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ficção

OLHO NU

Basta assumir que a sua indiferença é assassina e você pode sair da masmorra

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Enxugo com paciência o sangue ao redor do seu olho esquerdo impresso na velha Polaroid guardada entre impulsos elétricos na massa brilhante e repleta de dobras localizada no interior do meu crânio. Ficou jogada ali, sobre o tapete gasto, atrás da mesinha bamba de madeira.

Sem que você notasse, arranquei a casquinha do machucado na sua testa e você disse ai. Contraiu involuntariamente os músculos da face por uma fração de segundo. Darwin estudou esse tipo de reflexo em cavalos e concluiu algo que eu já não lembro mais.

Pude ler uma mistura de dor, violência e vergonha na Pastoral americana. Trata-se de um coquetel inventado na Ivy League, comenta Biden enquanto chupa um ice-cream de baunilha e conversa com a imprensa sobre o financiamento americano do genocídio.

Olha, os animais estão todos eriçados hoje, N. Eles querem atravessar a cerca elétrica do zoológico. Já não se importam com nada.

É o eclipse total, T.

Deitada de barriga para cima lendo Lina Meruane você mexe com o calcanhar no meu sexo enquanto eu me retraio cada vez mais na ponta do sofá olhando compulsivamente para Gaza. Viu como as dobrinhas da sola do meu pé são bonitas, T.? Você se impacienta com o meu silêncio. Não é silêncio. Eu sei que você está sorrindo maliciosa enquanto aumenta a pressão com os pés. Uma mulher de idade indefinida e lenço na cabeça recolhe membros no meio dos destroços e em seguida os arrasta pela rua num saco plástico preto. Foi capaz de juntar um tronco ainda com perna, dois braços e uma cabeça. É a minha filhinha, ela pensa decidida. Ficou faltando uma perna. Uma vida descartável, ela poderia ter pensado. Não teve jeito. Não dava para saber que a bomba acertaria o prédio de três andares justo no momento em que a mãe lutava na rua por um saco de farinha trazido em um caminhão de ajuda humanitária que havia finalmente furado o bloqueio. O sangue que escorre do machucado da sua testa deixa um rastro escuro no piso de madeira da casa. Não é escuro, é medonho, T. Você observa à distância a foto do garoto morto no hospital. Seu nome é Yazan al-Kafarneh.

O Sol acaba de se pôr ou está prestes a nascer e você não desgruda os olhos da tevê. São onze horas de entrevistas ininterruptas. Os lábios entreabertos, secos. A gengiva cor de umbu, você me disse uma vez. Seios de goiaba madura, pele de açaí. Araçá azul no toca-discos quebrado. Minuto a minuto as cenas jamais vistas do genocídio vão sendo armazenadas em preto e branco no seu cérebro. Velhos poloneses com a pele vincada rindo dos judeus chegando em trens lotados. Morde o lábio e sente o gosto do vermelho. Com o indicador eu tento colar a asinha de isopor que desgrudou das suas costas. É da peça de formatura do jardim de infância, você diz. Olha, sobrou um pouco de purpurina dourada no seu cóccix, N. Chupo concentrado a cartilagem da ponta do osso da coxa de frango que você preparou, mas se recusa a comer.

Olho distraído os rostos pequeninos nos quadrados do Zoom enquanto o bate-papo não começa. Algumas câmeras estão desligadas. Um dos convidados escolheu como avatar a foto da Susan Sontag. Passo o mouse sobre ela para ler o nome: N. Todo mundo ao mesmo tempo avisa que a mediadora está com o microfone desligado. Ela sorri sem graça. As fortes chuvas em New Jersey derrubam a conexão da jornalista que iria falar sobre censura de livros. Ninguém sabe o que fazer. É preciso economizar o dinheiro da gasolina se você quiser realizar um aborto legal neste país. Os quadradinhos vão desaparecendo da tela um após o outro enquanto o nível da água sobe no basement.

Você quer que eu escreva o livro mais pornográfico da história da literatura. Mas já está tudo na internet, N. Você precisa entender que um monte de letras enfileiradas não alcança jamais o mesmo efeito de milhares de horas de violência explícita em vídeo para streaming gratuito. As crianças na China dormem em média quatro horas por noite. Além de aprenderem a ler e escrever, e praticar esportes, elas se dedicam principalmente à matemática. Devem programar um mundo novo. Você acha mesmo que um dia elas vão se interessar por Sade, Bukowski, Bataille ou Gaza? Lembra a moça pelada sentada no prato de leite em História do olho, T.? Você quer que eu faça o mesmo dentro da sua cabeça? Pronto. No mesmo instante a imagem surge com um superclose. Posso ver a pele arrepiada e morena de uma porção pequena de uma das nádegas tocando levemente o leite frio e branco. Viu só, agora é uma memória sua.

Você acha bonito o meu corpo nu. Completamente sem pele. O lençol gruda nas minhas costas em carne viva e você parece fascinada com a estampa que vai sendo lentamente revelada na tela branca de algodão e poliéster enquanto eu me levanto. Vejo sua boca vermelha no espelho. Sem rosto. É um batom infantil, T. Você gosta? Prefiro morar no subsolo. Não para escrever, mas para ser esquecido.

Além de uma adega vazia e uma churrasqueira enferrujada, há uma cama de campanha no basement. O teto é baixo, o que piora a dor nas minhas costas. Deito para aliviar a pressão entre as vértebras e adormeço.

Você chegou aqui com uma mala pequena e uma bolsa de lona pendurada no ombro. A roupa era muito pesada para o outono do Hemisfério Norte. Oi. Você tira a bota gasta e as meias. Massageia o tornozelo lentamente sentada no banquinho da entrada como se eu não existisse. Uns pedacinhos de lã ficam presos nos vãos dos dedos e o cheiro acre não me incomoda. A pele úmida da sola do pé esquerdo está a ponto de secar. Vou cuidar de você, T.

35 740 mortos.

Claro que sim. Você pode manipular sempre que quiser as cenas guardadas na memória. Presta atenção, os movimentos são um pouco artificiais. Fecha os olhos e me imagina correndo. Viu. Agora um bombardeio. É uma montagem, T. Você nunca me viu nua. Você nunca morou em Rafah. Sim, claro, a nossa mente não consegue projetar o filme com a mesma perfeição que o cinema. Dá para ver a passagem dura de um frame para o outro. Não, nos sonhos é diferente.

Deitado na cama de campanha do basement, fecho os olhos e consigo sentir o ondular do metrô de Manhattan. O assento de plástico duro e laranja do trem fere ainda mais a minha lombar. O cheiro forte de urina me acorda. Uma senhora embrulhada em várias camadas de roupa e com um carrinho de supermercado abarrotado de sacolas plásticas e caixas de papelão me olha indiferente enquanto caminha com dificuldade sobre os escombros de uma rua em Gaza. Um homem alto e negro pede dinheiro no vagão. Anuncia exaltado que bebe gasolina no café da manhã e que lutou na Guerra do Iraque. Não consigo programar as bombas instaladas no basement para o caso de inundação. Ninguém me preveniu sobre quanta água poderia passar pelos checkpoints da Cisjordânia. A cama treme sentido Morningside Heights.

Sinto uma cãibra forte no pé direito quando eu gozo, T. Da última vez durou 9 segundos e eu pensei que fosse desmaiar.

Seu pé direito retesado entra na minha cabeça. Coube direitinho. Coube também o pescoço muito esticado graças ao peso da cabeça tombada para trás que rasga a minha nuca. A boca aberta roça o teto interno do meu crânio. Sinto cócegas e também náuseas. Toca Little Wing. Escuta só, o gozo de 20 segundos é melhor que a Lua tapando o Sol.

Na Elementary School, as professoras ensinam as crianças a contar os segundos com precisão:

Mississipi 1

Mississipi 2

Mississipi 3

Mississipi 4

Mississipi 5

Mississipi 6

Mississipi 7

Mississipi 8

Mississipi 9

Ou é Minnesota?

Olhos de fuzis, negros: dois mil e vinte e quatro.

Sobe, T.

Comprehensive não é compreensivo, é completo, N. Agora vê se me esquece.

O dia desaparece como se alguém desligasse um interruptor. Os animais, assustados, obedecem aos próprios instintos e se preparam para a noite. A temperatura da grama cai rapidamente sob as suas patas. Você dança com uma guirlanda na cabeça com a paisagem industrial de Newark ao fundo. Toca a sequência instrumental e caótica da melhor canção dos Mutantes. Uma cabeça de deer flutua assustada em meio à fumaça das enormes chaminés pintadas de vermelho e branco. Mexe as orelhas. Ergue os braços, sorri. O vestido branco se descola da pele morena e suada. Os galhos secos cortam a sola dos seus pés, mas você não se importa. O amanhã raiou hoje em Gaza.

Talvez eu seja uma caçadora de eclipses, T.

O filme é mudo.

O

fim

do

mun

do, você murmura sílaba por sílaba a frase gravada no meu laptop enquanto apoia o queixo no meu ombro. Nos encaramos assustados através do reflexo espectral da tela.

O imposto da garrafa de Coca-Cola comprada na CVS do Malcolm-X Boulevard matou 1/578.994.567 de uma garota de 11 anos que morava com sua avó em Khan Yunis.

Você assume proporções gigantescas. O dedão do pé ocupa a sala da casa. Um cantinho afiado da unha rasga a cortina com um leve movimento. Grito para que você pare, mas você mexe uma vez mais esse membro monstruoso e dessa vez rasga a minha barriga como se minha pele fosse feita de papel-manteiga e meus músculos abdominais de uma substância gelatinosa do tipo que crianças gostam de brincar. Um pedaço do meu intestino delgado fica preso na ponta do seu dedão. Você mexe o pé com violência para se livrar daquela gosma quente e pegajosa que ameaça entrar no vão entre a unha mal cortada e a carne. Estoura uma janela. A pele rasga. Uma parede ameaça desabar a qualquer segundo. Chove sangue. Do tapete marrom e molhado, olho para cima e vejo minhas pernas e meu quadril educadamente sentados na poltrona de leitura.

Sou capaz de sentir o cheiro da sua pele ao olhar para essa fotografia na tela de vidro do meu celular, T. E você, já sentiu o cheiro da destruição?

O estudante em greve de fome afirma que, quando um membro da comunidade sofre, todos sofrem. Se você não pode fazer nada, falar nada, deve ao menos sentir no coração.

É preciso olhar com a ponta do dedo, T. Começo então a armazenar compulsivamente o genocídio no meu cérebro:

toneladas de paredes e lajes quebradas

automóveis carbonizados

asfalto rachado e vidro estilhaçado

homens correndo pra lá e pra cá carregando crianças feridas no colo

corpos embrulhados e enfileirados no meio da rua

montanhas de lixo feitas de quilômetros de intestinos escurecidos, galões de sangue coagulado, corações de diversos animais em diferentes estados de decomposição, milhares de moscas gordas agitadas sob o Sol do deserto, uma mistura de pele esfarelada, veias quebradiças e areia, lixo, ossos com restos de cartilagem na ponta e mais de 60 mil olhos arregalados.

Os corpos se conectam sem qualquer tipo de lógica entre os órgãos. Uma cabeça destroçada por um tiro de fuzil vai sendo lentamente dissolvida pelo suco gástrico. O cabelo preto recém-penteado da garotinha metralhada a caminho da escola faz cócegas na minha garganta. Um corpo bem embrulhado em lona azul deforma as minhas costas e você passeia fascinada com os dedos por essa estranha paisagem. Já não dá mais para chamar de corpo, nem mesmo de humano. É outra coisa. Ainda sem nome. É apenas um som. Não o da bomba acertando o alvo, mas o do apito surdo 3 segundos após a explosão. O barulho da poeira nos olhos, T. Você beija com delicadeza a emenda grosseira da minha clavícula esquerda e se aproxima do meu rosto, decidida. Só mais um segundo, tô quase arrancando a película transparente do seu olho esquerdo. Pronto, agora você vai enxergar a escuridão a olho nu.

A chuva forte corta a energia e a bomba do basement para de funcionar. Em menos de uma hora a cama de campanha flutua como um bote de borracha no Mediterrâneo. Me agarro assustado na estrutura de ferro da cela. Meus olhos estão vendados. Afinal, de que lado você está, T.? Insisto que as novelas do Kafka devem ser lidas em chave realista. Mas ele era um profeta, T. Quando a mentira se torna escancarada demais fica difícil voltar para casa todas as noites, jantar, maratonar uma série na tevê e se preocupar por 5 minutos com a aposentadoria antes de pegar no sono. Uma mistura pastosa de produtos de limpeza sobe pelo cano do esôfago. O que vai ser dos órfãos, N.? Você ergue as mãos com luvas de borracha amarelas sujas de tinta vermelha e sorri. Olha só, é sangue, T. Vai ser sangue a partir de agora na sua mente. Viu? Você não queria sentir o gozo de 9 Jerusaléns? Não T., eu não liguei para o telefone impresso no cartão do hospital psiquiátrico da Pensilvânia. Foi você mesmo que ligou. Meu bisavô morou na Fulton Avenue, no Bronx, eu juro. Você me prometeu que iria apenas observar a sociedade americana do subsolo. Mas eu não sei de bomba alguma. Eles conhecem toda a pornografia que você consumiu na tela do celular, os órgãos sexuais de 2 cm e os gemidos de prazer grosseiramente fabricados. Não tem jeito, a cada novo deslocamento forçado, centenas de crianças morrem pelo caminho. Basta assumir que a sua indiferença é assassina e você pode sair da masmorra. Não T., você mora aí por vontade própria. Ninguém está exigindo coisa alguma de você. Olha bem, a porta do basement está destrancada. É claro que você pode se mover. Não seja ridículo, você dispara com desdém enquanto agita no ar as luvas amarelas pingando o sangue da amputação realizada sem anestesia. A perna sem função fica apodrecendo na churrasqueira enferrujada. O sangue cobre o seu rosto e empapa o cabelo. A bata branca está inteira vermelha e os olhos escancaradamente fechados.

Você é incapaz de confessar que ama a destruição, T. No fundo, você quer que o mundo inteiro acabe, não é verdade?

É a única maneira de cessar o sofrimento, N. E de uma vez por todas.


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Escritor, crítico e editor, é autor dos romances O pai da menina morta e O seu terrível abraço, ambos da Todavia