depoimento
Vinícius Cacofonias 02 Jul 2026
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O roteirista e professor Vinicius Antunes, conhecido como Cacofonias, perdeu seu filho em um acidente de trânsito na Tijuca, Zona Norte do Rio de Janeiro, em 30 de março passado. O menino, Francisco Faria Antunes, chamado de Chico, tinha 9 anos. Estava em uma bicicleta junto com a mãe, Emanoelle Martins Guedes de Farias, ex-mulher de Vinicius. Ela também morreu.
Em um relato publicado na edição deste mês da piauí, Vinicius escreveu sobre a dor e o luto de perder o filho. “O dia seguinte ao nascimento do Chico era 4 de maio de 2016. Lembro de olhar meu filho no bercinho o tempo todo, cuidando da respiração dele, verificando se estava mesmo vivo. Às vezes, parecia que tinha morrido. O dia 31 de março de 2026 foi o dia seguinte à morte do Chico. Lembro das pessoas me olharem na cama o tempo todo, cuidando da minha respiração, verificando se eu estava mesmo vivo. Às vezes, parecia que eu tinha morrido.”
O pai conta que, no primeiro mês depois da morte de Chico, era como se ele dormisse “para viver alguma realidade” e “acordasse para viver o pesadelo”. Ao acordar, ele precisa lidar novamente com a notícia irrevogável de que seu filho não está mais presente. “Sou tomado por calafrios e angústias. Todo chão vira alçapão. Torno-me um exilado na fronteira da razão com a loucura”, ele escreve.
“Uma informação tão óbvia e direta, a morte, não consegue ser assimilada. Não existem mais paisagens concretas, tudo é nebuloso. Passa-se a entender os sebastianistas que esperam sempre a volta. Parece que a qualquer momento o quarto de criança terá novamente seus barulhos. Só mais algumas cervejas e alguns remédios, e tudo volta ao normal. Se eu dormir mais uma vez, vou acordar no lugar certo, com moinhos de vento, gargalhadas, bandeiras tremulando e um filho para abraçar. Todo dia tenho acordado no lugar errado de novo.”
Chico torcia pelo Vasco, gostava de jogar Minecraft e praticava jiu-jítsu. No fim das aulas, na foto da turma, era o único a quebrar o sério protocolo do jiu-jítsu e torcer o rosto de alguma maneira inusitada. Por isso, passaram a chamá-lo de Chico Caretas. “Carinhosamente, seu mestre Jeff sempre riu e permitiu que ele fosse um lutador mais irreverente do que a média”, observa seu pai. “Talvez Jeff tenha notado que o Chico não era um lutador desses de tatame, mas desses da vida mesmo, que precisam fazer piada para aguentar as peças que o destino pregou.”
Depois da morte, o movimento de ciclistas Massa Crítica fez uma manifestação em homenagem ao menino e sua mãe que partiu da Praça Saens Peña, na Tijuca, até o local exato do acidente. Antes disso, aconteceu a pintura de duas bicicletas fantasmas. “Eu nunca estive por dentro de luta de ciclistas, eu não entendo nada de planejamento urbano, eu nem sequer tinha conseguido assistir a qualquer vídeo do acidente em que meu filho morreu e eu não tinha a menor ideia do que eram bicicletas fantasmas. Porém, absolutamente tudo que envolvia o nome do meu filho me interessava imensamente. A causa dos ciclistas parecia, independentemente de qualquer coisa, justa e importante para um futuro melhor na cidade”, escreve Antunes. “Descobri que bicicletas fantasmas fazem parte de um movimento internacional. Elas são pintadas de branco e penduradas no local em que ciclistas tiveram suas vidas roubadas. Divulguei o evento nas minhas redes como se fosse uma missa de sétimo dia de um pai ateu.”
“Minúsculas coisas se agigantam. Quando enfrentamos os dragões da morte – o IML, o velório, o sepultamento –, geralmente estamos amparados por uma cavalaria de parentes, amigos e pessoas solidárias. Mas os maiores inimigos não são os dragões, são os mosquitos. São eles que enfrentamos sozinhos e são os que, muitas vezes, mais causam danos. Um ato minúsculo: cancelar o Game Pass (assinatura de videogame) do Chico foi uma das batalhas mais dolorosas que já enfrentei. Eu estava desligando o principal brinquedo do meu filho, estava desligando a possibilidade de ele jogar aos berros com os amigos, aceitando que nunca mais seríamos parceiros de Fifa e adversários de Mortal Kombat; estava desligando a trilha dos jogos que ambientava a casa. Foi como se eu tivesse reafirmado a morte do meu filho. Cancelei. Em seguida, abracei a Ana e chorei tanto, tanto, de soluçar, de não me aguentar em pé. Como se eu mesmo tivesse matado o Chico. Eu me senti o mais derrotado dos homens. Depois fiquei deitado na cama, olhando para o teto e pensando que a vida é como o Minecraft, jogo que o Chico tanto jogava, e não como os jogos da minha época: a vida não tem um objetivo claro. A vida é construir e destruir, montar e desmontar, e a gente que se vire pra dar um sentido a ela.”
“Algumas burocracias, até agora, ainda não consegui resolver. Retirar o Chico do plano de saúde da Amil parece impossível. Lembro quando meu pai morreu e minha irmã quis cancelar o plano dele para não pagarmos mais: 'Senhora, só o próprio pode fazer isso.' E minha irmã dizia: 'Ele morreu.' E a resposta era: 'Lamento, mas só ele.' Aos prantos e aos gritos de 'Ele morreu', minha irmã conseguiu em algum momento cancelar. Eu, até agora, não tive essa energia para prantear e gritar ao telefone. Tenho pagado a Amil desnecessariamente, enquanto tento fazer todo o processo pela internet e com ajuda de corretores de plano de saúde que, apesar da boa vontade, também não conseguem absolutamente nada.”
Entre as mensagens que Antunes recebeu, uma foi enviada pelo cartunista Allan Sieber, seu amigo: era uma caricatura do Chico. “Falei para a minha irmã: coloca o desenho do Sieber em tudo que for possível”, ele conta. “O desenho era incrível, de uma simplicidade infantil e que retratava o que mais valorizávamos no Chico: o sorriso. Traços concisos, alegres, rebeldes e impactantes.”
O desenho feito por Sieber foi estampado em convites do velório, nas homenagens póstumas, em camisetas, adesivos, canecas, chaveiros e até na lápide. “Eu nunca tinha visto uma lápide com uma caricatura em vez de foto. Só o Chico teria isso”, escreve o pai. “Ando pelas noites da Tijuca. Sou digno de fazer as pessoas mudarem de calçada. Colo adesivos compulsivamente. Quanto tempo vão durar na paisagem? Se eu parar, quem irá colar por mim? Pelo Instagram, recebo mensagens e fotos de pessoas imprimindo e colando adesivos do Chico pelo mundo. O Chico sempre sonhou em conhecer o Japão. Agora, vivo por mim e por ele. O Chico toma os postes, os hidrantes da Conde de Bonfim, os banheiros da Lapa, os monumentos da Zona Sul, segue pela linha de trem da Zona Norte, chega às praças da Zona Oeste... Vivo invisível pelas noites, colando adesivos, e atravesso os dias já sem fôlego. O Chico precisa estar vivo, eu preciso morrer antes, não é correto sobreviver à morte de um filho. O Chico viverá cem anos. Faltam noventa.”