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poesia

RISO NO RETIRO

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Quando suas preciosas crenças
e ilusões chegam ao fim, você chega ao fim.
G. Krishnamurti

Acordei com o corpo cheio de pedras
um altar com flores e frutas e umas
penas intrusas. Desconhecidos me encaravam
com mais de mil olhos – além de uns cem
deuses com cem braços cujos nomes
não pronuncio direito. Eram rostos de
macacos, girafas, morcegos.

Uma das discípulas deu o informe
com a sisudez precisa
do processo. Aos recém-chegados
só era permitido um copo d’água,
uma toalha e um amuleto – cujo
significado desconheço.

No retiro é proibido rir.
E eu, com duzentas horas acumuladas de
ioga do riso, não contive – e nem quis conter –
o meu palhacito.

Em posse dos poucos objetos e de
nossas roupas de linho, dobramos
os joelhos – muitos em meio lótus –
e as mãos de místico agradecido.

O guru fez a entrada ao ritmo de um
mantra que – obviamente – não entendi
direito. Pesquei “mahatma” na cantilena
e fiquei com medo.

Ansiosa, soltei a primeira gaitada
abafada, duramente contida pelo shiuu
de outra discípula. Elas usavam
vestes confusas, turbantes, colares,
pulseiras, terços, sandálias com
estampas da Índia – mas fabricadas
na China.

Ao me ver diante de tamanha
anedota, quis ser meu próprio alívio
cômico e – de novo – ri de nervoso.

Fui encarada por mais uma dezena
de olhos, uns cochichos inflamados
por um pedido de punição capital. Eles
avisaram: no retiro é proibido rir.

O guru 1 chamou o meio guru –
E, é já sabido, dois gurus jamais
concordam entre si.

A estátua de Buda, do nada, mudou o seu
mudra. O meio guru decide
e indica o tal castigo: me deixar do
lado de fora, embaixo de uma copa,
em meio a estátuas estranhas, aves mortas,
flores e frutas podres, um altar
indo-tropical – enterrada em vida.

Por enquanto. A que fim levou
o meu destino gozoso, essa
troça total? O zero interesse na
aventura humana, o desejo – alheio –
que eu me reencarnasse numa hiena.

As vozes desconhecidas ecoavam mil
rugidos, gemidos – e risos. Esse era o céu
que a discípula anunciava
enquanto eu descia ao paraíso?
Um feixe de luz anuncia
a visagem – sarça ardente,
centelha divina, outra missão de
vida? Ao menos algo surge.

E, finalmente, me viro e vejo: no espelho
que a estátua de sereia segura, não sei bem
se é Janaína, Iara, musa carioca ou
manauara. Mas a deusa, a deusa total, sou
eu: a deusa descabelada da piada.

CATÁLOGO

Eu era feliz
beijava mocinhos
grafados atrás de
uma xerox de
Homero.

A queda pelos
mais desonestos.

A data acompanha
o review de pinto,
as iniciais de cada um
e seus apelos:

um com falta
de pai,
outro com dor
de corno,
aquele de
outro estado
sentia falta
do cachorro.

Um que me
chamou de
Vênus – e eu
sou de Oxum.

A desgraça (miasma) de
agradar o trotskista
mais machista ao
helenista mais cuzão:

Canto dois
da Ilíada.

CALCINHA DO SPORT CLUB DO RECIFE AO SOM DE UM BREGA FUNK

Deusa, agradeço a essa Veneza
por ter feito homens que rebolam tão bem.

No ensaio do desgosto do encontro,
quinze anos de casamento, o que

Importa é como se produz: o
charque, o cuscuz e o gozo.

Ao som de Shevchenko e Elloco, sua
camisa em preto e vermelho, sou

Essa paulista meio nua, sem segredos,
com um leão estampado no rego.

É Dia de São João, e já nem quero outro
santo. Nem outra terra, senão essa

Onde sinto mais que em casa, toda em
graça – de Recife a Serra – e bela.


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É poeta, tradutora e doutoranda em teoria e história literária na Unicamp. Publicou Quadril & queda (Círculo de Poemas) e outros livros