despedida
Lauro Escorel Mar 2025 13h24
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A tristeza provocada pela morte do cineasta alagoano Cacá Diegues, em 14 de fevereiro, me fez lembrar que conheci muito do Brasil graças a seus filmes. Nossa amizade começou durante a década de 1960, no Rio de Janeiro, onde ambos morávamos. Inicialmente, a paixão pelo Botafogo de Garrincha e Didi nos uniu. Depois, as peladas que jogávamos nos fins de semana se encarregaram de nos aproximar ainda mais. Não à toa, no decorrer de quase trinta anos, realizamos quatro longas-metragens juntos – ele como diretor; eu como diretor de fotografia: Bye bye Brasil, Quilombo, Dias melhores virão e O maior amor do mundo.
Desses, o que mais me marcou foi o primeiro. Em julho de 1978, Cacá me chamou por telefone para almoçar no restaurante do Museu de Arte Moderna (MAM), às margens da Baía de Guanabara. Mal iniciamos a refeição, ele disse que tinha gostado da luz em dois filmes fotografados por mim: S. Bernardo, de Leon Hirszman, e Coronel Delmiro Gouveia, de Geraldo Sarno, que acabara de estrear. Logo depois, me convidou para participar de seu próximo trabalho. “Vai se chamar Bye bye Brasil”, antecipou. O longa contaria a história da Caravana Rolidei, um grupo de artistas mambembes que circulava pelo país num caminhão velho para se apresentar em lugarejos onde as antenas de televisão (ou “espinhas de peixe”) ainda não imperavam. Lógico que topei na hora.
Cacá parecia entusiasmado. Ele contou sobre a viagem de pesquisa que fizera havia pouco tempo pelas regiões Norte e Nordeste na companhia de Leopoldo Serran, com quem assinaria o roteiro do filme. De quebra, narrou em minúcias algumas sequências que pretendia criar. Mencionou a necessidade de iluminar os barcos ao fundo das cenas que registraríamos à noite na beira do Guamá, um rio paraense. Também detalhou a amplitude de uma tomada noturna que filmaríamos na cidade de Piranhas, em pleno sertão de Alagoas. Por fim, descreveu a luz azul de uma tevê que surgiria atrás de uma igreja em Murici, outro pequeno município alagoano. Eram todas imagens de difícil realização com os equipamentos de que dispúnhamos. Antes que eu pudesse comentar qualquer coisa, Cacá me orientou a pedir para os produtores – o casal Lucy e Luiz Carlos Barreto – as luzes, lentes e filtros necessários.
Saí muito animado do encontro. Tinha 28 anos e estava prestes a encarar meu maior desafio profissional até aquele momento. Desbravaríamos os grotões do Brasil numa época de estradas e telecomunicações precárias. José Wilker e Betty Faria já sabiam que interpretariam os protagonistas Lorde Cigano (o Imperador dos Mágicos) e Salomé (a Rainha da Rumba). Aprovados posteriormente num teste para jovens atores, Fábio Júnior e Zaira Zambelli assumiriam os papéis do sanfoneiro Ciço e de sua mulher grávida, Dasdô. O artista circense Príncipe Nabor completaria a trupe como Andorinha, o Rei dos Músculos.
Poucos meses depois do almoço no MAM, fui conhecer as locações do nosso road movie. Viajei com Cacá, o cenógrafo Anísio Medeiros, o diretor de produção Marco Altberg e o assistente de direção Fábio Barreto. Recordo que Cacá conversava muito com Medeiros sobre aspectos das culturas locais que desejava levar à tela. Em algumas cenas do filme, por exemplo, Lorde Cigano manipula artesanatos eróticos, como um macaco de borracha excitado e uma caixinha de madeira que, quando aberta, revela um casal libidinoso. Cacá descobriu essas besteirinhas no Mercado Ver-o-Peso, de Belém, e fez questão de incorporá-las à trama. Outro exemplo: em Piranhas, nos mostraram um marco com uma inscrição que dizia algo como “Do povo de Piranhas do século XIX ao povo de Piranhas do século XX”. A frase acabou inspirando a dedicatória que fecha o longa: “Ao povo brasileiro do século XXI.”
Em dezembro de 1978, iniciamos as filmagens. Nosso comboio partiu do Rio de Janeiro e percorreu milhares de quilômetros até o Pará. Era formado por quatro caminhões. Três carregavam equipamentos, figurinos e material cenográfico. O quarto, um Fiat verde, iria transportar os artistas mambembes em cena. Embora novíssimo, dava a impressão de cair aos pedaços devido à engenhosidade dos cenógrafos liderados por Medeiros.
Nós, técnicos e atores, voamos para Belém e, de lá, para Altamira, onde aguardamos a chegada do comboio. Ficamos hospedados num alojamento simples do Departamento Nacional de Estradas de Rodagem (DNER), hoje extinto. A comida não era das melhores. Mesmo assim, mantivemos o bom humor. Fazíamos as refeições juntos e, nas horas vagas, líamos ou jogávamos cartas.
Começamos os trabalhos pela sequência em que Dasdô, auxiliada por Salomé, dá à luz na carroceria do caminhão verde. Filmamos a cena na Transamazônica, rodovia que atravessa mais de oitenta municípios, inclusive Altamira. O calor forte, a umidade extrema e um zilhão de insetos atrapalhavam bastante a nossa vida. A calma de Cacá, porém, contribuiu para que nada desandasse. Aplausos do elenco e dos técnicos encerraram aquele primeiro dia de atividades.
Durante os quatro meses de ralação, nunca vi Cacá perder a paciência. Ele falava sempre em voz baixa. Na véspera das filmagens, ensaiava os atores e explicava ao resto da equipe como gostaria que os planos ficassem. Esperava com paciência até que todos se posicionassem no set e dizia: “Ação!” Nossas diárias raramente duravam mais do que oito horas.
Festejamos o Natal em Altamira. Betty Faria organizou uma linda ceia. Ela teve o cuidado de perguntar o que cada um queria comer. Fui premiado com ótimas rabanadas.
De Altamira, voltamos para Belém. Lá, pela primeira vez, pudemos ver a projeção do que havíamos filmado. Foi numa sala de cinema, logo após a última sessão. Que desastre! As imagens pareciam desfocadas. Saí abatido da exibição. Cacá se aproximou e me garantiu que estava tudo em ordem: “Relaxa! O projetor daqui é ruim…” Antes de deixarmos a capital paraense, ele reuniu a equipe inteira e nos preveniu de que, em Alagoas, nossa próxima parada, enfrentaríamos condições de trabalho ainda mais difíceis, com alojamentos e comida piores.
Nas cidades alagoanas onde filmamos – Maceió, Piranhas, Murici e Paripueira –, Cacá não escondia a felicidade de compartilhar conosco as maravilhas de seu estado natal. Ele vibrava diante de um bonito nascer do sol ou de certos pratos típicos, como o camarão ao leite de coco que devoramos no Bar das Ostras, um dos orgulhos maceioenses, localizado perto da Lagoa Mundaú. Infelizmente, o estabelecimento fechou em 2002.
Nosso comboio ainda passou por Brasília antes de aportar no Rio de Janeiro. Ao longo das filmagens, tivemos alguns contratempos. Uma locação pegou fogo em Belém. Uma tevê explodiu sobre a plateia numa praça de Murici, mas não feriu ninguém. José Wilker e Fábio Barreto se perderam durante um passeio noturno pelo Rio Xingu, em Altamira. Fábio Júnior – que cantava Roberto Carlos nos momentos de folga – contraiu hepatite, provavelmente no sertão de Alagoas.
Rodamos o último plano de Bye bye Brasil em abril de 1979. Na Barra da Tijuca, ao amanhecer, Ciço e Dasdô se despediram de Lorde Cigano e Salomé, que ganharam novamente a estrada, desta vez rumo a Rondônia. O filme estreou dez meses depois. Tornou-se um clássico do cinema nacional.