vultos da música

PRIMAVERA CLUBBER EM FORTALEZA

O tuts, tuts, tuts está mais vivo do que nunca na capital cearense
Registro da edição de Carnaval da festa Atrita, em fevereiro deste ano - Foto: Sandy Albuquerque
Registro da edição de Carnaval da festa Atrita, em fevereiro deste ano - Foto: Sandy Albuquerque

11 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

A DJ Anti Ribeiro chama a atenção antes mesmo de começar a tocar. Alta, magra, de pele negra e cabelos trançados, a artista de 30 anos é presença constante nos eventos de música eletrônica em Fortaleza. Natural de Sergipe, ela frequenta as festas na capital cearense desde 2018, quando esteve na cidade pela primeira vez. Ela define a cena local como “promissora” e diz que chegou a essa conclusão ao comparar com o que tem visto do gênero em São Paulo, onde vive atualmente. “São Paulo está um pouco defasada porque ainda não conseguiu absorver o que a gente está fazendo no Nordeste e no Norte. É uma outra experiência de Brasil”, me disse Anti.

Conversei com ela durante a edição de Carnaval da festa Atrita, uma das mais importantes de Fortaleza, no The Lights Bar, famoso por receber eventos de música eletrônica. Das cerca de seiscentas pessoas que aguardavam na fila para entrar na balada naquele dia, 16 de fevereiro, somente a metade conseguiu – em regime rotativo – por questões de segurança. Com entrada gratuita, a festa reuniu uma diversidade de corpos, gêneros e idades. A cena eletrônica de Fortaleza vem atraindo muitas pessoas trans, como é o caso da DJ Anti, e também da DJ Metalluna (Luna Oliveira), que enfatiza:. “Isso é só uma comprovação de que temos um espaço seguro para o nosso público.”

Ao longo da última década, dezenas de festas como a Atrita surgiram em Fortaleza dedicadas à música eletrônica, fortalecendo a cena clubber da cidade. Apenas no ano passado, foram 274 eventos do gênero, uma média de cinco por semana, segundo o site Logística Clubber, que mantém uma agenda atualizada. 

Clubber ou clubbing foi o nome criado para definir o estilo de vida de quem frequentava os clubes de música eletrônica assiduamente nos anos 1980 e 1990. Além da house music, ouviam também outros subgêneros, como techno, acid house e trance. Sua estética exagerada no modo de vestir, maquiar e performar na pista de dança foi desenvolvida na Europa, em cidades como Londres e Berlim, e nos Estados Unidos, em metrópoles como Nova York, Detroit e Chicago.

No Brasil, os clubbers despontaram em São Paulo, com público de ampla diversidade sexual. Um dos principais clubes foi o Nation, que funcionou entre 1988 e 1992, na Rua Augusta, um conhecido reduto da cultura underground da cidade. O Nation adotou para si o nome de clube ao invés de danceteria, mudança que ajudou a fortalecer a identidade dos clubbers brasileiros. A casa foi uma das primeiras a ter drag queens no palco, assim como estimular a “montação”, com roupas extravagantes e adereços inusitados. Próximo ao surgimento do Nation, outros clubes com proposta similar foram criados, como o Hell’s.

A partir dos anos 2000, a estética clubber e a música eletrônica alcançaram o mainstream em várias partes do mundo. Grandes festivais fizeram sucesso no Brasil, como o Skol Beats e o Skol Sensation, com edições no Autódromo de Interlagos e no Sambódromo do Anhembi. Em Fortaleza, o Ceará Music e o FW/Eletronic colocaram a cidade no radar de grandes DJ’s internacionais, como Adam Beyer e Valentino Kanzyani. A prática das festas ao ar livre, conhecidas como raves, em detrimento dos clubes fechados, foi parte da expansão do gênero, que angariou novos fãs e algumas rixas. Os clubbers tradicionalistas achavam as festas ao ar livre comerciais demais. Enquanto eles focavam na moda, identidade e ambiente intimista, as raves se tornaram eventos de massa, patrocinados e menos focados na expressão individual. O público das raves era entusiasta do conceito PLUR (Peace, Love, Unity, Respect) e o contato com a natureza, regado a muito psytrance – subgênero da música eletrônica focado em ritmos e sons hipnóticos. 


O fim dos anos 1990 marca o início das baladas dedicadas ao público clubber em Fortaleza. O atual The Lights Bar, onde aconteceu a festa Atrita deste ano, reuniu os primeiros admiradores quando ainda se chamava Cidadão do Mundo – era uma gestão diferente da atual. Na Praia do Futuro, a barraca Biruta promovia festas para os endinheirados da cidade, acostumados à vida noturna em points europeus, como Ibiza, na Espanha. 

Depois, apareceram espaços que ajudaram a sedimentar a cena local, como o estúdio Peixe Frito e o Disco Voador, ambos na praia de Iracema. O Disco Voador foi fundado pelo bailarino cearense Linhares Júnior e pelo DJ holandês Pullsanti, que tocava em Amsterdã e trazia suas produções a Fortaleza durante as férias. O clube, ainda em atividade, é considerado um marco para a música eletrônica cearense. Um antigo flyer do clube dizia: “Entre em órbita com a terceira edição da festa mais tropacaliente do verão europeu em Fortaleza, um mix eclético de house, latin-beats, bossanova, tecno, disco e batucada”. Foi lá que o duo Forma Noise, dos DJ's Gustan Dallas, de 55 anos, e SOL Discos (Solange Priscilla), dez anos mais nova, impressionou os organizadores com uma performance no set, em 1999. No ano seguinte, Dallas e Sol foram convidados para gravar o primeiro CD de música eletrônica do Ceará, lançado em 2000 no próprio Disco Voador. 

Havia ainda uma porção de clubes menores, com público majoritariamente LGBTQIAPN+, cuja entrada era complicada, como lembrou o DJ Rodrigo Lobbão (Rodrigo Cordeiro). A ideia era manter a privacidade dos frequentadores e fugir da violência e preconceito contra a comunidade. “O contexto era diferente. Os clubes LGBTs eram muito fechados. As pessoas ficavam com medo de ir pra qualquer lugar. Naquele tempo, os clubes eram redutos desse público”, afirmou. Ao som dos sets (o conjunto de músicas de um show) de Lobbão, drag queens transformavam a pista da antiga boate Broadway, localizada na Aldeota, bairro de classe alta da cidade, em verdadeiros campos de batalha com o vogue dance, gênero de dança criado em Nova York nos anos 1960 inspirado nas poses das modelos que estampam a revista.

No fim dos anos 1990, Lobbão, hoje aos 48 anos, juntou-se aos brasilienses Hudson Cordeiro (DJ Sickboy) – seu irmão mais novo – e Bruno Soares (DJ Arlequim), ambos com 45 anos, e ao cearense Felipe Correia (DJ Fil), o mais velho da turma, com 54 anos, para fundar o Undergroove, considerado o primeiro coletivo de música eletrônica de Fortaleza. Eles participaram de projetos como Cidadão Instigado (techno) e Cidadão em Transe (trance), que sedimentaram a definição de uma cena local. 

Gabe Monteiro, pesquisador de música pop queer cearense no Laboratório de Música e Audiovisual da Universidade Federal do Pernambuco, afirma que o crescimento da cena clubber em Fortaleza pode ser explicado por alguns motivos. O primeiro deles é regional. Seu argumento é de que Recife e Salvador disputam o posto de “maior polo de produção cultural do Nordeste”. Logo, desenvolvem seus projetos cerceados pelo que se imagina ser cultura nordestina. A capital cearense, no entanto, está “fora dos holofotes”. “Nesse contexto, não há tanta expectativa, a cidade não é obrigada a nada e é possível criar tudo”, afirma Monteiro.

O pesquisador destaca também um processo de experimentação entre os músicos de Fortaleza, a partir da “tropicalização” de ritmos, com a mistura da música eletrônica a outros gêneros nacionais, como funk, forró e samba. O DJ Ryan BNog (Ryan Nogueira), de 31 anos, um dos cofundadores da festa Atrita, concorda: “Fortaleza é uma cidade litorânea. A gente é rodeado pelo mar e de coisas que, teoricamente, eram pra ser good vibes. Mas é o completo oposto: a cidade pulsa agressividade sonora.”


Primavera Clubber. É assim que Ryan BNog define o êxito cearense da cena clubber, em alusão às manifestações populares que varreram o Oriente Médio a partir de 2010. Ele e outros produtores de Fortaleza mantêm um grupo de WhatsApp onde organizam datas das festas, para que “ninguém tome a vez de ninguém”. Além disso, fazem eventos em parceria, como a Batrita, junção das festas Bateu, Pode Comemorar! com a Atrita. Em sua terceira edição, em dezembro do ano passado, a Batrita reuniu 2,1 mil pessoas no Centro de Eventos.

Essas estratégias têm feito o gênero movimentar a economia de Fortaleza. Segundo informações confidenciadas à piauí por alguns produtores, eventos sediados em baladas, com capacidade para cerca de trezentas pessoas, movimentam entre 20 mil e 30 mil reais. Shows para mil e 2 mil pessoas, em grandes palcos, arrecadam até 100 mil reais. Os organizadores afirmam que os lucros, no entanto, nem sempre são satisfatórios, pois se perdem nos gastos com estrutura, impostos e outros infortúnios da indústria do entretenimento.

Entre tantas celebrações, algumas estão mais consolidadas que outras. A Atrita acontece mensalmente, com edições que geralmente começam às dez da noite e terminam às seis da manhã do dia seguinte. Seus DJ’s montam sets de house e techno. Com ingressos a partir de 40 reais, a festa já ocupou desde pequenas boates na Praia de Iracema até espaços tradicionais como o Centro de Eventos. 

Irmã mais velha da Atrita, a Bateu, Pode Comemorar! é uma das mais tradicionais. Nascida da periferia de Fortaleza, sua primeira edição arrastou cerca de 3 mil pessoas para a Praça dos Leões, em 2016. “A estrutura era muito pequena, para umas quatrocentas pessoas no máximo”, lembra o DJ Lucas BMR (Lucas Ribeiro), de 31 anos, fundador e coprodutor. Ao longo da última década, o evento cresceu e virou selo, com direito a CNPJ. Como parte de sua origem periférica, ele investe na mistura da música eletrônica com o funk. Os shows são mensais e ocorrem na Arena Iracema, com duração de seis horas e ingressos a 30 reais. 

Criada há dois anos, a festa Tubulosa tem maior apelo entre os jovens de 18 a 22 anos e costuma ousar mais na curadoria onde é realizada. As últimas edições, todas mensais, se revezaram entre o estacionamento subterrâneo do Centro Cultural Dragão do Mar e a quadra da tradicional escola de samba Unidos da Cachorra. Fundador e coprodutor, Matusa (Matthaus Linhares), de 29 anos, afirma que a Tubulosa é feita de “público para público”, uma vez que ele próprio era frequentador da Atrita e da Bateu, Pode Comemorar!.“Sinto que a gente está retribuindo tudo que recebeu dessa galera” , me disse ele, ressaltando que o interesse dos jovens ajuda a renovar o público clubber

Diferente das demais, a Fabrika tem uma frequência menor: uma edição por ano. A última, em dezembro de 2025, ocupou o túnel Pintor Antônio Bandeira, próximo ao Centro de Eventos, aplicando ao máximo o conceito de underground. Fundador e produtor, DJ Everon (Everton Silva), de 24 anos, explica que a sazonalidade da Fabrika auxilia no planejamento de edições com maior estrutura. O último evento atraiu cerca de 1,3 mil pessoas. 


Parte fundamental da cena clubber é a estética da “montação”. Na última Atrita, no The Lights Bar, a drag queen Eclipsa performava com um traje que resumia esse caráter. Em baixo, ela usava apenas uma calcinha preta fio dental que conseguia esconder seu órgão genital. A parte de cima do look esbanjava um corpete preto sobre uma camisa com próteses de seios – que ela ocasionalmente mostrava para o público, enquanto acariciava os mamilos. No topo do traje, a artista levava um adereço de cabeça à lá rainha de escola de samba, cravejado de joias negras e penas cinzas. 

A “montação” dos clubbers carrega elementos do grunge, subgênero do rock surgido no fim dos 1980, e é marcado pela androginia e teatralidade. Também é sinônimo das produções experimentais e vanguardistas oriundas da cultura raver e do movimento “Club Kids”, que dominaram as noites de Nova York até meados da década de 1990. Nesse contexto, a moda era usada como uma forma de protesto político e social. Através de roupas vistosas e acessórios futuristas, os clubbers desafiavam as normas conservadoras da época. Pouca coisa mudou.

No livro Babado Forte: Moda, Música e Noite (Mandarim, 1999), a jornalista e consultora de moda Erika Palomino descreveu a montação da seguinte forma:

“A montação inclui o exagero e o kitsch, na arriscada busca pelo limite entre o cafona e o permitido, numa fase de retomada dos valores estéticos da década que – como se diz – o bom gosto esqueceu. Entre os hypes, o lurex e os brilhos, materiais como vinil e o couro sintético em geral. A maquiagem deve ser sempre intensa – batons vermelhos ou fúcsia, os cílios, as sombras fortes, a purpurina.”

No Brasil, a influência do streetwear latino estimula os clubbers a usarem composições menos óbvias. Camisas de time, pochete no peito, sobrancelhas raspadas ou descoloridas, são todas expressões recorrentes e que refletem a identidade local – em uma cena globalizada. E, novamente, a territorialidade demonstra sua influência em Fortaleza, banhada pelo mar, onde os apreciadores de música eletrônica costumam ir da praia para a festa, ou vice-versa. Muitas vezes, a festa é “pé na areia”, o que influencia a estética das roupas e maquiagens. 

No artigo Contaminação clubber: corpo e performance na cena de São Paulo, o pesquisador Morgan Franzoni Caetano afirma que, para além da roupa e da festa, os clubbers partilham “redes de afeto e princípios compartilhados” e que muitos relatam o sentimento de fazerem parte de uma mesma família. Gabe Monteiro, da UFPE, tem opinião semelhante: “Você se acolhe porque você se sente deslocado. Você cria um lugar porque você não tinha ele antes. E quando você cria um lugar para você, ele também vai criar essa cena maior.” 

No dia 13 de fevereiro, foi aprovada uma lei estadual que reconhece a música eletrônica como bem de natureza imaterial integrante do patrimônio cultural de São Paulo. Um mês depois, Larissa Gaspar, deputada estadual do PT e entusiasta do gênero, pôs para tramitar na Assembleia Legislativa do Ceará dois projetos de lei semelhantes. Um reconhece o gênero como de destacada relevância cultural do estado, e outro institui o Dia da Música Eletrônica, a ser celebrado anualmente no último domingo de setembro. O tuts, tuts, tuts pode aumentar ainda mais em Fortaleza.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.