dossiê piauí
José Henrique Bortoluci Dez 2025 16h29
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Os olhos da santa eram vivos demais, e com seu pé esquerdo ela esmagava a cabeça de uma cobra. Ele, com 9 anos, usava uma batina branca, às vezes com uma estola vermelha jogada sobre os ombros, e esperava sua vez de atravessar a porta da sacristia e caminhar para o altar; ali, interpretaria o Messias multiplicando pães, ressuscitando mortos, pregando aos discípulos. Ele se lembra até hoje dos olhos vítreos da santa, azuis como o véu que ela usava; aqueles olhos que pareciam contemplá-lo, mesmo quando ele se movia pela sacristia escura, onde muitas vezes aguardava sozinho o momento de sua entrada teatral a cada domingo, nos últimos anos de sua infância e durante toda sua adolescência.
Os sábados eram os dias de decorar as falas de Jesus e de ensaiar para a encenação do dia seguinte. Hoje, ele não guarda na memória as falas de nenhuma peça, mas não se esquece do olhar da santa, que evitava a todo custo, mesmo que para isso tivesse que se fixar na cabeça esmagada da cobra que agonizava sob os pés da mãe de Cristo. Por anos sonhou com aquela face assombrada da imagem de Nossa Senhora, fria, imóvel, e antes de dormir rezava para que ela não aparecesse em sonho ou no escuro de seu quarto (era uma época de aparições de santas pelo país, nos anos de passagem de milênio, e a imagem de Jesus e de santos se plasmava em janelas ou em feridas, para aclamação dos fiéis e o deleite de programas de tevê).
Quando criança, ele gostava do papa que beijava o chão em cada país que chegava, o polonês carismático que falava várias línguas. O catolicismo era sua segunda escola, e sua avó dizia que religião mesmo era só a católica: as outras eram seitas. Além da igreja, a escola pública que frequentava e onde se sentia ajustado, mesmo sendo péssimo nos esportes – tão importantes para os seus colegas de turma, sobretudo os meninos – e mesmo sofrendo com sua miopia, que não parava de aumentar, ano a ano; ele preferia ser juiz no futebol da educação física, e sua baixa estatura não lhe dava nenhuma esperança nos outros esportes.
Aos 8 anos, descobriu a biblioteca pública da cidade. O futuro, então, parecia imenso, e cresceu ainda mais com suas primeiras viagens e com a internet. Antes disso, tinha dito à sua mãe que queria estudar em uma universidade, palavra que ela não entendeu bem. Aos 11, descobre os jornais. O Brasil era um mistério, e a vida era grande, mesmo com as tormentas financeiras da família, a inundação da cozinha nos dias de chuva, as doenças. Um futuro amplo, uma promessa distante, e ele ia conhecendo o mundo pelos livros que pegava na biblioteca, pelos jornais que devorava, pelos fascículos semanais das coleções que formaram sua primeira biblioteca pessoal, num mundo que ele observava bem próximo do nariz – o oftalmologista já tinha avisado que crianças com miopia tão alta quanto a dele tendiam à leitura.
Mais tarde, decidiu que era de esquerda, que seria um estudioso das humanidades, mesmo amando as ciências exatas, e entendeu que o papa polonês que amara na infância (e que tinha emprestado o nome ao seu irmão, João Paulo, ideia que partiu da avó que rezava o rosário todos os dias) tinha feito de tudo para calar o potencial transformador da Igreja Católica; pensou que queria ser um sujeito da história, que tinha que sair da cidade do interior e da casa dos pais o quanto antes.
Votou pela primeira vez em 2002. Quando o presidente que escolheu foi eleito, estava numa olimpíada de astronomia numa cidadezinha no sudoeste da Rússia e saiu correndo emocionado pelos corredores do instituto em que fazia as provas, celebrando sozinho. Ao comentar com um astrônomo russo que, ao voltar ao Brasil, estudaria relações internacionais, e não física ou astronomia, viu o rosto dele se fechar em desapontamento: No, no, astronomy is higher, disse o cientista, apontando para o céu.
Escrever sobre uma geração é peregrinar por uma biblioteca e por uma ruína. Na primeira, consultamos as ideias e os acontecimentos edificantes que seguem vivos, mesmo que deixados num canto da estante de nossa imaginação e de nossa história. As estações de esperança, as vitórias celebradas coletivamente, os lutos necessários, concluídos ou ainda em curso.
Vasculho essa biblioteca e nela vejo um país que conseguiu em alguns de seus melhores momentos olhar para si e buscar soluções para os problemas coletivos: o aumento da escolarização, a diminuição da pobreza extrema e da mortalidade infantil, a ampliação da presença de estudantes negros nas universidades, a punição recente a golpistas, os momentos de euforia na vitória da Copa do Mundo de 1994 (meu único momento de paixão pelo futebol), o irresistível desejo de estarmos juntos e de festejar, mesmo nos momentos mais sombrios. Essa biblioteca de júbilos permanece lá: ela pode ser consultada, revivida, pode animar lutas, projetos e movimentos futuros.
Agora, atravessamos a rua. No terreno em frente à biblioteca estão nossas ruínas: as oportunidades perdidas de punir ditadores e torturadores, a falência de nossa segurança pública, a matança de jovens negros, o contínuo assalto a povos indígenas e suas formas de vida, a perda de oportunidades históricas de aprofundar nossa democracia, a desigualdade obscena, a devastação ambiental. Talvez toda geração conviva com essas duas entidades, biblioteca e ruína, e a sua missão seja encarar ambas com seriedade, sem esperanças vãs, mas também sem fatalismos, preservando o acervo da biblioteca e o testemunho das ruínas. Ambas pedem um forte senso de responsabilidade e a disposição de transmitir o sentido delas para as gerações futuras, que somos responsáveis por formar.
A ruína e a biblioteca são também feitas de objetos. Desde os anos 1990, passamos a ser submersos em produtos que chegavam para transformar nossas vidas, alguns dos quais, depois de pouco tempo, seriam deixados de lado. A abertura econômica nos anos Collor e o Plano Real nos anos Itamar Franco e Fernando Henrique Cardoso mudaram o patamar de acesso a geringonças e experiências de todos os tipos. Eu me lembro de uma professora na universidade, a última que vi fumando um cigarro em sala de aula, dizer: “A geração de vocês teve a sorte de não precisar tomar uísque nacional na juventude.”
O videocassete (a emocionante ida às locadoras), o toca-fitas (gravar músicas da rádio para ouvir depois ou para dar de presente a amigos ou paqueras), os brinquedos da infância (Pogobol, ioiô, Pula-Pirata, Comandos em Ação), os videogames (que jogávamos em casa ou na casa dos vizinhos, Atari, Super Nintendo, Mega Drive, e as máquinas de fliperama que se espalharam pelas cidades antes de desaparecerem), os cacarecos importados da China que duravam uma estação (minigames, tamagotchis), os cadernos de capas brilhosas com imagens de surfe, os papéis de carta com cheiro de morango que as meninas colecionavam.
Junto desses objetos, as brincadeiras: na escola, no intervalo, era a vez do pega ladrão, de jogar bafo e forca, de preencher enquetes (nunca inocentes, uma das portas para os desejos adolescentes). Na sexta série, as brincadeiras na minha turma passaram a incorporar nossos incêndios hormonais naquela cidade tão católica no interior paulista. E, depois, as coisas da internet. Na infância, ainda não existia o mundo do eterno presente das redes sociais, da informação frenética ao alcance da mão, de uma realidade viciante que parece apresentar novidades a cada segundo, mas onde não há nada de novo.
Coisas desaparecem e outras nascem, e cada vez nos sentimos mais cansados das novidades que tomam todo o tempo dos mais jovens, e nossas coisas morrem assim como as ideias morrem ou hibernam (o socialismo, a terceira via, o presidencialismo de coalizão, a globalização). “Todas as imagens vão desaparecer”, nos lembra Annie Ernaux, e já estamos observando esse cemitério de coisas, de imagens, de ideias, de pessoas.
Nos primeiros meses na universidade em São Paulo, a partir de 2003, ele viveu num alojamento que ficava no subsolo de um estádio de futebol no campus universitário, onde alunos recém-chegados e com pouco dinheiro eram abrigados, enquanto aguardavam a decisão definitiva sobre a moradia estudantil. O quarto era abafado, cheirava a mofo, e os dezoito rapazes, espremidos em beliches e cercados por pernilongos e visitas frequentes de baratas, bebiam até tarde e fumavam coisas novas para ele. Nunca tinha se sentido tão feliz. A nova cidade, a nova fase da vida e do país, a enormidade da universidade (onde “o centro está em toda parte”, como dizia a inscrição altiva no entorno da torre central), a atração da política estudantil e da pesquisa.
Não tinha dinheiro para quase nada, e por isso passava os dias dentro do enorme campus, gastando muito pouco, mas querendo devorar tudo. Só conseguia se sustentar com as políticas de assistência estudantil e a ajuda de tios e conhecidos, e depois com as bolsas de iniciação científica e outros trabalhos pontuais. Discutíamos as novas políticas do governo, as acusações de corrupção, aprendíamos palavras novas (“dialética”, “transcendência” e “imanência”, “biopoder”), concorríamos em eleições estudantis, nos apaixonávamos – ele, platonicamente, que até então era seu jeito de conhecer a paixão. Desde o primeiro semestre, imagina que vai fazer doutorado e, talvez, que no futuro será professor daquela universidade ou de uma instituição no exterior. A primeira transa, o primeiro namoro, o otimismo dos tempos.
No doutorado, nos Estados Unidos, sofre de saudades. Chora ao telefone com o pai, que conhecia a dor da distância, mas jamais com sua mãe, que não lida bem com a tristeza dos filhos. O choro também corria quando andava pelas ruas de Ann Arbor, em Michigan, ouvindo Paulinho da Viola e Elza Soares nos dias quentes, The Smiths e Johnny Cash quando nevava. Em 2011, participa de protestos na onda do Occupy Wall Street, e em 2013 foge da polícia nos protestos de rua em São Paulo e no Rio, e sente a esperança de que algo novo podia surgir.
Termina o doutorado já com um emprego universitário no Brasil – lance de sorte e privilégio, uma vez que a expansão das universidades públicas pelo país começava a desacelerar e a crise econômica batia à porta. Sente, contudo, que algum mal-estar se aproxima, um desarranjo pessoal e coletivo. Em dezembro de 2015, ao observar a máquina que imprime as páginas de sua tese de doutorado, no saguão vazio da universidade, tem a sensação de ouvir por alguns segundos o ruído de um mundo desabando, seguido do silêncio frio que sucede as avalanches. Em sua cabeça ressoa a música de Peggy Lee: Is that all there is? Mas era só isso?
Escrevi em 2015:
Não creio ser exagero descrever o momento atual como uma constituinte às avessas; um processo difuso e multi-institucional de questionamento do pacto político que orientou os avanços, mesmo que lentos, da sociedade brasileira nos últimos 25 anos. O grande desafio para a reflexão e o ativismo político progressista nos próximos anos […] refere-se à possibilidade da articulação de novas forças sociais capazes de fazer frente a esse ataque amplo às conquistas históricas do ciclo anterior de lutas políticas… Essa lista não para de crescer. Evidentemente, ameaças às garantias constitucionais sempre operaram no período posterior à Constituição de 1988, mas de guerras de guerrilha elas se tornaram uma verdadeira Blitzkrieg política, legislativa, judicial e cultural. O punitivismo antipopular que move essa constituinte às avessas se soma a uma nova fórmula neoliberal, tão elegante quanto perversa: “A Constituição não cabe no orçamento.” Em política, nada mais eficiente que uma mentira simples para encobrir verdades complexas.
Isso foi antes do impeachment de Dilma Rousseff, do governo catastrófico de Michel Temer, dos quatro anos de Jair Bolsonaro, de uma nova Presidência de Lula, sequestrada por um Congresso formado pelo conluio entre golpismo e o velho fisiologismo, azeitado por fórmulas macabras como o orçamento secreto. Porém, sigo pensando que o desafio que apontei naquele texto segue o mesmo: a construção de novas forças populares, a mobilização social, a retomada da energia das ruas e assembleias, animadas por novas imagens de futuro e novos sentidos do possível.
Volto à oscilação cotidiana que me acompanha desde o primeiro ensaio desse dossiê. Nos meus dias menos inspirados, não vislumbro saída a não ser com a emergência desse “novo”, a partir de outras bases, de um aceno de sentido coletivo de país – e então olho para os lados e pouco vejo. Nos períodos de maior ânimo político, tento pensar que esse “novo” já está em gestação – talvez em pequenos movimentos em periferias, em aldeias indígenas, nas universidades, no campo, em palcos e livros e em organizações comunitárias. Mas talvez o problema esteja em meus olhos. Possivelmente, eu não tenho as lentes capazes de ver o “novo” para além dessa multiplicidade de lampejos de vagalumes, na bela imagem de Pasolini, vagalumes que ainda não sabem como se juntar para formar um holofote com maior amplitude, como somar lutas e ideias para elaborar uma nova teoria sobre o papel do Estado na transformação do país, como vencer eleições, ocupar espaços, conquistar mentes e desejos, promover a justiça social.
Confio nesses lampejos que só notamos de perto, com olhar atento, a partir da observação da vida cotidiana de homens e mulheres, de suas formas de organização, de seus medos e crenças, de suas palavras e gestos ausentes nas grandes narrativas históricas – nesse caso, as narrativas sobre o processo vacilante e tortuoso da construção de uma democracia numa das mais complexas sociedades do planeta. Porém, sinto falta de algum tipo de holofote.
Talvez as duas ideias estejam corretas, e me agarro à esperança de que a oscilação entre esses dois diagnósticos – a necessidade de uma renovação no Brasil, e a renovação que já está em processo, mas não consigo ver na totalidade –, esse vai e vem repetitivo, é a disposição possível hoje, a solitária arma intelectual de que disponho, talvez a única com que cada um de nós possa contar no momento.
Entre os anos 1930 e 1960, intelectuais brasileiros se deixaram fascinar por dois enigmas: o problema do que definiria o Brasil como país e o questionamento sobre o que o futuro nos reservava. No primeiro jogo, multiplicaram-se as interpretações do Brasil, sempre tendo os países do Norte como o Outro, a partir do qual a nossa própria autoimagem era pensada. Escritores e intelectuais se questionaram se o futuro do país seria mais sertão ou mais litoral, mais católico ou mais protestante, mais atraso ou mais “civilização”, mais Europa ou mais África.
Sérgio Buarque de Holanda peneirou nossa história na tese weberiana da racionalização do Ocidente para postular que nosso personalismo cordial nos afastava da trajetória do desenvolvimento dos países protestantes – éramos coração demais, razão de menos. Gilberto Freyre elaborou um otimismo aristocrático, branco, saudoso de uma suposta harmonia tensa entre as raças que daria o tom de nossa originalidade civilizacional (e, com isso, alimentava o persistente mito da democracia racial, que ainda pauta a imaginação conservadora). Caio Prado Júnior nos situou na máquina do capitalismo global, em seu lado dependente e dominado, e os cepalinos assinalaram caminhos de desenvolvimento via substituição de importações e transformação estrutural da economia.
Em paralelo, intelectuais negros apontaram o caráter estruturante da escravidão e do racismo em nosso passado e no presente. Movimentos sociais e artísticos de esquerda imaginaram um futuro de desenvolvimento e modernização, seja por meio da aliança dos trabalhadores com as elites industrializantes, como propunha o Partido Comunista, seja pela via revolucionária, como alentavam movimentos radicais no campo, estudantes e setores minoritários dos trabalhadores. No cinema do início dos anos 1960, Glauber Rocha produziu a alegoria dessa revolução por vir, quando o sertão viraria mar na revolta coletiva que despontaria em algum rincão do país.
Muitos desses autores são parte de um paradigma da formação – a busca incessante de nossas raízes, do que nos faz ser o que somos – e vários deles se associavam de forma mais ou menos direta a algum tipo de nacional-desenvolvimentismo, um amálgama de diagnósticos e planos que vislumbravam a possibilidade de que o Brasil se tornaria uma grande nação, de que teríamos afinal um “povo brasileiro” e não um agregado de coletividades disformes e dispersas no território, de que atingiríamos um futuro de industrialização e prosperidade. Brasília era o teatro iluminado, um aceno para as vanguardas modernas, a alegoria material e viva dessa imaginação, unindo o traço do arquiteto comunista com a visão do presidente desenvolvimentista, como se disséssemos, com aço e concreto: o moderno se faz tanto no Planalto Central quanto em Paris ou Nova York.
O golpe militar de 1964 pôs fim à boa parte dessas ilusões, e a grande arte de fins dos anos 1960 narrou esse luto – Glauber, que em 1964 havia filmado Deus e o diabo na Terra do Sol, expôs as ilusões das nossas elites letradas e o fracasso de um projeto revolucionário em Terra em transe, três anos depois do golpe; a Tropicália cantou nosso amálgama de antigo e moderno, de nacional e de estrangeiro, tudo deglutido antropofagicamente. No regime dos generais e de suas elites civis associadas, sobrava apenas o semblante do nacional-desenvolvimentismo, a carcaça de cimento e aço, cercada da violência de um projeto de transformação por meio de grandes obras e da marcha para o interior, um “progresso” sem povo e sem liberdade, com o incremento exponencial das nossas desigualdades e o desmonte das modestas conquistas do período democrático anterior.
A democratização dos anos 1980 propôs uma equação nova para aquilo que poderíamos ser, ao mesmo tempo ousada e frágil: para vislumbrar um novo futuro, era preciso anistiar os torturadores e seus chefes, criar uma Constituição ampla que incorporasse interesses antagônicos, promover a criação de um sistema de competição política em que vários projetos de país pudessem entrar em disputa e que também servisse como mecanismo para a conquista do Estado – como vimos desde então na prática usual de partidos fisiológicos, cuja missão é vencer eleições, fazer acordos, ocupar cargos e se beneficiar da máquina estatal. Essa abertura de portas, com todas suas contradições e conflitos, permitiu inegáveis conquistas nas últimas décadas, muitas delas descritas nos textos anteriores desse dossiê. Ela possibilitou também a escrita de mais um capítulo de nossa história viciosamente circular, em que o progresso, a cada pequeno passo, repõe a brutalidade do passado com novas roupagens e novo vocabulário.
Aqui tudo parece que era ainda construção e já é ruína, cantou Caetano Veloso. O tempo pareceu revelar que a palavra “aqui”, nesse famoso trecho da música Fora da ordem, expandiu-se para abarcar novas geografias. Como se sabe, o verso é inspirado no espanto do antropólogo Claude Lévi-Strauss com a impermanência das cidades do país, e de São Paulo em particular, onde ele viveu nos anos 1930 – cerca de uma década depois da Semana de Arte Moderna, que ambicionou indicar o caráter vanguardista da civilização brasileira e sinalizar nosso destino de rompimento com o passado, ou ao menos com parte dele. Mário Pedrosa elaboraria esse vaticínio duas décadas depois, encantado pelo potencial da arquitetura e da arte que o país produzia desde a Semana de 1922: “Somos condenados ao moderno.”
O adágio de Pedrosa que, com o golpe de 1964, mostrou-se também uma espécie de ruína, nunca deixou de ser usado como epígrafe em teses acadêmicas e para estampar ensaios e manifestos. O que nem Lévi-Strauss nem Pedrosa podiam imaginar é que o moderno se revelou, com o tempo, o gerador de suas próprias ruínas, seja aqui ou no norte do planeta. De nosso tempo presente, podemos observar que o acúmulo de detritos é inseparável da modernidade capitalista global (o hiperenriquecimento de uns custeado pela miséria de muitos, a permanência de formas de trabalho análogas à escravidão, a devastação ambiental planetária, a fragilidade dos arranjos democráticos, a perseverança das guerras), e que o Brasil não pode mais ser visto como membro dessa parte do mundo que, pacientemente, aguarda pela modernização às margens do processo civilizador, já que, tanto aqui como lá, civilização e ruína dançam com os corpos colados.
Talvez o espanto do antropólogo francês se deva ao fato de que, na periferia do sistema capitalista e da modernidade, as ruínas se revelem de forma mais nítida e precoce, enquanto em seu centro reluzente a bonança econômica tende a iludir os olhares locais – como se aquela “obra de civilização” das belas capitais europeias nada tivesse a ver com as “obras de barbárie” da miséria no Haiti e nas periferias latino-americanas, com a espoliação dos povos africanos e a escravidão, com a violência colonial, com um capitalismo de devastação com sede no Norte.
Essa ilusão de ótica, ideologicamente conveniente, agora mostra seus inequívocos sinais de esgotamento, junto da já sabida crise da democracia, que assola a Inglaterra do Brexit, a França de Le Pen, a América de Trump, a Alemanha do partido de extrema direita afd. Ou seja, se, setenta ou oitenta anos atrás, duas gerações inteiras de pensadores puderam imaginar que o Brasil estava na sala de espera da história – que logo seríamos como os Estados Unidos, ou a Europa, ou a União Soviética, que em breve sairíamos da condição do atraso e seríamos um outro país, bastando para isso trilhar o caminho certo –, hoje os modelos que vêm de fora nos parecem todos feridos de morte, e nossas visões de futuro já não podem contar com aquilo que parecia ser, para muitos, como faróis que, do Norte do planeta, nos guiavam.
Olhamos para longe e vemos que o centro do capitalismo já não se sustenta, que ele está desmoronando, com tantas crises que nos faltam dedos para contar quantas são. O plano de viabilizar no Brasil uma espécie de social-democracia – como ambicionava a Constituição de 1988 –, nutria-se em um projeto político de países do Atlântico Norte que hoje está decrépito. Depois, por um curto período, mantivemos alguma esperança de sermos parte de um Sul Global vigoroso, com a onda rosa na América Latina e a aproximação com a África e o Brics, mas essa onda se dissipou, e o Brics, em sua nova cara, já não tem como valores nem a democracia nem a sustentabilidade.
Assistimos boquiabertos ao lento colapso do Ocidente, os impasses e retrocessos no Sul, a crise climática que põe em xeque todos os modelos anteriores. Nessa escassez de cartilhas, no desamparo da ausência de um plano claro, talvez possa emergir o esforço – angustiante, mas promissor – de pensar o novo a partir de nossos próprios dilemas e soluções, com nossos olhares um pouco menos encantados pelas soluções de fora, com nossos espíritos um pouco menos seduzidos pelo desejo de sermos outro.
Nos anos seguintes ao doutorado, a partir de 2016, ele conheceu muitas cores da angústia, provou sua própria descida a regiões de sombras e em seguida esboçou tentativas de reconstrução. Em seu entorno, viu as certezas dos tempos de faculdade serem soterradas por uma onda de reação conservadora e depois de extrema direita. No dia 16 de novembro de 2016, escreveu em seu diário: “Resta-nos viver numa encruzilhada histórica que nos obriga a caminhar sem a mesma esperança de alguns anos atrás. Ou melhor, viver sem a espera sobrecarregada de que os modelos, sonhos, imagens do passado possam guiar passos futuros – sejam meus, sejam os da humanidade. Os fantasmas estão vivos, vivos demais.”
Sente-se um estrangeiro na universidade em que dá aula, na academia em geral (em que tinha depositado todos os seus esforços profissionais), em seu próprio país, em seu mundo, no tempo presente. Angústia e melancolia se alternam em sua vida por anos, tratadas com antidepressivos, psicanálise, poesia, amigos, encontros. A tragédia anterior com o tempo vai se transmutando em criação – uma expansão das formas de amar e de trabalhar com as palavras.
A política do país mergulhava tudo em um pântano de vulgaridade e violência institucional. Sua mãe, vendo o futuro presidente na tevê pela primeira vez, diz que ele parece “aqueles homens ignorantes de antigamente que batiam na mulher”. Depois da manifestação em homenagem a Marielle Franco, no dia seguinte a seu assassinato, depois de ouvir o silêncio da Avenida Paulista cortado pelos tambores do Ilú Obá De Min, voltando para casa, ele sente pela primeira vez o golpe frio do cano de um revólver em seu rosto durante um assalto (mas lhe levaram tão pouco). Começa a escrever versos e a guardá-los na gaveta e em cantos obscuros da internet. Depois passa a escrever outras coisas.
Observando o seu lado na política, sente-se frustrado com a mesmice, com o retorno de ideias já testadas, com a falta de perspectiva, com os nomes e caras e palavras e bandeiras que se repetem. A melancolia pessoal vai dando lugar a outra forma de melancolia – coletiva, política, geracional. O presente congelado das redes sociais, das telas mostrando diversos semblantes do nada, de um mundo de algoritmos e inteligência artificial e promessas vazias – imagens demais, coisas demais, o universo das mercadorias de plástico que atravessam o globo em poucos dias para chegar à sua porta. Em certo momento, tenta confiar na ideia de que ouvir outras pessoas de sua geração, indivíduos que, como ele, nasceram no momento da frágil transição da ditadura para o período atual, poderia ajudar a dar sentido àquele sentimento insistente de agonia.
Essa crise de futuros – que sustenta o impasse sobre o lugar do Brasil no mundo e na história – é também uma crise de temporalidade. Os modelos modernizantes do passado se nutriam de um otimismo do tempo linear, uma invenção europeia que prometia algum tipo de progresso para quem seguisse receitas de modernização provindas de Londres, Nova York ou, mais tarde, de Chicago ou do FMI. No começo dos anos 1990, sua versão mais pop prometia o fim da história. Uma forma inocente de ver esse colapso é dizer que ele ruiu com o Onze de Setembro e a guerra contra o terror, a crise econômica de 2008, a ascensão da extrema direita e todo o painel de crises dos últimos quinze anos. Algo disso é certo, mas essa é só uma parcela da verdade. É preciso pensar aquém e além desses marcos.
Se queremos imaginar outros futuros, o presente coloca como tarefa histórica repensar o próprio tempo e buscar para isso referências e sensibilidades que escapam à imaginação ocidental, historicista e linear. Pensadores e movimentos que há tempos refletem a partir das margens do pensamento hegemônico nos dão pistas de como desvelar essa armação ideológica. Manifestações culturais e tradições intelectuais negras e indígenas falam de um tempo circular, de morte e retorno, de amálgama do passado com o presente e o futuro. O pensamento indígena nos conclama a ver que a colonização da América já significava o fim de muitos mundos. Segundo Davi Kopenawa, em A queda do céu, o livro mais importante publicado no país nas últimas décadas, a invasão europeia das Américas prenuncia a hora desse iminente encontro com o fim do mundo – a própria “queda do céu”, na cosmologia yanomami, seria um colapso temporal promovido pelos brancos (esse povo que, ao dormir, sonha com mercadorias e com dinheiro, na fala do intelectual indígena).
A arte hoje consegue sinalizar melhor essas outras temporalidades do que o nosso surrado vocabulário político. Se na Bienal de São Paulo de 1951 celebramos um otimismo concreto, racionalista, prenhe de futuro, com formas limpas e industriais, na Bienal de 2023 vimos um presente em que pulsam tempos ancestrais e releituras críticas do envelhecido otimismo excludente que aguarda, de pupilas dilatadas, os objetos sedutores vindos do além-mar. No corpo dançante de Luiz de Abreu na performance O samba do crioulo doido, a história brasileira se faz corpo, e a bandeira nacional se presentifica engolida de várias formas pelo dançarino, que coloca nossos símbolos e destinos em movimento junto com seu quadril. Na instalação Pulmão da mina, de Luana Vitra, vimos um futuro ancestral se reconstruir com a matéria metálica da mineração, em formas geométricas entrecortadas por delicados canários, com a sobreposição de camadas de saber oral transpostas para formas precisas e setas que apontam para futuros-passados a serem escritos. Na Parede da memória, de Rosana Paulino, e na voz subterrânea do Falatório, de Stella do Patrocínio, os signos calados do passado voltam na forma de espectros, multiplicando as imagens e ampliando os decibéis com que outros futuros podem ser costurados. Em Kwema/Amanhecer, Denilson Baniwa propõe novas conexões entre comunidade, representação e temporalidade, a partir de uma obra-plantação que germinou no meio da metrópole as sementes crioulas do povo Guarani, em tensão construtiva com a silhueta bruta do pavilhão concreto da Bienal, no Parque Ibirapuera, enquanto reconstruía as temporalidades da arte do encontro entre culturas.
Não creio que nenhuma obra de arte, nem mesmo a soma de todas elas, possa fornecer soluções para os dilemas colocados pelo passado e pelo presente do Brasil, para a imaginação de novos futuros, para formas de lidar com nossa biblioteca-ruína. Não podemos esperar da arte aquilo que só se pode fazer pela mobilização dos sujeitos, pela construção de coletividades, pela formulação de ideias e a disputa política entre projetos de país. Mas esses trabalhos artísticos são índices, acenos, figurações, que sinalizam possíveis formas novas de narrar a história e imaginar “coreografias do impossível”, para retomar o título-tema da Bienal de 2023. Em momentos de crise de imaginação, isso não é pouca coisa.
De Joseph Brodsky, ensaísta russo que viveu a repressão do regime soviético: “Não importa o quão ousado ou cauteloso você escolha ser, ao longo da sua vida você inevitavelmente entrará em contato físico direto com o que se chama de Mal, […] uma realidade social palpável sobre a qual você não tem nenhum controle.” Por volta dos nossos 40 anos, cada um de nós já acumulou seus arquivos de males privados e coletivos. Juntos, já contemplamos esse mal de frente, no riso frio de alguns diante das vítimas da Covid ou dos assassinatos pela polícia nas inúmeras chacinas das últimas décadas. Brasileiros negros, indígenas e descendentes de vítimas da ditadura produzem manifestações culturais para construir memórias sobre nosso mal crônico, enraizado em nossa coluna vertebral coletiva.
Vemos esse Mal com letra maiúscula nas telas de celulares todos os dias (Gaza, Ucrânia, Sudão, Penha e Alemão…) e, como mais uma geração no fluir do tempo, testemunhamos a história como um acúmulo de tragédias. E seguiremos vendo: não há garantias, talvez nem mesmo sinais, de que na segunda metade de nossas vidas encontraremos um mundo de maior convivialidade, de paz ou mesmo com mais justiça social. Não me parece prudente apostar que irá emergir de um mundo radicalmente diferente do que temos hoje, mesmo que por certos períodos tenhamos a sensação de alguma calmaria e de bons ares, antes de sermos obrigados a anestesiar mais uma vez nossos sentidos à vista de um novo bombardeio.
Releio o parágrafo anterior e duvido de mim mesmo. Os sinais dos tempos vão e vêm, a história vive de nos surpreender, e essa visão trágica da história e da humanidade pode caducar assim que estiver impressa em papel. Muitas vezes, os sinais da mudança estão escondidos sob a poeira do presente e só podemos observá-los quando atravessam essas camadas espessas e vêm à tona, o que pode acontecer a qualquer instante. Espero por esses tremores, porém com mais sobriedade do que nos meus tempos de faculdade ou quando participava dos protestos de 2011 nos Estados Unidos e nos de 2013 no Brasil ou quando acompanhava com atenção a erupção de movimentos populares naquele período de promessas. Desconfio da palavra esperança – sempre desconfiei – e prefiro explorar outros léxicos – comprometimento, responsabilidade –, já que estes ainda podem nos indicar algum princípio ético, mesmo nestes tempos sem esperança alguma. Esses outros substantivos nos convidam de forma mais incisiva a refletir sobre as maneiras como nos implicamos no mundo.
Enquanto aguardo o ar do novo, entendo que devo olhar e escrever sobre esse Mal de que fala Brodsky. Me nego a abrir mão dessas imagens, me esforço para participar do projeto coletivo de catalogar as ruínas e tento lembrar que a melancolia das derrotas sofridas é o ponto de partida para a construção de novas imaginações, numa espécie de vingança do passado que só se dá no futuro. É preciso, quem sabe, recordar que a história é na maior parte das vezes feita de desencontros e aprender a contemplar as derrotas a partir de certa distância.
Fecho os olhos novamente. Tento colher mais cacos para montar uma arqueologia poética daquilo que chamamos “Brasil”, a partir da memória de fragmentos, de encontros inesperados, desses que irrompem em uma terça-feira qualquer e depois nos seguem por aí, como assombrações, enquanto dobramos esquinas pelo resto da vida.
Um dia, enquanto lia um livro de contos de Machado de Assis sentado à mesa de um café, disposta na calçada, um morador de rua parou do meu lado, olhou para meu livro, me encarou e me disse: “Em dez anos você vai perceber que não entendeu nada disso aqui.” Alguns anos antes, ouvi o cobrador de um ônibus lotado, parado no trânsito da Avenida Rebouças, em São Paulo, fazer um discurso sobre o Brasil que concluía dramaticamente assim: “Não se enganem, não, povo: o Brasil é trabalho, festa e putaria.” Em Nova Orleans, durante um congresso, ouço um artista de rua brasileiro, perdido por lá, me dizer que não é brasileiro, não: “Sou baiano.”
Em 2015, quando morei na Rua Frei Caneca por alguns meses vi famílias subirem em direção à Avenida Paulista com camisas verde-amarelas – e os casais gays na procissão me provocavam um incômodo particular. Depois me acostumei com aquelas cores representando uma enorme parcela do país no qual eu não me reconhecia. O mesmo verde-amarelo apareceu em 2024 vestindo Pabllo Vittar e Madonna num gigantesco show em Copacabana.
Num bate-papo antes de um show em Ann Arbor em 2009, na biblioteca da universidade em que fazia o doutorado, vi Gal Costa ensinar para um pequeno público, meio em inglês, meio em português, o que Dorival Caymmi quis dizer quando compôs que a baiana sabe mexer, enquanto ela mexia o corpo todo com as mãos na cintura, aplaudida timidamente pela plateia de gringos (ela depois me contou baixinho que estudava inglês; disse: “Já estou no intermediário 2”; e gargalhou). Nessa mesma universidade, uma aluna da Flórida me confidenciou ter ficado surpresa com o fato de eu ser brasileiro, porque ela, negra, sempre imaginou que todos os brasileiros fossem negros.
Nas eleições de 2018, reunimos amigos para assistir à apuração; choramos juntos e depois cantamos samba no quintal da casa em que morava com amigos no Butantã. Em um cinema da Rua Augusta, assisti, chorando, às cenas finais de Arábia, filme de Affonso Uchôa e João Dumans: um trabalhador lê em off trechos de seu diário, enquanto a tela mostra seu corpo diminuto no interior de uma metalúrgica flamejante. Ecoando tantas vozes, incorporando um país em corpo e palavra, ele diz:
Eu estou cansado. Quero ir pra casa… Queria que a gente abandonasse tudo. Deixasse as máquinas queimando, o óleo derramando, os pedaços de ferro abandonado, a esteira desligada, a lava quente derramando e inundando tudo… E a gente ia lá em casa, tomando água, dormindo à tarde… A gente ia tossir a fumaça preta e ia cuspir fora os pedaços de ferro do nosso pulmão.
Em meu primeiro Carnaval no Rio, enquanto ouço a bateria do Boi Tolo explodir no ar e fazer vibrar o concreto do prédio do Museu de Arte Moderna, renovo meu repertório do que é estar vivo.
O verso de Dante Alighieri, “no meio do caminho de nossa vida”, retornou insistentemente à minha memória quando entrevistava meus companheiros de geração e escrevia cada um dos textos deste dossiê, mas também retornou nas conversas com amigos ou durante as minhas leituras diárias do noticiário. Há algo de perturbador nas palavras de Dante, como se o ato de marcar a vida em duas partes nos dividisse, mal equilibrando entre o antes e o depois do ponto de corte.
Por volta dos 40 anos, não somos apenas herdeiros de um mundo que não pudemos escolher. Já tivemos tempo, ao menos algum tempo, de participar da construção desse mundo, de remoldar os materiais do passado e adicionar, quem sabe, algumas camadas de tinta, alguns adornos, talvez até sugerir a construção de novos quartos e jardins no grande edifício da história, mesmo que ninguém tenha nos dado ouvidos.
Pessoas da minha idade ocupam lugares de destaque na política, na cultura, na sociedade, na economia. O atual presidente da Câmara, Hugo Motta, é quatro anos mais novo que eu. Homens e mulheres da minha idade dirigem empresas, redações, partidos políticos. As celebridades pop mais influentes já são mais novas que nós (Anitta tem 32 anos, Gusttavo Lima, 36; Marília Mendonça teria 30 anos hoje). Bilionários millennials e políticos com desejos imperiais projetam seu poder por territórios jamais sonhados por Gêngis Khan e por imperadores romanos (Mark Zuckerberg, da Meta, tem 41 anos; Sam Altman, da OpenAI, 40; J. D. Vance, o vice-presidente dos Estados Unidos, 41).
Pelo Brasil, pessoas da minha geração dirigem escolas, governam cidades, publicam livros, contratam e demitem funcionários. Há também, na mesma faixa etária, uma legião de empregadas domésticas, entregadores de aplicativos, caixas de supermercado, aspirantes a microempreendedores, professores, policiais, encarcerados. Já tivemos tempo de acumular nossas cicatrizes e de olhar o mundo com lentes diferentes daquelas da juventude. E hoje somos parte da corrente contínua de transmissão da história para gerações mais novas.
Em alguns anos, nossos pais, professores, chefes, líderes políticos mais velhos sairão de cena aos poucos, e nessa segunda metade da vida sentiremos algo da solidão que experimentam todas as gerações quando finalmente se veem como o único adulto na sala, como os mensageiros que conectam diferentes tempos: em poucas décadas, haverá poucas pessoas acima de nós que poderão nos lembrar das lições de outros tempos. Envelhecer, mesmo quando cercados de cuidados e de pessoas amadas, exige esse acerto de contas com a solidão histórica, com a tomada de responsabilidades, com a obrigação, muitas vezes, de guiar outras pessoas, mesmo quando o cenário é novo, as luzes estão baixas e o passado, depois da morte das ilusões e das certezas, manda seus recados na forma de sussurros enigmáticos que quase nunca sabemos decifrar.
Abro o computador hoje e o ruído do presente começa a pulsar na minha tela. Entro no site de uma revista literária norte-americana e passo os olhos num artigo que começa assim: “O que aconteceu com o futuro? Quando o perdemos, e o que tomou o seu lugar?” Numa matéria de jornal brasileiro, leio que a maioria do mundo recuou em suas políticas climáticas; o Acordo de Paris está enfraquecido, a democracia liberal se esgarça, as guerras se tornam coisa do cotidiano e o adiamento do fim do mundo foge de nossos horizontes.
Numa outra aba, leio sobre a devastação que já acontece nos entornos da BR-319, que liga Porto Velho e Manaus, mesmo antes da planejada pavimentação da rodovia. Em meu e-mail, chega uma mensagem de um ex-aluno de 20 e poucos anos; ele quer conversar comigo e diz: “Tenho que pensar na minha vida nos próximos anos, porque não sei o que vai ser do mundo no futuro.” Em outra mensagem, sou convidado para participar de um evento em que estarão presentes lideranças jovens de movimentos sociais periféricos e amazônicos que trabalham pela justiça social e climática. Abro o YouTube e o algoritmo me mostra um vídeo de Paulo Freire em que ele fala que não é possível viver sem um olhar para o futuro. Passo meus dias mergulhado nessa sucessão irrequieta de fechamento e abertura de caminhos, de desolação e ação, de melancolia e construção.
Penso em meus colegas de geração com quem conversei para este dossiê: a garra para a luta da Claudia, da Dayanna, do Erasmo; a força diante dos percalços da Juliana e da Patricia; o desejo insistente de uma vida melhor da Camila e do Nilton. Medito sobre meus amigos, colegas de trabalho, meus colegas de escola que seguiram os rumos mais diversos – e muitos seguem em Jaú, em trabalhos precários, adultos pobres, filhos de pais pobres, sempre a um passo de escorregar para a miséria e a quatro passos de se tornar classe média.
Eu me lembro das pessoas com quem conversei nesses últimos meses, enquanto montava um painel fragmentado de minha geração e refletia sobre o trabalho de construção de algo como uma democracia neste país. Alimento esses pensamentos, mesmo que eles não apontem para nenhuma direção certa, para nenhuma saída evidente. Mas também já não espero mais por soluções prontas, por palavras mágicas, por certezas. Me agarro a essas imagens e pensamentos e os convido a caminharem comigo.