relato pessoal

ARQUEOLOGIA DA ESCURIDÃO

Uma vida assombrada pela violência sexual na infância
O autor aos 9 anos (à dir.) e seus irmãos gêmeos: “Arrancar sua história do silêncio, ter o direito de narrar a própria vida, a própria memória, é uma forma de fazer justiça” - ÁLBUM DE FAMÍLIA
O autor aos 9 anos (à dir.) e seus irmãos gêmeos: “Arrancar sua história do silêncio, ter o direito de narrar a própria vida, a própria memória, é uma forma de fazer justiça” - ÁLBUM DE FAMÍLIA

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A memória talvez esteja me traindo nos detalhes, mas os detalhes falsos também são importantes. Há três crianças na foto que abro agora no computador. Um casal de irmãos gêmeos, um menino e uma menina, com 5 ou 6 anos, e o irmão mais velho, com 9 anos. Os menores usam uniforme escolar completo. Camiseta branca, brasão da Escola Estadual Francisco Diniz, golas, bermuda, saia e sapatos em vermelho-vivo. É o uniforme da educação infantil, diferente do irmão mais velho, que veste uma camisa social branca genérica e uma calça jeans azul-escura. Talvez tenha faltado dinheiro para o seu uniforme. Suponho que o ano seja 1991. Eu sou o garoto mais velho. Encarando a mim mesmo, assombrando o futuro, em busca de respostas.

Estou na terceira série do ensino fundamental, meus irmãos provavelmente na pré-escola: três crianças no meio do canteiro da Avenida Florenzano, a via principal de Luminárias, uma cidade desde sempre com cerca de 5 mil habitantes, no Sul de Minas Gerais. Dou um zoom na foto, aproximando meu rosto. Uso um chapéu de papel verde e amarelo, sem tampo e sem aba, com a bandeira do Brasil. O cabelo mal cortado. Nenhum vestígio de sorriso em meu rosto. Não pareço feliz. Para estimular a presença no desfile, a escola servia depois pão com mortadela e guaraná, ou uma sodinha de abacaxi, típica daquela região. As crianças adoravam. Tinha criança que só ia ao desfile, com toda razão, por causa daquilo. Lembro de mim e de meus amigos imitando pilotos de Fórmula 1 no pódio, balançando a garrafa de guaraná e jogando a espuma do refrigerante uns nos outros. Uma memória boa. Meu olhar na foto não expressa nada disso. Talvez expresse involuntariamente o que eu procuro, agora, encarando este retrato 33 anos no futuro. Ele foi tirado antes ou depois do que me aconteceu? A foto não diz nada. Fantasmas são mudos.

Por que uma criança pararia de sorrir? Não tenho outras fotografias para comparar. Meus pais não tinham máquina fotográfica. São muito raras as minhas fotos de infância. Menos de dez. Em algum evento muito especial, como o daquele Sete de Setembro, contratava-­se o retratista, um senhor muito alto que tinha aberto uma loja de eletroeletrônicos a preços populares com um nome sugestivo: Foto Real. O retratista erguia seu flash portátil e tirava as fotos encomendadas. Depois as colocava na vitrine da loja e as vendia para as pessoas retratadas. Por falta de dinheiro ou de interesse, algumas fotos nunca saíam de lá. Era um passeio comum, no sábado à noite, ficar olhando aquela vitrine, com fotos dos conhecidos em eventos recentes e antigos. Nosso álbum comunitário.

Na imagem das três crianças no Sete de Setembro, a avenida se alonga até a Praça dos Expedicionários, naquele tempo com a bandeira do Brasil desenhada no centro. Era em homenagem aos seis pracinhas luminarenses que serviram na Segunda Guerra Mundial. No dia do desfile, há três faixas brancas pintadas com cal por toda a extensão da avenida, para que os alunos andem em linha reta, marchando como soldados sobre o calçamento de bloquetes hexagonais. A cidade inteira está ali, assistindo às suas crianças uniformizadas desfilarem ao som de uma fanfarra emulando marchas militares. Sinto certa angústia ao reimaginar essa cena. Todo mundo sabia o que tinha acontecido comigo naqueles anos? Sussurravam quando eu passava? É uma hipótese sombria, que me ocorre agora. O menino de 9 anos, desde sempre preso à foto, não poderia falar essas coisas. Seu olhar parece cansado, sem inocência, consciente do mal que pode fustigar o mundo, de uma hora para outra, sem quaisquer razões aparentes. Com esses olhos, ele me encara em silêncio. É incapaz de falar. Mas agora eu falo, eu escrevo, por ele.

Em uma cidade como Luminárias, na década de 1990, não há rostos estranhos ou desconhecidos. Estudamos todos na mesma escola, nos anos iniciais do ensino fundamental, depois em outra mesma escola, no ensino médio. Do filho do peão de mineração semialfabetizado, como era o meu caso, ao filho dos proprietários das pedreiras, todos estudam nas duas escolas públicas. Há uma ilusão de igualdade.

Na época, o acesso ao município era feito por duas estradas de terra. Uma vinha de Três Corações, a outra de Lavras. Luminárias não tinha hospital, livraria, teatro. Além da escola, o bar e a igreja eram os principais espaços de socialização.

Mesmo com baixa escolaridade, predadores sexuais são ótimos psicólogos. Conseguem rastrear e selecionar com facilidade as vítimas mais vulneráveis. Tímidas, solitárias, isoladas.

Faço um exercício mental para entender como o abusador número 1 me selecionou. Eram tantos os garotos da minha idade que frequentavam aquela casa e assistiam com os olhos brilhando aos filmes de kickboxing em VHS alugados na cidade vizinha. A culpa foi minha por não conseguir me defender? “Uma criança não pode abrir ou fechar a porta do consentimento”, diz a escritora francesa Neige Sinno, autora de Triste tigre (Amarcord), um relato autobiográfico dos abusos que ela sofreu na infância. Eu concordo com Sinno. Mesmo assim, o menino que fui sente culpa por ter se deixado enganar.

O primo do abusador número 1 é meu colega de classe, e deve ter talvez os mesmos 9 anos que eu. Ele vai até minha casa e me chama para brincarmos de um novo jogo. Eu frequentava muito a sua casa para assistir aos filmes que ele e os primos traziam de Lavras. Via o abusador número 1 por ali, mas nunca tinha falado com ele. Naquele dia, meu colega me chamou para uma brincadeira envolvendo prendas e prêmios, talvez chocolates Surpresa, com figurinhas de animais do Cerrado. Tampinhas de garrafa Pepsi com o símbolo do Batman no fundo. Experimentar a luta de classes pela violência sexual. Mesmo que isso só faça sentido agora, trinta anos no futuro.

De repente, estamos nos fundos de um supermercado, todos os três: eu, meu colega de escola e o abusador 1, que é sete anos mais velho que eu – talvez tenha 16 anos. Uma luz pura atravessa as janelas. Nunca esqueci essa luz. Grandes sacos de farelo. Não entendo bem como a cena se desenrola. É como se eu não tivesse um corpo. E assistisse a mim mesmo, na situação, a distância. Os dois estão com as calças abaixadas. Estou vigiando. O menino que eu era não tinha palavras para descrever aquilo que via. Estou rindo. O adolescente de 16 anos transando com um garoto de 9 anos. O corpo do menor desaparece sobre o do maior, que monta sobre ele. Eles me chamam. Apenas obedeço. Troco de lugar com o menino de 9 anos. Não tenho palavras agora. A respiração ofegante. Como um espírito expulso para fora da própria carne. Dissociado. Sem pele. Morto.

Ligo para P., que estudou comigo na infância. Sempre que lembro de outro momento de abuso, dessa vez mais violento, envolvendo o abusador número 2, me vem a imagem de P. fugindo, morro acima, escapando, enquanto eu sou arrastado pelos tornozelos para o abismo daquele aterro, daquela cratera que chamam até hoje de Buracão. “Se você gritar eu te mato aqui embaixo e ninguém vai saber”, o abusador deve ter dito, não essas palavras exatas, mas essa imagem, esse sentimento. Achei que fosse morrer. “Eu sei o que ele fez com você no supermercado”, me diz, talvez tenha dito. “Você é viado.” Como se isso justificasse o extermínio da minha infância. Ele me segura pelo braço. Me manda subir uma trilha, em direção à mata fechada. Tento me lembrar dos detalhes, que escapam.

Quero confirmar minha memória. Já faz mais de trinta anos. Olho o Facebook do abusador número 2. Nasceu em 1974. “Estou saindo de uma reunião e já te ligo”, escreve P. no Whats­App. Depois de conversarmos sobre as mudanças em nossas vidas nos últimos cinco anos, pequenas novidades envolvendo casamentos, filhos, emprego, vou direto ao assunto. Ele diz que se lembra do Buracão sendo aterrado, mas não se recorda da cena que eu descrevo. “Você tem certeza de que era eu que estava com você?” Tenho. Por décadas, essa imagem se repete na minha cabeça. É sempre ele escapando. E eu ficando para trás. Mas agora fico confuso. Talvez P. tenha medo de se comprometer. Tenha medo da verdade. Ele me diz para falar com B. Talvez fosse ele, esse outro amigo, que estivesse comigo. “Mas ele abusou de você?”, P. questiona. Eu digo que não me lembro bem dos detalhes. Me esquivo. E escrevo que o silêncio só favorece o abusador.

Envio uma mensagem para B. Ele não quer falar. Conto que o abusador número 2 me arrastou para o fundo do Buracão, ameaçou me machucar. “Você não foi o único”, escreve meu amigo e me relata um episódio difuso, envolvendo outras crianças, mas muito parecido com o que aconteceu comigo. Dois caras, de uns 16 ou 17 anos, arrastando crianças para dentro do Buracão e as violentando. “Ele era mau”, diz B.

O Buracão era uma grande erosão que separava dois bairros. No final dos anos 1990, um prefeito resolveu aterrar parte dele e abrir uma rua. Usaram rejeitos da mineração de quartzito, entulhos da construção civil e uma terra vermelha muito viva. Pessoas trabalhavam ali grande parte do tempo. Nos intervalos, as crianças tomavam conta. Construíam pistas na terra e desciam escorregando até o interior do abismo.

Conto para B. que preciso de algum registro oficial da obra. Falei com outro amigo na prefeitura, sem entrar em detalhes. Ele diz que não sabe se existe algum registro, mas vai tentar descobrir. Sei que a obra do aterro do Buracão foi concomitante à construção do ginásio poliesportivo, de onde tiramos as tábuas que fazíamos de skate. Os registros que levantei falam de uma duração que vai de fevereiro de 1991 até janeiro de 1992. Se estiver certo, o abusador número 2 teria 17 anos. Mas, se a conclusão da obra do Buracão avançou até 1992, ele poderia ser maior de idade na época do acontecimento. Eu teria 10 anos, e ele, 18. Mas não é só por isso que procuro algum dado concreto. Se uma data de nascimento vai além do parto biológico, como sugere o escritor francês Didier Eribon, talvez a data da obra seja a minha verdadeira data de nascimento. “Obrigado por compartilhar essa sua pesquisa”, me diz B. “Sinto uma mistura de sentimentos. Uma sensação de alívio.” Também sinto alívio ao enfrentar esse assunto de frente. Como se eu tivesse me preparado a vida toda para escrever este texto.

Um dia, em Luminárias, ainda na infância, acordei e algo acordou junto, algo que eu não conseguia verbalizar: era impossível ir à escola.

Consigo enxergar os portais e as portas tingidos de verde-esmeralda da escola, engordurados e com gotas grandes de tinta escorrida. O chão de ladrilho hidráulico do pátio com sua geometria desbotada de uma rosa vermelha. O gosto de metal gelado dos bebedouros de alumínio, os bicos enferrujados. A poeira velha dos tacos soltos, soltando farpas, na sala de aula barulhenta, as carteiras arrastadas. O vento quente rasgando as árvores da praça e entrando pelas enormes janelas basculantes. Painéis com um mapa-múndi de cores esmaecidas e arruinado nas extremidades. Ainda estamos em 1991, ainda estou na terceira série. Eu tinha colocado a minha camiseta branca com o símbolo da escola, que minha mãe pintara em molde vazado, a bermuda azul-marinho e um sapato preto, imitação de couro, com uma etiqueta vermelha escrito Randall. Estava tudo perfeito. Meu cabelo com gel azul e penteado de lado.

Mas era impossível ir à escola.

Eu saía pela porta da minha casa e dava a volta por um velho portão de madeira, cheio de musgo, mal apoiado num mourão cinzento, corria para o fundo do terreiro, que fazia divisa com uma plantação de milho. Desaparecia no meio do mato. Eu me enfiava em uma vala, onde corria um córrego sujo. Lembro do barulho do vento assobiando e vergando os bambuzais verde-­escuros, estalando e chiando. Ficava ali encolhido, desaparecido, por horas. Fiz isso repetidas vezes. Minha mãe tentava me arrastar à força. Não poderia me vencer. Nada poderia vencer meu ódio, meu medo, minha vergonha. Eu chorava e berrava e me jogava no chão como uma rocha de aço, uma âncora. Eu a derrotava todas as vezes, pela exaustão. Ninguém ia me fazer mudar de ideia. Eu nunca mais pisaria naquela escola.

Por que eu estava fazendo aquilo? Eu adorava a escola, meus colegas, minha professora. Quando tento me lembrar da causa, há um grande nada na minha cabeça, como se aquele ato de rejeição fosse sem origem, como uma ideia fixa implantada na minha cabeça sem lógica nenhuma.

A turma toda veio me buscar uma vez. Mesmo assim eu fugi. Outra vez, a professora veio até minha casa, sentou-se ao meu lado na cama. “Você é um menino tão inteligente. Todo mundo gosta de você”, ela disse. Não lembro o dia exato, mas acabei voltando. Só para repetir a fuga, outra vez, na quinta série, e ficar quatro anos longe da escola, trabalhando aos 11 anos na lavoura com meu pai e, mais tarde, de servente de pedreiro, de auxiliar de pintor e funileiro, na mineração de quartzo, que movimenta a economia do município desde sempre.

O trauma é uma “inscrição corporal”, explica a pesquisadora Aleida Assmann, no livro Espaços da recordação (Editora da Unicamp): “Permanece inacessível à transcodificação em linguagem e reflexão e, portanto, não pode ganhar o status de recordação.” Aquilo que não pode ser lembrado, não pode ser esquecido. Deixa seus rastros malignos e sintomáticos por todos os lados. A violência do abuso produz um excesso de realidade, uma ferida tão profunda que provoca um choque na percepção, que não é totalmente assimilada no momento que acontece. A memória se fragmenta e se estilhaça. O mal puro é irrepresentável. Como diz a pesquisadora americana Cathy Caruth em Unclaimed experience: trauma, narrative, and history (Experiências não reivindicadas: trauma, narrativa e história), o fenômeno traumático sofre de um atraso: “É experimentado cedo demais, de forma inesperada demais, para ser plenamente conhecido, e portanto não está disponível à consciência até que se imponha de novo, repetidamente, nos pesadelos e nas ações compulsivas do sobrevivente.”

O trauma retorna como sintoma. Neige Sinno escreve: “Num sonho, minha irmã caçula num corpo de criança, mas com seu jeito de falar de adulta, me diz que ele não a estuprou, mas molesta todos os coleguinhas do meu irmão que vêm dormir na nossa casa. Eu tento desesperadamente encontrar todos aqueles meninos numa cidadezinha cheia de ruelas que não consigo distinguir. Corro até perder o fôlego, acordo com o coração acelerado.”

Durante toda a minha vida, tive um sonho que sempre se repete. O enredo varia, mas é sempre a mesma paisagem de uma cidade em ruínas, como se tivesse sido bombardeada ou completamente demolida. Ruas cheias de entulho, cacos de pedra, de telha, tijolos quebrados. Eu ando perdido, procurando uma saída. E nunca encontro. São os entulhos usados para aterrar o Buracão.

Em Luminárias, há uma lenda sobre esse local. Dizem que, no período da Quaresma, durante a noite, o choro angustiado de uma criança espectral ressoa no interior daquele buraco. Um choro agudo, faminto, como se viesse de dentro de um abismo. Sempre que eu ouvia essa história, não tinha dúvidas. Essa criança era eu. Um fantasma.

Meus pais abrem um bar na praça de Luminárias em 1995. Trabalham oito horas por dia em empregos regulares, e apenas à noite e nos fins de semana atendem no local, onde servem porções de batata frita, cerveja gelada e cachaça. O pretexto inicial é juntar dinheiro para minha irmã caçula, que nasceu com o palato aberto, fazer um tratamento no hospital universitário da USP em Bauru, no interior paulista. Eu trabalho no bar e trabalho na pedreira com meu pai. Convivendo com tantos homens mais velhos, quero ser homem também. Ter meu dinheiro, ter um carro, beber cerveja e cachaça. Isso é um homem. Erguer grandes lajes de pedra com uma alavanca de aço, como meu pai sempre faz. Com uma marreta, desfolhar maços de pedra como folhas de papel. Domar a natureza com a minha força. Ao redor da mina de quartzito, que os homens chamam de “banco”, vão se acumulando montanhas de detritos e refugos, carregadas por máquinas pesadas. Olhando de longe, parecem grandes hemorragias de areia branca e amarela, destruindo o verde das serras. Vejo uma montanha de rocha explodir sob o impacto da dinamite. A nuvem de areia sobe devagar. Depois, uma rajada de estilhaços de pedras que arrebentariam em segundos a cabeça de qualquer um daqueles homens de chapéu de palha. Ao mesmo tempo que o rejeito, quero ser aceito nesse universo de trabalho braçal.

Tenho 13 anos. Estou na casa de um amigo bem mais velho, uma turma de meninos já com 18 ou próximo disso. A casa (isso só me ocorre agora, quando descrevo essa cena, trinta anos depois) fica ao lado do Buracão. A poucos metros do local exato no qual o abusador número 2 ameaçou me matar. Olhando do futuro, nem faz tanto tempo. Três anos, talvez quatro, separam aquela tarde do abuso desse outro dia tomando cachaça com os amigos. Naquela época, pareciam eventos quase desconexos, de mundos paralelos, de tão distantes um do outro. Mas as ondas de choque silenciosas do trauma ainda vibravam no ar. Na casa, um rádio-relógio toca dance music. É Sexta-Feira da Paixão. Bebemos escondido. Viro duas, três, quatro doses de cachaça. Cerveja. Conhaque com Coca-Cola. Não sei como acontece. Pego a bicicleta. Saio pedalando em direção à praça central. Caio um tombo feio. Uma caminhonete quase me atropela. Apago completamente. Me levam para o posto de saúde. Meu coração quase para. Estou em coma alcoólico. Tomando pontos na pálpebra rasgada.

Converso toda semana com meu Preto Velho, no centro espírita que frequento desde sempre. Ele me dá conselhos enigmáticos, me manda parar de beber, escuta minhas angústias. Diz que minha hora vai chegar. Meu psicólogo é um fantasma. Volto para a escola, que abandonei aos 11 anos, na quinta série. Agora, para um curso no período noturno do supletivo governamental chamado Acertando o Passo. Meus companheiros de classe são lavradores, domésticas, outros peões que passam o dia enchendo os pulmões de areia. Faço os quatro anos finais do ensino fundamental em dois. Quero tentar uma faculdade. Ir embora dessa cidade maldita.

Uma vez mandaram uma biblioteca itinerante para Luminárias. Era um pequeno caminhão preto com a bandeira de Minas Gerais, uma espécie de motorhome de livros. Estacionou em frente à escola municipal e tinha uma escadinha de madeira para entrar. Você não tem ideia do impacto que aquela biblioteca me causou. Eu estava com 15 ou 16 anos. Lembro de ficar meio zonzo com a quantidade de volumes enfileirados nas estantes. Peguei cinco livros policiais. Coletâneas de Sherlock Holmes que eu nunca tinha visto, romances de Georges Simenon, e depois pedi para meu irmão, que nunca gostou de ler, pegar mais cinco no nome dele.

Não tenho certeza sobre quanto tempo podíamos ficar com o livro, se uma semana ou três dias. Não havia tempo a perder. Passei aqueles dias e noites lendo sem parar. Só parava para comer e ir ao banheiro. O galo cantou de madrugada enquanto eu atravessava as últimas páginas do conto O problema final, de Conan Doyle, uma história que eu estava louco para ler, mas nunca tinha conseguido encontrar na pequena biblioteca da escola estadual. É nesse conto que Sherlock Holmes e o professor Moriarty caem juntos num desfiladeiro. Poucas vezes fui tão feliz na minha vida como naqueles dias em que li quase um livro por dia. A ficção me deu tudo que sou. Me deu a realidade de um mundo transformado.

Devolvi os livros ao funcionário da biblioteca itinerante e perguntei se eles voltariam um dia. Ele sorriu. E disse que talvez um dia voltassem.

Numa entrevista de rádio, o artista francês Claude Ponti, hoje com 77 anos e popularmente conhecido por suas ilustrações de livros infantis, conta que foi violado pelo avô quando tinha 6 anos de idade. Com 25 anos, ao conseguir finalmente denunciar para a família o que sofrera, foi desacreditado e expulso de casa pelos pais. Ele construiu uma carreira brilhante, com dezenas de livros e peças de sucesso. “Mas essa violência deixou alguma marca em você?”, questionou o jornalista no rádio. “Durante anos, não consegui correr. Se eu corresse, o som da minha própria respiração lembrava o som da respiração do meu avô, quando estava em cima de mim”, respondeu Ponti. “Era uma lembrança tão insuportável que eu desmaiava.”

A escritora Neige Sinno ouviu a entrevista de Ponti e descreveu sua reação no terço final do livro Triste tigre: “Eu me lembro de escutar as batidas do meu coração dentro dos ouvidos, sobrepondo-se à voz bonita e grave do desenhista.” Ela foi violentada por seu padrasto entre os 7 e 14 anos, e constrói o livro não como uma vítima que confessa seu sofrimento, mas como quem tenta entender o que se passa na cabeça dos carrascos. “Na das vítimas é fácil, todo mundo consegue se colocar no lugar delas”, explica. “Já com o carrasco é diferente. Estar sozinho num cômodo com uma criança de 7 anos, ter uma ereção só de pensar no que vai fazer com ela. [...] Nem eu, que vi isso bem de perto, do mais perto que dá pra ver, e que me questionei sobre o assunto durante anos, consigo entender, até hoje.”

O choque traumático é tão forte que estilhaça a subjetividade de modo irreversível. Para sobreviver, Sinno se partiu em duas. “Naquele dia, quando me imaginei morta, eu devo ter morrido um pouco, e o fantasma que sobrevive a mim é aquela que conseguiu aguentar até hoje.” Seu padrasto abusador é um narcisista com tendências sádicas, segundo a perícia profissional. Em sua defesa, quando foi levado a julgamento, ele disse no tribunal que tinha relações com a enteada porque ela rejeitara seu amor paternal e a única forma de construir algum laço com a menina era através do sexo forçado. “Ele busca contato físico. Eu recuso. Então ele vem à noite me acariciar, quando estou menos na defensiva”, ela diz. “É um momento fora do tempo, destacado do curso da história, tão carregado de absurdo e significado que escapa a qualquer tipo de entendimento por meio de uma narrativa.”

Sinno cresceu numa família de trabalhadores na região montanhosa de Vars, nos Alpes franceses. Pouco tempo depois do nascimento de Rose, sua irmã, os pais das meninas se separaram. O pai visitou as duas crianças por um tempo, quando elas moravam com a mãe e o padrasto montanhista. Parecia uma família tradicional, estável. Depois, o pai parou de ir. “Quando ficou sabendo do estupro, ele se enclausurou no silêncio. Não apareceu no julgamento. Simplesmente se deixou morrer.”

O padrasto de Sinno acabou confessando os crimes. “Não sei por que ele fez isso”, a escritora diz. “Se fosse a minha palavra contra a dele, tenho certeza de que não teriam acreditado em mim.” Durante o julgamento, o padrasto recebeu bastante apoio. Pessoas da comunidade foram depor em seu favor, numa tentativa de mostrar o outro lado, a complexidade do ser humano. Apesar daquele ato inominável, ele seria uma boa pessoa. Nunca tocara, por exemplo, nos seus filhos biológicos. O padrasto foi condenado a nove anos de prisão.

Tenho dois pais. Um deles eu nunca conheci. Lendo essas coisas, fiquei imaginando como a notícia chegaria até meu pai biológico, que não fez nada além de me registrar no cartório. Seu abandono material e emocional, típico do comportamento masculinista, não deve lhe causar nenhum remorso. Ele pode ter inventado seus próprios obstáculos para não ser quem deveria ter sido, como ficou evidente na única vez que nos falamos por telefone, vinte anos atrás. Ele dorme de consciência tranquila. Eu esmago meus próprios dentes contra os ossos da mandíbula, que sempre estão doendo quando acordo.

O caso de Sinno é bastante raro na França, onde menos de 10% das vítimas prestam queixa contra abusos sexuais. Entre as denúncias oficiais, 67% são arquivadas. Das que chegam à fase de investigação, metade é desqualificada. Entre 10% a 15% das denúncias de violência sexual contra menores vão ao tribunal, sendo que houve naquele país, nos últimos dez anos, uma diminuição de 40% das condenações. Uma em cada 100 ocorrências resulta em condenação.

No Brasil, em 2024, houve 87 545 vítimas de estupro e de estupro de vulnerável, de acordo com o Anuário Brasileiro de Segurança Pública. Foi o maior número desde que os dados começaram a ser registrados, em 2011. Desse total, 76,8% dos casos foram de vulneráveis, ou seja, crianças menores de 14 anos e pessoas que, devido a enfermidades ou limitação mental, são incapazes de oferecer resistência ou consentimento. A faixa etária com menos de 13 anos concentra o maior número de vítimas – 51 677 crianças (ou 61,3% do total) –, o que equivale a uma vítima a cada 10 minutos. 

Outra enquete, feita pela Pesquisa Nacional de Saúde do Escolar (PeNSE) e divulgada pelo IBGE em março passado, apontou que, entre 2019 e 2024, os casos de adolescentes que relatam ter sido forçados a manter uma relação sexual aumentaram 2,5 pontos no país. Nove em cada 10 casos de estupro de vulnerável no Brasil terminam sem que a Justiça consiga determinar o que aconteceu, de acordo com um levantamento feito pela Folha de S.Paulo. A reportagem analisou 40,5 mil processos tramitados em julgado de 2020 até janeiro de 2026, em todos os tribunais estaduais e federais, além do Superior Tribunal de Justiça (STJ). Mais de 90% não passaram da fase inicial. E menos de 3% tiveram execução de pena decretada.

Ocorre ainda muita subnotificação, sobretudo no caso de meninos. Nos anos 1990, não existia sequer a tipificação do crime de violência sexual contra meninos ou homens, ou mesmo pessoas trans. “Atentado violento ao pudor” era o que havia na lei para caracterizar o estupro de homens e meninos.

“Pergunte a um homem como ele perdeu a virgindade e descubra um caso de pedofilia e estupro”, diz o psicólogo Denis Gonçalves Ferreira, doutor em saúde coletiva pela Santa Casa de São Paulo. Ele é presidente do projeto Memórias Masculinas, que visa acolher homens vítimas de violência sexual. “As experiências de vitimização sexual [masculina] são na sua grande maioria com homens sendo os agressores sexuais. São, portanto, uma situação homossexual, mesmo que a vítima e o agressor não sejam homossexuais”, afirma Ferreira. “Isso toca em algo muito sensível para toda a sociedade, a homofobia. Um rapaz que consegue revelar que foi violado por outro homem assume indiretamente que teve uma relação homossexual.”

Violência sexual não é desejo – é poder. “A predação sexual está menos ligada ao prazer físico do que a uma relação de dominação”, diz Sinno em Triste tigre. O corpo não é mera evidência biológica: é uma construção cultural. A violência sexual é um exercício de poder de homens sobre corpos que são transformados em corpos inferiorizados, sub-humanos, vulneráveis, como afirma Judith Butler em Corpos que importam. Para a antropóloga Rita Segato, não se trata de ver no violador um sujeito dotado de uma patologia individual, mas de encarar a violação como um gesto comunicativo cujo objetivo é a restauração do poder masculino, não importa quais corpos são assujeitados: se de mulheres, crianças ou adolescentes, de ambos os sexos.

“Todos os dias, eu sinto vontade de abraçar o menino que fui”, escreve o catarinense Marcelo Labes, na página final do romance Três porcos (Caiaponte), logo abaixo de uma foto sua, sorrindo, talvez com 10 anos. “Eu nunca serei um homem.” O narrador do livro, que parece ser o próprio autor sob a máscara da autoficção, sofreu dois episódios de abuso na infância. Por isso, a afirmação “nunca serei homem” é ambígua. Não ser homem é, por um lado, não ser o homem que poderia ter sido, sem ter sofrido o trauma violento, sem ter a vida usurpada pela violência. Mas não ser homem, por outro lado, também é resistir à violência da lógica patriarcal masculinista: é não ser mais um agente transmissor da violência de gênero da qual ele mesmo foi vítima.

Arrancar sua história do silêncio, ter o direito de narrar a própria vida, a própria memória, é uma forma de fazer justiça. Eu nunca tinha feito isso antes, até começar as pesquisas para meu próximo livro, Tempo fantasma (que será baseado neste relato). Nessas pesquisas, descubro que o abusador número 1 parece levar uma vida bem-sucedida, com filho e esposa. Ele nasceu em 1975, me informa sua rede social. Eu nasci em julho de 1982. São sete anos de diferença. Em 1991, a época do abuso, ele tinha 16 anos, e eu 9. Tento recuperar os detalhes. O menino que eu era não entendia como foi parar naquela situação violenta. Não entendia nada do que se passava. Paralisia traumática é o termo técnico, que aprendo ao ler Triste tigre. Há lugares no inferno para predadores sexuais de 16 anos? Dou um print na tela do perfil dele no Facebook e salvo num arquivo chamado “abusadores”.

Se eu tivesse sido capaz de denunciar os meus abusadores nos anos 1990, talvez fosse apenas minha palavra contra a deles. No caso do abusador número 1, no supermercado, havia a participação do primo dele, da mesma idade que a minha, que muito provavelmente não se colocaria contra a própria família. No caso do abusador número 2, no aterro do Buracão, tinha a presença de um dos meus amigos, P. ou B. Enquanto um não se lembra de estar comigo naquele dia, o outro conta uma história semelhante, mas não se lembra de eu estar nela. Se os abusadores eram menores de idade, poderiam responder pelos seus atos naqueles dias? Eu sou racionalmente contra quaisquer mudanças na maioridade penal, tampouco acredito que submeter uma pessoa ao sofrimento do cárcere ou qualquer tipo de sofrimento possa causar alguma reparação ou promover uma evolução moral. Mas a Justiça existe não para satisfazer a vítima. Existe para dar uma resposta digna à sociedade. Para contribuir com um ideal de sociedade que desejamos, uma sociedade na qual as crianças estejam seguras.

Durante o ensino médio, estudo no turno regular. Vivo meu primeiro amor. Jogo futsal no juvenil da cidade em campeonatos regionais, sou líder de classe, representante dos alunos no colegiado. Ganho uma máquina de escrever de presente do meu treinador e escrevo histórias de suspense. Tenho 17 anos. A máquina fica na mesa da varanda, do lado de fora, para não incomodar meu pai, que precisa acordar às cinco da manhã para trabalhar na pedreira. Envio um dos textos que escrevi para uma grande editora, cujo endereço vejo na folha de rosto de um livro de Sherlock Holmes. A editora me envia uma carta de recusa, mas diz que eu devo continuar escrevendo.

Varo a noite mergulhado em O senhor dos anéis e, depois de ler O mundo de Sofia, decido cursar filosofia na Universidade Federal de São João del-Rei. Leio Albert Camus, Graciliano Ramos, faço amigos, escrevo contos e poemas, sou visto como um bom aluno. Parafraseando a famosa máxima de Jean-Paul Sartre em Saint Genet: ator e mártir, o importante não é o que fizeram de você, mas o que você faz de si mesmo com aquilo que fizeram de você.

Tenho uma depressão profunda, que vai durar mais de dez anos. Abandono o curso de filosofia no meio. Tento voltar na modalidade de ensino a distância, numa instituição particular, mas não consigo. Falta dinheiro. Trabalho como servente de pedreiro e assistente de carpinteiro. Presto concursos públicos para dois cargos da Prefeitura de Luminárias: manutenção de vias públicas e recepcionista. A prova prática envolve capinar uma rua. Tenho uma foto guardada desse dia. Não sei quem tirou. Uso uma camisa azul, gola branca, boné preto, e empunho uma enxada. Sou reprovado no teste prático e chamado para o cargo de recepcionista. Vou trabalhar na Biblioteca Municipal, recém-criada.

É um período feliz. Tenho uma banda de pop-rock chamada Anóxia e vencemos duas vezes o festival de música local. Problemas com álcool. Por volta de 2008, eclode uma depressão ainda mais aguda. Meu corpo parece uma rocha, preso à cama, envolto numa névoa de ideias suicidas. Sou submetido a uma perícia no INSS, com atestado psiquiátrico. Fico em casa, sob medicação, por seis meses. Começo a mexer no rascunho de um livro que tinha escrito na época da faculdade de filosofia. Um conto meu, sobre um trabalhador humilhado na mineração, é premiado num concurso na antiga universidade que abandonei. Não sei nada de editoras, de mercado de livros. Na internet, acho uma editora do Rio de Janeiro que publica livros sob demanda e não cobra nada dos autores. Envio o manuscrito.

Meses depois, em 2009, lanço o livro na festa da cidade. Tenho 26 anos. Há discursos de autoridades locais, minha foto aparece no jornal Tribuna de Lavras. A antiga escola da qual fugi está cheia de gente para me ver. A literatura me salvou? Consegui dar a volta? Largo o emprego na prefeitura e vou estudar escrita criativa em Porto Alegre, com o professor Luiz Antonio de Assis Brasil. Não consigo terminar o curso, outra vez porque o dinheiro acaba. Não arranjo emprego. Volto para Luminárias já pensando em fugir outra vez. Presto o Enem pela segunda vez e faço um concurso público na cidade de Taboão da Serra, na Grande São Paulo. Consigo uma bolsa pelo Prouni para a faculdade de jornalismo. Já tenho quase 30 anos.

Conheço R., com quem ficarei casado por dez anos. Arrumo um estágio de jornalista em uma empresa que trabalha para o governo de São Paulo. Mandam que eu transcreva as falas de Geraldo Alckmin, então governador do estado. É a primeira vez que ganho dinheiro escrevendo. Quando meu filho nasce, a empresa me manda embora. Passo a revisar livros por 1 real a página, trabalho numa feira de tecnologia sob constante agressão verbal de um velho português e, depois, numa editora de livros didáticos à beira da falência. Um dia chego para trabalhar na editora e não há cadeiras. Entro no mestrado, consigo uma bolsa da Fapesp. O dinheiro é tão curto que, nos dias de aula, preciso trocar o almoço por um copo grande de vitamina e um salgado. Frequento as aulas da professora de filosofia Jeanne Marie Gagnebin, que me ensina que uma vida merece ser escrita quando aquilo que parece apenas uma vivência privada (Erlebnis, em alemão) revela algo que diz respeito a uma experiência coletiva, histórica (Erfahrung).

Envio um texto para a Folha de S.Paulo sobre uma viagem que fiz a Canudos. Meu relato ganha a capa do caderno Ilustríssima. Mas as contas não fecham. Tenho outra crise depressiva, me divorcio, escrevo o romance Pesadelo tropical. É sobre um homem esfolado vivo, uma história de vingança. Meu pai se aposenta com os pulmões cheios de areia. Começo a trabalhar como redator numa agência. Não tenho plano de saúde, mas tenho cerveja de graça na sexta-feira. Alugo um apartamento no bairro da Aclimação, sem elevador, com as janelas dando para as janelas bem próximas do vizinho. Estou feliz, guardando meus livros na estante, mobiliando a casa. Estoura a pandemia. Trabalho no meu romance. De máscara, faço caminhadas com meu filho, maratonamos filmes na tevê: Jurassic Park, Náufrago, A máquina do tempo. “Por que o futuro é sempre cheio de ruínas, papai?”, ele me pergunta um dia.

Estou vivo. Me apaixono por Luana, uma mulher incrível e brilhante. Ela me ensina todos os dias que os sonhos podem ser reais. Caso, então, uma segunda vez. Me mudo para Campinas, escrevo crítica literária para grandes jornais. Temos uma filhinha linda, de olhar destemido. Nunca estive tão feliz. Mesmo que o medo de ser arrastado de volta para subempregos nunca desapareça, a vida parece ser como deveria sempre ter sido. Não há mais dores no peito. Sinto paz antes de dormir. Mas suspeito que não há final feliz. Ao contrário dos sobreviventes heroicos de filmes e livros, que habitam um tempo linear, com começo, meio e fim, o meu tempo parece circular, feito de camadas sobrepostas. A vida vivida, a vida que poderia ter sido, a vida imaginada e a vida usurpada estão juntas, habitando a mesma dimensão. Como escreve Marcelo Labes em seu romance: “Um menino de 12 anos agora com 30, sempre e de novo com 12, com 10, com 8 – que idade eu tinha?”

Que idade eu tenho?

Homens demoram entre vinte e trinta anos para falar sobre o assunto. Alguns nunca falam. Num testemunho de violência sexual, o sobrevivente está sozinho com sua memória traumática, fragmentada, com rastros muitas vezes confusos do que aconteceu. A linguagem falha. Mas falar liberta a vítima da clausura da solidão. Isso faz de Três porcos, de Marcelo Labes, um livro poderoso e pouco comum.

A primeira vez que ouvi falar do romance foi em 2020, num grupo de WhatsApp que mantenho com dois amigos escritores. Um deles comentou que conhecia alguém que sofrera um abuso na infância e que nunca tinha superado. E citou o livro. Eu li a sinopse, mas algum bloqueio me impedia de entender muito bem do que se tratava. Várias vezes, ia até o site de alguma livraria, relia a sinopse de Três porcos, mas me esquivava da leitura do romance.

Em 2024, quando a minissérie Bebê Rena chamou a atenção com uma cena inesperada de abuso sexual de um homem, contei para meus dois amigos que eu tinha passado por aquilo e que vinha conversando com a minha terapeuta sobre o assunto, principalmente sobre a dificuldade de escrever diretamente a respeito. Depois de ler Triste tigre, estava pronto para seguir adiante. Estava pronto para falar. Para escrever.

Neige Sinno questiona se um livro testemunhal não seria um gênero menor. Um editor recusa seu manuscrito por não ser ficção e não se encaixar propriamente na categoria literatura. Ora, verdade e beleza, arte e pensamento, como explica Jeanne Marie Gagnebin, sempre foram duas faces da mesma moeda. Michel Foucault mostrou que a escrita de si é distinta da confissão. É uma tecnologia de constituição do sujeito: uma arte de viver. Esse gesto ganha complexidade com a noção de parrésia, palavra de origem grega que significa dizer a verdade, com toda franqueza, coragem e liberdade, mesmo sob o risco de ferir alguém.

Narrativas carregadas de linguagem verdadeira reverberam força estética. O dizer verdadeiro produz beleza em um texto. Uma autobiografia que atravessa o indizível de um trauma, ou uma autoficção que busca justiça, exige uma escrita apurada, uma precisão formal, a disposição de se colocar diante da coisa mesma, deixando-a falar. O excesso de realidade às vezes estilhaça a forma literária, como a pressão e o calor forjam diamantes a partir de rochas opacas. Aqui, o caminho expressivo pode resultar em uma escrita que é como um punhal cortando perto do osso, no livro de Neige Sinno, ou como um mundo de estilhaços emocionais, no romance de Marcelo Labes.

Assim como a escritora francesa, Labes não acredita em superação, em salvação pela literatura. Mas foi graças à literatura, depois de ler um poema que parecia dizer o que ele não conseguia, que Labes finalmente teve coragem de falar. “Falei, chorei, depois cambaleei em direção à minha cama, me deitei e dormi um sono de anos, vinte e poucos anos, logo que falei, depois de vinte e poucos anos, o que me haviam feito aqueles porcos.”

Como as violentas ondas de choque de um terremoto a centenas de milhares de quilômetros de distância, a ferida emocional se propaga no tempo, perfurando as moléculas da vida por vir. Uma máquina temporal. Como seria minha vida sem os abusos? Um texto não é um registro de segunda mão da experiência vivida. Ele produz a experiência. Escrever sobre si mesmo, munido com a coragem da verdade, torna-se uma tática de sobrevivência e uma ética comunitária.


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É escritor, jornalista e mestre em literatura e crítica literária pela PUC-SP. É autor do romance Pesadelo tropical (Aboio)