, se 1 milhão de pessoas gostassem, e ela não, então não servia”, diz. Foi uma entrega de um tipo muito raro, vinda de um homem, na mais longeva parceria musical de um casal na música brasileira. Apesar do talento, Carvalho não fez da relação com Rita um trampolim para a carreira. Embora fosse seu parceiro musical, sempre evitou a imprensa para deixar sua mulher à frente das câmeras. Também não importava se as reportagens sobre o sucesso de Rita mal tocassem em seu nome ou que sua foto não estivesse visível nos discos. A parceria entre os dois começou em 1979, mas uma imagem dele só apareceu no quarto LP lançado por ela desde que os dois se conheceram – Rita Lee e Roberto de Carvalho, de 1982. Ele sempre resistiu a aparecer nas capas dos discos, embora Rita insistisse. “Eu não dediquei canções a ela, dediquei a vida”, diz.
Essa dedicação incluiu, para Carvalho, a tarefa de criar um novo tempo para a música de Rita Lee. “Eu sabia que tínhamos de inventar algo que não fosse parecido com nada do que ela havia feito antes.” Depois de uma pausa breve, ele acrescenta: “Eu só não sabia se iria dar certo.”
Era difícil imaginar alguma reinvenção para Rita depois de sua atuação em um grupo tão inovador e peculiar como Os Mutantes e que não parecesse um plágio da sua experiência roqueira no grupo Tutti Frutti. O que teria sobrado de originalidade para ela, depois de canções memoráveis como Ando meio desligado e Balada do louco, com Os Mutantes, e de Agora só falta você e Ovelha negra, com o Tutti Frutti? Enquanto Rita Lee encarava a encruzilhada criativa, quem poderia ajudá-la a encontrar o caminho do futuro tomava Sol nas dunas do Arpoador.
Ao contrário dos austeros roqueiros paulistas, o carioca Roberto Zenobio Affonso de Carvalho era amante de praia, verão e sexo. Sabia da importância dos longos solos nos sons apoteóticos, mas não trocava um álbum dos Rolling Stones por dois do Emerson, Lake & Palmer. Rock progressivo, definitivamente, não era a sua.
Quando criança, em sua casa no Rio, a música era parte inseparável do cotidiano, com a mãe, Helyette Zenobio Affonso de Carvalho, e a bisavó, Rosa Ferraz da Luz, revezando-se ao piano. De tanto ouvi-las, o terceiro filho de Helyette com o engenheiro civil Heber Affonso de Carvalho, sentou-se ao piano num dia de 1955 – quando mal sabia falar – e tocou uma música aprendida sabe-se lá como. “Não me lembro qual era a música, mas passei a vida ouvindo a história de que eu era um prodígio por ter tocado aquilo com 3 anos de idade.” Quando ele estava com 5 anos, Helyette morreu, vítima de um câncer. O pai decidiu cumprir um dos últimos desejos de sua mulher e entregou o menino para ser criado por um casal de tios, mantendo-se, entretanto, por perto.
No Colégio São Vicente de Paulo, uma instituição católica, Carvalho criou o primeiro grupo musical, o E Trio, entre 1966 e 1967, com os amigos Flávio Vasconcelos (no baixo) e Sérgio Besouro Cintra (na bateria). “O Roberto tocava música clássica ao piano, mas deve ter estudado bossa nova também. Creio que tocamos Procissão, do Gil”, lembra Cintra. Sim, Carvalho estudava piano clássico com uma professora do Conservatório Brasileiro de Música, no Rio de Janeiro, o que não o impedia de se aventurar na música popular.
Outro colega dos tempos do São Vicente de Paulo era Eduardo Tolipan, o Tolipa, hoje com 71 anos, como Carvalho. “Roberto era um garoto tímido, bastante quieto na sala de aula”, recorda Tolipan. “Em 1965, quando tínhamos de 12 para 13 anos, íamos juntos na mesma perua escolar. O motorista da Kombi passava primeiro na minha casa, às 6h15, e, em seguida, na casa dele. A gente até disputava um lugar na janela que achávamos que era o melhor.” Tanto Cintra quanto Tolipan se lembram de estarem, anos depois, todos em uma festa na casa de um amigo e se surpreenderem com a chegada de Carvalho com sua nova namorada: Rita Lee. “Ninguém acreditou que aquele menino tímido estava namorando a Rita”, conta Tolipan. “Caímos para trás.”
Até conhecer Rita Lee, Carvalho não acreditava que poderia viver de música, tanto mais que se achava incapaz de cantar. Na juventude, ele arrumou um emprego no cartório de um tio, para garantir a independência financeira enquanto cursava direito na PUC-Rio, faculdade que acabou trocando pela de comunicação social na Universidade Gama Filho.
Em 1974, Jorge Mautner procurava músicos para acompanhá-lo na gravação de seu álbum que traria Maracatu atômico e ficou sabendo do talento de Roberto de Carvalho. Disseram que o rapaz de 21 anos era um instrumentista dos bons, capaz de tocar guitarra tão bem quanto teclado. Mautner resolveu chamá-lo. Carvalho passava uma temporada na casa do pai, e os ensaios com Mautner e Gilberto Gil aconteceram em seu quarto, onde ficava o piano. Parecia uma viagem de ácido, mas era real.
Um ano depois, outra surpresa: Ney Matogrosso convidou Carvalho para tocar em seu segundo disco solo, Bandido (1976). “Ezequiel Neves [produtor do disco] me deu ótimas referências do Roberto”, conta Matogrosso. Ao avistar o jovem de 1,78 metro de altura e cabelos pretos longos, o cantor balançou. “Ele era lindo, parecia um índio branco”, lembra.
Curiosamente, Carvalho havia acabado de tocar com João Ricardo, que fora cantor e líder do Secos & Molhados. Ele fora chamado para participar da gravação do disco João Ricardo, mais conhecido como “Disco Rosa” e fazer a turnê do álbum. “O grupo era uma coisa, e João, outra. Ensaiamos por três meses, e os músicos estavam afiadérrimos, mas, quando João entrava no palco, não acontecia nada”, conta Carvalho. “Não sou a fim de falar mal, mas não rolou.”
Ele então partiu com o grupo de Matogrosso para se apresentar em uma pequena casa de shows de São Paulo chamada Beco. Foi lá que Rita Lee o viu pela primeira vez – e se apaixonou. Depois do show, ela foi ao camarim, mas não conseguiu vencer a histeria de uma fã, sentada no colo de Carvalho. Chamou Matogrosso e pediu que ele se virasse para levar o “índio branco” à sua casa.
Para Matogrosso, a noite do encontro de Rita e Carvalho também ficou na memória por causa das jaguatiricas que a compositora criava à solta. Sentado no sofá da casa, ele achou que seria devorado por uma delas. “A jaguatirica começou a raspar o dente no meu couro cabeludo, e eu falei: ‘Rita, se esse bicho tirar sangue da minha cabeça, o que vai tentar em seguida será comer a minha cabeça’”, ele conta à piauí, rindo. Na dúvida, o animal foi preso. Carvalho jura que a jaguatirica chegou a morder Matogrosso, tirando sangue de sua orelha.
Poucos dias depois do boogie-woogie do acasalamento com Rita no piano da sala, Carvalho voltou para o Rio, atendendo a um convite do amigo Nelson Motta para ensaiar As Frenéticas. Ninguém podia adivinhar que as seis garçonetes da boate Dancin’ Days, na Gávea, fariam tamanho sucesso dali a um ano, assim que lançassem a música Perigosa, a primeira assinada por esses parceiros improváveis: Rita Lee, Roberto de Carvalho e Nelson Motta.
Em 24 de agosto de 1976, Carvalho ensaiava com As Frenéticas em seu quarto, quando bateram à porta para avisar que Virgínia, a irmã de Rita, estava chamando ao telefone. “A Rita foi presa”, disse ela. Quatro policiais à paisana, com armas à mostra, tinham ido à casa da Rua Pelotas, nº 497, em São Paulo, e acordaram Rita, perguntando sobre drogas. “Onde está a erva?” Grávida de três meses, ela respondeu que não havia nada, e eles começaram a revirar as gavetas. A madrinha de Rita, Luiza Rodrigues, conhecida como Balú e que deu nome à árvore da casa da Granja Viana, viu homens colocando algo “em vasos, caixinhas e gavetas”. Ao final, o chefe da operação informou: “A senhora está presa por porte de drogas.” Enquanto conduziam Rita no camburão, os policiais ligaram para jornalistas de rádio e tevê. Ela era um troféu a ser exibido durante a ditadura militar.
A notícia foi como uma bomba lançada no meio da pista da discoteca. Carvalho estava apaixonado por Rita e se preparava para ser pai: poucos sabiam, mas o bebê que ela esperava era o primeiro filho dos dois. Ele avisou a Nelson Motta e Matogrosso que não poderia seguir com os compromissos e apanhou o primeiro voo para São Paulo. Entorpecente leva Rita Lee para o xadrez, dizia uma notícia do Jornal do Brasil, de 25 de agosto de 1976: “A cantora foi recolhida ontem a um xadrez repleto de marginais e prostitutas […] depois que a polícia apreendeu em sua casa cigarros de maconha, comprimidos de LSD, haxixe e mescalina.”
Rita negou que consumisse qualquer droga à época, sobretudo por estar grávida. Carvalho correu para acompanhá-la em seu depoimento no Fórum Criminal de São Paulo, mas não conseguiu. Ela já estava inacessível, guardada por um esquema especial de segurança para conter os fãs. Depois de negar ser dona do material encontrado na casa, foi conduzida de volta ao cárcere para esperar pelo julgamento. Na cela, escreveu uma carta a Carvalho pedindo que ele se sentisse à vontade para ficar ou para partir e desistir de assumi-la como parceira. Rita não sabia quanto tempo poderia ficar presa. “Tenha total liberdade para me acompanhar ou não”, disse ela na carta. Porém, já era tarde demais para Carvalho escolher outro caminho.
Como a cantora narrou em sua autobiografia, ela passou uma semana encarcerada no Departamento Estadual de Investigações Criminais (Deic) e 45 dias em uma ala feminina do Presídio do Hipódromo, no Brás, um local usado pela ditadura militar para encarcerar ativistas políticos. A sentença: um ano de prisão em regime domiciliar.
Rita tinha acabado de lançar o disco Entradas e bandeiras, com o grupo Tutti Frutti, e chegara a fazer um show no Teatro Aquarius, em São Paulo. Presa, teve que suspender os compromissos. “A situação ficou financeiramente tenebrosa”, lembra Carvalho.
A parceria dos dois começou ali. “Eu nunca tive um segundo de dúvida de que ficaria ao lado dela. Nós nos unimos para combater tudo aquilo”, ele diz. Com a mulher que seria mãe de seu filho presa, ele colocou uma faca nos dentes. Cortou o cabelo, comprou uma pasta 007 e passou a ir às reuniões com os executivos da gravadora Som Livre. Em sua intervenção nas contas da banda Tutti Frutti, descobriu rombos na contabilidade e tentativa de golpe financeiro que levaram à dispensa da empresária dos músicos. “A gente estava lidando com prisão, meganhas, ditadura. Eu não era tão diplomático quanto sou hoje, estava lá para salvar o grupo e faria o que tivesse de ser feito.”
Rita só queria – e precisava – voltar a fazer shows. Neto de Euclides Zenóbio da Costa, marechal e ex-ministro da Guerra de Getúlio Vargas, além de sobrinho de dois tios generais e um comandante da Marinha, Carvalho usou toda sua árvore genealógica para obter o relaxamento da prisão de sua mulher. Junto com o trabalho dos advogados, seus contatos conseguiram finalmente a liberação de Rita para que ela pudesse fazer shows à noite, dois meses depois de ser condenada.
Havia um incêndio a ser apagado quando o Tutti Frutti voltou à estrada: o tecladista Paulo Maurício resolvera deixar o grupo. Com carta branca de Rita, Carvalho decidiu assumir as teclas. “Eu não queria o lugar de ninguém. Só estava ali tentando salvar a banda”, diz. O baixista Lee Marcucci, um dos fundadores do Tutti Frutti e coautor, ao lado de Rita, de Jardins da Babilônia (lançada no álbum Babilônia, de 1978), conta sobre a entrada de Carvalho no grupo como se isso tivesse representado um alívio. “Sentimos que o piano de Roberto trazia um suingue mais blues”, diz. “Havia uma tristeza na banda com a prisão de Rita, mas, para mim, ficou claro que o Roberto faria bem a ela.”
Carvalho e Rita começaram a compor, de maneira descompromissada, principalmente antes ou depois de fazerem sexo – com o violão sempre por perto. Tudo o que criavam parecia bom demais para ser apenas brincadeira. “Sempre foi a gente no quarto com um violão nas mãos. Quase tudo nasceu assim”, conta Carvalho. Um dia, ainda na cama, ele apanhou o violão e começou a brincar com uma inversão do acorde de lá menor, prendendo apenas duas notas e deixando as outras soltas. Fez isso alternando com um ré maior, também invertido e com mais notas soltas. Tocadas dessa maneira, as notas flutuavam, preguiçosas, como se reproduzissem o estado de levitação que qualquer um sente depois da fúria de um orgasmo. Os acordes soaram no ar por um tempo, até Rita lançar uma primeira frase, já com uma melodia embutida: Meu bem, você me dá, água na boca…
Ao lado de Roberto, ou mesmo longe, mas pensando nele, Rita Lee começou a compor de modo diferente do rock experimental dos Mutantes e da pegada rock de raiz do Tutti Frutti. Assumiu a busca por prazer e sensualidade, o sexo pelo sexo, e falava de amor com um sorriso indisfarçável. Enquanto ainda estava em prisão domiciliar na casa dos pais, apanhou o violão e compôs em poucos minutos a letra e a música de Doce vampiro. “Eu imaginei Rob Drácula entrando pela janela do meu quarto e me dando uma bela chupada na nuca”, escreveu em suas memórias, referindo-se ao marido.
O contexto cultural e musical também favorecia uma mudança radical. Entre os anos 1970 e 1980, as portas do sucesso começaram a se abrir com mais facilidade para os que sabiam o código de acesso ao mundo das rádios FM, que estavam mudando o jeito de pensar, compor, arranjar e difundir música. Com sinais mais refinados de graves, médios e agudos, as frequências moduladas traziam brilho e possibilidades acústicas completamente novas, muito mais envolventes do que os ruídos da longa era das AM. Emergia um novo pop, ainda mais abrangente e rentável.
Quando esse portal se abriu, as gravadoras colocaram seus produtores a postos para iniciar as mudanças. Gilberto Gil, Caetano Veloso, Djavan, Tim Maia, Elis Regina, Gal Costa, Simone, Roberto Carlos e Ney Matogrosso aderiram ao novo tempo. A chave do negócio se chamava sintetizador e todo o aparato de ecos, efeitos e baterias eletrônicas usado por artistas como Michael Jackson, Madonna e Prince. “Era muito importante seguirmos esse padrão para termos espaço nas FMs daqui. Estávamos competindo com os americanos”, diz o produtor Marco Mazzola, que gravou e/ou masterizou oito álbuns brasileiros nos Estados Unidos, dentre eles Feitiço, de Ney Matogrosso, Dancin’ days, das Frenéticas (ambos de 1978) e Realce, de Gilberto Gil (de 1979).
Aberta ao novo, Rita se torna um prato cheio para esses códigos. “Eu passei a buscar algo menos branco, mais carioca, mais suingado”, conta Carvalho. “E era importante termos músicos negros.” Craques como o baixista Jamil Joanes e o guitarrista Robson Jorge, ambos negros, além do tecladista Lincoln Olivetti, foram chamados para o time. “Lincoln entendia exatamente o que queríamos. Essa era a magia da coisa.”
Ao chegar ao estúdio para gravar Mania de você, o produtor Guto Graça Mello pediu que os músicos abrissem um círculo e, sentados, empunhassem seus instrumentos. “Rita vai tocar a música sem parar, e vocês vão entrando como bem entenderem”, disse Graça Mello, que assinaria a produção do novo álbum, Rita Lee, de 1979 (mais conhecido como Mania de você). E a mágica aconteceu. “A levada daquele bolero foi surgindo na roda, aos poucos”, lembra o produtor. “Havia uma cobrança de Roberto, ele olhava feio para quem errava”, conta o baixista Lee Marcucci. “Mas, quando o erro era meu, ele dava risada.”
Nem tudo que os dois assinaram juntos foi feito em dupla: eles também criaram sozinhos. A ideia de que Rita só fazia as letras, e Carvalho, as músicas, é enganosa. Doce vampiro, por exemplo, era toda de Rita. E Carvalho também fez música para outras cantoras, como Nara Leão, que gravou uma parceria dele com Fausto Nilo – Amor nas estrelas, em 1981. Depois de ouvir essa música, Caetano Veloso disse: “Isso é Nara cantando uma música da Rita.” A observação abalou Carvalho: “Esse comentário de Caetano bateu muito forte em mim”, ele diz. “Me dei conta de que as pessoas percebiam as coisas que eu fazia como se fossem dela.” Era como se ele e Rita fossem um só autor. A partir daquele instante, Carvalho decidiu que apenas ela cantaria suas criações e começou a recusar convites para parcerias. Fez bem poucas desde então, de maneira bem regrada, com músicos como Arnaldo Antunes, Itamar Assumpção, Júlio Barroso e Ronaldo Bastos.
Juntar Rita e Carvalho era fundir cult e pop, abrangência de massa e base musical acadêmica, o interessante e o relevante. “Eu, que até então compunha trogloditicamente com meia dúzia de posições, expandi meus horizontes musicais com ricas melodias e harmonias trazidas por Rob”, ela escreveu em Rita Lee: uma autobiografia. Num tempo em que nada parecia sobreviver aos sons sintéticos que trituravam as sutilezas acústicas, Rita tinha a estrela, e Carvalho, a chave. Descobriam juntos que as latinidades de que gostavam cabiam no pop e que o Carnaval carioca poderia caminhar com o rock paulista. “A gente continuou compondo com violões e buscando as canções do mesmo jeito”, lembra Carvalho, sobre a mudança do eixo estético dos anos 1980, com as FMS. “Para nós, o que mudava era a forma, não o conteúdo.”
No dia em que João Gilberto percebeu isso, ligou para o casal às cinco da manhã e fez um convite: “Ritinha, você quer fazer um showzinho comigo?” Depois de duas semanas de reuniões feitas entre as duas da madrugada e as oito da manhã (e o pagamento de um cachê de 30 mil dólares), João Gilberto havia aceitado gravar um especial para a Globo, em 1980. Ele poderia chamar quem quisesse para dividir algumas canções, e pensou em Rita Lee, uma “roqueira de voz bossa-noveira”, como dizia, para cantarem Joujoux e balangandãs, marchinha que Lamartine Babo criou em 1939. Desconcertada por estar sendo convidada – justo ela, uma roqueira – para se apresentar ao lado do criador da bossa nova, Rita disse no telefonema matutino que não conhecia a música, mas poderia aprendê-la. A partir de então, João Gilberto começou a ligar todas as madrugadas, com o violão ao colo.
Em uma das ligações, passou a harmonia de Joujoux e balangandãs para Carvalho, repetindo uma mesma sequência mais de quarenta vezes. “Ficamos ali por umas três horas”, Carvalho recorda. João Gilberto mostrava acordes novos e, do outro lado da linha, pedia para ouvir o casal cantar e tocar. Aos poucos, Rita, que não gostava de telefone, passou a evitar atendê-lo depois das duas da manhã, e Carvalho, já chamado de Robertinho por João Gilberto, assumiu a função. Ouvia histórias, elogios e sentia-se ungido pela figura mais alta de sua trindade sagrada da música – João Gilberto, Caetano Veloso e Gilberto Gil.
A gravação do especial da Globo, mesmo sem ter havido ensaios, confirmou a energia surpreendente que emanava do encontro de João Gilberto com Rita Lee. Depois de cantar ao lado de seu ídolo, ela deixou uma porta aberta. Em 1982, João Gilberto devolveu a gentileza, ao participar da faixa Brazil com S, de Rita, no álbum Rita Lee e Roberto de Carvalho.
Enquanto a Rita dos roqueiros se diluía, a sonoridade trazida por Carvalho se expandia – e os solos de guitarra, as viradas de bateria, distorções e mixagens malfeitas entravam em extinção. Quanto da sonoridade dela teria sobrevivido se tivesse permanecido em um grupo de rock? Fato é que, em 1981, quando saiu o disco Rita Lee, com Lança perfume, os roqueiros queriam a cabeça de quem havia furtado sua rainha.
O espanto de Gerson Conrad, ex-integrante dos Secos & Molhados foi grande: “Escutei algumas coisas carnavalescas [no disco] e pensei: a Rita está diferente.” Não foi menor o do roqueiro Marcelo Nova, que fez parte da banda Camisa de Vênus: “Não estou na pele da pessoa para saber o que a levou a tomar essa ou aquela decisão, só posso dizer que gosto mais da primeira fase.” A guitarrista Lucinha Turnbull, amiga de Rita dos tempos pré-Mutantes, lembra que muitos torceram o nariz. “Sempre tem gente para dizer que o rock morreu. Mas quem prestava atenção via que, já nos Mutantes, a Rita não era só rock. Havia muita mistura.” E o que diz o próprio Roberto de Carvalho? “Estávamos pouco ligando para a opinião dos outros. Isso era algo completamente irrelevante, não estávamos nem aí. Os roqueiros xiitas que se fodam.”
O compositor e cantor Guilherme Arantes, que estreara em um grupo de rock progressivo em 1973, o Moto Perpétuo, antes de se tornar uma aposta pop da gravadora Som Livre, comenta: “Musicalmente, Rita solteira era muito dispersa, muito errática. Com Roberto, o número incontável de obras-primas não deixa dúvida: os dois formaram um sistema estelar binário imbatível.” Anos depois, Carvalho leria entrevistas nas quais Mick Jagger e David Bowie falavam da resistência dos fãs aos trabalhos menos ortodoxos que fizeram. “Os fãs originais, aqueles que passam a seguir um artista no início de carreira, se sentem coproprietários desse artista”, diz Carvalho. “Quando há mudança, e o artista migra para uma sonoridade diferente daquela com a qual estavam acostumados, eles se sentem traídos. Foi o que vivemos.”
O jornalista e produtor Nelson Motta acompanhava as mudanças do tempo quando Rita fez a conversão do rock clássico para o pop de massas. “Antes da parceria com Roberto, Rita havia feito grandes canções, como Mamãe natureza e Ovelha negra. Não sei até onde ela iria sozinha, mas sei que seguiria fazendo canções cada vez melhores”, diz Motta. “Ao lado de Roberto, ela começou a apostar em um rock de Carnaval, baladas de cabaré, música caribenha, sambas e, ainda assim, sem se perder. Chegou um momento que se tornou redutor chamá-la de rainha do rock.”
Havia também o caminho inverso. Rita Lee saía do rock, mas o rock – em espírito – não saía dela. Sua versão “anos 80” permitiu que ela contrabandeasse a rebeldia roqueira para dentro da sala das famílias conservadoras, em uma época ainda sob a vigilância dos militares. Não deixa de ser intrigante que, apesar da censura, a cantora que havia sido condenada por uso de drogas, que provocava a polícia e sugeria às pessoas que fizessem sexo em todos os lugares aparecesse nas trilhas das novelas da Globo, nos quadros musicais do Fantástico e em execuções frequentes nas rádios FM.
A vida começou a escurecer quando Rita sentiu que iria perder o pai, o dentista Charles Fenley Jones. Ela estava fazendo shows pelo país com a turnê O circo, de 1982, quando recebeu a notícia de que deveria retornar a São Paulo para vê-lo. Jones sofria de graves problemas no coração e estava com a saúde fragilizada. Depois do encontro, ela voltou à estrada e passou a tomar antidepressivos aos montes, compulsivamente. O cérebro deu sinal de sobrecarga e desligou a chave geral. No terceiro apagão, Rita decidiu se internar em uma clínica. Esse inferno particular atingiu Carvalho em cheio. “Eu ficava atormentado com tudo isso.” Ele colava nos três filhos pequenos e rezava.
No dia em que Fenley Jones morreu – 18 de maio de 1983 –, Rita estava internada. Carvalho a apanhou na porta da clínica para levá-la ao velório. Ela chegou, deu um beijo no pai e voltou para mais duas semanas de internação.
Em 1991, Rita estava viciada em barbitúricos quando fez seu primeiro trabalho sem Carvalho: uma série de shows acústicos, que logo sairia no álbum Bossa‘n roll. As brigas por causa do consumo de drogas estavam tornando a relação insustentável. Apesar de se falarem todos os dias, os dois decidiram que seguiriam com seus trabalhos solos por um tempo.
Rita também teve problemas com o álcool – e se internou novamente. Carvalho frequentava as reuniões dos pacientes com suas famílias, aos domingos. “Minha obsessão era manter a Rita viva”, ele diz. Mas os vícios persistiam. Carvalho deu um ultimato, reproduzido por sua mulher em Rita Lee: uma autobiografia: “Se você quer se destruir, foda-se, seus filhos e eu não estamos mais a fim de ver esse filme chato. Aqui em casa não tem espaço para isso.”
Em 1994, ela foi morar sozinha em um apartamento alugado em Pinheiros, em São Paulo, e cavou um buraco ainda mais fundo ao aderir a uma dieta líquida que incluía gim no café da manhã, caipirinha no almoço e uísque no jantar.
Carvalho não suportava o álcool. “O pior careta é o ex-drogado”, diz. Ele já tentara tomar destilados e fermentados de toda safra, mas seu organismo os rejeitava. Havia consumido cocaína e maconha, mas isso era coisa do passado. Diante da resistência de Rita para se livrar do vício, ele deu uma última cartada, não para terminar a relação entre os dois, diz ele, mas para deixar sua mulher respirar. “Eu comecei a achar que poderia estar atrapalhando, que o problema era eu.”
Rita caiu e se levantou várias vezes. Angustiado, Carvalho estudava sobre distúrbios mentais para entender o mecanismo que colocava sua mulher em perigo. “Ela sofria de transtorno de ansiedade, um vizinho do transtorno bipolar, algo que a levava às vezes a momentos de hipomania, às vezes a crises de depressão. Acho que posso atestar que ela sofria de transtorno bipolar light.” A hipomania é parecida com a mania, mas de intensidade menor.
Eles seguiam distantes em 1996, quando a jornalista Mônica Figueiredo, amiga do casal, ligou para Carvalho. “Volta para a Rita, Roberto. Ela está em rota de colisão consigo mesma. Estou vendo pessoas ruins se aproximando, vai acontecer uma tragédia.” Amiga de Elis Regina, morta em 1982 por excessos relacionados ao consumo de droga com bebida alcoólica, Figueiredo sabia o que estava dizendo. Elis havia consumido cocaína nos últimos dez meses de vida em uma viagem que não teve volta. Carvalho voltou e não saiu mais de perto de Rita.
Deixar as drogas foi uma decisão que os levou a um caminho angustiante. Os dois buscaram ajuda de psiquiatras para amenizar também o desmame do álcool. A série de medicações prescrita para conter possíveis efeitos da abstinência acabou provocando outra doença. As pessoas viam Rita tremendo e diziam que ela estava com mal de Parkinson. Um dia, ao saírem de uma consulta, um psiquiatra piscou para Carvalho e cochichou: “Ela está com Parkinson, se prepara.” Carvalho respondeu: “Ela não está com Parkinson.” Em suas pesquisas, ele havia lido que tremedeira em pacientes que tomavam medicações como as dela era resultado do chamado parkinsonismo medicamentoso – um mal reversível, bastando livrar-se dos remédios. À medida que as medicações foram sendo tiradas, a tremedeira começou a passar.
As determinações de Rita eram irrevogáveis. Havia sido com os vícios, seria com os shows. Depois que ela decidiu abandonar os palcos, em 2012, nem um caminhão de dinheiro a faria voltar. “A última proposta que tivemos foi para fazer um show de despedida recebendo uma quantia absurda”, diz Carvalho. “Quando fui contar, Rita não quis nem saber o valor. Apenas disse não.” Nas últimas páginas de Rita Lee: uma autobiografia, ela escreve: “Se um belo dia você me encontrar pelo caminho, não me venha cobrar que eu seja o que você imagina que eu deveria continuar sendo. Se o passado me crucifica, o futuro já me dará beijinhos.”
Um dos beijos do futuro chegou para Carvalho numa noite quente no início de fevereiro passado. Ele entrou no quarto em que dormia com ela na Granja Viana, sentou-se à cama e olhou fixamente para a imagem de Nossa Senhora Aparecida, colocada sobre um altar. Apanhou seu violão Hermanos Conde e começou a testar acordes e melodias como nos velhos tempos.
Ele tinha uma dívida antiga com sua mulher: fazer a melodia de uma letra escrita por ela. A cantora passou a cobrá-lo: “Já fez a música, Rob?” Por falta de tempo ou de inspiração, Carvalho não conseguia. Ela adoeceu e continuou cobrando. “Fez a música?” Nada. Dias antes de morrer, Rita fez seu terceiro pedido, falando baixinho: “Assim que você terminar, entregue aquela música para ela.” Carvalho não revela quem é “ela”, apenas diz que é uma das maiores vozes do país.
Naquela noite de fevereiro, nove meses depois da morte de Rita, a canção então chegou – bela e bruta, pronta para ser lapidada. Carvalho aparou as sobras, lustrou as notas e a batizou de Menina. Depois de tocar a música inteira, desligou o gravador e disse baixinho, antes de desaguar uma saudade de mil anos: “Muito obrigado, meu amor.”