relato pessoal

PENSE NA LAGOSTA (BRANCA)

Minha jornada em um remoto vilarejo da Nicarágua onde, além de peixes e tartarugas, pescam-se valiosos pacotes de cocaína largados no mar
Adrian e seu amigo Tiro em uma praia nicaraguense, em 2022 - Crédito: Acervo pessoal
Adrian e seu amigo Tiro em uma praia nicaraguense, em 2022 - Crédito: Acervo pessoal

25 min de leitura

Presentear este artigo

Digite o endereço de e-mail do presenteado e enviaremos uma mensagem com o link para abrir o artigo

Quando perguntei a Charles se sua relação com a igreja o impediria de vender um pacote de cocaína que encontrasse na praia, ele respondeu sem hesitar: “Não, desde que eu entregue uma parte do meu ganho à congregação.” Havíamos saído bem cedo, a previsão era cobrir cerca de 7 km de praia, indo e voltando pelo mesmo trajeto, quase 15 km no total. 

Com o horizonte carregado de nuvens, Tiro, que é a maneira pela qual eu chamava Charles desde o início de nossa amizade, muitos anos atrás, chamou atenção para a chuva grossa que se aproximava. Indicou que aquela era a direção para se chegar à Jamaica. Depois, movendo o braço estendido no sentido horário, do meio-dia para as duas horas, ele completou: “Por ali vem as lanchas rápidas da Colômbia.” Referia-se às embarcações conduzidas por traficantes que transportam drogas rotineiramente por aquela região.

Perguntei se ele alguma vez havia obtido sucesso em suas longas caminhadas. Isto é, se havia encontrado pacotes de cocaína na praia, trazidos pela maré. Tiro – que ganhou esse apelido pela exímia pontaria que demonstrou ao combater o exército sandinista ao lado dos Contras, nos anos 1980 – respondeu que não. Apenas recebera pequenas comissões fazendo a intermediação entre pessoas que encontraram pacotes e pessoas que queriam comprá-los. “A maior parte do dinheiro arrecadado vai para quem encontra os pacotes.”

“E quem é que compra?”, perguntei, ainda mais curioso. Tiro explicou que, “na maioria das vezes são os próprios traficantes que se livraram da carga”. O motivo para despejar a carga no mar pode ser uma colisão com o coral ou talvez um vagalhão inesperado invadindo o barco durante uma tempestade. Mas, na maioria das vezes, o despejo acontece quando os traficantes se veem diante de uma patrulha americana ou nicaraguense.

Seguimos pela praia quase deserta. Após 32 anos sem nenhum tipo de contato, eu havia descoberto por acaso que Tiro estava vivendo em Tasbapauni, um pequeno vilarejo perdido na costa Miskito da Nicarágua, e decidi surpreendê-lo com minha visita. Agora estava ali, caminhando ao seu lado e escutando histórias de um mundo que eu desconhecia por completo, enquanto buscávamos pacotes de cocaína arrastados pelas ondas.



Eu me emociono quando lembro de todas as coincidências que me levaram ao abraço emocionado de Tiro. Foi logo após eu ter desembarcado no pequeno atracadouro de madeira, na margem banhada por água doce. Espremido entre uma lagoa e o mar do Caribe, Tasbapauni era a última parada da lancha rápida que servia de transporte coletivo entre os vilarejos da região da Lagoa de Pérolas. 

Desde que parti da cidade de Bluefields, passei mais de duas horas espremido no banquinho de madeira do barco apinhado de passageiros, navegando para um destino do qual eu nada sabia, sem a garantia de que encontraria Charles. Mas não demorou nem cinco minutos em terra para que eu o visse. Inadvertidamente, ele caminhava em minha direção. Como vários dos moradores do vilarejo, estava curioso para conferir quem estava chegando na lancha do dia. Mais de uma dezena de pessoas aguardavam ao redor do acanhado píer.

Ao sacar meu celular do bolso e apontar na direção daquela pequena aglomeração de pessoas, notei várias delas cobrindo o rosto, evitando serem filmadas. Na lancha, durante o trajeto, eu também havia experimentado esse desconforto. Por respeito, mas muito mais por precaução, não insisti. Como Tiro me explicaria em breve, a população local tem participação ativa na engrenagem que move a cocaína rumo ao Norte, em direção aos Estados Unidos. 

Um rapaz forte, com dreadlocks acomodados em uma boina, se aproximou de mim e disse em um inglês grave: I got your back, se candidatando a garantir minha segurança. Respondi que não seria necessário, eu vinha em busca de um amigo que morava ali. Ele perguntou o nome do amigo e, ao escutar minha resposta, apontou: “É ele quem vem lá.”



Vou ter que dar uma rebobinada para o ano de 1989. Foi quando, na condição de sócio gerente do Hotel Puerto Viejo, uma das duas únicas hospedarias do vilarejo de mesmo nome, localizado no Caribe Sul da vizinha Costa Rica, contratei para ser meu braço direito um nicaraguense refugiado de guerra. Esperto, parrudo, disposto a tudo e de sorriso fácil. 

Com Charles, ou Tiro, instalado num quartinho que servia também de recepção, minha rotina passou a ser muito mais tranquila. Durante o dia, ele pegava pesado ao meu lado, nas tarefas da reforma da velha construção de madeira caindo aos pedaços. Excelente cozinheiro, era quem escolhia o peixe fresco quando os barcos pesqueiros imbicavam na praia, bem ali em frente. Muitas vezes regressava com lagostas ainda vivas, ou enormes caranguejos, negociados com seus amigos pescadores a preços reservados apenas a nativos. 

Passei a ter mais tempo para ficar com minha mulher e nossa filha recém-nascida. Quando Mila e eu íamos surfar juntos, Tiro é quem carregava Moana no colo, ninando nossa pequena princesa em seus braços fortes. Pai de uma linda garotinha de olhos tristes chamada Charline, ele nos contou que ela morava com a mãe numa favela de Limón, uma cidade portuária a 60 km dali. Sua ex-mulher, viciada numa droga nova que chegara à região, às vezes largava a filha em casa enquanto saia em busca de mais uma pedra de crack.

Não tínhamos como saber disso e não fazer nada. Chegou um momento em que Mila convocou Tiro para uma conversa e informou que ele poderia buscar a filha e trazê-la para morar no hotel, que iríamos ajudar a cuidar. Assim, nossa Moana ganhou uma irmã.

A família cresceu e nossa alegria de tê-la junto da gente era enorme. O hotel passava por um bom momento. Foi ganhando novos quartos, alguns ocupados por moradores fixos. O fluxo de viajantes para aquele paradisíaco pedaço esquecido do planeta aumentava a cada temporada, e a verdade é que todos acreditávamos que seríamos felizes para sempre.

Só que não.

Adrian e Tiro em Porto Viejo, em 1989 -- Crédito: Acervo pessoal

Tiro veio caminhando em minha direção, sem ainda ter se dado conta de quem eu era ou a razão de estar passando o celular ao rapaz de dreadlocks ao meu lado, para que ele nos filmasse. Seu jeitão era o mesmo que eu recordava. Tranquilo, passos largos e firmes. Apontei o dedo para ele, o que chamou sua atenção. Diminuiu a toada, levantou a aba do boné verde com o logo do refrigerante Sprite e falou algo em crioulo  que não entendi exatamente – mas que indicava que ele ainda estava na dúvida de quem eu era.

“Adrian”, eu disse, batendo de leve a mão no peito. Ele repetiu, “Adrian?” Quando escutou meu yeah, deu o click. “Puerto Viejo?” Perguntou e já veio para o abraço proferindo um sorridente “What happen bro?” Que sensação boa a do reencontro, de testemunhar a alegria com que ele reagiu à minha materialização absolutamente inesperada à sua frente – 32 anos é muito tempo. Do nada eu surgia de volta na vida de Charles.



Não me lembro de ter me despedido dele após o terremoto de Limón, que nos forçou a abandonar Puerto Viejo às pressas em abril de 1991. Em meio à destruição e ao caos subsequente, meu foco foi cuidar da segurança de Moana e Mila em primeiro lugar. Eu havia me desentendido com meu sócio no hotel e montado um pequeno restaurante de frente para o Parquecito, com vista para as ondas de Salsa Brava. Charles permaneceu no hotel e, ainda que nossa amizade continuasse forte, a intensidade do convívio diminuiu. 

Parti de Puerto Viejo acompanhado por Mila e Moana, mais dois amigos próximos, o brasileiro Carlitos e o peruano Aldo. Completamos a superlotação de uma canoa de madeira utilizada para pesca, mas improvisada como barco de resgate. Fomos deixados numa praia de Limón ao lado do aeroporto, onde estavam concentradas as operações de socorro. Tivemos a sorte de ser aceitos para ocupar os últimos assentos vagos num avião militar que transportava indígenas feridos para San José. 

Dali em diante, não teria mais notícias de Charles. Até que, passadas três décadas, um encontro absolutamente fortuito me revelou seu paradeiro.

Eu estava num mercadinho de Puerto Sandino, na costa do Pacífico da Nicarágua, e encontrei uma mulher de pele retinta que vendia pão de coco. Não me recordo de seu nome, acho mesmo que nem perguntei, ao menos não consta no vídeo que gravei de nossa breve conversa, talvez instintivamente prevendo que seria reveladora. Na Nicarágua, como em outros países da América Central banhados pelos dois oceanos, os descendentes de europeus predominam no lado do Pacífico e os de origem africana e indígena, no lado do Atlântico. Aquela senhora de avental e boné, carregando um balde de plástico lotado de apetitosos pães, definitivamente não parecia ser dali. Puxei conversa, primeiro em espanhol, mas na segunda frase já estávamos no inglês, o dela com o forte sotaque jamaicano que prevalece no Caribe. 

Perguntei como o pão era feito e, após escutar a receita, arrisquei perguntar de onde ela era. Ela respondeu Bluefields, a principal cidade caribenha da Nicarágua. Apenas para seguir no papo, mencionei que tinha um amigo de lá, pois sabia que era onde Charles havia nascido. Disse que seu nome era Tiro. Ela abriu um sorriso e disse: “Ele é gente boa, mora no meu bairro.” Me garantiu que se eu fosse até Bluefields o encontraria com facilidade, bastava perguntar na rua, já que “todo mundo o conhece”. Ela só não me informou que a cidade tem mais de 50 mil habitantes – ou seja, seria como encontrar uma agulha num palheiro.

Eu estava visitando Puerto Sandino para gravar um segmento do documentário 35 anos depois. Hoje consagrada na rota de peregrinação dos surfistas, a onda que quebra na saída do estuário de Puerto Sandino foi colocada no mapa mundial do surfe pela primeira vez em duas matérias que escrevi, uma para a revista californiana Surfer, outra para a brasileira Trip. Nelas eu narrava como, em janeiro de 1988, em plena guerra civil e contrariando ordens expressas do exército sandinista, eu havia sido muito provavelmente o primeiro surfista a se aventurar naquelas águas então proibidas.

Foi nessa mesma viagem que conheci Puerto Viejo, na Costa Rica. Me mudaria para lá no ano seguinte, após completar a travessia entre a Califórnia e o Brasil a bordo de uma moto, carregando minha prancha de surfe na garupa. Quando conheci a vendedora de pães de coco, eu estava refazendo o mesmo trajeto de 35 anos antes, dessa vez numa minivan. 

Com a informação passada por ela, me senti obrigado a dar uma entortada no roteiro e ir ao encontro de Tiro.



Muita gente defende a tese de que não existem coincidências. Dizem que Einstein proferiu alguma frase nesse sentido, nunca confirmada. De acordo com essa maneira de pensar, o encontro que tive com a vendedora em Puerto Sandino deveria ser interpretado como uma intervenção divina, arquitetada para que meu destino se realizasse. Já Freud concordava apenas em parte com a negação das coincidências. Sua explicação enveredava por outro ângulo, menos excelso, atribuindo ocorrências do gênero a uma manifestação de forças subconscientes em ação. Sem me aprofundar na causa ou estabelecer juízo, apenas me atendo aos fatos, o que posso relatar é que o encontro com a vendedora de pães não foi a única nem a mais impressionante das coincidências na minha busca por Charles. 

Depois de cruzar o país, de um oceano a outro, numa longa viagem que me tomou quase dez horas, cheguei a Bluefields ao anoitecer e fui direto para um hotel no bairro de Beholding, onde, supostamente, seria moleza encontrar Charles. Estava quase pagando a diária, quando fui informado pela recepcionista que teria que aguardar a volta da água para poder tomar um banho. Receoso de que isso talvez não acontecesse, disse que ia dar uma volta pela vizinhança e regressaria para checar se o fornecimento havia sido restabelecido.

A verdade é que aquele hotel, mesmo sendo apenas um três estrelas, estava bem acima do meu orçamento. Eu vinha dormindo num colchão instalado no interior da minha minivan e economizava uma boa grana. Mas devido à fama de Bluefields, de ser um lugar perigoso, passei a considerar opções mais seguras, buscando uma hospedagem tradicional. 

Na pesquisa inicial feita pela internet, o lugar que mais me atraiu foi a Finca Nakili, uma chácara à beira-mar com três bangalôs, de propriedade de uma argentina, localizada nos arredores de Bluefields e com preços bem mais acessíveis. O problema é que o acesso dependia de transitar numa estrada de terra esburacada e sem sinalização para a pousada, algo complicado de se fazer à noite, o que acabou me levando ao hotel dentro da cidade.

Decidi tentar achar o caminho para a Finca Nakili no escuro mesmo. Deu certo. Fui recebido por um funcionário que deixou claro como era estranha a minha presença ali sem contato prévio. Ainda assim, ele me conduziu à simpática dona, Julieta Bartolini, que logo perguntou o que me trazia a Bluefields. Contei resumidamente que buscava um velho amigo, que não via há muitos anos, de nome Charles, que tinha uma filha chamada Charline.

“Pode ser que seja a minha amiga”, exultou Julieta. “Eu conheço uma Charline, mas não sei o nome de seu pai nem por onde anda ultimamente.” Animada com o desafio, disse que iria me ajudar a encontrar Charles. Fiquei imediatamente bolado. A falta de água no hotel havia me direcionado para Finca Nakili e a primeira pessoa para quem mencionei meu objetivo em Bluefields era amiga de uma Charline. Seria apenas mais uma coincidência?

Descemos pelo gramado até um quiosque à beira-mar onde um grupo de locais falava alto, escutando reggae no talo e tomando cerveja. Julieta se aproximou de um deles, me apresentou, explicou o que eu estava fazendo ali e perguntou se ele conhecia Charles, ou Tiro. O balde não foi de água fria, foi de água mais que gelada. Ele afirmou sem titubear que Charles havia morrido assassinado havia dois anos. Indaguei a razão. Ele fechou o semblante e respondeu que era melhor que eu nem fizesse esse tipo de pergunta.

Passaram-se alguns minutos em que permaneci mudo, atordoado com a notícia, até que, de repente, quando me toquei, Julieta e o local estavam batendo boca, com ela contestando a morte de Charles. De maneira brusca o homem reuniu seus amigos e se retirou esbravejando em direção à enseada, onde sua panga estava atracada. Logo desapareceram no meio da noite, deixando um rastro de espuma branca apontando para Bluefields.

Julieta não desanimou e deu início a uma série de ligações. Para uma amiga em Bluefields mesmo, depois outra em Manágua, e finalmente Nova York. Era o número de Charline, que uma de suas amigas a havia orientado a procurar no perfil de Charline no Facebook. Quando a conexão completou, após cumprimentar calorosamente uma espantada Charline, que foi pega de surpresa entrando em um táxi em pleno Brooklyn, Julieta perguntou logo de cara se o nome do pai da amiga, porventura, era Charles. Ela respondeu que sim, mas que o chamavam de Tiro.

Foi a confirmação irrefutável de que se tratava da pessoa certa. Julieta me passou o celular e contei a Charline que a havia carregado no colo em Puerto Viejo quando todos morávamos no hotel, que gostava muito do pai dela, que estava à sua procura... Ela não se recordava de Puerto Viejo, era muito pequena ainda naquela época, mas não foi preciso. Logo estávamos os dois chorando, tomados pela emoção do momento, distantes milhares de quilômetros um do outro, mas conectados pela verdade do que havíamos vivido. 

Charline havia partido para Nova York na condição de refugiada, deixando uma filha e dois filhos pequenos em Bluefields. Tiro estava vivo, e agora morava em Tasbapauni, um povoado inacessível por terra, distante de duas a três horas de barco de Bluefields. Eu poderia encontrá-lo lá. Ela ficaria muito feliz se eu fosse vê-lo.



Quando desligamos, Julieta abriu uma cerveja para celebrarmos. Tomamos uma, depois mais outra. Fumamos também um baseado, algo que eu não fazia havia muito tempo. Fui dormir um tanto zoado, ainda sem acreditar na sequência de acontecimentos desde minha chegada a Bluefields, apenas algumas horas mais cedo.

Era sexta-feira, eu tinha que pegar a lancha que partia às oito da manhã do dia seguinte para Bluefields. No domingo não haveria saída, a seguinte só na segunda-feira. 

Logo cedo eu já estava caminhando pela estrada de terra em direção ao asfalto, onde deveria tomar um táxi para o embarcadouro municipal. Por segurança, o melhor lugar para deixar a minivan estacionada durante minha ausência era na própria Finca Nakili. Julieta havia telefonado para uma conhecida sua e garantido meu assento na lancha, que costumava lotar com boa antecedência. Eu precisava apenas chegar a tempo, pagar a passagem e embarcar. Só não tinha a mínima ideia de para onde estava indo. Sabia apenas o nome do lugar, nada mais.



Cocaína em abundância! Moradores locais lucram com a ‘lagosta branca’. Este é o título de uma matéria publicada no The Guardian em 9 de outubro de 2007, quinze anos antes do meu reencontro com Charles naquela manhã de novembro. Para colocar a conversa em dia, convidei meu amigo para almoçar peixe frito com patacones no único restaurante de Tasbapauni. Foi quando me inteirei de como funcionava a economia local, o que me motivou a buscar mais detalhes na internet. Encontrei o relato esclarecedor do repórter Rory Carroll:

Séculos de problemas acompanharam o levantar e baixar das ondas na Costa dos Mosquitos: Cristóvão Colombo, a conquista espanhola, piratas, navios negreiros. Para as vilas de pescadores espalhadas por esses remotos litorais da América Central, raramente havia motivo para dar boas-vindas a visitas do mundo exterior.

Mas isso foi antes da “lagosta branca” e antes de tudo mudar. Agora, os moradores se levantam ao amanhecer para observar o horizonte na esperança de avistar um tipo bem diferente de intruso.

O que eles procuram, e o que disfarçam com um eufemismo, são grandes sacos volumosos de cocaína colombiana. Uma combinação de ações policiais, geografia e correntes oceânicas trouxe toneladas da droga, e milhões de dólares, para o que antes era uma das regiões mais desoladas e isoladas do Caribe. Vilarejos que antes sobreviviam com camarão e lagosta avermelhada foram transformados. No lugar de cabanas de madeira com telhado de palha, agora há casas de tijolos, mansões e antenas parabólicas.

“Eles consideram isso uma bênção de Deus. Você vê pessoas o dia todo caminhando para cima e para baixo nas praias, observando o mar”, disse Louis Perez, chefe de polícia de Bluefields, o principal porto da costa caribenha da Nicarágua.

Imediatamente entendi o tratamento desconfiado que vinha recebendo das pessoas com quem havia interagido naquele primeiro dia no vilarejo. Mesmo com Tiro me apresentando e explicando a todos que eu era um conhecido de muito tempo, a tensão perdurava. Em uma das conversas, não hesitaram em deixar claro que eu estava deslocado naquele ambiente, me informando que o hotel para brancos ficava em outra praia.

Tiro providenciou que eu passasse a noite num amplo casarão de madeira, que, pelo que entendi, pertencia à diretora da escola local. Ela me recebeu de maneira cordial, ainda que seca. Indicou meu aposento no segundo andar e explicou que o acesso ao banheiro era passando pelo quarto do filho no piso térreo. 

O filho, um tipo atlético trajando camiseta de um time de basquete americano, mal me cumprimentou com a cabeça e saiu fora. Não verbalizou nada, mas ficou explícito por sua linguagem corporal que não se alegrou nem um pouco com minha presença ali. Minha primeira preocupação, instintivamente, foi de ordem fisiológica. Como ir ao banheiro no meio da noite sem perturbá-lo? Tinha que torcer para que a comida local, claramente preparada com um padrão de higiene duvidoso, não me causasse perturbações intestinais.

Comecei a ficar assustado de verdade quando Charles se despediu e seguiu para o armazém onde dormia entre galões de gasolina e óleo diesel. Seu trabalho era fornecer combustível para as embarcações locais e visitantes. Ele não podia ficar à minha disposição em tempo integral, fazendo minha escolta. Eu estava por conta própria e longe de me sentir à vontade. A sensação é de que minha presença estava incomodando, mais ainda quando eu tirava o celular do bolso para fotografar ou filmar algo. E o que não faltava eram imagens me tentando. 

Para deixar toda a situação ainda mais bizarra, parte considerável do cenário pelo qual eu transitara até aquele momento era de completa destruição. O furacão Julia havia atingido o povoado um mês antes e os danos haviam sido substanciais, principalmente nas construções mais próximas do mar. 

Um fenômeno conhecido como maré de tempestade, provocado por uma combinação de ventos intensos e baixa pressão atmosférica, causou a formação de uma “parede” de água que avançou vinda do mar com força devastadora. Muitas das casas de madeira foram deslocadas de suas fundações e carregadas terra adentro. Depois reacomodadas à força, semi ou completamente destruídas, rodeadas por troncos e montes de sujeira trazidos pela maré, elas compunham uma visão apocalíptica que clamava por um registro jornalístico.

Mesmo diante do risco de ser confundido com um espião a serviço da DEA, ou outra agência de combate ao narcotráfico, não resisti. No dia seguinte bem cedo, baixei o mais silenciosamente possível de meu quarto e fui buscar um local onde pudesse fazer meu xixi matinal sem ter que adentrar o quarto do filho mal-encarado da dona da casa. Aproveitei a relativa calma da manhã de domingo para fazer breves filmagens da orla enquanto aguardava a chegada de Tiro para a caminhada combinada. Iríamos à procura dos tais pacotinhos.



Não demorou muito para Tiro surgir na praia. Ele vestia uma descolada camiseta vermelha da gravadora independente de hip-hop americana Strange Music, exibindo o número 9 estampado à frente, que conecta a marca a um de seus fundadores, o rapper TechN9ne. De bermuda jeans e descalço, levava uma mochila nas costas contendo água e pacotes de bolacha. Um facão longo e extra-afiado iria garantir a abertura dos cocos pelo caminho.

Considerando que eu já havia avistado motocicletas saindo para os dois lados da praia, e presumindo que os pilotos tinham em mente o mesmo objetivo, concluí que nossa concorrência havia largado na frente disparado. Quanto mais ampla a área inspecionada, e da maneira mais rápida possível, obviamente maior a chance de encontrar um carregamento perdido de cocaína. Mesmo assim, Charles não perdia a esperança. Ele havia testemunhado em várias ocasiões conhecidos seus ficarem ricos do dia para noite após um simples passeio.

Os moradores que se dedicavam à pesca da “lagosta branca” de maneira mais estruturada levavam uma grande vantagem. Num povoado sem ruas, apenas calçadas de concreto conectando as casas, as motocicletas proviam o deslocamento mais veloz possível. E serviam também para inspecionar de maneira ágil a faixa de areia da extensa orla. Os barcos de pesca, por sua vez, permitiam a localização dos pacotes que ainda não haviam tocado a terra e seguiam flutuando ao sabor das correntes e marés.

Demos início à nossa caminhada bem em frente à imponente casa de Ted Hayman, considerado o “pescador” mais bem-sucedido de Tasbapauni. Sua mansão de tijolo e cimento se destacava entre os barracos de madeira que a rodeavam, mas estava interditada desde a prisão, em 2012, daquele que fez fama como o Pablo Escobar de Bluefields e arredores.

Naquele momento eu ainda não sabia o que mais tarde minhas pesquisas sobre Hayman revelariam. Como Escobar, ele tinha duas faces públicas. A do benfeitor que ajuda sua comunidade de diferentes formas para garantir a simpatia local e o silêncio sobre suas atividades ilícitas; e a de criminoso implacável, capaz de atrocidades para eliminar seus concorrentes e inimigos no lucrativo negócio do tráfico de cocaína.

Sua fachada era a de um empresário da pesca, que possuía um centro de armazenamento e distribuição em Tasbapauni. Segundo as autoridades responsáveis por sua prisão e posterior condenação a 32 anos de prisão, Hayman pagava aos moradores entre 1 mil e 5 mil dólares por quilo de droga trazido pela maré. Para que fizessem vista grossa à coleta e revenda da “lagosta branca”, as autoridades de prontidão no vilarejo também recebiam uma remuneração substancial, garantindo que todos saíssem ganhando a cada boa pescaria.

O prestígio de Hayman era tal que houve protestos pedindo sua libertação em Tasbapauni e Bluefields. A quantidade de pessoas na sua folha de pagamento era grande a ponto de chamar atenção de políticos, em especial dos partidos opositores ao presidente nicaraguense Daniel Ortega. Para muita gente, a prisão de Hayman foi planejada para desmobilizar sua capacidade de direcionar votos. Como explicar que, num país conhecido por sua leniência com a passagem de drogas rumo aos Estados Unidos, de um momento para outro a captura de Ted Hayman tenha se tornado prioridade para o poder público?



À medida que avançávamos em nossa caminhada, Tiro ia indicando a quem pertenciam as propriedades ao longo da praia. Uma extensa área de frente para o mar, inteiramente cercada por ripas de madeira, estava reservada para a construção do primeiro hotel de Tasbapauni. 

“Dinheiro de droga”, me garantiu Charles. Perguntei se essa demonstração de riqueza não acabava por chamar atenção das autoridades policiais. Ele respondeu que não, que todo mundo considera isso normal por ali. “Você conseguiu o dinheiro, você faz o que quiser com ele, é seu, ninguém pergunta nada.” E continuou: “O que chama atenção é quando alguém daqui vai a Bluefields cheio de dinheiro e gasta como louco. Aí eles perguntam de onde veio o dinheiro e, se não tiver explicação, trancafiam na cadeia.”

Mais adiante, buscamos abrigo em outra propriedade à beira-mar para nos proteger de um pé d’água. Sobre os escombros de uma casa de madeira com teto de sapé, derrubada pelos ventos do furacão de algumas semanas antes, encontramos uma mãe e seus quatro filhos, aparentemente descendentes de indígenas do povo Miskito. Além de dois cachorros. Tiro já os conhecia e conversou com eles em espanhol.

A mãe explicou que o marido havia saído para buscar ajuda num outro povoado. Estavam em situação de emergência desde a ocorrência do furacão, sem que os proprietários da fazenda de coco de que cuidavam, nem o governo, tivessem prestado qualquer socorro. A mãe preparava tortillas de milho sobre uma bancada de madeira ao ar livre. Dali seguiam para uma panela enegrecida, apoiada em tijolos e pedras que a mantinham estável sobre uma fogueira. O abrigo improvisado se enchia de fumaça.

Ela me explicou que colocava o milho de molho na água antes de moer para fazer a massa, e ofereceu que compartilhássemos do único alimento disponível até o regresso do marido com mais mantimentos. Agradeci, mas recusei. Era consternador ver a família naquela situação precária sem termos como ajudar. 

Não perguntei a idade dos filhos, mas entre eles havia duas meninas bem novinhas, estimo que abaixo dos 5 anos. Um dos meninos devia ter uns 8 anos, e o outro já exibia um bigode ralo. Ambos estavam grudados no celular assistindo a vídeos. Não sei como isso era possível num cenário de tanta miséria. De onde vinha a energia elétrica para recarregar a bateria, e como conseguiam e pagavam pela conexão? Estavam a vários quilômetros da casa habitada mais próxima.



Não encontramos pacote de cocaína algum. No nosso regresso, já próximos do povoado, Charles seguiu sozinho pela praia. Ia para o culto dominical de sua igreja. Fiquei para dar um mergulho no mar e absorver um pouco mais daquele ambiente tão intrigante. A água estava turva, suja com folhas e galhos trazidos pela chuva e pelo vento. Mas a temperatura era agradável e me diverti, pegando de jacaré as poucas ondinhas disponíveis até encalhar na areia.

Comprei bolachas e uma lata de atum numa mercearia local e esse foi o meu almoço. Não jantei. Era domingo, e o restaurante do dia anterior estava fechado. Passei a tarde circulando o mais discretamente possível pelas calçadas e vielas locais. Pedi ajuda à proprietária da casa onde estava me hospedando para reservar um lugar na lancha que partia cedinho para Bluefields na manhã seguinte. Estava lotada e minha única chance era se alguém desistisse. Caso contrário, só na terça-feira.

Meu instinto não dava espaço para dúvidas. Eu deveria ir embora o mais rápido possível. Não que eu tivesse recebido alguma ameaça direta, mas a sensação de que isso poderia acontecer a qualquer momento era palpável. A aflição vinha sobretudo da vulnerabilidade a que eu estava exposto. Havia caído de paraquedas no meio de um campo minado do qual pouca gente tinha conhecimento. Tasba o quê? 

Quando deu cinco horas da manhã eu já estava desperto, aguardando a primeira luz. Coloquei minha mochila nas costas e desci a escadaria do segundo andar procurando não ranger a madeira. Umas oito quadras me separavam do cais e, apesar de ser tão cedo, havia um movimento razoável de pessoas. Logo descobri a razão. Nas esquinas, banquinhas comercializavam carne de tartaruga, retirada ensanguentada dos cascos ali mesmo diante do freguês.

Logo fiz a conexão com o pedido de Julieta, da Finca Nakili, para que eu levasse uma porção para sua amiga em Bluefields, a que conseguira meu lugar no barco no sábado passado. Como eu havia me deparado com falta de luz em Tasbapauni desde minha chegada, devido ao furacão, nem busquei a carne de tartaruga. Não imaginava que eles as matavam nas manhãs, antes da partida da lancha, para a carne ser levada fresquinha.

Mais surreal ainda foi encontrar os soldados do contingente militar de plantão em Tasbapauni revistando mala por mala os passageiros embarcando na lancha. Eles não buscavam pacotes de cocaína, e sim de carne de tartaruga. O transporte para consumo pessoal era permitido desde que não excedesse uma determinada cota, o que resultaria em apreensão e multas pesadas.

Não ocorreram desistências e não consegui embarcar. Sobramos no cais eu e Tiro, que viera se despedir, aguardando por alguma outra embarcação que passasse por ali a caminho de Bluefields e pudesse me dar uma carona. Não era garantido, mas com um pouco de sorte poderia acontecer. Um antigo companheiro dos tempos de guerrilheiro de Charles também estava por ali, e os dois ficaram lembrando de episódios de combate contra os sandinistas.

Segundo Tiro, Bluefields sempre foi uma região abandonada da Nicarágua, esquecida pelo governo central. Embora o ditador Somoza fosse famoso por sua crueldade com opositores no lado do Pacífico do país, pelas bandas do Caribe ele não metia muito o bedelho. Com a tomada do poder pelos comunistas, ele me disse, tudo mudou, com a imposição de regras e controle indesejado num território que funcionava de maneira praticamente autônoma. O resultado foi a rejeição de Daniel Ortega e uma veneração tardia por Somoza.

Ainda que minha preocupação principal continuasse sendo um transporte para Bluefields, meus ouvidos prestavam atenção nas reminiscências dos dois amigos. Como a da tática que utilizaram ao “esquecer” algumas armas numa vala para atrair uma patrulha sandinista a uma emboscada, durante a qual abriram fogo sobre os soldados adversários sem perdão. 

Com o Sol já muito mais alto e quente do que eu gostaria, minha atenção foi desviada da conversa dos dois amigos para a chegada, vinda do vilarejo, de uma mulher vestida de jeans e camiseta novinhos em folha, acompanhada de dois homens. Não havia como não notar o par de brincos em formato de cifrão, enormes e reluzentes, exibidos orgulhosamente por ela. Deveriam pesar um bocado. A mulher cumprimentou Tiro, inspecionou algo numa carga de madeira armazenada à beira do píer, e se foi junto com seus aparentes funcionários.

Imediatamente perguntei a Tiro se aqueles brincos eram de ouro. Ele confirmou, explicando que ela fazia parte do comando do tráfico no vilarejo, responsável entre outras tarefas pela produção de crack para consumo local. Algo que eu não havia testemunhado na minha curta estada em Tasbapauni, mas que Charles disse ser comum entre os jovens.

Finalmente uma lancha aportou no pequeno píer, com o piloto se dispondo a me conduzir a um povoado próximo dali, de onde eu deveria pegar um táxi para outro porto, alguns quilômetros adiante por terra, de onde saíam lanchas com maior frequência para Bluefields. Ia ser um percurso um tanto trabalhoso, mas até o meio da tarde eu deveria estar de volta na Finca Nakili.



Charles não me pediu nada enquanto estive com ele. Apenas que eu visitasse, em Bluefields, antes de partir, seus três netos, filhos de Charline. E que, se fosse possível, deixasse com eles um par de óculos escuros que eu dissera ter na minha van, que o ajudaria a amenizar os efeitos de uma doença que estava afetando sua vista.

Contei a Charline, por WhatsApp, como havia sido meu encontro com seu pai. Enviei fotos. Ela curtiu. No dia de minha despedida de Bluefields, marquei um encontro com seus três filhos numa quadra comunitária do bairro Beholden. Uma menina de olhos tristes como eu lembrava serem os da mãe, ao redor de 17 anos e acompanhada pelo namorado, novinho também, chegou acompanhada por dois garotinhos sorridentes, sob os cuidados da irmã. 

Me levaram até sua casa. Entreguei os óculos, meu presente para Charles. O avô em Tasbapauni, a mãe em Nova York, tenho certeza que ambos buscando encontrar algo que pudesse dar a eles uma vida com mais esperanças. Peguei a estrada de coração apertado.


*


Este relato faz parte do livro 35 anos depois – As ondas passam, as amizades ficam, que será lançado junto ao documentário de mesmo nome.


Ícone newsletter Piauí

A revista piauí garante a privacidade dos seus dados, que não serão compartilhados em nenhuma hipótese. Você poderá cancelar a inscrição a qualquer momento.


Foi diretor de redação da revista Fluir e hoje é CEO da Waves, plataforma brasileira especializada em surfe. Publicou Alma Panamericana (Gaia), uma aventura de 25 mil km por catorze países