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UMA VIDA EXTRAORDINÁRIA

Por que Flora Purim não estava errada

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No auge de mais um verão inclemente no Rio de Janeiro, Flora Purim, que viveu a maior parte de seus 83 anos no Hemisfério Norte, me aguardava para uma entrevista na biblioteca do Retiro dos Artistas, onde reside com o marido Airto Moreira desde agosto de 2023. A biblioteca, que não tem mais que 40 m2, é cuidada com esmero pelo iluminador Kari Lage, que dedica uma atenção especial à estante dos clássicos. Purim estava vestida com elegância. Os tons escuros realçavam sua pele quase translúcida. Usava calça preta, blusa estampada, maquiagem leve e chapéu, remetendo aos trajes que exibia nos anos 1970, década em que foi eleita por quatro anos seguidos a melhor cantora de jazz do mundo.

Superlativos são comuns na vida de Flora Purim. Foi indicada três vezes ao Grammy – nas categorias de voz feminina do jazz e melhor álbum de jazz latino – e participou de dois discos vencedores do prêmio, um do baterista Mickey Hart e outro do trompetista Dizzy Gillespie. Seu marido há quase sessenta anos, Airto Moreira, também com 83, até hoje não foi superado como o melhor percussionista do mundo, com uma batida reverenciada por cânones do jazz, como Miles Davis. Juntos, Purim e Moreira frequentaram as rodas mais restritas do showbiz internacional, de Janis Joplin a Jane Fonda, de Paul McCartney a Yoko Ono, de Herbie Hancock a George Duke, de Stan Getz a João Gilberto, de quem, aliás, o casal foi vizinho em Nova York. A maior parte do tempo em que moraram nos Estados Unidos, porém, Purim e Moreira viveram em Santa Barbara, na Califórnia.

Purim tem a voz delicada e um sorriso discreto e constante, às vezes irônico. Na nossa primeira conversa, em fevereiro passado, ela não estava muito animada. Respondeu a todas as perguntas com educação, mas demonstrava certa impaciência, em meio à tendência a florear as passagens menos agradáveis de sua vida. Olhava para o glamour do passado com satisfação, mas sem um pingo de saudosismo. “Agora eu estou no Retiro dos Artistas esperando minha vez chegar. Penso que minha vida foi muito incrível. Eu tive aventuras incomparáveis, que poucas pessoas tiveram. Conheci gente linda, maravilhosa, não posso me queixar.”

A sua “espera”, como ela diz, ocorre enquanto ainda produz música. Gravou um novo álbum no ano passado, que está agora em pós-produção. No ano que vem, será lançado um documentário sobre sua vida e a de Moreira, com direção do cineasta Jom Tob Azulay, o mesmo que fez Os doces bárbaros e codirigiu Elis & Tom. Nos intervalos, ainda recebe músicas e tem vontade de gravá-las. “Não consigo parar. Deve ser porque não cumpri minha missão ainda. Deve ter alguma coisa que ainda não fiz e devo fazer. Podem ser muitas coisas… muita gente vive 100 anos, né?”

Depois de 60 anos de carreira, Purim ainda só pensa em música, embora não consiga mais alcançar a impressionante extensão vocal de seis oitavas do passado. Seu último show, em janeiro de 2022, no Sesc Belenzinho, em São Paulo, foi angustiante em razão da delicada saúde de Moreira. “Eu o obriguei a fazer o show e depois que acabou ele desmaiou”, conta. Em 2022, o percussionista ficou hospitalizado em decorrência de uma pneumonia seguida de uma infecção hospitalar. Como o casal não tinha plano de saúde, as duas filhas, que vivem nos Estados Unidos, fizeram uma vaquinha online para arrecadar ajuda.

Passados três anos, Moreira ainda não está plenamente recuperado. Tem certa dificuldade de locomoção, o que afeta seus movimentos de percussão (Purim garante que ele, mesmo sem poder usar as pernas como fazia antes, toca melhor que nunca.) Hoje em dia, Moreira não gosta de aparecer em público ou ser fotografado, embora tenha gravado um novo álbum em 2024 e dado entrevistas para o documentário. Tudo ainda inédito.

“Ao fim, ficou provado que eu não estava errada”, diz a cantora.

A frase remete ao seu passado, ao caminho que começou a percorrer aos 22 anos, quando rompeu com a família para viver da música. Tudo começou em uma madrugada de 1964, durante uma briga feia com seu então marido. “Casei porque queria sair da casa dos meus pais. Era assim que se fazia na época”, diz. Num rompante de violência, ele a expulsou do carro em plena Rua Duvivier. Sozinha e desolada no meio da rua, Purim percebeu que estava nas imediações do Beco das Garrafas, o reduto da boemia carioca em Copacabana.

Passou a observar com curiosidade o entra e sai dos bares e a dinâmica dos músicos, até que foi abordada por um deles, que lhe ofereceu água para acalmá-la e pediu que ela aguardasse onde estava até que ele pudesse levá-la embora. A boa alma era o percussionista Dom Um Romão, que apresentou Purim à cena musical do Beco e com quem ela acabou se relacionando, depois de se separar do marido. Naquele mesmo ano, Purim e Romão abrigaram em sua casa uma novata, recém-chegada do Sul do país. Chamava-se Elis Regina. Apresentaram a ela o Bottle’s Bar, um dos principais bares do Beco, onde Elis fez a sua primeiríssima temporada de shows no Rio, com Romão na bateria.

A música entrara na vida de Purim ainda criança. Seus pais, Naum e Rachel, ambos da comunidade judaica, eram instrumentistas amadores e tocavam música clássica em casa. Ele, no violino. Ela, no piano. A filha foi iniciada nos dois instrumentos e, por volta dos 5 anos, no canto. Quando o pai não estava em casa, a mãe colocava escondido na vitrola os discos de Billie Holiday, Frank Sinatra e Dinah Washington. Para ele, o que não era erudito não prestava. Por influência da mãe, Purim logo se apaixonou pelo jazz, embora não cogitasse cantar profissionalmente. Casou-se aos 17. “Ele era judeu e minha família não ia permitir que eu me casasse com um não judeu”, diz. A vida era confortável, e ela logo engravidou da filha Niura. Moravam num apartamento no Posto 6, em Copacabana. Depois da separação, houve um acordo para que a filha de 2 anos ficasse com o ex-marido e Purim seguisse a carreira de cantora. Sua nova vida resultou num rompimento definitivo com os pais, que não aceitavam nem a separação, nem a profissão.

Três meses depois de ser introduzida ao Beco das Garrafas, Purim já tinha um repertório em mãos e começou a cantar na noite. Não demorou até que músicos de primeira linha quisessem acompanhá-la. O romance com Romão terminou em 1965, quando ele se mudou para os Estados Unidos para tocar com o saxofonista* Stan Getz e a cantora Astrud Gilberto. Purim seguiu firmando seu nome na música no Brasil, com um repertório que ia da bossa nova ao jazz. Numa temporada no João Sebastião Bar, em São Paulo, foi escalada para cantar com o Sambalanço Trio, grupo de Airto Moreira. Depois de algumas desavenças sobre o repertório, os dois músicos acabaram se acertando na música – e no amor.

Enquanto Romão mandava boas notícias, dizendo que os músicos brasileiros estavam se dando bem nos Estados Unidos, a repressão e a censura da ditadura militar no Brasil já afetavam a produção cultural. Purim e Moreira estavam em um show em São Paulo, quando artistas foram impedidos de cantar. Purim então decidiu que era hora de partir. Ganhou a passagem de um frequentador abastado do Stardust, lendária casa de shows de São Paulo. “Eu disse a ele que meu sonho era ir para os Estados Unidos conhecer meus ídolos. A passagem chegou dois dias depois”, diz. Como o romance com Moreira era descompromissado, ela anunciou sua partida no final de 1967, quando a ditadura endureceu ainda mais.

Como os músicos brasileiros viviam em bando, ao chegar a Nova York Purim se alojou no apartamento de um deles, no SoHo. Em questão de dias, já havia conhecido o pianista Thelonious Monk, que a ajudou a entrar em um clube onde só eram permitidos negros, e assistido a shows de Nancy Wilson. Quando Purim escrevia a Moreira contando suas descobertas, o artista sentia estar perdendo tudo aquilo. “E ele também estava com saudade”, diz ela. Menos de um ano depois, Moreira desembarcou em Los Angeles, para onde Purim havia se mudado. O músico havia vendido seu bem mais valioso, a bateria, para custear a viagem. Mesmo assim, não era o suficiente. Purim contou, num depoimento ao jornalista Tomás Novaes, da Veja São Paulo, que Moreira pediu ajuda a Chico Buarque. “O Chico pegou o Airto, botou num Volkswagen, foi até a casa dele na Rua Alagoas e desceu com um bolo de notas de dólar enroladas. Mil dólares – naquela época, era muito dinheiro.” O coreógrafo Lennie Dale também contribuiu.

Em Los Angeles, Purim ficou hospedada no sofá da casa de Dom Um Romão, que vivia na cidade com a nova namorada. Depois, Romão partiu para um apartamento melhor e deixou a cantora em sua antiga casa com alguns aluguéis já pagos. Como Moreira chegou de surpresa, ela não estava em casa. Ele então tocou na porta vizinha para saber se haviam visto uma brasileira chamada Flora Purim. O vizinho era o arranjador Moacir Santos, e ela estava na cozinha dele, tomando um café. Ao ver Moreira, quase desmaiou de susto.

“Trabalhávamos de manhã, de tarde e de noite. Antes de termos filhos, era só música. A gente não tinha sono porque não queria perder aquela jam session que começava à uma da manhã na casa de alguém”, conta Purim, sobre a nova vida americana. Os anos 1970 foram o auge da dupla. Quando integrou a banda de Miles Davis, Moreira inovou ao juntar à bateria instrumentos de percussão desconhecidos no Hemisfério Norte, como a cuíca, o caxixi, a queixada de burro e o reco-reco. Gravaram o álbum Bitches brew, que se tornou o marco inicial do jazz fusion, o ritmo recém-criado que resultava da fusão do jazz com o rock. O rompimento com a banda de Davis se deu em 1972, quando o trompetista anunciou que não levaria Moreira para uma turnê na Europa porque ele se tornara muito caro e, com o dinheiro que lhe pagaria, poderia levar dois percussionistas. A essa altura, o casal já integrava outro projeto, o grupo Return to Forever, do pianista Chick Corea, um dos maiores sucessos do jazz fusion.

Purim gosta de enaltecer a genialidade de Moreira e sua importância para a música, por ter revolucionado as batidas no jazz. Também diz que ele era mais requisitado que ela naqueles tempos. Mas os registros da época talvez lhe deem mais crédito do que ela própria julga ter. Em maio de 1976, uma reportagem do New York Times registra que o sucesso de Return to Forever “se devia aos floreios vocais leves como pluma de Purim e aos seus gritos lancinantes de desejo”. O casal deixou o grupo de Chick Corea depois que o pianista resolveu partir para empreitadas mais comerciais e menos experimentais. Purim e Moreira então criaram sua própria banda, Fingers. Na mesma reportagem do Times, o jornalista Stephen Davis notava que, novamente, faltava crédito à cantora: “Aparentemente, o baterista subestimava o magnetismo da esposa, já que costumava esquecer-se de apresentá-la no palco.”

Ela se emociona ao falar do marido. “A percussão do Airto é diferente. É como pintar um quadro. Então ele ouve e pensa: aqui é vermelho. Ele olha para a mesa cheia de coisas que juntou do lixo para fazer alguns instrumentos e sabe o som. Ele é considerado o melhor do mundo há muitos anos porque é diferente dos outros. É único. O que ele faz é único. Tem gente tentando imitar, mas, como ele faz, ninguém consegue”, diz, antes de completar com um elogio, inclusive, ao talento vocal de Moreira. “Trabalhar com o Airto foi a coisa mais importante”, diz, com a voz levemente embargada. “Não tivemos nenhum fracasso. Em todo lugar era gente batendo palma em pé, cantando junto. E olha que a nossa música não é popular. É uma música meio de submundo.”

Crítico musical do Washington Post na década de 1970, o jornalista Larry Rohter acompanhou de perto o sucesso e o impacto da música de Purim e Moreira no mercado americano. Rohter recorda que Moreira logo ganhou prestígio no cenário musical da época “por sua criatividade e pelo toque exótico, entre aspas, que ele dava ao jazz”. Segundo o jornalista, Moreira primeiro revolucionara o som da banda de Miles Davis e depois expandiu suas inovações para os grupos da Costa Oeste dos Estados Unidos. “Ele tocou em discos de artistas californianos importantes, quase foi membro do Santana. Eu vi o impacto que ele deixou no grupo porque a percussão, que antes tinha um sabor centro-americano ou caribenho, ganhou toques brasileiros. E o grupo passou a gravar faixas escritas por brasileiros, como Promessa de pescador, de Dorival Caymmi. E eu atribuía a presença desses elementos ao casal. Juntos, eles estavam em São Francisco tocando com todo mundo”, conta.

A vida de Purim foi um pouco mais difícil, segundo Rohter, em razão de seu sotaque brasileiro ao cantar. Mas ela encontrou uma forma de suplantar as dificuldades por meio do scatting – a técnica de cantar as notas musicais, não as palavras, embora acabasse mesclando as duas coisas em suas composições. “A Flora achou uma maneira de contornar o problema com a tradição da Ella Fitzgerald, que ela admirava, de não cantar em palavras. E ganhou um público que queria algo diferente, algo novo. Ela fez de um suposto defeito o trampolim para uma inovação. E acabou cantando com os artistas mais populares da época.” Em 1976, ela reconheceu ao New York Times que o músico alagoano Hermeto Pascoal fora crucial para que consolidasse suas inovações vocais. Numa entrevista dada a Rohter no ano seguinte, afirmou: “Estou tentando criar um tipo de música que vai além do jazz, que é universal. Estou buscando algo que transponha barreiras, bandeiras e idiomas.”

Em 1971, o casal, que conhecia Hermeto Pascoal desde os tempos do João Sebastião Bar, levou o músico para os Estados Unidos com o objetivo de tocar com Miles Davis. Ele morou na casa deles em Nova York por pelo menos um ano. Naquela época, Purim e Moreira dividiam um apartamento com Stanley Clark na Rua 70 do West Side, perto do Lincoln Center – a região favorita dos artistas justamente por ser perto do centro cultural. Hermeto Pascoal tornou-se amigo de Miles Davis, que gravou algumas de suas composições sem dar-lhe os créditos. (O casal também apresentou Miles Davis a Gilberto Gil e Caetano Veloso no período em que os tropicalistas estavam exilados em Londres e participaram do Festival da Ilha de Wight, um dos mais famosos eventos de música da época.)

No período em que estiveram em Nova York, Purim tornou-se muito próxima de João Gilberto. “Ele foi muito legal comigo. Eu ia todo dia para a casa dele quando não tinha trabalho. O Airto gostava muito de dormir, então João Gilberto e eu batíamos muito papo. Eu o ouvia praticando o tempo todo.” Ela se lembra que, quando foi à Cidade do México fazer um show com Moreira, apareceu, com seu novo carro, João Gilberto, que estava vivendo lá. Ele queria mostrá-­lo para a amiga durante um intervalo de uma apresentação dela. “E eu fui. Mas acabei atrasando para voltar. Levei bronca, quase fui despedida. Eu briguei tanto com ele por causa disso. Ele sabia que eu tinha que voltar, pô.”

Em 1976, numa prova da seminal importância do casal, Purim e Moreira fecharam com a Warner o maior contrato já firmado por um músico de jazz na história até então. O casal gastou quase todo o dinheiro produzindo dois álbuns, um deles com Hermeto Pascoal, em que ele decidiu colocar em prática uma ideia antiga: usar sons de grunhidos de um porco, levando o animal vivo para estúdio. O trabalho, chamado Slaves mass, vendeu pouco, mas as inovações trazidas ainda são referência na música.

Embora estivesse no auge nos Estados Unidos durante a década de 1970, o casal não abandonara as raízes brasileiras e buscava inserir conterrâneos na cena internacional. Foi assim com o multi-instrumentista Egberto Gismonti, que era desconhecido dos americanos quando passou a integrar a banda do casal, mas logo acabou ganhando projeção e um contrato com a gravadora de jazz ECM. Milton Nascimento também teve um empurrão de Purim e Moreira, de quem gravaram composições em português e inglês.

No Brasil, embora também fossem famosos, sua música era muito menos popular. Larry Rohter, que mais tarde se tornou correspondente do New York Times no país, recorda que, ao ler os nomes de Purim e Moreira nas colunas sociais da época, de Zózimo Barroso e Ibrahim Sued, percebia que os colunistas não conheciam, de fato, os discos. “Flora e Airto eram jazzistas, não eram do universo da MPB, embora a música deles tivesse a essência brasileira.” O fato de Purim ser de origem judia também dificultava sua identificação com o público nacional. “Tinha gente que simplesmente não a considerava brasileira. Era como a Carmen Miranda, que consideravam portuguesa [Carmen Miranda veio para o Brasil ainda bebê]. Diziam: ‘Ah, ela é judia, filha de imigrantes.’ Com o Airto era diferente, porque ele estava profundamente enraizado. Com ela, havia um pouquinho de preconceito.”

Em meados de 1970, ao assistir a uma apresentação de Moreira na banda de Miles Davis em São Francisco, Purim, então com 28 anos, sentou-se por acaso ao lado de Janis Joplin, que tinha 27 anos. Conversa vai, conversa vem, Joplin a convidou para sair dali e tomar um drinque. Purim avisou o companheiro e partiu. Voltou para casa uma semana depois, após apelos de Moreira. “Eu fiquei uma semana sem dormir. Ou melhor, eu dormia, ela que não dormia. Fomos de clube em clube, depois hotel, depois no lugar mais chinfrim que havia para tomar café com leite. Eu achei muito legal aquela sensação de liberdade, de todo o tipo de liberdade.” Perguntei se tinha havido algo mais entre elas, mas Purim negou. “Ela só me pedia para fazer companhia.” Também disse não ter acompanhado Joplin nas drogas. “Eu não dizia nada, como ‘não faz isso, não faz aquilo’. Eu não me metia. Eu não fazia, eu sabia que não era legal.” Depois de Moreira implorar para que voltasse para casa, ela não se encontrou mais com a cantora, que morreu de overdose pouco depois, em outubro daquele ano.

Em 1971, Purim foi presa com um grupo de amigos em Los Angeles, acusada de portar cocaína numa quantidade considerada pela polícia suficiente para uso e tráfico. Ela diz que a acusação de tráfico era falsa e que foi alvo por ser a única brasileira do grupo. Saiu dias depois, mas foi processada. Ela conta que os investigadores lhe deram uma lista de 48 nomes para que fornecesse informações sobre eles, em troca de um acordo com a Justiça. Purim diz que se negou a dedurar e acabou condenada em 1974. “Eu não consegui falar, não achei certo. Eu estava no lugar errado, fazendo coisa errada, tinha que assumir.”

Na época, estava terminando de gravar seu disco Stories to tell. Seus produtores negociaram o adiamento da prisão para que a cantora pudesse finalizar o trabalho. Assim que o disco ficou pronto, Purim foi admitida na penitenciária de Terminal Island, em Los Angeles. Ela estava na cadeia quando foi eleita pela primeira vez a melhor cantora de jazz do mundo pelos leitores da revista Down­Beat, considerada a bíblia do jazz. No ano seguinte, ainda presa, foi eleita pela segunda vez. “Eu não podia aproveitar o que veio com aquilo. Mas me colocou no alto, tanto que eu não precisava nem trabalhar para ganhar dinheiro. Era só vender os discos.”

Em 1972, Purim havia dado à luz sua segunda filha, Diana, a primeira com Moreira. Quando a cantora foi presa, dois anos depois, seu companheiro se tornou pai e mãe da criança, que praticamente nasceu nas boleias dos clubes de jazz. Aos oito dias de vida, Diana viajou com os pais para Londres para uma temporada no até hoje badalado clube Ronnie Scott’s. Enquanto eles cantavam, ela ficava aninhada na caixa da bateria com um travesseiro, no camarim, sob os cuidados da produção. “O Airto insistiu para que eu fosse porque a pessoa que iria me substituir não estava dando conta, e eu já estava com o repertório todo certo. Eu achei uma loucura um bebê desse tamanho viajando pela Europa, mas…” Purim estava amamentando no momento em que gravou um dos maiores sucessos de sua carreira, a música Light as a feather. “Dar de mamar doía, mas era o jeito, porque ela não parava de chorar. Então eu amamentava e gravava.”

Durante os dezoito meses que passou em Terminal Island, Purim recebeu mais de 10 mil cartas de fãs e houve um movimento de artistas pedindo a sua soltura. A penitenciária chegou a autorizar um show de Moreira, Carlos Santana, Cannonball Adderley e George Duke para o seu aniversário de 33 anos, que ela passou presa. Foi solta apenas em 1976, depois que um advogado com conexões em Washington assumiu o caso. “Quando eu comecei a atravessar o pátio para ir embora com minha caixa de pertences, todo mundo começou a sair dos seus afazeres para me aplaudir conforme eu passava. Foi muito emocionante. Eles conheciam minha música porque tocava muito na rádio.”

Pouco depois da saída de Flora Purim da prisão, sua filha Niura, do primeiro casamento, que vivia no Brasil, se juntou à família nos Estados Unidos. Ela estava com 14 anos. A vida cigana do casal de músicos de repente passou a ter de contemplar os compromissos escolares das crianças e uma rotina mais pacata. Segundo Purim, os shows foram concentrados nos fins de semana e nas férias escolares, quando enviava as garotas para acampamentos de verão.

Diana, a mais nova, frequentou durante anos um acampamento promovido pela atriz Jane Fonda na região das montanhas de Santa Ynez, na Califórnia. Purim se recorda que em 1988, quando a filha tinha 16 anos, ela havia acabado de chegar de uma turnê e recebeu uma ligação de Fonda convocando-a para assistir a um show de talentos no acampamento. “Eu estava pra lá de Bagdá, entrei em casa, não deu 15 minutos, e ela ligou me chamando para o show de talentos. Eu falei: ‘Mas, Jane, tô cansada, acabei de chegar.’ Ela: ‘Venha, por favor.’ Eu fui. Sentei do lado da Jane. Do outro lado estava a Etta James, que tinha um filho se apresentando no contrabaixo. Eu estava ali de saco cheio, não queria ficar vendo um monte de crianças cantar. E aí a Diana entrou cantando Piece of my heart, da Janis Joplin. Eu fiquei muito impressionada, ela cantava muito bem. A Jane começou a chorar, abaixava a cabeça, aos prantos, estava passando por um divórcio. A Etta também ficou emocionada”, relembra.

Diana, que hoje tem 52 anos, é cantora e vive na Califórnia com a filha e o marido, o músico Krishna Booker, filho do baixista Walter Booker e afilhado de Herbie Hancock. Ela ainda se lembra daquele dia no acampamento de Jane Fonda. “Foi uma das melhores experiências da minha juventude. O filho da Etta James não tocava antes de chegar lá. Começou a tocar contrabaixo na minha banda. E depois vi que ele virou músico da banda da mãe”, me disse ela, durante uma conversa por telefone em abril. Sua irmã, Niura, também vive na Califórnia.

Purim e Jane Fonda foram amigas durante aqueles anos. Foi a atriz que a desencorajou de fazer uma apresentação da qual ela certamente hoje se arrependeria. Ela havia sido convidada pelo Exército americano para fazer um show para os soldados que serviam no Vietnã. Contou para Fonda sobre o convite, já que, em 1972, a atriz havia visitado o Vietnã do Norte, num gesto que lhe valeu o apelido crítico de “Hanoi Jane” e foi interpretado pela imprensa americana como apoio às forças inimigas dos Estados Unidos. Fonda foi peremptória ao aconselhar Purim a não aceitar o convite. “Ela me falou para não ir. Disse: ‘Os primeiros que vão para o front são os latinos e os negros. Você não quer promover isso’”, conta. Purim então declinou o convite.

Entre a agitada década de 1970 e a vida modesta no Retiro dos Artistas, há mais de quarenta anos de mudanças na indústria musical e na vida de Purim e Moreira. O jazz fusion, segmento em que ambos reinaram por muitos anos, perdeu espaço nos anos 1980 com a volta de um jazz mais tradicional e menos diversificado no quesito instrumental. Mudanças na forma de ouvir música, com a chegada das plataformas de streaming, transformaram o mercado, sobretudo na distribuição de royalties. Na conversa que tive com Diana e Niura por telefone, elas explicaram que o valor recebido das plataformas é ínfimo. “Antigamente, a gente ganhava a vida fazendo discos e apresentações. Agora, o dinheiro do streaming não é o mesmo, as leis são diferentes. Não é mais tão fácil ganhar com a música”, afirma Diana.

Os obstáculos trazidos pelo avanço da idade também foram definitivos na carreira de Purim e Moreira, sobretudo porque o grosso de seu público está fora do Brasil. Por último, também contribuiu a partida do casal dos Estados Unidos. Purim conta que já estava cansada da vida americana. Começou a voltar ao Brasil com mais frequência quando a mãe adoeceu, no final dos anos 1990. A relação entre as duas teve um recomeço depois da morte do pai, com quem Purim não voltara a falar desde que deixou o Brasil, em 1967. Embora a mãe continuasse rechaçando a vida de artista da filha, estabeleceu-se um laço entre elas no final. Rachel sofria um quadro de demência. Quando a mãe morreu, em 2000, a filha encontrou em suas coisas um álbum de recortes de reportagens de jornais e revistas sobre ela. “Minha mãe guardava tudo ali, escondidinho.”

Em 2013, Purim decidiu que era hora de voltar de vez. Naquela época, o casamento estava entre idas e vindas. Moreira não topou a mudança e a cantora veio sozinha. Ela se instalou em Curitiba, onde vivia a família do músico. Um ano depois, Moreira não aguentou e voltou também. Viveram num apart-hotel no Centro da cidade. Em 2023, o estabelecimento declarou que estava encerrando suas atividades e deu ao casal um dia para deixar o local. As filhas encontraram um apartamento temporário e passaram a buscar uma moradia especializada, já que Moreira inspirava cuidados. Com os recursos financeiros totalmente exauridos, o casal vivia com a ajuda de familiares, como o irmão de Purim. Cogitaram uma residência para idosos perto de Curitiba, mas os custos eram elevados, e Purim se lembra que “os velhinhos lá eram velhinhos mesmo”. Até que foram alertados sobre o Retiro dos Artistas, no Rio de Janeiro, onde vivia a amiga Leny Andrade. Além do custo menor, o clima é animado. “Aqui, alguns dos velhinhos saem sambando, vem escola de samba toda hora”, diz ela. Leny Andrade morreu poucos dias antes de Purim e Airto chegarem. As cuidadoras dela foram contratadas para o casal.

A adaptação não foi fácil. Em abril, voltei a visitá-la no Retiro. Desta vez, a cantora me mostrou sua casa: um quarto, sala, banheiro, cozinha e uma pequena varanda cheia de plantas. Tudo muito modesto. “Eu não estava muito bem na primeira vez que você veio. Agora estou mais animada, com planos, com muitas coisas para fazer”, diz, referindo-se ao álbum em pós-produção e ao documentário. Purim conta que, no início, não queria interagir com ninguém no Retiro. Ficava dentro de casa com Moreira e só aceitava se comunicar por um interfone. Passava semanas isolada. Agora, é diferente. “Aqui todos têm histórias extraordinárias”, diz, ainda que sua história seja singularmente extraordinária. “Eu vou morrer aqui no Brasil e aqui no Retiro. Estou adorando, ouço música dia e noite. Tem festas, fofocas. A festa junina é conhecida nacionalmente. Tem o teatro, o cinema com som especial. Eu parei de sentir vergonha. Eu estava com vergonha. Porque eu ganhei tanto dinheiro e estava sem lugar para morar.”

O Retiro dos Artistas, fundado em 1918 pelo ator Leopoldo Fróes e o jornalista Irineu Marinho, hoje dispõe de 52 casas e fica no alto de um terreno de 15 mil m2 no Pechincha, bairro da Zona Oeste do Rio. Por ali, ao longo do último século, já passaram cerca de 6 mil artistas, geralmente em estado de vulnerabilidade. Os moradores contam com áreas de convívio: além da biblioteca, há piscina, teatro, sala de cinema e até um salão de beleza (que tem uma imagem exageradamente grande da atriz Susana Vieira estampada na entrada).

Tudo foi erguido em torno de um casarão secular que, hoje, passa por problemas estruturais. Há poucos meses, o Sesc fechou uma colaboração com a gestão do Retiro para financiar o restauro do casarão, que deverá abrigar eventos abertos ao público. O novo centro cultural vai receber o nome de Dercy Gonçalves, que, por sinal, nunca viveu no Retiro.

Há 25 anos, Cida Cabral é a diretora do local. Foi convidada para o cargo pelo ator Stepan Nercessian, que preside a instituição há um período similar. No início dos anos 2000, ao assumirem a gestão, ambos se depararam com um cenário de terra arrasada, a começar por uma dívida que superava os 5 milhões de reais, em valores atuais. “Até à padaria nós estávamos devendo. Uma situação tétrica”, diz Cabral. Nos primeiros dez anos de trabalho, conseguiram anistiar parte da dívida e firmaram parcerias com a Globo e a Enel, que ajudam a bancar o custo fixo de 220 mil reais mensais. Mesmo assim, ainda fecham o mês no vermelho e dependem de doações.

Todas as casas são de alvenaria e se parecem umas com as outras. Algumas foram construídas com o apoio do governo do estado, na gestão de Anthony Garotinho. Outras, com doações de artistas mais abastados. Recentemente, a atriz Marieta Severo financiou a construção de cinco casas, uma delas para o ator Marcos Oliveira, o Beiçola, com quem a atriz contracenou no seriado A grande família. Há ainda um brechó dentro do local, criado a partir de doações.

As vagas são disputadas, já que a fila costuma andar só em caso de óbito. Hoje, há cerca de dez pessoas esperando para entrar. O Retiro oferece moradia, alimentação e cuidados médicos e terapêuticos para os que precisam, como fisioterapia e psicólogos. Cuidadores são pagos à parte. A contribuição mensal para o Retiro depende da condição financeira de cada morador. Há os que podem pagar algum valor e há os que não podem pagar nada.

Como todos são do mundo das artes, frequentemente há a encenação de peças de teatro produzidas por eles próprios. Em julho de 2024, a Netflix, à procura de vozes maduras para dublagem, passou a oferecer um curso de atuação vocal aos moradores. Embora a entrada de nomes célebres no Retiro repercuta na imprensa, o local abriga, principalmente, artistas de carreiras menos expostas, como maquiadores, figurinistas e bailarinos.

Há pouco menos de dois anos, o cineasta Jom Tob Azulay leu uma notícia no jornal que informava a mudança de Purim e Moreira para o Retiro dos Artistas e pensou: “Isso aqui dá filme.” Entrou em contato com o local, deixou recado e dois dias depois recebeu uma ligação da cantora. Fez visitas ao casal, começaram a gravar, mas a coisa engrenou mesmo depois da entrada do produtor Ricardo Bacelar no projeto, que também assina a direção musical.

O documentário mostrará o casal de artistas gravando dois álbuns, individualmente. O de Moreira é só instrumental, com dez composições inéditas. “O que vi deles é surpreendente”, diz Azulay, que conhece Purim desde 1976, quando finalizava seu filme Os doces bárbaros, em Los Angeles. “Ninguém é aos 80 anos como era aos 40. Agora, a gente pode ser tão bom quanto, ou simplesmente diferente. Vocês verão uma cantora nova, que ninguém nunca ouviu. E o Airto, com novas capacidades. Nós vamos apresentar dois artistas que nunca ninguém ouviu, com a carga de experiência que acumularam em sessenta anos de atividade. Tá tudo lá. O Airto que tocou com o Miles Davis tá lá. Eles trazem todas as camadas do que realizaram no passado, do que está dentro deles.”

Parte das filmagens foi feita em 2024, o documentário já captou recursos e há um contrato de distribuição com a Embaúba Filmes. A expectativa é de que seja lançado em 2026. Durante as gravações que ocorreram em Fortaleza, onde vive o produtor Ricardo Bacelar, Purim e Moreira se casaram numa cerimônia ecumênica. Ela havia mencionado que tinha essa vontade. O produtor então chamou um monge budista que mesclou na cerimônia elementos do kardecismo, religião de Moreira, e algo do judaísmo, em homenagem à ascendência de Purim. Houve troca de alianças, e ela usava um arranjo de flores brancas no cabelo. “Fiquei emocionadíssima”, relembra. Bacelar, que tocou com Moreira e produziu o novo disco de Purim, está encantado. “Eles continuam com mentes brilhantes, os dois.”

Ela diz que, entre idas e vindas de uma união intensa na vida e na música, voltou a se apaixonar por Moreira. “Sempre fui, sou.” Mesmo depois de sessenta anos de casamento? Ela insistiu: “Quando estou superzangada, chateada porque ele não quer se tratar, não quer tomar remédio, ele faz uma coisa engraçada e você tem que rir”, disse a cantora na nossa primeira conversa, em fevereiro. Em abril, voltei ao assunto. A resposta não mudou. “Estou apaixonada como nunca fui antes. Não sei o que aconteceu. Ele mudou. Está mais forte, mais seguro. Ele é único. Não tem ninguém no mundo como o Airto. Se você visse um show nosso…”


Com a colaboração de Danilo Marques

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*A versão original do texto identificava erroneamente o saxofonista Stan Getz como guitarrista.


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Repórter da piauí. Foi editora de política na Veja, editora do Globo em Brasília e editora-chefe na Época