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UM DIA EU MORRI À TARDE

Não é correto sobreviver à morte de um filho
Chico, em desenho de Allan Sieber
Chico, em desenho de Allan Sieber

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"Pai, eu quero viver 100 anos.” Fingi empolgação com a frase do Chico. Me doía pensar que, diabético desde os 4 anos de idade, ele estava colocando uma meta quase impossível para si. “O importante é aproveitar a vida. Olha, filho, quando você fizer 18, aprende a dirigir. Eu, você e Ana vamos sair de carro pelo Brasil nos revezando no volante!” O Chico era um sobrevivente. Foram doze horas de parto normal; aos 6 meses, uma meningite; aos 4 anos, ficou diabético no meio de uma pandemia. Só que em 30 de março de 2026, o Chico saiu na garupa da bicicleta da mãe dele e não voltou mais.

“Morre criança de 9 anos na Tijuca.” Foi assim que recebi a notícia da morte do meu filho, ao abrir o Instagram. Pouco antes, recebi duas ligações de amigas da mãe dele, falando que os dois sofreram um acidente grave de bicicleta. Tentei ligar para o celular deles. Ninguém atendeu. Ao descer o feed do Instagram, passei pela notícia “após acidente, mulher morre no local e criança é levada para o hospital”. Minutos depois: “Morre criança de 9 anos na Tijuca.” Mais algumas horas, uma rádio comunicava: “Já está tudo normal na Tijuca.” Não estava.

Tínhamos acabado de nos mudar: Chico, Ana e eu. Finalmente meu filho teria o seu próprio quarto. A tevê ficou para ele. Faltavam pilhas no controle para ligar. O Chico me pediu para colocar na parede do seu quarto um grande escudo do Vasco de papelão que trouxe da triste final da Copa do Brasil de 2025. Enquanto eu pregava o escudo em casa, em um ponto da Rua Conde de Bonfim, o Chico era atropelado em outro ponto da mesma rua. Até esse dia, a casa ainda não tinha recebido nenhum amigo. Queríamos deixar minimamente aceitável primeiro. De repente, o quarto não tinha mais dono, a tevê não seria mais vista e o escudo do Vasco era uma memória ainda mais triste do que a derrota na Copa do Brasil. Eu me enchi de remédios, a casa se encheu de amigos. O primeiro evento realizado no apartamento em que moro atualmente foi pela morte do meu filho. Era possível ouvir o silêncio pesado, quebrado apenas pelos cochichos às minhas costas, a expectativa de suicídio e a certeza absoluta de que a minha vida tinha sido totalmente alterada sem qualquer autorização.

Portais começaram a multiplicar a notícia. Por todos os lugares estavam fotos minhas, da minha mulher, do meu filho, da minha ex-mulher. Em alguns sites, a foto da minha esposa aparecia no lugar da Manu, mãe do meu filho. Parentes da Ana, de outro estado, estavam preocupados justamente com a morte que não aconteceu. Uma das notícias trocava o nome do meu filho pelo meu próprio nome. “Vinícius Antunes morre em acidente na Tijuca.” Talvez essa, a mais errada das notícias, fosse a mais verdadeira. Eram tantos vídeos do atropelamento que se tornava quase impossível evitar. Meu filho recebendo massagem cardíaca no chão da Conde de Bonfim era o entretenimento de alguns. Um repórter da BandNews FM entrou em contato pedindo para me entrevistar no IML. Eu nem sequer conseguia me levantar da cama. O meu cunhado, João, era quem estava resolvendo tudo para mim. A TV Globo me mandou mensagens para conseguir informações do sepultamento em primeira mão. Em grupos de WhatsApp, tentativas de golpe pediam dinheiro como se fosse para o velório do meu filho. Todos estavam ganhando: a mídia tinha assunto, os golpistas tinham uma nova forma de faturar, e o público, muito entretenimento mórbido à vontade.

Deitado na cama, meus pensamentos passavam por sepulturas infantis em busca de rostos conhecidos. Vejo pais tão miseráveis quanto eu, pais que perderam seus filhos. Pais que são obrigados a se disfarçar ou a se retirar da sociedade. Pais que somem para não contagiar o mundo com o seu fracasso e a sua tristeza. Lembrei de uma seguidora do Instagram, Paula. Fiquei hospedado em seu sítio no fim de 2025. Seu filho, Tom, tinha morrido aos 5 anos. Mesmo sem muita intimidade, mandei mensagem para ela: “Meu filho morreu, só você pode entender o que estou passando.” Ela me ligou. Choramos ao telefone. Não descobri exatamente o que ela e seu marido Thiago, pai do menino, fizeram para ficar vivos, mas sei que estavam. Talvez eu devesse ficar vivo também. Para a memória do Chico, seria melhor do que empilhar tragédias. Seria melhor para Ana, para a minha mãe, para a minha irmã. Talvez Paula me ensinasse o caminho do esconderijo dos pais enlutados. Me senti um pouco menos sozinho no mundo. O mundo do entretenimento ainda não ganharia os cliques gerados pelo meu suicídio.

O dia seguinte ao nascimento do Chico era 4 de maio de 2016. Lembro de olhar meu filho no bercinho o tempo todo, cuidando da respiração dele, verificando se estava mesmo vivo. Às vezes, parecia que tinha morrido. O dia 31 de março de 2026 foi o dia seguinte à morte do Chico. Lembro das pessoas me olharem na cama o tempo todo, cuidando da minha respiração, verificando se eu estava mesmo vivo. Às vezes, parecia que eu tinha morrido.

Já passei por alguns lutos e perdas marcantes na minha vida. A morte talvez não seja o pior problema, mas a forma com que somos ensinados a lidar com ela. Nasci numa família extremamente católica e fui criado por avós portugueses que rezavam para Nossa Senhora de Fátima tão logo começasse a trovejar. Eu tinha alucinações com a Virgem Maria; descontrolado, repetia mentalmente rezas católicas; e todos os dias temia que Jesus voltasse para acabar com o mundo.

Na casa da minha infância, em Cavalcanti, Zona Norte do Rio, também morava minha bisavó materna, Glória, com seus 90 anos, viúva desde os 40, enlutada havia cinquenta anos. Eu era um moleque quando vi que a vó Glória saiu para o hospital e nunca mais voltou. Passei anos perguntando pela vó Glória e ninguém da família tinha a coragem de me dizer: “Ela morreu.” Quando fiz 18 anos, confirmei com meu pai que a vó Glória já tinha morrido havia nove anos.

Meu bisavô paterno, Seu Monteiro, também com os seus 90 anos, cheio de disposição, morreu atropelado em Magalhães Bastos, na Zona Oeste do Rio. Era dia de Brasil e Rússia na Copa de 1994. Meus pais resolveram me proteger do velório. A primeira morte que acompanhei um pouco mais de perto foi a da vó Deolinda, que me criou. Porém, minha mãe e meu pai acharam melhor eu não ir ao enterro e ficar tomando conta da minha irmã de 9 anos.

O avô materno do Chico, Seu Leandro, morreu antes de ser avô do Chico, aos 50 e poucos anos. O impacto que isso trouxe à família da minha mulher à época foi uma amostra do quão perverso pode ser o resultado de um linfoma que durou cerca de dez anos. Mas nem todas as mortes parecem tão difíceis de aceitar.

Meu avô materno, Seu Aurélio, morreu aos 93 anos. Claro que gostaríamos de ter vivido com ele eternamente, ou mais um pouquinho até, porém sua morte me mostrou como uma vida pode ser bem vivida. Eu invejo a morte do vô Aurélio. Tinha a vida simples que gostava, bebia suas cervejas diariamente, teve filhos, netos, chegou a conhecer o Chico e não sofreu com a morte do bisneto porque morreu antes, como deve ser. Seu Aurélio foi desacelerando aos poucos com problemas de demência e um dia sumiu do corpo. Apesar de algumas lágrimas dos poucos presentes no velório, sinto que ele sorria por debaixo do bigode. Ao redor do caixão, todos os filhos que teve. Como eu invejo o Seu Aurélio, que foi sepultado por todos os filhos. Coisa que eu e os pais do meu pai não conseguirão, pois seguem vivos, enquanto meu pai morreu em 2022, depois de um câncer na garganta.

O Chico foi ao velório do avô. Tinha 6 anos. Eu quis fazer tudo diferente do que fizeram comigo. Queria que o Chico naturalizasse a morte. Eu não poderia imaginar que o próximo velório do Chico seria o dele mesmo. Ainda em 2022, eu tive que lidar com a morte de um dos meus melhores amigos, o Juva, que seria submetido a uma séria cirurgia de coração e começou a organizar várias despedidas. Eu fui a duas delas, mas como o Juva era um cara muito divertido, eu nunca levei a sério que ele iria morrer. Para mim, ele só queria um motivo para beber, rir e falar besteira. Mas o Juva morreu. Foi uma morte que mexeu muito comigo pelo tanto que duvidei dela.

Também duvidei da morte do meu atual sogro, Seu Samuel, um sujeito muito forte e animado de 79 anos de idade, ex-fisiculturista. Falei inúmeras vezes para minha mulher, mesmo com ele doente: “Seu pai parece tão bem, não é possível que vá morrer.” Morreu. Ainda estávamos de luto, Ana tinha comprado uns livros sobre o assunto para ler quando a mais antinatural das mortes aconteceu: Chico.

Eu não quis nenhuma cruz no caixão do meu filho. Não quis nenhum pastor falando coisas em que eu não acredito. Não quis um padre prometendo vida eterna. Não quis nada de nenhuma religião. Quis só a crueza e a verdade objetiva de um sepultamento. Nenhuma pessoa poderia falar por mim, a pessoa que mais o amou. Nenhum símbolo poderia ser mais forte que símbolo algum. Já há força demais em um velório de criança. Qualquer coisa que se acrescente, só diminui o fato em si. Eu, um caixão e meu filho morto ali dentro. “O caixão vai ser aberto?”, perguntei ao meu cunhado antes do velório. “Eles estão vendo, por causa do acidente.” Temia que eu não pudesse ver novamente o rosto do meu filho. “João, vê se eles conseguem, por favor. Te peço mais isso agora, desculpa, mas consegue que seja aberto, eu quero ver o meu filho, não importa como.”

Ao contrário de mim, o Chico não foi batizado. Ao contrário de mim, o Chico não fez catecismo. Ao contrário de mim, o Chico não queria ser padre. O Chico queria ser ninja, espião, astronauta, cozinheiro e advogado. Era só uma criança que não aprendeu o que era pecado. Que não foi criado com culpa. O Chico não aprendeu a temer a deus, nem ao diabo. O Chico aprendeu a ser feliz apenas. E ria de tudo. O riso para nós era sagrado, era a nossa religião. E quando o Chico se foi, levou o meu riso junto.

Pelas redes sociais, WhatsApp, pessoalmente: “Posso rezar pelo seu filho?”, “Posso colocar o nome do seu filho sei lá onde?”, “Deus acalme seu coração, ah, perdão, você não acredita em Deus”, “Depois, vamos fazer uma missa de sétimo dia, pode?” Por favor, rezem, chorem, bebam, prestem homenagens, corram pelados, meu filho acabou de morrer. Façam o que quiserem, mas não me chamem. Não quero ir a lugar algum, não quero pisar em igreja nenhuma, templo nenhum, terreiro nenhum. Só quero ficar na minha cama e sepultar meu filho. Sepultar a mim mesmo.

Meu filho estava dentro de uma geladeira do IML e eu morto, em minha cama. Nesse momento, pessoas aleatórias se regozijavam. Motivo: não acredito no deus delas. Se zombassem da minha morte e me atacassem, confesso que até seria o esperado. Agora, que tipo de pessoas celebram a morte de uma criança? Não eram perfis falsos. Eram senhoras, perfis com foto de casal, foto de bolo artesanal, de filhos abraçados e até perfis de pequenas empresas. Uma coisa em comum: todos cristãos. Mensagens que transcrevo aqui: “Sentiu o peso de Deus. Só digo: bem-feito! Espero que fique atordoado pelo resto da sua vidinha medíocre!”, “Infelizmente seu filho pagou pela sua falta de respeito com Deus”, “A mão de Deus pesou”, “Você viu o resultado dos seus comentários sobre a existência do altíssimo eterno Deus, o criador”. Que deus é esse que, para punir um ateu, mata uma criança, uma mãe vinda de família evangélica e usa um motorista de ônibus? Por que não me atingir diretamente? Quem inventa um deus desses para adorar?

A morte por si só atrai muitos necrófagos. A morte de uma criança atrai bandos imensos. É o momento perfeito para filhos da puta se fazerem de piedosos e bonzinhos. Reapareceram chefes que sempre me excluíram, colegas de trabalho que me apunhalaram pelas costas, toda espécie de gente sedenta para mini­mizar o peso na consciência e apro­veitar a morte do meu filho para fazer de palanque. Conversei com amigos pelo WhatsApp: “Só quero a presença dos que sempre estiveram comigo e com meu filho, não quero ninguém que passou anos me fodendo, dizendo que eu deveria ser isolado e escorraçado, se fazendo de bom samaritano agora.”

A roteirista e grande amiga Kika Hamaoui tomou a frente: “Deixa que eu resolvo esse problema para você.” Ela enviou um áudio tão direto e certeiro que circulou por grupos de WhatsApp e cheguei a publicá-lo no meu Instagram: “Não é para vocês entrarem em contato com ele. Durante todo esse tempo, tudo que vocês fizeram foi para excluir ele e os amigos dele. Não entrem em contato! Ele odeia vocês! É nojenta a postura de vocês! Eu tenho muita pena do Vinícius pelo que aconteceu, mas eu tenho muito mais pena de vocês, porque vocês têm uma vida infeliz e miserável.” O Chico teve convites e desconvites para o seu velório.

Nesses dias, há uma série de detalhes esquisitos que nunca pensamos. Como escolher caixão e decidir como avisar às pessoas? O que colocar no comunicado do falecimento? É possível que uma das suas fotos postadas na internet seja a foto que estampará a sua morte: nos convites de velório, na lápide e até nas camisetas. Pode ser a sua foto em um churrasco aleatório, na varanda de casa, com a camisa de algum político ou do time do coração. Que foto do meu filho eu deveria escolher? Pensei em uma foto do Chico fazendo careta. Ele era conhecido nas aulas de jiu-jítsu como Chico Caretas. Sempre, no fim das aulas, na foto da turma, era o único a quebrar o sério protocolo do jiu-jítsu e torcer o rosto de alguma maneira inusitada. Carinhosamente, seu mestre Jeff sempre riu e permitiu que ele fosse um lutador mais irreverente do que a média. Talvez Jeff tenha notado que o Chico não era um lutador desses de tatame, mas desses da vida mesmo, que precisam fazer piada para aguentar as peças que o destino pregou.

Surgiu, então, uma caricatura do Chico desenhada pelo Allan Sieber, cartunista de quem tenho o privilégio de ser amigo e fã. Falei para a minha irmã: coloca o desenho do Sieber em tudo que for possível. Nosso pai faria exatamente isso. Meu pai era cartunista, desenhou para O Pasquim, Jornal dos Sports, A Notícia... Sieber apareceu como a solução mais familiar de todas. O desenho era incrível, de uma simplicidade infantil e que retratava o que mais valorizávamos no Chico: o sorriso. Traços concisos, alegres, rebeldes e impactantes. Tinha a força da célebre foto de Alberto Korda: era um retrato do Che Guevara para crianças. Em vez de cara séria, sorrisos; em vez de semblante heroico, moleque; um Che Guevara que, em vez de dar tiros de fuzil, fazia muitos six seven. O desenho do Chico feito pelo Sieber estaria nos convites do velório, nas homenagens póstumas, em camisetas, adesivos, canecas, chaveiros e até na lápide. Eu nunca tinha visto uma lápide com uma caricatura em vez de foto. Só o Chico teria isso.

Primeiro de abril. Uma das coisas que provavelmente acontece com todos os pais que perdem seus filhos repentinamente: parece mentira. Parece uma cena de filme. Algo impossível de acontecer no mundo real. Você não sabe nem como agir, começa a tentar interpretar como deveria ser um pai de um menino morto. Imita os filmes e séries porque é o único lugar em que se tem essas referências. A qualquer momento espera um diretor gritar: Corta! Ou alguém dizer que foi uma piada de mau gosto, uma pegadinha de um João Kléber da deep web.

Mas a mentira não é desfeita. Vai virando verdade. Primeiro de abril de 2026. Coincidentemente, no dia 31 de março de 2019, há sete anos, a mãe do Chico se separava de mim. Na tevê, tocava a depressiva música de encerramento do Fantástico. Manu olhava para mim e dizia: “Deu, né?” O Chico dormia no quarto. Eu respondia: “Tem certeza?” E ela respondia: “Sim, um dia você vai me agradecer por isso.” Fiz um pedido um tanto quanto estranho: “Como estamos só há algumas horas do 1º de abril, você se importa de avisarmos logo para nossos pais e amigos porque, como sou humorista, amanhã ninguém vai acreditar e vai ser um constrangimento absurdo ficar convencendo as pessoas até o dia 2 de abril.” Assim foi feito. Novamente, às vésperas do 1º de abril, me lançavam no dia que parecia mentira. Primeiro de abril de 2019 a separação da mãe. Primeiro de abril de 2026, a separação do filho.

Ana e eu chegamos no velório sob vários flashes invasivos de fotógrafos. Me segurei para não mostrar o dedo médio e sair assim nos portais. Estavam só fazendo seu patético trabalho de estorvar famílias enlutadas a mando de algum chefe imbecil de algum jornal. Tive a vontade de gritar: “Eu só sou um merda, o que vocês querem tanto é clique com morte de criança?” Mas eu só queria ver meu filho pela última vez. Entrei na capela. De longe avistei o Chico. Fiz um gesto de six seven, seu meme favorito do momento. Olhei para ele e gritei: “Te amo, filho, obrigado por ter sido meu filho.” Coloquei o podcast Gilmar Baltazar, detetive particular. História de detetive que escrevi com uns amigos e que o Chico ouvia absolutamente todas as noites antes de dormir. Ouvimos juntos, derradeiramente, durante as 3 ou 4 horas de velório. Eu abraçado com o caixão. Levantei algumas dezenas de vezes para abraçar quem chegava, não lembro muito bem, só tenho algumas memórias embaçadas do que aconteceu. Fiz alguns agradecimentos aos que estiveram presentes e declarei uma vez mais meu amor pelo Chico. Fecharam o caixão e o carreguei até nossa definitiva separação física.

Meu cunhado João, no começo do velório, veio até mim certo de que eu responderia “Não”. “Tem um monte de repórteres esperando você dar entrevista, posso dizer que não?” “Diz que quando acabar o velório eu vou falar.” Começava assim um esforço romântico e idealista, uma loucura quixotesca, de transformar essa dor em algo que pudesse fazer algum sentido, para mim e para as pessoas. Uma tentativa pouco racional de deixar o Chico vivo na memória por mais tempo ou de que tudo que eu vivi com ele pudesse causar algum impacto em alguém. De que isso serve? Nada. Nem tudo tem que servir para alguma coisa.

Às vezes só quero me enganar de que essa dor não é vã. Em uma sociedade em que o abandono parental é tão grande, preciso falar sobre esse tema; talvez seja melhor falar sobre o diabetes do Chico e como foi difícil mantê-lo na escola; violência no trânsito é o assunto que mais faz sentido, mas o que eu sei de fato sobre isso? Tantas temáticas soavam importantes e atravessavam a vida e a morte do meu filho. Esses papos que, ao final, as pessoas dizem: “Ele estaria orgulhoso”, “De onde ele está, está feliz”. O que não faz a menor diferença se eu não posso ver o sorriso dele.

Talvez eu só queira que outras pessoas não sofram igual a mim. Embora quanto menos gente sofre, parece que mais sozinho eu fico. Talvez eu só queira aparecer, como disse um comentário de um post. Não sei o que eu quero. Aceito qualquer coisa que tente preencher um pouco desse vazio imenso que ficou. Acho que só preciso falar do Chico. Me dá a falsa sensação de que ele está vivo de alguma forma. Não é por bondade alguma, não há altruísmo em falar desses temas. É só uma incrível vontade arrogante de sentir que o meu filho morto está mais vivo do que os de vocês, que estão vivos de fato. Eu tentava transformar a ausência do Chico na presença mais forte do mundo.

Entrei ao vivo, logo depois do velório, com aqueles vários microfones apontados para mim, como a gente costuma ver na tevê e acha que nunca vai estar nessa situação: “Pais, amem seus filhos. Digam ‘Te amo’. Estejam com eles. Participem da vida dos seus filhos.” Na verdade, as palavras doces que encontrei eram o avesso do meu ódio contra todo pai ausente. Uma raiva absurda de todo cara que despreza seu filho, enquanto eu, que estava sempre com o meu, o tinha perdido. O mundo é desgraçadamente injusto. Minhas palavras amorosas eram a forma publicável que encontrei de dizer: “Eu queria que outra criança que não é amada pelo pai tivesse morrido no lugar do meu filho que era tão amado.”

Os repórteres insistiam em perguntas sobre o acidente, sobre a culpa do motorista. Eles precisavam daquela manchete: “Pai quer justiça!”, “Pai diz querer punição”, “Pai quer vingança”, “Pai quer derramar ainda mais sangue”, “Pai precisa se saciar de morte”. Para a infelicidade deles, eu não consegui e não quis ver nem sequer um vídeo do acidente. Pulei absolutamente todos. Não tive estômago. Não vi até hoje e não pretendo ver, embora eu saiba que em cada canto da internet tem a morte do meu filho filmada. Quem vai cuidar disso é o Ministério Público, e não eu. Sou só um pai que sepultou o amor da sua vida, uma criança de 9 anos que era o motivo dos seus sorrisos, seu companheiro de brincadeiras, de vídeos para internet, de piadas... Eu sou só um morto-vivo sem nenhuma condição de opinar sobre infrações de trânsito, sem nenhuma força para estrangular um culpado, sem condições de ficar em pé. Eu só tinha força para dizer o quanto eu amava o meu filho e que absolutamente nada o traria de volta.

Como não funcionou o sensacionalismo sobre o acidente, os repórteres buscaram novo caminho: “Você postou nas redes sociais que seu filho enfrentou muitos problemas de saúde ao longo da vida.” Esse tema me interessava. Meu filho era diabético tipo 1. Meu medo é que o diabetes pudesse matar o Chico. No meio da noite eu acordava com os alarmes do xDrip (monitorador de glicose), passava o dia olhando os números subindo e descendo enquanto ele estava na escola. Todo mês comprava absolutamente todos os insumos do Chico: Tresiba, Fiasp, agulhas, fitas medidoras, álcool, Libre.

Mesmo o dinheiro muitas vezes não alcançando, eu queria que o Chico tivesse um tratamento de ponta. Levei-o ao melhor endocrinologista que conheci, que me fazia sonhar e ter esperança de que ainda nessa vida o Chico poderia ser curado do diabetes. Eu imaginava passar esse dia com o Chico já adulto e como seria feliz. Meu maior sonho era ver a tal cura do diabetes. O Chico não gostava de falar sobre esse assunto. “Pai... Tá muito longe.” Tive muita dificuldade ao longo desses anos com a inclusão escolar. Em dado momento, o Chico chegou a estudar em um colégio municipal em que eu precisava ficar o horário escolar todo no colégio porque ele não tinha acompanhamento. Eu levava meu computador e trabalhava de lá. Sorte que o Chico também teve outras escolas como o Mallet Soares e o Pedro II, que deram todo carinho e suporte a ele. Quando as coisas pareciam encontrar um caminho menos doloroso, o Chico morreu. E não foi de diabetes. Há coisas muito mais assassinas que uma doença.

Antes mesmo de chegar em casa, voltando do velório, cortes da entrevista já circulavam pela internet. Falas sobre amar os filhos e sobre a inclusão de diabéticos na escola viralizaram. Algumas mídias preferiram caminhos estranhos. A Rádio Tupi resolveu abrir aspas com algo que não falei e, logo em seguida, tirou a matéria do ar por eu reclamar publicamente. Já a Fábia Oliveira, colunista do Metrópoles, desde a morte do Chico começou a postar várias matérias seguidas sobre os stories que eu fazia. Provavelmente, percebeu que morte de criança dá audiência e passou a virar o canal que mais informava sobre o assunto. Eu postava algo e logo estava lá no perfil dela: “Humorista rebate comentário cruel após morte do filho”, “‘Bizarro’, diz humorista sobre golpe usando nome do filho morto.”

Me indignou, agora, eu estar em várias páginas que simplesmente abdicaram de denunciar os vários casos de assédio da TV Globo quando falei deles. Isso porque eu tinha um arsenal de provas e cinco outros processos de roteiristas já encerrados na Justiça. Os que agora falavam de mim e do meu filho eram os mesmos jornalistas que não se interessaram antes e preferiam tratar como se a Globo e os assediadores tivessem ganhado o jogo judiciário. Se recusavam a levar novas informações dos bastidores da TV Globo ao público.

Cobrei a Fábia Oliveira publicamente: “Já que você tanto posta tudo que eu falo, posta sobre os assédios da Globo, essa emissora que mantém pessoas empregadas até hoje cúmplices e assediadoras.” Ela entrou em contato pelo WhatsApp, pegou todas as informações e fez uma matéria extremamente genérica, sem nomes, sem dados, sem nada do que eu forneci. Prometeu que era só uma introdução sobre o tema. Achei válido então. Porém nunca mais ela postou nada, nem sobre as denúncias, nem sobre meu filho. Provavelmente, só voltará a postar algo sobre mim quando eu morrer, de forma bem performática para dar audiência. Será, com toda certeza, uma nota pejorativa.

Homenagens ao meu filho e a mim aconteciam simultaneamente às bizarrices dos cristãos e da imprensa. No futebol, o Botafogo, time no qual o Chico jogava, e o Vasco da Gama, time pelo qual o Chico torcia, também fizeram homenagens a ele. O Chico morreu na sua fase mais vascaína. Ele que nasceu coladinho ao último título do Vasco em 2016 e nunca comemorou de fato um título do clube. Cheguei a publicar um livro em homenagem a ele, pela Editora Belas Letras, com uma historinha esperançosa sobre o título do ano em que ele nasceu. Sempre que assistíamos aos jogos em casa, eu abria uma cerveja para comemorar os gols, e o Chico, para se equivaler, falava: “Pai, se o Vasco fizer gol você me dá 5 reais de Robux?” Robux era o brinde dele, o seu abrir de cerveja.

Um dos dias mais felizes de sua curta vida foi quando ganhamos ingressos para a final da Copa do Brasil em 2025, uma espécie de festa de despedida nossa. Um dia que entrou para a nossa história e que rendeu um escudo gigante de papelão até hoje pregado no quarto do Chico. Nos irritamos com o primeiro gol do Corinthians, choramos de felicidade no gol do empate, e o Chico chorou de tristeza com o segundo gol e a derrota. Falei para ele: “Filho, o dia foi maneiro, a gente veio para ver o Vasco e se divertir, o resultado agora não importa.” Eu nunca imaginei que seria o último jogo juntos, eu sonhava que ainda veríamos um título do Vasco, uma reviravolta no clube, que veríamos novos craques... Meses depois, o Chico estaria não do meu lado na arquibancada, mas no telão de São Januário recebendo uma homenagem póstuma. Eu segurava uma camisa que tinha sido minha, passado a ser dele e, agora, voltado a ser minha. Não sabia que era possível a devolução de uma herança.

O movimento de ciclistas chamado Massa Crítica puxou uma manifestação em homenagem ao Chico e sua mãe que partiria da Praça Saens Peña, na Tijuca, até o local exato do acidente. Antes disso, aconteceu a pintura de duas bicicletas fantasmas. Eu nunca estive por dentro de luta de ciclistas, eu não entendo nada de planejamento urbano, eu nem sequer tinha conseguido assistir a qualquer vídeo do acidente em que meu filho morreu e eu não tinha a menor ideia do que eram bicicletas fantasmas. Porém, absolutamente tudo que envolvia o nome do meu filho me interessava imensamente. A causa dos ciclistas parecia, independentemente de qualquer coisa, justa e importante para um futuro melhor na cidade.

Então me apoiei na Hellen e na Rosa do movimento Massa Crítica para me introduzir ao assunto. Descobri que bicicletas fantasmas fazem parte de um movimento internacional. Elas são pintadas de branco e penduradas no local em que ciclistas tiveram suas vidas roubadas. Divulguei o evento nas minhas redes como se fosse uma missa de sétimo dia de um pai ateu. No dia 10 de abril às 17 horas começou a manifestação. Um grupo de ciclistas, amigos e curiosos se reuniram na Saens Peña. Começamos a pintar uma bicicleta de adulto e uma infantil. Enquanto eu usava o spray, tocava na minha cabeça trechos de uma música chamada El ángel de la bicicleta, de León Gieco:

Sacamos cuerpo, pusimos alas/­­Y ahora vemos una bicicleta alada que viaja/Por las esquinas del barrio, por calles/Por las paredes de baños y cárceles […] Cambiamos fe por lágrimas […] Dejamos ir a un ángel/Y nos queda esta mierda/Que nos mata sin importarle/De dónde venimos, qué hacemos, qué pensamos […] Cambiamos buenas por malas/Y al ángel de la bicicleta lo hicimos de lata/Felicidad por llanto/Ni la vida ni la muerte se rinden/Con sus cunas y sus cruces/Voy a cubrir tu lucha más que con flores/Voy a cuidar de tu bondad más que con plegarias.

Me apropriei da imagem criada pela música e de um grafite que homenageia o ativista social argentino Pocho,[1] assassinado em 2001. Criei adesivos e mais uma camiseta, desta vez em tom de protesto: a silhueta vermelha do Chico, alado, voando de bicicleta. O Chico e eu sempre amamos essa estética de grafites. Nosso apartamento, antes de nos mudarmos, tinha boa parte das paredes pichadas e grafitadas por nós. Tivemos inclusive o prazer de receber um amigo grafiteiro, Nadi, da Trapa Crew, para grafitar com a gente uma parede inteira do apartamento. O Chico se achava um pequeno artista urbano e toda vez que defendíamos o grafite e as pichações como arte, alguém dizia: “Faz então nas paredes da sua casa.” E respondíamos: “Já fizemos.”

Recebi mais uma mensagem no WhatsApp. Era minha antiga terapeuta, Débora. Ela soube do que aconteceu e ofereceu de marcarmos uma chamada. Foi o primeiro caso que conheço de uma terapeuta marcar consulta com o paciente e não o contrário. Pelo visto, meu caso era mesmo grave. O que confirmava isso eram as dezenas, talvez centenas, de outros psicólogos e advogados que me mandavam mensagens no inbox do Instagram e, sei lá, como, no meu WhatsApp. Eu não sabia se eram golpistas, doidos quaisquer ou pessoas muito solidárias. Eu preferi voltar com Débora, pois uma das piores coisas que existe ao começar a terapia é você ter que contextualizar tudo para o seu terapeuta, contar suas questões, seus medos... Débora já me conhecia e agora já estava informada pela tevê e pela internet da desgraça que minha vida virou.

Além dela, recebi a mensagem do “Infinito.etc”, um perfil de Instagram que eu sigo. Eles me passaram o contato de uma terapeuta especializada em luto, a Érika. Então, duas vezes por semana, eu falo de vida e morte com terapeutas diferentes, que toparam fazer um preço extremamente amigável para me atender nesse momento. Também faço acompanhamento psiquiátrico e aumentei o ansiolítico para conseguir ficar de pé. Além disso, passei a frequentar rodas de luto. Pode parecer muito para qualquer pessoa, mas é pouco quando se perde um filho.

Na busca desse muito que é pouco, minha amiga Paula, do sítio, me mandou pelos Correios vários e vários livros sobre luto. Débora e Érika também me recomendaram alguns. De repente, eu estava montando uma biblioteca fúnebre. Além de ler histórias de morte o dia todo, eu ouvia história nas reuniões das rodas. Inclusive, sou o único pai nas reuniões de luto. Tenho chorado e compartilhado a história do Chico cercado de mães que choram e compartilham as histórias dos seus filhos. Por vezes, enquanto falam sobre suas tragédias pessoais, dúvidas tomam conta de mim: Pais não ficam de luto? Pais não conversam? Pais existem? Aí me lembro de alguns pais enlutados que me procuraram depois da morte do Chico. São três ou quatro que, provavelmente, em algum momento, talvez tenham sido esses pais em meio a tantas mães. Lembrei que já era assim nas reuniões da escola, nas aulas de algum esporte e de música, no dia a dia dos próprios filhos. O mundo tem dessas ironias: tantas crianças vivendo sem pais e eu morrendo sem filho.

Minúsculas coisas se agigantam. Quando enfrentamos os dragões da morte – o IML, o velório, o sepultamen­to –, geralmente estamos amparados por uma cavalaria de parentes, amigos e pessoas solidárias. Mas os maiores inimigos não são os dragões, são os mosquitos. São eles que enfrentamos sozinhos e são os que, muitas vezes, mais causam danos. Um ato minúsculo: cancelar o Game Pass (assinatura de videogame) do Chico foi uma das batalhas mais dolorosas que já enfrentei. Eu estava desligando o principal brinquedo do meu filho, estava desligando a possibilidade de ele jogar aos berros com os amigos, aceitando que nunca mais seríamos parceiros de Fifa e adversários de Mortal Kombat; estava desligando a trilha dos jogos que ambientava a casa. Foi como se eu tivesse reafirmado a morte do meu filho. Cancelei. Em seguida, abracei a Ana e chorei tanto, tanto, de soluçar, de não me aguentar em pé. Como se eu mesmo tivesse matado o Chico. Eu me senti o mais derrotado dos homens. Depois fiquei deitado na cama, olhando para o teto e pensando que a vida é como o Minecraft, jogo que o Chico tanto jogava, e não como os jogos da minha época: a vida não tem um objetivo claro. A vida é construir e destruir, montar e desmontar, e a gente que se vire pra dar um sentido a ela.

Algumas burocracias, até agora, ainda não consegui resolver. Retirar o Chico do plano de saúde da Amil parece impossível. Lembro quando meu pai morreu e minha irmã quis cancelar o plano dele para não pagarmos mais: “Senhora, só o próprio pode fazer isso.” E minha irmã dizia: “Ele morreu.” E a resposta era: “Lamento, mas só ele.” Aos prantos e aos gritos de “Ele morreu”, minha irmã conseguiu em algum momento cancelar. Eu, até agora, não tive essa energia para prantear e gritar ao telefone. Tenho pagado a Amil desnecessariamente, enquanto tento fazer todo o processo pela internet e com ajuda de corretores de plano de saúde que, apesar da boa vontade, também não conseguem absolutamente nada.

Retomei meus trabalhos uma semana depois da morte. A vida de free­lancer é assim: ou você trabalha ou não recebe. Sou escritor, roteirista e faço vídeos de humor. Vendo meus textos para atores, empresas... Uns foram muito gentis e solidários. A agência ALMAlab, por exemplo, pagou o velório do meu filho. Outros clientes, obviamente, se afastaram com medo de que o cheiro da morte possa contaminar suas marcas, o que faz com que diminua a procura por publis e anúncios na internet.

A volta ao trabalho é um momento esquisito, porque ninguém sabe ao certo o que falar, e você não tem nenhuma concentração para trabalhar. Algumas pessoas arriscam dizer: “Ocupar a cabeça com trabalho vai te fazer bem.” Em uma roda de luto, uma mãe contou que, ao voltar ao trabalho, ouviu de sua gerente: “Olha, sei que você perdeu sua filha, mas a empresa não tem culpa. Você precisa render.” Há uma perigosa e proposital glamourização do trabalho no luto, e a mídia hegemônica, recentemente, contribuiu muito para ela. Tadeu Schmidt: “Meu irmão morreu e vou trabalhar.” Ana Paula Renault: “Meu pai morreu e vou seguir no reality show.” Exceções tratadas como regras. São casos de trabalhos sonhados, muito bem remunerados e com glamour. Nem de longe dizem respeito à maioria da população.

A realidade da maioria é: a mãe que perde o filho e tem que ir atender clientes de supermercado e sorrir pra eles. Clientes que nem sequer sabem a sua dor. A realidade da maioria é: o técnico de TI ter que destravar seu Windows depois de sepultar o filho. No Brasil, há a licença nojo, em que os empregados pela CLT têm direito a dois dias corridos para ficar em casa na morte de um parente próximo. Dois dias corridos! Seu filho morre na sexta-feira e na segunda-feira você está trabalhando, ou seja, foi só um final de semana normal. Algumas profissões, como os professores, conseguiram nove dias por meio do sindicato.

Com a pejotização e o sucateamento das leis trabalhistas, cabe a cada PJ resolver seu problema. Há contratantes mais compreensivos, outros nem aí. Ou seja, pode ser que durante o velório do seu filho você tenha que enviar aquela versão 7 da planilha. Ainda assim, permanece o imaginário de que todos são celebridades acolhidas em seus lutos. Eu recebi no Instagram centenas de mensagens: “Trabalhe para esquecer”, “Trabalhar para ocupar a cabeça”, “Trabalhar para viver”. A maioria das pessoas não vai ter a sua dor compartilhada com um “Brasil de audiência”, não terá abraços, não terá dinheiro na conta para depois desse trabalho tirar um ano sabático. Quem defende essa glamourização está inteiramente deslocado da realidade da vida e da realidade da morte. A vida das pessoas é trabalhar até morrer para que, com essa morte, os filhos delas tenham dois dias de licença nojo. Isto é, caso não caia no final de semana.

O primeiro mês foi como se eu dormisse para viver alguma realidade e acordasse para viver o pesadelo. Toda manhã eu lidava novamente com a notícia de que o Chico não está mais ali. Sou tomado por calafrios e angústias. Todo chão vira alçapão. Torno-me um exilado na fronteira da razão com a loucura. Uma informação tão óbvia e direta, a morte, não consegue ser assimilada. Não existem mais paisagens concretas, tudo é nebuloso. Passa-se a entender os sebastianistas que esperam sempre a volta. Parece que a qualquer momento o quarto de criança terá novamente seus barulhos. Só mais algumas cervejas e alguns remédios, e tudo volta ao normal. Se eu dormir mais uma vez, vou acordar no lugar certo, com moinhos de vento, gargalhadas, bandeiras tremulando e um filho para abraçar. Todo dia tenho acordado no lugar errado de novo.

Em 3 de maio de 2026, o Chico completaria 10 anos. Desde que nasceu, suas festas sempre foram muito parecidas. Reuníamos uns parentes mais próximos e alguns amigos dele, no máximo. Um bolinho e um tema: gato, Homem-Aranha, One Piece, Stranger Things, Roblox... não chegamos a falar do tema de 2026, eu arriscaria Vasco, Spy x Family, Demon Slayer... Neste ano, depois de sua morte, eu tinha duas opções para o aniversário do Chico: passar o dia sozinho, chorando, ou reunir uns amigos do meu filho para buscarmos juntos alguma felicidade. Sei que nem sempre podemos escolher, há dias em que a tristeza se impõe. Mas dessa vez eu pude. O 3 de maio nunca será um dia triste, pois já foi o dia mais feliz da minha vida. Dia em que carreguei o Chico nos braços pela primeira vez. Agora, foram seus amigos que me carregaram e para eles a casa sempre estará aberta. O Chico será sempre uma criança de 10 anos, mas vou acompanhar o crescimento dele através de seus amigos, na torcida para que sejam muito felizes e que tenham sempre um espacinho em seus corações e mentes para lembrar com carinho do meu filho. Desde a morte do Chico, pela primeira vez, fui um pouco feliz em meio a dias tão tristes.

Se a manifestação das bicicletas foi uma missa de sétimo dia, a festa de aniversário foi nossa missa ateia de um mês. Amigos do Chico saíram com adesivos para colar por aí. Fantasio a reação assustada dos outros pais ao ver isso, aterrorizados com a morte. Pais que acham que o melhor é fingir que meu filho nunca existiu: os filhos deles não podem sofrer pela perda do amigo, sofrer é só para mim que sou pai, os filhos deles não pediram para ser pais, não têm que chorar por criança nenhuma. Quando os pais morrerem, aí os filhos poderão chorar, de preferência muito, para que todos saibam como amavam o paizinho e a mãezinha do coração. Chorar por um amigo, não. É melhor esconder. Crianças não morrem, não se fala sobre isso e nem sobre esse maldito pai que deixou a criança morrer debaixo de um ônibus.

Se o primeiro mês passou em um dia, o segundo mês foi lento, levou um ano. Frilas, reuniões, visitas, chá de mulungu, remédios, vinho, cerveja, whisky, cachaça, terapia, reunião com advogados, conversas com mães enlutadas, mães de diabéticos, passeios aleatórios, conhecer novas pessoas, rever velhas pessoas, brigar com qualquer um na internet, gravar vídeos, denunciar abusos, fumar charuto, tentar voltar a cozinhar, acabar pedindo mais fast-food, ajeitar a barba, comprar um novo boné para esconder o cabelo que nunca mais foi cortado, fazer exercícios, desistir de fazer exercícios, acolher os outros que estão chorando mais do que eu, receber mais xingamentos, receber mais homenagens. Tudo isso sem poder reclamar nos ouvidos do meu filho e arrancar risadas dele. Eu me tornei um louco, amigo de uma criança imaginária e passo o dia balbuciando “Chico... Chico... Ah, filho”. Escrevo todo esse texto no quarto dele, às vezes durmo por aqui, principalmente quando estou bêbado. Tento achar o seu cheiro em algum objeto, fico abraçado com seus brinquedos, ouço músicas que ele gostava, vejo fotos dele, leio suas mensagens no celular, ouço sua voz. Tento sonhar para me encontrar com ele de alguma forma. Geralmente falho. Nunca mais vamos nos encontrar, a não ser aqui nos textos, por isso tenho escrito tanto.

Ando pelas noites da Tijuca. Sou digno de fazer as pessoas mudarem de calçada. Colo adesivos compulsivamente. Quanto tempo vão durar na paisagem? Se eu parar, quem irá colar por mim? Pelo Instagram, recebo mensagens e fotos de pessoas imprimindo e colando adesivos do Chico pelo mundo. O Chico sempre sonhou em conhecer o Japão. Agora, vivo por mim e por ele. O Chico toma os postes, os hidrantes da Conde de Bonfim, os banheiros da Lapa, os monumentos da Zona Sul, segue pela linha de trem da Zona Norte, chega às praças da Zona Oeste... Vivo invisível pelas noites, colando adesivos, e atravesso os dias já sem fôlego. O Chico precisa estar vivo, eu preciso morrer antes, não é correto sobreviver à morte de um filho. O Chico viverá cem anos. Faltam noventa.


[1] Claudio “Pocho” Lepratti foi um ativista social e sindical argentino assassinado pela polícia em 19 de dezembro de 2001, na cidade de Rosário, durante a repressão da crise de 2001. Aos 35 anos, ele foi morto com um tiro no pescoço disparado por um policial enquanto tentava proteger um grupo de crianças em um refeitório escolar.


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Conhecido como Cacofonias, é pai do Chico, roteirista e professor