anais do holoceno

O OCASO DOS GIGANTES

Os grandes mamíferos da América do Sul viveram muito mais do que se imagina?
Imagem O ocaso dos gigantes

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Os primeiros grupos humanos que chegaram à América do Sul se depararam com uma paisagem dominada por animais estranhos que ninguém havia visto antes. Eram mamíferos de grande porte, muito maiores do que os que hoje vivem no continente. Alguns guardavam similaridade com espécies contemporâneas: os mastodontes, por exemplo, são parentes próximos dos elefantes. Outros pareciam versões turbinadas dos bichos atuais – caso do gliptodonte, um tatuzão encouraçado quase da altura de um humano adulto. Uma espécie de gliptodonte – o Doedicurus clavicaudatus – tinha uma profusão de espinhos na ponta da cauda, o que lhe dava certo ar de criatura mitológica. E havia ainda animais que, aos olhos de hoje, pareciam saídos da prancheta de um ilustrador inspirado. É o caso da macrauquênia, um bicho com a cara de uma anta de tromba curta, pescoço comprido e porte de um bisão.

Quando os fósseis desses bichos começaram a aparecer com mais frequência, a partir do fim do século XVIII, os primeiros relatos os descreveram como monstros. Não é de espantar. Aqueles mamíferos gigantes – que são chamados coletivamente de megafauna – não se encaixavam na visão de mundo dos naturalistas de então, e eles ficaram estarrecidos. Os estudiosos ainda não entendiam que espécies de plantas ou animais podiam simplesmente desaparecer, e não souberam como classificar aqueles fósseis.

Foi justamente a partir do fóssil de um exemplar da megafauna sul-americana que o naturalista francês Georges Cuvier (1769-1832) desenvolveu o conceito de extinção de uma espécie. O animal em questão era uma preguiça-gigante que pesava até 4 toneladas e podia chegar a quase 4 metros de altura se ficasse de pé sobre as patas traseiras. Cuvier batizou-a de Megatherium americanum – foi a primeira espécie extinta a ganhar um nome científico. Ossos do bicho haviam sido coletados nas margens do Rio Luján, um afluente do Rio da Prata (que corre na Grande Buenos Aires), onde foi encontrado um dos mais ricos conjuntos de fósseis de mamíferos gigantes.

A extinção da megafauna na América do Sul foi um evento brutal, que dizimou mais de 4 de cada 5 gêneros de mamíferos do continente. Nenhum mamífero de grande porte sobreviveu para contar a história. Os atuais tatus não chegam perto da dimensão imponente dos gliptodontes, seus primos da Era do Gelo. Os únicos parentes vivos das preguiças-­gigantes são os bichos-preguiça, que não chegam a 1 metro de comprimento e pesam cerca de 10 kg. Hoje, o maior mamífero do continente é a anta, que não pesa muito mais que 300 kg.

A maioria dos estudiosos acredita que a megafauna se extinguiu por volta de 11,7 mil anos atrás. Essa data marca o fim do Pleistoceno, uma época geológica que se estendeu por mais de 2 milhões de anos e foi caracterizada por uma sequência de glaciações. Durante a Era do Gelo, como o Pleistoceno também é chamado, boa parte das terras das altas latitudes estava coberta por geleiras, as temperaturas eram mais frias e o nível do mar estava 130 metros abaixo do atual. Ainda assim, a Terra era um planeta amigável para os grandes mamíferos, que se espalharam por vários continentes.

Quando as geleiras derreteram e o termômetro voltou a subir veio o Holoceno, uma época de condições ambientais bem mais amenas e estáveis, que já foi definida pelo cientista britânico William James Burroughs como “o fim do reino do caos”. Mas a vida ficou mais difícil para os grandes mamíferos que imperaram na Era do Gelo. Com as mudanças ambientais, os biomas se modificaram: boa parte das áreas abertas onde esses animais viviam foram tomadas por florestas, e encontrar comida se tornou uma tarefa mais difícil. Para muitos paleontólogos, essa foi a causa principal de extinção da megafauna.

Mas havia também o elemento humano. Se não há consenso entre os arqueólogos sobre quando os Homo sapiens chegaram à América do Sul, fato é que, por volta de 12 mil anos atrás – bem na virada do Pleistoceno para o Holoceno –, a América do Sul estava praticamente toda povoada por humanos, como mostra a profusão de achados arqueológicos em vários pontos do continente. Os humanos passaram a competir com os grandes mamíferos por território e recursos, e possivelmente caçavam alguns deles para se alimentar. Para outros paleontólogos, o Homo sapiens foi o principal culpado pela extinção da megafauna.

Os estudiosos se dividem sobre o papel que teve cada um desses fatores – o fim da Era do Gelo e o contato com os humanos – no processo de extinção. Já a data que situava a extinção da megafauna no começo da transição para o Holoceno não suscitava controvérsia. Isso até janeiro deste ano, quando foi publicado um estudo assinado por cinco paleontólogos brasileiros. Os autores alegam que ainda havia mamíferos gigantes vivendo onde hoje fica o Ceará por volta de 3,5 mil anos atrás, vários milênios depois do fim da Era do Gelo.

Se estiverem certos, será preciso reescrever a história da vida na América do Sul.

O estudo brasileiro saiu na revista especializada Journal of South American Earth Sciences. O primeiro autor é o carioca Fábio Henrique Cortes Faria, um geógrafo que se especializou em paleontologia. O trabalho é fruto da pesquisa que ele vem desenvolvendo no pós-doutorado na Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), junto com seus orientadores no doutorado, os professores Ismar de Souza Carvalho, da mesma universidade, e Hermínio Ismael de Araújo-Júnior, da Universidade do Estado do Rio de Janeiro (Uerj).

Numa entrevista à piauí, Faria contou que o objetivo do estudo nunca foi quebrar um paradigma sobre a extinção da megafauna. A ideia original era mais modesta: datar fósseis de grandes mamíferos que viveram no Brasil e, com isso, preencher a lacuna de conhecimento que existe sobre a idade desses bichos. “Temos tantos fósseis, mas muito poucas datações diretas”, disse Faria. Com essa informação em mãos, os pesquisadores poderiam entender melhor quando e por que a megafauna se extinguiu, e se ela interagiu com grupos humanos.

Em vez de promover novas escavações, Faria e seus colegas decidiram datar fósseis da megafauna brasileira que já tinham sido coletados e pertencem a coleções científicas de várias instituições. No acervo do Instituto de Biociências da Universidade Federal de Mato Grosso do Sul (UFMS), eles pegaram um dente de Eremotherium laurillardi, uma preguiça-gigante que era ainda maior que o Megatherium descrito por Cuvier, e podia alcançar 6 metros de comprimento. O fóssil do Eremotherium foi encontrado nas margens do Rio Miranda, no Oeste de Mato Grosso do Sul, exposto por causa da erosão.

As demais amostras datadas no estudo vêm de um ponto situado a 2,6 mil km em linha reta dali, em outra extremidade do país. São dentes fossilizados de grandes mamíferos pertencentes ao acervo do Museu de Pré-História de Itapipoca, município de 131 mil habitantes no Norte do Ceará. O museu foi criado há vinte anos por iniciativa do paleontólogo Celso Lira Ximenes, e reúne milhares de fósseis coletados principalmente por ele próprio desde 1989 nos sítios da região. Ximenes contou que o material datado no estudo recém-publicado foi escavado em 2006, num sítio chamado Jirau 01. “Já tiramos mais de 3 mil fósseis desse depósito”, afirmou.

Jirau 01 é um tipo de formação abundante naquela região que os especialistas chamam de tanques naturais e só ocorrem no Nordeste do Brasil. Os tanques naturais são pequenas depressões em rochas muito antigas, preenchidas por sedimentos levados por enxurradas, como explicou à piauí Hermínio de Araújo-Júnior, que estudou o material. “Certamente a fauna morria no entorno dos tanques em momentos de seca e, depois, com as enxurradas, era transportada para dentro, junto com os sedimentos”, afirmou. Assim, os esqueletos desses bichos foram enterrados e ficaram preservados na forma de fósseis.

Araújo-Júnior contou que, só no tanque de Jirau 01, os pesquisadores encontraram fósseis de mais de trinta espécies. Dentre aquelas que foram datadas pelos autores, estão representantes ilustres da megafauna, como o mastodonte, a preguiça-gigante ou o dentes-de-sabre, um grande felino do porte de um leão com um dente canino que podia passar de 20 cm de comprimento (ele é chamado também de tigre-dentes-de-sabre, nome para o qual alguns especialistas torcem o nariz porque a espécie não tem parentesco com o tigre). Entre outras espécies, havia ainda um toxodonte, um bichão do porte de um rinoceronte com as costas arqueadas.

Os pesquisadores mandaram as amostras selecionadas para serem datadas no Laboratório de Radiocarbono da Universidade Federal Fluminense (UFF), em Niterói – o único da América do Sul capaz de datar fósseis por carbono-14 com tecnologia de ponta. Os resultados pegaram os autores desprevenidos. “Foi uma grande surpresa”, diz Araújo-Júnior. “Esperávamos receber idades próximas do padrão esperado para a megafauna na América do Sul, como 12 mil, 15 mil ou 18 mil anos.” Não foi o que aconteceu.

De acordo com as datações, a preguiça-gigante de Mato Grosso do Sul viveu entre 6,1 mil e 7,4 mil anos atrás. Exemplares da mesma espécie encontrados nas amostras de Jirau 01, no Ceará, tinham idade na casa de 6,2 mil a 8,5 mil anos. Tanto o toxodonte quanto o mastodonte e o dentes-de-sabre viveram há 8 mil ou 9 mil anos. São datas posteriores ao horizonte apontado para a extinção da megafauna. Mas nada tinha preparado os pesquisadores para a idade de dois representantes da megafauna cearense.

Os bichos em questão são a paleolhama, um parente extinto das lhamas que ainda vivem na Cordilheira dos Andes, só que de maior porte. O outro é um primo da macrauquênia pertencente à espécie Xenorhinotherium bahiense, que parece um híbrido de vários animais contemporâneos. “Ela seria do tamanho de um camelo, com a aparência de um cavalo e uma pequena tromba”, propôs Celso Ximenes. A datação apontou que a paleolhama e a macrauquênia ainda vagavam pelo Ceará entre 3,4 mil e 4,2 mil anos atrás. Ou, como diriam os paleontólogos, anteontem.

Os átomos de carbono do Universo existem na forma de diferentes isótopos, ou seja, variedades com diferentes números de nêutrons em seu núcleo. As formas mais abundantes e estáveis são o carbono-12 (com 6 nêutrons e 6 prótons) e o carbono-13 (com 7 nêutrons e 6 prótons). Mas existe também um isótopo radioativo desse átomo, o carbono-14 (com 8 nêutrons e 6 prótons). Mais instável que os outros, ele tende a se transformar num átomo de nitrogênio-14 num ritmo já identificado pelos cientistas. Quando um bicho ou planta morre e se transforma em fóssil, os átomos de carbono-14 em suas moléculas orgânicas começam a decair naquele ritmo. Por isso, calculando-se a proporção de átomos de carbono-14 presentes na amostra fossilizada, é possível estimar há quanto tempo aquele organismo morreu.

A técnica de datação por carbono-14 foi desenvolvida no fim dos anos 1940 pelo químico americano Willard Libby (1908-80) e lhe rendeu um Prêmio Nobel onze anos depois. O método revolucionou a arqueologia e a paleontologia por permitir, pela primeira vez, determinar a idade de uma amostra (ele só funciona para materiais com até cerca de 50 mil anos). Até então, só era possível dizer se um dado organismo era mais novo ou mais velho do que outra amostra, sem determinar a data.

O método de Libby consiste em medir a radiação emitida por uma determinada amostra, de forma a calcular a quantidade de carbono-14 nela presente. No fim dos anos 1970, porém, os cientistas encontraram uma forma mais eficaz de fazer o cálculo: contar diretamente os átomos de carbono-14 da amostra. Para tanto, os cientistas usam um acelerador, que coloca os átomos em altas velocidades. Em seguida, os átomos passam por filtros capazes de separar os diferentes isótopos, permitindo que se calcule a proporção entre eles. Esse método não só é mais rápido e preciso que o convencional, mas também requer quantidades bem menores do material para fazer a datação. Antes, eram necessários alguns gramas. Com a nova técnica, bastam poucos miligramas.

Em 2012, o Laboratório de Radiocarbono da UFF se tornou o primeiro da América Latina a fazer datações com a técnica mais moderna. (Atualmente, há apenas mais um laboratório com a mesma capacidade, situado na Cidade do México.) Sua inauguração ofereceu aos cientistas brasileiros a possibilidade de datar amostras sem a necessidade de enviá-­las ao exterior, como eram obrigados a fazer até então. O equipamento da UFF já foi usado para datar amostras coletadas em sambaquis (montes de conchas e outros materiais encontrados principalmente no litoral do Brasil), cerâmicas de origem tupinambá e guarani ou fragmentos de pinturas rupestres, dentre outros. O laboratório é usado também para investigar amostras ambientais, materiais industriais ou combustíveis. Já foi usado para analisar quanto carbono-14 havia em amostras de marfim apreendidas pela Polícia Federal e, com isso, elucidar sua proveniência.

São dois ambientes diferentes no laboratório da UFF. Um deles é para a preparação das amostras e lembra mais um laboratório de química, com bancadas, tubos de ensaio e reagentes. O outro abriga o acelerador e os equipamentos de aparência sofisticada usados no monitoramento e análise dos resultados. “No caso de um fóssil, a gente faz um orifício e tira um pozinho que vai servir para a datação”, diz a física Kita Damasio Macario, diretora do laboratório, que recebeu a piauí numa tarde de abril.

O pó é então processado para a extração do colágeno, uma proteína que protege o osso e será usada na datação. Depois disso, o material é queimado para que seja transformado em dióxido de carbono, e é desse gás que são extraídos e isolados os átomos de carbono a serem enviados ao acelerador (eles são transformados em grafite, que nada mais é que carbono na forma pura). Macario explica que o acelerador em que acontece a contagem de átomos de carbono-14 é capaz de analisar 25 amostras simultaneamente, num processo que dura quarenta horas. “No método convencional você só consegue medir uma amostra por dia.”

O estudo brasileiro não foi o primeiro a encontrar datas do Holoceno para espécimes da megafauna nas Américas do Sul e do Norte. No artigo publicado em janeiro, os próprios autores fazem uma compilação de dezenas de outras ocorrências intrigantes relatadas na literatura científica. Muitas delas estão localizadas em ilhas, como Cuba, Haiti ou um arquipélago no Alasca, onde grandes mamíferos podem ter sobrevivido por mais tempo. Mas há também várias datas recentes encontradas na Argentina, incluindo o caso de um Doedicurus clavicaudatus – o gliptodonte com espinhos na cauda – que pode ter vivido há cerca de 5,5 mil anos.

Nenhuma dessas datações foi suficiente para alterar o consenso dos cientistas sobre a época da extinção da megafauna. Mas nenhuma delas era tão recente quanto a idade encontrada para a paleolhama e a macrauquênia do Ceará. A data de 3,5 mil anos – ou 1,5 mil anos antes do início da era comum (EC) – tem o efeito simbólico de atualizar nosso imaginário. Em vez de nos remeter àquele passado profundo, onde acomodamos a memória dos grandes mamíferos extintos, a nova data faz parte de um contínuo temporal histórico em que viveram os ancestrais dos povos indígenas atuais.

Além disso, se ainda havia representantes da megafauna vivos em época mais recente, é preciso repensar como foi a extinção desses animais. Os resultados sugerem que se tratou de um processo irregular, que não aconteceu ao mesmo tempo em todas as partes do continente. “Nosso artigo mostra que não foi uma coisa abrupta, chegou o fim do Pleistoceno e acabou”, disse Fábio Faria, notando que os grandes mamíferos se mantiveram resilientes nos ambientes que continuaram favoráveis para sua sobrevivência. Para Ismar Carvalho, os resultados do estudo nos estimulam a colocar em perspectiva os eventos de extinção, que podem parecer instantâneos a julgar pelo registro que às vezes deixam nas rochas. “Mas devemos entendê-los sempre como um longo processo no qual transformações vão ocorrendo, com o antigo dando lugar à novidade, para as criaturas que estão mais adequadas aos novos espaços ecológicos e às novas condições climáticas.”

Com área um pouco maior que a do município de São Paulo, Itapipoca é conhecida por ser uma cidade de três climas – do litoral, da serra e do sertão. “Pela Serra de Uruburetama passam vários rios que vão desaguar no mar”, diz Hermínio Araújo-Júnior. “Ela funciona como uma grande barreira para as nuvens.” Com isso, a chuva acaba caindo naquela região, que virou uma espécie de Mesopotâmia encravada no semiárido, como propôs o paleontólogo. Ele acredita que as condições ambientais locais propiciaram a sobrevivência dos grandes mamíferos. “Essa região pode ter funcionado como um último abrigo para a megafauna.”

Durante a Era do Gelo, o tempo frio e seco estimulou a expansão de áreas de vegetação aberta às quais os grandes mamíferos se adaptaram. As condições climáticas e ambientais do Holoceno, porém, favoreceram a expansão de grandes florestas tropicais – como a Amazônia e a Mata Atlântica no território brasileiro. De acordo com a estimativa de um estudo argentino de 2003, as áreas de vegetação fechada cobriam apenas 15% da América do Sul no auge da Era do Gelo; já nos tempos modernos, elas correspondem a 67% do continente. Os grandes mamíferos saíram prejudicados nesse movimento e acabaram confinados em ambientes que ainda eram adequados ao seu estilo de vida. E o Nordeste do Brasil tinha condições favoráveis à sua sobrevivência até a época em que teriam vivido a macrauquênia e a paleolhama.

Por volta de 5 mil anos atrás, as florestas que se espalhavam por aquela área foram substituídas pela vegetação típica da Caatinga, mais aberta e rasteira, que predomina até hoje. Nessa época, teve início uma série de ciclos de secas, que afetaram drasticamente a disponibilidade de recursos para os animais, como disse à piauí o geomorfologista Antonio Carlos de Barros Correa, da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). “Isso pode ter contribuído muito para os momentos finais da megafauna”, disse Correa, que não teve envolvimento no estudo.

Os resultados obtidos pelos pesquisadores brasileiros reforçam uma hipótese proposta por Mario de Vivo e Ana Paula Carmignotto, pesquisadores do Museu de Zoologia da Universidade de São Paulo (USP). A dupla alegou que os grandes mamíferos se extinguiram apenas no meio do Holoceno, durante um longo período de temperaturas particularmente altas. A hipótese ajuda ainda a explicar por que a megafauna desapareceu completamente na América do Sul, mas sobreviveu na África, onde está representada hoje por animais como girafas, elefantes, hipopótamos e rinocerontes. “No continente africano, mesmo com todas as mudanças ambientais, grandes áreas de deserto foram transformadas em ambientes de savana, proporcionando locais favoráveis à megafauna”, diz Fábio Faria.

Algumas localidades da América do Sul guardam o registro da interação dos humanos com os grandes mamíferos. Em Santa Elina, em Mato Grosso, foram encontrados três ossinhos de preguiça-gigante perfurados e polidos, possivelmente para serem usados como adornos (tratava-se de osteodermos, pequenas placas ósseas que ficavam sob a pele do animal). No Arroyo del Vizcaíno, no Uruguai, apareceram dezenas de ossos de preguiça e outros mamíferos com marcas que só poderiam ter sido deixadas por ferramentas de pedra de fabricação humana. Recentemente, foram encontrados na margem do Rio Reconquista, na Grande Buenos Aires, fósseis de um gliptodonte que também tinham marcas deixadas por ferramentas, provavelmente usadas para carnear o bicho e fazer um churrasco de megafauna.

Se de fato havia grandes mamíferos no Ceará há cerca de 3,5 mil anos, eles foram contemporâneos de grupos humanos que povoavam o território naquele momento. A ocupação mais antiga que se conhece no estado tem cerca de 4,6 mil anos e foi encontrada nos sítios arqueológicos da Praia de Sabiaguaba, em Fortaleza. Os humanos provavelmente sabiam da existência desses bichos, e talvez se alimentassem deles, mas nunca foram encontrados rastros dessa interação nos sítios arqueológicos da região.

A verdade é que os arqueólogos ainda sabem pouco sobre os grupos humanos que ocuparam o Ceará no passado. “Até um tempo atrás a gente contava nos dedos das mãos o número de colegas trabalhando e de sítios com datações no estado”, diz o arqueólogo Igor Pedroza. “Temos muitas perguntas para fazer, mas faltam sítios, falta verba e falta gente”, continuou o pesquisador, que defendeu em março uma tese de doutorado pela UFPE sobre artefatos encontrados num sítio no interior do Ceará.

Para Araújo-Júnior, a lenda do Mapinguari – uma criatura gigante e peluda –, que faz parte do folclore amazônico, é um argumento que reforça a ideia de que os grandes mamíferos sobreviveram na América do Sul até épocas bem recentes. Por trás da figura mitológica, estariam preguiças-gigantes avistadas por povos originários ancestrais e transformadas em histórias contadas por sucessivas gerações. “Parece ter lógica que os povos originários conviveram de modo muito próximo com a megafauna”, diz o paleontólogo.

Se a nova datação estiver certa, os humanos terão um bônus adicional: podem se livrar de parte da culpa pela extinção da megafauna. Para Araújo-Júnior, essa possibilidade ganha força se considerarmos que há poucos sítios arqueológicos com evidências de interação entre os humanos e a megafauna. “O que nos faz pensar que a chegada humana à América do Sul não foi um fator tão predominante para a extinção da megafauna como foi na América do Norte”, diz.

Mas nem todos os paleontólogos endossam essa alegação. O uruguaio Richard Fariña, pesquisador da Universidade da República, em Montevidéu, considera que o contato com os humanos foi fatal para os grandes mamíferos. “Não houve nenhum processo de extinção importante no último milhão de anos nas Américas até o finzinho do Pleistoceno, quando a presença humana começa a ser importante”, diz o pesquisador, que é coautor de um livro de referência sobre a megafauna sul-americana e não teve envolvimento com o trabalho brasileiro.

Para a paleontóloga paulista Thais Pansani, pesquisadora da Universidade do Novo México, que também não participou do estudo, as mudanças ambientais no fim da Era do Gelo não são suficientes para explicar a extinção da megafauna. Numa entrevista à piauí, ela disse que, ao longo do Pleistoceno, os grandes mamíferos atravessaram vários ciclos de glaciação e deglaciação sem serem extintos. “E o que é que muda no fim do Pleistoceno? O que é que aparece de novo? O ser humano”, continuou Pansani. “A junção da mudança climática com o acréscimo da densidade e da inovação tecnológica dos seres humanos foi o conjunto que levou à extinção da megafauna.”

Os próprios autores não medem palavras para ressaltar as implicações do estudo. “Esse artigo é um ponto de inflexão na história da evolução da megafauna nas Américas”, diz Araújo-Júnior. “Ele abriu uma porta que estava fechada e ninguém imaginaria que um dia fosse aberta.” Ismar Carvalho, por sua vez, diz que a descoberta é de certa forma revolucionária. “Ela muda aquilo que define o limite do Pleistoceno para o Holoceno, que são as grandes extinções e o desaparecimento da megafauna.” Já para Celso Ximenes, “esse é o tipo de informação que muda os livros escolares”.

Talvez ainda seja cedo para reescrever os manuais. Um velho clichê dos cientistas afirma que alegações extraordinárias requerem provas extraordinárias, e alguns especialistas acreditam que as provas apresentadas pelos brasileiros não chegam a tanto. O trabalho não despertaria reticências se as datas encontradas fossem de 10 mil anos ou mais, porque isso seria o esperado. Como a idade encontrada foi muito fora da curva, os cientistas examinaram de perto os resultados, e alguns questionaram seu alcance ou sua validade.

Thais Pansani notou que a extinção da megafauna foi um evento de escala continental, e que o estudo traz apenas poucas datas referentes a duas localidades, insuficientes para dar uma visão mais abrangente do que pode ter acontecido com os grandes mamíferos no resto da América do Sul. Para ela, os resultados apontam possibilidades interessantes que precisam ser exploradas no futuro. “É um trabalho que mexe com nossas ideias, mas ainda não muda o que a gente conhece sobre a extinção da megafauna. Nos meus próximos artigos, não colocarei que a megafauna foi extinta no Holoceno.”

O uruguaio Richard Fariña também acha que os resultados surpreendentes precisam ser confirmados por novas evidências. “Vamos ficar mais confiantes quando houver mais dados, como sempre acontece na ciência.” Uma forma de trazer novas evidências é achar outros fósseis da megafauna com datas do Holoceno. Mas os cientistas também poderiam fazer testes adicionais com os fósseis que já têm. Poderiam recorrer, por exemplo, à luminescência opticamente estimulada, um método que permite datar não os fósseis, mas as camadas de sedimentos em que eles foram encontrados.

Como o próprio Fariña notou, há certa ironia na sua reticência com os resultados do novo trabalho, já que ele próprio é autor de estudos com implicações assombrosas – e que foram contestados por colegas. O uruguaio está por trás das escavações do Arroyo del Vizcaíno que encontraram ossos de megafauna com marcas deixadas por ferramentas humanas há 31 mil anos. Como a maioria dos arqueólogos defende que a ocupação humana das Américas começou, no máximo, há 20 mil anos, os achados do grupo de Fariña foram colocados em dúvida por alguns colegas. Para o uruguaio, as críticas serviram de estímulo para que seu grupo trouxesse dados mais robustos. “A gente teve que brigar para obter melhores evidências, e aí as pessoas começaram a aceitar nossos resultados.” A ocupação antiga do Arroyo del Vizcaíno, no entanto, ainda não é consensual.

O uruguaio não se convenceu com o estudo brasileiro, mas disse que a pesquisa é muito valorosa e que está disposto a dar aos autores o benefício da dúvida. “Faço isso com grande prazer e até com esperança, porque obrigaria as pessoas a pensar de forma diferente”, diz. “Essa é que é a graça da ciência. Por isso eu trabalho como cientista e não em um banco.”

A maior parte das críticas ao estudo dos brasileiros apontou a possibilidade de uma contaminação dos fósseis que foram submetidos à datação por carbono-14. Moléculas mais recentes com átomos de carbono poderiam ter se misturado às moléculas de colágeno dos fósseis, comprometendo os resultados.

O paleontólogo Mário Dantas, da Universidade Federal da Bahia (UFBA), especializado na interpretação de datações da megafauna, explicou à piauí que a preservação do colágeno é mais fácil em ambientes temperados do que nos trópicos. “Como é muito quente aqui na região tropical, as proteínas acabam se desnaturando facilmente.” Mas os cientistas podem fazer uma série de testes para provar que o colágeno que extraíram é de boa qualidade – e que, portanto, os resultados da datação podem ser considerados válidos.

Quando o grupo brasileiro submeteu seu artigo ao Journal of South American Earth Sciences, um dos especialistas anônimos recrutados pelos editores para fazer a revisão por pares chamou a atenção para a possibilidade de contaminação e recomendou aos autores que fizessem um desses testes. No caso, um cálculo da proporção de átomos de carbono e nitrogênio em cada amostra analisada. O valor encontrado para todas as amostras ficou dentro do intervalo que indicaria uma qualidade aceitável de preservação das moléculas. “O colágeno era bom para a datação”, diz Araújo-Júnior. Os editores ficaram satisfeitos com o teste, e o artigo foi publicado.

Mário Dantas alega, no entanto, que o intervalo considerado no estudo é válido para amostras encontradas em ambientes temperados. Para ambientes tropicais deveriam ser observados valores mais rígidos e restritos. Se fosse esse o critério observado, a maioria das amostras não teria passado no teste. “Das oito datações que eles apresentaram, cinco estão fora do intervalo que é sugerido para a região tropical”, diz Dantas. O paleontólogo afirma também que os pesquisadores deveriam ter feito outros dois testes que poderiam avaliar a qualidade do colágeno para a datação.

Outro tipo de reforço que os autores poderiam arregimentar para se blindar das críticas seria fazer datações de outro tipo de material presente no fóssil – uma molécula que é parte da fração mineral dos ossos. As datações com esses materiais são menos precisas do que as feitas com colágeno, mas estão menos sujeitas à contaminação. Caso os autores encontrassem valores compatíveis com as datações feitas com colágeno, teriam um argumento de peso em defesa de seus dados.

Dantas não participou do estudo, mas já publicou trabalhos em colaboração com alguns dos autores e frisou que seus comentários não representam um questionamento à competência deles. Ele disse que manifestou suas objeções aos colegas quando soube das datações. “Por causa do ineditismo do que eles estão propondo e da relevância dos resultados, eles precisariam ser mais rígidos”, diz. “Ao encontrar datações tão singulares, você precisa ter um reforço desses resultados.”

Mas os autores estão confiantes. “Cumprimos todos os requisitos básicos necessários para garantir que o material que foi datado era de fato colágeno”, diz Fábio Faria. “Temos plena segurança quanto à qualidade dos dados”, completa Araújo-Júnior.

Enquanto isso, o grupo segue na busca de mais evidências que possam ajudá-los a convencer seus pares. Faria contou que o grupo já submeteu para publicação em uma revista especializada novas datações de fósseis da megafauna, feitas tanto com colágeno quanto com a fração mineral do osso, com resultados situados no Holoceno. Araújo-­Júnior diz que fósseis encontrados em outro tanque natural de Itapipoca – que está sendo estudado por uma aluna sua –, foram datados por luminescência opticamente estimulada e também parecem ter idades bastante recentes. Nenhum desses resultados passou ainda pelo teste da revisão por pares.

Fábio Faria parece estimulado pelas contestações que o trabalho vem recebendo. “É a partir da divergência que a ciência avança, e não pelo consenso.” A resolução da controvérsia talvez só venha com novos achados que poderão confirmar ou não as datas recentes para os grandes mamíferos do Ceará. Não é suficiente que cientistas publiquem um estudo numa revista com revisão por pares para que esses dados sejam automaticamente considerados fatos científicos inquestionáveis. Isso só acontece quando essas alegações são citadas, endossadas e apropriadas por outros cientistas, como notou o antropólogo e filósofo da ciência francês Bruno Latour (1947-2022).

Os paleontólogos brasileiros estão experimentando isso na pele. “Não basta descobrir e publicar, há que ter a validação dos resultados pela comunidade”, diz Ismar Carvalho. “Esse é o nosso grande desafio futuro.”


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Repórter da piauí, é apresentador do podcast A Terra é Redonda (Mesmo) e autor dos livros Admirável novo mundo: uma história da ocupação humana nas Américas (Companhia das Letras) e Domingo É Dia de Ciência (Azougue Editorial)