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LIBÉLULAS SUBVERSIVAS

A intuição do fotógrafo Evandro Teixeira e o instante decisivo

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A imagem é notícia. Foi assim ao longo de quase sete décadas na vida de Evandro Teixeira, magistral artífice do fotojornalismo brasileiro que morreu aos 88 anos no dia 4 de novembro. Com uma câmera inseparável a tiracolo, em tudo o que via antevia páginas de jornal. Primeiras páginas, de preferência. Seu olho preciso, sagaz, malandro e destemido viu de tudo no Brasil e em parte do mundo – ditaduras, carnavais, poderosos, desvalidos, futebol, artistas e transeuntes, mas também o árido cenário de Canudos, que ele amava e visitava uma vez por ano. O sorriso permanente ele trouxe de Irajuba, pequena cidade da Bahia, onde nasceu. Ainda na juventude, já em Salvador, começou a aprender fotografia por correspondência num curso de José Medeiros, mestre consumado do fotojornalismo e estrela da revista O Cruzeiro.

Instante e intuição combinados ajudam a explicar o talento de Evandro. Ao definir o “instante decisivo”, o francês Henri Cartier-Bresson, um dos patronos do fotojornalismo moderno, deu nome ao átimo que congela momentos e ações. Esse instante, depois do advento da imagem em movimento, foi objeto de profecias apocalípticas. Estaria para morrer. Sobreviveu. Por que a imagem imóvel ainda causa tanto impacto? Há bons exemplos todos os dias. Evandro fugiria do debate como o diabo da cruz. Para ele, bons instantes eram golpes de sorte. Sorte ele tinha, mas pelo jeito a sorte é que o procurava, fazendo dele um refém do acaso e do destino. Na verdade, dependia muito mais de um extraordinário senso de oportunidade treinado em correrias pelas ruas.

O senso de oportunidade é o momento do clique, e seu índice de acertos é espantoso. Difere da intuição, outro de seus dotes. Na intuição, há uma fabulação que antecipa onde e de que maneira é melhor postar-se para registrar a notícia. Não uma, mas centenas de vezes essa imanente onipresença fez diferença nas imagens que produziu. Evandro tinha a curiosidade onívora dos bons repórteres.

Não se lapida uma fortuna de instintos sem outros dotes. Um deles é a audácia, que Evandro esbanjou. Quando o príncipe Charles (hoje rei Charles III) esteve no Espírito Santo em 1991 e lá plantou uma muda de pau-brasil, ficou de costas para o séquito de fotógrafos que o seguia. Evandro não teve dúvida. Gritou: “Ô, príncipe, vira para cá, porra!” Com o susto, Charles virou. Foto feita.

Vinte e três anos antes, a mãe de Charles, rainha Elizabeth II, veio ao Brasil. Participou da inauguração da nova sede do Museu de Arte de São Paulo (Masp) em novembro de 1968, na Avenida Paulista. Evandro conseguiu furar o cerco da segurança. Fotografou a rainha curvada para sentar-se no banco do carro que a conduzia. Foto clássica que rodou o mundo. Logo foi alcançado por um cassetete, que quebrou seu braço.

Outro de seus dotes era a perfeição técnica. Em fração de segundos, seu olho combinava luz, velocidade e composição. Foi o que se deu em setembro de 1973 quando, por uma fresta de porta e num tempo exíguo, Evandro fotografou o corpo do poeta chileno Pablo Neruda sendo colocado no caixão. O general Augusto Pinochet, que derrubara o presidente eleito Salvador Allende poucos dias antes, havia proibido o funeral público do ganhador do Prêmio Nobel de Literatura e notório membro do Partido Comunista. A foto foi a maior façanha de Evandro. Um furo internacional.

O conhecimento das manhas de lentes faz com que ele sempre seja lembrado por gerações de profissionais que ajudou a formar pela imagem da Passeata dos Cem Mil, que levou uma multidão ao Centro do Rio de Janeiro no dia 26 de junho de 1968. O prodigioso foco naquele mar de rostos retratou nitidamente fisionomias reconhecíveis. O Jornal do Brasil, onde Evandro trabalhou por 47 anos, não pôde publicar a foto por veto da censura. Cinco décadas depois, em 2018, cem manifestantes procurados por Evandro se reconheceram na foto, sem titubear.

Evandro, com sua divertida malandragem, contribuiu para a propagação de lendas sobre manipulação de imagens. Faz algum sentido achar que ele domesticou libélulas para que pousassem sobre as pontas de baionetas numa solenidade em memória da Guerra do Paraguai? Publicada na capa do Jornal do Brasil, a imagem enfureceu o marechal Arthur da Costa e Silva, ditador que governava o país e presidia a cerimônia. Ele achou inadmissível ser desalojado de um lugar de destaque por libélulas. Não só deu uma descompostura em Evandro como ordenou que o prendessem por uma noite.

Aqui cabe uma digressão. Não há dúvida de que pode haver manipulações em fotografias, mas o enorme legado de Evandro desmente maledicências. Contribui para certa desconfiança um aforismo soprado com respaldo intelectual: “A fotografia sempre mente.” A frase pinçada de um livro é rematada bobagem, que desmerece a inteligência da pensadora americana Susan Sontag, sua autora. A fotografia se presta a falsificações de realidade com o uso da própria realidade. Sempre que a gambiarra é flagrada, a reputação do fotógrafo sai danificada. De resto, desde seu nascimento, a fotografia é uma moldura. Imaginar que o que ficou de fora dessa moldura é sempre o mais relevante do que é abarcado por ela exala alguma má-fé.

O instante para Evandro era um vício, assim como a intuição foi um amuleto. Hoje a intuição – um dos vínculos mais espontâneos com o real – é uma qualidade desdenhada pelo dogma da exatidão. Tornou-se quase uma licença poética. Pois fique-se, então, com as palavras do poeta Fernando Pessoa, que certa vez escreveu: “Sentir é pensar sem ideias, e por isso sentir é compreender, visto que o universo não tem ideias.” Evandro compreendeu o Brasil e seu povo. Além disso, com seu sorriso solar, fez muitos amigos, entre eles, para meu privilégio, eu.


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É jornalista