questões invertebradas
Kathryn Schulz Set 2025 13h51
24 min de leitura
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Tradução de Isa Mara Lando
Quando eu tinha 20 e poucos anos e vivia livre e desimpedida, passei um ano na Costa Rica, trabalhando numa escola no altiplano central. E tive que trabalhar muito mais para superar meu horror por todas as criaturas rastejantes. Antes que o Departamento de Turismo da Costa Rica venha atrás de mim, devo dizer, em defesa do país, que nunca vivi em nenhum lugar com uma natureza tão magnífica. Todos os dias eu caminhava para o trabalho por uma trilha ladeada por samambaias, bromélias e árvores como a figueira-estranguladora, uma fortaleza encantada, enquanto lá em cima os bichos-preguiça se balançavam agarrados com seus dois dedos nos galhos e borboletas do tamanho de um cartão de Natal, dos grandes, abriam as asas de um castanho opaco, revelando por baixo um azul tão vivo e brilhante quanto o manto da Virgem Maria. À noite, a Lua projetava a sombra dos abacateiros pelos caminhos de terra, e as estrelas se congregavam em camadas de bilhões. Havia vulcões, havia cachoeiras, havia três tipos de macacos, havia uma estação seca e uma estação chuvosa – e, entre as duas, uma estação inteira de arco-íris, como se o céu fosse uma criação psicodélica da designer Lisa Frank. Nos dias claros, olhando por cima das montanhas verdejantes, eu via o Pacífico cintilando ao Sol. Daí me considerava, basicamente, no paraíso.
No entanto, há sempre uma cobra em cada jardim – embora o que me deixou apavorada não tenham sido as famosas víboras peçonhentas do país. Antes de aceitar o trabalho, eu não havia compreendido bem as coordenadas biológicas da Costa Rica: ao Sul do Trópico de Câncer, ao Norte do Trópico de Capricórnio, ou seja, bem no meio da zona dos artrópodes. Assim que cheguei lá, porém, esse fato estarrecedor se tornou impossível de ignorar. Minhas colegas de quarto, na minha nova casa, incluíam formigas que pareciam figurantes de Guerra nas estrelas, besouros que lembravam tanques do exército, e escorpiões que, infelizmente, se pareciam exatamente com escorpiões, e se instalaram na minha gaveta de meias. À noite, os mosquitos não zumbiam – eles zombavam de mim, no meu ouvido. Mariposas peludas como mamíferos – e corpulentas como mamíferos – ricocheteavam pelas paredes do quarto, fazendo um barulho sinistro como na cena de abertura de Apocalypse now.
Tudo isso eu poderia aguentar, mesmo me sentindo infeliz. Mas eu estava completamente, abjetamente, caracterologicamente e talvez clinicamente despreparada para enfrentar as aranhas. A dimensão desse problema ficou clara logo depois que cheguei, quando fui até a cozinha pegar um copo d’água e – AGGGRRHAAAAAHHHHHH! A criatura dentro da pia era espessa, peluda, horrenda, já vestida para o Halloween com seu traje laranja e preto, e do tamanho da minha mão. Como fiquei sabendo depois, era uma tarântula-de-perna-vermelha da Costa Rica, formalmente conhecida como Megaphobema mesomelas, e quem supôs que a primeira parte se traduz como “gigantesca e aterrorizante”, acertou em cheio. Essa, em particular, chegou rastejando até a minha pia vinda, presumo eu, das profundezas da nossa psique coletiva, e parecia o resultado de uma colaboração entre Stephen King, Louise Bourgeois e Hieronymus Bosch. Soltei um berro que deve ter chegado até a Guatemala, dei um pulo para trás de uns 2 metros e me achatei contra a parede.
O que fazer? Como todo aracnofóbico que se preze, eu havia passado a vida inteira, até aquele momento, garantindo que nunca ficaria sozinha em uma casa com um aracnídeo – nem mesmo, digamos, com uma aranha-de-pernas-longas, uma criatura perfeitamente inofensiva, que deve pesar alguns miligramas. E agora lá estava eu, sozinha, não só numa casa, mas num país inteiro, diante de uma aranha que devia ter uns bons 100 gramas de carne. E eu não podia matar a criatura – não porque tivesse, naquele momento, alguma objeção ética ou sentimental, mas porque não conseguia pensar em nenhuma arma que fosse tiro e queda na empreitada. Além disso, não havia hipótese de eu chegar assim perto dela para dar o golpe fatal – ou, Deus me livre, ouvir o estralo daquela enorme carapaça em seus estertores mortais. Meus sentimentos em relação às aranhas eram o oposto daqueles cartazes de “procura-se” do Velho Oeste: eu não queria nenhuma aranha, nem viva, nem morta. Nem mesmo imaginárias – sou conhecida por fechar livros e virar revistas ao contrário para evitar bater os olhos em algum exemplar repulsivo da ordem Araneae.
Talvez o leitor compartilhe esse sentimento. Talvez também tenha passado a vida se autoexpulsando de cômodos com rachaduras suspeitas no teto; talvez, até, esteja com a pele toda arrepiada só de ler este texto. Nesse caso, é fácil entender por que, naquele dia, eu não só fugi da minha casa, mas pensei seriamente em fugir do país. O que é mais difícil de entender é por que, alguns meses atrás – depois de deixar a Costa Rica há muito tempo, mas sem deixar para trás minha intensa aracnofobia – decidi pegar um exemplar do livro The lives of spiders (A vida das aranhas),[1] da editora Princeton, de autoria de Ximena Nelson, professora de comportamento animal da Universidade de Canterbury, na Nova Zelândia. O que posso dizer? Era novembro.[2] Ao meu redor, as pessoas estavam lendo obsessivamente sobre coisas que elas temiam e desprezavam, na esperança de que a compreensão pudesse levar à compaixão e à mudança. Da minha parte, achei melhor começar pequeno.
The lives of spiders é um volume insólito: em parte livro didático, em parte enciclopédia, em parte um livro ilustrado para se folhear na sala, para quem gosta de uma decoração sinistro-vintage. Suas informações científicas detalhadas são transmitidas com um entusiasmo cativante, embora nem sempre contagiante, e acompanhadas por fotos de página inteira, as quais alguém que não seja eu talvez considere belas. Além de digressões sobre a ecologia, biologia e o comportamento das aranhas, o livro contém pequenas biografias de quarenta espécies distintas.
Esse número representa, lamento informar, apenas uma fração minúscula do total. Até hoje, conhecemos cerca de 50 mil espécies de aranhas – embora, tal como ocorre com esta revista, seja difícil acompanhar os números, já que novas espécies vêm aumentar a pilha a cada semana. Os cientistas supõem que o número real seja pelo menos o dobro, enquanto o número de aranhas individuais deve ultrapassar 15 quadrilhões. Não estão distribuídas de maneira uniforme por todos os ecossistemas, é claro, mas não há como escapar delas – exceto na Antártida. Assim como nós, as aranhas são geograficamente intrépidas. Elas proliferam em florestas tropicais, florestas temperadas, florestas boreais, campos, áreas úmidas, desertos, savanas, estepes, cavernas, montanhas, pântanos e brejos. Uma das espécies, a aranha-sino-de-mergulho, tece sua teia debaixo da superfície dos lagos e lagoas, prende nela uma bolha de ar para respirar e ali vive, debaixo d’água, pelo resto dos seus dias. Dentro desses vários ambientes, as aranhas se distribuem como os moradores de Nova York: ocupando todos os níveis verticais, desde o térreo até a cobertura, desde o porão até o sótão. Em um trecho típico de floresta no Leste dos Estados Unidos, pode-se encontrar aranhas escavando o solo, correndo entre as folhas mortas no chão, acomodadas nos arbustos, pendendo dos galhos e tecendo suas teias no alto das copas das árvores. Se a reação do leitor agora é jurar que vai renunciar às delícias do ar livre para passar mais tempo nas delícias do ar de dentro da sua casa, estará subestimando a sua inimiga: uma pesquisa recente no estado da Carolina do Norte encontrou aranhas em 100% das residências.
Como se poderia esperar de uma ordem zoológica capaz de viver em qualquer lugar, desde as estepes da Mongólia até uma casa de fazenda no interior da Carolina do Norte, as aranhas são extremamente diversificadas. Elas variam de 0,2 mm a 12 cm de largura – mas isso é só o tamanho do corpo, pois os aracnólogos, que obviamente não pensam como todos nós, em geral não incluem as pernas ao descrever o tamanho de uma aranha. (Para compreender como essa prática descritiva é psicologicamente falha, considere a aranha-caçadora-gigante: tecnicamente tem 2,5 cm de comprimento, o que já é bem ruim, mas contando as pernas, a criatura mede 30 cm de ponta a ponta.) Outras características também têm variações extremas. Algumas aranhas vivem menos de um ano, tal como as efeméridas. Outras podem viver mais de quarenta anos, como os camelos. Algumas têm oito olhos; outras não têm nenhum. Algumas fêmeas botam um único ovo, enquanto outras botam mais de 3 mil.
Mesmo assim, há algumas características que todas as aranhas compartilham – além da capacidade de me fazer subir pelas paredes. Como é óbvio, todas pertencem à classe Arachnida, um ramo nem um pouco adorável da árvore da vida, que inclui os escorpiões, os ácaros e os carrapatos. Todos os Arachnida têm oito pernas (e, fora o microscópico tardígrado, apenas os Arachnida têm oito pernas. Não difame o maravilhoso polvo, que tem oito braços). Outra característica geral: todas as aranhas são predadoras. Há uma exceção parcial a essa regra: Bagheera kiplingi, uma aranha majoritariamente herbívora, nativa do México e da América Central. Algumas outras espécies por vezes comem algum fragmento de planta, sendo assim, tecnicamente, onívoras. Mas, de modo geral, seu apetite se distingue por ser espetacularmente carnívoro. Em conjunto, as aranhas consomem pelo menos meio bilhão de toneladas de carne por ano – mais que a quantidade consumida pelos seres humanos.
E o que, exatamente, essas vorazes criaturas carnívoras consomem? Insetos, é claro. E também peixes, girinos, sapos, lagartos, e um ou outro vertebrado – camundongos, musaranhos, ratos-do-campo, morcegos. A maior aranha do mundo, a tarântula-golias ou aranha-comedora-de-pássaros, de fato come pássaros. Uma aranha chamada Evarcha culicivora, que vive no Quênia e em Uganda, alimenta-se quase só de seres humanos – mas, felizmente, apenas de forma indireta: seu petisco preferido são os mosquitos empanturrados de sangue humano.
Outra coisa que as aranhas comem com grande prazer são outras aranhas. Todas as variedades conhecidas praticam o canibalismo, algumas com grande entusiasmo, em geral durante ou logo após o acasalamento, sendo que quase sempre é a fêmea que devora o macho. Até 80% dos machos da aranha-vespa, por exemplo, são comidos na sua primeira aventura de acasalamento. Alguns machos de aranhas comumente chamadas de viúvas-negras, talvez resignados com o seu destino, já se posicionam depois do sexo de modo a serem consumidos. Já o macho da aranha-pescadora-escura morre espontaneamente durante o sexo, poupando à fêmea o trabalho de matá-lo antes de comê-lo. Em algumas espécies, a fêmea se deixa devorar por seus filhotes, um comportamento conhecido como “cuidados maternais suicidas”. E há, ainda, muitas espécies que simplesmente vão à caça de outras aranhas, matando e devorando as companheiras sem piedade, como se fossem tão pouco aparentadas a elas quanto nós somos aparentados dos peixes e dos perus.
Em resumo, se eu fosse uma aranha, continuaria sentindo medo de aranhas. Como ordem, elas possuem um conjunto completo de características e habilidades mortíferas: são capazes de emboscar, capturar, atacar em grupo e enganar a presa. Para isso, são dotadas de uma destreza cognitiva muito maior do que se possa imaginar, além de exibirem estruturas semelhantes a dentes, garras tarsais e presas que, nas imagens ampliadas do livro de Ximena Nelson, parecem pertencer, respectivamente, a tubarões, onças e à vampira Carmilla.[3] Mas as armas mais eficazes da aranha, e mais essenciais para a sua reputação feroz, são os equivalentes aracnídeos do “punho de ferro em luva de veludo”: o veneno e a seda.
Seja qual for o sentimento que se tem sobre as aranhas, o fato é que a seda que elas produzem é um material prodigioso. Embora muito mais fino do que um fio de cabelo humano, um filamento de seda tem mais resistência à tração do que o aço e pode absorver mais impacto do que o Kevlar, a resistente fibra sintética. Isso se deve ao fato de ser extremamente dúctil, ou seja, capaz de se esticar muitas vezes além do seu comprimento normal, sem se romper – o que explica por que um pássaro pode se chocar direto contra uma teia sem destruí-la. A seda também se contrai intensamente quando molhada, algo muito conveniente para a aranha. Um fio de seda, por mais que tenha sido esticado e tensionado, voltará à sua condição original se for exposto a uma chuva forte.
Esse material de uma resistência extraordinária começa como um líquido armazenado em glândulas especiais no abdômen da aranha. A partir daí, ele flui para órgãos chamados fiandeiras, dos quais uma aranha pode ter até oito, “cada um terminando em minúsculos bicos”, como escreve Ximena Nelson. A aranha então passa a extrair a seda manualmente, por assim dizer, puxando-a de uma fiandeira com as patas traseiras. Assim, ela vai realinhando as moléculas de proteína, de modo que a substância líquida se torna sólida. Será isso uma prova da fantástica inventividade da natureza, ou do caráter horripilante e alienígena das aranhas? É uma questão de perspectiva.
Seja como for, as coisas que as aranhas conseguem fazer com a seda são tão impressionantes quanto as proezas narradas em A teia de Charlotte, de E. B. White. Começando pelo óbvio, elas usam a seda para construir suas teias, que variam de tamanho (de 1 cm de diâmetro até quase 3 m2) e em sofisticação (de um simples triângulo até espirais e funis elaborados). Como as teias coevoluíram com os insetos – e, portanto, com o surgimento do voo dos insetos –, elas podem ser encontradas não só estendidas sobre o solo e as pedras, mas também em lâminas verticais que chegam a atravessar toda a largura de um rio. Por razões ainda misteriosas, certas espécies decoram a teia com fragmentos de plantas ou com restos mutilados de suas vítimas – como Charles ii pendurando a cabeça de Oliver Cromwell no Westminster Hall. Outras fazem decorações com a própria seda. O exemplo mais famoso e enigmático é a aranha-da-cruz-de-santo-andré, que tece uma cruz em forma de X no centro da teia.
Costumamos pensar que a teia é uma característica definidora das aranhas, mas apenas a metade das espécies constrói teias. Todas, porém, produzem a seda, que tem vários outros usos. Um deles é um método de dispersão conhecido como “balonismo”: a aranha, em geral um indivíduo jovem, sobe numa árvore ou alguma outra coisa alta, vira o abdômen para o céu e libera vários fios de seda, formando um paraquedas que as leva embora voando com a brisa. É sabido que as aranhas podem viajar centenas de quilômetros dessa maneira, chegando a pousar em navios no meio do oceano.
A seda também serve para forrar o ninho, tecer casulos para os ovos e subjugar as presas. As aranhas-escavadoras estendem fios de seda na entrada da toca, para perceber a presença de predadores, ou de um possível jantar. As aranhas-saltadoras lançam linhas de segurança antes de pular, tal como os montanhistas que vão fixando âncoras enquanto escalam um penhasco. A viúva-negra solta um fio de seda da teia e, basicamente, vai pescar. As aranhas-boleadeiras caçam à noite, balançando uma gota pegajosa na ponta de um fio de seda, como um laço. Quando a bola se cola na presa, a aranha puxa o fio rapidamente. A aranha macho, que tem um órgão para produzir esperma e outro para copular, faz uma pequena bolsa de seda onde deposita o sêmen, e depois a transfere para o órgão do acasalamento.
Esses diversos usos exigem diferentes tipos de seda, que são produzidos em glândulas distintas. Para construir a clássica teia circular, por exemplo, a aranha usa quatro tipos de seda: um para a estrutura e os fios radiais; outro para o andaime usado durante a construção, em geral removido quando a teia está pronta; um terceiro para ancorar a teia em superfícies fixas; e um quarto para criar a “zona de captura” em forma de espiral no centro. E se algum manjar apetitoso cair nessa zona, logo será embrulhado, tal como um sanduíche enrolado em papel-alumínio, em um quinto tipo de seda.
Com base nessa descrição, pode-se imaginar que uma teia é uma espécie de ratoeira biológica, mas ela é muito mais sofisticada do que isso. Seria melhor compreendê-la como um sistema sensorial externalizado. Com seu número até excessivo de olhos, a maioria das aranhas consegue enxergar e algumas têm a visão excepcionalmente aguçada. Mas nenhuma tem ouvidos, nem antenas, como ocorre com os insetos. Em vez disso, a própria teia funciona como uma antena, captando e amplificando os sons, que podem vir de até 9 metros de distância, segundo Ximena Nelson. Os cientistas supõem que as aranhas conseguem realmente “ouvir” essas ondas sonoras à medida que vão se propagando pela teia.
A capacidade da aranha de detectar informações por meio da teia se deve a outra característica crucial – e repulsiva – dos aracnídeos: os pelos. Assim como os pequeninos pelos que temos no interior dos nossos ouvidos, os pelos nas patas da aranha, chamados sensilas, se movem reagindo às vibrações, tais como as que surgem quando algo se choca contra um fio de seda. Sentindo essas vibrações a aranha determina o tamanho e a localização da vítima. E como as vibrações mudam de frequência e amplitude, a aranha consegue perceber algo mais: quando a vítima já está exausta de se debater e é possível se aproximar com segurança. É aí que o veneno entra em ação.
Lamento dizer que quase todas as aranhas são venenosas. Na verdade, se uma criatura é venenosa, há uma grande chance de que seja uma aranha. Segundo Ximena Nelson, existem mais espécies de aranhas venenosas do que o total de todos os outros animais venenosos. As aranhas-armadeiras – as que não constroem teias – dependem do veneno para atacar a presa, enquanto as que tecem teias usam as duas armas: o veneno e a seda. Entre as construtoras de teias, algumas espécies picam a presa e depois a envolvem em fios de seda. Outras fazem o contrário: primeiro enrolam a vítima com fios de seda, girando-a como um galeto no espeto. Só quando ela está totalmente imobilizada é que a aranha injeta o veneno.
Há muitas variações dessa prática, incluindo algumas espécies que conseguem picar e envolver a presa ao mesmo tempo. Talvez a versão mais impressionante seja uma espécie da aranha-cuspideira cujo nome vem da sua capacidade peculiar de ejetar um tipo muito pegajoso de seda, que não vem pelas fiandeiras, mas sim pelas presas. Ao encontrar uma possível refeição, ela cospe sobre a vítima uma vasta quantidade dessa cola – um processo que leva menos de um milissegundo. Além de ser extremamente viscoso, esse tipo de seda que vem pelas presas se contrai ao entrar em contato com a vítima, deixando-a praticamente embrulhada a vácuo. Em seguida a aranha se aproxima e pica a criatura. Dessa vez, o que sai das presas é o veneno.
A quantidade de veneno usado por essa aranha, ou qualquer outra, fica a critério de cada uma. Se a vítima for grande ou agressiva, receberá uma dose maior. Uma criatura menor, ou que já esteja exausta, receberá uma dose menor, ou até nenhuma – a chamada “mordida seca”, uma espécie de blefe aracnídeo, reservado para presas inofensivas. Um fato notável: a aranha consegue controlar não só a quantidade de veneno que expele, mas também a composição: como as glândulas e os dutos de veneno têm seções separadas, contendo diferentes toxinas, a aranha pode personalizar sua secreção para cada presa, criando instantaneamente um coquetel com a máxima potência debilitante.
Para infelicidade das vítimas, o veneno, por mais personalizado ou abundante que seja, raramente é mortal. Em geral, ele só paralisa, em vez de matar, e é então que a aranha vomita um fluido digestivo de alta potência em cima da sua futura refeição. Assim como alguns dos seus sistemas sensoriais, o sistema digestivo da aranha também é externalizado: ele não ocorre dentro da barriga da aranha, mas sim na própria presa, onde as enzimas regurgitadas quebram os tecidos moles, fazendo um purê da criatura ainda viva. Concluído esse processo, a aranha suga o resultado líquido, deixando para trás todo o material não digerível.
Em vista dos macabros hábitos alimentares dos aracnídeos, pode parecer razoável temer que uma aranha aponte contra nós as suas presas pontiagudas, pingando veneno. Longe de mim questionar a legitimidade de qualquer fobia de aranhas, mas devo informar que o medo das picadas é infundado: menos de 0,5% das espécies de aranhas têm veneno tóxico para os humanos. E, embora seja uma verdadeira relações-públicas a serviço da comunidade aracnídea, Ximena Nelson nos fornece uma lista completa das infratoras: a aranha-reclusa (encontrada em regiões quentes ao redor do mundo), a aranha-de-areia (vive em desertos da África e das Américas), a aranha-reclusa-brasileira (vive na América Central e do Sul), a aranha-rato (vive no Chile e na Austrália), a aranha-teia-de-funil (encontrada apenas na Austrália), um gênero de tarântula (encontrado na Índia e no Sri Lanka, não em cozinhas da Costa Rica) e a viúva-negra (encontrada praticamente em todo lugar).
Dessas todas, talvez a mais perigosa seja a aranha-teia-de-funil – em especial a aranha-teia-de-funil de Sydney, não por ser mais venenosa que outras da sua família, mas por viver em estreita proximidade com 5,5 milhões de pessoas. Agressiva quando atacada (por exemplo, por um pé desavisado pisando dentro de um sapato já ocupado), essa aranha pode picar repetidas vezes, com presas supostamente capazes de perfurar as unhas dos pés. Seu veneno, embora não seja mortal para a maioria dos vertebrados, é fatal para os primatas. Um camundongo com dois dias de vida consegue suportar quase dez vezes a dose que mata instantaneamente um macaco.
Felizmente para os australianos, existe um antídoto para o veneno da aranha-teia-de-funil, disponível desde 1981. De lá para cá, não há registro de mortes. Também existe um antídoto para a viúva-negra, cujo veneno contém uma neurotoxina capaz de causar espasmos musculares, suores e taquicardia, mas é raramente usado e quase nunca necessário. Ao contrário da aranha-teia-de-funil, a viúva-negra não é particularmente agressiva, e com frequência aplica a tal mordida seca. Segundo Ximena Nelson, menos da metade das pessoas picadas apresenta qualquer sintoma, e menos de 2% têm sintomas graves. Não se sabe de ninguém nos Estados Unidos que tenha morrido por uma picada da viúva-negra nos últimos quarenta anos.
Na minha opinião, a aranha venenosa mais alarmante é a aranha-reclusa-marrom, ou aranha-reclusa-castanha, mesmo sendo uma criatura bem-educada, que em geral convive pacificamente com o ser humano. Para fazê-la picar, é preciso agredi-la, mesmo que acidentalmente, por exemplo, se você estiver dormindo e rolar por cima dela na cama. Mesmo que ela reaja com uma mordida, de modo geral será seca e os sintomas serão leves. Em um pequeno número de casos, no entanto, sua picada causa necrose do tecido humano. Em um número ainda menor de pessoas, em geral crianças pequenas, pode ser fatal. O mais assustador é que, ao contrário da picada da viúva-negra e da aranha-teia-de-funil, não existe cura conhecida.
Mas antes de chamar o controle de pragas, considere os seguintes dados tranquilizadores: entre 3 e 7 pessoas morrem por picadas de aranha a cada ano nos Estados Unidos, onde as chances de entregar a alma a Deus dessa maneira, portanto, são menos de 1 em 49 milhões. Isso não impede que, rotineiramente, pessoas apareçam no pronto-socorro buscando atendimento para picadas de aranha – das quais entre 90% e 96% acabam se revelando que não são, afinal, picadas de aranha. A reclusa-marrom é muito acusada por picadas em áreas onde a espécie nunca foi encontrada. Outras espécies também sofrem calúnias e acusações injustas. A aranha-lobo tem uma aparência aterrorizante, com o corpo enorme e as patas longas e grossas, mas o antídoto para a sua picada, já utilizado há décadas, acaba sendo desnecessário, pois seu veneno não é tóxico para o ser humano.
Pode-se fazer uma pergunta razoável: se as aranhas quase nunca causam efeitos realmente nocivos ao ser humano, por que tantas pessoas têm pavor delas? Entre 3% e 15% da população sofre de aracnofobia extrema. Portanto, não apenas é uma das fobias mais comuns relativas aos animais, como também uma das fobias mais comuns de modo geral – empatando com o medo de voar e o medo de altura, e à frente do medo de agulhas e de lugares com muita gente. Esses números não refletem a parcela muito maior de pessoas cuja aversão às aranhas não chega a ser patológica.
Esse sentimento generalizado contra os aracnídeos não parece ter uma origem evolucionária. Para começar, a aracnofobia é comum também em lugares onde não existe nenhuma espécie de aranha perigosa. Além disso, mesmo antes das intervenções médicas modernas, as aranhas não representavam uma ameaça significativa para o ser humano. Na verdade, elas fazem bem à nossa saúde, já que não nos transmitem doenças conhecidas e são consumidoras vorazes dos insetos que as transmitem, como a mosca tsé-tsé e o mosquito da malária.
De fato, o argumento evolucionário mais forte para a aracnofobia não é o perigo das aranhas, mas sim dos escorpiões. Diz essa teoria que nós generalizamos nosso medo bem fundamentado dos escorpiões para as suas “colegas”, por assim dizer. É fato que, mesmo contando com antídotos, as picadas de escorpiões matam cerca de 3 mil pessoas por ano. O problema da teoria é que os escorpiões não são parecidos com as aranhas. Pela mesma lógica, nós deveríamos ter medo das mariposas, devido à sua semelhança com as vespas.
E há outra falha na teoria. Se resguardar nossa segurança fosse o principal motivo das fobias, deveríamos sentir muito mais medo de cães, leões, elefantes e hipopótamos. Mas, é claro, isso não acontece – e, ao ler o livro de Ximena Nelson, me ocorreu pela primeira vez que meu medo de aranhas coexiste com a absoluta ausência de medo de que eu venha a ser picada. Suponho que é isso que define uma fobia: é um medo que não provém da racionalidade, nem é aliviado por ela.
Assim, onde quer que busquemos a origem da aracnofobia, não será no território da razão lógica. Ela fica no que se poderia chamar de “território do pavor”: há algo nas aranhas que é tão estranho que nos apavora. O jornalista e divulgador científico David Quammen, ao refletir sobre o medo generalizado da humanidade pelas aranhas e as cobras, propôs uma teoria que se poderia chamar de “a mais ou a menos”: ambas as criaturas, escreve ele, desafiam “o número de pernas padrão na maior parte do reino animal – ou seja, quatro pernas, variando de duas pernas a mais ou a menos”. Ele então descarta essa ideia, pois, se estivesse correta, as pessoas também teriam pavor das ostras, que não têm pernas, e das lagostas, que têm dez. Mesmo assim, acredito que existe algo de correto nessa proposta. Quem conversa com um aracnofóbico vê que uma das coisas que mais nos perturba é a forma como as aranhas se movem: de uma maneira esdrúxula, imprevisível e incrivelmente rápida (sem falar que sobem pelas paredes e andam pelo teto). E essa aversão se baseia numa realidade física fascinante: as aranhas se locomovem de uma maneira diferente de praticamente todos os outros animais do planeta, não baseada em músculos, mas sim no seu sistema hidráulico integrado.
Suponho que esse seja o motivo principal que faz as pessoas acharem as aranhas tão horripilantes: não são exatamente as pernas, mas o fato de que as aranhas são profundamente diferentes de nós em quase todos os aspectos. Veja os olhos: são redondos e globulares como ovas de peixe, às vezes desproporcionalmente grandes (mas não à maneira de um personagem fofinho de Walt Disney). Variam em tamanho, até no mesmo indivíduo, e ficam alinhados de maneiras tão bizarras que nosso cérebro mal consegue compreender que são olhos, nem perceber para onde ela está olhando (muito menos no que ela está pensando).
Considere também sua tendência ao canibalismo pós-coito. Considere seus hábitos alimentares repulsivos e sua prática macabra de envolver suas presas numa mortalha de seda. Com tudo isso, são praticamente indistinguíveis das incontáveis criaturas de filmes de terror que elas já inspiraram.
E, falando em filmes de terror, as aranhas são péssimas em relações públicas. A maneira como são representadas na literatura, no cinema e no folclore varia do repugnante ao mortífero, e o punhado de exceções que existe não basta para mudar essa imagem. Para cada Charlotte, há cem aranhas como aquela malvada da canção de ninar Little Miss Muffet. Para cada pequenina Dona Aranha das rimas infantis, há mil Aragogues – a acromântula gigante de Hagrid, em Harry Potter. E o pior: na vida real, sua reputação não é muito melhor. Estamos falando de uma ordem de animais com nomes como aranha-cara-de-ogro, aranha-assassina, aranha-caveira, aranha-fantasma, aranha-goblin ou aranha-vampira – e, ainda, uma espécie recentemente descoberta no Sri Lanka, com o nome científico de Poecilotheria rajaei, conhecida como “tarântula do tamanho de um rosto”.
Sendo assim, o que há nelas para se amar? Muita coisa, insiste Ximena Nelson. Esmague a sua repulsa instintiva – é o conselho da autora, e aprecie as coisas impressionantes que elas são capazes de fazer. A Colonus puerperus, encontrada em toda a região Sul e Meio-Oeste dos Estados Unidos, pode saltar a uma distância de quase quarenta vezes o tamanho do seu corpo – ou seja, seis vezes mais longe, em termos proporcionais, do que meus gatos domésticos, antes tão admirados. A aranha-flic-flac, nativa do Marrocos, pode dobrar sua velocidade virando cambalhotas sobre as dunas de areia. Até a humilde aranha-de-pernas-longas tem uma carta escondida na manga, ou melhor, em cada uma das suas oito mangas: quando ameaçada, gira como um pião em alta velocidade, até ficar parecendo um borrão, o que torna quase impossível para um predador atacá-la. Os pelos nas patas da aranha-de-bromélia são horrendos, mas, segundo Ximena Nelson, talvez sejam o órgão sensorial mais refinado conhecido pela ciência, capaz de reagir a “um centésimo da energia contida em um único fóton de luz verde!”.
O ponto de exclamação é dela, mas já chegando ao fim do livro, eu não conseguia mais criticar seu entusiasmo. Além de mostrar as proezas de várias espécies, ela propõe uma nova maneira de compreender toda a ordem dos aracnídeos. Sempre difamadas não só como repulsivas, mas também como nada inteligentes e movidas apenas pelo instinto, a verdade é que as aranhas são capazes de aprender, tomar decisões, orientar-se no espaço com métodos sofisticados e até reconhecer quantidades. Além disso, as características que as tornam tão diferentes de nós também podem representar vantagens. Os engenheiros estão estudando a mecânica peculiar dos movimentos das aranhas para projetar robôs e próteses humanas. Designers ópticos estão analisando os sistemas visuais das aranhas para criar lentes cada vez menores, com profundidade de foco e alta resolução. Pesquisadores de todas as áreas, desde a biomedicina até a ciência dos materiais, estão tentando sintetizar a seda das aranhas, dada a sua combinação incomparável de leveza, resistência e elasticidade. Some-se a tudo isso o argumento ambiental: as aranhas são participantes essenciais de quase todos os ecossistemas da Terra, mas quase não constam das listas de espécies ameaçadas – talvez por serem consideradas o que se poderia chamar de “microfauna repulsiva”.
Por fim, há o argumento existencial em favor das aranhas: a ideia de que o destino delas está, de alguma forma, entrelaçado ao nosso – não só do ponto de vista ecológico, como também emocional, psicológico e espiritual. Não me refiro aqui ao fervoroso teólogo Jonathan Edwards (1703-58), grande admirador das aranhas que escreveu uma tese a respeito delas na juventude e, em seu sermão mais famoso, usou as aranhas como metáforas para as almas não salvas. Não, estou me referindo a Walt Whitman e seu poema Silenciosa aranha paciente. Ao observar uma aranha explorando seu entorno, lançando “um fio, fio, fio tirado de si mesma”, Whitman, numa interpretação mais generosa da visão calvinista, viu nesse comportamento a nossa própria situação, cheia de perigos e também de esperanças: a maneira como lançamos nossos fios rumo ao vasto desconhecido, “até que esteja construída a ponte que hás de necessitar, até que esteja segura a âncora maleável, até que o fio de teia que lanças pegue em algum lugar, ó minha alma!”.
É uma lição de humildade ver uma criatura que eu sempre desprezei ser retratada de uma forma tão bela. E o poema também nos faz lembrar de algo que não deveríamos jamais esquecer: odiar, por simples reflexo, tudo o que nos é estranho é o ponto de partida do mal. E essa não é apenas uma lição sobre as aranhas, claro. Whitman, em sua adoração sem limites por todas as coisas, também conseguiu amar a humanidade – pela nossa maravilhosa estranheza, e apesar das nossas infinitas maneiras de sermos horripilantes.
[1] Ainda sem previsão de lançamento no Brasil.
[2] No dia 6 de novembro, Donald Trump foi eleito presidente dos Estados Unidos.
[3] Carmilla é uma novela de ficção gótica do escritor irlandês Joseph Sheridan Le Fanu (1814-73).