anais da história

CRIME EM ALTO-MAR

Arqueólogos brasileiros buscam os despojos da escravidão no leito dos oceanos

PIAUÍ_238

O cinegrafista Yuri Sanada fotografa os restos do Camargo: para fazer as imagens, ele pôs a câmera num saco plástico transparente com água doce, o que dispersou a lama sobre a superfície dos despojos do navio, permitindo registrá-los - CRÉDITO: YURI SANADA_2024

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No primeiro dia da expedição, os mergulhadores localizaram no fundo do mar, a pouca distância da Costa de Salvador, na Bahia, dois canhões despedaçados, alguns destroços de madeira e fragmentos de uma louçaria chinesa. Eram restos do navio Nossa Senhora do Rosário e Santo André, guardados no leito marinho desde 1737, quando a embarcação foi a pique. “Esses despojos são a prova de um crime que não prescreveu”, disse o arqueólogo sergipano Luis Felipe Freire Dantas Santos à piauí.

O crime é a escravidão. O Nossa Senhora do Rosário e Santo André era um galeão português usado na chamada Carreira da Índia, a rota de mercadorias entre Portugal e o Oriente. Na volta para Lisboa, o navio aportou em Salvador. Antes que pudesse continuar viagem, foi destruído por um incêndio talvez acidental, bem perto da Praia de Boa Viagem. Oficialmente, o galeão transportava apenas as mercadorias orientais, mas Santos reuniu elementos para afirmar que ele também servia ao tráfico de africanos para o Brasil.

Arqueólogos dedicados à pesquisa de sítios em ambientes aquáticos são raridade no Brasil. Mais raros ainda são aqueles que investigam embarcações escravagistas no fundo das águas. Santos, de 36 anos, é um desses poucos pesquisadores. Professor-assistente de arqueologia na Universidade Federal da Bahia (UFBA), ele também preside o Instituto AfrOrigens, uma entidade criada em 2023 para fazer pesquisas arqueológicas sobre o tráfico negreiro. Foi naquele mesmo ano que o arqueólogo iniciou os trabalhos sobre o Santo André – como é mais conhecido o galeão – e encontrou as primeiras provas do crime: entre os despojos no fundo do oceano, havia dezenas de cauris, ou búzios.

Os cauris são pequenas conchas de moluscos do gênero Cypraea. Devido à sua raridade na África Ocidental, eles foram usados no século xviii como moeda, servindo inclusive para a compra de homens, mulheres e crianças. Dentre os cauris, os mais valorizados eram os do gênero Cypraea moneta, encontrados sobretudo nas Maldivas, no Oceano Índico. Em meados do século xvii, na região do Benim, uma pessoa escravizada podia custar cerca de 40 mil cauris, de acordo com o historiador Robin Law, em The slave coast of West Africa 1550-1750 (A costa escravagista da África Ocidental 1550-1750).

Em 22 de janeiro deste ano, Santos voltou ao litoral de Salvador para novas pesquisas sobre o galeão. Estava acompanhado de três outros arqueólogos subaquáticos – dois brasileiros e um canadense – e um instrutor de mergulho e cinegrafista. A piauí acompanhou em Salvador o trabalho em terra e mar feito pelos especialistas, que orientavam uma turma de vinte estudantes de história e arqueologia, entre outros interessados em arqueologia subaquática e memória afrodiaspórica. Para Santos, trata-se de uma iniciativa que visa transformar a arqueologia em “ferramenta revolucionária”, criando uma geração de arqueólogos capacitados a reinterpretar discursos históricos oficiais.

Antes do mergulho, os alunos – com idades na faixa dos 20 aos 30 anos, a maior parte composta por mulheres negras – fizeram um curso de cerca de duas semanas oferecido pelo AfrOrigens na UFBA. Nas aulas foram ensinadas técnicas de medição de materiais encontrados no fundo do mar, o uso das ferramentas necessárias para a atividade e noções de arquitetura e cultura navais. Aqueles que já tinham experiência em mergulho poderiam visitar nos dias seguintes a área mais profunda onde foram localizados os despojos do Santo André, a 4 metros de profundidade. Os outros passariam por treinos para só dali a uma semana alcançar o navio naufragado.

Antes de vestir sua roupa de mergulho, no primeiro dia das pesquisas no mar, a arqueóloga Luciana Bozzo Alves, de 54 anos, doutora pela Universidade de São Paulo (USP) e diretora de projetos arqueológicos do AfrOrigens, colocou uma guia de umbanda para empenhar-se na missão. Em seu antebraço, estava tatuado Patacori Ogum, saudação ao deus guerreiro africano. Um dos alunos, o babalorixá e quilombola Emerson Mec (Emerson Luiz Ramos), de 28 anos, colocou um fio de contas de Iemanjá no pescoço antes de mergulhar. Outros alunos portavam colares feitos com búzios – como aquelas conchas que há duzentos anos serviram de moeda na África. Todos os participantes da empreitada, cada um à sua maneira, fizeram questão de empunhar algo da memória afrodiaspórica antes de mergulharem nas águas da Baía de Todos-os-Santos.

Ao retornarem do mergulho, os pesquisadores comentaram a maneira como os restos da embarcação estavam dispostos entre uma grande fenda de rochas encrustadas de corais. Também redesenharam os rascunhos que haviam feito no fundo do mar com uma espécie de minilousa e lápis, próprios para uso subaquático. É tudo muito minucioso, com o intuito de não intervir na “cena do crime”, eles me explicam.

As pesquisas arqueológicas do AfrOrigens estão sendo realizadas com o apoio do Slave Wrecks Project (SWP), um braço do Instituto Smithsonian criado em 2008, que desembolsou 100 mil reais para a empreitada brasileira. O SWP, que também tem a participação da Universidade George Washington, é um projeto de abrangência mundial. Seus participantes já encontraram embarcações escravagistas naufragadas nos Estados Unidos, na África do Sul e em Moçambique.

No Brasil, foi graças a essa parceria que o AfrOrigens fez uma descoberta de grande impacto em 2023: encontrou no fundo do mar de Angra dos Reis, no litoral fluminense, os despojos do Camargo, o último navio a traficar africanos para o Brasil. Como o tráfico negreiro já estava proibido, o Camargo era uma embarcação fora da lei, mas que tinha por trás dois dos homens mais ricos do país, agindo contra os ditames da Justiça.

O galeão Nossa Senhora do Rosário e Santo André, que afundou na Costa de Salvador, era um navio de propulsão a vela que transportava cargas valiosas do Oriente, como especiarias, chás, marfim e porcelanas. Pesquisas recentes desenvolvidas pelo AfrOrigens mostram que a embarcação, apesar de, oficialmente, só poder transportar esses produtos orientais, transportava também escravizados como “bens pessoais” da tripulação. “A questão é que o comandante podia trazer duas pessoas e ele trazia quinze”, explica Santos.

Quando o Santo André pegou fogo na Baía de Todos-os-Santos, em 10 de maio de 1737, foram resgatadas do incêndio 134 pessoas escravizadas, e não apenas africanos. Havia também indianos.[1] Por isso, Gilson Rambelli, de 61 anos, professor de arqueologia da Universidade Federal de Sergipe (UFS) e coordenador científico do AfrOrigens, defende que, na prática, não havia distinção entre navios escravagistas e outras embarcações, como as comerciais. Para o arqueólogo, a história da navegação por quase quatrocentos anos esteve relacionada ao transporte de pessoas escravizadas. E uma forma de provar isso é investigando os naufrágios de navios da época colonial na costa do país. “O Brasil não conhece o Brasil debaixo d’água”, diz ele. Até hoje, por exemplo, não se sabe o número certo de embarcações escravagistas naufragadas no litoral brasileiro.

Autor do livro Arqueologia até debaixo d’água (Maranta), Gilson Rambelli é um dos pioneiros da arqueologia subaquática e náutica no país. “Quando eu comecei, tudo se resumia aqui a ir atrás de navios afundados para caçar tesouros”, ele conta, em sua casa em Aracaju, Sergipe. As brechas da lei brasileira que permitiam a “caça ao tesouro” de navios afundados tiravam o seu sono, pois essa rapina causa danos irreparáveis aos sítios arqueológicos, tanto os terrestres, quanto os subaquáticos.

Em 2004, Rambelli estava caminhando pela Avenida Faria Lima, na capital paulista, quando uma publicação exposta em uma banca de jornal chamou sua atenção. Era o Guia dos naufrágios da Baía de Ilha Grande (Grupo Náutica), de José Eduardo Galindo, um pesquisador e cinegrafista subaquático. No livro, havia todo um capítulo dedicado à misteriosa história do navio negreiro Camargo, afundado na região de Angra dos Reis. Foi uma virada de chave para Rambelli, que fazia o pós-­doutorado em arqueologia subaquática na Universidade Estadual de Campinas (Unicamp) – e logo arquitetou um projeto de estudos sobre o Camargo. Entre 2005 e 2007, com bolsa da Fapesp, aprofundou as pesquisas sobre o navio. “Naquela época, ninguém no mundo trabalhava com arqueologia subaquática relacionada à escravidão”, diz.

Rambelli fez várias expedições para encontrar o Camargo na Costa de Angra dos Reis, sem sucesso. “Mas passei inúmeras vezes muito perto de onde está o navio que foi achado depois”, recorda. Ele se consola por não ter encontrado o galeão naquele período: “Se eu o tivesse encontrado naquela época, não haveria a repercussão que está tendo hoje.” O que ocorre atualmente é um renovado interesse pela história da diáspora africana provocada pela escravidão e pelos sinais deixados por essa tragédia coletiva em boa parte do mundo, inclusive no fundo dos oceanos. O intuito é que essas pesquisas sirvam como “ferramentas de reparação histórica e justiça social”, nas palavras de Luis Felipe Santos.

Durante a adolescência, o tempo livre de Santos dividia-se entre os estudos, atividades artísticas e uma banda de punk rock (foi nessa época que ele mandou tatuar na panturrilha os dizeres TROPICAL PUNK). Prestes a completar 18 anos, ao se decidir sobre que faculdade fazer, Santos flertou com o curso de arqueologia como opção no vestibular da Federal de Sergipe, mas, por não saber exatamente do que se tratava, decidiu fazer história.

No início do curso, na disciplina sobre pré-história, ficou sabendo sobre os Cânions do Xingó, um sítio arqueológico em Sergipe onde foram encontrados vestígios de ocupações humanas de cerca de 9 a 10 mil anos atrás. Ficou fascinado. Alguma coisa o atraía para a pesquisa arqueológica. A virada aconteceu depois que ele assistiu, em 2008, a uma palestra sobre arqueologia subaquática feita no Departamento de História por Rambelli, então já professor da UFS e considerado um importante especialista no assunto. Interessado pelo tema, Santos procurou Rambelli para obter mais detalhes, e os dois travaram amizade.

Santos acabou trocando o curso de história pelo de arqueologia e logo foi convidado a participar de uma expedição de Rambelli. Convocado pelo Ministério Público Federal para avaliar canhões antigos encontrados no Rio São Francisco, na fronteira entre Sergipe e Alagoas, o professor pediu a Santos que fizesse croquis dos objetos. “Ele veio com um desenho tão fantástico que eu falei: ‘Agora você vai ser o desenhista da equipe’”, conta Rambelli.

Nos anos 1970, antes que Angra dos Reis fosse ocupada por milionários e multidões de turistas, a historiadora carioca Martha Abreu costumava passar as férias na cidade litorânea. Décadas depois, a região estaria relacionada a um relevante estudo feito por ela sobre a escravidão no Brasil.

Formada pela Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Abreu dedicou-se no mestrado e no doutorado a pesquisar as festas populares no Rio antigo. Estava prestes a dar um ponto final em sua tese de doutorado, quando o historiador Eduardo Schnoor entregou ao Laboratório de História Oral e Imagem, do qual Abreu fazia parte, na Universidade Federal Fluminense (UFF), um conjunto precioso de documentos que lhe haviam sido confiados pelos descendentes do comendador Manoel de Aguiar Vallim (1806-78).

Os papéis diziam respeito à Fazenda Resgate, que pertencia a Vallim e ficava na cidade de Bananal, no estado de São Paulo, quase na divisa com o Rio de Janeiro. Era uma das propriedades mais prósperas do país em meados do século XIX. Naqueles anos, a fonte de riqueza do agronegócio brasileiro era o café plantado no Vale do Paraíba, em fazendas que se estendiam de São Paulo até o Rio de Janeiro, com centenas de escravizados. Os documentos recebidos por Schnoor permitiam não apenas entender o tamanho da fortuna de Vallim como uma parte relevante da história da escravidão.

Um grupo ligado ao laboratório da UFF decidiu iniciar um estudo a respeito da fazenda. “Eu, de primeira, não quis participar das pesquisas”, conta Abreu, que naquele momento estava mais preocupada com a defesa de sua tese. Mas tudo mudou pouco depois. Ao pesquisar em jornais da década de 1850 sobre o seu tema de doutorado, Abreu esbarrou com uma série de notícias sobre os esforços que vinham sendo feitos pela polícia para resgatar africanos recém-trazidos ao Brasil de maneira ilegal, depois da proibição do tráfico negreiro (que precisou de duas leis para se impor no país, uma em 1831, outra em 1850). A embarcação fora da lei era o Camargo, que aportara secretamente no litoral da Fazenda Santa Rita do Bracuhy, em Angra dos Reis, transportando africanos para serem escravizados por vários fazendeiros do Vale do Paraíba, entre eles o comendador Vallim.

Abreu resolveu se dedicar ao assunto, ao mesmo tempo que se preparava para o doutorado. Seu estudo, chamado O caso do Bracuhy, foi o primeiro a mergulhar com profundidade no episódio envolvendo o Camargo. O trabalho dela e dos demais historiadores sobre a fazenda de Vallim e sua época foram reunidos no livro Resgate: uma janela para o Oitocentos (Topbooks), organizado por Schnoor e Hebe Mattos Gomes de Castro, e publicado em 1995. A pesquisa sobre o navio e a fazenda foi um pequeno desvio na carreira de Abreu. No ano seguinte, ela defendeu seu doutorado em história na Unicamp, e voltou ao seu tema principal – as festas populares.

Em 2005, dez anos depois da publicação do texto O caso do Bracuhy, levando adiante seus estudos, Abreu foi até um quilombo estabelecido nas antigas terras da Fazenda Santa Rita do Bracuhy, para um projeto acadêmico sobre as celebrações de comunidades historicamente marginalizadas. Estava acompanhada da historiadora Hebe Mattos e do graduando em história Thiago Campos Pessoa. Ao falar com os moradores do quilombo, Abreu buscou primeiro, em suas palavras, o “mais velho, o guardião da memória”, atendendo às regras metodológicas da pesquisa.

O guardião da memória era Manoel Moraes, um negro calvo e loquaz. As historiadoras conversaram com ele sobre as canções de jongo e de calangos. Conversa vai, conversa vem, ao narrar como seus antepassados chegaram no Bracuhy, Moraes disse: “Antigamente, os escravos saltavam num porto de desembarque, que ficava ali para baixo, chamado Guimarães.” Abreu perguntou: “Quem te contava essa história?” Ele respondeu: “Meu tio Antônio Joaquim.” Thiago Pessoa indagou: “E o desembarque que o senhor mencionou, como funcionava?” E então Moraes contou a seguinte história para o vídeo gravado por Abreu:

Na última vez que o barco viajou de lá para cá cheio de escravos, já estava proibida a venda de escravos. Não podia mais, né? Mas foram lá e ainda fizeram, contrataram esses negros, ainda trouxeram um bocado de negros para cá. Aí vieram. Mas, quando chegou no meio do largo, vinha um pessoal correndo atrás dele. Polícia, né? A polícia foi até eles. Então chegou aqui na Cunhambebe [uma área de Angra dos Reis], não sei se você sabe desse caso [ele se dirige a sua esposa]. O barco afundou. O barco afundou porque, me disseram, tem um buraco. [...] Como sabiam que iam ser presos pelo pessoal que estava procurando eles, eles bateram o pino [quebraram o casco] naquele barco. E então jogaram aquelas embarcaçãozinhas pequenas na água e alguns se salvaram, mas a maioria morreu.

Para Manoel Moraes e a comunidade quilombola, o naufrágio do Camargo se dera por causa de um buraco feito no casco do navio – que é também uma das hipóteses do afundamento do navio, embora a mais aceita pelos historiadores seja a de que o navio foi a pique depois de ter sido incendiado. Moraes insistiu, sobre a localização do Camargo: “Isso tá aqui na Ponta da Cunhambebe.”

A informação sobre a exata localização do navio não tinha tanta importância para Martha Abreu quanto teria para o arqueólogo Gilson Rambelli, que já transitava pela região, pesquisando o Camargo, mas sem recursos suficientes para uma expedição subaquática de alto nível. O mesmo fazia o instrutor de mergulho e cinegrafista Yuri Sanada, mas atrás dos restos do navio para fazer um documentário.

Martha Abreu, interessada na memória da comunidade quilombola, aproximou-se de Rambelli e de Sanada, aos quais transmitiu a informação contada por Moraes, que viria a morrer em 2018, aos 90 anos. Os três pesquisadores, então, se empenharam em achar o navio – em vão. A pista dada pelo quilombola não foi suficiente para localizar o Camargo, e o trio acabou se dispersando.

As coisas voltaram a andar quando Abreu soube do Slave Wrecks Project, do Instituto Smithsonian. Por intermédio do curador Paul Gardullo, diretor do Museu Nacional da História e Cultura Afro-Americana, um dos braços do instituto, ela procurou o antropólogo Stephen Lubkemann, cofundador e coordenador internacional do SWP, em busca de um financiamento para o projeto de encontrar os despojos do Camargo em Angra dos Reis.

As tratativas andaram a passos lentos. Quando finalmente pareceu que poderiam iniciar os trabalhos, chegou a Covid. Foi preciso esperar o fim da pandemia para o trio Abreu-Rambelli-­Sanada retomar o contato. Naquele momento, porém, eles se depararam com outro obstáculo para viabilizar o patrocínio americano: as universidades públicas brasileiras não sabiam muito bem como lidar com o financiamento privado. Foi preciso que o trio criasse em 2023 um instituto, o AfrOrigens, e um CNPJ para encurtar o caminho do apoio financeiro dos Estados Unidos até o Brasil. Luis Felipe Santos, que fazia na época seu pós-doutorado em arqueologia, se juntou à turma e foi escolhido para presidir o instituto.

Só então, finalmente, o grupo pôde organizar expedições profissionais nas águas de Angra dos Reis, com equipamentos de tecnologia de ponta, como sonares de varredura lateral (utilizados para captar imagens em altíssima resolução do fundo do mar) e magnetômetros (que registram variações de intensidade do campo magnético). Fizeram seis tentativas, sem sucesso.

Não foram os aparelhos sofisticados que ajudaram a encontrar o barco. No último mergulho do último dia, durante a sétima expedição, em 7 de dezembro de 2023, o clima era de total desânimo. A equipe já se preparava para retornar a terra firme, quando cruzou no mar com dois pescadores em uma canoa. Um deles, cujo apelido era Tenente Luís, contou que sabia onde estava o Camargo. “Se vocês me pagarem uma cerveja, levo todo mundo até lá”, disse. Ele conhecia bem o local: nos anos 1960 e 1970, seu pai conduzira caçadores de tesouro de navios afundados até a Ponta do Cunhambebe, um promontório na região do mesmo nome – o exato lugar que o quilombola Manoel Moraes havia indicado.

Os pesquisadores seguiram a pista, sem muita esperança. A visibilidade era nula no local. Nas palavras de Sanada, que hoje é vice-presidente do AfrOrigens, era como “uma sopa de ervilha”. Os mergulhadores se lançaram ao mar e desapareceram na névoa produzida pela lama. Até que um deles, Alvanir Silveira de Oliveira – representante internacional da Associação Nacional de Instrutores Aquáticos (Naui, na sigla em inglês) na América Latina, um coletivo de mergulhadores –, afundou a mão no lodo e tocou um pedaço de madeira carbonizada. O lodo “era macio como um pudim”, de acordo com Sanada, em mais uma de suas analogias culinárias. Em meio ao pudim escuro, Oliveira encontrou também materiais com cobre, metal geralmente utilizado em embarcações de séculos passados para afugentar o turu, um molusco chamado de “verme de navio”, que perfurava os cascos de madeira.

Já perto de anoitecer, Rambelli, Santos e Sanada desceram também ao fundo. As descobertas eram vultosas: indicavam ser os restos de um navio, e de um navio incendiado. Só podiam ser os despojos do Camargo. A principal hipótese deles era que os grandes destroços de madeira compunham o casco da embarcação, dispostos da forma como teriam afundado. Também foram encontrados pesados objetos de ferro que, segundo conclusões do antropólogo canadense Marc-André Bernier – que participou de pesquisas sobre o naufrágio do navio negreiro francês L’Aurore, afundado na Costa de Moçambique –, eram partes do cabrestante, ferramenta utilizada para içar a âncora. Os pesquisadores resolveram demarcar o sítio arqueológico com estacas e fios vermelhos. A cervejinha do Tenente Luís havia resolvido o mistério.

No dia seguinte, uma assombrosa tempestade assolou Angra dos Reis. A chuva, além de alagar ruas e casas, aumentou em cerca de 1 metro a camada de lama no fundo do Rio Bracuí. Como o rio desagua perto de onde foi encontrada a embarcação, isso aumentou a quantidade de lama sobre os despojos do navio. Ou seja, um dia a mais, e o Camargo não teria sido encontrado. Sorte que a demarcação no fundo do mar fora feita no dia anterior. Até hoje, entretanto, com ou sem tempestades, a visibilidade no local é quase nula, e as investigações subaquáticas sobre o Camargo são sobretudo táteis. É como fazer “um mergulho em braile”, na definição de Rambelli.

A hipótese de tirar os despojos do fundo do mar para analisá-los na superfície nem passa pela cabeça dos arqueó­logos. Isso implicaria em desestabilizar completamente o meio em que o Camargo repousa há centenas de anos, bem conservado, pois o ambiente subaquático preserva materiais orgânicos (como as madeiras da embarcação) com mais eficiência que o terrestre. Além disso, trazer os vários destroços à superfície custa muito caro. Nos Estados Unidos, o Slave Wrecks Project cogitou fazer isso com o Clotilda, outra embarcação escravagista, achada em 2019 no fundo do Rio Mobile, no estado do Alabama. A empreitada ficaria em cerca de 30 milhões de dólares (cerca de 164 milhões de reais).

A invisibilidade no local frustra principalmente Yuri Sanada. Seus caros equipamentos fotográficos não conseguem capturar com nitidez os despojos do navio. Apesar das dificuldades, ele conseguiu fazer algumas fotos do Camargo, que mostram apenas formas pouco nítidas. O cinegrafista desenvolveu um método engenhoso para registrar as imagens. Primeiro, colocou a câmera dentro de um saco plástico transparente cheio de água doce. Depois, pressionou o saco contra os restos do Camargo. Com a pressão causada pela bolsa sobre a superfície dos objetos, a lama se dispersou por alguns minutos. Foi o suficiente para, nesses lampejos de transparência, ele conseguir capturar os vultos dos despojos.

A curiosidade de Sanada pela arqueologia vem da infância. Começou quando leu Deuses, túmulos e sábios, um famoso livro de divulgação publicado em 1949 pelo alemão C. W. Ceram. A obra narra na forma de grandes peripécias a história de algumas descobertas arqueológicas famosas, como a das ruínas de Troia por Heinrich Schliemann, em 1871, e do túmulo de Tutancâmon por Howard Carter, em 1922. Talvez por causa dessa leitura, talvez devido ao seu temperamento intrépido, Sanada acabou se interessando mais pelo lado aventureiro da arqueologia do que pelas pesquisas acadêmicas, o que o levou a participar de várias empreitadas curiosas. Em uma delas, acompanhou um grupo de pesquisadores que queriam provar que os fenícios circum-navegaram a África no século VI a.C. – ou seja, quase 2 mil anos antes de Bartolomeu Dias e Vasco da Gama. O grupo refez todo o trajeto presumido em uma embarcação parecida com a utilizada pelos fenícios. Não mudaram a história oficial, que continua atribuindo o feito a Bartolomeu Dias e Vasco da Gama, mas conseguiram concluir a viagem.

Em meados dos anos 1990, depois de viver no Japão, nos Estados Unidos e outros países, Sanada comprou um veleiro a bom preço em Los Angeles e retornou nele ao Brasil. Atracou o barco – no qual morava com sua mulher, Vera – em Angra dos Reis, às margens do Rio Bracuí, e passou a conviver com o quilombo instalado na região, que já sofria com a especulação imobiliária e o assédio dos que queriam construir condomínios de luxo e pequenas mansões de veraneio na área.

Nas conversas com os quilombolas, o cinegrafista ficou sabendo da história de um navio afundado ali perto, no século XIX, capitaneado por um americano que traficava africanos e fugira vestido de mulher depois de tocar fogo na embarcação. Sanada ficou tão interessado pela história que planejou fazer um documentário sobre o caso. Como tinha experiência em mergulho, tentou achar o navio. Não conseguiu. Ele precisou esperar a entrada em cena do AfrOrigens para encontrar o Camargo com os arqueólogos.

O naufrágio do Camargo leva a um mergulho bastante fundo em questões cruciais da formação brasileira, como a escravidão, a economia extrativista, a condição subalterna e dependente do país, e a arrogância das elites locais, que pretendem se colocar acima da lei. Mas o episódio também conta sobre o esforço inédito feito pelo governo e pela Justiça, durante o Segundo Reinado (1840-89), para fazer valer a proibição do tráfico negreiro no Brasil.

Não se sabe o dia exato nem a hora em que o Camargo afundou. Estima-se que foi em uma noite de dezembro de 1852. As autoridades tiveram notícia de que uma embarcação que passara pelo Porto de Quelimane, em Moçambique, atracara na região da Fazenda Santa Rita do Bracuhy, em Angra dos Reis, carregada de negros, e que depois foi incendiada, para não deixar rastros do comércio ilegal que estava fazendo.

O Brasil proibira o tráfico negreiro havia mais de duas décadas, em 1831, depois de sofrer grande pressão da Grã-­Bretanha, que exercia um poder imperial sobre boa parte do mundo. Mas ninguém respeitou a nova lei: nem os traficantes de escravizados, nem os compradores, nem as instituições públicas. E o tráfico continuou, como era antes. “A lei de 1831 foi considerada uma lei ‘para inglês ver’”, escreveu o historiador Boris Fausto em sua História do Brasil (EdUSP), recorrendo à expressão que se popularizaria no país a partir dessa época.

A Grã-Bretanha, porém, continuou a pressionar – e agora para valer. Chegou a afundar navios de traficantes na costa do Brasil, desafiando a soberania nacional. O governo brasileiro foi forçado a promulgar uma nova lei, mais severa, em 1850. Quando o Camargo aportou em Angra dos Reis, a 165 km do Rio de Janeiro, ele estava afrontando uma legislação muito mais dura que a anterior, e que exigia a mobilização de todo o aparato da Justiça e da polícia para impedir e punir traficantes de africanos.

O tráfico promovido pelo Camargo “foi um enorme desafio para a nova lei e para a autoridade do governo imperial”, escreve Martha Abreu, em seu estudo O caso do Bracuhy. “A região do desembarque era muito próxima da Corte, envolvia importantes fazendeiros de um dos municípios mais prósperos do café e, como palco das operações, o episódio foi largamente discutido e polemizado nos jornais entre os meses de janeiro e março de 1853.”

O Camargo era um brigue, nave de dois mastros e velas quadradas, muito ligeira, apropriada para manobras rápidas. Seu capitão era o americano Nathaniel Gordon (1826-62), um traficante de negros, conhecido de ponta a ponta nas Américas. Ele planejou com minúcia a chegada da embarcação ao Brasil. Antes de alcançar o destino, Gordon fez uma parada em Ilha Grande, também no litoral fluminense, para verificar se havia algum patrulhamento da Marinha brasileira. Depois, como o navio poderia atolar caso se aproximasse muito da costa de Angra dos Reis, ele parou a razoável distância.

Deu, então, início a um serviço que, em hipótese alguma, poderia chamar a atenção. A tripulação, com ajuda de serviçais e moradores do cafezal, desembarcou um número estimado de quinhentos africanos do navio e colocou-os em diversos pequenos barcos, levando-­os até a Fazenda Santa Rita do Bracuhy, de propriedade do comendador José de Souza Breves, um dos homens mais ricos do Império do Brasil e traficante ilegal de escravizados. Dali, os negros foram encaminhados para outras fazendas no Vale do Paraíba.

Tudo ocorreu como previsto. Depois de esvaziado os porões do brigue, onde haviam viajado os escravizados, Gordon possivelmente quebrou parte do casco e tocou fogo na embarcação. Conhecido das autoridades brasileiras como traficante de escravizados, o capitão fugiu do país logo em seguida, rumo aos Estados Unidos, onde o tráfico negreiro havia sido proibido muito tempo antes, em 1808. Apesar de visado pela Justiça americana, Gordon continuou a oferecer serviços de transporte de escravizados da África para as Américas.

Em 1860, quando comandava a embarcação Erie, carregada de africanos, ele foi abordado pelo navio Mohican, da Marinha americana, na costa Oeste da África rumo ao Norte. O tenente que averiguou o barco relatou ter encontrado o convés abarrotado de homens, mulheres e crianças africanos, com idades que variavam entre 6 meses e 40 anos. “O mau cheiro proveniente do porão era terrível, e a sujeira e a imundície em seus corpos eram indescritivelmente ofensivas”, noticiou na época a revista Harper’s Weekly.

Gordon foi preso e condenado à morte por enforcamento. Foi o primeiro traficante de escravizados a receber a pena capital nos Estados Unidos. Como último desejo, ele pediu que lhe levassem uísque e que entregassem à sua mulher uma mecha de seu cabelo. O primeiro pedido fez com que ele, embriagado, antes de pisar no cadafalso, rascunhasse um sorriso para a plateia que assistia ao seu enforcamento em 21 de fevereiro de 1862. A tampa do patíbulo se abriu, seu corpo balançou de um lado para outro e ficou pendurado “como um bloco de argila infame”, nas palavras da Harper’s Weekly, em 8 de março daquele ano.

O Camargo foi o último navio a desembarcar africanos escravizados no Brasil. José de Souza Breves, proprietário do local que servia de porto improvisado, numa região que não estava sob vigilância de autoridades, possuía terras a perder de vista. Conta-se que ele podia cavalgar desde o litoral fluminense até o Sul de Minas Gerais sem passar por terras alheias. Com seu irmão, o comendador Joaquim de Souza Breves, enriquecera com o café, do qual os dois foram os maiores produtores durante o Império, na região do Vale do Paraíba. Mas também fizeram fortuna com o tráfico negreiro e eram donos de uma escravaria sem precedentes: cerca de 10 mil negros. Mantinham ainda uma intensa atividade náutica na região de Mangaratiba, Itacuruçá e Angra dos Reis, com embarcações que eram utilizadas tanto para o comércio do café como para o tráfico escravagista.

Embora enquadrado como liberal, José de Souza Breves fez defesas acaloradas em favor da revogação da Lei Eusébio de Queirós, como ficou conhecida a legislação mais dura aprovada em 1850. Para ele, as pressões inglesas para o fim do tráfico e da escravidão eram uma intromissão indevida nos assuntos brasileiros. À beira da morte, em 1889, um ano após a Abolição, o comendador, seja por superstição, seja por culpa, doou a Fazenda Santa Rita do Bracuhy aos negros que lá viviam. Muitos dos quilombolas que hoje moram na região são descendentes desses escravizados.

As denúncias sobre o Camargo e seu tráfico ilegal começaram a se espalhar logo em dezembro de 1852, o mesmo mês do desembarque dos africanos. Em janeiro do ano seguinte, a situação já se tornara uma questão de Estado – e um grave problema policial. Martha Abreu diz em O caso do Bracuhy que em carta pessoal ao imperador Pedro ii, em 5 de janeiro de 1853, o ministro dos Negócios da Justiça no Rio de Janeiro, José Ildefonso de Sousa Ramos, informou que haviam sido presos quatro marinheiros do Camargo, que confirmaram o desembarque de quinhentos africanos, distribuídos depois para fazendeiros da região.

Para investigar o caso, o governo decidiu reunir uma força policial e judicial, tomando o cuidado de não deixar o trabalho para as autoridades locais, dada a promiscuidade entre elas e os poderosos da região. Em Bananal, por exemplo, o delegado de polícia era o próprio comendador Manoel de Aguiar Vallim, dono da Fazenda Resgate, um dos receptadores dos escravizados vindos no Camargo. O ministro Sousa Ramos escreveu aos presidentes das províncias que o objetivo dos policiais “não era vexar os fazendeiros, contudo não deveriam prescindir da obrigação que lhes cabia de dar buscas nas fazendas suspeitas”.

Martha Abreu relata que uma pesquisa realizada pela PUC-Rio constatou que, para as buscas dos africanos na região, “além do Corpo Policial da Corte, com um contingente aproximado de trezentos homens, foram convocados os destacamentos vizinhos, praças do Exército, a Guarda Nacional e guardas do próprio Palácio Imperial”. Era a primeira vez que o governo se permitia investigar fazendeiros milionários, preferindo para isso “escolher funcionários pela sua idoneidade e não pela preferência política”, diz a historiadora.

A iniciativa deu resultado. Nas terras da Fazenda Resgate, de Vallim, foram apreendidos em 16 de janeiro dez dos africanos traficados no Camargo. No dia 20, mais 33 foram capturados na fazenda de José Barbosa, também em Bananal. Ao todo, foram resgatados quarenta negros nessa cidade. Em seguida, começaram os indiciamentos, entre eles o de José de Souza Breves. No início de fevereiro, o chefe de polícia interino de São Paulo, Joaquim Fernandes da Fonseca, tomou uma decisão radical: demitiu o comendador Vallim do cargo de delegado de Bananal.

A Justiça agiu rápido naqueles meados do século XIX. Em 12 de fevereiro de 1853, menos de um mês depois do início dos trabalhos policiais, o fazendeiro Francisco Ramos de Paula foi denunciado na cidade de Resende, no Rio de Janeiro, pela compra de vinte africanos do brigue Camargo. No dia 19, foram indiciados na paulista Bananal quatro poderosos: Vallim, “por crime de importação de africanos livres”, como escreve Martha Abreu, o comendador Luciano José de Almeida, sogro de Vallim, o fazendeiro Pedro Ramos Nogueira, barão de Joatinga, chefe de polícia e compadre de José Breves, e um major e também comendador, Antonio José Nogueira. Enquanto isso, em Angra dos Reis, o milionário José de Souza Breves era levado a julgamento.

A historiadora conta que não existem registros do resultado do primeiro processo (o do fazendeiro Ramos de Paula), mas que se pode presumir que tenha sido igual aos dos demais réus: todos foram considerados inocentes. A expressão “para inglês ver” já havia se difundido, mas ainda levaria um bom tempo para se disseminar outra máxima popular que diz que, no Brasil, tudo acaba em pizza.

Apesar de os culpados terem sido considerados inocentes, o caso deixou lições, como ressalta Martha Abreu:

Mostrou aos fazendeiros simpáticos ou cúmplices do tráfico, após três meses de investidas e manobras de todos os lados, que o governo estava disposto a ir até onde preciso fosse, mesmo às senzalas de qualquer um; evidenciou a muitos outros que era perigoso acobertar o tráfico ilegal e, finalmente, obrigou todos os envolvidos a declararem na imprensa que eram contra aquele “bárbaro” negócio. Mais do que nunca, o “caso do Bracuhy” expôs nos jornais os “terríveis traficantes” à execração pública, separando-os dos responsáveis pela criação da riqueza nacional, os fazendeiros. [...] Num país sempre tão mal-acostumado ao cumprimento da lei, aquelas ações em Bananal, durante o verão de 1853, foram exemplares para todos os lados, recolocando no centro da discussão o papel dos escravos e do próprio Judiciário, estabelecendo direitos aos africanos, na transformação do sistema escravista no Brasil.

Para Abreu, toda essa operação contra o tráfico negreiro e pelo resgate dos africanos parece impensável, mesmo atualmente, mas foi feita naqueles anos do século XIX. “Você imagina a polícia entrando na Maré para defender o povo preto e periférico?”, ela pergunta. Nossa primeira conversa aconteceu pouco depois da maior chacina de que se tem notícia no Brasil, nos complexos da Penha e do Alemão, no Rio de Janeiro, quando 122 pessoas foram assassinadas numa operação policial. 

Sinal de que a pressão britânica sobre o tráfico negreiro no Brasil era para valer e que a interferência da Grã-Bretanha não respeitava os limites territoriais do país foi o que aconteceu com o navio Maltesa. Essa sumaca – embarcação de menor porte que o brigue, usada em geral para navegação costeira – foi abatida em 19 de junho de 1850 por um navio inglês no litoral da cidade de Maricá, no litoral fluminense.

A Maltesa, que também serviu ao tráfico negreiro, é o novo objeto de investigação do AfrOrigens. No fim do ano passado, um robô submarino localizou no fundo do mar perto das Ilhas Maricás detritos de um navio que agora os arqueólogos investigam se não seriam da sumaca afundada.

A embarcação não foi avistada pelos ingleses ali. O tenente John Crawshay Bailey, comandante do HMS Sharpshooter, suspeitou do navio brasileiro quando ele estava estacionado num ancoradouro natural perto de Itaipu, também na costa do estado do Rio. Bailey desconfiou de que pudesse estar servindo ao tráfico negreiro.

O navio tinha saído no mesmo mês de junho da cidade do Rio de Janeiro para fazer uma rápida viagem de cabotagem – transporte de cargas ou pessoas entre portos de um mesmo país. O objetivo, segundo os registros portuários, era ir apenas até Cabo Frio. A Maltesa, porém, parou na Costa de Itaipu, em Niterói. Suspeita-se de que o plano de seu capitão, Antônio Joaquim de Azevedo, era abastecer ali para uma viagem mais longa do que a registrada, que o levaria secretamente até Luanda, na costa angolana, em busca de novos escravizados.

Ao avistar a bandeira inglesa, os tripulantes da Maltesa entraram em pânico, buscando um meio de fugir com a embarcação. A agitação chamou a atenção de Bailey, que ao subir no navio encontrou mantimentos em excesso para a alegada viagem de curta duração.

A lei britânica mandava que os navios suspeitos fossem levados a julgamento na colônia inglesa de Santa Helena, uma ilha no meio do Atlântico Sul. Mas Bailey avaliou, de acordo com os padrões britânicos de segurança, que a Maltesa não aguentaria a viagem, o que levou à decisão drástica de afundar a sumaca perto das Ilhas Maricás, com um tiro de artilharia.

“A detenção da sumaca Maltesa pela repressão inglesa em Itaipu era a ponta de um iceberg, a parte visível de uma poderosa trama familiar de negociantes negreiros de Mangaratiba, com ramificações nos dois lados do Atlântico”, escreveu o pesquisador Henrique Barahona, no texto O naufrágio da sumaca Maltesa: um navio escravagista em Itaipu e a rede transatlântica do tráfico de africanos escravizados.

A Maltesa era propriedade da família Monte Bello, proveniente de Malta (daí o nome de batismo do navio), que operava no comércio de escravizados e tinha negócios com os Souza Breves, os mesmos envolvidos com o brigue Camargo. “A escravidão não é um episódio do passado, é um crime que não prescreveu e que é corrente. As vítimas estão sentindo ainda o legado desse crime”, diz o arqueólogo Luis Felipe Santos.

Em março deste ano, o presidente de Gana, John Dramani Mahama, apresentou na ONU uma resolução para reconhecer a escravidão e o tráfico transatlântico como os mais hediondos crimes cometidos contra a humanidade. A proposta foi aprovada pelas Nações Unidas, apesar dos 52 países que se abstiveram e dos três que votaram contra: Estados Unidos, Argentina e Israel.


[1] O Império Português não se limitou a escravizar africanos. Também o fez, em menor escala, com indianos e outros povos asiáticos, como explica a historiadora Patricia Souza de Faria em Escravos trazidos do Índico: estudos de caso de presenças efêmeras na América Portuguesa (séculos XVII e XVIII): “Os escravos provenientes do Índico que foram transportados nas naus da Carreira da Índia provinham de diversas localidades, que englobavam a costa oriental africana, Índia, Ceilão, Japão, China, Malaca, Java, Pegu e seus arredores. Uma pequena parcela dessas populações oriundas do Índico, geralmente batizadas na fé católica, foi transportada de Goa e de Cochim (na Índia) para Lisboa. Uma das formas de ingresso de tais escravizados no Brasil esteve associada ao movimento das naus da Carreira da Índia, em função das escalas realizadas em Salvador e posteriormente no Rio de Janeiro.”


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