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vultos da antropologia

MONIQUE E CLAUDE

A viúva de Lévi-Strauss conta em livro sua relação com o antropólogo

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Durante uma viagem de Paris a Seul, na Coreia do Sul, leio J’ai choisi la vie (Eu escolhi a vida), que trata da vida de um antropólogo que odiava viajar: Claude Lévi-Strauss (1908-2009). No livro, o escritor Marc Lambron, da Academia Francesa, entrevista Monique Lévi-Strauss, viúva do antropólogo, a terceira mulher com quem ele se casou, e traz as recordações de uma união de quase sessenta anos. Na conversa com Lambron, Monique rememora, inicialmente, episódios de sua própria vida moldados pela origem judaica (por parte de mãe). Seu sobrenome de solteira, Roman (romance, em francês), prenunciava uma sequência de acontecimentos que, fosse descrita em uma ficção, pareceria inverossímil.

Em 1939, seu pai (que era belga e não judeu) decidiu aceitar um emprego na Alemanha, o que levou a família, apesar de todas as advertências, a se mudar de Paris para Düsseldorf, onde viveu o cotidiano do nazismo. Certo dia, ele foi preso. Alegou-se simples averiguação, mas a prisão se estendeu por seis meses. Temendo o pior, a mãe judia resolveu ser batizada na Igreja Católica e pediu que a própria Monique a acompanhasse, forçando a filha a “abrir um parêntese” no seu ateísmo, adotado havia algum tempo. O fato paradoxal, como salienta Monique, é que em Paris a família poderia estar exposta a uma denúncia, já que era notória sua ascendência judaica, ao passo que na Alemanha ninguém a conhecia.

Monique já havia contado sobre isso em um livro anterior de memórias, Une enfance dans la gueule du loup (Uma infância na boca do lobo), publicado em 2014, mas na nova publicação suas lembranças ganham a vivacidade da expressão oral. Na entrevista, a experiência na Alemanha é reinterpretada à luz da sobrevivência, da escolha por “viver” e por construir uma trajetória intelectual.

Aos 99 anos, tinindo de lucidez, Monique afirma fazer parte da “seção judaica de Passy”, bairro afluente de Paris formado por famílias oriundas da Áustria e da Alemanha, que ali se instalaram na segunda metade do século XIX, e por intelectuais laicos, professores, advogados, médicos, todos tendentes a posições políticas mais à esquerda, educando seus filhos com governantas poliglotas e frequentemente aceitando casamentos com não judeus.

O talento de tradutora do inglês e do alemão, bem como de professora de línguas, rendeu a Monique uma vida confortável na França e a proximidade com alguns artistas e acadêmicos que moldaram as principais tendências na cultura de boa parte do Ocidente, como os poetas surrealistas André Breton e René Char (um mulherengo que a assediou), o dramaturgo Samuel Beckett, o escritor Georges Bataille e os filósofos Maurice Merleau-­Ponty e Simone de Beauvoir. Um dos nomes mais importantes foi o de Jacques Lacan, que desconfiava das traduções para o francês de textos de Sigmund Freud e pedia a ela “uma tradução oral instantânea” que lhe permitisse fazer comentários imediatos sobre o que acabava de ler ou ouvir. Monique reconhecia em Lacan “uma grande inteligência em ação”, mas acabou lamentando que, com o passar dos anos, o psicanalista insistisse em elaborar trocadilhos, jogos de palavras e brincadeiras linguísticas que muitas vezes tinham somente o intuito de fascinar as mulheres, o que a fez desistir de assistir aos seus seminários.

Emmanuelle Loyer observa, na sua grande biografia Lévi-Strauss (2015), que o antropólogo tinha ótimo conhecimento da obra de Freud e da psicanálise, o que teria produzido impacto teórico decisivo em seus textos. Ao longo dos anos 1940, a psicanálise mereceu forte atenção de Lévi-Strauss, atraído pela noção de inconsciente, que lhe daria acesso ao estudo do pensamento mítico.

O antropólogo considerava Lacan um homem de vasta cultura, mas o seu conhecimento teórico já estava bem consolidado quando conheceu o psicanalista – e foi Lacan que encontrou em As estruturas elementares do parentesco (1949), de Lévi-Strauss, a chamada linguística estrutural, que apontaria um caminho a ser explorado por sua psicanálise. Lacan percebera que a “impregnação biológica” do pensamento de Freud poderia ser reformada a partir do advento de uma “estrutura de linguagem”, segundo as palavras de outra psicanalista, Elisabeth Roudinesco, na biografia Jacques Lacan: esboço de uma vida. Em outras palavras: Lacan deslocou a psicanálise de uma base biológica para uma base linguística. Onde Freud poderia ter dito que o inconsciente é como um corpo cheio de forças biológicas reprimidas, Lacan diria que o inconsciente é como uma linguagem: ele fala, se organiza por palavras e estruturas simbólicas.

À medida que o psicanalista virava moda, foi-se formando maior distância entre ele e Lévi-Strauss, ajudada pelo fato de que o antropólogo não apenas desconfiava das qualidades terapêuticas da psicanálise, mas passou a ter dificuldade com o hermetismo de Lacan. “Eu precisaria de cinco ou seis leituras. Falta-me tempo”, comentou Lévi-Strauss com um amigo filósofo. Na longa entrevista de Monique, Lacan também é lembrado pela voracidade com que arranjava amantes, graças não apenas à personalidade fascinante, mas por dispor de muito dinheiro, resultado das suas caras e breves sessões de análise. Era comum que, ao final de um dia de trabalho, ele convidasse a tradutora para jantares, juntamente com outros amigos e amigas, em restaurantes luxuosos de Paris.

Casualmente, Lacan criou o ambiente onde se encontraram Claude Lévi-Strauss e Monique Roman. Tudo se deu em setembro de 1949, quando ela contava 23 anos, em um jantar organizado pelo psicanalista em seu apartamento, para o qual também fora convidado Lévi-Strauss, então com 40 anos. Lacan comentou com ele que Monique seria a pessoa ideal para corrigir as provas do livro de um casal de antropólogos australianos que Lévi-­Strauss estava editando  – o primeiro título de uma coleção das Éditions Hermann que ele havia aceitado coordenar.

Logo, o mestre francês passou a se interessar pela tradutora e a convidou para encontros no Museu do Homem, onde trabalhava. É belo o trecho da entrevista em que Monique descreve sua rotina de 9h30 a 12h30 para traduzir trechos de um livro em alemão sobre o Brasil, a partir do que o antropólogo tomava uma série de notas. O que a jovem ia traduzindo acabava por estimular lembranças emotivas no futuro autor de Tristes trópicos. Enquanto Lévi-Strauss lhe narrava as suas aventuras na Amazônia em 1938, ela tinha a impressão de ouvir o desenrolar de As mil e uma noites. “Eu era como uma intermediária humana entre os livros e o passado dele”, ela diz. Assim começou o amor.

Monique relata em J’ai choisi la vie que foi também contratada, no inverno de 1950, para remontar e classificar a biblioteca particular de 12 mil volumes de Lévi-Strauss. Os livros haviam sido levados para os Estados Unidos durante a guerra e foram úteis a ele no período em que trabalhou como conselheiro cultural em Nova York. Depois, foram trazidos de volta para a França. Durante a arrumação as recordações do antropólogo surgiram novamente. As sessões de trabalho eram seguidas de passeios por Paris e jantares – “todos os dias” –, durante os quais o dono da biblioteca já havia iniciado um ritual de sedução. Cristalizou-se assim o fim do segundo casamento de Lévi-Strauss, com Rose Marie Ullmo, que fora tão infeliz quanto o primeiro, com Dina Dreyfus, a antropóloga que o acompanhara ao Brasil – o casal ficou no país de 1935 a 1939.

Claude e Monique Lévi-Strauss se casaram em 1954, “em um sábado banal”, como ela diz, em um cartório no bairro da Opéra, em Paris. Até aquele ponto, o antropólogo acumulara consideráveis fracassos: não apenas nos dois matrimônios, mas também nas tentativas de se firmar como autor relevante e acadêmico de prestígio. Depois que voltara dos Estados Unidos, em 1947, publicara As estruturas elementares do parentesco, mas poucas pessoas leram a obra à época, o que representou, nas palavras de Monique, “um insucesso custoso para o editor”. Ela relembra que, no início dos anos 1950, a Gallimard recusou uma reunião de ensaios de Lévi-Strauss, que, para piorar, ainda fracassou nas duas vezes em que tentou entrar no prestigioso Collège de France.

Foi nesse período intimamente desolador que surgiu a ideia de escrever Tristes trópicos, o livro em que daria curso a uma “inspiração livre” – como ela descreve –, aproveitando a oportunidade do lançamento de uma coleção intitulada Terra humana, da editora Plon, concebida inicialmente para reunir livros de exploradores.

Monique conta que a escrita do livro famoso ocorreu por meio de um processo de colagem e construção gradual. Lévi-Strauss dava preferência a compor o texto na sua velha Remington, evitando as primeiras máquinas de escrever elétricas, uma vez que as suas mãos “já tremiam ligeiramente”. Exigente com o texto que ia recebendo, Monique avaliava que, de cada dez páginas, “duas eram sublimes, mas havia passagens tenebrosas”. Todas as suas observações para o companheiro eram anotadas em folhas A4.

O antropólogo trabalhava com tesoura, cortando trechos e parágrafos e escrevendo ou reescrevendo, até alcançar o texto desejado, “o que dava às folhas tamanhos bem variáveis”. Depois de obter a versão definitiva, Lévi-­Strauss a entregava a Monique, que datilografava tudo com duas cópias em papel-carbono. Cada capítulo era disposto em uma pasta diferente do arquivo. A versão original, toda ela um misto de interpolações, cortes, adições e recortes, era jogada fora, mesmo porque – ela ressalta – Lévi-Strauss não gostava de rever hesitações nem fragmentos preparatórios. Em meio a tanta papelada, a faxineira um dia encontrou um cheque jogado na lata de lixo.

Lévi-Strauss temia que Tristes trópicos pudesse repetir o malogro do livro anterior (“vender apenas oitocentos exemplares”). Porém, dois artigos na imprensa, um de Simone de Beauvoir e outro de Georges Bataille, garantiram o êxito de crítica e de público. Publicado em 1955, o livro conseguiu até mesmo a proeza de abrir as portas do Collège de France: o antropólogo foi eleito em 1959 e deu sua primeira aula em 1960.

A experiência no Brasil – narrada em Tristes trópicos – foi, portanto, decisiva para Lévi-Strauss, o ponto de inflexão em sua carreira acadêmica, proporcionando-lhe a projeção que buscava. Nas palavras da viúva, a temporada de trabalho no país chegou mesmo a operar mudanças na personalidade costumeiramente fria e distante, associada ao intelectual de gabinete – um tipo classificado de “capitolino” por amigos, que o consideravam altaneiro e superior. Monique comenta que nem a visita a Israel tocou tão fundo Lévi-­Strauss: nesse caso, como ela diz, o “sentimento geográfico” não implicou um rito de adoração. “Eu o vi mais emocionado no Brasil”, ela conclui.

Essa emoção foi transmitida aos seus antigos alunos brasileiros, quando ele retornou ao país em 1985, acompanhando o presidente François Mitterrand em uma viagem oficial. A diferença de idade entre o professor e os antigos alunos era pequena: Lévi-­Strauss tinha então 76 anos, e eles, diante dos quais voltou a falar, em torno dos 70 anos. Monique, que veio com o marido ao Brasil, conta que muitos daqueles ex-alunos choraram.

Emoção parecida afetou os bororos, um dos povos indígenas com os quais Lévi-Strauss entrou em contato na década de 1930. A viúva recorda que, em 2024, uma delegação de bororos foi a Paris, munida de presentes rituais (essa visita também foi contada no texto
O reencontro, na piauí_222, março de 2025). “Os avós [dos bororos] falavam de Claude como de um mito, um homem vindo do exterior que havia proclamado a dignidade deles para o mundo”, diz Monique, no novo livro. Os bororos quiseram ver os objetos de seu povo que o antropólogo havia trazido nos anos 1930, hoje conservados no Museu do Quai Branly. Os objetos haviam sido pintados pelos indígenas com tinta vegetal e perecível. Lévi-Strauss pediu a seu pai, um pintor, que reproduzisse as cores originais com tinta durável.

Durante a minha leitura da longa entrevista no voo, com pausas para ver as nuvens lá fora, fui recordando a marca profunda que o Brasil deixou no antropólogo, cujo interesse pelo país se manifestou para além da antropologia – ele pretendeu até abrir um restaurante brasileiro em Nova York.

Esse plano é contado em Chers tous deux (Caros todos os dois, 2015), a reunião de cartas enviadas pelo jovem antropólogo, filho único, aos seus pais, entre 1931 e 1942. Monique Lévi-Strauss foi a responsável pela edição do livro e pelo prefácio, no qual ela ressalta:

Após a morte de Claude, eu tive que organizar os seus papéis. Li esses pacotes de cartas com um espanto prazeroso: eu escutava a voz dele, revia seus traços, as descrições me faziam lembrar o homem com o qual eu vivi quase sessenta anos. Era um ser humano reservado, tão intimidante e mal conhecido. […] Tornando-o público, eu queria fazer conhecido o homem que se escondia por trás do sábio.

Em carta escrita em Nova York, em 14 de julho de 1941, Lévi-Strauss contou a seus pais que estava seriamente engajado com a ideia “de fazer dinheiro”:

E, ao mesmo tempo, de trazer vocês para cá com um trabalho: fundar um restaurante brasileiro […]. Há centenas de restaurantes mexicanos, e um tanto de suecos, espanhóis, italianos, chineses etc., mas nada de brasileiro. Já estou me documentando sobre quanto capital seria necessário.

Já em 27 de abril de 1942, em nova carta para os pais, ele anunciou que, durante as férias, estaria dedicado a escrever “um livro bastante popular sobre o Brasil, quase um manual para as universidades”, e preconizou o sucesso do projeto.

Como se percebe, Tristes trópicos, escrito pouco mais de uma década depois, era um projeto que poderia ter tomado as mais diversas formas, porém acabou sendo um modelo de livro de memórias e de trabalho de pesquisa antropológica, cruzando correntes inesperadas, como literatura e música. Em um trecho deste seu clássico, Lévi-Strauss confessa:

Durante semanas, sobre este planalto de Mato Grosso, eu tinha estado obcecado, nunca pelo que me circundava e que eu não reveria jamais, mas por uma melodia repetida que minha lembrança empobrecia mais ainda: a do Estudo Opus 10, n° 3, de Chopin, no qual me parecia, por um desdém devido à amargura à qual eu estava também sensível, resumir tudo o que eu havia deixado atrás de mim.

Esses desvios e hesitações eram mais adiante questionados pelo antropólogo como contradições típicas da sua escolha pessoal e a razão de ser do seu trabalho. Isso explica, possivelmente, a forte admiração que tinha por um viajante francês do século XVI, Jean de Léry, que se juntou a um grupo de genebrinos e veio explorar o Rio de Janeiro em 1557. No século XX, Lévi-Strauss admira o frescor das observações de seu compatriota europeu, o vívido retrato dos indígenas, sua compreensão do canibalismo como ato de dimensão religiosa – tudo isso o fascina na leitura de História de uma viagem feita à terra do Brasil, também chamada América (1578).

Ao término do seu trabalho no Brasil, no fim da década de 1930, em crise no casamento com Dina Dreyfus, que voltara antes a Paris, Lévi-Strauss reconheceu que sua experiência decisiva no país exibe ambivalências. A biógrafa Emmanuelle Loyer lembra que, em 1938, ocorreu o encontro do antropólogo com Alfred Métraux, grande estudioso dos tupinambás, do vodu haitiano e dos povos da Ilha de Páscoa. Em seu diário, Métraux (que se suicidaria em 1963, aos 60 anos), descreve o colega como “frio, compassado, bastante universitário francês”. E acrescenta:

Lévi-Strauss está desgostoso com o Brasil. Vargas é um ditador sem princípio que simplesmente se prolonga [no poder]. Sua ditadura é essencialmente policial. […] Lévi-Strauss não vê esperança alguma para a América do Sul. Ele está quase inclinado a ver nesse fracasso uma espécie de maldição cósmica. Ele decidiu deixar o Brasil, onde qualquer trabalho parece impossível.

Continuo a ler a longa entrevista de Monique Lévi-Strauss. Na tela pequena no encosto da poltrona à minha frente, vejo o itinerário já percorrido e me informo de que a aeronave está agora atravessando o Deserto de Gobi, a mais de 11 mil metros de altitude, a quase 900 km/h. Mas sigo preso a outra viagem que Lévi-Strauss fez ao meu país, na forma de um salto triplo: da França ao Brasil; do Brasil a Tristes trópicos; e de Tristes trópicos a Saudades do Brasil.

Este último livro também contou com intensa participação de Monique, se não com o fiat lux dela para a edição de 3 mil negativos fotográficos que o antropólogo havia trazido do período no Brasil. Ela diz que sonhara em fazer cópias em papel daquele material, “mas o preço para o formato 13 por 18 cm era proibitivo”.

Com o apoio do filho do casal, Matthieu, que tinha excelente conhecimento de fotografia, improvisou um laboratório em um dos banheiros do apartamento da Rua des Marronniers e começou a revelar o material. Em seguida, perguntou a Lévi-Strauss se ele poderia legendar cada uma das fotos obtidas. Hesitante no início, sobretudo porque temia haver esquecido muita coisa, ele foi aos poucos descobrindo o prazer com aquela operação de resgate da memória.

As lembranças trazidas pela observação das imagens indicaram a todos – Lévi-Strauss, Monique e Matthieu – que um novo livro poderia estar em gestação. Ao longo de dois meses e meio, ela trabalhou quatro horas por dia “na câmara escura”, como conta na entrevista, guardando depois as fotos reveladas em caixas de sapatos vazias que pedia nas lojas do bairro. O antropólogo levou três meses para legendar todas as imagens que ele próprio fizera no Brasil – e apenas uma parcela ínfima compõe o livro que, a seu modo, constitui nova referência sobre o país indígena e urbano da segunda metade dos anos 1930. Existem ainda milhares de cópias legendadas por Lévi-Strauss, que estão agora sob a guarda do filho.

À maneira de Marcel Proust, o antropólogo comenta as fotos, no prefácio de Saudades do Brasil, da perspectiva de um tempo perdido, fazendo referência ao cheiro do creosoto – produto contra o mofo e as traças – que ainda sobrepairava nos seus cadernos de notas. As imagens dos indígenas lhe inspiram “vazio e tristeza”, e o genocídio deles só pode ser comparado, segundo o antropólogo, a um cataclismo nuclear ou à queda de um meteorito.

Na sua curta e dolorosa extensão, o texto de Lévi-Strauss é atravessado pelo pessimismo e prima pelas observações atiladas: que as missões religiosas de agora buscam preservar os indígenas, muito ao contrário do que fizeram em séculos passados; que a qualidade do ar em São Paulo nos anos 1930 continha um frescor e uma pureza que, ao ser relatada a ouvintes dos anos 1980, provocou descrença e risos; que estamos fazendo conosco o que fizemos com os indígenas: exterminando modos de ser.

Monique foi testemunha e partícipe do aparecimento dessa obra crepuscular de seu marido sobre o Brasil e os seus habitantes, “aos quais, ao mesmo tempo que à minha juventude longínqua, eu envio uma saudação amical e nostálgica”, escreveu Lévi-­Strauss no prefácio.

Chego ao meu destino marcado por mais de uma viagem, experimentando tempos nostálgicos e tempos regressivos. Já em Seul, e ainda influenciado pela leitura da longa entrevista, vou à minha biblioteca em busca de uma informação – e confirmo que Monique Lévi-Strauss também esteve envolvida em outra obra do antropólogo, a Correspondance 1942-1982 (2018), entre o seu marido e o linguista Roman Jakobson. O historiador Maurice Olender, editor da coleção La librairie du XXIe siécle (A livraria do século XXI), na qual se insere o volume, informa que a reunião das cartas jamais teria sido publicada “sem o entusiasmo de Monique Lévi-Strauss – e a minúcia de seu olhar sobre cada palavra”.

A correspondência permite acompanhar a intensa amizade do antropólogo com o linguista (cujo nome, por coincidência, era igual ao sobrenome de solteira de Monique). Mais ainda, documenta a contínua presença da mulher no convívio e, por fim, na colaboração que ambos mantiveram. Como demonstra uma carta de 13 de outubro de 1961 na qual Lévi-Strauss comenta sobre a análise que ele e Jakob­son fizeram de um soneto de Charles Baudelaire, Os gatos, publicada na revista de antropologia L’Homme: “Eis aqui Os gatos revistos e corrigidos por Monique e por mim. Nós fizemos mudanças bem pequenas, que dizem respeito unicamente ao estilo.” Além dessa correspondência, outros cinco títulos póstumos de Claude Lévi-Strauss devem tudo às mãos e ao olhar da viúva.

Ela esteve presente em tudo. Graças a uma mudança no regime alimentar, conseguiu curar Lévi-Strauss de uma crônica hipoglicemia – o que muito impressionou o antropólogo, que passou a atribuir poderes xamânicos a Monique. Ela comenta ainda sobre o amor de Lévi-Strauss pela natureza e conta da intensa amizade que ele manteve com um pequeno corvo que vinha pousar no seu ombro, nos dias em que o antropólogo passava em sua casa de campo. “Ele colocava emotivamente o seu pequeno corvo acima da Academia Francesa”, diz a viúva.

Companheira e discreta colaboradora, Monique, que não tem qualquer título acadêmico, também foi a companheira de pesquisa de campo de Lévi-Strauss em uma região bem menos selvagem do que a “virgem e solene paisagem […] hoje entregue ao silêncio e ao abandono” que marcou o antropólogo em sua passagem pelo Paraná, como ele descreve nos Tristes trópicos.

Ela fez uma pesquisa própria e muito singular: é conhecida como historiadora dos xales de caxemira, que para Monique são “uma paixão”, como escreveu em Cachemires: la creátion française 1800-1880, publicado em 1987. Em busca de xales e máscaras de povos originários, ela e o marido costumavam ir ao mercado de pulgas de Saint-­Ouen, em Paris, atraídos pelo amor mútuo pelo incomum. Um casamento que teceu vida e obra à perfeição.


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É poeta, ensaísta e diplomata. Publicou os livros de poesia O mundo à solta (Topbooks) e O rugido do sol (Pinakotheke)