questões vultosas II
Timothy Snyder Dez 2024 14h33
11 min de leitura
Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo
Tradução de Isa Mara Lando
Foi um erro tratar Donald Trump como uma sucessão de ausências. Em geral, ele era criticado por carecer de algum pré-requisito que se julga necessário para exercer um alto cargo: boa educação, ou gramática correta, ou diplomacia, ou perspicácia nos negócios, ou amor pelo país. Trump de fato carece de tudo isso, assim como de praticamente qualquer virtude burguesa convencional.
Quando ele é avaliado como um candidato convencional, seus talentos e habilidades não são reconhecidos. Não é alguém que procura explicar seus planos de ação para melhorar a vida das pessoas, ou alguém que se esforça para exibir uma aparência de empatia. Mas essa falha é mais nossa do que dele. Trump sempre foi uma presença, não uma ausência: a presença do fascismo. E o que isso significa?
Quando os soviéticos chamavam seus inimigos de “fascistas”, era um insulto sem sentido. A Rússia de Vladimir Putin manteve o hábito: “fascista” é qualquer pessoa que se oponha aos desejos de um ditador russo. Assim, os ucranianos que defendem seu país contra os invasores russos são “fascistas”. É um truque que Trump copiou. Ele também se refere aos seus inimigos como “fascistas”, sem que a acusação tenha qualquer significado ideológico. É só um termo carregado de reprovação e desprezo.
Tanto Putin como Trump são, de fato, fascistas. E o uso que fazem da palavra, embora destinado a confundir, faz lembrar de uma das características essenciais do fascismo. Um fascista não se importa com a conexão entre palavra e significado. Ele não está a serviço da linguagem: é a linguagem que está a serviço dele. Quando um fascista chama um progressista de “fascista”, o termo começa a funcionar de maneira diferente – como o servo de uma determinada pessoa, e não como um portador de significado.
Trata-se de uma grande realização fascista. Diante da complexidade da história, os progressistas se debatem mediante o volume esmagador de perguntas a fazer e de respostas a oferecer. Tal como o comunismo, o fascismo é uma resposta a todas as perguntas, mas cada um dá um tipo diferente de resposta. O comunismo garante que, graças à ciência, se pode encontrar, em todos os eventos, uma direção subjacente, rumo a um futuro melhor. É (ou era) uma ideia sedutora. O fascismo, no entanto, reduz todo esse imbróglio de sensações a um só ponto: aquilo que o Líder diz.
Um progressista precisa contar uma centena de histórias, ou mil histórias. Um comunista conta uma única história, que pode acabar não sendo verdadeira. Um fascista, por sua vez, precisa apenas ser um contador de histórias. Como as palavras não se prendem aos significados, as histórias não precisam ser coerentes. Não precisam estar de acordo com a realidade externa. Um contador de histórias fascista precisa apenas encontrar o pulso latejante do público e segurá-lo. Pode-se fazer isso por meio de ensaios, como ocorreu com Adolf Hitler, ou por tentativa e erro, como o caso de Trump.
Para tanto, é preciso presença, algo que Trump sempre teve. Seu carisma pode não ressoar a um progressista, que, provavelmente, também não seria afetado pelo carisma de Hitler ou de Benito Mussolini. No entanto, é um talento. Ser fascista e, ao mesmo tempo, chamar outras pessoas de fascistas requer uma astúcia ardilosa que em Trump é algo natural. E chamar o inimigo por esse nome, por absurdo que seja, mostra o segundo elemento essencial do fascismo.
Um Líder – Duce em italiano e Führer em alemão significam exatamente isso – inicia sua política escolhendo um inimigo. Carl Schmitt, jurista e pensador do nazismo, afirmou que a escolha é arbitrária. Tem pouco ou nenhuma base na realidade, e ganhará força a partir da vontade decisiva do Líder. Os espectadores que viram as peças de propaganda de Trump na tevê, por exemplo, não tinham sido prejudicados por alguma pessoa transgênero, ou por um imigrante, ou por uma mulher negra. A mágica está na audácia de declarar que um grupo mais fraco faz parte de uma enorme conspiração. Uma única coisa, porém, não é arbitrária na escolha de um inimigo: a exploração de vulnerabilidades. A propaganda eleitoral de Trump projetava uma fantasia segundo a qual Kamala Harris permitiria que milhões de estrangeiros, depois de mudarem de sexo, desembarcariam nos Estados Unidos dispostos a tirar o emprego dos americanos. A fantasia toca, ao mesmo tempo, em três vulnerabilidades: a de gênero, a econômica e a sexual. Estamos desprotegidos e empobrecidos, e vamos ser substituídos por algo muito estranho. E tudo isso está sendo orquestrado por um inimigo nas sombras, nos bastidores – no caso, uma mulher negra que sabe dar uma boa gargalhada.
A teoria da “Grande Substituição” é um exemplo de mentira fascista nada original: os conspiradores vão tornar você impotente e trazer outras pessoas para ocupar o seu lugar. A aparente complexidade do mundo se resolve com uma conspiração, assim como a ansiedade que a acompanha se resolve pelo ódio. Isso funciona praticamente com qualquer combinação de inimigos. Os conspiradores podem ser políticos do “estado profundo” que sequestram bebês, ou judeus que corrompem mulheres. O fascismo vence quando o inimigo convocado começa, ele próprio, a contar essa história.
Um fascista consuma o casamento entre a conspiração e a necessidade. Nem todo mundo consegue contar uma grande mentira com espontaneidade, como fez Trump ao dizer que a eleição em 2020 foi fraudada. E os republicanos ao seu redor nada fizeram para desafiá-lo. Em 6 de janeiro de 2021, a Grande Mentira ganhou vida quando seus seguidores invadiram o Capitólio. E o mais crucial: Trump não pagou nenhum preço por isso. Assim, a Grande Mentira se tornou verdadeira, no sentido fascista. Sua impunidade de facto e depois de jure também produziu a impressão de que Trump era uma figura intocável, heroica.
A presença de Trump sempre foi uma criação conjunta: dele e nossa. Desde o momento em que desceu a escada rolante da Trump Tower, em Nova York, em 2015, ele sempre foi tratado como tema de espetáculo. Como sua presença atraía público para a televisão, ele foi aceito como um candidato legítimo. Na mídia impressa, Trump cresceu na base da doutrina dos “dois lados”: por piores que fossem os seus atos, seu oponente tinha que ser apresentado como igualmente mau. A doutrina autorizou Trump a ser, a um só tempo, perverso e normal. Nos últimos meses de campanha, as pesquisas tiveram um efeito semelhante. Ao dispensar as diferenças entre os planos de governo e reduzir a política a dois rostos, ou duas cores, as pesquisas reforçaram a noção de que Trump pertencia ao lugar onde estava, e que a política se reduz a uma opção entre “nós e eles”.
O que amplia a presença de Trump, mais do que qualquer outro meio, é a internet. Ele se adequa naturalmente aos ritmos excêntricos e imprevisíveis da rede mundial. Os algoritmos da internet nos abrem para Trump e seu fascismo verborrágico. Nas redes sociais, nos afastam das pessoas complexas e nos aproximam dos estereótipos sem rodeios. Nós mesmos somos categorizados e logo alimentados com conteúdos personalizados que trazem à tona, como disse Václav Havel, os nossos “estados mais prováveis”. A internet não só espalha teorias conspiratórias. Ela nos predispõe a elas. Isso já era verdade antes de Elon Musk refazer o Twitter à imagem e semelhança de Trump.
Nosso engajamento com a máquina ilumina uma diferença entre os fascistas dos anos 2020 e os fascistas dos anos 1920. Naquela época, a máquina era vista como arrojada e bela, um instrumento brutal que nos faria voltar para a nossa verdadeira natureza ao nos arrancar do domínio da civilização complacente. O poeta italiano Filippo Tommaso Marinetti teve um insight depois de um acidente de automóvel em 1908, que o levou ao futurismo e, depois, ao fascismo. Para Hitler, o motor de combustão interna acelerava a Blitzkrieg, a vitória-relâmpago. A raça superior, armada com a tecnologia superior, extermina outras raças, toma as terras de outros povos e floresce com vigor.
Até hoje, continuamos dirigindo automóveis com motor de combustão interna, tal como há um século. O que mudou, mais que os meios de transporte, foram os meios de se ficar parado num lugar. Quando os nazistas sonhavam com um rádio em cada casa, ou um cinejornal antes de cada filme, não imaginavam que os alemães ficariam imóveis, de olhos fixos numa tela, a maior parte do dia, como todos nós fazemos agora. Os fascistas de cem anos atrás gostavam do corpo masculino, da aptidão física e de marchas ao ar livre. O fascismo de hoje envolve uma masculinidade amolecida pelo tempo passado diante das telas. Em ambas as eras do fascismo, as mulheres são explicitamente consideradas inferiores. Se o fascismo antigo dependia de uma fantasia de proeza masculina acelerada, o fascismo de hoje se baseia na ansiedade da incapacidade mecânica.
A fantasia fascista tradicional envolvia a volta à natureza. A voz do Líder nos guiava para uma competição contra outras raças, pela conquista do hábitat. Hitler era obcecado por uma catástrofe ecológica iminente, e afirmou, em Minha luta, que os alemães tinham que tomar outras terras. Se não o fizessem, morreriam de fome. Era um argumento incorreto. No entanto, cem anos depois, esses motores de combustão interna e outras tecnologias arcaicas mudaram, de fato, o clima do planeta, a ponto de causar secas e tempestades, como vimos durante a campanha eleitoral. Quando esses desastres ocorrem, os fascistas de hoje reagem exatamente como reagiram Trump e seu vice, J. D. Vance: culpam as vítimas e os imigrantes, e inventam teorias conspiratórias. Se o antigo fascismo matava em nome de um sonho de união com a natureza, o novo fascismo vai matar por meio de uma política da catástrofe – uma aceleração deliberada do aquecimento global e sua exploração a serviço da política do “nós e eles”.
Há um século, os socialistas queriam acreditar que o fascismo era apenas mais um sinal da decadência do capitalismo. Tinham razão, pelo menos na medida em que os homens de negócios da época não compreenderam que o fascismo iria modificar, futuramente, toda a política e toda a sociedade, e não apenas suprimir os sindicatos e subverter a democracia.
Hoje, porém, há um argumento mais agudo. Na verdade, Trump não tem muito dinheiro, mas finge que tem – e a divulgação impune dessa mentira faz parte da sua presença. Seus aliados fascistas mais próximos, Musk e Putin, são, provavelmente, as duas pessoas mais ricas do mundo. O fascismo de hoje está aninhado entre a oligarquia digital (Musk) e a oligarquia dos hidrocarbonetos (Putin). Trump se comprometeu com os oligarcas do petróleo e gás do seu próprio país, garantindo assim a ocorrência de desastres climáticos, sofrimento, imigração e mais oportunidades para dividir o país.
Os oligarcas trazem para o fascismo de hoje sua porta de entrada libertária: segundo eles, o governo é a fonte de todo mal. Enquanto vamos cedendo a essa lógica, os oligarcas dos hidrocarbonetos vão perfurando a terra, e os oligarcas digitais vão perfurando a nossa mente. Um governo enfraquecido não é capaz de controlar nenhuma das duas forças, nem pode prometer uma infraestrutura sólida ou um Estado de bem-estar social. Nessas condições, a liberdade é vista não só como uma luta contra o governo, mas também como uma luta contra nossos próprios vizinhos. As pessoas que afirmam querer a liberdade individual são as mesmas que clamam pelas deportações em massa. Os oligarcas americanos, tanto os digitais como os petrolíferos, apoiam esse tipo de libertarianismo. As redes sociais afastam os homens (e em geral são homens) da ideia de que são heróis solitários e os fazem acreditar que outros grupos devem ser punidos.
O fascismo está agora nos algoritmos, nas vias neurais, nas interações sociais. Como não enxergamos tudo isso? Em parte, por acreditarmos que a história acabou, e os grandes rivais das ideias progressistas já estavam mortos, ou exaustos. Em parte, pelo excepcionalismo americano: “Isso não pode acontecer aqui.” Mas a maior parte foi simples autoabsorção: queríamos enxergar Trump em suas ausências, para que a nossa maneira de ver o mundo não fosse questionada. Assim, deixamos de ver sua presença fascista. Ao ignorar o fascismo, não conseguimos elaborar as previsões – fáceis – do que Trump faria a seguir. Ou, pior ainda, aprendemos a vibrar e nos excitar com nossos próprios erros, porque ele sempre fazia alguma coisa mais chocante do que esperávamos.
Era previsível que Trump iria negar o resultado da eleição de 2020. Era previsível que sua Grande Mentira iria mudar a política americana. É previsível, hoje, que ele dará rédea solta aos oligarcas que, como ele sabe muito bem, continuarão a gerar as bases sociais e digitais da política do “nós e eles”. É previsível que, ao voltar ao poder, ele buscará mudar o sistema para continuar no poder até sua morte. É previsível que usará as deportações para dividir os americanos, acostumá-los com a violência e torná-los cúmplices. É previsível que vá criar um culto dos mártires do 6 de janeiro. É previsível que vá cooperar com governantes estrangeiros de mentalidade semelhante.
Semanas atrás, quando indagado sobre Trump e o fascismo, o historiador Robert Paxton tocou em um ponto importante. Claro que Trump é fascista, disse ele. Pode-se compará-lo a Mussolini e Hitler, mas há um aspecto maior. Para que aqueles dois chegassem ao poder, foi necessário um pouco de sorte. “Parece que o fenômeno Trump tem uma base social muito mais sólida, que nem Hitler, nem Mussolini tiveram”, disse Paxton.
O fascismo é um fenômeno, não uma pessoa. Assim como Trump sempre foi uma presença, o mesmo ocorre com o movimento que ele criou. Não se trata apenas dos fascistas reais que existem dentro do seu movimento – e que não estão se escondendo –, nem das suas referências amigáveis a Hitler e seu uso da linguagem hitlerista (“eles são vermes”, “o inimigo interno”). Ele é responsável pelo que vem a seguir, assim como seus aliados e apoiadores.
No entanto, parte da culpa, e provavelmente uma boa parte, recai sobre as nossas ações e análises. Repetidas vezes, as principais instituições, da imprensa ao Judiciário, ampliaram a presença de Trump. Por repetidas vezes, não demos o nome real às consequências. O fascismo pode ser derrotado, mas não quando estamos do seu lado.