despedida

UMA NOITE DE ASFIXIA

O planeta como conhecíamos já acabou, mas os bares continuam cheios
Imagem Uma noite de asfixia

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Acordo com a tosse do meu companheiro. Olho para o relógio na mesa de cabeceira: onze da noite. Embora estejamos em setembro, o calor acentuado torna a madrugada infernal. Tenho a sensação de que os ponteiros vão derreter, os algarismos romanos vão escorrer pelo tampo. Minha divagação é interrompida pela voz que soçobra ao meu lado: preciso do inalador.

Levanto para ajudá-lo. Desde que a cidade de São Paulo foi tomada pelo tempo seco e pela fuligem das queimadas, ele anda preso ao nebulizador como a uma mamadeira. Tanto que nem preciso pegar o aparelho, que já está perto da cama. Só me levanto para buscar a garrafa de soro: vazia. Pensávamos que havia outra, mas não. Tal qual um alcoólatra, o ar seco bebeu tudo o que tínhamos em casa: o soro fisiológico, a umidade das toalhas que espalhamos pelo quarto, a água que deixamos numa bacia na sala, a saliva das minhas mucosas.

Parece que fumei um baseado, digo para ele. Parece que fumei um maço de cigarros, ele me diz. Maldito vício que nem temos, exclamo, e depois anuncio que vou até a farmácia. Se pedirmos para entregar o soro em casa pode demorar muito, e a última coisa que quero é acabar com meu marido no pronto-socorro, ainda mais neste dia de ambulatórios tão cheios.

Não tiro o pijama. Além de estar com pressa, penso foda-se, quem vai reparar na estampa de ursinhos quando o país está pegando fogo? Desço pelo elevador, piso no asfalto. Eu já sabia que o site suíço IQAir, responsável por monitorar o clima em 120 metrópoles do mundo, havia apontado São Paulo como a cidade que amargou a pior qualidade do ar durante alguns dias de setembro. Não sabia, porém, que isso podia ser visto e, quem sabe, até tocado. Sob os postes, a luz projeta cones de um branco leitoso, blocos de uma fuligem tão espessa que parecem sólidos. Lá no alto, a Lua brilha opaca, fora de foco, a musa dos poetas asfixiada por um travesseiro de poeira.

Entro na farmácia, procuro pelo soro, sem sucesso. Como não há ninguém no caixa, vou até o balcão, onde encontro uma fila surpreendente para esta hora. Os ofegantes pedem Berotec, Pulmicort, Aerolin. Quem sou eu para interromper o cicio de tão desesperados alvéolos? Resolvo esperar, dando uma olhadinha no Instagram.

O primeiro vídeo que aparece mostra uma cidade goiana ao amanhecer. Calculo que aplicaram um filtro na imagem – só que não. O céu de Jataí está totalmente alaranjado, com um tom tão intenso que não parece real. O morador que entra em quadro também está surpreso. A mulher dele varre a fuligem que cobriu feito chuva toda a entrada da casa.

Em outro vídeo, helicópteros jogam água sobre florestas no interior de São Paulo. Em Mato Grosso, um paredão de fogo cobre as margens do Rio Xingu. No Rio de Janeiro, mulheres desesperadas tentam salvar suas casas do fogo com míseros baldes de água. Onde estão as fotos dos meus amigos? Os gatinhos fofos? Pela primeira vez, desejo que tudo o que estou vendo na minha timeline seja fake news.

Desço o dedo pela tela, esperando que algo desminta aquelas imagens, mas a coisa só piora, é um post de labaredas atrás do outro, sinto quase um alívio ao ver apenas texto sobre fundo branco: “A Organização Mundial da Saúde (OMS) recomenda que as pessoas fiquem em casa, com portas e janelas fechadas. A poluição pode afetar o coração e o sistema respiratório, aumentando o risco de arritmias, infecções, ataque cardíaco e AVC.

Estico o braço até a prateleira de máscaras. Pego uma N95. Rasgo a embalagem, encaixo a máscara no rosto, aperto o clipe nasal, inspiro aquele velho aroma de pandemia. Quem diria que pouco tempo depois viveríamos de novo algo tão alarmante?

Percebo que, se continuar no Instagram, além do soro, precisarei levar um Rivotril e, infelizmente, não tenho receita para isso. Me refugio no Whats­App. Tudo bem aí?, pergunto para o meu companheiro, que responde sim, mas não se exime de mandar uma carinha amarela com máscara.

Logo abaixo, minha mãe escreve: a qualidade do ar em Curitiba está tão ruim quanto em São Paulo. Um amigo de Brasília: minhas narinas estão sangrando. Uma amiga de Portugal: calor atípico aqui. Onde estão os stickers de buquê de flores, as canecas brindando o fim de semana, as pirocas cobertas de purpurina?

Prometo para mim mesma que não vou mais olhar nenhum aplicativo. Até porque está quase na minha vez, o ofegante à minha frente já pegou suas caixinhas, mas de repente ele encosta de novo no balcão: lembrou que precisa de mais alguma coisa.

Sem saber onde colocar o meu dedo indicador, que sofre de transtorno de ansiedade, entro na página de um jornal. O mundo pode não ter mais volta, diz um cientista que entende de crise climática. Estico o braço e pego uma caixa de Maracugina. Penso no futuro dos nossos filhos. Pego outra caixa, de dosagem mais alta.

Finalmente chega a minha vez. Tem soro?, pergunto para a farmacêutica, que também está de máscara. O sonho acabou, tenho a impressão de que ela responde, a frase maximizada por aquela luz fria. Acho que faço uma expressão de desolamento. Ela observa meu rosto, desce os olhos pelo meu pijama. Vou ver se tem lá atrás, e dá as costas, entrando por uma portinha.

Logo volta, abraçada com três garrafas de soro. Digo que levarei todas. A mulher atrás de mim resmunga: é proibido estocar. A roufenha está certa, é justo que cada cidadão tenha direito ao seu quinhão de umidade. Pego só uma. Passo no caixa.

Quando piso na rua, reparo em algo que não tinha reparado antes. Apesar das recomendações da OMS, as calçadas do meu bairro notívago estão movimentadas, as mesas dos bares estão cheias, as janelas dos prédios estão abertas. Quase ninguém usa máscara, as risadas tão livres quanto em qualquer outra ocasião.

Lembro-me dos depoimentos dos candidatos a prefeito. A maioria mal fala da crise climática, das secas que facilitarão cada vez mais os incêndios criminosos. Eles tampouco apresentam um plano consistente para reduzir os efeitos do aquecimento nas cidades. O Brasil segue investindo na extração de petróleo. O mundo segue queimando combustíveis fósseis como se não houvesse Acordo de Paris.

Não tenho mais dúvida: a temida previsão da ciência já se concretizou. O Brasil como conhecíamos acabou, o planeta como conhecíamos acabou. Nossos pés estão fincados no ponto de não retorno, que alguns chamam de Piroceno ou Era do Fogo. Sempre pensei que o fim chegaria em meio ao alarde das multidões, mas a verdade é que vai chegando sob o silêncio de muita gente. Nessa nova realidade que nasce da costela de uma velha natureza, o único grito de protesto que ouço nesta noite estranha vem das sirenes dos bombeiros e das ambulâncias.

É com alívio que chego ao meu bunker de toalhas molhadas. Preparo a inalação, coloco a máscara de plástico no rosto do meu companheiro – a palavra companheiro nunca fez tanto sentido. Depois me deito a seu lado, pego sua mão. Pelo menos o soro não acabou, o amor não acabou. É o que temos pra hoje.


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É escritora, autora do romance Suíte Tóquio (Todavia), entre outros livros. Também é colunista da Folha de S.Paulo.