portfólio
Tatiane de Assis piauí_240 02 Set 2026
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Desde a década de 1970, a trajetória do fotógrafo Lázaro Roberto se mistura com a do reggae em Salvador. Ele não sabe precisar quando ouviu pela primeira vez o gênero musical de origem jamaicana, mas se recorda bem de uma ocasião que acabou virando um divisor de águas. Filho de uma lavadeira e um estivador, Roberto vivia na Fazenda Grande do Retiro, bairro periférico da capital baiana. Um de seus dez irmãos, Calixto, ficou amigo de um professor do ensino médio, que também morava por lá. Certo dia, os dois visitaram o mestre para conversar sobre poesia, teatro e música. Às tantas, o professor colocou na vitrola o disco Catch a fire, clássico do reggae que Bob Marley e a banda The Wailers lançaram em 1973. “Eu e meu irmão não conhecíamos o álbum”, conta Roberto. De repente, uma das faixas o arrebatou. Era 400 years.
A canção, melancólica, alude à escravização de africanos no passado e reflete sobre as consequências dela no presente: “Quatrocentos anos/E continua a mesma, a mesma filosofia/Eu disse: são quatrocentos anos/Veja há quanto tempo/E as pessoas ainda não conseguem enxergar/Por que lutam contra os jovens pobres de hoje?” Apesar de não compreender inglês, Roberto logo captou o sentido da letra. Sua profunda relação com o reggae se sacramentou ali e nas festas populares de Salvador, como a do Bonfim e a de Nossa Senhora da Conceição da Praia. Em tais celebrações, sempre havia barracas de bebidas que tocavam hits de Jimmy Cliff, Peter Tosh e do próprio Bob Marley.
As doze imagens deste portfólio atestam a longeva aliança entre o fotógrafo de 68 anos e o gênero musical. No entanto, nem todas as cenas saíram da câmera de Roberto, conhecido como Lente Negra. Algumas são de Raimundo Monteiro. Os dois amigos e Aldemar Marques fundaram o Zumví em 1990. O coletivo – que, mais tarde, recebeu o adendo “Arquivo Afro Fotográfico” – tem por missão documentar o cotidiano de afrodescendentes sem se curvar aos estereótipos. As cerca de 50 mil fotos que compõem o projeto revelam “uma Bahia popular, da classe trabalhadora, e distante dos circuitos turísticos”, nas palavras do antropólogo Hélio Menezes. Ele assinou a curadoria de uma mostra com aproximadamente seiscentas imagens digitais e impressas do Zumví. O Instituto Moreira Salles (IMS*) abrigou a retrospectiva entre março e agosto, em São Paulo.
Depois de um longo período sem o devido reconhecimento, o coletivo dispõe agora de duas sedes. Uma reúne todo o seu acervo e fica num prédio do Pelourinho, a região mais agitada do Centro Histórico de Salvador. O imóvel foi cedido pelo Instituto do Patrimônio Artístico e Cultural da Bahia. Localizada no bairro do Rio Vermelho, a outra sede ocupa um edifício pertencente à iniciativa privada e usado em regime de comodato, onde há um espaço para exposições.
Lázaro Roberto é o único dos três fundadores que permanece no Zumví. Desde 2013, o historiador José Carlos Ferreira dos Santos Filho, seu sobrinho, participa da iniciativa, exercendo a função de diretor institucional. Nos últimos 36 anos, inúmeros fotógrafos e intelectuais negros doaram imagens e documentos para o projeto.
Em paralelo à atuação no Zumví, Roberto – que está aposentado – trabalhou como gráfico. Ele se apaixonou por câmeras, lentes e negativos ainda jovem, depois de ver uma pequena mostra sobre o cangaço. Registradas entre 1990 e 2019, as cenas aqui reproduzidas giram ao redor de botecos e eventos soteropolitanos que divulgavam o reggae e promoviam discussões a respeito da negritude. Com o tempo, o gênero musical e os tradicionais blocos afro de Salvador se influenciaram mutuamente, o que resultou em novas e vibrantes sonoridades.
Roberto se lembra sobretudo de dois estabelecimentos no Pelourinho: o Bar do Reggae e o Bar Cravo Rastafari. Ele se tornou mais assíduo do segundo, que pertencia a Wilson dos Santos Silva e funcionou por alguns anos na Rua Gregório de Matos. “Eu gostava de ir lá à noite ou durante o dia, antes de o bar abrir, só para retratar a fachada e o dono.” Apelidada de “rua do reggae”, a Gregório de Matos atraía multidões. Os frequentadores, que geralmente ostentavam penteados afro, costumavam dançar nas calçadas e no meio da via.
O gênero musical também contagiava bairros do subúrbio, como Plataforma e Alto da Terezinha. Muitas vezes, Roberto e Raimundo Monteiro visitavam juntos os botecos daquelas bandas. Entre goles de cerveja, bate-papos e tira-gostos, fotografavam a clientela. Tanto no Pelourinho quanto na periferia, a maconha estava presente, mas não ganhava papel central nos registros da dupla.
Em 1999, o governo estadual inaugurou a Praça do Reggae no Centro Histórico. O espaço, que pretendia difundir as culturas jamaicana e afrodiaspórica, abrigou shows de estrelas como Dennis Brown, Gregory Isaacs e Caetano Veloso. O Bar do Reggae, o Cravo Rastafari e um terceiro boteco, o Negro’s Bar, se transferiram para a área. Embora a praça juntasse um público considerável, militantes antirracistas a desaprovavam por julgar que o empreendimento buscava amenizar a “contestação rasta” e deixá-la mais palatável à indústria do turismo. Dependendo do artista que se apresentasse por ali, a plateia tinha de pagar ingresso. Em 2011, já decadente, a praça acabou desativada. A cena reggae, porém, ainda resiste na cidade, apesar de não exibir a força de antes.
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A família do fundador da piauí criou o Instituto Moreira Salles.