Imagem Trama e Necrose

poesia

TRAMA E NECROSE

Uma seleção de poemas do escritor franco-guianense, inéditos no Brasil

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 TRAMA

para minha irmã

É alvorada Lyetta

o sonho se suicida e nos entrega à vida
teremos os pés descalços como ontem, os pés descalços
e a areia avermelhada lavará seus cabelos
do sangue de nossos pés rasgados nos espinhos

com os pés descalços como sempre ancestrais partirão
para assar seus esqueletos no sol do abatti[1]

É alvorada Lyetta

as centáureas se foram, os caçadores retornaram
as armadilhas permanecem escondidas e ferozes
o perigo está presente na fronte dos arbustos, na anca das flores
na veia dos frutos, no leito dos rios
nos membros da cidade

É alvorada Lyetta

o convite é tão cruel quanto inebriante
tam-tam[2] de pica-pau, esquadrilha de torcazes, perfume de canela
e a amarga ironia figurando a felicidade

Morrer

morrer sem inferno com as costas três vezes mais curvadas… as mãos duas vezes mais
[calejadas
sob os golpes repetidos, com a areia na garganta
a areia nos olhos, a sede na garganta, as lágrimas nos olhos
Trabalhar duro pele tritura, trabalhar duro, a pele esgoela
por todos os poros
trabalhar duro, os ossos se afiam e jorram do corpo
navalhas de miséria, navalhas do ódio
e o convite é tão brutal quanto efêmero, evocando
uma raiva que beira o medo.

Não posso deixar de pensar Lyetta

no vento tiritante nos braços da cabaça;
primeira tentativa de comunhão racial, meninas
muito negras, meninas muito belas, tão tenras
tão firmes quanto o milho, sou louco por essa carne
que cintila nos cabelos das casuarinas, tão profunda quanto
a noite, tão viva quanto minha ferida, sempiterna ferida
que me mantém de coração aberto…
Não posso deixar de pensar Lyetta

nas mãos que seguram o fuzil
nas mãos que seguram o cassetete
nas mãos que esmurram crânio negro

Não posso deixar de pensar Lyetta

nos discursos de paz que condenam a guerra
os mesmos discursos ordenando a fome
as lenga-lengas hipócritas que clamam o amor
as mesmas lenga-lengas…             antinegros
antiamarelos
antijudeus
antiárabes
anti-indígenas
anti-isso
antiaquilo

discursos na câmara, discursos no altar
discursos na rua, discursos na onu
discursos, discursos, discursos que me perseguem
discursos que me esfolam, discursos que me matam

É alvorada Lyetta

A cidade cresceu como um adolescente magro e cheio de espinhas
e revoltado desajustado e desnutrido
a cidade com seus viciados senis e desordenados
e desbotados, desdentados
Burocracia, religiocracia, coloniocracia, bandidocracia e a imundície crescia

a cidade negra tomada dos ingleses, retomada pelos holandeses
entregue aos franceses de boca aberta, seios cedidos, pernas abertas

Sexo nada além de sexo pois o amor é
pouco incluído pois o amor não é incluído entre escravo
e senhor
Sexo nada além de sexo e a terra é
sem pomares, sem jardins sem prados
e tudo é objeto de troca razão de troca valor de troca

Pois o amor está mal plantado, o amor está desenraizado nesses crânios
desmiolados feitos de troca para a troca pela troca

É alvorada Lyetta

Ontem a avó deu seu último suspiro, a terra a tomou
pois era dela
O abatti agoniza do mal dos vencedores… o ano das estações
dizima as plantas… a vila enrugou tanto quanto uma água
pútrida.
A cidade caminha por suas convulsões, suas histerias
sua inação… para buscar uma miragem os homens partem
para qualquer lugar sem camisa, trajados de quimeras, o Perigo
é tangível aqui… como… alhures
mas não há mais Homens e quase nenhuma arma

é uma noite escura, lyetta.

TRAME

à ma soeur

C’est l’aube Lyetta

le rêve se suicide et nous livre à la vie
nous aurons les pieds nus comme hier, les pieds nus
et le sable roussi lavera ses cheveux
du sang de nos pieds déchirés aux épines

pieds nus comme toujours grands-parents s’en iront
griller leur squelette au soleil d’abatti

C’est l’aube Lyetta

les bleuets sont partis, les chasseus son rentrés
les pièges demeurent cachés et féroces
le danger est présent au front des buissons, dans la hanche des fleurs
dans la veine des fruits, sur la couche des fleuves
dans les membres de la ville

C’est l’aube Lyetta

l’invite est cruelle autant qu’enivrante
tam-tam de pic-vert, escadrille de ramiers, parfum de cannelle
et l’amère irone figurant le bonheur

Crever

crever sans enfer le dos tri-courbés… la main double-volume
sous les coups répétés, le sable dans la gorge
le sable dans les yeux, la soif dans la gorge, les larmes dans les yeux

Trimer la peau craquèle, trimer, la peau gueule
par tous ses pores
trimer, les os s’aiguisent à jaillir du corps
couteaux de misère, couteaux de la haine
et l’invite est brutale autant qu’éphémère, figurant
d’une hargne qui voisine la peur.

Je ne peux m’empêcher d’y penser Lyetta

au vent grelottant dans les bras de la calebasse;
première tentative de communion raciale, des filles
três noires, des filles très belles, aussi tendres
aussi fermes que le maïs, je suis fou de cette chair
qui perle aux cheveux des filaos, aussi profonde que
la nuit, aussi vive que ma blessure, sempiternelle blessure
qui me garde le coeur ouvert…

Je ne peux m’empêcher d’y penser Lyetta
aux mains que tiennent le fusil
aux mains qui tiennent la matraque
aux mains qui frappent crâne noir

Je ne peux m’empêcher d’y penser Lyetta
aux discours pacifiques qui condamnent la guerre
les mêmes discours ordonnant la famine
les palabres tartuffes que beuglent l’amour
les mêmes palabres… anti-noirs
anti-jaunes
anti-juifs
anti-arabes
anti-indiens
anti-ceci
anti-cela

discours à la chambre, discours sur l’autel
discours dans la rue, discours à l’onu
discours, discours, discours qui me traquent
discours qui m’écorchent, discours qui me tuent

C’est l’aube Lyetta

La ville a poussé comme un adolescent maigre et boutonneux
et bougonnant, mal dégrossi et mal bouffi
la ville avec ses tares de vicieux séniles et mal tordus
et mal vieillis, mal édentés
Bureaucratie, religiocratie, colonicratie, voyoucratie et crasse aussi

la ville noire prise aux Anglais, reprise aux Hollandais
livrée aux Français bouche offerte, seins déliés, jambes ouvertes

Sexe rien que du sexe car l’amour est
mal compris car l’amour n’est pas compris entre l’esclave
et le maître
Sexe rien que du sexe et la terre est
sans vergers, sans jardins, sans prairies
et tout es objet de troc de raison de troc de valeur de troc

Car l’amour est mal plainté, l’amour est déraciné dans ces crânes
mal ourdis faits de troc pour le troc par le troc

C’est l’aube Lyetta

Hier la grand-mère a rendu son soupir, la terre l’a prise
puisqu’elle était sienne
L’abatti agonise du mal des vainqueurs… l’année des saisons
décime les plantes… le village est ridé ainsi qu’une eau
croupie.
La ville chemine à travers ses convulsions, ses hystéries
ses inerties… pour quêter un mirage les hommes s’en vont
n’importe où sans chemise, bardés de chimères, le Danger
est tangible ici… comme… ailleurs
mais il n’y a plus d’Hommes et presque pas d’armes

c’est une sombre nuit, lyetta

NECROSE

para Claude e Rita

Bambus magricelas
balançam suas ossadas
numa zombaria que lembra
a ponto de se confundir
o barulho das correntes
os bambus torcem
seu magro pescoço
e zombam da morte

rochas negras fortificam
os muros da delegacia
o barulho das baionetas
o barulho dos fuzis
o barulho das granadas
lembra a ponto de se confundir
o craquelar dos ossos
a zombaria da morte
os rochedos negros cercam
a delegacia
como o corvo
agarrado à sua carniça
os vapores da cidade
entumecidos de quimeras
têm um gosto de morfina
um gosto de formol
quem então é embalsamado
quem então é assassinado

Escutem

os bambus magricelas
balançam sua ossada
torcem seu pescoço magro
e zombam da Morte.

NECROSE

à Claude et Rita

Les bambous maigrelets
balancent leurs ossements
dans un ricanement qui ressemble
à s’y méprendre
au bruit des chaînes
les bambous tordent
leur maigre cou
et ricanent la mort

les rochers noirs forifient
les murs de la gendarmerie
le bruit des baïonnettes
le bruit des fusils
le bruit des grenades
ressemble à s’y méprendre
au craquement des os
au ricanement de la mort
les rochers noirs soutiennent
la gendarmerie
on pense au corbeau
accroché à sa charogne
les vapeurs de la ville
gonflées de chimères
ont un goût de morphine
un goût de formol
qui donc on embaume
qui donc on assassine

Écoutez

les bambous maigrelets
balancent leurs ossements
tordent leur maigre cou
et ricanent la Mort.

SOBRE MASSACRES DE INDÍGENAS NA AMÉRICA LATINA

para Aline B.

A carne era o pão
o sangue era o vinho
então eles queimaram
pirâmides de indígenas
e violaram as mulheres
bebendo até a embriaguez
o álcool de seus sexos
fendidos como um odre

Cortés ou Pizarro?
Pizarro e Cortés?
fazendeiros… corte de banneiro[3]
viva o abatedouro

reclamo minha tortura
exijo meu sacrifício

assim o pastor
trazendo uma a uma
as ovelhas perdidas
fomos cercados
entregues aos turistas
um Novo decálogo
entalhado em nossa pele
caçar os indígenas
roubar os indígenas
matar os indígenas
e tomar seus ossos
para fazer gadgets
violar as indígenas
e tomar seu sexo
para fazer nylon

Cortés ou Pizarro?
Pizarro e Cortés?
fazendeiros… corte de banneiro
viva o abatedouro

reclamo minha tortura
exijo meu sacrifício

no século vinte
o Crime cavalga
no corcel da ciência
trajes de varíolas
buquês de napalm
mingau de arsênico
criadouro de vírus
o Assassinato (afinal)
também é racional

Cortés ou Pizarro?
Pizarro e Cortés?

Não peço nada
ao egoísmo dos homens
não peço nada
à grande Humanidade
procuro balas
para responder ao fuzil
morrer na Colômbia
no Brasil ou em outro lugar
sou um indígena
quero ser Livre.

SUR DES MASSACRES D’INDIENS EN AMERIQUE LATINE

pour Aline B.

La chair était le pain
le sang était le vin
alors ils brûlèrent
des pyramides d’indiens
et violèrent les femmes
en buvant à l’ivresse
l’alcool de leur sexe
fendu comme une outre

Cortez ou Pizarre?
Pizarre et Cortez?
fazendeiros… corte de banneiro
viva l’abattoir

je réclame ma torture
j’exige mon sacrifice
ainsi le pasteur
ramenant une à une
les brebis égarées
nous fûmes parqués
livrés aux touristes
un Nouveau décalogue
gravé sur notre peau
traquer les indiens
voler les indiens
tuer les indiens
et prendre leurs os
pour faire des “gadgets”
violer les indiennes
et prendre leur sexe
pour faire du nylon

Cortez ou Pizarre?
Pizarre et Cortez?
fazendeiros… corte de banneiros
viva l’abattoir

je réclame ma torture
j’exige mon sacrifice
au siècle vingtième
le Crime chevauche
l’étalon de la science
vêtements de varioles
bouquets de napalm
bouillie d’arsenic
élevage de virus
le Meurtre (après tout)
est aussi rationnel

Cortez ou Pizarre?
Pizarre et Cortez?
je ne demande rien
à l’egoïsme des hommes
nous ne demandons rien
à la grande Humanité
je cherche des balles
pour répondre au fusil
mourir en Colombie
au Brésil où ailleurs
je suis un indien
je veux être Libre.


Os poemas acima fazem parte do livro Uma flecha para o país em leilão, publicado originalmente em 1975 e que pela primeira vez será lançado no Brasil, em novembro, pela editora Papéis Selvagens. Tradução de Danielle Grace, com revisão de Marcelo Jacques de Moraes.

[1] Na Guiana, designa a terra cultivada por uma comunidade.

[2] Tam-tam: tipo de tambor.

[3] Mantive na forma original este verso, que mistura português, espanhol e francês. Em conversa com Élie e Nora Stéphenson soube que o verso reproduz uma expressão que circulava nos anos 1960 e se refere a disputas de terras na América Latina, mas eles não puderam explicar o significado exato do termo banneiro. A opacidade dessa palavra, de sentido desconhecido, mas fonética familiar, acaba por instaurar algo de indizível na descrição da tragédia latino-americana feita pelo poema. (Nota da tradutora).


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É poeta e dramaturgo. Nasceu em 1944 em Caiena, na Guiana Francesa, onde vive. É autor, entre outros, de Les rituels du vent (2013), Comme des gouttes de sang (1988) e de Uma flecha para o país em leilão (1975), que será lançado em novembro pela editora Papéis Selvagens.