questões trabalhistas
Vanessa Barbara piauí_240 02 Set 2026
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Tem sempre aquele momento dos filmes em que a dupla de policiais está escondida atrás de uma parede, com os revólveres em prontidão. Um deles faz um sinal indicando a direção e, depois de uma contagem silenciosa com os dedos, ambos se lançam ao desconhecido, adentrando um quarto onde pode haver oito meliantes com submetralhadoras ou dois reféns amarrados a bombas. Ou uma carcaça de cavalo na cama, com as palavras “Eu voltarei” escritas em sangue.
Eu sempre pensava nessa cena antes de passar a chave mestra em algum quarto. Armada apenas com um carrinho de metal alto com uma pilha de panos de chão e produtos de limpeza, sozinha ou na companhia de outra camareira, eu nunca sabia o que estava prestes a encontrar.
Poderia ser, por exemplo, um quarto cheio de camisetas penduradas nos móveis – em todas as poltronas, mesas e luminárias – e a televisão ligada num canal de esportes radicais. Ou um chão coberto de unhas. Ou um rastro de pingos de sangue. Era inevitável pensar nos prováveis ocupantes do quarto: seriam executivos em um congresso? Pessoas muito ricas com suas manicures a tiracolo? Um rapaz com um caso extremo de sangramento nasal? As possibilidades literárias eram infinitas, e às vezes bastava inspecionar o lixo do banheiro para obter mais pistas.
Trabalhei três dias como camareira em um dos maiores hotéis de São Paulo, um quatro estrelas midscale superior, de padrão executivo, que aqui vou identificar como Westbridge Convention Hotel1. A oportunidade veio depois de quarenta horas de um curso prático (pago) em uma instituição de ensino, dezenas de currículos enviados, quatro entrevistas de emprego, uma conversa com o setor de RH e outra com o setor de governança. Foram quase seis meses até conseguir uma chance.
Resolvi ocultar minha formação e experiência em jornalismo, pois, ao discutir brevemente a pauta, alguém vaticinou: “Se você disser que vai fazer reportagem a partir do hotel, acho que vai ser difícil alguém aceitar te contratar.” Com efeito, tentei viabilizar meu acesso ao universo da governança como repórter, sem sucesso. Por isso, optei por praticar um jornalismo de imersão – em modo infiltrado – que me permitisse chegar o mais perto possível do dia a dia de uma camareira.
Meu período de “testes práticos” no Westbridge começou em uma quinta-feira e terminou em um sábado, no final de novembro. No segundo dia, já estava treinando uma novata. Na semana seguinte, recebi uma mensagem do setor de RH anunciando minha aprovação para a posição. “Estamos animados com a expectativa de tê-la como parte de nossa equipe”, eu li. Deveria preencher um formulário e enviar meus documentos para prosseguir com a admissão.
Decidi não dar continuidade à experiência por dois motivos: primeiro, porque isso envolveria questões éticas mais complexas; segundo, porque meus ombros não suportariam esfregar privadas por mais três dias antes de ganhar uma folga.
Enviei uma mensagem ao RH. Nela, eu recusava a vaga por não ser capaz de cumprir a escala 6x1.
Faz pelo menos uma década que tenho essa ideia fixa de trabalhar como camareira de hotel. O motivo literário é o mais óbvio: eu adoraria conhecer pessoas a partir de seus objetos, rotinas, hábitos de sono, estado do banheiro. De que lado da cama esse homem dorme? Por que ele deixou o blecaute fechado? Isso teria a ver com o blíster de Nevralgex que encontrei no lixo? A camareira é uma mistura de repórter introvertido e detetive excessivamente asseado, com pitadas de um chaveiro experiente.
Quanto às outras razões que me impeliram a seguir esse caminho, não são tão fáceis de explicar. É um trabalho historicamente feminino e, portanto, mal remunerado. E apesar disso, nada nele é trivial. Tudo me interessa: a limpeza e a organização; o ato de identificar o que está fora do lugar e restabelecer a ordem; a tentativa de exercer algum controle sobre o ambiente. Eu sempre pensava em um trecho do romance O grande Gatsby, que traduzi para a Penguin/Companhia das Letras, no qual se lia que o casal Tom e Daisy Buchanan, muito ricos e descuidados, “esmagavam coisas e criaturas e depois se protegiam por trás da riqueza ou de sua vasta falta de consideração, ou o que quer que os mantivesse juntos, e deixavam os outros limparem a bagunça que eles haviam feito”.
Muitos dos hóspedes eram descuidados como os Buchanan: simplesmente largavam guardanapos usados no chão, copos de papel com um resto de bebida pelo caminho, roupas sujas sobre o edredom. Ser camareira é arrumar a bagunça que os outros deixaram para trás – em uma situação de extrema desigualdade.
Ganhei 70 reais por dia para limpar quartos das 9 às 17 horas, para prejuízo de meus ombros, costas e joelhos. Na mesma época, o preço da diária do Westbridge – um hotel com mais de quinhentos apartamentos – era de 1 002 reais para um casal no quarto standard, sem café da manhã.
Meu plano começou a tomar forma depois que li Nickel and dimed, publicado em 2001 pela jornalista americana Barbara Ehrenreich, que aqui foi lançado pela editora Record com o título Miséria à americana. Nessa obra, Ehrenreich tenta sobreviver em subempregos: ela trabalha como garçonete, faxineira, auxiliar em uma casa de repouso e funcionária do Walmart. E se vê absolutamente incapaz de pagar as contas.
É um livro notável. A jornalista descreve a experiência como “um curso intensivo de gestão da exaustão”. E escreve: “Ninguém jamais disse que você poderia trabalhar duro – mais duro do que jamais imaginou ser possível – e, ainda assim, se ver afundando cada vez mais na pobreza e nas dívidas.”
Ehrenreich, uma jornalista bem-sucedida com doutorado em biologia celular, batalhou para se manter em empregos que exigiam uma alta dose de resiliência, concentração, memória, raciocínio rápido e boa saúde. Depois de passar um mês em cada uma das funções, ela concluiu que não seria capaz de seguir adiante, como tantas pessoas fazem a cada dia. Se, para uma repórter, aquilo era uma experiência exaustiva de aprendizado, para muitos era a vida cotidiana.
“Hoje à noite, Jesús irá provavelmente passar mais oito horas separando partes de frango”, escreveu o jornalista americano Gabriel Thompson, a respeito de um de seus colegas de trabalho. Em 2009, Thompson publicou o livro Working in the shadows (Trabalhando nas sombras), depois de passar um ano ao lado de imigrantes latinos nas funções de colhedor de alface, de operário noturno em um frigorífico de frango e de entregador em um restaurante de comida mexicana – empregos que os americanos jamais aceitariam. “Esta não é uma tentativa de sobreviver com o salário de um imigrante ou de ‘me colocar no lugar dele’”, ressalvou o repórter. “Meu desafio é continuar aparecendo no próximo turno.”
Também a veterana jornalista britânica Polly Toynbee, colunista do jornal The Guardian, publicou, em 2003, um relato de suas incursões no mercado de trabalho como auxiliar de transporte hospitalar, empacotadora de bolos e operadora de telemarketing. No livro Hard work: life in low-pay Britain (Trabalho duro: a vida na Grã-Bretanha dos baixos salários), ela observou que sua experiência não refletia a das pessoas verdadeiramente destituídas, “porque eu conhecia o sistema, sabia a quem recorrer e como pedir ajuda”.
Não se trata, portanto, de botar um disfarce de óculos e bigode e brincar de faxinar por diversão, como se fizéssemos um malabarismo qualquer. Como disse Ehrenreich, “as pessoas me conheciam como garçonete, faxineira, auxiliar em um asilo ou vendedora não porque eu agisse como elas, mas porque era isso que eu era, pelo menos durante o tempo em que estive com elas. Em todos os empregos, em todos os lugares onde morei, o trabalho absorvia toda a minha energia e grande parte do meu intelecto. E eu não estava brincando.”
Ainda assim, o resultado pode ser interessante. O jornalismo de imersão tem “uma capacidade única de explorar mundos fascinantes e, às vezes, brutais, que geralmente são mantidos longe da vista do público”, escreve Thompson. Em Undercover reporting (Reportagem infiltrada), a jornalista Brooke Kroeger compara o trabalho dos infiltrados a uma fotografia ou um esboço. “O importante é não reivindicar para eles mais do que lhes cabe, nem mais do que realmente podem representar.”
A verdade é que, se eu não estivesse absolutamente comprometida com a progressão da minha carreira, não teria tido pesadelos com o duvet.
Comecei o curso de técnicas e procedimentos do ofício de camareira em uma terça-feira, dia 17 de junho, dopada de Naldecon Multi. Eu estava gripada e com dor de garganta, mas nada iria deter minha paixão pela arrumação e pela assepsia.
A turma era composta por nove mulheres e um homem, comandados por um instrutor de 53 anos que aqui vou chamar de Augusto. Com passagem por diferentes áreas da hospitalidade, em estabelecimentos brasileiros e internacionais, Augusto era formado em hotelaria, tinha mestrado em turismo e, na época, estava cursando uma pós-graduação em ESG (sigla em inglês para práticas ambientais, sociais e de governança).
As aulas aconteceram em uma sala que simulava uma unidade habitacional (UH) de um hotel. Dentro havia um banheiro com vaso, bidê, pia, espelhos de aumento e comuns, secador de cabelo, chuveiro, box de vidro e banheira, todos operacionais. Também havia dois quartos. Um com duas camas de solteiro, uma mesa de trabalho, uma cadeira e um frigobar. O outro, com uma cama de casal, mesinha de cabeceira, telefone, luminária, abajures, maleiro, guarda-roupas, mesa de vidro, poltrona, cortinas, carpete. No fundo da sala, havia uma área de serviço com itens de enxoval (lençóis, toalhas, fronhas etc.), um aspirador de pó, rodos, vassouras, esfregão, baldes, panos de chão e uma série de diluidores de produtos de limpeza. A grande estrela do curso era um enorme carrinho de serviço (hamper) de metal, que arrastávamos por corredores imaginários.
Uma das primeiras alunas a se apresentar foi Cristina, uma mulher branca de cerca de 55 anos, com cabelos curtos cacheados e dentes perfeitos, sempre elegantemente vestida. Ela disse que, ao se hospedar em hotéis, costuma se incomodar quando há mofo no rejunte dos azulejos e que, nesses casos, vai a um mercadinho para comprar água sanitária e um borrifador. Também declarou que gostaria que os estabelecimentos disponibilizassem rodos e vassouras aos hóspedes mais aflitos. “O cheiro que eu mais gosto é de água sanitária”, ela confessou no meio do curso. Formada em administração de empresas e pedagogia, Cristina trabalhou por dezoito anos como gerente de banco, até virar mãe de duas crianças e perceber que não gostava do que fazia. Em 2012, abriu uma empresa de personal organizer e hoje presta consultoria em organização doméstica.
Ninguém faltou a nenhuma das oito aulas. Entre as outras alunas do curso, havia uma caixa de supermercado de 24 anos que desejava aprender um novo ofício e se mudar de volta para Barreirinhas, no Maranhão; uma técnica de enfermagem, sempre maquiada, que cumpria o turno da madrugada em um grande hospital e estava sempre com sono; uma jovem carioca que coordenava a limpeza de apartamentos alugados pelo Airbnb; uma ex-funcionária de um berçário em Osasco; duas amigas que trabalhavam no setor de eventos.
Começamos o curso com uma breve descrição da carreira: segundo Augusto, há uma grande oferta de vagas, ótimos benefícios e oportunidades de progressão rápida na hierarquia do hotel. De fato, o Westbridge me ofereceu um salário de 2 733 reais por mês, com uma lista de benefícios que faria corar o jornalista mais experiente: carteira assinada, almoço e jantar no refeitório da empresa, vale-transporte, plano de saúde, uniforme e lavanderia para o uniforme, seguro de vida, TotalPass (acesso a academias e estúdios parceiros), plano de apoio psicológico, clube de descontos, tarifas especiais nos hotéis da rede, programas de treinamento e – o mais importante – uma credencial plena do Sesc. Fiquei extremamente tentada a aceitar, sobretudo por causa desse último provento. O restante dos hotéis oferecia um salário na faixa de 2,1 mil reais e uma dúzia de benefícios. Praticamente todos seguiam a escala 6x1.
Segundo a Relação Anual de Informações Sociais (Rais), base de dados do governo sobre vínculos formais, havia aproximadamente 52,9 mil camareiros de hotel em atividade no país em dezembro de 2024. Embora as mulheres representem a esmagadora maioria (93% do total), são elas que recebem menos. A mediana salarial naquele ano foi de 1 816 reais por mês, ligeiramente superior a um salário mínimo, mas os homens ganhavam 1 850 reais, enquanto as mulheres recebiam 1 813 reais – uma diferença de 2,04% a favor deles. Ou seja, mesmo nos trabalhos considerados “tipicamente femininos”, os homens têm vantagens remuneratórias.
Essa mediana salarial de 1 816 reais é equivalente à dos operadores de caixa de supermercado (1 875 reais) e superior à dos auxiliares de limpeza (1 617 reais). Com efeito, os valores pareceram interessar a uma das alunas do curso. Sônia, uma mulher negra de meia-idade, baixinha e falante, passou a vida trabalhando como auxiliar de serviços gerais (faxineira) em estabelecimentos comerciais. Na turma, ela era considerada a grande sumidade em assepsia: dava palpites sobre os produtos de limpeza, esclarecia dúvidas sobre o funcionamento dos rodos articulados e criticava abertamente os processos operacionais ensinados pelo professor. Para ela, limpeza sem água – muita água – não fazia nenhum sentido. Ela e Cristina costumavam concordar sobre essas questões de higiene, emitindo sons de repulsa quando Augusto usava o mesmo pano do vaso sanitário para limpar a lixeira. O que mais preocupava Sônia nesse novo ofício era administrar a dor nos joelhos e ter de limpar espelhos muito altos.
Ainda de acordo com a Rais 2024, a ocupação de camareiro é majoritariamente composta por trabalhadores que concluíram o ensino médio: 65,9% do total. Os que completaram o ensino fundamental somam 11,7%, o ensino superior, 0,8%, e há quatro registros de camareiros com pós-graduação (0,007%). A jornada média é de 43,9 horas semanais, e a maioria das vagas segue a escala 6x1.
Trata-se de uma profissão de perfil maduro: entre as mulheres, a idade média é de 40 anos, e 22% têm 50 anos ou mais. A maior concentração está na faixa etária de 40 a 49 anos (31,7%). O panorama se aproxima do observado no trabalho doméstico, também marcado pelo envelhecimento da força de trabalho feminina. No terceiro trimestre do ano passado, segundo os microdados da Pesquisa Nacional por Amostra de Domicílios (Pnad) Contínua, do IBGE, 91,6% dos trabalhadores domésticos do país eram mulheres, com idade média de 45,4 anos.
Mais da metade dos trabalhadores da ocupação são negros (57,3%), sendo que o salário típico desse grupo é inferior ao da profissão como um todo. Um exemplo: apesar de representarem 44,2% do total de vínculos – o maior contingente da ocupação –, as mulheres pardas ocupam a base da pirâmide salarial, com mediana de 1 710,99 reais. Esse valor é 5,81% inferior à mediana geral e representa o patamar mais baixo entre os principais grupos demográficos da categoria. O fosso salarial entre mulheres pardas e brancas é de 11,9%.
Ao cruzar informações da Rais (para o estoque de vínculos formais) e do Cadastro Geral de Empregados e Desempregados (Caged), que contabiliza admissões e desligamentos ao longo do ano, confirma-se o otimismo do instrutor do curso: o mercado de trabalho para camareiros em hotéis brasileiros está em expansão moderada. Foram abertos quase 3 mil novos vínculos em 2024 – um crescimento de 2,9% em relação ao ano anterior.
Contudo, trata-se de um mercado altamente instável. Naquele ano, a rotatividade atingiu 70,48% entre as mulheres e 67,76% entre os homens. Na prática, isso indica uma intensa reposição de mão de obra ao longo do ano, com cerca de 7 em cada 10 vínculos sendo substituídos. Ainda segundo os dados do Caged, o tempo médio estimado de permanência no cargo foi de 17,1 meses (cerca de um ano e meio), o que reforça o caráter transitório e instável da ocupação.
Esse padrão de alta rotatividade pode estar associado a fatores como baixa remuneração, exigência física elevada e pressão por produtividade. O fato de ser uma ocupação majoritariamente feminina também explica o baixíssimo valor simbólico profissional e a associação imediata às tarefas das donas de casa, como se limpar quartos de hotel fosse uma extensão do trabalho doméstico não pago.
Durante o curso, Augusto explicou que a hotelaria brasileira adota uma lógica de limpeza quase seca: nada tem cheiro, nada tem espuma e há pouca água envolvida no processo. Para a tristeza de Cristina, raramente se usa cloro. As profissionais – adoto o gênero feminino como padrão, já que a grande maioria é de mulheres – vestem uma luva fina de vinil e, por cima, outra de segurança, geralmente amarela, que entra em ação na hora de limpar o banheiro. A dica é passar talco antes de vestir as luvas para não suar tanto.
O instrutor explicou que, na maioria dos hotéis paulistanos, as janelas não podem ser abertas por questões de segurança e, por isso, há pouca sujidade nos quartos. A limpeza é realizada de cima para baixo e da esquerda para a direita. Em seu livro Maid (Superação, na edição brasileira), de 2019, a escritora e ex-faxineira Stephanie Land explicou por quê: “Qualquer borrifada que não chegasse exatamente ao espelho caía sobre uma superfície que seria limpa de qualquer forma”, escreveu. “Isso também dificultava deixar algum ponto sem ser limpo. O trabalho de uma faxineira é, essencialmente, tocar cada centímetro quadrado das superfícies de uma casa.”
Usam-se panos de chão identificados por cores: o vermelho é para áreas muito sujas, como vasos sanitários e lixeiras; o amarelo é para pias; o azul, para vidros; e o verde é usado nas áreas neutras, como móveis do quarto. Quando o vaso sanitário está muito sujo, a camareira pode recorrer a uma esponja de limpeza e uma escova sanitária de uso comum (“Argh!”, foi a reação de Cristina e Sônia).
E, por falar em asco, os objetos mais sujos em um quarto de hotel são as maçanetas e o controle remoto, que muitas vezes são negligenciados na limpeza. Ainda segundo o instrutor do curso, os rolinhos decorativos (tipo almofada), as colchas de piquê e os cobre-leitos quase nunca são lavados. Os cobertores de inverno, aliás, mesmo quando estão em um plástico lacrado dentro do armário, raramente são higienizados e têm uma cor escura “para esconder a sujeira”. Outro item de enxoval que quase nunca vê sabão é a peseira – aquela manta ou faixa de tecido colocada aos pés da cama –, que teria surgido porque os hóspedes têm o costume de abrir as malas sobre a cama, e não sobre os maleiros. “Lembro de uma mulher que foi tomar café da manhã enrolada na peseira”, comentou Augusto, para desespero geral dos alunos. Também é comum haver confusão entre toalha de rosto e toalha de piso (mais grossa, com moldura retangular tipo tapete).
Não é recomendável utilizar os copos de vidro do frigobar ou da pia para beber água. Sério: não usem. De acordo com várias fontes, a limpeza desses itens consiste em uma displicente passada de água e eventual secagem com a toalha de mão do hóspede. “E tem um hotel, que não vou falar o nome, que aproveita a toalha dos hóspedes para secar o box”, acrescentou Augusto.
O instrutor enumerou alguns dos cenários que chegou a presenciar ao longo da carreira: hóspedes que tingem o cabelo no banheiro e secam com a toalha do hotel; hóspedes que consomem o uísque do frigobar e o substituem por urina; toalhas que já vêm da lavanderia com fezes dentro; hóspedes que guardam armas e drogas no quarto; hóspedes que deixam camisinhas usadas debaixo do edredom. “Tinha uma habituée no hotel onde eu trabalhava que sempre pedia dez toalhas de banho. Ela forrava todo o chão do banheiro porque tinha receio de pisar”, contou.
Ele explicou que as camareiras são “os olhos da governança”, pois, além de realizar a limpeza, encarregam-se de coletar informações operacionais importantes. Por exemplo: é preciso registrar, em um relatório, se o hóspede não pernoitou no local e quantas malas ele possui, a fim de identificar saídas não informadas ou um número maior de ocupantes no quarto. A sigla DF significa “dormiu fora”, enquanto MB quer dizer “muita bagagem” e SB, “sem bagagem”. Para uma camareira típica, os piores hóspedes são os jogadores de futebol e os músicos de bandas de rock, que podem ser imundos e destrutivos.
Depois do check-out, as camareiras precisam vistoriar o quarto. Augusto contou que há hóspedes que levam toalhas, rolos de papel higiênico, abajures, lâmpadas, cortinas, lençóis e até as pilhas do controle remoto para casa. (É por isso, aliás, que os cabides são presos e o secador de cabelo é fixado na parede.) Todos os furtos e danos são cobrados posteriormente no cartão de crédito.
E aqui é preciso mencionar outros grandes inimigos dessas profissionais: os fios de cabelo e demais vestígios pilosos. “Não sei o que acontece com a classe alta americana, mas eles parecem estar perdendo os pelos pubianos a uma taxa alarmante”, escreveu Barbara Ehrenreich em Miséria à americana. A jornalista os encontrou, aos montes, em boxes de chuveiro, banheiras, jacuzzis, ralos e “até, inexplicavelmente, em pias”. Confessou estar fascinada “pela imagem dos pelos pubianos da elite econômica, que, a essa altura, já deve estar completamente careca”.
"Na prática, o trabalho das camareiras é realizado sob a tensão de algumas exigências: rapidez, multitarefas, sobrecarga física, sobrecarga psicológica e ritmo de trabalho frenético”, escreveu a pesquisadora Euda Kaliani Gomes Teixeira Rocha, hoje professora de psicologia da Universidade Federal de Pernambuco (UFPE). Para sua tese de doutorado em sociologia, defendida em 2010, ela realizou um estudo qualitativo com camareiras de dois hotéis em Pernambuco.
Rocha conduziu entrevistas e traçou um perfil detalhado de treze profissionais, todas com mais de 34 anos de idade. Apenas duas não tinham experiência prévia como empregadas domésticas. “Esse fato parece indicar o mito da qualificação per se das trabalhadoras domésticas – ou mesmo de qualquer mulher – para o serviço realizado pelas camareiras, uma vez que se pressupõe que qualquer mulher sabe fazer o serviço de limpeza e a arrumação de uma casa, e, como prolongamento, das áreas sociais e dos quartos de hotéis.” Essa qualificação às avessas, considerada pelos empregadores uma habilidade intrínseca às mulheres, funciona como uma desqualificação no mercado, o que, segundo Rocha, também garante o barateamento dessa força de trabalho.
A marginalização é outro aspecto da profissão. As camareiras “são invisibilizadas socialmente; também o são nos estudos sobre profissões e sobre trabalho e saúde; no hotel em que trabalham são orientadas a não circularem em áreas sociais; e, por último, dentro da empresa formam uma equipe que recebe pouca atenção”. Para Rocha, essa configuração faz com que o ofício em si seja negligenciado, resultando em abusos trabalhistas e pouco conhecimento produzido sobre a profissão.
Um exemplo prático: embora a literatura consultada por Rocha indicasse um quantitativo de limpeza diária de 12 a 15 quartos por profissional, ela se deparou com a realidade de 13 a 18 apartamentos por dia em um dos estabelecimentos pesquisados (metade do hotel era composta por flats) e, em outro, de 20 a 24. “Veja as minhas mãos! Elas despelam e até a impressão digital some!”, declarou uma das entrevistadas.
Outra dissertação de mestrado em sociologia, defendida em 2022 por Stephanie Weatherbee na Universidade de São Paulo (USP), aponta para uma taxa de produtividade diária de 20 quartos em hotéis de luxo e de 24 a 30 quartos em estabelecimentos de outras categorias, segundo estudos feitos no Brasil. Nos hotéis econômicos pesquisados por Weatherbee, a média era de 30 quartos por dia.
“Os apartamentos são grandes, têm muito vidro e tudo é a camareira quem faz”, declarou a arrumadeira de um hotel em Brasília. “Tem vez que a gente faz mais de 30, já fiz 34 quando falta alguém. Não dá para fazer uma limpeza 100%”, ela disse, em entrevista a Geovana Fátima Magalhães, que defendeu sua dissertação de mestrado no Instituto de Psicologia da Universidade de Brasília (unb). E não é uma questão de falta de hábito: “Já trabalhei na roça, tô acostumada com serviço pesado, mas tem hora que a coisa pega, é diferente”, declarou uma das entrevistadas.
Segundo Rocha, da UFPE, o risco mais grave encontrado no trabalho das camareiras foi “a inadequação ergonômica em praticamente todas as tarefas, que repercute nas lesões em articulações, tendões e músculos, por conta da exigência excessiva que impacta diferentes partes do corpo”. As queixas mais recorrentes entre as entrevistadas foram dorsalgias, sinovites, tenossinovites e lesões no ombro, nos punhos e nas mãos.
Ainda que as lesões mais comuns decorram desses movimentos brutos e recorrentes, as arrumadeiras enfrentam uma ampla gama de riscos no trabalho. Como são expostas diariamente a produtos industriais de limpeza, é comum que desenvolvam erupções cutâneas e irritações oculares. Além disso, durante a arrumação dos quartos, pode haver contato direto com secreções, sangue, fezes e urina. “Olhe, tem hóspede nojento!”, declarou uma das entrevistadas da tese de Rocha. “Já encontrei cocô na cama, Modess ensopado de sangue, pregado na parede, xixi no banheiro todo. Não sei se esse povo faz isso na casa deles, mas no hotel faz!”, ela desabafou.
A barreira oferecida por equipamentos de proteção individual (EPIs), como luvas e máscaras, seria suficiente para evitar o contágio por inúmeros agentes, mas não é amplamente adotada pelos hotéis. Em um dos estabelecimentos pesquisados por Rocha, esses equipamentos não estavam à disposição das trabalhadoras. No outro, havia luvas, máscaras e botas de borracha, mas as camareiras só as usavam de vez em quando, em faxinas mais pesadas que exigiam o uso de ácidos. No Westbridge, onde trabalhei, havia abundância de luvas finas de vinil, mas apenas um par de luvas de segurança. Elas não eram longas o suficiente e já estavam muito usadas.
Lá pela metade do curso, aprendemos a montar uma “cama técnica” conforme o padrão internacional da hotelaria de luxo. Depois de retirar a roupa de cama suja, a camareira estica sobre o colchão uma série de peças do enxoval. Primeiro vem o protetor de colchão, preso por fitas laterais, seguido pelo primeiro lençol. Ele deve ser aberto com delicadeza, sem ser chacoalhado, para não levantar pó. É preciso centralizá-lo – usando como guia a dobra do meio que vem da lavanderia – e prender as sobras da cabeceira e dos pés. Só então vem o envelopamento, uma das marcas registradas das camareiras: uma dobra diagonal nas quinas que prende o tecido ao colchão. Ele deve ser erguido o mínimo possível para não estragar o trabalho já feito.
Nos hotéis, os lençóis são sempre planos, sem elástico, o que facilita a lavagem, a secagem e a calandragem industriais, mas dificulta o trabalho de quem precisa forrar as camas. Terminada essa etapa inicial, o segundo lençol é envelopado e dobrado, de modo a deixar espaço para quatro travesseiros com suas respectivas fronhas. As camareiras aprendem a segurá-los pelas pontas e a colocá-los de pé na cabeceira da cama. “Diz a lenda que, depois do envelopamento da cama, a governanta passa jogando uma moeda – e ela tem que quicar”, contou Augusto.
E então chegamos ao temido duvet. Trata-se da capa do edredom, que protege o enchimento como uma fronha gigante. É preciso treinamento para dominar a melhor forma de montá-lo. Primeiro, a camareira estende o enchimento sobre o colchão e, em seguida, posiciona a capa fechada por cima. Depois, enfia o braço inteiro pela abertura inferior do duvet e puxa uma das pontas do enchimento para dentro. Com um jogo de mãos, vira tudo do avesso, repetindo o movimento do outro lado.
“Gostei. Eu sempre uso a força do ódio”, comentou Luciane, uma jovem carioca de cabelos pretos ondulados e grandes brincos redondos, que também era gestora de apartamentos alugados pelo Airbnb. A força do ódio, porém, não é um método recomendado pelos especialistas. Quem busca no YouTube vídeos de competições chinesas de arrumação de camas (sugestão: “Bed Making Championship – Ozzy Man Reviews”) sabe que é nesse momento que os competidores parecem pássaros prestes a levantar voo dentro de seus duvets. Eles enfiam o enchimento dobrado na capa, vestem o duvet e batem as asas, espalhando o recheio por igual. É hipnotizante.
Durante a prática de montar o duvet numa cama queen, fiquei com medo de me perder dentro da longa fronha e não encontrar o caminho de volta. Cheguei a ter pesadelos com essa peça de enxoval. A supervisora não notaria minha ausência e eu seria resgatada por um hóspede apenas no momento do check-in. “O quarto é espaçoso, mas o edredom veio com uma camareira dentro. Nota: quatro”, diria um comentário no Booking.
Consegui melhorar minha técnica apenas no penúltimo dia de curso, quando concluí a arrumação de uma cama inteira em 19 minutos e 35 segundos – 8 minutos só para os lençóis –, o que me rendeu um lugar no pódio entre as alunas mais lentas da turma. Fiz a limpeza da uh inteira em 37 minutos, mas é preciso ressalvar que Sônia prejudicou meu desempenho com críticas em tempo real sobre minha falta de familiaridade com o rodo articulado na limpeza do chão do banheiro.
Após concluir o curso de camareira, preparei minha cover story e me cadastrei em sites de emprego (Indeed, Catho, Infojobs, Glassdoor). Vasculhei também as páginas de estabelecimentos individuais e de redes hoteleiras. Entrei para um grupo de WhatsApp com anúncios de vagas do setor. Calculei ter enviado meu currículo para mais de vinte hotéis em São Paulo.
Sendo uma grande fã de filmes e séries de espionagem – a melhor da história recente é a francesa Le bureau des légendes (O departamento dos clandestinos), de 2015 –, eu sabia que o ideal era desviar-se o mínimo possível da vida real. Não havia motivos para inventar uma vida completamente diferente, dizia Ehrenreich, que conversava com seus colegas sobre os filhos, o marido e os amigos de verdade. Então decidi assumir o risco de parecer uma dondoca: mulher branca, ex-aluna de escola particular, nunca trabalhou na vida, tem uma filha de 7 anos, é casada com um funcionário público, fala inglês fluentemente e francês em nível intermediário. Achei que, dentre todos os cenários possíveis, esse era o mais aceitável.
A fase das entrevistas foi ruim, mas poderia ter sido pior. O primeiro hotel que me chamou foi o Cosmopolitan Inn, na região dos Jardins. É um hotel do segmento midscale, voltado ao público corporativo, com cerca de cem quartos. A diária do quarto de casal para uma quarta-feira comum de abril era de 625 reais com café da manhã. A título de comparação, a tarifa do Westbridge para o mesmo dia era de 772 reais. O salário no Cosmopolitan Inn era de 2 170 reais com benefícios, do meio-dia às 20 horas, em escala 6x1.
Assim que saí da entrevista, recebi a ligação de um hotel localizado a 10 minutos da minha casa, na Zona Norte. O Hotel Royal Prime Excelsior Cantareira é um estabelecimento intermediário (midscale) com diárias inferiores à média (424 reais) e que dispõe de academia, sauna e restaurante. O hotel tinha 96 flats e nove camareiras na equipe fixa. Cada profissional costumava limpar dezoito apartamentos por dia. O salário era de 2 mil reais com benefícios, das 8 às 16 horas, em escala 6x1.
Apesar da falta de experiência, fui contratada imediatamente, com início no dia seguinte.
Mais tarde, naquele mesmo dia, pensei melhor e concluí que trabalhar no Royal Prime Excelsior Cantareira não serviria tão bem aos propósitos da minha reportagem. Um dos meus objetivos era falar sobre desigualdade e, portanto, precisaria atuar em um hotel um pouco mais chique. Escrevi para a gerente de rh recusando a vaga e agradecendo pela atenção.
A essa altura, minha personalidade luminosa e autoconfiante começava a fraquejar. Eu recebia várias mensagens por dia de sites de emprego e passava um bom tempo me inscrevendo em processos seletivos – e sendo rejeitada.
Mesmo depois de sinalizar que não queria que as empresas tivessem acesso ao meu currículo, recebi dezenas de propostas. Foram 9 vagas para empregada doméstica, 5 para auxiliar de limpeza, 4 para jardineira, 3 para professora de inglês, 2 para coordenadora pedagógica de uma escola de inglês, 2 para vendedora e uma infinidade de outros empregos que supostamente combinariam com minhas credenciais profissionais: recepcionista, atendente de telemarketing, consultora comercial, corretora de imóveis, secretária particular, auxiliar de rouparia, “expert em interação” (o que quer que isso signifique), professora de tecnologia de informação (não mencionei uma única habilidade em informática), estagiária de educação física (com foco em musculação e alongamento) e, surpreendentemente, copywriter em uma editora.
Mas nem tudo era aleatoriedade e rejeição. Fui chamada para outra entrevista em um hotel de categoria midscale superior na região do Paraíso, bairro de classe média alta de São Paulo. Desisti ao saber do horário de trabalho: das 7h12 às 17 horas. O salário era de 2,3 mil reais, com benefícios. Até aí, nada fora do comum. Foi quando tive uma surpresa: eles seguiam a escala 5x2.
Ainda são poucos os estabelecimentos que concedem dois dias de folga por semana a todos os funcionários, inclusive os de setores operacionais. O Copacabana Palace, no Rio de Janeiro, é um exemplo. Em São Paulo, o Palácio Tangará, hotel de altíssimo padrão na Zona Sul, adotou em setembro o esquema 5x2. A mudança resultou na contratação de 27 novos funcionários2 e vai exigir um investimento anual superior a 2 milhões de reais. Em minhas buscas por emprego, vi que o Sheraton São Paulo WTC Hotel também divulgou uma vaga de camareira na escala 5x2, com salário de 3 120 reais.
A constatação de que hotéis de segmentos distintos já estavam adotando um esquema de trabalho menos abusivo me deu fôlego para continuar a busca.
E então, após meses de tentativas, veio o convite para participar do processo seletivo do Westbridge Convention Hotel, meu sonho de princesa desde os tempos de curso de camareira. Depois de uma bateria de provas escritas e entrevistas presenciais, consegui marcar um teste prático de três dias. Era exatamente o que eu precisava.
Às 8h45 de uma quinta-feira ensolarada, dia 27 de novembro, entrei com minha mochila pelo túnel lateral que leva à entrada de serviço do Westbridge. “É o meu primeiro dia”, anunciei à portaria dos funcionários. Recebi uma senha de identificação – que servia para as catracas de entrada e do refeitório – e algumas palavras de incentivo dos meus novos colegas.
Com mais de quinhentos quartos e dezenas de salas de reunião, o Westbridge é um dos maiores hotéis de São Paulo. A ocupação nos dias comuns ficava em torno de 40%. Em teoria, havia 35 camareiras na equipe da manhã, 2 à tarde e 1 à noite, mas, na prática, constatei que cerca de 15 profissionais assinavam o ponto diariamente na folha de escala. A maioria não pertencia ao quadro do hotel. Essas profissionais eram chamadas para cumprir diárias avulsas por intermédio de uma cooperativa e sonhavam em ter um vínculo formal com a empresa. A oportunidade que eu tinha naquele momento era, portanto, bastante cobiçada.
No setor da rouparia, tive que informar meu tamanho e ganhei um uniforme: uma longa bata preta com o logotipo do hotel e uma calça preta com elástico. A costureira precisou ajustar a barra, que estava muito comprida. Eu devia prender os cabelos e envolvê-los em uma touca branca descartável que jamais poderia ser retirada, inclusive ao almoçar. Apenas as camareiras precisavam seguir essa regra. Isso produzia uma certa distinção visual nas mesas do refeitório; se é verdade que a fila do bufê era a mesma para todos, os profissionais de terno ou de roupa comum se diferenciavam da equipe uniformizada de cozinheiros, faxineiras e camareiras (essas de touca).
Infelizmente, meu uniforme não tinha bolsos, o que tornava impossível levar um bloco de anotações e um lápis. Também não era permitido subir para os quartos com o celular; os aparelhos das camareiras ficavam alinhados em uma bandeja na sala de governança, no subsolo. No fim, a única coisa que eu podia ter comigo era uma garrafa de água.
Minha supervisora direta nesses três dias seria a elétrica Simone, uma mulher baixinha de meia-idade que usava óculos vermelhos de armação redonda e não sorria muito. Ela morava no bairro do Imirim e tinha uma filha de 10 anos. Era eficiente e muito séria. Me emprestou o carrinho dela, que tinha um adesivo com a bandeira do Brasil e levava um cobiçado frasco de álcool, um item de limpeza pouco utilizado por ser caro. Nos carrinhos do Westbridge havia quatro produtos básicos com rótulos semelhantes, mas com cores diferentes: um limpador de vidros, um detergente, um multiuso e um produto clorado (para desinfecção da privada e do box do banheiro). Eu vivia confundindo o verde com o azul.
Hoje o dia seria só de “saídas” ou check-outs – quando os hóspedes já foram embora e é preciso higienizar e trocar tudo no quarto. O processo é bem mais demorado do que a “arrumação”, que é quando os hóspedes permanecem no hotel, a roupa de cama geralmente não é trocada e a limpeza é menos minuciosa.
Começamos pelo quarto 1307. Ela me explicou o padrão de arrumação de camas no Westbridge: como era a vira do lençol, o estilo de envelopamento, o lado certo para dispor a boca dos travesseiros. Me orientou a ter atenção com os fios de cabelo. Disse que era preciso ficar de joelhos para limpar o chão em torno da privada, onde o rodo não alcança – é a chamada “postura primal de submissão”, de que fala Barbara Ehrenreich. Um dos macetes das camareiras de hotel é usar a ducha higiênica como auxiliar na limpeza do chão do box e da privada; todos os ralinhos devem ser removidos, escovados e enxaguados. Naquele momento, minha maior dificuldade era dobrar o papel higiênico em V, sem deixar marcas de dedos molhados.
Aproveitei o primeiro dia para praticar a pilotagem do carrinho, que, a propósito, é enorme e pesado. Como sou baixinha e os carrinhos levam uma pilha alta de lençóis limpos no topo, eu nunca enxergava para onde ia. Meu maior medo era atropelar algum hóspede desavisado que abriu a porta de repente e não olhou para os dois lados antes de atravessar o corredor.
Tive ampla oportunidade de aperfeiçoar minha condução vacilante do carrinho, já que os corredores do Westbridge são enormes: medem mais de 100 metros de ponta a ponta. Cada andar possui dúzias de apartamentos, com elevadores centrais. Como o mapa de quartos é complexo, eu muitas vezes dirigia o carrinho para o lado errado e só descobria isso ao chegar quase no final, quando precisava dar meia-volta e refazer a rota.
Fiz sozinha o segundo quarto do dia, o 1327, que me presenteou com uma privada coalhada de respingos de cocô. Achei uma espécie de batismo. Vesti a única luva de segurança que havia no carrinho e esfreguei o vaso com uma escova sanitária e uma bucha. Demorei para terminar a limpeza do quarto e fiquei esperando na porta, conforme Simone me orientou. Ela aprovou o meu trabalho (com ressalvas) e me mandou ir almoçar.
Tudo começava com três batidas na porta e o anúncio: “Governança.” Eu fazia isso duas vezes, mesmo que o relatório indicasse que o quarto estava vazio. A propósito, convém bater com o próprio cartão de serviço (chave mestra) para preservar os nós dos dedos. É algo que aprendi com Jacob Tomsky, autor de Heads in beds (Cabeças em travesseiros, um jargão para a ocupação dos quartos de hotel), de 2012: “No primeiro mês, bati até cada articulação dos dedos de ambas as mãos ficar vermelha e dolorida pra caramba – inclusive as pobres articulações dos meus mindinhos. Depois desse período, aprendi a bater com uma caneta ou com meu cartão-chave.”
Após entrar no quarto, a primeira coisa que eu fazia era calçar a porta com o maleiro, ligar o ar-condicionado e ajustá-lo para 16ºC (ou seja, muito frio). A temperatura é sempre gélida para amenizar o desgaste físico de quem realiza tarefas pesadas. A partir daí, nunca mais achei estranho, como hóspede, encontrar o quarto do hotel absolutamente glacial: é possível que a camareira tenha esquecido o ar-condicionado ligado.
Em seguida, eu vestia a luva de segurança e pegava, do carrinho, a cestinha com os produtos de limpeza do banheiro. Apanhava os lixos, recolhia os lençóis e as toalhas, jogava tudo no cesto e aplicava o produto clorado na privada. Só então retirava a luva de segurança e ficava apenas com a luva fina de vinil. Enquanto esperava o cloro fazer efeito no banheiro, começava a arrumar a cama.
No quarto 1325, havia uma cama de solteiro encostada à parede, o que indicava que era um quarto com criança. Recolhi um copo de papel caído no chão – com um pouco de vinho dentro –, uns guardanapos usados, uma garrafa vazia e uma caixa cheia de donuts de sabores variados, alguns parcialmente mordidos. Contei doze ao todo. Despejei o resto do vinho na pia e deixei os donuts no topo do carrinho, de onde eles posteriormente desapareceram. O quarto estava em um estado deplorável e demorei bastante para aprontá-lo.
Fim do expediente. Na saída, minha mochila era sempre revistada, afinal, eu poderia estar levando para casa uma luminária ou uma poltrona do hotel.
No segundo dia, fui trabalhar usando o relógio da minha filha – que é de plástico vermelho e, de vez em quando, acende umas luzes coloridas. Isso porque eu precisava encontrar alguma forma de controlar o tempo durante as limpezas e todos os meus relógios estavam mofados ou sem bateria. “Vai ficar bonito, vai ornar com o uniforme”, comentei em um áudio para mim mesma, gravado na sexta-feira às 8h22.
Nesse dia, fiz a saída do quarto 1310, que estava coberto de unhas cortadas. Ao examinar detidamente a trilha pelo chão, presumi uma distribuição normal (curva de Gauss), com maior concentração a partir do dedão do pé, e concluí que o hóspede havia cortado as unhas sentado na cama. Como agora estava sozinha, também podia examinar melhor o conteúdo dos lixos: o hóspede havia comprado um frasco de desodorante Connexion, da Boticário, e uma calça de 500 reais da Calvin Klein.
Estava no meio da limpeza de outro quarto, totalmente em fluxo, quando um funcionário da manutenção pediu licença, entrou e abriu a torneira da pia. Disse que eu precisaria deixá-la aberta até que saísse água quente – e isso poderia demorar horas. Acatei as ordens, esperando que Simone aparecesse logo para resolver a questão. Mas ela não chegava. Decidi concluir a limpeza desse quarto (deixei a torneira aberta) e passar para o seguinte, tentando não pensar no desperdício de água nem no possível impacto de deixar uma torneira jorrando em meu banheiro imaculadamente limpo. Nesse meio-tempo, o funcionário da manutenção surgiu novamente e pediu que eu abrisse a torneira da outra unidade também. Parece que estavam tentando resolver um problema de falta de água quente.
Quando Simone chegou, a torneira estava aberta havia cerca de 20 minutos. Ela ficou irritada e passou um rádio para o chefe da manutenção. Enquanto reclamava, fechou raivosamente todas as torneiras. Havia alguma vendeta óbvia entre o pessoal da governança e o da manutenção, e muito em breve eu seria obrigada a lidar com as consequências dessa briga.
No quarto 1322, encontrei pingos de sangue no chão e no edredom. Na lixeira do banheiro, havia um frasco vazio de sabonete Avène para pele oleosa. Não consegui depreender nada a partir desses vestígios. O 1319 estava tão limpo e organizado que não parecia que um ser humano tivesse passado por lá.
Quando Simone aparecia para vistoriar meu trabalho, ela recolocava o rádio na cintura, esquadrinhava o cenário por alguns segundos e já identificava pequenos detalhes deslocados: os rolinhos das toalhas não tinham o detalhe voltado para fora. Os travesseiros precisavam ficar mais em pé. As cortinas não haviam sido fechadas. Ela passava o dedo pelas superfícies para verificar se havia pó enquanto me dava mais instruções. Era um verdadeiro detector de padrões.
Eu saía para almoçar em um estado deplorável, tendo apenas lavado as mãos e o rosto antes de entrar na fila do refeitório.
Em certos trabalhos, especialmente os marcados por desigualdades de gênero, as indignidades cotidianas assumem um contorno bastante específico. Lembrei de um dos textos acadêmicos que li para este projeto, a dissertação de sociologia de Stephanie Weatherbee, da usp. Ela observou que as relações entre camareira e hóspede – assim como as entre senhor e mucama, patrão e empregada doméstica – eram caracterizadas por uma profunda desigualdade de poder e pela dependência estrutural da trabalhadora. “Essa relação desigual de classe, sexo e raça resulta num ambiente propício para os casos de assédio e violência sexual”, escreveu. “Para muitas camareiras, incidentes como hóspedes de sexo masculino solicitarem itens (toalhas, por exemplo) e abrirem a porta despidos são tão comuns que elas nem sequer os consideram uma forma de assédio.”
Em um dos meus dias de trabalho no Westbridge, vi uma camareira mais velha bater à porta de um quarto sem saber que o hóspede ainda estava lá dentro. Quando a porta se abriu, ela foi surpreendida por um homem e, visivelmente constrangida, perguntou se ele precisava de arrumação. Diante da resposta negativa, agradeceu e foi embora, acelerando o carrinho pelo corredor. Simone, que havia ouvido a breve interação, repreendeu a funcionária: “E aí, dona Tereza? Você não perguntou se ele precisava de mais alguma coisa? Não ofereceu toalhas extras? Não desejou uma boa estadia?” A camareira corou e se justificou: “Não... Ele abriu a porta de cuecas e eu fiquei com vergonha.” As duas riram e comentaram que situações assim eram comuns.
Depois do almoço, conheci uma moça negra e alta, de uns 30 anos, chamada Nádia, imigrante haitiana, que estava no seu primeiro dia de teste prático. Ela trabalhava como cuidadora de idosos e estudava pedagogia à noite em uma faculdade particular. Nádia ficou surpresa quando eu informei que os dias de teste eram remunerados – 70 reais por dia –, conforme exige a legislação brasileira. Ela não parecia sequer saber qual era o salário oferecido pelo Westbridge. Quando falei que era de 2,7 mil reais para um expediente das 8 às 16 horas, seus olhos brilharam: “Nossa, eu queria muito esse emprego.”
A trajetória de Nádia aponta para algo que apareceu com frequência nas minhas leituras acadêmicas: mesmo em condições precárias, essas ocupações podem representar um avanço em relação a experiências anteriores. Como apontou a pesquisadora Euda Rocha, da UFPE: “É inquietante pensar que o trabalho precarizado, nas formas como foi observado nesta pesquisa, seja considerado o melhor lugar de inserção no mundo do trabalho que a maioria das entrevistadas experimentou.”
À tarde, Simone pediu que eu limpasse alguns quartos em parceria com Nádia. Como ela precisava treinar a arrumação das camas, combinamos que eu faria os banheiros enquanto ela cuidava do dormitório. Ela era muito rápida e sempre acabava antes de mim, então me ajudava enquanto Simone não surgia para a vistoria.
A agitada supervisora estava sempre correndo pelos andares, carregando toalhas de piso pra cima e pra baixo, resolvendo pepinos das funcionárias e discutindo com a manutenção pelo rádio. A certa altura, uma das arrumadeiras veio informá-la de que havia um cheiro insuportável de urina no box do banheiro do quarto 615. Ela bem que tentou limpar, mas o cheiro permanecia. Simone agradeceu e disse que resolveria a questão. De quando em quando, eu também despejava uma ladainha de recados para a supervisora: o quarto 1331 ficou sem toalha de rosto, o 1320 tinha um problema na torneira do chuveiro, a Liz pegou um lençol do carrinho, o hóspede do 1340 pediu para avisar que estava indo embora. Nós não tínhamos rádio nem telefone, o que às vezes complicava na hora de repassar informações ou atender ao pedido de algum hóspede.
Naquela sexta-feira, Nádia teve que sair mais cedo para cuidar de um paciente idoso. Eu fui dispensada um pouco antes da hora, me troquei, devolvi o uniforme sujo na rouparia – de onde ele seguiria para a lavanderia – e assinei o ponto. Na sala de governança, a supervisora disse que eu precisava correr se quisesse pegar a van que levava os funcionários até a estação de metrô mais próxima, que saía às 17 horas em ponto. Disparei com minha mochila pela saída e consegui chegar no horário. Ainda estava claro lá fora. “A hotelaria é realmente uma satisfação trabalhista”, comentei com meu parceiro pelo WhatsApp.
No início deste relato, mencionei que passei boa parte do curso de camareira resfriada e com dor de garganta. Para me certificar de que não era nada grave, procurei um médico e fui liberada para o trabalho, não sem antes comprar meia dúzia de remédios para mitigar os sintomas. O fato de eu ter recorrido ao sistema formal de saúde me diferenciava das trabalhadoras de baixa renda, para quem o cuidado era uma construção coletiva feita de indicações, remédios caseiros e receitas improvisadas.
Enquanto estava resfriada, recebi toda espécie de conselhos médicos das minhas colegas de curso. Uma delas me recomendou um chá de camomila com paracetamol na composição. Outras me indicaram xaropes, inalações, pastilhas, anti-inflamatórios e até uma injeção de antibiótico. “Nimesulida, pode anotar, ele é anti-inflamatório, todo mundo aqui toma!”, contou uma das camareiras entrevistadas para a tese de Euda Rocha, da UFPE.
A automedicação é comum entre os trabalhadores de baixa renda, por motivos óbvios. Em seu trabalho como garçonete, Barbara Ehrenreich afirmou que muitas de suas colegas tomavam ibuprofeno como se fosse vitamina C, geralmente quatro comprimidos antes de cada turno. Mais tarde, quando virou faxineira, o cenário continuou o mesmo: “Esse nosso mundo é de dor – controlada com Excedrin e Advil, compensada com cigarros e, em um ou dois casos e apenas nos fins de semana, com bebida alcoólica.”
No submundo da colheita de alfaces, Gabriel Thompson contou que o supervisor da equipe misturava Gatorade em pó na água para garantir que ninguém desmaiasse. O próprio jornalista engolia quatro analgésicos para aguentar o inchaço no pé direito. Mais tarde, quando trabalhou em um frigorífico de frango, foram suas mãos que ficaram inchadas, já que 38 aves por minuto passavam pela linha de desossa. As enfermeiras da empresa diziam que o melhor era tomar ibuprofeno a cada quatro horas. “Logo irei descobrir que, ao lado das máquinas de venda automática de doces e refrigerantes na sala de descanso, há uma seção inteira com diversas marcas de analgésicos”, ele escreveu, em Working in the shadows.
Segundo uma das mulheres entrevistadas por Ernest Cañada para o site da União Internacional de Associações de Trabalhadores da Alimentação, Agricultura, Hotéis, Restaurantes, Catering, Tabaco e Afins (Uita), a maioria das camareiras só conseguia trabalhar graças aos remédios. “Estamos todas drogadas”, afirmou Dolores Ayas, de 57 anos. “Eu tomo remédio para reumatismo, anti-inflamatório e também para o coração, porque trabalho muito estressada.” Uma de suas colegas, que tinha trinta anos de profissão, concordou: “Eu passo a semana me aplicando injeções. De manhã, tomo ibuprofeno e, à noite, relaxantes musculares.” E outra: “Todas carregamos remédios na bolsa. Eu tomo Spidufen para a dor e remédios para a ansiedade. De manhã, eu me levanto e já tomo os comprimidos.” Elas costumavam compartilhar remédios enquanto trabalhavam.
O médico espanhol Joan López Ferré, que atua no sistema público de saúde em Maiorca, afirmou que o uso diário de ibuprofeno pela manhã, de um tranquilizante ao meio-dia e de algo para dormir à noite, ao longo de vinte anos, é um problema sério. Todos esses remédios podem causar dependência, tolerância e inúmeros problemas gastrointestinais, renais e cardíacos. Para a ansiedade, por exemplo, começam com valeriana e depois passam para benzodiazepínicos como diazepam e lormetazepam. Também tomam remédios para dormir porque o estresse as mantém acordadas. Muitas dependem de antidepressivos.
Depois de dois dias de trabalho, eu já sentia dores nas costas, dor de cabeça e estava com os joelhos ralados. Era sábado e eu não sabia se suportaria mais um turno. Mesmo assim, respirei fundo, botei o relógio vermelho e fui trabalhar.
Assinei o ponto e me mandaram limpar quatro ou cinco banheiros que ficaram sujos depois da passagem da equipe de manutenção. Isso me chateou, pois tínhamos combinado que o meu sábado seria só de arrumações. Em vez disso, eu agora precisava refazer inúmeras limpezas. Então eram essas as repercussões do incidente com as torneiras abertas do dia anterior.
Lá pela metade da manhã, eu estava no quarto 1232 quando senti falta de um dos produtos de limpeza – o desinfetante multiuso de rótulo verde. Procurei na confusão de panos e frascos espalhados pelo chão, mas não havia sinal dele. Vasculhei o carrinho, sem sucesso. Decidi percorrer todo o corredor do 12º andar, perguntando às camareiras e aos repositores de frigobar se alguém tinha visto um produto de limpeza caído.
Sem saber o que fazer, voltei ao quarto e ao meu carrinho. Por sorte, lembrei do relatório na prancheta e entendi o que houve: eu só podia ter deixado o desinfetante no meu último quarto, o 1329, que ficava no andar de cima e na ponta oposta do corredor. Por sorte (e por milagre), eu lembrava exatamente qual era o número. Tranquei a porta, deixei o carrinho estacionado do lado de fora e saí em carreira desabalada.
Quando entrei no 1329, depois de anunciar “Governança” e bater três vezes, lá estava o meu frasco de desinfetante sobre a mesa de trabalho. Vitória! Fui tomada por um alívio que durou pouco. Imaginei um hóspede chegando de viagem, largando as malas em um canto e encontrando um desinfetante sobre a mesa, como se fosse um recado passivo-agressivo sobre sua higiene pessoal. Nota no Booking: 7. “O quarto é espaçoso, mas a camareira me ofendeu com um frasco de desinfetante.”
Voltei ao 12º andar completamente suada e desmoralizada. Estava tão nervosa que quase peguei o elevador social, e não o de serviço, como se fosse uma hóspede comum e não estivesse de uniforme e touca – além de um frasco de desinfetante na mão. Para completar o drama, o banheiro do meu quarto seguinte, o 1231, estava coberto de lama (talvez de alguma obra). Demorei tanto para completar a limpeza que só consegui sair para almoçar às 13 horas.
Depois de comer, fui ao vestiário dos funcionários fazer xixi. O espaço era amplo e tinha duas alas separadas por pias e espelhos. Vi de relance que, do lado de lá, algumas camareiras veteranas estavam escovando os dentes e se maquiando. Elas conversavam sobre coisas amenas. Então, ouvi Marieta (a supervisora da tarde) perguntar a Simone (a supervisora da manhã): “E essa menina nova, a Vanessa? Ela é boa?”
Saí da minha cabine e dei a volta, me enfiando no meio da conversa. “Cuidado com o que você vai responder, porque eu estou ouvindo!”, comentei. Achei que seria melhor assim do que se elas notassem minha presença só depois. Simone deu risada e fez que sim com a cabeça. “Ela é muito boa, afinal, sou eu que estou treinando!”, respondeu.
Naquele sábado, acabei com um frasco inteiro de desinfetante limpando a sujeira da manutenção. Simone providenciou um refil, perguntou se eu estava preparada e, finalmente, partimos juntas para as arrumações. “Estava ansiosa pelo caráter de arrombar e invadir apartamentos para limpá-los, pela chance de examinar a existência física secreta de estranhos”, confessou Ehrenreich.
Eu, que não tinha nem um toco de lápis no bolso, tentava fotografar os detalhes com os olhos para me lembrar deles depois.
O quarto 1251 era ocupado por um homem que vou chamar de Gatsby. É que, logo ao entrar, lembrei de uma cena do livro: “Gatsby apanhou uma pilha de camisas e começou a atirá-las em nossa direção, uma a uma, camisas finas de linho, de seda pura e de flanela, que perdiam a dobra ao cair e cobriam a mesa numa bagunça multicolorida”, escreveu F. Scott Fitzgerald. Pois o hóspede do 1251 havia espalhado camisetas coloridas sobre as poltronas, cadeiras, mesas, luminárias e malas no chão. Tivemos de limpar ao redor de um par de tênis esportivos, uma mochila de hidratação estilosa (para ciclistas e corredores) e uma mochila cargueira de 50 litros, dessas que custam uns 400 reais. Tudo parecia caro. Assim que inserimos o cartão para acionar a eletricidade, a televisão acendeu em um canal de esportes radicais, aventura e natureza.
Simone me orientou a manter tudo exatamente como estava, então deixamos o aparelho sintonizado em um campeonato de surfe enquanto arrumávamos a cama. No momento em que estendíamos a colcha, Gatsby voltou para pegar uma credencial enorme que havia deixado sobre a mesa, com seu nome e empresa. Era de um evento corporativo que acontecia nos arredores do hotel. Ele pediu desculpas educadamente e saiu sem demora. Era branco e tinha uns 30 e poucos anos.
Na mesinha de cabeceira havia um carregador de celular conectado à tomada. Sobre a mesa de trabalho, encontrei uma desordem de aparelhos e cabos que tive dificuldade em saber para que serviam. Vi, por exemplo, um tablet prateado compacto, com cara de novo, e um joystick sem fio com vários botões – depois descobri que era um controle Bluetooth compatível com jogos para celular.
No banheiro, encontramos um xampu anticaspa e um frasco de 100 ml da pasta modeladora Redken Brews Maneuver Cream Pomade. Havia um tufo grande de cabelo no ralinho do chuveiro, que acabamos pegando com um papel e jogando no lixo. Simone brincou: “Você viu se ele era careca?”
Em dupla, não demoramos para concluir a arrumação e passamos para o próximo quarto. Realmente o processo era bem mais simples e rápido do que um check-out. No corredor, enquanto eu pilotava o carrinho, meu relógio vermelho com motivos de Frozen começou a piscar loucamente e a tocar uma música. Simone fingiu não ter visto nada.
Ao entrar no apartamento 1253, nos deparamos com um cenário de guerra bem conhecido por pais e mães de crianças pequenas. A cama estava encostada à parede, muito bagunçada; entre os lençóis, encontramos um edredom azul do Mickey todo emaranhado. Sobre a mesa de trabalho, havia meia dúzia de caixas vazias e embalagens de brinquedos: um estojo com duzentos lápis de cor importados, alguns livros de colorir Bobbie Goods, duas ou três caixas de Lego e um Spider Robot (robô-aranha) de grande porte. Tivemos dificuldade para arrumar a cama de casal, pois havia um monte de sacolas de compras no chão. Também precisamos desviar de um violão largado em um canto. Simone deu uma boa vassourada no quarto antes de passarmos um pano com desinfetante.
No banheiro, descobri que o menino se chamava Samuel, a julgar pelo nome bordado em uma nécessaire azul. Ele devia ter uns 7 anos e provavelmente sofria de rinite. É que encontrei a caixa vazia de um antialérgico pediátrico na lixeira. Sobre a caixa de descarga do vaso sanitário havia dois pacotes de lenços umedecidos, que Simone me disse para não tirar do lugar.
Meu nariz agora escorria bastante, tal como imagino que ocorresse com o pequeno Samuel. Isso vinha acontecendo desde o meio-dia. A supervisora estranhou e perguntou se eu sofria de rinite. Diante da minha resposta negativa, ela comentou: “Estranho. Você estava boa quando chegou na quinta-feira.” Fiquei quieta, mas contabilizei mentalmente o saldo de três dias de trabalho: dor de cabeça, dor nas costas, dor nos pulsos, um par de joelhos ralados e uma alergia de etiologia indeterminada. Isso tudo para ganhar 210 reais.
Mais uma vez, Simone me dispensou um pouco antes das 17 horas e disse que no domingo eu não precisaria vir trabalhar. Saí do hotel eufórica por ter concluído minha missão e por ainda estar relativamente viva. Antes de ir embora, tirei uma última foto do hotel, com um céu muito azul ao fundo e uma infinidade de janelinhas enfileiradas clamando por arrumação.
Depois desses três dias, não voltei ao Westbridge.
No mundo da hotelaria, as camareiras vão e vêm sem serem vistas, deixando apenas a marca perfumada de uma presença – ou um desinfetante em cima da mesa. Os salários são baixos, a carga é intensa e quase não há folgas. Em Hired: six months undercover in low-wage Britain (Contratado: seis meses infiltrado em subempregos na Grã-Bretanha), de 2018, o jornalista James Bloodworth fez uma observação precisa. Ele afirmou que era “perfeitamente aceitável que alguém trabalhasse em um emprego miserável e sem perspectiva, desde que essa pessoa tenha sido considerada sem o mérito necessário para fazer algo melhor”.
Segundo Bloodworth, todo o nosso vocabulário político – o discurso sobre meritocracia, mobilidade social, escolas de excelência e crianças inteligentes, mas pobres – existia para retirar algumas pessoas dessa situação sem ter de alterar os ingredientes básicos da receita. “A cada geração, dizemos a nós mesmos que a luta de classes está morta, mas, a cada geração, falhamos em nos livrar do cadáver”, escreveu.
No prefácio do livro Hand to mouth (Na precariedade), de 2014, de Linda Tirado, a jornalista Barbara Ehrenreich revelou que sua temporada em empregos de baixa remuneração teve um efeito importante: “Ela transformou minha simples preocupação com a exploração dos trabalhadores pobres em uma indignação profunda.”
Tive uma experiência parecida. Depois de sentir como seria sacrificar a saúde e quase todos os fins de semana por míseros 13 reais a hora, passei a nutrir muita raiva. A estatística é implacável: 14,8 milhões de trabalhadores brasileiros – mais de um terço da força de trabalho formal – estão submetidos a escalas com uma única folga semanal, geralmente desvinculada do descanso social do sábado ou domingo. Esse contingente não é aleatório. É composto sobretudo por trabalhadores de comércio e serviços (alimentação, limpeza, vigilância) situados na base da pirâmide salarial.
É uma base que sustenta o descanso alheio. Enquanto profissionais liberais e gestores raramente cumprem escalas com folgas rotativas, dispondo de maior autonomia sobre o próprio tempo, a classe trabalhadora de baixa renda permanece submetida à carga máxima constitucional de 44 horas e um único dia de folga. Essa assimetria demonstra que, no Brasil, o direito ao descanso não se distribui de forma igualitária. Para milhões de trabalhadores, o que deveria ser uma garantia universal – a possibilidade de usufruir dos sábados e domingos – transforma-se, na prática, em um privilégio de classe.
A tentativa de romper com essa lógica ganhou forma em uma proposta de emenda constitucional, apresentada pelo governo, para extinguir a escala 6x1 no Brasil. A medida prevê dois dias de descanso (cada um com 24 horas consecutivas) e a redução da jornada de 44 para 40 horas semanais, sem diminuição salarial. Essa limitação de horas trabalhadas beneficiaria 37,1 milhões de trabalhadores com carteira assinada, ou seja, 73,7% do total. Não seria um mero ajuste na legislação, mas uma tentativa de reconduzir ao debate público temas como a desigualdade na distribuição do tempo livre e a qualidade de vida da população.
Ainda assim, as perdas financeiras das elites costumam provocar maior comoção pública do que a integridade física e mental dos trabalhadores. No debate sobre o fim da escala 6x1, argumentos econômicos são frequentemente utilizados para relativizar o direito ao descanso, ao lazer e à convivência familiar. A discussão sobre a jornada de trabalho, então, deixa de se limitar à esfera produtiva e passa a explicitar quais vidas são consideradas sacrificáveis em nome da conveniência das elites e da manutenção do lucro. E não há nenhuma surpresa nessa constatação. Afinal, nas palavras da filósofa Simone Weil, os trabalhadores pobres pertencem à “classe dos que não contam”.
Não surpreende, portanto, que essa combinação de desgaste físico, desigualdade e opressão – de raça, gênero e classe – produza fantasias mudas de revanche. Ao final desse mergulho no cotidiano das camareiras, decorrido quase um ano desde o meu primeiro dia de curso, me veio à mente um comentário de Barbara Ehrenreich em Miséria à americana. Enquanto faxinava a casa de uma família rica, ela se deparou com uma estante repleta de elogios neoconservadores ao status quo – livros que, dadas as circunstâncias, lhe pareceram “pessoalmente ofensivos”. Por um instante, considerou recorrer à guerra bacteriológica contra os proprietários. As armas estavam ali, no bolso de seu avental: “Bastaria pegar um dos panos que usei para limpar as privadas, riquíssimo em E. coli, e utilizá-lo para ‘limpar’ as bancadas da cozinha.”
É um plano que diverte Ehrenreich por mais de uma hora, mas que ela não põe em prática.
[1] Para preservar o anonimato das pessoas e dos hotéis citados neste relato, alterei todos os nomes e pequenos detalhes que pudessem identificá-los.
[2]Em vez de “funcionários”, cada vez mais se usam eufemismos como “colaboradores” ou “parceiros”, como se falássemos de uma dinâmica de poder igualitária, horizontal, e não extremamente assimétrica.