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ANATOMIA DA QUEDA

Como aconteceu com meu pai, quase 10 mil idosos morrem por ano no Brasil em decorrência de um tombo

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“O pai caiu.”

A notícia, dada num telefonema por minha irmã, chegou assim, bem seca, naquele dia 9 de maio de 2023, terça-feira. Nosso pai tinha caído no banheiro logo pela manhã. A pancada da cabeça no chão frio foi tão forte que minha mãe, mesmo em outro cômodo da casa e com problemas de audição, ouviu o som oco do baque. Ela correu para acudir, mas ele não conseguiu se levantar. Virou-se de lado, pediu um travesseiro e que o deixassem descansar, atravessado entre o boxe do chuveiro e a porta.

Vizinhos foram chamados e também a ambulância do convênio médico. Enquanto isso, meu pai pareceu dormir. Quando os paramédicos o ergueram para colocar na maca (que não cabia no banheiro porque a casa não foi pensada para macas), ele teve uma convulsão. A partir daquele momento, toda a família entrou em uma crise convulsiva. Foram meses de UTI, ventilação mecânica, traqueostomia, sondas, dermatites, parada respiratória, pneumonias, infecções urinárias, delírios, trombose, alta hospitalar, volta à UTI, alta hospitalar, nova pneumonia, com mulher e filhas trincadas pelo sofrimento, sem que até hoje saibamos, exatamente, o que fez meu pai cair.

O que descobrimos foi o universo à parte das quedas de idosos, no qual meu pai foi incluído, na categoria dos que sofrem “queda da própria altura”, como dizem os relatórios médicos, que resumem essa circunstância com a sigla QPA. Trata-se da perda súbita da posição ereta, seguida da queda no próprio nível em que se encontra a pessoa. Dados do Ministério da Saúde revelam que essas quedas têm aumentado no país de forma desmesurada. Em 2013, morreram 4 816 idosos vítimas de QPA. Em 2022, o número saltou para 9 569 óbitos, um aumento de quase 100%.

No Brasil, são consideradas idosas as pessoas de 60 anos ou mais – que hoje somam 32,1 milhões de brasileiros. Por isso mesmo, os tombos que sofrem vão além das QPA, envolvendo aventuras em escadas, telhados, lajes desprotegidas. Somadas, as quedas em geral mataram 70 493 idosos no país entre 2013 e 2022, tornando-se o segundo motivo de mortes por causa externa entre as pessoas com 60 anos ou mais, número que perde apenas para os idosos acidentados no trânsito (sendo os atropelamentos os mais comuns). No mundo, as quedas são a segunda principal causa de mortes por lesões não intencionais, de acordo com a Organização Mundial da Saúde (OMS). Estima-se que 684 mil pessoas faleçam anualmente devido aos tombos.

Ainda que na maioria das vezes não leve à morte instantânea, a queda de idosos é a razão de aproximadamente 10% das emergências hospitalares. “Um idoso é internado depois de uma queda não porque machucou o tendão nem porque teve uma laceração na pele, e sim porque fraturou um osso ou teve uma síncope eventual”, diz a fisiatra Isabel Chateaubriand, coordenadora médica da reabilitação do Hospital Sírio-Libanês, em São Paulo.

A situação é de alerta vermelho porque o problema não fica restrito ao tratamento hospitalar. Depois que recebe alta, a pessoa tende a apresentar um quadro de saúde disruptivo, no pior sentido. Muitas vezes há restrição posterior de mobilidade, dificuldade para realizar atividades do cotidiano, como se vestir ou tomar banho, perda cognitiva, isolamento, depressão.

Aqueles poucos que podem pagar o tratamento de tantas sequelas contratam uma equipe multidisciplinar e uma legião de cuidadores (cuidadoras, para ser mais exata, já que as mulheres são maioria nessa profissão). O mais comum, no entanto, é um parente (uma parenta seria mais preciso) se devotar exclusivamente ao debilitado, quando não se opta pela internação da pessoa em uma Instituição de Longa Permanência para Idosos (Ilpi). Isso não evita outras internações hospitalares, seja por causa de outras quedas ou pela vulnerabilidade extrema provocada pela primeira. “Trata-se de um problema de saúde pública, porque a incidência é alta, a prevalência é alta e o dano também”, diz Chateaubriand.

A consequência mais típica das quedas de idosos é a fratura do fêmur, paradoxalmente o osso mais forte do corpo. A priori, o fêmur consegue suportar uma pressão de 800 a 1,1 mil kg. Ocorre que não é exatamente o “meião” do fêmur que costuma se quebrar nos mais velhos, mas a parte mais alta e delgada, o colo (que lembra um pescoço grudado à cabeça do osso, a mesma que se acopla ao quadril) ou então a região transtrocanteriana, logo abaixo do colo.

A maioria das fraturas do fêmur ocorre quando a pessoa cai de lado numa superfície dura. Com menos repertório motor, menos reflexos instantâneos e mais fragilidades, o idoso não tende a tombar macio, mas de chofre. O impacto é grande e imediato na saúde em geral, porque normalmente implica internação hospitalar e cirurgia de grande porte. “Às vezes, a pessoa fratura uma ou várias vértebras, ao cair ou até ao espirrar sente dor no local, só que isso passa despercebido entre tantos outros incômodos. Mas, se é possível andar com uma fratura de vértebra, em geral não se consegue andar com uma fratura de fêmur”, diz Chateaubriand.

“Quanto mais alto, maior a queda”, diz o provérbio. Do alto de seu 1,81 metro, ligeiramente envergado pelos 88 anos de vida, meu pai sofreu um baque que não lhe causou nenhuma fratura, mas retumbou na caixa craniana. A batida do lado direito reverberou para o lado oposto, internamente, criando um hematoma subdural agudo, um acúmulo de sangue entre o cérebro e seu revestimento externo, o crânio. A primeira tomografia revelou um coágulo pequeno, mas suficiente para que meu pai ficasse em observação naquela terça-feira. Ele sabia dizer o próprio nome, o de sua mulher, os das três filhas e a cidade onde estávamos. Também acertou todos os números do próprio CPF e reconheceu as fotos de Juscelino Kubitschek, Pelé, Hebe Camargo e Roberto Carlos que mostrei no celular.

O mais comum em hematomas subdurais é que se tornem crônicos. Às vezes, nem são descobertos de imediato, mas em tomografias tardias, depois de algum sintoma neurológico. No caso do meu pai, as lembranças foram se desvanecendo ao longo daquele mesmo dia, num apagamento da memória conjugado com a fala enrolada e o olhar perdido. A pálpebra direita começou a murchar. Logo a sopa e a gelatina do almoço foram canceladas pela enfermeira-chefe, e o jejum imposto ao paciente me torceu o estômago.

Não era só uma confusão mental pós-­trauma. Cerca de quinze horas depois da queda, meu pai entrou no centro cirúrgico para uma craniotomia. O coágulo avançou bruscamente sobre o lado esquerdo do cérebro – o lado da fala, da escrita, do assobio, da gargalhada solta e das tiradas espirituosas. Era necessário reduzir de imediato a pressão intracraniana, me disse o neurocirurgião. Dei um beijo na testa do meu pai e segurei com força sua mão direita, sabendo que aquele lado estava em risco.

Na manhã do dia 7 de fevereiro de 2023, a professora aposentada Nívea Guarnieri, de 87 anos, estava em frente à pia do banheiro quando sofreu um apagão. “Tenho certeza de que não tropecei em nada, simplesmente amontoei”, ela conta à piauí. Logo percebeu que tinha quebrado a perna esquerda. Chamou pela filha do meio, Míriam Guarnieri Machado, que dormia num quarto próximo, mas ela não escutou, nem quando a mãe bateu insistentemente com um dos sapatos no pé de um móvel. O banheiro é feito de paredes grossas e a janela estava fechada.

Em seu tempo mental, Nívea Guarnieri acha que passou mais de hora deitada no chão do banheiro. “Mãe do céu, você devia ter me chamado, não devia ter vindo para cá sozinha”, foi o sermão que recebeu da filha enquanto o Samu estava a caminho. No dia anterior, a aposentada já havia sentido certo mal-­estar. Por isso, a filha viera de Campinas para ficar com a mãe, que mora em Itapetininga, no interior de São Paulo. A viuvez precoce, aos 36 anos, com três filhos, fez Guarnieri desenvolver uma grande independência, que não combinava agora com a situação de vulnerabilidade extrema.

No hospital, os médicos constataram a ruptura do colo do fêmur e identificaram um bloqueio elétrico no coração, provavelmente a razão do desmaio. A cirurgia cardíaca para colocação do marca-passo foi feita um dia antes da colocação dos pinos no colo do fêmur, e a recuperação da segunda operação provocou muito mais infortúnios que a primeira, com um sucedâneo de intercorrências, como anemia, pneumonia, obstrução intestinal, muita dor no local da cicatrização e picos hipertensivos, que fizeram Guarnieri voltar ao hospital algumas vezes. “Perdi mais de 10 kg, não podia ver comida por causa dos remédios que fui obrigada a tomar. Pior que na televisão só passa comida, seja no comercial, nos programas de receita, na mesa posta da novela”, recorda, sentada ao lado de seu companheiro fiel do momento, um andador de alumínio com rodízios.

Guarnieri conseguiu retomar a marcha, embora de modo mais lento e cuidadoso. Mas muitos idosos nunca mais voltam a andar depois de uma queda. O fear of falling (FOF, na sigla em inglês para “medo de cair”), também chamado de ptofobia – do grego ptôsis, queda, e phóbos, medo –, foi identificado em 1982 pelos geriatras Bernard Isaacs e John Murphy, da Universidade de Birmingham, na Inglaterra. A síndrome atinge 40% a 73% dos que já caíram uma vez e se caracteriza pelo pavor de andar, com ou sem apoio novamente (mesmo que a pessoa não apresente problemas de locomoção que a impeçam de caminhar). Segue-se a perda paulatina de autoestima e o isolamento social que podem levar ao declínio físico e até à morte precoce. “Com fear of falling, o indivíduo deixa de ir à missa, à reunião de família, à padaria e até ao banheiro por medo de nova queda”, diz Wilson Jacob Filho, professor titular de geriatria da Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP) e diretor do Serviço de Geriatria do Hospital das Clínicas, na mesma universidade. “E, mesmo assim, o idoso cai, porque não poderá ficar sentado a vida toda e porque o medo de cair o impede de ficar apto a não cair.”

Existe uma divisão já clássica na literatura médica entre idosos caidores e não caidores. Os primeiros, que são cerca de 30% dos idosos em geral, sofrem três ou mais quedas ao ano em atividades habituais. O engenheiro Guilherme Augusto Gomes de Villa, que defendeu mestrado e doutorado sobre os caidores na Escola de Engenharia Elétrica, Mecânica e de Computação da Universidade Federal de Goiás (UFG), destaca que, segundo o IBGE, a porcentagem de idosos no Brasil pode passar dos 15,8% computados em 2022 para 19,6% nos próximos dez anos. Se 30% deles caem todo ano, podemos atingir cerca de 13 milhões de caidores em 2030.

De Villa, que trabalha atualmente no Laboratório de Pesquisa em Neuroengenharia (NER Lab), da Universidade Estadual de Campinas (Unicamp), escolheu para participar das pesquisas apenas idosos que praticam atividades físicas. O estudo avaliou a coordenação em três articulações principais – quadril-joelho, joelho-tornozelo e quadril-­tornozelo –, em quatro fases da marcha de idosos não caidores e caidores. Naqueles que caíram repetidas vezes, ele identificou diferenças de ângulos nessas três articulações. O resultado é algébrico, e Villa sugere que médicos, ortopedistas e enfermeiros atentem para essas diferenças, a fim de propor exercícios de fortalecimento muscular específicos.

Não só diferenças de ângulos nas articulações dão sinal de problema num corpo alquebrado. A velocidade da marcha é outro preditor de queda. A marcha “normal” corresponde a uma média de 4 km/h. “Menos de 3 km/h, o que dá 0,8 m/s, revela risco de cair, enquanto 0,6 m/s é praticamente certeza de queda”, diz Chateaubriand. Ela explica que a lentidão é sinal de que a pessoa está prestando muita atenção ao que deveria ser automático. Não consegue, por exemplo, andar e falar ao mesmo tempo, nem caminhar e tirar os óculos ou o boné, provavelmente porque tem dor em alguma junta, tontura ou dificuldade para ouvir sons ambientes e enxergar desníveis no terreno.

Chateaubriand também chama a atenção para a pressão manual, ou seja, se o idoso tem força nas mãos. Mas o que isso tem a ver com os pés? Quando o dinamômetro – aparelho que mede o resultado de uma força muscular, no caso a das mãos – marca menos de 27 kgf (quilogramas-força) para o homem e menos de 16 para a mulher, isso é indício importante de perda de massa e força muscular (sarcopenia), com risco maior de desequilíbrio e, por conseguinte, de fratura. Isso ocorre porque o osso conversa com o músculo, numa espécie de crosstalk. O osso se remodela melhor a partir de uma tração muscular e, sem ela, vai se tornando mais frágil. A partir dos 50 anos de idade, perdemos de 1% a 2% da reserva muscular por ano – ou cerca de 10% por década. Quase a metade dos idosos acima de 80 anos sofrem com a sarcopenia, ou mesmo antes dessa idade, se a pessoa teve ou tem, por exemplo, câncer ou anorexia. Algumas pesquisas também apontam dor e perda muscular em cerca de 10% das pessoas que costumam tomar estatina, remédio muito usado para baixar o colesterol e reduzir problemas cardiovasculares. “Aos 80 anos, o indivíduo em geral vai ter o mesmo músculo de quando tinha 10 anos, só que agora pesa 80 kg, boa parte disso é gordura, que além de tudo é inflamatória”, acrescenta Chateaubriand.

As articulações, essenciais à caminhada, não apreciam a troca de músculo por gordura, tampouco as cartilagens, o que compromete ainda mais todo o repertório de reação. Mesmo mais fraca, a pessoa continua andando. Porém, ao descer uma escada ou caminhar numa calçada malcuidada, o joelho rodeado de pouco músculo pode dobrar de um jeito errado ou sofrer uma mordida na cartilagem, o que provoca uma bruta dor, o desequilíbrio, o tropeção. A chance de a pessoa idosa cair de lado ou de frente é maior, uma vez que, devido à cifose (desvio da coluna vertebral), ela tende a se curvar para a frente. Por esse motivo, afora o famigerado fêmur, há tantas fraturas de pulso, braço, cotovelo e clavícula – todos usados para proteger instintivamente a cabeça. Cair de costas, como aconteceu com o meu pai, é contrariar o mecanismo biomecânico de postura do idoso.

Meu pai já andava num passo de museu havia algum tempo. Por precaução, arrastava miudinho a sandália antiderrapante pela casa. Dizia, enumerando nos dedos longos, que “velho morre de três coisas: tombo, pneumonia e caganeira”, rindo no último termo, que nem era normalmente usado por ele, mas que fazia graça no chiste. Eu não entendia bem o porquê de o desarranjo intestinal aparecer como potencial causa mortis até descobrir o quanto a desidratação – provocada por episódios de diarreia ou outro desequilíbrio fisiológico – pode comprometer seriamente o bem-estar da pessoa de idade, ainda mais os acamados.

O fato é que, depois da queda no banheiro, meu pai nunca mais voltou a andar, apesar das sessões de fisioterapia. Retraía os pés quando era carregado da cama para a poltrona reclinável ou da poltrona reclinável para a cadeira de banho, como se o mero contato com o piso fosse certeza de um novo trauma. Às vezes, colocava as mãos nos antebraços da poltrona e dizia “Então, vamos!”, mas não saía do lugar, como se tivesse desaprendido a articular uma vida bípede.

Com a memória preservada de vários fatos do passado, mas com lapsos do presente, meses depois da operação perguntou para minha mãe onde tinha caído. “No seu banheiro”, ela contou. “Ainda bem que não quebrei nada”, disse ele, deixando em suspenso o que o cérebro consegue ou não preservar depois de tamanha intromissão. A cicatriz em meia-lua na cabeça estava lá, em um sulco que ao longo dos meses virou dois, paralelos. Mas ele, felizmente, não os distinguia entre os suaves fios brancos que voltaram a nascer. Dizia-se bonito. Estava bonito.

A Associação Médica Brasileira (AMB) afirma que 70% das quedas com idosos acontecem em domicílio. E, se a triagem for de gênero, as mulheres caem com mais frequência em casa, devido em grande parte às tarefas domésticas que costumam assumir. Os homens caem mais na rua. Para as mulheres, o principal detonador seria a osteoporose, condição que faz com que os ossos percam a densidade e se quebrem mais facilmente. Como em tudo na medicina, há exceções: homens diabéticos, que tomaram muito corticoide, que tiveram câncer de próstata e usaram inibidor de hormônio, bem como os alcoólatras, todos eles podem virar osteo­poróticos. O fato é que essa condição óssea aerada pode levar a uma fratura pregressa e espontânea, quando a pessoa cai porque já fraturou antes.

As quedas também podem acontecer nas Instituições de Longa Permanência para Idosos, lembra o geriatra Jacob Filho. No Brasil, cerca de 100 mil pessoas residem nessas instituições públicas ou privadas para idosos, de acordo com a Sociedade Brasileira de Geriatria e Gerontologia. Estudo feito por Ana Paula Maeda, nutricionista especialista em gerontologia, e por Tamara Nogueira Petroni, enfermeira especialista em gestão de saúde, mostra que, se no início as Ilpis carregavam o rótulo do assistencialismo, suas atividades atuais remetem a serviços de saúde em função do alto número de hóspedes extremamente dependentes, que necessitam de cuidados diários e contínuos.

O Rio Grande do Sul é o estado com o maior número de idosos no país – eram cerca de 2 milhões deles em 2022, segundo o IBGE, o equivalente a 20% da população gaúcha. O fisioterapeuta Fabiano Roland, morador de Porto Alegre, trabalha há 23 anos com reabilitação de idosos em residenciais geriátricos, uma das nomenclaturas usadas atualmente para designar as Ilpis, no esforço de apagar a imagem pejorativa que as associa a “asilo de velhos”. “Muitos pacientes chegam acamados às Ilpis já com histórico de várias quedas em domicílio”, conta Roland. Segundo dados da Prefeitura de Porto Alegre, 301 Ilpis estão regularmente cadastradas na cidade.

Os dois residenciais geriátricos em que Roland trabalha não foram atingidos pelas enchentes devastadoras que assolaram o estado. Mas, de acordo com um levantamento feito por entidades como a Cruz Vermelha e a Universidade La Salle, de Canoas, ao menos 200 mil idosos sofreram impactos importantes com as chuvas – o que não surpreende, dadas as doenças crônicas e as dificuldades de locomoção características dessa faixa etária, afora os transtornos mentais e a solidão. A Secretaria da Segurança Pública do Rio Grande do Sul informa que 92 das 182 vítimas identificadas pela Defesa Civil são de pessoas com 60 anos ou mais. Muitas delas morreram por não quererem deixar suas casas.

Os banheiros são os lugares onde ocorre o maior número de acidentes, e não apenas com os mais velhos. Uma pesquisa publicada em 2011 pelo Centro de Controle e Prevenção de Doenças (CDC, na sigla em inglês), revelou que 234 mil pessoas que vivem nos Estados Unidos se lesionaram nesse cômodo – os mais jovens no boxe, os mais velhos ao sentarem ou levantarem do vaso sanitário. A parte do corpo mais machucada: a cabeça. Quase 14% daqueles que caíram foram hospitalizados. Piso escorregadio, tapetinhos traiçoeiros, iluminação parca, ausência de barras de apoio, degrau na saída do boxe ou na porta do banheiro são armadilhas anunciadas.

Esse também é o cômodo das levantadas durante a noite para urinar e o cenário preferido das tonturas matinais, quando o teto gira 360 graus, possível reflexo de uma queda abrupta da pressão arterial. A hipotensão pode ser consequência do uso de medicamentos para controle da própria pressão, que precisaria de um ajuste, mas também pode derivar do consumo de outras pílulas cotidianas ou da interação entre elas.

Não são poucos os episódios de políticos mais velhos que caíram no banheiro, ou em outra parte. Em dezembro de 2019, Jair Bolsonaro, na época com 64 anos, bateu com a cabeça no chão do banheiro do Palácio da Alvorada e foi levado ao Hospital das Forças Armadas, onde passou por exames que não detectaram alteração cerebral. Em março de 2022, Fernando Henrique Cardoso, então com 90 anos, quebrou o colo do fêmur no banheiro e foi submetido a uma cirurgia que lhe custou oito dias de internação. José Sarney, hoje com 94 anos, caiu na sua casa em São Luís, no Maranhão, em julho de 2023, quando foi diagnosticada “pequena área de isquemia cerebral”. Sete meses depois, fraturou o braço e a clavícula quando caminhava na quadra em que mora em Brasília. Em julho do ano passado, o presidente Lula, então com 77 anos, se desequilibrou e quase caiu na saída de um cortejo na Bahia, quando se encaminhava para participar do ato cívico pelo bicentenário da Independência do Brasil.

Ao recordar a polifarmácia de que meu pai já dispunha antes mesmo do acidente (e que duplicou depois), e todas as intercorrências subsequentes que ele sofreu, seja porque um órgão deixou de cumprir o seu papel, seja porque passou a brigar com outro, eu depreendo que a saúde na velhice é como um móbile delicado. Se você puxa muito de um lado, o outro lado desconjunta, a ponto de desmontar na sua mão. Teria meu pai contrariado a nossa ladainha de primeiro se sentar na cama, respirar profundamente e só então levantar devagarinho para ir ao banheiro da suíte onde dormia, a poucos passos da cama?

Para enfrentar o problema das quedas, empresas começam a buscar ajuda da tecnologia. Uma delas é o monitoramento por meio de câmeras. Há, porém, quem critique essa opção, que coloca em risco a própria intimidade dos idosos. “Além de as câmeras não conseguirem evitar as quedas, o argumento da proteção perde fácil para o argumento da privacidade”, diz o geriatra Jacob Filho.

A geriatra americana Florence Macauley, fundadora da AgeWise Home, empresa que avalia casas para pessoas mais velhas conforme as necessidades de cada morador, acha que o uso de câmeras acaba por isolar ainda mais os idosos, porque seus filhos e parentes tendem a achar que a mera observação virtual é um contato suficiente com seus pais. “Essas soluções muitas vezes ignoram a importância da interação com os familiares idosos para o seu bem-estar mental, espiritual e emocional”, diz Macauley à piauí. A geriatra conta sobre um paciente insatisfeito com a situação em que se encontrava: seus filhos haviam instalado – contra a vontade dele – câmeras para filmar as duas camas da casa, mas o deixavam sozinho, enquanto sua mulher estava internada no hospital.

Outra opção tecnológica desenvolvida para proteger os mais velhos, inclusive das quedas, é o colar (ou pulseira) de emergência, que pode ser usado inclusive durante o banho. O aparelho vem com um botão que, acionado pela pessoa, ativa uma central de atendimento 24 horas. A fabricante do colar promete enviar auxiliares para socorrer o idoso, além de acionar o serviço médico e contatar os familiares. A ideia é evitar que a pessoa fique desamparada por muitas horas, com risco de sofrer hipotermia, por exemplo, o que pode agravar as consequências de uma fratura. Além do colar, existe a opção (mais cara) de um pingente com sensor de queda, que avisa a central do baque, sem precisar que o idoso acione qualquer botão.

Na China, foi criado um airbag para os caidores. Depois de tomar conhecimento do expressivo número de mortos com mais de 65 anos no país devido a lesões causadas por quedas, a equipe da startup Suzhou Yidaibao Intelligent Technology Co. inventou um colete “inteligente”, com uma almofada de ar que ameniza o baque. O pulo do gato da empresa foi o desenvolvimento de um algoritmo que prevê se um movimento repentino da pessoa resultará em queda, permitindo que o dispositivo seja acionado antes de ela se estatelar no chão.

“Segundo a nossa estatística, um idoso leva em média 0,3 segundo para cair, então o colete precisa estar totalmente inflado em 0,18 segundo”, explica Song Zhangxuan, vice-gerente da startup, em entrevista para a Euronews. A versão 2.0 do colete, que pesa 1,5 kg, ao ser acionada cobre cabeça, ombros, costas, tórax, cóccix e quadril. Custa 4 137 yuans (cerca de 3 mil reais), valor alto para a população chinesa, considerando que o maior salário mínimo do país, o de Xangai, é de 2,7 mil yuans (cerca de 2 mil reais). A empresa exporta o produto para Austrália, Tailândia e Japão – país onde cerca de 16 milhões de pessoas (mais de 10% da população) ultrapassaram os 80 anos em 2023.

Na China, em 2019, havia 254 milhões de pessoas com mais de 60 anos, número que deve saltar para 402 milhões em 2040, ou cerca de 28% da população total. É uma mudança demográfica que traz um enorme desafio à saúde pública, e o país tem buscado abordagens inovadoras para melhorar o acesso a cuidados integrados, como uma plataforma de informação médica na internet. Ela precisará dar conta de um modelo governamental de atenção aos idosos representado pelo número 9073, que significa que 90% deles estarão sob cuidados em casa, 7% sob supervisão da própria comunidade onde vivem e 3% em instituições de longa permanência.

O envelhecimento da população é, notoriamente, um fenômeno mundial. A OMS estima que, em aproximadamente três décadas, o número de pessoas idosas seja equivalente ao de crianças. Não à toa, a Assembleia Geral das Nações Unidas declarou a década atual, de 2021 a 2030, como Década do Envelhecimento Saudável, de olho na prevenção de doenças e de eventos que possam comprometer a funcionalidade dos mais velhos, o que tem instado os governos a ampliarem políticas públicas voltadas para essa faixa da população.

Na Itália – que tem a população mais envelhecida da União Europeia, segundo o Eurostat, escritório europeu de estatísticas – 7,7% da população é formada por octogenários, nonagenários e centenários. “Cerca de metade dos 2 mil pacientes que eu atendia sofreram queda pelo menos uma vez”, diz, por telefone, Maddalena Montalbano, uma clínica geral que durante quinze anos trabalhou em uma casa de repouso para anciãos em Milão, sua cidade natal. Cerca de 40% dos italianos com mais de 75 anos moram sozinhos. Montalbano afirma que esses idosos solitários costumam ser visitados em domicílio pela equipe da Assistência Domiciliar Integrada – braço do Serviço Sanitário Nacional que atende em casa os idosos doentes e não autossuficientes –, a fim de checar suas condições físicas, mas também as ambientais: lixo acumulado, alimentos fora do prazo de validade, áreas mal iluminadas, móveis atravancando espaços, roupas e sapatos desconfortáveis e inseguros, excesso de animais perambulando pela casa. Mas o atendimento é deficiente em algumas regiões, devido à condição social precária de algumas pessoas atendidas e à falta de profissionais de saúde, especialmente enfermeiros.

No Brasil, o sus aposta especialmente no programa Estratégia Saúde da Família (ESF) para chegar aos idosos sem recursos, por meio de visitas programadas com médicos, enfermeiros e, especialmente, agentes comunitários. Mas, conforme diz o PrevQuedas Brasil, grupo multidisciplinar voltado à prevenção e manejo de quedas em pessoas idosas que atua desde 2013, essas ações do sus são muito dependentes de lideranças locais isoladas (os agentes comunitários, por exemplo), e não de processos contínuos.

Também inexiste o compartilhamento de informações entre os níveis de atenção, os serviços e as equipes de saúde e sociais, e poucos estados e municípios têm planos de ação e linhas de cuidado para prevenção de quedas, com metas e indicadores. “Essas e outras barreiras colaboram para a fragmentação do cuidado, a sobreposição e a desarticulação de estratégias e ações, o desamparo das equipes de saúde e a falta de clareza das atribuições dos profissionais na prevenção de quedas”, afirma o PrevQuedas, que publicou uma carta-manifesto conclamando o Ministério da Saúde a articular um grupo de trabalho para desenvolver um plano de ação estratégico de prevenção  de quedas em idosos.

“Num país desigual como o nosso, para começar, nem todo mundo que cai e deveria ir ao hospital acaba indo”, diz a fisiatra Isabel Chateaubriand. “Não estou falando da realidade do Sírio-Libanês, onde trabalho, e sim de um idoso que mora na periferia, marreta a cabeça no chão e fica em casa, subnotificado.” Em 2023, foram registradas 15 264 quedas de idosos com 60 anos ou mais só na capital paulista, segundo o Sistema de Vigilância de Violências e Acidentes (Siva). No estado de São Paulo, o Ministério da Saúde apontou 31 965 internações motivadas por esse acidente no ano passado. No Brasil inteiro, no mesmo período, foram 106 401 hospitalizações, que culminaram num gasto de cerca de 303 milhões de reais.

Manir Miguel, meu pai, estava entre esses internados. As estatísticas mostram que, entre os idosos que tiveram de ser hospitalizados depois de uma queda, é alta a taxa de mortalidade nos doze meses seguintes. A 27 dias de completar um ano do tombo, meu pai “broncoaspirou”. Broncoaspirar é mandar para o pulmão algo que não lhe pertence – no caso, o conteúdo gástrico. A reação foi radical: pneumonia, choque séptico e atestado de óbito dois dias depois, em 12 de abril.

Meu pai tinha passado por uma gastrostomia cinco dias antes de falecer, cirurgia considerada tranquila, que insere pelo abdômen uma sonda até o estômago e por ali é ministrada uma dieta especial. A gastrostomia (ou GTT) o livrava da sonda nasoenteral, um tubo que entrava pela narina e ia até o intestino delgado, a fim de alimentá-lo com a mesma dieta, mas que tanto o incomodou. A GTT permitia que ele mantivesse íntegra sua aparência e identidade, deixando sem entraves a visão do nariz adunco, moldado pelos óculos já fossilizados de uma miopia que vinha do tempo de criança.

Nas últimas fotos que fiz do meu pai, ele esboçou o sorriso de quem vivenciava um pouco de liberdade, depois de tantas amarras que imputaram ao seu corpo nos últimos meses. Sem a sonda no nariz, a esperança era que a fonoaudióloga o ajudasse a redescobrir o gosto do mundo, do espaguete ao alho e óleo, do abacate batido com limão, do pão com manteiga, como o que estava à sua espera na mesa do café da manhã no dia em que caiu.

No sonho mais recente que tive com ele, meu pai está sentado à mesa, diante de uma xícara de café com leite, passando manteiga em um pedaço de pão. Ele está feliz por estar vivendo mais um dia simples como tantos de sua vida simples.


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É jornalista. Publicou os livros Por um ponto final (Com-Arte) e Diário de uma fadiga (Cancioneiro).