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O TAMBORETE E O OBELISCO

Flagrantes de um produtor cinematográfico que brilhou como fotógrafo
Imagem O tamborete e o obelisco

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Em outubro de 1964, quase sete meses depois do golpe militar no Brasil, Luiz Carlos Barreto se deparou com dois figurões das Forças Armadas: o general francês Charles de Gaulle e o marechal cearense Humberto Castello Branco, ambos presidentes da República. O mandatário da França visitava o Rio de Janeiro e desfilava em carro aberto, junto do brasileiro, pelo Centro da cidade. 

Repórter fotográfico da prestigiosa revista semanal O Cruzeiro desde 1952, Barreto recebeu a missão de retratar a dupla. Mal a avistou, teve a sensação de estar diante de uma charge. O atarracado Castello Branco lhe pareceu “um tamborete” perto do “obelisco De Gaulle”. Enquanto o fotógrafo procurava bons ângulos, dois policiais encrenqueiros o jogaram no chão. Barreto se levantou, espanou o pó do terno e decidiu que havia chegado a hora de estreitar definitivamente os laços com “a turma do cinema”. Estava “velho demais” para continuar suportando aqueles percalços.

Foi assim que, à beira dos 37 anos, o também cearense pendurou as chuteiras de fotojornalista e abraçou uma nova carreira, que já tateava: a de produtor cinematográfico e diretor de fotografia. Nascido em Sobral, ele se mudou para Fortaleza ainda criança. Lá, durante a adolescência, integrou o Partido Comunista Brasileiro, que lhe ofereceu um emprego de revisor no jornal vespertino O Democrata, porta-voz da legenda. 

Aos 19 anos, em 1947, Barreto trocou o Ceará pelo Rio, onde virou repórter de A Cigarra, revista quinzenal dos Diários Associados. Em 1950, ingressou em O Cruzeiro, outra publicação do grupo, para cobrir a Copa do Mundo no Brasil. De início, apenas escrevia. Depois, passou a fotografar. Correspondente internacional da revista em 1953 e 1954, fez parte de uma geração que praticou um fotojornalismo engajado e humanista, sob inspiração do neorrealismo italiano no cinema e da fotografia francesa do pós-guerra. A agência Magnum, de Henri Cartier-Bresson e Robert Capa, produziu ensaios muito representativos daquele momento. 

Com José Medeiros, Luciano Carneiro, Henri Ballot e Flávio Damm, Barreto se opôs à fotorreportagem como espetáculo e priorizou o viés documental ao registrar a cultura, o esporte, os dilemas sociais e as grandes tragédias. Outra característica significativa dessa geração foi o uso regular da luz natural e da câmera Leica 35mm, mais discreta e ágil que as habituais Rolleiflex. 

Na Bahia, em 1961, o cearense – falecido no mês passado, aos 98 anos – fotografou para O Cruzeiro as filmagens de Barravento, primeiro longa de Glauber Rocha. Ficou amigo do cineasta, que lhe sugeriu assumir as funções de corroteirista e coprodutor em O assalto ao trem pagador, clássico de Roberto Farias, lançado em 1962. 

Graças à compreensão profunda do fotojornalismo como ferramenta de conscientização e superação das injustiças sociais, Barreto pôde dirigir de maneira inovadora a fotografia de Vidas secas (1963). Ele fez da luz intensa e crua do sertão nordestino o personagem maior do filme de Nelson Pereira dos Santos. Redefiniu, assim, o significado da iluminação no cinema brasileiro. 

Daí em diante, nunca mais se distanciou dos sets. Como produtor e sempre em parceria com a mulher, Lucy Barreto, assinou trabalhos tão relevantes quanto Dona Flor e seus dois maridos (1976), Bye bye Brasil (1980) e Memórias do cárcere (1984).


Estação Ferroviária Central de Milão em 1961

Rua de Nova York em 1963

O cineasta Glauber Rocha em 1961, durante as filmagens de Barravento, no município baiano de Lauro de Freitas

Cenas das filmagens do longa Barravento

Os magnatas da imprensa Assis Chateaubriand [à esquerda] e Adolpho Bloch em 1962, no Rio de Janeiro

A arquiteta ítalo-brasileira Lina Bo Bardi em 1953, no Museu da Orangerie, em Paris, diante do quadro A arlesiana, pintado por Vincent van Gogh. A tela já pertencia ao Masp

Fidel Castro em maio de 1959, durante visita ao Rio de Janeiro, meses depois da Revolução Cubana

Meninos na Normandia, região da França, por volta de 1955

Pelé e Garrincha pouco depois de ganharem a Copa do Mundo de 1958, em Solna, na Suécia

Casal de namorados na praia carioca do Arpoador, por volta de 1960


*Sergio Burgi é coordenador de fotografia do Instituto Moreira Salles, criado e administrado pela família do fundador da piauí.


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Fotógrafo, diretor e produtor de cinema. Entre os numerosos filmes que produziu, estão Dona Flor e seus dois maridos, Terra em transe, Bye bye Brasil e Memórias do cárcere.